História Metamorfose - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Lésbica
Visualizações 9
Palavras 1.092
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Orange, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Stranger


Ainda não parecia real. Era como se eu estivesse assistindo tudo de cima, vendo uma Alicia desanimada enfiando de qualquer jeito as roupas nas malas, e depois andando a passos pesados até o banheiro. A garota no espelho tampouco se parecia com a pessoa que eu vira ali mesmo dois meses antes, antes de sair para aquela festa, apesar de ter os mesmos olhos escuros, a mesma pele tão clara que quase chegava a ser translúcida e o mesmo corpo excessivamente magro e sem atrativos.

Os seus, os meus olhos, estavam rodeados de olheiras profundas, e os cabelos louro-escuros caíam em uma confusão caótica até o final das das costas, muito bagunçados e muito sujos também. Eu cogitava apenas prendê-los de qualquer jeito quando mamãe enfiou a cabeça para dentro do banheiro.

— Querida, acho que você deveria lavar o cabelo - sugeriu sutilmente, naquele tom condescendente que todos usavam comigo agora.

Eu odiava aquilo. Odiava que sentissem pena de mim. Esbocei um sorriso e assenti.

— Eu já ia fazer isso, mãe.

Ela pareceu aliviada. Antes uma filha mentalmente perturbada, porém limpa, do que uma louca que ainda por cima tivesse cheiro de lixo. Antes de sair, mamãe me avaliou, provavelmente para se certificar de que eu não tentaria me afogar na banheira ou algo do tipo. Aparentemente, a convenci, pois ela suspirou e saiu, fechando a porta poucos segundos depois. Felizmente - ou nem tanto -, eu não era corajosa o bastante para ser suicida.

Liguei a torneira de água quente, sentando-me na beirada da banheira, ainda completamente vestida a observar enquanto o líquido fumegante subia lentamente pela superfície de mármore branco.

Realmente muita sorte, Alicia! Apenas duas costelas quebradas e alguns ferimentos superficiais na cabeça, fora o veredicto do médico. Ainda assim, Crissy Hollis me mantivera presa em casa durante os dois meses que se seguiram ao acidente.

Eu soube o que acontecera de verdade assim que meus pais entraram no quarto de hospital com meu irmão. Thomas estudava arquitetura em Chicago. Não costumava passar nem mesmo os feriados em casa, e vê-lo ali, com aquele olhar apreensivo de quem tem uma notícia ruim para dar, foi a certeza que estava me faltando.

— Podem falar - dissera friamente, talvez sendo brusca demais com os pais que acabaram de receber a notícia de que continuariam sendo pais de uma garota viva, ignorando todas as dores que acompanhavam o simples ato de respirar. - Anda, não tenham dó!

Minha mãe, que sempre tinha algo a dizer, pareceu assustada e magoada com a minha reação, mas meu pai, tomando uma dose bem grande de coragem, foi quem começou a falar.

— Foi a Katie, querida. Ela não estava usando o cinto de segurança na hora da batida. Foi lançada para fora do carro. Infelizmente não sobreviveu aos ferimentos.

Não chorei na hora. Tudo o que senti foi um vazio tão grande que tive a absoluta certeza de que eu mesma não sobreviveria. Não podia ser verdade. Katie devia estar lá fora em algum lugar, esperando a deixa para entrar rindo no quarto e desfazer o mal entendido. Ela sempre quisera ser atriz, talvez aquilo não passasse de uma brincadeira de péssimo gosto.

Este pensamento me consolou até que a noite caiu naquele quarto que cheirava a álcool, e percebi que ela não chegaria.

Meus soluços desesperados provavelmente acordaram metade do hospital. Eles simplesmente saíam, como se meu corpo não pertencesse a mim, e cada partícula que me constituía quisesse se desintegrar no ar através de lágrimas. O choro não durou muito, pois logo a enfermeira apareceu para injetar um calmante potente em minhas veias. Continuei a ser sedada por três dias, até que finalmente fui capaz de ficar acordada por mais de uma hora sem ter outro surto.

Na verdade, eu ainda me sentia sedada. Ainda esperava que o meu celular vibrasse com alguma mensagem inesperada de Katie pedindo as respostas do dever de física, e até mesmo ligara algumas vezes para o seu número, apenas para ouvir a gravação da caixa postal onde ela cantava uma música da Taylor Swift em tom desafinado, usando os últimos dois segundos para dizer que deixassem um recado após o bipe. Depois de um tempo, o número nem chamou mais. Supus que seus pais tivessem se livrado do aparelho.

Ainda esperava que aquele estupor passasse, e que qualquer sentimento, bom ou ruim, voltasse a aparecer.

Quando a banheira estava cheia, desliguei a torneira e despi-me lentamente. A água estava muito quente, mas nem me importei. Mergulhei até o pescoço e tentei mudar o rumo de meus pensamentos, imaginando como seria o dia seguinte, quando, com dois meses de atraso, eu finalmente iria para a faculdade. Minha mãe havia sugerido que eu pedisse transferência para a universidade pública local, para poder ficar perto de casa, no caso de qualquer "necessidade de intervenção familiar", com suas palavras, mas eu não queria abrir mão da minha bolsa na Columbia University, e o prazo para que eu me apresentasse ao campus estava chegando ao fim, mesmo com todas as declarações médicas requisitadas para adiar minha chegada.

Não queria abrir mão da minha única chance de recomeçar longe de todas aquelas pessoas que tinham pena de mim, a garota que carregaria para sempre a culpa da morte de sua melhor amiga.

Tomei banho com o ânimo revigorado. Lavei-me com esmero pela primeira vez em dois meses, e então, ainda enrolada na toalha, parei para encarar o reflexo da garota que agora se parecia um pouco mais com a boa e velha Liss.

Não por muito tempo.

Desembaracei os cabelos e peguei a tesoura em uma gaveta.

Sempre usara meus cabelos compridos. Nunca me arriscava mais do que a cortar as pontas, e Katie costumava me chamar de careta por ter medo de mudanças.

— Está vendo?— indaguei para Katie, ou quem sabe para mim mesma quando as primeiras mechas louras começaram a formar um monte aos meus pés. - Quem é careta agora?

Cortei até a altura dos ombros, sem me importar em deixar o corte regular. Penteei a franja para frente e cortei-a o mais reta que consegui, um pouco abaixo das sobrancelhas.

Quando terminei, sentia-me mais leve. Diferente. Eu estava diferente. Larguei a tesoura na bancada com os dedos trêmulos e limpei a bagunça.

Sequei os cabelos, vesti jeans e um moletom que para variar estavam largos demais e saí. Minha maior preocupação agora devia ser imaginar quem seria minha nova colega de quarto.

Se eu tiver sorte, pensei comigo mesma, não será o tipo de garota bizarra que têm piercing no clitóris.

 


Notas Finais


:)


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