História Mentira e Sangue - Capítulo 19


Escrita por: ~

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Categorias Gravity Falls
Personagens Bill Cipher, Candy Chiu, Dipper Pines, Gideon Gleeful, Grenda, Mabel Pines, Pacifica Northwest, Personagens Originais, Soos Ramirez, Stanford "Ford" Pines, Stanley "Stan" Pines, Wendy Corduroy
Tags Bill, Bill Cipher, Dipcifica, Dipper, Dipper Gleeful, Dipper Pines, Gideon, Gideon Gleeful, Gideon Pines, Gravity Falls, Incesto, Mabel, Mabel Gleeful, Mabel Pines, Magidbeleon, Pacifica, Pacifica Northwest, Pinecest, Reverse Falls, Universo Alternativo, will, Will Cipher
Visualizações 110
Palavras 7.000
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Tô até cansando de ter que me desculpar pela demora, mas a vida tá complicada. Eu não posso justificar meu atraso, pois acho que isso seria uma desrespeito à vocês e que os meus problemas não deveriam os prejudicar. Mesmo assim, peço mil desculpas por esse atraso imenso.
Enfim, finalmente saiu esse cap, espero que gostem. Acho q foi o maior e talvez o mais pesado q eu já escrevi aqui, mas tá ok.
Leiam ouvindo The Chain do fleetwood mac. Os trechos da música ficaram meio espalhados pelo cap, isso é algo q eu tava querendo fazer pra esses últimos caps.
Espero que gostem 💙💙

Capítulo 19 - Fogo Por Liberdade


Fanfic / Fanfiction Mentira e Sangue - Capítulo 19 - Fogo Por Liberdade

"Ouça o vento soprar,
Veia o sol nascer.
Corra por entre as sombras.
Dane-se o seu amor,
Danem-se as suas mentiras."

O sol mal havia se erguido no horizonte quando Pacífica decidiu sair. O azul claro ainda se formava sobre as montanhas, clareando lentamente a floresta, que se estendia por todo o campo de visão da garota, a cercando em árvores e o cheiro da terra úmida pelas fortes chuvas que haviam caído nos dias anteriores, por conta de uma grande tempestade que rondava a cidade.

A lama se se espalhava por seu tênis, mas mesmo assim continuava a correr pela trilha, se afastando pela primeira vez em provavelmente uma semana da mansão. Não aguentava mais o lugar, mas a idéia de voltar para sua antiga casa também não era nada reconfortante. Se bem que aquilo nunca fora exatamente casa para ela. Mas a residência dos Gleeful parecia ser ainda pior em alguns aspectos, havia algo escondido ali em algum lugar e ela sabia. Às vezes a garota sentia que a própria casa, ou algo que não conseguia dizer o que era, estavam lhe guiando, ditando o caminho certo para que encontrasse o que quer que fosse o que deveria achar. Poderia estar ligado com o quarto dos gêmeos escondido no último andar, ou os laboratórios, mas parecia ser mais fundo, não um lugar, mas algo que havia acontecido ali. E isso não ajudava em nada a sensação estranha que tinha, como se dormisse sobre um cemitério e as almas dos mortos martelassem em sua cabeça, provavelmente tentando a fazer fugir. Bem, haviam conseguido sucesso em seu plano então.

Passar cinco minutos no mesmo ambiente que Will e Mabel era impossível e torturante. Os dois estavam tão próximos que Pacífica se perguntava se já não eram a mesma pessoa, já que Mabel deixava ele a possuir praticamente todas as horas de todos os dias. Isso quando não estavam gemendo alto atrás da porta, o que terminava em ataques de raiva de Gideon, algo que ela preferia nunca ter visto. Mas a idéia do demônio tão chegado à garota a intrigava. Pareciam ter reatado um relacionamento de anos, mesmo que, em uma das poucas vezes em que realmente conversaram após três dias desde que ela vira os dois em cima daquele tapete branco e felpudo, Will tivesse prometido que nunca tentara nada com Mabel, já que antes ela era uma menor de idade e para ele uma criança. Mesmo tendo mais anos do que se pode contar, ele nunca sentiria atração por uma criança, não importava se ela já tinha quatorze para quinze anos. Era estranho o quanto ele parecia precisar reforçar aquela informação, como se Will precisasse se explicar para Pacífica.

O vento que batia em suas mãos e entrava por debaixo do casaco a acalmava, conseguia sentir o frio se alastrar por seu corpo conforme fazia as curvas da imensa trilha, deixando a casa dos Gleeful para trás, virando - se às vezes,  para ver a mansão sumir entre as altas árvores. Uma visão do paraíso, no momento.

Sentou - se assim que chegou à encosta, se sentando na beira para observar a cidade do alto. Tinha uma visão perfeita do lado oeste. Conseguia ver os restaurantes, as casas, até mesmo a delegacia, todos muito baixos para tampar completamente o seguinte. Pelas ruas, as pessoas, tão pequenas que pareciam poder cabem em sua mão, andavam de um lado para o outro. O típico caos que nunca deixava aquela longa parte da cidade. Alguns policiais afastavam pessoas que carregavam cartazes para a soltura de Dipper. Ninguém aceitou muito bem a prisão sem provas dele, então foi só questão de tempo para que montassem passeatas, para salvar o queridinho da cidade. Era quase cliché, na cabeça de Paci.
O que realmente prendeu sua atenção não foi o grupo de fãs e que cercava o prédio, mas sim a reação dos policiais, que pareciam nutrir um medo tão imenso da população que ao invés de simplesmente afastar as dezenas de mulheres histéricas, recuavam, entrando de volta da delegacia para buscar refúgio. A menina quase achou engraçado, até se lembrar que essa provavelmente seria sua reação também. 

Ao desviar o olhar da cena para o fim da encosta, viu um brilho prateado, já na estreita rua de asfalto que ligava o bairro oeste até Berkley, o caminho mais vazio que já vira na vida. Ficou tão curiosa sobre o brilho que desceu, se agarrando nas árvores, pelo fino caminho que descia até perto da rua. Suas pernas estavam ficando completamente arranhadas, de tantos galhos que cortavam sua pele, traçando pequenas linhas de sangue. Mas mal conseguia sentir alguma coisa, completamente hipnotizada pelo disco que chamava por sua atenção no chão.

Ao chegar perto do objeto, notou ser um boeiro, com sua grande tampa de metal reluzente, chamando por sua atenção. Quase sem perceber o que estava fazendo, Pacífica abriu a passagem, puxando o pesado objeto e encarando o buraco escuro, que estranhamente não exalava cheiro algum.

Segurou-se firmemente nas barras que deveriam ser uma escada e desceu, completamente às cegas, esperando não cair.
Ao se lembrar do celular em seu bolso, rapidamente o retirou, para utilizar como lanterna, iluminando o longo túnel subterrâneo. No meio, as águas claras corriam, provavelmente indicando que a nascente estava perto. Mesmo sem entender para onde ia, Pacífica seguiu a correnteza, desejando que Will, Gideon ou até mesmo Mabel estivessem ali, para a fazer companhia na estranha e solitária situação.

Após dez minutos de caminhada, achou mais uma escada, em seu topo, um bueiro igualmente brilhante bloqueava o caminho. Retirou-o com cuidado, observando a sala vazia para a qual ele levava, conseguia ouvir a voz de um homem adulto, uma voz conhecida, que se aproximava do quarto. Pacífica fechou a tampa com rapidez, continuando colada a abertura, para ouvir a conversa.

-Quantas vezes já não falei para cobrirem esse maldito bueiro? Querem que qualquer um possa ver? 

-Me desculpe, senhor. Pensei que iria passar o garoto Gleeful por aí, é o que geralmente faz quando alguém é importante.

-Se couber a mim, aquele garoto só sai daqui se for para a cadeia, ou para o cemitério. E me faça o favor de cobrir logo isso daí!

Finalmente, a voz estava clara para os ouvidos de Paci. E Marius não havia mudado em nada.

"A corrente nos mantém juntos,
Correndo pelas sombras."

Mabel ria discretamente, ao lado de Will. O mesmo a encarava sorrindo, mal captando as palavras de Pacífica, seus olhos não se desprendiam da garota. No canto da sala, Gideon observava Mabel desconfiado, algumas vezes soltando olhares de ódio a Willbourne.

-Então você está me dizendo que existe um túnel até a delegacia para os presos fugirem? Estou supresa que até mesmo você achou que isso faria sentido. - Mabel disse, desta vez não escondendo a risada.

-Eu acredito que seja para que quando um preso suborna o policial, ele é colocado nessa sala, para fugir e depois dizerem que ele está foragido. Aconteceu antes! Lembra na época em que prenderam aquele cara que estava invadindo casas em Berkley? Ele fugiu, mesmo sem ter por onde escapar, e nunca mais foi visto!

-Eu o matei quando o vi perto da estrada. -Mabel disse, como se fosse algo completamente normal.

-Ele deve ter escapado pelo túnel. E a saída é quase na estrada, então faz mais sentido ainda. 

-Mesmo que exista esse túnel e você não esteja completamente pirada, por quê está falando disso? Não vê que eu tinha coisas melhores para fazer? - Ela disse, apoiando seu braço no ombro de Will, que discretamente passou a mão por sua cintura, acariciando a mesma, quase que em um segredo.

Pacífica respirou fundo, repassando mentalmente seu plano bobo e arriscado.

-Nós podíamos usar o túnel para buscar o seu irmão. Eu sei que você sente falta dele.

Mabel se remexeu um pouco, desconfortável com o comentário. Willbourne voltou a passar a mão por sua cintura, a puxando mais para perto se si numa tentativa de acalma-la. 

-Você não sabe de merda alguma.- Disse ela, deixando seu braço cair e seu corpo aceitar o carinho de Will. - E se fossemos atrás dele, você realmente acha que conseguiria me ajudar? Um resgate não seria fácil, ainda mais se quisermos que as pessoas continuem a acreditar que ele é completamente inocente.

-Eu poderia ajudar. -Disse Gideon, da poltrona de veludo. - Talvez eu e a Paci pudéssemos criar uma distração, assim vocês entram lá e levam ele. Causem uma confusão, criem um álibi, sei lá, mas saiam sem ser notados.

Todos na sala o encararam. Era a primeira vez que ele falava uma frase completa durante a semana. Estava preso em grunhidos de raiva antes disso. Era bom para Pacífica finalmente ouvir algo dele, e saber que seu primo ainda a chamava pelo apelido, era tudo que ela precisava de motivação.

-Parece que nosso raivoso tem um plano. Me lembre depois dessa sua inteligência recém adquirida, pode ser muito útil.- Mabel soava desafiadora como sempre, se apoiando na mesa e encarando o mapa da cidade. - Bem, parece que temos um ataque para bolar. Eu vou pensar em algumas coisas, olhem nos laboratórios se temos algo de útil.

Os dois primos desceram, procurando tudo que pudesse ser utilizado, enquanto Will continuou por alguns minutos, provavelmente possuindo a mestra. Eles trabalhavam melhor juntos.

Após alguns minutos procurando, Pacífica foi surpreendida pelo demônio, que apareceu em seu lado assim que ela entrou em uma outra sala. Cambaleou para trás, quase caindo em uma pilha de caixas, tendo de se segurar em Willbourne.

-Desculpe. -Ele disse, a ajudando a ficar em pé.

-Ta tudo bem. O que houve lá em cima? Ela já teve alguma idéia?

-Na verdade não. Mas eu precisava falar com você. - Falou, vasculhando também a pilha. -Obrigado por ajudar a Mabel. Eu sei que vocês duas não se dão tão bem. Ela está mal sem ele, sabe? - Ele parecia mais humano, mais triste, encarando as caixas vazias.- Vai ser bom ela o ter de volta. Quem sabe isso a faça melhorar, embora eu não ache que isso seja só pela distância.

-Eu sei quanto ela importa para você, e claro que eu vou tentar a ajudar. Você é meu amigo, Will, meu amigo mais querido neste momento. Que tipo de amiga eu seria se não fizesse nada?

Ele sorriu, a abraçando de lado.

-Um tipo normal que nao sugere missões suicidas. -Ambos caíram na gargalhada, abrindo largos sorrisos.

-Verdade. E... espere. -Pacífica se abaixou, puxando a última caixa e se assustando. - Eu acho que achei uma forma de causar uma distração.

Se levantou, puxando a pesada caixa e a mostrando a Will. 

-Gasolina? 


"Ouça o vento soprar,
A noite cai.
Corra por entre as sombras.
Dane-se o seu amor,
Danem-se as suas mentiras. " 


Pacífica derramou a gasolina pelas calçadas, ignorando o cheiro forte que a deixava enjoada. Tantas casas, tantas pessoas, uma pequena faísca e tudo seria pó. Deveria ficar feliz por isso? Sua conciência já pesava pela idéia de acabar machucando alguém, sendo que ainda está na metade do percurso. Mas possuía uma missão, que ela mesma havia iniciado. Deveria causar o máximo de estrago possível, sem ferir ninguém, para poderem salvar Dipper, que poderia morrer a qualquer momento. 

Não sentia mais nada pelo telepata. A distância a fez enxerga-lo como realmente deveria, somente um garoto doente com poderes, não um deus como antes achava, mas um alguém descontrolado e dependente de sua irmã, que poderia atacar sem pestanejar, mas mesmo assim não possuía nada de interessante, sua beleza quase anormal não a atingia mais, muito menos o carisma, que foi destruído por tudo que ouvira sobre Dipper durante seu tempo na mansão. Histórias perturbadoras, que já lhe causavam pesadelos.

Mas na cadeia, junto do garoto, estava alguém que ela desprezava profundamente. Se sentia exposta só de pensar no nome, e se lembrava dos piores momentos de sua vida, seu próprio inferno particular. A humilhação, a dor, todos os sentimentos a atingiam de uma só vez sempre que pensava em sua vida anterior, na casa de madeira onde chorou por boa parte de seu tempo. Possuía quase um certo afeto pela mansão Gleeful, por sentir que aquele lugar, por mais mórbido que fosse, permitia-lhe se abrigar o mais longe possível da casa dos Pines. Quase poderia dizer que se sentia reconfortada ao observar as paredes cor de vinho tinto, e ao se deitar na cama nova, q sensação de segurança era muito bem vinda à garota.

Tinha a esperança de que talvez o plano desse certo, e que Bud fosse brutalmente atingido, de preferência por Mabel, já que ela causava um estrago maior. Mas sabia que não deveria se apegar a sentimentos tão violentos. Seu tio merecia cadeia, a eternidade dentro de uma cela para se arrepender de cada toque não autorizado que havia feito. 

Não importava o quanto quisesse se enganar, não estava fazendo aquilo por Bud, nem por Dipper, nem mesmo por Will, que havia a pedido para tomar aquele risco, mas sim por si mesma, e obviamente por Mabel. Mal conseguia aguentar a visão da garota se desesperando por saudade. Nem mesmo seu romance com Will poderia apagar o apego sentimental que os dois tinham. Os gritos de dor que saíam do último andar da casa todos os dias eram as novas estrelas de seus piores pesadelos, gritos solitários, de quem possuía um buraco tão imenso no peito que precisava botar para fora todo o vazio que acumulava dentro de si.

Andando pelas ruas de Berkley, Pacífica sentia o mesmo tipo de vazio, mesmo que incontáveis vezes menor. Não conseguia falar com Gideon, que se trancava em seu quarto todos os dias, com raiva de si mesmo e se sentindo usado, mesmo que completamente apaixonado. Não tinha o apoio de Will, aquela voz calma e familiar, para a dizer "Você consegue! Você é uma das pessoas mais corajosas e inspiradoras que já conheci, eu sei que vai conseguir." Ele tendia e exagerar, mas era uma companhia extraordinária. Sempre a motivava, a alegrava, se esforçava para mante-la feliz, sempre tomando conta para que ela nunca se sentisse mal. O melhor era que possuía uma saudade imensa, um carinho extraordinário, que a ajudava em não se sentir completamente isolada no ambiente novo. Nem Mabel, que geralmente não era exatamente uma simpatizante da garota, fazia falta naquele momento. Sua presença era minimamente calorosa, mesmo que melancólica, e a fazia sentir um pouco de afeto pela figura tão peculiar que ela era.

A idéia de estar longe de todas aquelas pessoas, caminhando sozinha, fazendo algo que poderia causar uma destruição que ela mal conseguia imaginar, a deixava extremamente solitária, trazendo a tona seus maiores medos, os pensamentos que jurava que deveria esquecer. Por conta disso, quase duvidou de seus olhos ao se deparar com a casa de madeira à sua frente, pensando que poderia ser somente uma ilusão de sua distraída e atormentada mente. 

Nada havia mudado. A fachada de entrada continuava sem vida e simples, assim como o cheiro de naftalina que seguia até a calçada. Observar o lugar que já havia sido sua "prisão" era muito mais forte do que ela poderia imaginar. Já estava livre, mas mesmo assim se sentia ameaçada pela estrutura como se seu próprio tio estivesse em sua frente.

-Paci? - O garoto loiro disse, atrás de sua prima, que não havia percebido que caíra no chão, chorando.

Limpou suas lágrimas o mais rápido possível, se virando para ele.

-Me desculpa por não ter te contado na época. - Era a única coisa que conseguia dizer.

-O que importa é que você está a salvo. - Um tanto desconfortável, ele caminhou até a garota, a abraçando o mais forte que já havia abraçado. - Me desculpe por não ter falado tanto com você durante esses dias. Está sendo um pouco difícil, sabe? Me perdoa? 

- Óbvio. - Pacífica beijou a bochecha de seu primo e se afastou.

-Bem, eu já cuidei da minha parte, só falta uma casa. O que vamos fazer? -Gideon falou, se levantando e estendendo a mão para ela. 

-Acho que podemos aproveitar a gasolina que sobrou. Esse lugar merece um tratamento especial.

Após cobrirem cada canto da casa, os dois saíram, de mãos dadas, em direção à rua, e juntos, como sempre deveriam estar, atearam fogo à cidade, queimando seu antigo lar. Um adeus definitivo.


"Quebre o silêncio.
Dane-se o escuro
Dane-se a luz."


Lídia tragava a fumaça de seu cigarro calmamente, a assoprando de volta para a janela de sua sala. Batia os dedos na mesa de madeira, enquanto lia alguns relatórios sobre como andavam alguns casos da cidade, quem já havia sido julgado e quem não. Mesmo com todos os progressos que haviam tido durante o ano, ainda não havia pista alguma sobre as várias pessoas que haviam aparecido mortas pela cidade, e nem sobre Wendy.

Ela observava a ficha, com as fotos dos suspeitos pelo desaparecimento da garota, sentindo mais uma vez a angústia de olhar para Robbie, uma das pessoas que mais adorava no mundo e se perguntar se ele era ou não culpado. "Não, ele nunca faria nada do tipo", dizia a si mesma todos os dias, ao ver a foto. 

Antes de poder dizer a frase pela primeira vez no dia, seu celular tocou, no alto som de ABBA. 

-Lídia? -Uma voz grossa e cansada disse pela linha.

-Marius. É bom ouvir sua voz após todos esses dias. Me desculpa, tá. Eu sei que não tenho dado muito apoio sobre a Grenda e seu pai. Juro que...

-Não é sobre isso que quero falar. Berkley está literalmente pegando fogo. -De cansada, sua voz se transformou em agitada, talvez estressada. Era difícil dizer qual dos dois.

-Pegando fogo? 

-Alguém incendiou metade do bairro, as ruas estão cobertas em gasolina e as chamas estão se alastrando. Eu estou evacuado algumas pessoas, preciso que venha logo. 

Mesmo que a idéia de uma pessoa, ou talvez um grupo, ter queimado um bairro fosse estranha e inacreditável, o que surpreendia era como ele estava calmo, parecendo estar mais irritado do que surpreso ou apavorado. 

-Estou indo agora, senhor. -Disse, se lembrando, por um momento, que mesmo tendo tanto carinho pelo homem, naquele momento Marius ainda era seu supervisor e não seu melhor amigo, o que até para ela era pouco. - Me encontre na estrada principal.

-Ah, e Lídia... obrigada.

Nenhuma explicação foi dada, mas ela conseguia sentir que ele se referia a tudo. Sua amizade, seu apoio, tudo que já havia feito por ele, legais ou ilegais, mas mesmo assim, tudo.

-Não tem pelo que agradecer. Vejo o senhor em menos de meia hora, até logo.

Assim que se levantou, pegando sua jaqueta, ouviu o ruído da porta se abrindo.

-Acho que vai querer se sentar, oficial. -Uma garota morena de olhos azuis disse, entrando a passos lentos.

-Olá Mabel! -Não conseguiu conter um sorriso, mesmo estranhando a frase suspeita.

-O que  a trás aqui? Já foi atendida? Fez alguma denúncia?

-Não, não vim por isso. -A jovem adulta se sentou em uma cadeira de metal, não tão longe de Lídia ou da porta. -Vocês têm algo que me pertence. E eu não gosto de dividir. -Ela se inclinou até a policial, ficando centímetros de distância. -Eu acho que você sabe o que é.

A ruiva ficou paralisada por um momento. Sempre vira Mabel como inocente, uma boa pessoa, até mesmo contribuinte para a comunidade de Gravity Falls, mas nunca como manipuladora, provocadora ou poderosa. Talvez tivesse sido enganada por mais tempo que sabia.

-D-Dipper está na cela conjunto dois. -Disse, sentindo um calafrio correr por seu corpo.

-Obrigada. -Ela se afastou, andando até a porta e finalmente mostrando a imensa mancha de sangue que caía de sua camisa branca até a saia preta, pingando no chão. 

Ao ver tanto sangue, Lídia sacou sua arma, apontando para Mabel mesmo tremendo. Mal conseguia se lembrar do que fazer. O choque era tão grande que por um momento esqueceu Marius, esqueceu Robbie, até mesmo Wendy, só se concentrando na mudança de comportamento que havia visto, e em como fora enganada por anos.

-O que você fez? Responda! -Gritou. 

-Nada demais. Só repeti com alguns dos seus colegas o que meu irmão fez a muito tempo com a sua "maninha". Ele é extremamente talentoso no que faz.

-Seu monstro! -Algumas lágrimas começaram a cair, se juntando a poça de sangue que se formava em sua frente.

-Não se desespere tanto. Logo logo irá se juntar a ela. E eu vou conseguir o que quero. 

Lídia atirou. O som do tiro ecoou pela sala, mas foi só isso que fez. Nenhuma bala chegou até Mabel. Nenhuma conseguiria. Ao invés disso, ela simplesmente caiu no chão, enquanto a garota esbanjava um sorriso imenso, mostrando quase todos os dentes de tão largo. 

-Deuses! Como você é patética. Acho que posso me divertir um pouco. 

Todas as canetas da mesa levitaram, indo direto à barriga da policial, perfurando a o mais fundo que conseguiam. Ela gritou em agonia, mas isso só motivava Mabel, que segurou seu corpo pelos cabelos, não a deixando cair. 

-Certa vez, eu vi você na rua, carregando centenas de papéis com o rosto de Wendy. Você estava tão desesperada, perguntando a todos se haviam visto algo. Tudo que eu consegui pensar, enquanto via seu desespero, era nos gritos da sua irmã no porão da minha casa, e no pobre e murcho coração dela, que eu comi no jantar enquanto uma cabeça estava entre as minhas pernas.

Ao terminar a frase, para horror Lídia, ela moveu lentamente as suas mãos, quebrando as pernas da outra e puxando seus ossos de seu corpo, depois os usando como estacas e perfurando o peito da vítima, que caiu, finalmente, molhando sua longa cabeleira vermelha no seu próprio sangue e no de seus companheiros de trabalho.

Mabel deixou a sala, juntando - se lentamente a Will, que havia feito uma barreira em volta da sala, para que ninguém ouvisse os gritos antes da hora. Ao seu lado, dois policiais estavam caídos mortos, com suas armas jogadas três metros para o lado e sangue escorrendo de sua boca, narinas e orelhas.

Em um brilho claro e branco pela delegacia, a barreira se desfez, deixando os dois à mercê de quem quer que passasse. A luz atraiu a atenção de mais três oficiais, que só tiveram tempo de erguer suas cabeças, antes que tivessem suas cabeças esmagadas contra a parede por uma aura azul clara, do mesmo tom que agora incendiava os olhos de Mabel, que pareciam duas pedras preciosas, perdidas em meio à uma escuridão sem sentido, somente para se destacarem mais.

Cada movimento da garota parecia ser calculado. Assim que viraram o corredor um esquadrão veio correndo, já disparando contra o casal. Alguns deles frequentavam o Jackpot e mal conseguiam acreditar em seus olhos, ficando parados após verem todos os tiros serem jogados pela janela, revelando o cenário de alguns prédios pegando fogo no entorno. Estava claro que armas não seriam ferramentas úteis naquela luta. 

Alguns tentaram fugir, pulando para as ruas ou se enfiando em salas aleatórias, mas todos foram puxados pela fumaça azulada que acompanhava Mabel, ficando aos seus pés e seguindo cada movimento seu, até serem necessárias de novo. Pequenas adagas surgiram pelo corredor, todas vindas do bueiro ainda aberto. Tão rápidas como quando chegaram, as lâminas se jogaram contra o grupo, cortando suas gargantas tão fundo que os policiais mal conseguiam engasgar no próprio sangue. Após fazerem seu trabalho, elas se ergueram no ar, fazendo formação, como soldados no campo de guerra, preparados para o ataque. 

Partiram para o segundo andar, desta vez, Will fez as honras. Pulou de mente em mente, quase brincando de tão rápido, queimando os cérebros de seus inimigos antes que se aproximassem da mestra, que cortava caminho entre os corpos e derrubava as portas das salas, atrás de qualquer outro adversário. 

O demônio parecia diferente, estava ágil, confortável com o conflito e ainda por cima confiante, características que nunca combinariam com ele. Seus olhos azuis gritavam na pele pálida, irradiando poder, como se dissessem "Nos deixem funcionar direito, deixem nosso poder fluir, nós somos necessários!". Mesmo que a vontade de sucumbir a sua forma principal fosse imensa, teve de se controlar, não perderia a postura na frente de Mabel, não agora que estavam em algo próximo à paz. Descontou toda a sua angústia nos policiais, ao longo das grandes salas que compunham o segundo andar, usando todos os seus poderes para derrubar provavelmente metade dos adversários do prédio. 

Continuaram até o terceiro andar, onde algumas pessoas ainda guardavam as celas e tentavam pedir ajuda. Celulares estavam espalhados, rádios ligados, telefones por todos os lados, enquanto todos buscavam o socorro, sabendo que era inútil lutar. 

-Por favor, está impossível aqui. Não temos como vencer! Tem algo aqui! -Um policial gritava ao telefone. - Não, não... Nós... Vocês precisam ajudar! Eu não sei o que é e...

Sua língua foi cortada antes mesmo de terminar seu apelo, logo após, três adagas passaram por seu peito. 

Um segundo policial tentou partir para cima de Mabel, que o levitou e o arremessou até as barras de metal que separavam o corredor da área das celas. 

Toda vez que alguém começava a pedir por ajuda, Mabel atacava, impiedosa e rápida, nunca deixando nenhuma informação sobre si mesma escapar. Suas roupas já continham tanto sangue que mal era possível se lembrar que um dia foram brancas.  As adagas, atrás de si, brilhavam junto a névoa azul, que agora envolvia todo o andar, sufocando os outros adversários e os levitando.

Como uma tsunami de lâminas, as adagas voaram sobre os polícias flutuantes, atravessando suas gargantas e cravando - se em seus peitos. Os corpos caíram no chão já sem vida, servindo apenas como objetos decorativos naquele mórbido cenário. 

Era difícil dizer se Will estava apaixonado por sua mestra ou com medo dela naquele momento, mas estava estático, a encarando sem desviar os olhos por um segundo. Os cabelos castanhos estavam grudados no rosto manchado de sangue e os olhos já estavam cansados, quase sem vida. Normalmente ela ficaria animada com tanta matança, mas isso de alguma forma estava a consumindo pela quantidade imensa de poder que havia usado. Mesmo assim, era linda de se ver.

-Vamos. Não temos tempo para pegar ar. 

Arrombaram a grade de metal que separava a área das celas do resto do edifício, passando por alguns grupos pequenos de presos, que se encontravam nos cantos de suas camas, praticamente chorando pela visão do inferno que Mabel era, acompanhada de seu fiel escudeiro, uma figura tão medonha quanto ela.

A terceira cela era a maior, tendo pelo menos quinze pessoas, pelo que Will contara rápido, uns dividindo camas, outros amassados entre si, porém todos com a mesma expressão vazia, como quem não sabe mais o que esperar.

Em meio a todos os meliantes, estava uma figura diferente, um jovem tão pálido quanto o papel, com grandes e cavados olhos azuis, que se encontravam quase opacos encarando o nada. Seu corpo se encontrava quase mais magro que o de Will, parecendo desnutrido e fraco. Olhou para cima, com o sorriso sarcástico de sempre, provando que mesmo após tanto tempo e tudo que havia passado, ele ainda era Dipper, e ninguém nunca iria tirar isso dele.

-Pensei de demorar mais, irmã. E de ser mais discreta. - Sua voz era um sussurro, quase se perdendo em seus murmúrios de dor. 

-Você sabe que eu não sou. -Disse, ao abrir a cela. 

Os homens à sua volta pareciam estar com tanto medo que mal conseguiam reagir, ficando parados enquanto a garota ensanguentada atravessava o cômodo. 

-Ela... matou... -Um homem um pouco mais velho no canto da sala murmurou, mal percebendo que ainda conseguia falar.

Uma adaga cortou a sala e se prendeu à um centímetro da cabeça dele, arrancando um tufo de cabelo. 

-Falem qualquer coisa e eu mato cada um de vocês  e planto o que sobrar na varanda da minha casa. -Para todos eles, aquela não era uma garota de dezoito anos, não era a adolescente que comandava a tenda da telepatia, mas sim um demônio sem limites, uma besta sem freios, que cumpria suas promessas.- Na verdade, acho que não vou nem arriscar ouvir um pio. Will, você poderia?

Ele assentiu com a cabeça, fechando os olhos por um momento e controlando todos à sua volta, os congelando em suas próprias mentes.

-Minha querida irmã. -Disse Dipper, ao finalmente esticar sua mão e tocar o rosto de Mabel.- Está tão bonita assim. -Levou a mão à sua nuca e puxou-a, selando seus lábios como se tivesse esperado por isso por um longo tempo, o que ele de fato havia feito. 

Pela primeira vez na vida, a garota se sentiu desconfortável em fazer isso na frente de Will, que desviava o olhar, envergonhado demais para se manter normal. Assim que seus olhos bateram na última cama, sua mente se encheu de raiva, o fazendo serrar seus punhos e andar até o homem, completamente descontrolado. 

-Você é um monstro! -Disse, segurando Bud pelo pescoço. - Por quê ainda está vivo? Você machucou a Paci, destruiu a vida dela! - Bateu a cabeça do homem contra a parede algumas vezes, não forte o suficiente para o matar, mas o mesmo já estava quase desmaiando. - Vai se arrepender de ter encostado um dedo nela, filho da puta! - Socou seu rosto com força, o máximo que conseguiu juntar. Mesmo tendo percebido que Bud já havia desmaiado, continuou socando, vendo o sangue molhar sua mão por completo.

-Will isso já é o suficiente. Eu sei que você o odeia, mas precisamos dele. - O demônio pareceu ignorar, sem conseguir ouvir a voz quase suave que o chamava, preso em seu próprio caos de raiva e violência. -Will! Willbourne! 

Ao ouvir seu nome ele se virou,  largando o corpo do tio de Pacífica e  andando de volta até Mabel, que segurou seu rosto com as mãos manchadas, o olhando nos olhos. 

-Está na hora. -Ela falou, antes de se afastar até a porta da cela. -Eu já contei a ele o que fazer, você só precisa cumprir a sua parte. - Já estava quase desaparecendo pelo corredor quando voltou, uma última vez, se segurando nas barras de metal. - Eu... - Parou pela falta do que dizer. - Eu te perdôo pelo Ty. Acho que te perdoei faz muito tempo.

E sumiu, indo o mais rápido possível para o bueiro, antes de ser tarde demais.

- Quem diria, ela pode perdoar. -Dipper disse à si mesmo, se sentindo excluído e traído. 

-Me desculpe, mestre. -Will acertou três socos em Dipper, deixando uma imensa marca roxa em sua bochecha quase sem carne. - Me desculpe mesmo. Agora já sabe o que fazer. 

O demônio saiu, subindo para o último andar, enquanto Dipper gastava tudo que havia restado de seus poderes, para tentar controlar as mentes de todos os presos, sem danificar a sua própria. Mas sair ileso nunca foi sua especialidade.

"E se você não me ama agora,
Você nunca mais me amará.
Eu ainda posso a ouvir dizendo,
Que você nunca quebraria a corrente."


Do lado de fora, as pessoas corriam, algumas tentando apagar as chamas em suas casas, outras buscando ajuda. Os caminhões dos bombeiros passavam de um lado para o outro, tentando conter as chamas que se alastravam muito mais rápido do que antes. Do meio da multidão Pacífica saiu correndo, tentando chegar a tempo na delegacia. Tinha exatamente um minuto para chegar lá se não quisesse virar espetinho para Mabel. Trazia Gideon atrás de si, o puxando pelo braço. O garoto esbarrava em quase todas as pessoas, os retardando levemente. 

Mal tiveram tempo de respirar ao se aproximarem do prédio, a fachada inteira estava coberta pelas chamas, que subiam pelas janelas até o andar dos presos. 

Uma mulher, apavorada -Como já era esperado.- Gritou no meio da rua, chamando muita atenção.

-Lá em cima! -Ela disse, com lágrimas em seus olhos. -O diabo está aqui! Ele vai levar nossas almas!

E de fato, em cima da delegacia, o diabo lentamente se revelava, aproximando - se da beira do telhado.

Sua figura surgiu entre as chamas, parecendo muito mais alto que o normal. A pele morena brilhava de suor e seus cabelos loiros eram quase fios de ouro, caindo sobre a face bruta e assustadora. Os olhos azuis se tornavam dourados por segundos e voltavam a sua cor natural, inquietos e observando toda a cidade em chamas. A pupila de gato, negra e fina como um alfinete, causava medo na multidão, que se afastava, apavorada do demônio a queimar em praça pública.

-Finalmente, reconhecimento! Demorou quase longos dezoito anos! Quanta consideração! -Soava sádico como Dipper, assustando muito mais do que o telepata. - Observe, Gravity Falls, suas adoráveis casas se tornarem cinzas! Quero ver poderem botar a culpa em um mortal qualquer agora! 

Seus quase quatro metros de altura agora apareciam por completo atrás da fumaça. O paletó preto com alguns símbolos em dourado reluzia nas chamas, dando um estranho toque de seriedade no demônio imenso, que passava suas mãos pela cabeleira loira, como se não sentisse os longos fios de cabelo fazia muito tempo, e os puxava para trás, somente pela sensação da qual sentia falta.

-O assassinato de Grace Gleeful! Quem foi culpado? - Voltou a dizer, se movimentando pelo teto que quase desabava. -Ninguém! Tomei tanto cuidado em escolher uma cidadã direita, uma mãe, e não suspeitam por nem um minuto de mim! Berkley! Um de meus melhores trabalhos! Queimei as mentes de seus melhores policiais e da maior criança prodígio da cidade! Para quê?! Para ver o caso ser arquivado? Eu acho que não! - A insanidade presente em suas palavras calava a cidade inteira, crianças choravam, mas nenhum adulto se atrevia a dizer um pio, temendo por suas vidas. - Nem quando assassino praticamente todo dia vocês dão alguma importância ao meu trabalho! Uma cidade tão religiosa... eu esperava mais, tenho de admitir. 

Pacífica conhecia aquela forma, mas não entendia palavra alguma. Era a mesma pessoa que havia visitado Gideon no hospital, o mesmo homem que a alertara sobre Dipper, mas estava completamente diferente. Seu jeito, sua fala, tudo parecia ter sido retirado do mais perigoso dos monstros. O que mais assustava era que, mesmo sem saber quem ele estava imitando, ou de onde havia tirado aquilo tudo, ela sentia algo familiar na crueldade daquele ser. 

Ou talvez fosse só uma impressão.

-Isso é o que acontece com quem se recusa a aceitar minha ira,  querida Gravity Falls. Me sinto completamente insultado por terem pegado meus feitos e jogado nas costas do menino Gleeful! Onde já se viu, uma criança ser responsável por uma morte tão violenta, por uma tsunami de insetos tão magnífica quanto a que criei?! Vocês me decepcionaram, minhas crianças. Todos vocês.  - Sua voz era grossa e fingia ser gloriosa, ecoando pelas ruas quase como lei, e todos, não importava se suas casas estivessem em chamas, paravam, para tremer ao som de Willbourne. 

Da estrada principal, uma garota de dezoito anos, com um vestido preto rasgado e cabelos molhados, correu até o grupo, que quase implorava por suas vidas em frente ao prédio. Mal pode acreditar ao ver Will, na mais assustadora das formas, executando sua parte do plano tão perfeitamente que Mabel quase duvidava de que ele algum dia havia sido o demônio que ela conhecera quando criança. Suas pernas tremeram ao observar tamanho poder, nunca vira este lado de seu ex-criado -Já que ele não mais realizava qualquer papel de serviçal na mansão, se tornando quase um parceiro, ou um igual, daquela que um dia chamara de mestra. - e não conseguia conter as lágrimas, já que a visão queimava seus olhos como o fogo que tostava os corpos dos policiais. 

Teriam de ter uma conversa séria depois.

-Já que estou me sentindo misericordioso, este será seu único castigo, minha pequena cidade do Oregon, mas mesmo assim, quero que se lembrem, lembrem da dor de quando retirarem os corpos de seus companheiros, do horror que estão sentindo vendo seus lares se tornarem apenas cinzas aos meus pés! O que realmente quero, é que guardem em suas patéticas e facilmente controladas mentes, a forma do verdadeiro mal! Quero que recordem, até o último de seus dias, o som da minha voz, e que entendam que nada, absolutamente nada, acontece aqui sem a minha permissão ou minha manipulação, eu estou em todos os lugares! O diabo não é um homem com chifres e cauda, muito menos um garoto telepata, mas sim toda a escuridão que os cerca, quando a noite cai e as sombras se erguem. O diabo é o que vocês respiram, o que vocês ouvem, e para o azar de cada morador desde fim de mundo, eu sou ele! -Colocou seu pé direito na beira do prédio, quase caindo. - Então adeus, Gravity Falls, espero que tenham aprendido a sua lição. Que nos vejamos de novo, muito mais cedo do que imaginam. 

E ao terminar seu discurso quase completamente improvisado, Willbourne despencou em queda livre, desaparecendo no ar centímetros antes do chão.

A multidão ficou calada por alguns segundos, sem reação. Para eles, o próprio diabo havia escalado todo o inferno para queimar suas casas e os ameaçar. Não era o tipo de coisa que é possível já se ter uma reação pronta. Quando finalmente voltou a si, Mabel se lembrou do plano. 

-Dipper ainda está lá dentro! -Disse, correndo para dentro do prédio em chamas, indo até o ponto onde havia marcado de o encontrar. 

Seu irmão estava muito pior do que ela esperava. Sua pele estava verde claro, os braços tão finos que pareciam palito de dente, e sua boca completamente vermelha, por conta do sangue que tossia. Todo seu charme natural e beleza tinham desaparecido com a maior parte de sua vida. Quem o visse iria pensar que era um morador de rua, um homem que não poderia nem pagar uma refeição, e esta imagem destruiu Mabel, que passou o braço de seu gêmeo por cima do ombro, o carregando para fora, enquanto engasgava na própria tosse, sentindo seus pulmões se encherem de fumaça. 

Assim que chegou na rua novamente, Pacífica a ajudou a deitar Dipper no chão, enquanto Gideon assistia de longe, ainda horrorizado. Todas as mulheres presentes na manifestação de mais cedo ficaram em volta, observando o estado do ídolo local.

-Ei, se afastem dele, o garoto ainda é um preso! -Disse Marius, saindo do carro de polícia que lentamente se aproximava, e andando até o corpo quase morto de seu inimigo. 

-Um preso? Olhe para o menino, ainda acha que ele é capaz de fazer algum mal? Aquele monstro do telhado acabou de confessar tudo e mesmo assim o pobre rapaz ainda é um meliante para você? -Uma senhora gritou da rua.

-Marius... O que você fez com o meu irmão lá dentro? -Mabel soltava lágrimas tão reais que ela poderia jurar que merecia um Óscar. E ela as repetiria, não importava quantas vezes fosse necessário, mesmo que tivesse que enganar todo o país, iria derramar o que quer que se tornasse necessário para proteger seu irmão. E não seriam apenas lágrimas. - Por quê ele está machucado? Vocês o bateram? O deixaram sem comida? Marius eu quero uma explicação! -Seu desespero enquanto segurava o corpo imóvel era tão grande que por alguns segundos ela mesma acreditou na própria mentira, um erro que não poderia mais cometer. -Dipper...

-Eu não fiz nada! Nem sei como ele arranjou esses machucados! Pelo que sei, ele mesmo pode ter causado esses incêndios e tudo aquilo do diabo ter sido uma ilusão, ou algum de seus truques sujos.

-Ele está morrendo nesse exato momento e você ainda o culpa? Meu irmão não consegue mover um músculo, quem dirá queimar uma cidade, ele não tem poderes para isso e nunca faria algo do tipo! Isso é sua culpa! Onde você estava quando o bateram? Quando botaram fogo no prédio em que ele e os seus colegas de trabalho estavam? Você não fez nada por ele! 

-Meus... O quê?

-O garoto vai sair daqui! Dipper não faria mal à ninguém! Você não tem nada contra ele! Como ele poderia ter feito coisas assim? -Uma adolescente gritou, quase empurrando Marius.

Quando o homem se virou de volta ao prédio, se lembrou dos amigos, de Lídia, de todos dentro da estrutura, que já deveriam ter se tornado cinzas. Se afastou da multidão e correu para dentro, desesperado. Já havia perdido pessoas demais, nunca aguentaria perder seu braço direito e seus colegas depois de tantas mortes. 

-Eu preciso acabar com isso. -Mabel disse baixo, mas de uma forma que muitos em volta conseguiram ouvir. 

Ergueu seus braços para o céu, inclinando sua cabeça para trás e fechando os olhos com força. As nuvens começaram a se mover, formando um redemoinho nos céus, acima da garota. Tudo em seu corpo doía, a energia queimava cada célula como se houvesse gasolina sobre sua pele, a mente ardia e seus olhos choravam sangue, aquele fora o maior esforço que já havia feito na vida. 

O redemoinho se desfez, espalhando as nuvens por cima de toda a cidade. Cada centímetro que elas percorriam era mais um pouco de dor para Mabel, que já sentia seus ossos se quebrarem e refazerem em segundos, para se partir novamente. As lágrimas vermelho escarlate queimavam em sua pele como ácido, deixando uma funda queimadura em sua carne. Água começou a descer dos céus, apagando a maior parte dos incêndios, mesmo que muitos permanecessem ainda acesos, por não pegarem a chuva por completo. Toda a população parecia renascer, conforme seus corpos eram banhados na salvação das nuvens, enquanto Mabel perdia suas forças. 

Até mesmo a Mansão Gleeful, que tinha seu último andar em chamas estava dentro do alcance do temporal.

Quando abriu os olhos, toda a chuva cessou, um grito alto e enlouquecedor saiu da garganta da garota, que não aguentava mais a dor. Seus olhos, repletos de sangue, olharam mais uma vez para o céu, vendo o trabalho de sua vida, a perfeita mentira para livrar um amor quase perdido, e por um segundo, ela pensou ter valido a pena, até sentir seu cérebro queimar uma última vez e o sangue jorrar de sua boca, antes de desmaiar no asfalto. 


"E se você não me ama agora,
Você nunca mais me amará.
Eu ainda posso te ouvir dizendo,
Que você nunca quebraria a corrente.
A corrente nos mantém juntos,
Correndo por entre as sombras."

Notas Finais


Esse foi provavelmente o maior (exatamente 7.000 palavras AHHHHH), mais foda, mais pesado, e o melhor capítulo que eu já escrevi. Eu acho q a demora valeu a pena.
Me perdoem se cap estiver pesado demais, é que ele precisava ser assim, não tinha como fazer esse cap menos violento.
Por favor comentem e digam o que acharam, eu adoraria saber o que vocês estão achando 💙
Espero que tenham gostado!

•Qual o ship de vcs daqui?


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