História Mundo Paralelo - Capítulo 8


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Categorias Ashley Benson, David Luiz
Personagens Ashley Benson, David Luiz, Personagens Originais
Tags Ashley Benson, David Luiz
Visualizações 78
Palavras 3.541
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Festa, Ficção, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eiiiita, segura o forninho porque o capítulo tá pesado!
Eita, xiovana!!!
Boa leitura.

Capítulo 8 - Capítulo VIII. Desfalecendo.


Fanfic / Fanfiction Mundo Paralelo - Capítulo 8 - Capítulo VIII. Desfalecendo.

— Deus parece ter cuidado de você. 

— Na verdade, Ele enviou alguém para cuidar.

40 Minutos Antes.

Juiz de Fora, Minas Gerais. Condomínio Spinaville, São Pedro.

02h50min.

 

— DAVID! — a mulher levanta o mais rápido que consegue, entretanto, o atrito do asfalto com os pneus do carro lhe espancou de frustração ao tornar óbvio que não conseguira o impedir a tempo. Parte de si tentava convencer-se a acreditar que nada  faria Luiz mudar de ideia, entretanto, a empatia surpreendentemente parecia disposta a falar mais alto n’aquela noite em especial. Não entendia exatamente o motivo, tampouco, como seus pés afoitos conseguiram dar início a uma corrida de maratonista em dentro de cinco segundos sem direito a argumentação.

Internamente, ao reconhecer-se correndo, agradeceu por ser uma longa descida. E, no minuto seguinte, o arrependimento se faz presente por pensar apenas no próprio bem-estar. O fato de serem descidas íngremes tornava o trajeto ainda mais perigoso para Luiz. Portanto, prontifica-se a aumentar a velocidade ainda que julgasse incapaz correr mais rápido. Reúne a força que lhe resta e, com um sorriso repleto de desespero, a vista é preenchida pelo carro do jogador parecendo deslizar na estrada.

Merda — se antes tinha certeza de que não conseguiria entrar em batalha contra o corpo, Valentina decide ignorar quaisquer avisos dos músculos afirmando que, mais cedo ou mais tarde falhariam e estica as pernas para tentar correr mais velozmente. Era óbvio que não seria capaz de alcançar o veículo, mas haveria de tentar. Se David pudesse vê-la através do retrovisor, talvez a consciência pesasse e, por consciência ou simplesmente por pena, o sentimento o faria diminuir a velocidade na qual dirigia. — Eu odeio você, David Luiz — resmunga, tendo uma brecha para se perguntar o motivo de estar tão empenhada. Conhecia rasamente o zagueiro. Não tinha quaisquer sentimentos pelo próprio, apesar de ser boa companhia. Não costumava se importar com ninguém, mas um medo absurdamente doloroso lhe esmurrava o peito apenas com o pensamento de que algo de ruim pudesse acontecer ao homem.  

Ela fixa os olhos na Range Rover, tentando se convencer de que conseguiria fazer algo para impedi-lo de dirigir embriagado. Entretanto, o barulho estridente lhe faz perder o rumo por cerca de quinze segundos. Sente os joelhos cedendo e, em união com a velocidade na qual impulsionava o próprio corpo, Valentina despenca abruptamente contra o asfalto. Visualiza o céu girando, enquanto o chão lhe arranha a pele à medida que se movimenta em atrito contra o concreto. Não pudera fazer nada além de buscar raciocinar o mais rápido possível.

Um minuto e meio é o suficiente para Hernandez se reerguer, perpassando as mãos na roupa amassada e, em algumas partes, rasgada. Ignora os ferimentos que aparentemente sangravam no momento em que seus sentidos lhe fazem reconhecer que há um alarme disparado. Ergue os olhos com urgência em direção ao veículo; agora, parado a poucos metros de distância. A mecânica certamente havia rolado parte do morro, contudo, não era isso que a preocupava. O estômago afunda fortemente, enquanto o coração explode os batimentos cardíacos, o que facilmente torna sua respiração ofegante. Os olhos apenas reproduziram a sensação irracionalmente de dor.

— David — ela murmura, disparando em direção ao automóvel parado na diagonal. Obriga os próprios pés a correrem, desprezando a ardência que serpenteava desde os antebraços até os ombros. Não se importa com o protesto dos pulmões, clamantes por qualquer espaço para o ar circular. Ofegante, assustada e temendo o que viria a seguir, Valentina não permite que a periculosidade a pare. Em poucos minutos alcança o carro e, um segundo diante da situação fora suficiente para fazê-la sobressaltar no grito sôfrego que lhe escapou na garganta. O raciocínio torna-se lento, mas Valentina precisa encontrar a solução o mais rápido possível. Portanto, caça com as mãos urgentemente o celular e o remove do bolso no segundo seguinte. Percebe que há algumas rachaduras na tela, provavelmente pela queda anterior; entretanto, o detalhe tampouco é percebido pela mulher que se esforça para digitar os números do resgate ao telefone.

Após conseguir discar e praticamente implorar por uma ambulância, Valentina sabe que por mais que os enfermeiros fossem eficientes, o condomínio era um tanto quanto afastado da cidade; portanto, entende que eles levariam certo tempo para chegar até lá. Não poderia ficar parada em frente ao veículo esperando que a ajuda caísse do céu. Apesar de não se considerar apta para desempenhar tais papéis, ela possuía boas referências graças à experiência com a Marinha. Despe-se do moletom que está usando, resolvendo não dar importância ao fato de que ficaria apenas de sutiã no meio da rua. Sobe no degrau da Range Rover e enrola o pano grosso ao redor da mão direta e acerta um soco certeiro no vidro do carro que já estava trincado – portanto, não fora uma tarefa tão difícil quebrá-lo.

Ela sacode o moletom, mas considera perigoso tentar vesti-lo com resquícios de caco de vidro ainda presentes e, além disso, a prioridade era Luiz. Ao esgueirar-se para destravar as portas do carro, consegue abrir a do motorista, estando-se diante da ideia de que David estivera acordado o tempo todo; o que a dificultava nessa tarefa era o fato do automóvel estar todo trancado e o atleta ter a cabeça abaixada. Com urgência, reconhecendo o som de uma provável parada respiratória, Valentina empurra o corpo do jogador contra o banco, confirmando o que lhe ocorrera de primeiro momento. Luiz não conseguia respirar. Ela arregala os olhos, escancarada diante das íris esverdeadas quase encobertas pelas pupilas completamente dilatadas do atleta. Era capaz de visualizar cada gota do sofrimento enlouquecedor no qual David se encontrava. Tal cena a esmurra agressivamente no peito. Valentina precisava agir rápido.

Respira fundo, torcendo internamente para que não se desestabilizasse justamente agora. Sente a sensação de desespero tomando contra de si e acreditava que um provável choro estava por vir; contudo, pela milésima vez nos últimos vinte minutos resolvera ignorar o que sentia para colocar acima as necessidades de outro alguém.

— Calma, David — ela tenta dizer, obrigando-se a recuperar a coragem que julgava inexistente e rola o aparato do banco, deixando-o na horizontal. O jogador, afoito e descontrolado esforçava-se para respirar, por outro lado, suas vias respiratórias aparentemente estavam bloqueadas. Valentina, então, põe-se em cima de Luiz, sem apoiar o peso do corpo sobre ele; apenas, firmando os joelhos no banco. Rapidamente, pressiona as mãos contra o peito do atleta por cerca de três vezes para tentar desobstruir as vias. Repete o movimento, notando que David ameaçava a desfalecer. Valentina morde o lábio com força, tendo a ciência de que não haveria outro caminho. Não tinha tempo para, sequer, raciocinar. Luiz estava entre a vida e a morte e a vida dele, absolutamente, estava entregue em suas mãos.

Ela lança os dedos ao bolso do jeans, arrancando o usual canivete que carregava para todos os cantos. Era sua arma de autodefesa por não ser presenteada com qualquer partícula de paciência. Valentina apodera-se do pouco de ar que ainda lhe restava. Iria fazer uma traqueostomia improvisada, e não havia margem para erro. Pela primeira vez, agradeceu por ter sido enviada à Marinha tão jovem. Saca a pequena faca e, sem mais oportunidades para raciocinar, perfura o pescoço de Luiz por entre as clavículas, onde rapidamente o ar encontra passagem. Suspirando forte, o zagueiro parece recuperar a consciência e, no minuto seguinte, um pouco distante, ouvem-se as sirenes a se aproximar.

Valentina embrenha os dedos no cabelo esvoaçado, podendo finalmente respirar com tranquilidade.

— Belos seios — ela abre os olhos, encarando o rosto do atleta que está a usar um sorriso fraco. Meneando a cabeça, Hernandez ergue o corpo e se desvencilha de David.

— Fica quieto — decreta, descendo do carro. Vê o moletom largado no chão e, com as mãos, remove o excesso dos cacos de vidro, vestindo a peça em seguida. Os enfermeiros logo chegariam e Valentina não gostaria de ser mal interpretada diante da situação.

— Vale — ouve-o chamar, o que a faz subir no degrau com urgência e analisar o estado do jogador, temendo que houvesse qualquer outra complicação. Entretanto, ele se demonstra tranquilo. — Você cortou o meu pescoço — finaliza, franzindo a testa.

— Eu salvei a porra da sua vida, imbecil — ela retruca, revirando os olhos. Não conseguia acreditar que Luiz pudesse ser um babaca até em situações delicadas como àquela.

— Cadê a emergência? — David ignora a sentença da loura, ameaçando a tocar o local onde a própria havia perfurado; contudo, a mulher consegue o impedir a tempo, lhe estapeando a mão.

— Você é inacreditável — bufa, largando o pulso do mais velho.

— E você continua sendo uma intrometida — ele devolve, sem qualquer remorso. Vale o fita por alguns instantes, buscando processar as palavras tão carregadas de frieza que partiam do jogador mesmo após o que havia feito. Balança a cabeça, respirando fundo. Mira os olhos para a estrada à frente, assistindo a ambulância se aproximar com velocidade. Nota as luzes de algumas moradias acendendo, provavelmente preocupadas – ou simplesmente curiosas – com o som estridente das sirenes.  

— É impressionante como você continua a me subestimar, Luiz — o jogador eleva as íris esverdeadas ao rosto exausto da mecânica que retribui o olhar, porém, há algo vago em seus olhos. — Mas eu entendo que não é pessoal. Que o problema não está em mim, mas, sim, em você.

Sirenes.

— Você não suporta o fato de estar abaixo. Você quer estar sempre no controle de tudo. Você é controlador, manipulador, estrategista. Consegue enganar qualquer um com esse rosto de anjo — ela larga uma risada amarga e desdenhosa, revirando os olhos em seguida. — Seu relacionamento terminou porque você não suportava o fato de que Angeline era exatamente como você. Quase um espelho que expunha a pior face de ti. Por isso você a evitava.

Sirenes.

— Estava evitando a si mesmo.

Sirenes.

— Aprenda a assumir as consequências dos próprios erros, jogador. Se você fosse capaz de se perdoar talvez não estivesse tão fodido como afirma estar. Talvez o seu relacionamento com as pessoas melhorasse, porque você não teria que descontar as suas próprias frustrações nos que te cercam, exatamente como está fazendo agora. Está tão enfurecido consigo mesmo, tão puto que não teve um pingo de consciência antes de pegar o carro e sair dirigindo como um retardado, embriagado, que precisa expulsar esse sentimento em alguém — Valentina abre um sorriso pretensioso, atravessando as mãos pelos fios do cabelo dourado e, agora, suado. — No caso, eu.

Sirenes.

— Você não consegue absorver, entender e principalmente, aprender com o erro. Você espalha o veneno para todos os lados para se sentir menos culpado e acaba magoando a quem mais ama. Parabéns, David Luiz. Você é, realmente, um babaca.

Sirenes.

— Mas de nada adianta se você não souber reconhecer. Parte de mim quer acreditar que esse David Luiz altruísta existe, só está perdido no caminho. E eu realmente eu espero que você se reencontre — termina, assistindo o atleta desviar o olhar para o painel desligado do carro; decretando, deste modo, que nada do que a moça havia dito lhe importava. Ela liberta a respiração, ciente de que ao menos tentara.

— Senhora, você nos contatou? Onde está o ferido? — Valentina lança os olhos para o enfermeiro que está em frente ao carro. Ela desce o degrau, assentindo com a cabeça. Livra-se de algumas lágrimas que insistiram em se formar ao redor dos olhos e força um sorriso ao paramédico.

— Sim, fui eu. Ele está deitado no banco do motorista. Acredito que tenha perdido o controle do carro e bateu contra a árvore — o homem comprime os lábios, aguardando que a loura finalize. — Não foi uma batida brusca, pois os ferimentos parecem leves e o veículo não amassou muito. Eu tive de intervir porque ele não estava conseguindo respirar. Fiz um pequeno furo na garganta para que o ar conseguisse passar.

— Fez bem — o homem assente com a cabeça, segundos antes de subir no automóvel e averiguar o estado do jogador. — Senhor? Como está se sentindo?

Luiz não pronuncia qualquer palavra.

— Vou avisar a família e ligarei para o guincho de um conhecido — Valentina informa à enfermeira, que estava dentro da ambulância organizando o soro. A mulher de cabelos avermelhados oferece um sorriso para a mecânica, que suspira.

— Certo — ela salta do veículo, encaminhando-se até o carro onde o outro paramédico se encontrava com David já sentado no banco.

A mecânica mira os olhos no rosto ferido do mais velho. Ele também a encarava, parecendo atônito e perdido em seus pensamentos.

— Parceiro, Deus parece ter cuidado de você — o paramédico promulga, analisando a perfuração feita por Hernandez. Luiz trinca o maxilar, sem se atrever a quebrar o contato visual com a mulher, parada a metros da Range Rover.

— Na verdade... — é o que diz pela primeira vez desde o discurso de Valentina. — Ele enviou alguém para cuidar.

(...)

Oficina do Paulo, condomínio Spinaville.

Juiz de Fora, Minas Gerais.

04h23min.

Valentina estreita os olhos ao sentir a luz forte iluminando seu rosto aparentemente destruído. Ergue a mão esquerda, buscando diminuir a intensidade da provável lanterna apontada a si. No fundo da oficina, consegue enxergar a silhueta alta de quem julgava ser Paulo. Aos poucos, o mais velho se aproxima cauteloso até a garota que se segura para não fungar alto demais, intencionada a não entregar o choro que lhe pegara desprevenida. Usando as mãos, desliza os dedos pelo rosto, secando as lágrimas que se atreveram a descer.

— O que houve Valentina? — Paulo aumenta a velocidade na qual caminha, envolvendo a garota em seus braços acolhedores com certa urgência. A loura, por sua vez, permite-se enlaçar o corpo ao homem que sempre lhe transmitia uma paz imensurável. — O que há de errado, minha menina? — ele a inquere por outra vez, despejando um beijo reconfortante no topo de sua testa.

— Eu estou cansada — murmura, afastando o rosto apenas o suficiente para ver os olhos sinceros do velho mecânico. O homem libera o suspiro, comprimindo os lábios em o que Valentina julgara ser um sorriso. Paulo desliza os dedos pelas pálpebras inferiores da mulher, removendo resquícios do recente choro.

— Você sabe que pode ficar aqui, se quiser — afaga seus cabelos dourados, oferecendo o quarto que o mais velho montara especialmente para momentos como àquele. Vale fecha os olhos por alguns instantes, deleitando-se na carícia acolhedora do senhor. Avalia a oferta, ciente de que se não tivesse de resolver a questão do veículo de Luiz, ela certamente aceitaria sem remoer.

— Não posso — afirma, desvencilhando-se com um quê de dificuldade do mecânico que franze a testa, confuso. — Preciso usar o guincho. Está com a chave? — a moça larga um suspiro, decretando que não mais derramaria qualquer lágrima. Esfrega o nariz, respirando forte para conseguir enfrentar as próximas horas. Parte de si estava a condenar a vontade que ainda sentia de ajudar o maldito zagueiro, enquanto a outra insistia que ela o fizesse o mais rápido possível parar dar fim à tortura. Sua única motivação era a de que, quando tudo terminasse, ela estaria livre para não esbarrar com Luiz novamente.

— Não me diga que você se acidentou, Valentina — de supetão, seu Paulo perpassa as mãos pelo moletom que a vestia, escancarando as mangas para averiguar quaisquer hematomas. Contudo, a mulher só parecia suja e marcada provavelmente pelo sangue do zagueiro. O mecânico, confuso, franze a testa.

— Não. Eu estou bem — ela suspira, lutando contra a própria mente que insistia em reviver o momento em que a Range Rover atritou na árvore. — Luiz sofreu um acidente, mas a ambulância chegou a tempo de resgatá-lo. Não foi nada grave, garanto — tenta disfarçar o quanto o assunto lhe aborrecia, embora tenha a ciência da mandíbula trincada e a forma como seu tom de voz se tornara firme quase imediatamente. A loura resolve pular o drama, indo direto ao objetivo. — Por isso eu preciso do guincho.

— Santo Deus — Paulo exclama, coçando a barba malfeita. — O filho de Ladislau?

— O próprio — responde, sendo praticamente impossível não notar o desgosto em suas palavras. — Preciso tirar o carro de lá.

— Vou vestir um casaco e desço contigo. Espere um minuto.

— Não precisa, seu Paulo. Eu consigo sozinha. — ela o interrompe, antes que o mecânico suba as escadas para a sua casa. O homem volta os dois últimos degraus, encarando a mulher e respira fundo, balançando a cabeça; nos lábios, Valentina o vê o elevar em um sorriso orgulhoso.

— Eu sei — suspira, arrancando as chaves do caminhão e arremessando-as para a mecânica. — Confio em você, minha menina — e pisca, segundos antes de rumar os pés até o andar de cima.

Valentina desfruta da sensação de liberdade que lhe invade o peito. Encara as chaves em mãos, inebriando-se ao sentimento de amor sincero que Paulo transmitia, como se, de fato, fosse seu pai. Ele era verdadeira face de família e a mulher agradecia por não precisar de mais ninguém além d’aquele sábio senhor.

Visivelmente recuperada, Hernandez gira os calcanhares até o caminhão guincho. Abre a porta de ferro e sobe os dois pequenos degraus do veículo, jogando-se no banco do motorista. Encaixando a chave na ignição, Valentina aperta as mãos no volante com um quê de ufania no sorriso dos lábios. Ela ajeita o retrovisor, encarando o reflexo de suas orbes esverdeadas. Os traços de cansaço do rosto certamente escancaravam a agitação da péssima noite. Solta a respiração, ignorando o fato de sua aparência estar deplorável e tenta ajeitar o pouco que consegue dos fios do cabelo, girando a chave do veículo em seguida.

Manobra-o para fora da oficina e desce por cerca de dois minutos para trancar os portões do local. Não leva muito tempo e rapidamente volta a ocupar o lugar no banco do motorista, pisando no acelerador. Não havia preocupações em dirigir velozmente, afinal de contas, o efeito da pouca bebida ingerida horas antes tampouco existia.

Residência Marinho

08h13min.

Regina cruza a porta da sala, empurrando-a com tamanha violência; capaz de fazê-la se surpreender com a própria ação. Respira longamente antes de concluir que a atitude brusca não a preocupa, graças à intensidade do sentimento de amargura em seu peito. Arremessa a bolsa contra o sofá, virando-se o suficiente para encarar a entrada do filho amparado por Ladislau. O pedagogo eleva os olhos para a esposa que cruza os braços e fecha as pálpebras com força, como se a cena à frente fosse extremamente dolorosa para ser assistida.

— Eu não acredito que terei de reeducar um homem de trinta e dois anos — ela descarrega o turbilhão de pensamentos que lhe atingem de maneira arrogante, roubando o pouco de ar que era acessível. É instantâneo ouvi-la passar a respirar pesadamente.

— Rê — Ladislau certifica-se de que Luiz está seguro ao sofá, sentado, antes de desviar o caminho até a mulher baixinha. Ele se posiciona em frente à Regina, apoiando os dedos da mão em seu rosto avermelhado graças ao desencadear de um provável choro e, é claro, da fúria que a dominava. — Vá descansar. Você está muito nervosa — pede delicadamente, tentando ao máximo soar solicito ao invés de autoritário. A professora larga um suspiro amargo, abrindo os olhos para encarar seu marido. — Eu converso com ele — finaliza, livrando-se de uma pequena lágrima que desce no olho esquerdo de Regina.

Ela faz o silêncio perdurar por cerca de quarenta segundos antes de se desvencilhar dos toques suaves de Ladislau, virando-se para a carcaça cansada e machucada que vestia o filho de olhos presos ao piso alvo. Luiz não havia se pronunciado desde que os responsáveis chegaram ao local do acidente. Assim pretendia permanecer até Deus sabe quando. Ele sentia opróbio. Desgaste. Sequer tivera o escrúpulo de encarar os pais.

Sempre admitira que estava ferrado em inúmeras maneiras, entretanto, desta vez, David havia excedido o fundo do poço.

— Por quê? — a matriarca avança três passos em direção ao filho que não se move. Encara o rosto desenhado em linhas óbvias do quão destruído o homem estava. Um corte longo no topo da testa e outro no supercílio, onde recebera dois pontos. Entre alguns arranhões ao longo de sua face, David não possuía mais hematomas – de fato, por uma forte bênção. “Se Valentina não estivesse no local, com certeza, teria sido fatal.” – afirmou o médico; tais palavras que se repetiam constantemente aos pensamentos do atleta, sem dar-lhe qualquer tipo de sossego. — Olhe para mim, David — Regina pede, mas é facilmente ignorada pelo rapaz. — Olha para mim e me explica, me diz o motivo — ela persiste, ocupando o lugar vazio ao lado de Luiz. O silêncio vaga pelas ondas sonoras reproduzidas pela respiração firme do jogador que parecia se segurar para permanecer calado. Se ousasse entreabrir os lábios, explodiria e definitivamente não gostaria de magoar, mais uma vez, àqueles a quem mais amava.

— Regina, deixe-o pensar — Ladislau se intromete, apoiando a mão no ombro da mulher que funga, incapaz de segurar o choro por outra vez. — Ele está cansado. Não podemos pressioná-lo. Mais cedo ou mais tarde, irá se abrir conosco — explica, cauteloso; buscando fazê-la compreender a situação. A esposa fecha os olhos, libertando duas lágrimas que escorrem por seu rosto rechonchudo. Ela meneia a cabeça, antes de se reerguer do sofá.

— V-você — Regina suspira, sendo, pela primeira vez, alvo da atenção do filho. — Você me decepcionou muito, David — ela engole a seco, devolvendo o olhar amargurado para o homem, segundos antes de girar os calcanhares para fora da sala. 


Notas Finais


O que será que vai acontecer a partir de agora?
David irá procurar Valentina? Vai tentar assumir as consequências dos próprios atos?
E será que ela vai perdoá-lo, ou o clima entre os dois vai começar a esfriar?
Pobre de Dona Regina! Estou morreeeendo com esse sofrimento dela, mas Ladislau é um bom pai e marido! Vai conseguir reverter essa maré de azar.
No mais, o que vocês acharam? Deixem suas opiniões aqui embaixo, sobre o capítulo e sobre o futuro da história!
Un bacio mio e até o próximo capítulo.
<3


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