História Missão De Senar - As Crônicas De Nihal - 2 Temporada - Capítulo 22


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Luta, Magia, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Desculpa pelos erros

Capítulo 22 - A Tentação Da Morte


Nihal esperara fervorosamente que a conquista da Sombra Inextinguível não deixasse resquícios, mas não foi bem assim. Desde a noite em que enfrentara o abismo, vivia inquieta e as imagens do pesadelo voltavam amiúde para atormentá-la. O que eu fui despertar? Enquanto voava na garupa de Oarf rumo à Terra do Vento e deixava para trás o vilarejo onde passara com Laio as últimas duas semanas, Nihal esperou ser capaz de levar a cabo aquilo para o qual se preparara, sem deixar de ser ela mesma.

— Conseguiu esclarecer as idéias? — Ido esperava por ela na entrada da tenda, de cachimbo na boca.

— Sem dúvida alguma — mentiu ela. O gnomo olhou para ela. 

— Está muito pálida. 

— Deve ser o cansaço. Ido bateu o cachimbo contra a sola da bota, deixando cair no chão uma pitada de cinzas.

— Está na hora do almoço. Vamos comer alguma coisa. Sentado a uma rústica mesa do grande pavilhão que servia de refeitório, entre uma colherada e outra de sopa, Ido fez a Nihal o resumo da situação. Durante a sua ausência, haviam levado adiante o sítio, sem entretanto ganhar um só palmo de terreno. Os combates começavam ao raiar do sol e só paravam quando as sombras se alongavam na pradaria. Havia muitos mortos, de ambas as partes, mas não parecia haver qualquer solução para o impasse.

— Ao que parece — concluiu Ido —, a nossa única esperança é forçá-los à rendição pela fome.

— E Dola? — perguntou Nihal com displicência.

O gnomo continuou a sorver ruidosamente a sopa enquanto os olhos de Nihal fitavam-no interrogativos. Deixou a colher na tigela.

— Foi-se embora.

Nihal teve um pequeno estremecimento. 

— Como, embora? Quando? 

— Ontem à noite.

Durante aquele tempo todo o guerreiro tinha feito o que bem queria no campo de batalha, ceifando vítimas e espalhando morte e terror, pois ninguém parecia capaz de detê-lo. As espadas não conseguiam arranhar a sua armadura, as lanças resultavam inúteis, e, quando os arqueiros atiravam contra ele, parecia capaz de mexer-se entre as setas, por mais numerosas que elas fossem. Então de repente, na noite anterior à volta de Nihal, no acampamento, ecoara um grito agudo, desumano, parecido com o de uma ave de rapina. Assim como muitos outros, Ido saíra para olhar. Acima das barracas via-se uma grande sombra negra, ameaçadora. Gritava, gritava e ria. Uma risada escarnecedora.

— Eu e Ried saímos em perseguição, mas ele foi queimado de raspão por uma labareda...

Nihal arregalou os olhos. Ried era um dos mais valorosos Cavaleiros de Dragão da base.

— Depois Vesa foi ferido. Em outras palavras, tivemos de voltar — resumiu brevemente Ido.

— Vesa está ferido? — perguntou Nihal incrédula. Vesa sempre conseguira sair ileso de qualquer batalha.

— Pois é, e não somente ele — respondeu Ido. Levantou a manga do casaco e mostrou uma atadura. — Nada de grave. Digamos que me assou como um frango — brincou o gnomo, mas o tom era amargo.

— E agora?

— Agora nada. O importante é que foi embora e não teremos mais que enfrentá-lo. Concorda comigo, não é? — concluiu, fitando-a fixamente nos olhos.

Nihal desviou o olhar. Não, ela não concordava. Tinha encarado o inferno para enfrentar aquele maldito. E era isso que ela iria fazer, mesmo que tivesse que persegui-lo até a lua.

Ido provavelmente intuiu alguma coisa, pois soltou um sonoro suspiro e mergulhou com raiva a colher na sopa.

— O que foi? — perguntou Nihal.

— Eu que pergunto — respondeu o gnomo com frieza. — Pensei ter-me explicado de forma bem clara. Mas tenho a impressão de que a sua atitude continua a mesma. Nihal afastou a tigela que tinha diante de si e esticou o corpo para Ido.

— Por que fica tão irritado só de pensar em eu voltar a lutar com ele? Diga-me por

quê!

Ido fitou-a com olhos de gelo.

— Não a treinei para que fosse cortada em pedaços por aquele bastardo, Nihal. — Em seguida levantou-se e dirigiu-se à saída do refeitório sem olhar para trás.

No começo Nihal não participou das batalhas. Preferiu treinar sozinha até recuperar completamente as forças. Ela mesma estava surpresa com sua paciência. Só um ano antes teria montado logo em Oarf para seguir ao encalço de Dola. Agora, no entanto, esperava, acalentando propósitos de resgate. E no fim a sua espera foi premiada.

Certo dia chegou ao acampamento um capitão, enviado como mensageiro das guarnições acampadas no bosque de Herzli, às margens do Saar, o Grande Rio. Ao que parecia, Dola chegara à região da Floresta e lá fixara a sua base. Estava no comando de um imponente exército e já atacara os postos avançados das Terras livres na Terra do Vento.

— Sabe que aquela região está um tanto desprotegida, devido à proximidade com o Saar, e receamos que queira marchar contra a Terra do Vento a partir de lá, para em seguida penetrar na Terra da Água pelo leste — relatou o militar ao general do acampamento e a todos os Cavaleiros de Dragão reunidos para ouvi-lo.

Logo que ouviu mencionar o nome de Dola, Nihal sentiu o coração pular no seu peito. A hora chegara.

— Precisamos reforçar as nossas linhas na região da Floresta, não me parece haver outra possibilidade. Poderíamos deslocar metade das nossas tropas — propôs um Cavaleiro.

— Não me parece uma idéia tão boa — disse Ido. — Não podemos deixar desguarnecido o nosso território. Ninguém nos assegura que Dola espere justamente isto: um enfraquecimento das defesas para nos atacar.

O capitão interrompeu-o:

— Cavaleiro, estamos morrendo como moscas por lá. Não sei por quanto tempo mais poderemos resistir.

fleuma. — Qual é a sua proposta, Ido? — perguntou o general. O gnomo não perdeu a

— A Terra do Vento é a menor entre todas as Terras e tem uma frente de batalha relativamente pequena: na garupa de um dragão pode ser percorrida toda em apenas dois dias. Creio que poderíamos nos limitar a enviar reforços. Um ou dois Cavaleiros, no comando de um destacamento. Poderemos ao mesmo tempo distribuir melhor as nossas tropas ao longo da fronteira para tentar um ataque a ocidente, enquanto Dola ainda estiver empenhado no bosque.

— Não é fácil manter Dola sob controle, e acredito que você saiba disso melhor do que qualquer outro — observou o general.

Foi então que Nihal levantou-se do banco de madeira em que estava sentada. — Eu cuidarei disso — disse com calma.

Ido lançou-lhe um olhar de fogo mas ela permaneceu impassível.

— Confiem-me uma guarnição e eu irei trazê-lo diante de vocês. Alguém deu uma sonora risada.

— Deixe disso, Nihal! Não banque a valentona. Ninguém conseguiu, até agora, ser páreo para Dola.

— Estou errado ou foi ferida justamente por ele não faz muito tempo? — disse outro cavaleiro.

— Aprendi com o meu erro — respondeu Nihal, séria. — Se seguirmos o plano de Ido, só precisamos de alguém que o mantenha atarefado, não é isso? E de forças descansadas que possam ajudar o sítio perto do Saar. Pois bem, acho que sou mais do que suficiente para esse tipo de missão. O general parecia perplexo. — Espero que não queiram concordar com uma loucura dessas! — esbravejou Ido. — Quem propôs essa loucura foi você mesmo — observou o superior.

— Sim, claro, mas... Nihal é Cavaleiro há muito pouco tempo! Não tem a experiência necessária. Querem mesmo entregar o destino da Terra do Vento nas suas mãos?

Nihal sentiu o sangue ferver e abriu a boca para responder, mas o general fez um sinal para que se calasse.

— O seu plano parece-me mais do que funcional para as nossas necessidades, Ido. E Nihal já demonstrou ser uma valente guerreira. Será portanto ela a partir. É a minha decisão e não quero mais discussões.

Ido sacudiu a cabeça.

O coração de Nihal exultou.

— Fico-lhe grata pela confiança que me demonstra, general.

A reunião dissolveu-se e aos poucos os cavaleiros foram embora. Nihal, por sua vez, ficou na sala do comando para definir os detalhes da missão. Era a primeira vez que lhe confiavam um destacamento, mas não era certamente por isso que estava excitada. Não via a hora de partir.

Voltou à sua tenda quando já era tarde e encontrou Ido sentado, fumando nervosamente o cachimbo diante da entrada. Logo que a viu chegar, o gnomo ficou de pé e apontou o indicador na cara dela.

— Escute aqui, mocinha. Tente só sair deste acampamento com a sua tropa, e lhe garanto que não a deixarei voltar para cá inteira!

— O que diabo está havendo com você? — desabafou Nihal exaltada. — É uma missão como qualquer outra, afinal!

brasas. O gnomo jogou o cachimbo no chão, riscando a escuridão com um rastro de

— Não é não, e você sabe muito bem! — gritou com o rosto todo vermelho.

Nihal ficou espantada. Já tinham discutido muitas vezes, mas nunca o vira tão descontrolado antes. Alguém berrou:

— Silêncio! Está na hora de dormir! — E se pôde ver umas cabeças espiando da entrada das outras tendas.

Ido curvou-se para apanhar o cachimbo, depois fitou Nihal com frieza.

— Faça como quiser, escolha o seu lugar para morrer — concluiu, e então encaminhou-se para a própria barraca.

Na manhã seguinte, Nihal aproximou-se da tenda de Ido e pediu para entrar, mas não teve resposta. Insistiu, mas lá dentro só continuou a reinar um obstinado silêncio.

Ela e Laio só levaram mais umas poucas horas para partir.

Nihal chefiava uma tropa de uns cem soldados, muito mais do que poderia esperar. Por um momento sentiu-se perdida, achando que a missão estava além das suas capacidades. E depois pensou que teria assumido aquela missão para conseguir a sua vingança, então sentia-se pior ainda. Pois é, a vingança. De repente compreendeu plenamente a gravidade do que estava para acontecer. Talvez Ido estivesse certo.

séria. — Posso fazer uma pergunta? — disse Laio a certa altura. A sua voz era bem

A jovem ficou na defensiva. — Pode.

— Por que quis meter-se nesta situação?

— Não entendo o que quer dizer — respondeu, fazendo-se de desentendida.

— A última vez que entrou na briga com Dola quase não saiu de lá viva. O que está procurando? O que está tentando provar?

— Você concorda com Ido, não é Laio? — disse ela irritada. Laio deu de ombros, tentando se esquivar.

— Não, Nihal. Nada disso.

Quando do acampamento no bosque de Herzli viram chegar uma tropa sob o comando de uma mulher, uns ficaram furiosos e se desesperaram, outros riram, mais alguns simplesmente entregaram-se à vontade dos deuses.

No pequeno acampamento respirava-se ar de morte. Tudo parecia desbotado, como um céu deslavado por chuva demais. Havia umas vinte tendas, todas da mesma idêntica e lamacenta cor indefinida. Os feridos eram muitos, e os que estavam bem pareciam mortalmente cansados. Não havia mulheres nem crianças, somente homens na solidão da guerra.

O general acompanhou Nihal numa volta de reconhecimento. Não se tratava certamente de um campo de batalha ideal. Nihal nunca lutara na selva e a vegetação do bosque era muito espessa.

Lembrava-se daquele lugar: atravessara-o ao fugir de Salazar em chamas. Se aguçasse os ouvidos, podia ouvir o estrondo possante do rio Saar.

Chegaram finalmente ao topo de uma colina, de onde Nihal pôde ter o quadro exato da situação: uma parte da floresta parecia esfolada, com feridas de terra nua a marcá-la como chagas. Partiam de um núcleo negro central: a base do exército inimigo. Era um acampamento ordenado, com uma tosca torre no meio. A maioria dos fâmins estava naquela zona, mas percebia-se que muitos estavam escondidos entre as árvores.

— O acampamento já existia. E até a semana passada era nosso. Quanto à torre, quem mandou construir foi Dola: é onde ele mora, junto com aquele infernal monstro negro. Já faz dois dias que se trancou lá. Não se mexe, não ataca, não faz coisa alguma. Parece estar esperando — disse o general.

Então era isso. O homem que tinha arrasado a sua cidade estava ali. — Quer dizer que teremos de desentocá-lo — concluiu Nihal.

Não foi nada fácil convencer o general. Os seus homens acabavam de sair de um duro combate, as perdas tinham sido consideráveis e havia feridos demais.

— Somos poucos e esgotados: não temos a menor esperança de vitória. — Os meus homens estão descansados — rebateu Nihal. — Mas é uma loucura, Cavaleiro.

— Amanhã teremos uma noite sem lua, atacaremos enquanto estão dormindo. Quanto a Dola, o senhor pode ficar descansado: não irá levantar um dedo sequer contra os seus homens. Só pense em atacar o acampamento deles e acabar com os fâmins. Mas precisam ser bem rápidos, pois a surpresa é a única arma de que dispomos.

O general olhou para ela, cético.

— Garanto-lhe que o acampamento voltará a ser nosso — disse Nihal.

O dia seguinte passou tranqüilo, mas Nihal sabia muito bem que havia alardeado com o general uma segurança que na verdade não tinha. Foi para o bosque sozinha e deixou Laio encarregado de polir a sua espada e aprontar a armadura. Afastou-se o bastante para não ouvir os ruídos do acampamento e aproximou-se do estrondo majestoso do Saar. Obrigou-se a esvaziar a mente, repetiu a si mesma que se tratava apenas de uma missão como qualquer outra, nada mais do que isso.

Mas dentro de si sabia que a luta que esperava por ela não era apenas um combate entre o exército das Terras livres e o do Tirano. Nem dos mortos de Salazar, nem do povo dos semi-elfos. Era a luta dela. E ela, o Cavaleiro de Dragão Nihal, iria levá-la a cabo sem deixar de ser ela mesma. A qualquer custo.

A noite pareceu-lhe demorar uma eternidade para chegar.

Quando a escuridão dominou o céu de verão, Nihal recolheu-se na tenda que lhe havia sido destinada e sentou-se no chão de pernas cruzadas. A espada, polida por Laio com o costumeiro cuidado, brilhava diante dela. Um arrepio correu pelas suas costas. A hora de recitar a fórmula chegara. Enxugou o suor da fronte e percebeu que suas mãos tremiam. Estava com medo.

Lembrou-se da primeira vez em que tentara evocar a Sombra Inextinguível. E se não conseguisse controlar o feitiço? Se acabasse precipitando no abismo e enlouquecendo?

Fechou os olhos e procurou acalmar-se. Esvazie a mente. O coração refreou a sua corrida. Esvazie a mente. A respiração tornou-se regular. Só então evocou a Lâmina de Luz. Ficou olhando para aquela pequena chama como se a visse pela primeira vez: uma esfera perfeita, de um azul pálido, inocente.

Depois, com a voz rouca, começou a ladainha.

As imagens infernais não se fizeram esperar. Rostos desfigurados e membros disformes investiram contra ela, atropelando-a. Vrasta Anekhter Tanhiro. Vrasta Anekhter Tanhiro. Gritos monstruosos e risadas de lamento explodiram em sua mente. Vrasta Anekhter Tanhiro. Vrasta Anekhter Tanhiro. Nihal sentiu-se envolver por uma mortalha de trevas. Piscou várias vezes as pálpebras, mas os olhos abertos ou fechados não faziam qualquer diferença. Estava entregue, possuída. O terror era insuportável, a loucura estava ali, bem diante dela. Caiu para trás batendo os dentes. Percebeu que estava a ponto de perder os sentidos. E então gritou, gritou e gritou mais ainda, e com um esforço desumano arrancou-se daquelas trevas.

Quando voltou a abrir os olhos, molhada de suor, o globo negro rodava lentamente na palma da sua mão.

— O que é isso?

A voz de Laio chegou num sussurro.

No limiar, o rapaz olhava para ela de olhos arregalados. Nihal estava sentada no meio da barraca, pálida e rígida, de pescoço deitado para trás e olhos revirados. A luz artificial esculpia sombras no seu rosto.

— Ouvi-a gritar — murmurou. — Então entrei e...

Estava tão pálido que quase resplandecia sobre o fundo escuro da tenda.

— Está tudo bem, Laio — assegurou Nihal falando baixinho, enquanto a Sombra Inextinguível queimava a sua pele.

Esticou o braço para a espada e a esfera desapareceu na lâmina, para tornar-se uma coisa só com o negro cristal. Então levantou-se, sacudida por um tremor que não conseguia controlar. Estava apavorada, esgotada depois de tudo o que enfrentara naqueles poucos instantes. Cada vez que emergia do abismo, uma parte dela ficava lá embaixo. Aproximou-se de Laio e abraçou-o.

— O que houve? — perguntou ele meio perdido.

— Recitei uma fórmula. Um feitiço difícil de evocar... e um tanto doloroso. Laio permaneceu em silêncio, acariciando-lhe desajeitadamente as costas.

Quando recobrou a calma, Nihal afastou-se tentando evitar o olhar do rapaz, mas ele segurou-a pelo braço.

— Que fórmula, Nihal?

— Confie em mim, Laio. É a única maneira de vencer Dola. Está tudo bem — respondeu ela, libertando-se da dor.

— Como pode dizer que está tudo bem? Quando entrei você tinha uma expressão... não era você! Parecia um fantasma, Nihal!

Laio continuava a fitá-la de olhos esbugalhados. Nihal deixou-se cair no catre e passou as mãos no rosto. Ainda estavam trêmulas.

— Preciso do seu apoio, Laio. Preciso saber que confia em mim e que acha que posso conseguir.

abraço. O rapaz nada mais disse. Sentou-se ao seu lado e apertou seus ombros num

Quando as tropas alcançaram o morro logo acima do acampamento inimigo, Nihal aproximou-se do general.

— Tudo acontecerá conforme os planos. Só lhe peço que me dê proteção enquanto mantenho Dola ocupado. Mavern anuiu.

Nihal baixou então a viseira do elmo e tudo se acalmou. Estava na hora de atacar. Estava na hora de concentrar-se e de afastar qualquer pensamento que não fosse o da luta. O general levantou a espada e quando a baixou Nihal e Oarf já haviam levantado vôo.

Nihal dirigiu-se sem demora para a torre central. Se uma parte dela fremia no desejo da luta, outra ainda acalentava a impossível esperança de pegá-lo de surpresa e capturá-lo assim, sem duelo.

Um golpe de cauda de Oarf derrubou parcialmente a fortificação, que se precipitou sobre as barracas dos soldados. Nihal ouviu os berros guturais dos fâmins esmagados pelos escombros e logo a seguir os gritos dos seus homens que avançavam.

Talvez Dola não estivesse na torre. Nihal olhou a sua volta à procura dele, mas o gnomo e o dragão negro pareciam ter desaparecido. Oarf rugiu, enquanto descarregava a sua fúria no que sobrava do torreão. Onde está aquele maldito, onde? Nihal deu dois amplos giros sobre as ruínas sem encontrar o que procurava. Então ouviu alguma coisa se mexer. Um arquejar lento e possante, como um enorme fole, ressoou entre os escombros. Dois tições em brasa iluminaram a escuridão da noite. Uma cabeça negra surgiu das ruínas. O dragão libertou-se dos pedregulhos amontoados em cima dele com uma sacudida e pisoteou o que restava da torre. Dola erguia-se na sua garupa, armado de uma longa lança.

— Estava procurando por você, Dola! — gritou Nihal, enquanto a raiva explodia em seu peito. — Vim em busca da sua cabeça!

O guerreiro ficou parado um instante, com seus olhos de furão apontando para o céu. Debaixo do seu elmo ouviu-se uma voz desdenhosa:

— Você é mais resistente do que imaginara, garoto. E também mais idiota.

— É o que vamos ver, seu bastardo — murmurou Nihal. Desembainhou a espada e aquele simples gesto, que já fizera mil vezes, bastou para afugentar os malévolos sussurros que ofuscavam o seu pensamento, a exaltação do seu coração, o desejo de vingança, tudo. Sobrou-lhe somente a gélida determinação do cavaleiro.

O dragão levantou vôo de repente e Dola investiu, lança em riste, contra Nihal. Oarf esquivou o golpe e ela foi suficientemente rápida para acertar a fera negra que escancarava a boca diante dela.

Dola voltou à carga, mas desta vez Nihal estava preparada. A verdadeira batalha estava a ponto de começar.

Nihal estava ciente de que o gnomo possuía uma força sobre-humana e uma rapidez muito maior do que a dela, mas enfrentá-lo deixou-a sem fôlego. Só conseguia rechaçar os ataques, e mesmo assim com um enorme desgaste de energia. Começou a usar ambas as mãos, procurando manter-se em equilíbrio em cima de Oarf, que era forçado a contínuas mudanças de direção para esquivar-se das mordidas do dragão negro.

Só haviam passado uns poucos minutos desde o começo do duelo quando Nihal não viu a lança chegar. Uma estocada penetrou sem dificuldade na couraça, rachou o cristal e feriu-a de raspão no ombro. Teve de se afastar ofegante.

Dola permaneceu imóvel em sua cavalgadura.

— Da última vez fui bom demais com você — gritou, enquanto agitava no ar a ponta da lança sangrenta. — Por enquanto já me basta sentir o gosto do seu sangue, moleque, mas juro que vou cortar os seus membros um por um — concluiu rindo.

Nihal sentiu o sangue subir à cabeça.

Oarf. — Sou um Cavaleiro! Não me chame de moleque! — berrou. Em seguida incitou

Agora podia vê-lo direito: cada pedaço da sua armadura, cada fenda na qual poderia afundar a lâmina. Segurou novamente a espada com ambas as mãos e redobrou a velocidade dos movimentos, defendendo- se com precisão. Mas ainda não encontrava um jeito de atacar, precisava de paciência, de muita paciência. Não fazia idéia do que estava acontecendo lá embaixo. Não ouvia o barulho da batalha, somente o clangor da sua espada contra a lança. Vez por outra uma espetada riscava sua pele e o sangue escorria sob a sua armadura, mas a dor só durava um instante, não bastava para detê-la. Tinha visto o inferno de perto só para derrotar Dola. Esquivou-se de mais uma estocada e voltou a recuar, mas desta vez o gnomo foi atrás. O dragão negro cuspiu uma labareda de fogo, depois outra e mais outra, enquanto Oarf batia as asas para subir ainda mais. Não demoraram a voar velozes nas alturas. Nihal retomou o fôlego, mas de repente ouviu a lança de Dola sibilar bem perto. Oarf não conseguiu desviar-se muito depressa e um rasgão desenhou-se no seu flanco. O dragão rugiu de dor e deu uma guinada.

— Calma, Oarf, calma — murmurou Nihal, mas sabia que não podia continuar daquele jeito. Preciso enfrentá-lo. Preciso enfrentá-lo agora!

Estavam sozinhos, um diante do outro. Aos seus pés, a floresta, acima deles, o céu estrelado. Nenhum som perturbava a noite, a não ser o canto ritmado dos grilos. Nihal deu-se conta do sangue que escorria na sua pele: Dola estava mantendo a promessa, ia matá-la aos poucos, um pedaço depois do outro.

O gnomo sacou a espada.

pedaços. — Assim lutaremos de igual para igual, e de igual para igual irei cortá-lo em

Sentia-se tão seguro que não se preocupava de dar-lhe esta vantagem. Mas se contra uma lança havia pouco que Nihal pudesse fazer, contra uma espada as coisas eram mais fáceis. A jovem esporeou Oarf e investiu contra o gnomo. Dola continuou imóvel, como se não desse a menor importância ao ataque. Quando já estava muito perto dele, Nihal levantou-se na garupa de Oarf e deu um golpe de cima para baixo, pegando Dola de surpresa. Apesar de apressada, a parada do gnomo foi eficiente, mas Nihal não pestanejou. Deu um pulo e caiu nas costas do dragão negro. Desferiu com toda a força que tinha um golpe cortante no flanco daquele maldito gnomo. Com um clarão de luz branca a lâmina penetrou na primeira camada da couraça e conseguiu finalmente chegar à carne.

Dola reagiu com um golpe lateral, mas Nihal foi muito ágil para evitá-lo. Fincou a espada no ombro do dragão negro, segurou a empunhadura com ambas as mãos e deixou- se deslizar até ficar pendurada no vazio. O animal soltou um lamento e Nihal apontou os pés contra o seu ventre até conseguir puxar a espada da ferida.

Precipitou-se no ar, mas Oarf logo a acudiu para interceptar a sua queda. Estava novamente na garupa. Tinha conseguido. Nihal explodiu numa risada feroz.

— Está com uma armadura um tanto ordinária, Dola! O Tirano não tem nada de melhor para oferecer aos seus guerreiros? — gritou levantando a espada. O sangue do dragão negro correu ao longo da lâmina misturando-se com o dela.

— Ainda é cedo para achar que venceu, seu moleque — respondeu Dola. Na sua voz Nihal percebeu um tremor de raiva.

O gnomo começou a dar um golpe depois do outro, seguidamente, com força, mas Nihal evitou-os pulando. Nesta altura já sabia o que fazer: tinha de recorrer à agilidade e concentrar-se em ferir o dragão. Uma vez no chão, teria mais possibilidade de sucesso. De repente, no entanto, um golpe acertou suas costelas deixando-a sem fôlego. Oarf desceu na mesma hora umas vinte braças para ela ter tempo de recobrar-se. Nihal já estava enfraquecida pelos ferimentos e o longo sangramento, aquele novo corte iria consumir as suas últimas energias. Preciso agir depressa. Tenho de acertar nele outra vez, já! Lançou- se a um novo ataque que levou adiante com fúria cega. Gritava e golpeava, golpeava e gritava, e quando a luz branca a ofuscava sabia que o golpe acertara no alvo. Oarf, por sua vez, apertava com os dentes o ombro do dragão negro já ferido pela espada de Nihal e não soltava a presa, enquanto o sangue jorrava aos borbotões.

Apesar de Dola estar ferido, a violência dos seus golpes não parecia diminuir. O gnomo acertava-a com a parte plana da lâmina, tentando derrubá-la, e Nihal sentia as próprias forças esmorecerem. Já não sabia se o líquido viscoso que a molhava era suor, seu sangue, o sangue do dragão ou o de Dola. Continuava a lutar cegamente, mas estava esgotada, com cada fibra do seu corpo dolorida. Perdeu o ritmo, afrouxou a pressão dos joelhos no dorso do seu dragão. Sentiu-se desmaiar.

Oarf percebeu e recuou com dois poderosos golpes de asa, arrancando com a boca um pedaço de carne do monstro negro.

Nihal recuperou o fôlego e conseguiu focalizar a imagem do adversário. A couraça de Dola estava rasgada em vários lugares e deixava ver o sangue que manchava a carne do gnomo. Ela estava pior. As suas feridas queimavam e tinha os olhos embaçados, mas não iria se render. Iria derrotá-lo, mesmo que lhe custasse a vida. O dragão. Preciso acabar com o dragão.

Não precisou dar qualquer ordem: com um urro Oarf pulou em cima do dragão negro e atacou-o furiosamente com garras e dentes. Os rugidos dos dois animais eram ensurdecedores, e o calor que soltavam com suas chamas aturdiu Nihal e Dola a ponto de torná-los dois guerreiros inermes, à mercê da vontade das suas cavalgaduras. A jovem mantinha-se na garupa de Oarf de qualquer jeito, enquanto o gnomo fazia o possível para incitar o seu dragão a reagir. Então, de repente, justamente quando parecia estar levando a melhor, Oarf desistiu da luta e fugiu.

— Pare! Pare, Oarf! — gritou Nihal. Olhou para trás. O monstro negro mal conseguia persegui-los e perdia sangue a cada batida das asas.

Oarf subiu no céu e só então deu uma súbita meia-volta para atirar-se em cima do inimigo. Nihal foi uma coisa só com o pensamento do seu dragão. Sim, isto mesmo, Oarf! Entendi! Estou pronta! Agora! Firmou-se apertando os joelhos e segurou a espada com ambas as mãos, agarrando a empunhadura como se fosse a de um punhal.

Oarf planou até perto da cabeça negra do dragão e Nihal afundou a lâmina com toda a força que ainda tinha.

Um violento borbotão de sangue jorrou do pescoço do animal. O dragão negro soltou um urro pavoroso, de dor misturada com raiva.

— Maldito! — gritou o gnomo e com um fendente rasgou uma asa de Oarf.

O monstro negro perdeu rapidamente altitude e desabou nas copas das árvores, levando consigo folhagem e galhos.

do outro. Oarf não demorou a fazer o mesmo, indo cair a umas poucas braças de distância

Por alguns instantes Nihal só viu um turbilhão de folhas e farpas de madeira, então caiu das costas do seu dragão e bateu no chão.

O que a trouxe de volta à realidade foi o assobio de uma lâmina.

— O seu atrevimento passou dos limites, garoto! — gritou Dola. A jovem mal teve tempo de rolar de lado: a espada do gnomo fincou-se no solo a um palmo da sua cabeça.

Ficou agachada entre as moitas, ofegante. A espada! Onde está a minha espada? Não conseguia contar ao certo as feridas do gnomo, mas eram muitas e algumas certamente profundas. Como pode ainda dispor dessa energia toda? Nihal começou a recuar, dobrada sobre os joelhos, com as mãos entre as folhas à cata da espada.

Dola mostrava-se confiante na vitória.

— Você está acabado, meu rapaz. Acabado — repetia enquanto avançava lentamente.

Nihal tropeçou em alguma coisa cortante. Um gemido saiu dos seus lábios e ela caiu para trás. Perdia sangue de um tornozelo, mas jamais uma ferida a deixara tão feliz.

Dola deu uma gargalhada.

— Poupe-me, eu lhe peço — murmurou ela.

— O que é isso? Agora está implorando? — sibilou o gnomo. — Isso não basta, Cavaleiro. Tente de novo, precisa inventar algo melhor.

— Deixe-me viver, eu suplico — implorou Nihal. Aproximou-se imperceptivelmente

dele.

— E por que deveria? Nihal prostrou-se no chão.

— Ficarei ao seu serviço, para sempre, farei qualquer coisa que o senhor quiser... — choramingou. Esticou o braço no chão até sua mão direita encontrar alguma coisa dura e fria. E então levantou-se com um pulo, segurando mais uma vez a espada.

Investiu contra ele, mas os seus golpes já não eram tão precisos, tinha a vista embaçada e a dor deixava-a sem fôlego. Continuaram duelando por muito tempo, enquanto

o som estridente das lâminas que se chocavam violentava o silêncio da noite.

Dola tampouco parecia estar imune ao cansaço. Começou a recuar. Errou uma defesa, depois mais outra. Agora! Acerte-o agora!

O gnomo não teve tempo de ver o golpe que estava chegando. A lâmina de cristal acertou-o no ventre e por um momento o bosque foi iluminado por um clarão branco.

Dola berrou de dor e a sua couraça ruiu ao chão aos pedaços. Apoiou-se numa árvore gemendo. Nihal manteve-se em guarda, mas um sorriso franziu seus lábios. Tinha conseguido.

A sua satisfação, porém, teve curta duração. Dola olhou para ela com desdém.

— Então? É só isso que sabe fazer? — disse e aí levantou mais uma vez a espada contra ela.

Os olhos de Nihal derramaram lágrimas de raiva. Não havia jeito de derrotá-lo. Ela já não agüentava mais. Não iria resistir a mais um assalto. Estava fadada a morrer pelas mãos do monstro que matara a sua infância.

Então aconteceu alguma coisa que a deixou pasma.

A Lágrima encastoada na empunhadura da sua espada começou a brilhar e a árvore na qual Dola se apoiava iluminou-se de repente, espalhando em volta uma luz prateada e terrível. As raízes saíram do solo, envolveram o corpo atarracado do gnomo e jogaram-no no chão. Os galhos retorceram-se até fechar-se sobre ele num abraço mortal.

Nihal observou a cena aterrorizada. A vista daquela grande árvore que se mexia tinha em si algo de sobre-humano, algo de poderoso e espantoso. Um Pai da Floresta a estava ajudando.

Viu a casca brilhar ameaçadora, as folhas tornarem-se afiadas como lâminas de facas e penetrar na pele de Dola, os galhos agitarem com violência o prisioneiro para então jogá-lo para longe.

Dola espatifou-se contra outra árvore e caiu de forma retorcida no chão. Pouco a pouco a luminosidade desapareceu e a grande árvore voltou a ser imóvel e silenciosa.

Nihal teve a impressão de ter perdido a noção do tempo. Não sabia se havia ficado horas ou apenas instantes parada ali, olhando aquele corpo desmaiado no chão. Quando voltou plenamente à realidade percebeu que tremia da cabeça aos pés e que na sua mente ecoava um único grito: “Mate! Mate! Mate!”

Aproximou-se lentamente de Dola. Estava a umas poucas braças de distância, mas pareceram-lhe milhas. Quando ficou em cima dele observou-o. Arquejava numa poça de sangue, mas ainda a fitava com olhos de fogo.

Nihal levantou a espada e fincou-a no ombro do gnomo, cravando-o no chão. O grito dele pareceu-lhe uma doce canção.

Só então tirou o elmo e jogou-o longe. Dola acenou um sorriso de escárnio. — Então era verdade: ainda existe uma da sua raça bastarda... Nihal ficou cega de raiva.

— Isso mesmo, ainda há uma, Dola — rosnou. — Chama-se Nihal da Torre de Salazar. Olhe bem para ela, pois será a mão dela a arrancar a sua vida. — Enquanto falava, encostou a ponta da lâmina na sua garganta.

— Lembro-me muito bem de Salazar. Queimava que era uma beleza... — murmurou

o gnomo. — Pode matar-me, jovem semi-elfo. Fique à vontade. Mas não se iluda: de nada adiantará para deter o Tirano. Não lhe bastariam mil vidas para matar a nós todos.

— Mate! Mate! — repetiam as vozes. Mas Nihal hesitava.

Bastaria tão pouco. Só precisaria pressionar a lâmina na sua garganta para sentir- me feliz. E teria cumprido com o meu dever. Tinha prometido. Não podia.

Quantos homens abati com uma simples estocada? Quantos fâmins já trucidei? Quantas agonias passaram pela minha lâmina? O que significaria uma morte a mais?

A mão que apertava a espada estava suada, a testa úmida de gotas geladas.

Nihal lembrou as palavras de Megisto: “Você quer vê-lo implorar, quer que lhe peça misericórdia. E quando estiver ferido aos seus pés, vai querer cortar a sua garganta e ver o seu sangue formando uma poça no chão. E quando ele estiver morto, você irá sorrir e achar-se-á finalmente vingada.” Não! Não! Não!

Deu um passo para trás, mal se segurando nas pernas trôpegas. Guardou a espada. 

— Outros decidirão qual será o seu destino, maldito — disse com um fio de voz. 

Dola fitou-a de olhos entreabertos.

— Está cometendo um grande erro, semi-elfo, um grande erro... — As suas palavras apagaram-se lentamente, enquanto seus olhos se fechavam.



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