História Meu Romeu - Capítulo 13


Escrita por: ~ e ~Gabi_ASL

Postado
Categorias Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Ana, Jim, Karol Sevilla, Luna Valente, Matteo, Nico, Nina, Personagens Originais, Ruggero Pasquarelli
Tags Lutteo, Ruggarol, Sou Luna
Visualizações 117
Palavras 8.477
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Ficção, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá meus amores! Tudo bom com vcs? Demorei um pouco, mas teve um motivo em especial.
Aqui teremos mais um motivo do Matteo ser assim, então vamos ler.

Capítulo 13 - Capítulo 13


Hoje

Nova York

Querido Deus. Ele está no meu apartamento. Tipo, dentro do meu apartamento. Não apenas isso, ele está vagando por aqui, olhando minhas coisas.

Tê-lo no meu santuário outrora Matteo-free está fazendo minha pele arder de calor.

Este é o lugar em que Sebastian e eu falamos sobre ele. Onde destilei veneno no meu diário, cheia de angústia e drama, noite após noite. Onde trouxe homens incontáveis que inevitavelmente terminam tendo seu rosto. Suas mãos. Seu corpo.

E agora ele está aqui. Tirando a jaqueta e colocando no sofá. Virando-se para olhar para mim com um sorrisinho nervoso. Mostrando-me que não importa quantos homens eu traga aqui, ele é o único que realmente parece pertencer ao apartamento.

Droga.

Como isso aconteceu? Por que eu deixei?

O ensaio de hoje foi uma grande porcaria. Matteo estava arrasando no personagem, enquanto eu apenas reproduzia as frases. Quando Nico nos convidou para esticar para um drinque, claro que notei como ele apenas terminou metade da sua bebida antes de nos deixar sozinhos. Sutil.

Ele bem que podia ter contratado um daqueles aviões que desenham no céu com fumaça para escrever: “Resolva sua merda com o Balsano e pare de arruinar minha peça”.

Mesmo que eu tenha recusado a sugestão de substituir Matteo, ainda estou tendo problemas em me entregar completamente. Então, jurei me esforçar mais e fiquei com Matteo no bar.

Quando Matteo se ofereceu para me acompanhar até em casa, imaginei que isso poderia nos ajudar a nos aproximar.

Meu erro foi deixá-lo vir até meu apartamento. Ele praticamente colocou a cabeça toda para dentro quando abri a porta. Então ele pediu na lata para conhecer a casa, fui incapaz de dizer não.

Agora, aqui estamos: ele passeando pela minha sala e eu observando como se ele fosse um animal em exibição num zoológico.

Ele examina minha coleção de livros e sorri quando seus dedos tocam meu exmplar surrado de Vidas sem rumo.

— Não leio este há um tempo — ele comenta, pegando a edição para folheá-la. — Tenho saudade.

— Achei que você lia todo ano.

Ele me dá um sorriso antes de colocar o livro de volta no lugar.

— É... lia... mas dei meu exemplar para uma garota aí. Não consegui um novo ainda.

No dia em que ele me deu esse livro, ele estava com muito orgulho. Um presente de aniversário de que nunca vou me esquecer, dado por um namorado perfeito.

Que pena que o menino que deu isso para mim não exista de verdade.

Escuto a porta da frente se abrir e a voz florescente de Sebbas me chamando do corredor.

— Luh? Está aí? Vou te levar para sair esta noite, e não estou aceitando “não”. Pegue aquele seu vestido preto sexy com as costas abertas. Quero te exibir por aí.

O armário do corredor bate quando ele guarda seu tapetinho de ioga, e o olhar no rosto de Matteo grita: “Você não me disse que morava com alguém. Especialmente não com um homem”.

Sebastian caminha para o quarto e gela quando vê Matteo. Como cães de rua, os dois homens se medem.

— Olá — Sebbas cumprimenta com frieza antes de me lançar um olhar sombrio. Dou de ombros quando ele se vira para avaliar Matteo com olhos apertados. — Pelas fotos que Luna me mostrou bem antes de queimá-las, imagino que você seja Matteo Balsano.

Matteo se eriça, porém com mais graça do que jamais vi nele. Ele se recompõe e estende a mão.

— Isso mesmo. E você é...?

Reviro os olhos enquanto Sebbas se adianta para encarar Matteo. Ele é apenas alguns centímetros mais alto, mas a regata preta que sempre usa nas aulas de ioga exibe seu corpo estupidamente definido. Ele ignora a mão de Matteo.

— Sou Sebastian Villalobos. Moro aqui. Com ela.

— Entendi — Matteo responde e baixa a mão. — Prazer em conhecê-lo, Sebastian. Luna não me disse que morava com alguém.

— Talvez ela achasse que não era da sua conta.

O ar está carregado de testosterona, mas, antes de eu poder explicar que não moro com um namorado, Sebbas agarra meu braço e chia.

— Luna, preciso falar com você na cozinha. — E me puxa para fora da sala.

Quando estamos sozinhos, ele se vira para mim. Há fúria em seu rosto.

— Que diabos você acha que está fazendo?

— Sebbas, acalme-se.

— Estou calmo.

— Não, não está. Seus chacras estão voando como fogos de artifício.

— Você não acredita em chacras.

— É, bem, se eu acreditasse seria isso que eles fariam. Acalme-se.

Ele me encara por alguns segundos antes de fechar os olhos e respirar fundo.

Então ele solta o ar lentamente e suspira.

— Tá. Tô calmo... calminho. Agora, responda à pergunta.

— Não estou fazendo nada. Estávamos só dando uma volta.

— Dar uma volta não envolve trazê-lo aqui. Você sabe muito bem que quando traz um homem para casa é por apenas um motivo, e se acha que vai para a cama com ele de novo...

— Não vou! Não vou. Eu estava um pouco alta. Ele me acompanhou até em casa.

— Vocês andaram bebendo e você deixou ele entrar?! Pelo amor de Krishna! É uma maravilha que não te encontrei dançando no colo dele! Sabe que se você fica a sete metros de um cara atraente quando está bêbada é bem provável que tire a roupa e monte nele num tempo recorde! Quanto mais seu belo ex, que você nunca esqueceu realmente!

— Droga, Sebbas, pode, por favor, manter a voz baixa?!

Ele bufa. Nada estraga mais rápido seu equilíbrio que a ideia de eu voltar aos meus velhos dias.

Toco o braço dele.

— Você acredita mesmo que algumas semanas com ele sendo decente vão me convencer de que não é mais um cuzão emocionalmente fraco? Nem eu sou tão ingênua assim.

— Não estou dizendo que você é, mas aquele cara é seu calcanhar de aquiles. Se ele pedisse para dormir com você agora mesmo, você seria capaz de dizer não?

Meu corpo todo cora.

— Sebastian, Deus... não é o que ele quer.

— Mas posso ver como ele olha para você. Se você dissesse que sim, aquele cara ia te virar do avesso.

Mexo no cabelo.

— Sebbas...

Ele suspira e coloca as mãos nos meus ombros.

— Olha, docinho, sei que é difícil de aguentar, mas você tem de prometer se lembrar de tudo o que conversamos. Limites. Respeito. Honestidade. Disponibilidade emocional.

— Está se referindo a ele ou a mim?

— Ambos. Não deixe que seus hormônios a ceguem. Não posso ver você passar por toda aquela dor de novo.

Ele me puxa num abraço e eu suspiro.

— Brigada, Sebbas.

— Não tem de quê. — Ele se afasta. — Mas eu só preciso fazer mais uma coisa antes de poder deixar vocês dois sozinhos. Talvez seja melhor você virar o rosto, porque isso pode ser embaraçoso.

Antes que eu possa impedi-lo, ele passa por mim e avança de volta à sala.

Matteo está sentado no canto do sofá, mas fica de pé quando Sebastian entra.

— Tudo bem, agora você. — Sebastian fala, apontando para o rosto de Matteo. — Vou dizer isto só uma vez, então escute. Passo uma boa parte das minhas horas acordado tentando encontrar calma neste mundo e ter serenidade, mas amo essa mulher mais do que praticamente tudo no planeta, então se você machucá-la... de qualquer forma... juro pelo poderoso Buda que não vou hesitar em acabar com você. Me entendeu?

Matteo olha para mim antes de assentir.

Estou surpresa em ver que seu rosto não mostra medo, mas uma determinação firme.

— É, eu te entendo, Sebastian. Mas fique sabendo que machucá-la é a última coisa que passa na minha cabeça. Sei que fui um idiota no passado, e tenho muito a compensar, mas pretendo ir até o fim com isso. O que quer que seja. Então, é melhor você se acostumar em me ver por perto, porque não vou a lugar nenhum desta vez. Você me entendeu?

Sebastian o encara por um momento antes de relaxar a expressão, um olhar de surpresa passa por seu rosto.

— Bem... bom então. Você tem um rosto lindo. Se tratá-la direitinho, não vou ter de estragá-lo.

Seguro um sorriso, porque em todo nosso tempo de amizade, só vi Sebastian virar macho alfa assim uma vez, e foi quando ele estava namorando um cara chamado Gandhi, um hipócrita dos grandes, ultrabichinha. Sebbas levou um longo tempo para reencontrar sua serenidade depois de socar o cara no rosto.

Ele dá a Matteo sua última olhada feia antes de juntar as mãos e dizer:

— Tá, preciso tomar uma chuveirada. Vocês dois se comportem enquanto eu estiver longe.

Sebbas sai, deixando Matteo e eu nos encarando desconfortavelmente.

— Então, é isso. Esse é o Sebastian. Ele vive aqui e aparentemente ameaça meus ex-namorados. Quer um pouco de vinho?

— Merda, quero — Matteo responde, me seguindo enquanto vou para a cozinha.

Escolho um tinto e sirvo duas taças mais do que generosas. Passo uma para ele e tomo um grande gole da minha antes de me encostar no balcão.

— Então, vejo que o Sebastian meio que protege você — Matteo comenta.

— Ah, você percebeu isso?

— É, só um pouco. Não é sempre que sou ameaçado por um moreno assustadoramente alto e super em forma. Não vou dizer que curti.

— Ele geralmente não é assim, mas acho que ver o anticristo na casa dele o deixou no limite.

Ele ri e esfrega a nuca.

— Bom, estou só me fazendo de Satã, mas se você quer formalizar minha condição...

— Posso te chamar de Lucy?

— Hum?

— Apelido de Lúcifer.

— Ah, claro, mas só quando estamos sozinhos. Não posso deixar que você me chame assim na frente dos meus servos do mal. Eles podem rir e... bem...isso ia me magoar.

Seguimos de volta para a sala e nos sentamos no sofá.

— Então, você e Sebastian. Vocês estão...

Ele pausa antes de dizer a palavra “juntos”. Eu quase rio.

— Não.

— Já estiveram?

Ele olha para mim com intensidade demais enquanto espera pela minha resposta.

— Não. Eu não tenho... é... o equipamento necessário para satisfazer Sebastian.

Ele me encara, perdido, enquanto minha resposta atinge seu cérebro anuviado de vinho. Então, uma lampadazinha se acende em seus olhos.

— Ah, tá! Jesus! Minha pressão acabou de baixar uns vinte pontos!

Eu rio e beberico o vinho, e, quando olho de volta, ele está me encarando.

— Vi fotos de vocês juntos.

— Quando?

— Quando eu estava na Europa. Nos primeiros meses depois que parti, meu ritual noturno era ficar torto de bêbado e dar um Google em você. Tinha fotos de você e Tristan juntos quando estavam trabalhando na off-Broadway. Quando eu as vi... eu... porra, Luna, foi uma facada. Achei que era seu namorado. Que você tinha seguido em frente, enquanto eu não conseguia parar de pensar em você.

Fico com uma imagem mental dele, garrafa nas mãos diante do computador, me vendo com Sebastian e me xingando por eu não estar arrasada. Mas eu estava arrasada, mesmo que as fotos me mostrassem sorrindo.

— É, você sempre subestimou meus sentimentos por você — respondo, me afastando dele e passando o dedo na borda da minha taça. — Era um dos nossos maiores problemas.

— Sei que soa como uma desculpa esfarrapada, mas... eu simplesmente não conseguia compreender como você podia me amar tanto quanto eu te amava.

Simplesmente não parecia possível.

Por um momento não posso acreditar no que acabei de ouvir. Ele sempre teve problema em dizer a palavra com “A”. Era a coisa que transformava o que tínhamos em algo real demais.

Quando olho para ele, ele parece um aracnofóbico que acabou de entrar num quarto cheio de aranhas.

— Impressionada? — ele pergunta. — Olha só eu usando a palavra com “A”. 

Nem gaguejei.

— Parece um milagre, só que mais surreal.

Agora é a vez dele de olhar para seu vinho.

— Só levou três anos para eu perceber que não dizer não me ajudava a negar meus sentimentos. Amar você ou não não dependia de uma palavra. Era apenas um fato. Puro e simples. Você ficaria surpresa com a frequência com a qual uso essa palavra hoje.

Volto ao meu vinho porque ele está tão emocionado que sequer consigo encará-lo.

— Música? — pergunto, olhando para o iPod. Estou estudando minhas playlists quando ele diz:

— Precisa de ajuda? Porque se colocar alguma música country, vou ser forçado a zoar você.

— Você nunca vai esquecer essa história, vai?

— Que história, que você uma vez gastou uma bela grana num álbum das Dixie Chicks? Não. Nunca.

— Ei, tinha umas músicas boas no disco.

— Luna, tinha um monte de música folclórica no disco. Tenho quase certeza de que foi esse disco que acabou com o aparelho de som do meu carro. 

Rio para ele.

— Você costumava explodir as caixas de som todo dia com ac/dc. Aquele aparelho de som já estava fodido. Você pode me culpar por dois minutos das minhas músicas.

Ele pega o iPod.

— Aqueles dois minutos marcaram meus tímpanos pelo resto da vida. Nem posso imaginar o que aquilo fez com meu pobre aparelho. Agora, afaste-se, moça. Permita que eu encontre a música perfeita para nós.

Balanço a cabeça e me sento. De novo estou chocada com a cena surreal de ele estar no meu apartamento. Seis meses atrás, isso seria inconcebível. Agora ele está se esforçando tanto para me mostrar que é maduro e adulto. Se eu ao menos fosse madura e segura. Mesmo agora, posso sentir o ressentimento borbulhando dentro de mim, esperando que ele faça o movimento errado para eu poder explodir.

— Uau. — Ele me lança um olhar nervoso por sobre o ombro. — Não me  odeie por colocar esse, mas... Deus... esse disco.

Os acordes de abertura do disco Pablo Honey, do Radiohead, se infiltram pelos altofalantes e imediatamente me tensiono.

Tomo outro gole grande de vinho.

— Posso mudar, se você quiser. É que... é que não ouço esse há um tempinho.

É, nem eu.

— Tudo bem. — E bebo mais um pouco.

O álcool faz com que mentir seja fácil. Esse álbum foi a trilha sonora de  tantas lembranças, e, apesar de serem prazerosas, também são as partes dele de que sinto mais falta.

Ele se junta a mim no sofá, longe o suficiente para fazer parecer que está respeitando meu espaço pessoal, mas perto o bastante para fazer meu cérebro fraco de vinho querer que ele estivesse mais perto. Inclino a cabeça para trás e deixo a música me distrair.

Estamos na terceira faixa quando Sebastian aparece na nossa frente, de banho tomado e pronto para sair.

Ele digere a cena e franze a testa.

— Se eu fosse idiota, juraria que vocês dois estão meditando. Apesar de eu não saber exatamente por que estariam meditando com música de sexo.

Holt se retorce um pouco.

— Luh, tem certeza de que não quer sair comigo? — Sebastian pergunta. — É noite das bolhas na Neon. Você até pode trazer o altão sombrio carrancudo aí.

Parece que ele está precisando de umas bolhas.

— Não, brigada — respondo com um suspiro. — Estou meio que curtindo a meditação. Você devia estar orgulhoso.

Sebastian aperta os lábios, ele se volta para Matteo.

— Então é assim que vai ser? Você simplesmente se infiltra de volta na vida dela e consegue algo que eu geralmente só conseguia se a subornasse com chocolate?

O comentário parece ter dado preguiça em Matteo.

— O que eu posso fazer, cara? Não preciso usar chocolate porque sou naturalmente doce.

Sebastian olha para mim, confuso, como se estivesse lutando para decidir se gosta de Matteo ou o odeia.

Bem-vindo ao meu mundo.

— Tudo bem, tô indo — Sebastian franze a testa para Matteo mais uma vez. — Mas, Luna, só lembra o que falamos, tá? Não quero chegar e ter de faxinar as vibrações negativas da sua aura.

Matteo fica tenso.

— Me esforcei muito para me livrar das “vibrações negativas”, Sebastian, mas, se por algum motivo ainda tiver alguma comigo, prometo não infectar a Luna.

— Faça isso — Sebastian murmura enquanto segue pelo corredor para pegar a jaqueta. — Até, Luh.

— Tchau.

A porta se fecha, e Matteo e eu nos afundamos ainda mais no sofá.

— Você pode me chamar de louco — Matteo se vira para mim —, mas acho que o Sebastian gosta mesmo de mim.

— Bem, é uma teoria.

— Qual é a outra?

— Que ele quer arrancar sua cabeça, tirar seus olhos e usar seu crânio como uma bola de boliche.

— Ah, ele joga boliche?

Que cara de pau!

— De vez em quando. Nas noites de discoteca.

Ele sorri. Um daqueles belos sorrisos que iluminam todo seu rosto. Quando me percebe encarando, seu sorriso desaparece numa expressão mais melancólica.

— Cara, eu sentia falta disso. Nunca percebi o quanto doía não estar com você até te ver de novo e a dor ir embora.

Meu sorriso fraqueja. O vinho está soltando a língua dele e deixando seus olhos intensos. Não estou bêbada o bastante para ouvi-lo dizer coisas assim.

— Sente minha falta? — ele pergunta, quase cochichando.

— Matteo...

— Não o canalha que eu fui — ele acrescenta. — Mas o cara que foi bom para você. Que fez você rir. Que... te amou.

— Infelizmente, esse cara ficou preso na sua versão canalha — retruco, levantando o olhar para ele. — Nunca consegui ter um sem o outro.

— Você pode ter — ele afirma, absolutamente sério. — Juro que pode.

— Vai levar um tempinho para eu acreditar nisso.

— Eu sei. Nunca achei que acertar as coisas com você fosse ser fácil, mas sei que vai valer a pena.

— E se não valer? — devolvo, incapaz de suportar que ele pense que o nosso final feliz vai vir tão fácil assim. — E se, depois de tudo, você está só sendo idiota de pensar que podemos reacender algo que se apagou há muito tempo?

Seus olhos se turvam, e a conhecida atração que sinto por ele deixa o ar entre nós pesado.

— Luna — ele sussurra enquanto se inclina à frente, tão próximo que posso sentir o cheiro doce de vinho em sua boca —, o que tivemos nunca se apagou. Você sabe disso tão bem quanto eu. Mesmo quando eu estava viajando meio mundo e você me odiava horrores, não tinha se apagado. Você pode sentir que ainda está aceso mesmo agora. E quanto mais próximo estamos, mais forte fica.

É isso que te assusta.

Ele olha para meus lábios e é preciso cada grama do meu minguante senso de autopreservação para desviar o olhar.

— Se puder me dizer que não sente esse fogo — ele diz baixinho —, então eu me afasto. Mas tenho certeza de que você não consegue fazer isso, consegue?

Vacilo por um instante apenas.

— Não sinto.

A frase não faz sentido.

Ele toca meus dedos, roçando os dele, tão quentes, pela palma da minha mão até chegar ao pulso. Então envolve sua mão ao redor dos ossos finos e aperta gentilmente.

— Pode dizer o que quiser, mas seu pulso não mente. Está vibrando. E sou eu que estou provocando isso.

— Como sabe que é atração e não medo?

— Tenho certeza de que é um pouco dos dois. Mas a atração definitivamente está aí.

Puxo minha mão para longe e bebo o resto de vinho da taça. Bebi demais.

Ele também. Falta de inibição não vai me ajudar em nada a esta altura.

Eu bocejo e fico de pé.

— Bem, está ficando tarde.

Ele assente e sorri. Pode me ler como a um livro aberto.

— É, melhor eu ir andando.

Quando chega à porta, ele se vira para mim, uma mão na maçaneta.

— Luna — ele hesita, recostando-se no batente da porta —, antes de eu ir, só queria saber uma coisa.

— O quê?

Ele se inclina à frente, sua voz é baixa.

— Você e Sebastian não estavam exatamente cochichando na cozinha. Eu o ouvi dizer que você não seria capaz de resistir se eu te pedisse para dormir comigo. É verdade?

Absorvo a figura alta dele tomando minha porta, a longa linha de seu pescoço levando a seu incrível rosto emocionado. Eu me lembro de como o corpo dele se sente sob minhas mãos, os ruídos que ele faz quando eu o toco. O olhar incrível no rosto toda vez que seu corpo encontra o meu.

—Matteo...

— Espera. — Ele balança a cabeça. — Não responda a isso. Porque se me disser que me quer... então... — Ele levanta o olhar e posso ver que ele quer me tocar; como seus dedos se contraem, como sua respiração fica um pouco áspera.

— Não haveria autocontrole suficiente no mundo.

Felizmente, antes de algum de nós fazer algo idiota, ele dá um passo atrás.

— Boa noite, Luna. Para o nosso bem, fecha a porta. Agora.

Fecho a porta na cara dele.

Mesmo através da madeira, consigo ouvir seu suspiro de alívio.

Seis anos antes

Westchester, Nova York

Festa da estreia de Romeu e Julieta

A música é alta demais. Ela vibra no meu crânio e fere meus globos oculares. A sala está lotada de gente dançando e rindo. Alguns de fato se esforçam para conversar a despeito do ruído que tenta se passar por música.

No sofá ao meu lado, Lucas fuma um baseado. Ele oferece para mim e, quando recuso, passa para Ramiro, que está com os olhos tão vidrados que poderia ser chamado de Vidrado Olhar Parado no Madame Tussaud.

Estou meio que surtando com as pessoas fumando drogas ilícitas perto de mim. Imagino meu pai irrompendo pela porta e enlouquecendo. Mas, claro, ele está do outro lado do país, e mesmo com seu nariz bem calibrado de pai, ele não poderia sentir o cheiro de lá.

Tenho certeza.

— Luna!

Avisto Jazmin, e ela faz um gesto de “vamos beber”. Suspiro e viro a dose de tequila que estava segurando. Ela passa uma fatia de limão para mim e faz sinal de positivo. Enfio o limão na boca e ela abre um sorriso largo.

Depois de colocar o limão e o copo na mesinha de centro, eu me jogo de volta no sofá e suspiro. Pela milionésima vez nas últimas duas horas, eu olho ao redor, torcendo para que Matteo apareça.

Claro que ele não aparece.

— Vou tomar um ar — grito ao me levantar e passar por Jazmin. Ela assente e se serve de outra dose.

Quando chego à frente da casa, Nina está sentada nas escadas, bebericando algo de um copo grande.

Eu me sento ao lado dela.

— Está curtindo?

— Claro — ela responde. — Adoro ter os tímpanos estourados a cada vez que Ramiro dá uma festa. Só porque é meio surdo ele está determinado a deixar todos nós iguais a ele. Acho que os vizinhos devem querer matá-lo.

— O pai dele é dono de todas as casas vizinhas. É o único motivo pelo qual ele se safa das reclamações.

Ela me oferece sua bebida enquanto olha para a rua.

— Esperando pelo Matteo? — pegunto.

— Sim.

— Acha que ele vai aparecer?

Ela balança a cabeça.

— Cada encontro com o nosso pai transforma Matteo num vulcão de raiva. Já tentei dizer para ele parar de se importar, mas ele não me escuta.

— A relação deles sempre foi assim tão... complicada?

— Foi. — Ela ri. — É como se o papai não soubesse lidar com ele. Ele se dá bem comigo, porque sou mulher, mas com o Matteo? Não acho que ele saiba como se comunicar com ele num nível que envolva emoção. Minha teoria é que age dessa forma porque nosso avô não acreditava que homens deviam ser abertamente afetivos uns com os outros, porque isso os enfraquecia, sei lá. Então, sempre que Matteo enfrenta nosso pai, eles brigam em vez de conversar.

— Deus, isso deve ser difícil.

— É, sim. E piorou um pouco há alguns anos. Eu culpo a Ada, aquela vaca.

Minhas orelhas se ouriçam.

— Então não foi Fernanda?

— Não — ela suspira. — Ada foi o estágio zero para todas essas questões. Ela é a razão pela qual a coisa desandou com Fernanda.

— O que aconteceu entre eles? Matteo e Ada?

Ela olha para baixo e brinca com o copo.

— Nina, por favor. Tentei perguntar a ele sobre isso. Mas ele se fecha todo.

— É, mas ele me mataria se eu te contasse.

— Eu sei, mas se isso faz você se sentir melhor, ele leu meu diário, então ele sabe um monte de troços pessoais meus.

Ela fica boquiaberta.

— Ele leu seu diário?

— Leu. Há algumas semanas. E talvez eu tenha escrito sobre o quanto eu queria tocar seu... é... pênis.

— Ai, meu Deus.

— E meio que disse que o pau dele podia ganhar prêmios.

— Ah... uau.

— Eu sei.

— Além disso... eca. É meu irmão.

— Eu sei. Mas não posso fazer nada se seu irmão é um tesão.

Ela olha em dúvida.

— Se você diz.

— Ele é.

Elissa suspira.

— Bom, por mais nojento que seja para mim, eu meio que estou feliz por você achar isso. Porque você é a única garota que eu consigo vê-lo levando a sério desde todo esse troço com a Ada. Posso entender por que ele resiste, mas ainda assim...

— Por favor, me diga que essa declaração vai ser sucedida pelo que aconteceu de fato com eles.

Imploro, lançando-lhe meu melhor olhar.

Ela revira os olhos e conta:

— Ada foi a namorada do Matteo no colégio. Começaram a namorar no segundo ano.

Balanço a cabeça e tento esconder o ciúme feroz que queima dentro de mim. É idiota ter ciúme de uma menina que nunca conheci, né?

— Na escola, Matteo e Ada eram como um casal vinte. Mas, nos bastidores, eles discutiam muito. Ada gostava de irritá-lo. Se ela achasse que ele não estava lhe dando atenção suficiente, ela paquerava outros caras. Ela gostava de provocar o ciúme dele. Realmente acho que ela era uma sociopata.

Até deu em cima do melhor amigo do Matteo no colégio, Maxi. Ela usava o ciúme para manter Matteo na linha.

— Por que ele simplesmente não a largou?

— Sei lá. Era como se ela tivesse controle sobre ele. Podia manipulá-lo para tudo. Usava as próprias inseguranças dele como arma.

— Então, o que aconteceu?

— Numa noite, durante o último ano, depois de finalmente Matteo ter contado ao papai que ele não ia cursar medicina e que pretendia se inscrever em Grove, eles tiveram uma briga bem feia. Não consegui ouvir exatamente o que eles estavam dizendo, mas o que eu sei é que acabou com minha mãe chorando e com meu pai gritando para o Matteo ir embora. Depois disso, ele foi para a casa da Ada, mas ela não estava lá, então Ethan seguiu para a casa do Maxi. Quando chegou lá, encontrou Maxi e Ada. Na cama.

— Ai, Deus.

— Matteo ficou arrasado. Eu teria esperado algo assim da Ada, mas não do Maxi. Ele e Matteo eram como irmãos. No dia seguinte, na escola, Maxi tentou botar panos quentes e se desculpar, mas... Matteo estava irritado demais. Ele surtou e desceu o cacete no Maxi. Acabou quebrando o nariz dele e tomando uma suspensão de duas semanas. Ada achou incrível os dois brigarem por causa dela. Tenho certeza de que ela estava enganando os dois.

— Que vaca. — Uma raiva violenta tomou conta de mim. Soltei o ar longamente. Não consegui nem imaginar o quão traumático deve ter sido para Matteo ser traído pelos próprios amigos. Não é à toa que ele tem problemas com intimidade.

— Foi quando ele se fechou realmente — Nina continuou. — Não entrar em Grove não ajudou. Ele parou de falar comigo e com minha mãe e ficou ainda mais distante do papai. Ele se jogou na coisa do teatro. Bebia demais. Arrumou brigas. Dormia com cada menina que cruzava seu caminho e nunca ligava para elas de novo. Foi horrível de assistir.

Meu rosto deve ter me traído sobre quanto eu odiava pensar nele com outras garotas, porque ela rapidamente acrescentou:

— Nunca houve nada sério.

— Nem com a Fernanda? — pergunto, sem realmente querer saber a resposta.

Nina franze o rosto.

— É, eles tiveram uma coisa. Mas, quer saber, Matteo a tratava tão mal que o negócio já estava condenado desde o começo. E ela é uma garota legal. Nem um pouco como a Ada. Nunca pensei que meu irmão pudesse ser tão cruel, até eu vê-lo com Fernanda. Ela teria feito qualquer coisa por ele, e ele acabou com ela. E não namora desde então.

Penso em todas as coisas cruéis que ele disse ou fez desde que eu o conheço e sinto pena de sua Julieta anterior.

— Então, essa é a história — Nina conclui, se levantando e me puxando junto. — Agora, podemos parar de falar do merda do meu irmão e começar a nos divertir? Duvido que ele vá aparecer esta noite. Provavelmente, está em  algum bar, de cara fechada para uma parede descascando a tinta.

Entramos na casa, e, meia hora e duas doses de tequila depois, Nina e Jazmin me convencem a dançar. Eu giro e me remexo com elas, mas não consigo parar de pensar em Matteo e no que ele passou.

Então, escuto uma enorme salva de palmas na parte da frente da sala. Eu me viro e vejo Matteo lá, com uma garrafa de uísque quase vazia na mão e braços esticados enquanto ele grita:

— Aê, elenco! Romeu tá na área! Vamos comemorar!

A sala toda ruge em aprovação e, ao meu lado, escuto Nina:

— Ai, Deus. Que diabos ele está fazendo?

Assisto a Matteo abraçar e cumprimentar todos ao redor enquanto anda no meio da galera como um rockstar entre seus fãs. Não consigo acreditar no que vejo.

Quando chega até nós, ele sorri meio sem jeito.

— Olá, senhoritas. — Usa uma voz que acho que era para ser sexy.

— Jazmin — ele diz, puxando-a para um abraço —, você me odeia, não odeia? Muita gente me odeia. Até meu próprio pai. Não se preocupe. Não odeio você por isso.

Depois ele se vira para a irmã e coloca os braços ao redor dela.

— Ah, Nina. A meiga e incansável Nina. Como você me aguenta? Não entendo. Mas eu te amo. Amo mesmo, de verdade.

— Hum... Matteo? — Ela torce o nariz enquanto ele a abraça. — Por acaso você tomou um monte de ecstasy hoje?

Ele beija a bochecha dela antes de se virar para mim. Seu sorriso imediatamente fraqueja, mas ele toma outro gole da bebida, dá um passo à frente e se estica para segurar meu rosto.

— E Luna. Bela, tão bela, Luna. Você está bem?

— Sim. Você está?

— Estou ótimo! Nem ligo para o que aconteceu esta noite com meu pai. E quer saber por quê? Porque decidi não ligar mais para nada. É um conceito tão simples, não sei por que não descobri isso anos atrás. Olha como estou feliz!

Ele joga a cabeça para trás e ri. É a visão mais triste que já vi.

— Balsano... — começo, mas ele coloca os dedos nos meus lábios.

— Não, não vem com essa de Balsano — ele diz, abaixando a garrafa. — É uma festa e eu quero dançar. Até mais.

Matteo abre caminho no meio das pessoas e elas gritam ao redor dele quando ele começa a se mexer, cheio de energia, mas todo desajeitado.

— Uau. Nunca vi meu irmão dançar antes. Tem... Céus... tem coisa errada demais rolando para eu entender. 

— Ele dança mesmo muito mal — Jazmin comenta. — Parece que ele está tendo um ataque epiléptico vertical. Ele é a vida da festa. Conversa com todo mundo, é educado com todo mundo.

 Droga, ele até ri das piadas do Ramiro e não olha Âmbar com desprezo quando ela flerta com ele.

Provavelmente, ele quer sair socando todo mundo, mas, em vez disso, está sendo o Matteo que acha que todo mundo quer que ele seja.

Ranjo os dentes, frustrada.

Sei que o Matteo pode ser um cuzão, porque ele já foi um comigo várias vezes, mas pelo menos estava sendo verdadeiro. Esse novo Matteo? É mais falso que os peitos da Âmbar.

Quando chego no meu limite, atravesso a multidão e avanço até ele. Ele está falando com a Âmbar, rindo sem motivo aparente. Ela está se insinuando para ele, o que me faz querer enfiar a cara dela na travessa de Doritos na mesa ao lado.

Matteo levanta o olhar quando me aproximo, e de novo seu sorriso fraqueja por um segundo antes de voltar a se abrir.

— Valente! Oi! — Sua voz tem animação. — A Âmbar aqui estava me dizendo que, se minha Julieta fosse ela e não você, ela não teria de fingir na cena de sexo. Não é hilário?

— Totalmente hilário — respondo do jeito menos convincente possível. — Âmbar — pego a tigela de Doritos —, quer um salgadinho?

Toim. Bem na boca.

Ela revira os olhos.

— Tá, claro, Luna. Como se eu fosse comer carboidratos.

Solto o ar e faço cara de pacífica.

— Balsano, posso falar com você por um segundo?

— Na verdade — Âmbar interrompe segurando o braço de Matteo como se ele fosse dela —, ele está falando comigo agora. Talvez você possa voltar depois.

Garota, é melhor você tirar as mãos dele antes que eu te faça uma máscara facial de massa de queijo hidrolisado.

Bato a tigela na mesa e me forço a sorrir.

— Não vou demorar. Você não vai nem notar, porque tenho certeza de que ele vai voltar para continuar ouvindo seus divertidos comentários pornográficos.

Pego o braço de Matteo e puxo, e graças a Deus ele segue para a cozinha.

— O que você está fazendo? — pergunto, me voltando para encará-lo.

Ele dá de ombros.

— Me divertindo?

— Sério? Isso é diversão? Conversar com a vadia-mor fingindo que gosta dela.

— Vadia-mor é um apelido bem feio — ele comenta, enrolando a língua. — E talvez eu goste da companhia dela.

— Ah, que bela merda.

— Está com ciúme, Valente?

— Estou. Agora você pode, por favor, parar com essa ceninha idiota e me beijar?

Ele perde o prumo na hora. Ele pisca três vezes. Eu nem me mexo. Acho que estou ficando bem boa em dizer o que realmente penso.

Ramiro entra na cozinha e segue para o barrilzinho no canto para servir vários copos de cerveja, ignorando a competição de olhares rolando ao lado dele.

— Ei, Balsano, parceiro, você não está parando ainda, né? Vai, toma uma dessas.

Matteo se vira no exato minuto em que Ramiro está lhe entregando um dos copos, e a cerveja toda se espalha pela camiseta de Matteo.

— Merda! — Ramiro engasga. — Desculpa aí, cara. Total acidente. — Ramiro pega um pano de prato e tenta secar Matteo enquanto murmura mais desculpas.

— Tudo bem. — Matteo força uma risada. — Você tem uma camiseta para me emprestar?

Ramiro assente.

— Tenho, na parte de cima do meu armário. Pega a que você quiser.

Matteo bate no ombro dele um pouco forte demais quando passa.

— Valeu, parceiro.

Ele avança a passos largos para a escada pelo meio do pessoal, e isso é tudo o que eu não consigo fazer para segui-lo.

— Sabe — Ramiro está falando comigo —, nunca vi ninguém ser um bêbado irritado e feliz ao mesmo tempo, mas o Matteo consegue ser.

Concordo.

— É um dom raro e especial.

Ele pega uma cerveja na bancada e bebe com uma cara pensativa.

— Eu devia entrar na internet e ver se já tem umas resenhas da apresentação de hoje. Ouvi que o crítico do On-line Stage Diary estava lá. Fico imaginando se ele tem alguma coisa boa para dizer.

De repente, meu estômago dá um nó.

— Ele estava lá?

— Estava. Ele e uns outros quatro. Um do Broadway Reporter. — Ele olha para mim e levanta uma sobrancelha. — Nunca se sabe, Valente. Amanhã de manhã você pode ser uma estrela.

— Tá, sei. Ou podem me odiar. — Solto uma risada exagerada, porque se me odiarem...

Só de pensar nisso meu corpo coça e sua de nervosismo.

— Tenho certeza de que vão dizer coisas incríveis sobre você — Ramiro diz com uma mão encorajadora no meu ombro.

— E se não disserem?

— Bem, ainda há meio barril de cerveja. Pode beber até esquecer.

Ele pega sua cerveja e sai.

Estou parada lá ainda, contemplando minha iminente possível humilhação pública, quando percebo que há apenas uma coisa que pode me ajudar a não surtar, e está no andar de cima, espero que sem camisa.

Abro caminho pela sala, subo as escadas e sigo pelo corredor até o quarto do Ramiro. A porta está aberta. Dou uma espiada e vejo Matteo de peito nu sentado na cama, a camisa encharcada no chão, a cabeça repousada nas mãos. Ele agarra o cabelo e suspira, frustração bruta emanando dele como uma aura.

— Ei — digo e dou um passo incerto dentro do quarto.

Ele me lança um olhar cortante antes de levantar da cama e avançar para o armário.

— Ei — ele devolve o cumprimento, abrindo as portas e avaliando a impressionante coleção de camisetas do Ramiro. — Que festa, hein?

Não consigo tirar os olhos dos músculos em suas costas nuas enquanto eles se movem e se flexionam. Quer dizer, mentira: eu poderia afastar o olhar, mas não quero.

— Tudo bem com você? — pergunto, me aproximando.

— Tudo ótimo — ele responde, me mostrando uma camiseta que diz: “Errar é um mano”. — Ramiro usa mesmo isso em público?

— Balsano...

— E essa aqui? — E mostra outra que diz: “Brinde aos mamilos. Sem eles as tetas não teriam sentido”.

— Balsano...

— Fala sério. Ele comprou isso ou estavam pagando gente que levasse?

— Precisamos conversar.

— Não, não precisamos mesmo.

Ele devolve o cabide e passa pelo restante da coleção.

— Esse cara não tem nada além dessas porcarias de camisetas de piada? Nada esportivo? Ou, Deus que me perdoe, liso?

Ele continua remexendo os cabides, e está cada vez mais tenso.

— Matteo. — Ponho minha mão nas costas dele.

— Não. — Ele se vira e se afasta de mim. — Simplesmente... não, porra. Tá?

— Por que não?

— Porque nunca termina bem quando você me toca. Porque quando você me toca, merda... eu... penso coisas idiotas e quero coisas idiotas e... então... tipo... não faz isso...

Dou um passo à frente e ele se encosta na porta do armário. Quando coloco minha mão no meio do peito dele, ele puxa o ar com força e trava a mandíbula.

— Não sei do que você tem tanto medo. Não sou a Ada.

O rosto dele endurece.

— Que porra você sabe sobre a Ada?

Respiro fundo.

— Nina me contou a história. E das outras meninas. E Fernanda. — Ele solta um suspiro pesado e eu me aproximo um pouco. — Não fica bravo. Eu a forcei.

Os punhos se fecham nos braços repousados ao lado do seu corpo.

— Ainda assim não era para ela te contar porra nenhuma.

— Eu queria saber. — Deslizo minha outra mão para o ponto do seu peito onde sinto o pulsar frenético por baixo da superfície. — E agora compreendo um pouco melhor por que você resiste tanto em namorar novamente. O que a Ada fez com você foi horrível. Mas eu não sou ela. Não sou nada como ela.

Ele olha para mim com menos raiva, foi substituída por cansaço e resignação. Como se ele já tivesse tido essa conversa em sua cabeça, muitas vezes.

— Você não entende — ele começa. — Não importa que você não seja nada como ela. Alguma parte de mim pensa que você é, e essa parte está só... esperando... para que tudo fique uma merda de novo. Não tem lógica, mas não consigo evitar. E por mais que eu tenha medo de você me magoar, tenho mais medo de eu magoar você. O que aconteceu com Fernanda? Não posso repetir isso com ninguém, especialmente não com você.

Ele acha que está tentando me proteger, mas, como alguém que passou a vida toda morrendo de medo de errar, eu definitivamente sei, sem a menor dúvida, que sou a pessoa certa para ele.

— Matteo, nenhum relacionamento está livre de riscos. E mesmo que você ache que pode ficar afastando as pessoas para sempre, estou aqui para dizer que você não vai conseguir mesmo.

Roço minhas mãos em seus braços, seus bíceps, repousando sobre sua pele quente e suave.

— O negócio é que — ele diz, olhando para mim enquanto experimenta pegar minha bochecha — por mais que você me assuste pra caralho, e por mais que eu saiba que um de nós, se não os dois, vai se arrepender completamente... eu quero não conseguir afastar você.

Nós nos encaramos por longos minutos e, quando olho no fundo de seus olhos, vejo o segundo exato em que ele toma sua decisão. Paro de respirar quando seus dedos se fecham no meu cabelo. Então ele se inclina, sua boca pairando sobre a minha, ar quente e doce soprando em meu rosto enquanto o tempo para.

— Olhar assim para mim não é justo — ele cochicha. — Merda, nem um pouquinho.

Em seguida, o espaço entre nossos lábios some, e ele está me beijando, um beijo intenso e cheio de desejo. Nossa respiração pesada soa incrivelmente alta em minhas orelhas. Nós nos beijamos desesperadamente, lábios colados e pressionados e encaixados como se tivessem sido feitos só para isso, se abrindo apenas para permitir pequenos gemidos.

O efeito que ele tem em meu corpo é instantâneo e poderoso, e eu me aproveito ao máximo do fato de ele estar sem camisa. Minhas mãos estão em todo lugar. Em seus ombros largos e nos braços. Em suas costas e nas omoplatas.

Até sobre suas costelas e seu abdômen.

Ele grunhe na minha boca e me explora, tão ávido quanto eu.

— Jesus... Luna.

Ele me beija sem pudor, apaixonadamente, e eu sinto que, depois de dar tantos passos para trás, estamos enfim seguindo adiante. Em direção a quê, eu não faço ideia, mas só saber que ele está aberto à experiência é melhor do que qualquer sensação que já tive.

— Quis fazer isso a noite toda — ele diz, ofegando entre os beijos. — Ficar longe de você foi cansativo pra caralho.

Não sei como começamos a caminhar em direção à cama, ainda beijando, profunda e freneticamente. E antes que eu possa me dar conta, estou deitada de costas com ele entre minhas coxas. Eu me agarro a ele enquanto ele se esfrega em mim, lenta e insistentemente.

— Ai, Deus. Isso.

Ele afunda a cabeça no meu pescoço e me chupa. Ele se move pela minha garganta e meu peito, onde pega meus seios e continua a pressionar seu corpo contra o meu, acabando com minha capacidade de respirar.

Mexo meu quadril para me encaixar no dele. Agarro firme sua bunda para puxá-lo para mim com mais força.

— Merda. — Ele grunhe no meu ombro e congela. O quarto está em silêncio, tirando nossa respiração entrecortada.

— Que foi? — pergunto, agarrando seus ombros enquanto meu coração acelera mais do que pode.

— Nada — ele responde, ainda sem se mover. — Só me dê um minuto. Não se mexe.

No meu íntimo, estou empolgadíssima em conseguir afetá-lo tanto assim. É bom saber que nossa atração é definitivamente mútua.

— Fala comigo — ele pede enquanto abaixa a cabeça no meu ombro. — Qualquer coisa para me distrair da porra do tesão que você é.

— Hum... tá, sinto muito pela coisa com seu pai esta noite — começo enquanto acaricio suas costas com delicadeza. — Ele foi totalmente sem noção.

E eu tenho certeza de que não deixaria passar dois anos sem dizer “eu te amo”.

Isso é ridículo, se você fosse meu, eu diria eu te amo todos os dias. — Inspiro rapidamente. — Quer dizer, estou falando se eu fosse seu pai, entende? Se você fosse meu filho eu falaria isso. Não estou dizendo que eu te amo. Não estou dizendo isso. Só que...

— Não achei que estivesse... — Ele sorri. — Acho que é melhor você calar a boca e me beijar.

Eu o levanto um pouco, empurrando-o em suas costas.

— Ah, se você insiste.

Ele me puxa para si, e estamos nos beijando novamente. Parece que estou num sonho gostoso e erótico que não quero que termine nunca.

O beijo fica mais frenético, bocas e mãos se movem ávidas até que ouvimos uma voz agoniada.

— Ai, Deus, gente, pôôôôô! Na minha cama, não!

Levantamos o olhar e avistamos Ramiro na porta, se balançando como se tivesse com síndrome de abstinência alcoólica.

— Não receberam a mensagem que ninguém pode transar na minha cama esta noite? Essa colcha da Guerra nas Estrelas é uma relíquia!

— O que você quer, Ramiro? — Matteo suspira enquanto eu seguro um riso.

— Vocês precisam descer — ele se inclina na porta e derruba cerveja. — Saiu a primeira crítica do nosso espetáculo e... bom... fala umas coisas bem feias sobre vocês dois.

Matteo e eu trocamos olhares, com pânico e medo passando pelo nosso rosto.

— Tô zoando vocês! — Ramiro ri. — É simplesmente sensacional. Levantem a bunda daí para eu ler para todo mundo. Vem!

Ele sai cambaleando. Matteo resiste, mas sai de cima de mim e pega uma camiseta qualquer do armário. Veste e a ajeita com uma careta. Tem uma grande cruz vermelha e diz: “Doador de Orgasmos”.

— Bem, pelo menos peguei uma que vai direto ao ponto.

Balanço a cabeça e rio enquanto me endireito.

Ele ignora a risada e coloca uma mão em cada lado do meu rosto antes de se inclinar e me beijar.

— Não vou te beijar na frente deles — ele avisa. — Ou segurar sua mão. Não quero que fiquem falando de nós. Imaginando coisas.

— Tá — respondo, um pouco decepcionada por ter de esconder o que sinto por ele. — Mas Ramiro não vai contar a eles que a gente tava se pegando?

Ele balança a cabeça.

— No estado em que ele está provavelmente se esqueceu disso cinco segundos depois que saiu do quarto.

Ele me beija novamente, então caminhamos escada abaixo, tentando ignorar os cochichos do pessoal quando aparecemos juntos.

— Até que enfim! — Ramiro anuncia. Ele silencia todo mundo quando larga a cerveja e pega as páginas que imprimiu. — Tá, escuta, gente. Esta resenha é do Martin Kilver, do On-line Stage Diary. Ele é notoriamente difícil de impressionar, então tenham isso em mente quando ouvirem o que ele tem a dizer.

A sala toda fica em silêncio e posso sentir Matteo tenso ao meu lado enquanto

Ramiro começa a ler:

— “Em cada produção de uma peça clássica de Shakespeare, os atores correm o risco de imitar e recriar muito do que já foi feito. Na produção mais recente de Romeu e Julieta, da Academia Grove de Artes Dramáticas, isso não poderia estar mais distante da verdade. A produção é econômica e moderna, o que em si não é inovador. O que é revolucionário é que, depois de ver incontáveis produções no decorrer dos anos, eu finalmente acredito na verdade e no poder de dois jovens apaixonados. Seria pouco dizer que isso deu a este crítico uma das noites mais empolgantes que já passei no teatro.”

Há murmúrios de surpresa e leves aplausos, e Ramiro sorri antes de continuar:

— “A diretora Juliana moldou seus dois jovens encarregados da tarefa numa parceria afiada, poderosa e empolgante, e ainda que demonstrem extrema maturidade em suas performances, não perdem nada da inconsequência da juventude que é central à história.”

Mais gritos de aprovação. Sinto a leve pressão da mão de Matteo na minha lombar.

— Tá, falem baixo — Ramiro pede. — Estamos chegando à melhor parte. — Ele pigarreia: — “Apesar de o elenco todo ser realmente excepcional, menção especial deve ser feita a Aiyah Sediki como a ama, que traz uma maravilhosa noção de nobreza ao papel; e Simon Alvarez como Mercúcio, um papel que é frequentemente interpretado como bidimensional em sua impetuosidade, mas no qual esse ator introduz uma surpreendente e grata sensibilidade.”

Há fortes gritos de aprovação e Aiyah e Simon sorriem. Bato palmas também, muito orgulhosa.

Ramiro lança para nós um olhar consciente antes de continuar.

— “Mas o maior trunfo da produção é a escolha dos dois protagonistas: Matteo Balsano como Romeu e Luna Valente como Julieta.” — O povo assobia e grita, e meu rosto fica vermelho-vivo. — “Ao interpretar Romeu, sr. Balsano traz ao papel uma vulnerabilidade arrepiante que atua diretamente contra a acre prosa florida que o personagem tem de proferir. Sua energia, intensa como a de uma pantera, é uma revigorante mudança dos Romeus vaidosos e imaturos que vi no passado, e prevejo que, se essa performance servir de termômetro, o sr. Balsano terá um futuro brilhante como profissional.”

Engulo um nó na garganta quando o orgulho de Matteo se acumula dentro de mim. Eu me viro para olhá-lo, com olhos marejados e emocionada. Quero abraçá-lo e cochichar o quão orgulhosa estou, mas isso terá de ficar para depois.

Olho de volta para Ramiro, que agorá está me encarando.

— “Luna Valente como Julieta é igualmente convincente e de fato sintetiza uma heroína do século xxi. Linda a vigorosa, sua Julieta não é uma flor murcha. É uma mulher determinada e apaixonada cuja força fará a plateia se apaixonar por ela tanto quanto seu condenado Romeu. A srta. Valente exibe uma impressionante gama emocional em sua apresentação bem afinada e tem o que pode somente ser descrito como ‘brilho de estrela’.”

Tento engolir, mas estou engasgada demais. Aperto a mandíbula para conter o choro. E quando sinto os dedos de Matteo tocarem gentilmente os meus agradeço por ele estar aqui.

— “Mas”— Ramiro continua, chegando ao trecho final —, “por mais excepcionais que esses dois jovens atores sejam por si sós, é sua incrível química juntos o que realmente faz a produção decolar. Pois em nosso cínico mundo moderno, tomado por uma sufocante taxa de divórcios e ideais descartáveis, não é fácil convencer a plateia do poder do amor verdadeiro. Bem, estou aqui para dizer que esses dois conseguiram lindamente, e eu desafio qualquer um que testemunhe essa história de amor no palco a sair intocado por sua paixão extraordinária. Sem dúvida, o que fez esse crítico calejado desejar que houvesse mais amor verdadeiro no mundo.”

O povo todo faz “ohhhhh” em uníssono, e, quando olho para Matteo, juro que ele está tão vermelho quanto eu. A sala explode em falatórios, todos discutem a resenha e o que ela significa, mas estou chocada demais até para puxar conversa.

Ramiro pega o celular e manda Matteo e eu posarmos para uma foto juntos. Sem mesmo refletirmos sobre aquilo, a gente se abraça e sorri.

Depois do flash, Ramiro nos mostra a foto.

Ficou linda.

Nossos sorrisos ficaram maravilhosos. A foto me faz acreditar que nunca na história do mundo existiu um casal tão feliz quanto nós dois neste exato momento.

Somos duas estrelas.


Notas Finais


Sem palavras.
Descobrimos que Ada foi uma namoradinha de escola, que fez uma tremenda cagada traindo o Matteo, ela tendo um homem daqueles, e trai ele, vá entender.
Teve a reação dele, depois que rolou as coisas com o pai.
A melhor crítica que se pode existir.
E Jesus, aquele momento dos dois do quarto do Ramiro, uuuuuui, adoro.
Seguinte gente, daqui a pouco posto o próximo capítulo, e ele será o último do fim de semana meus amores.

Beijinhos 😗❤


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