História My wild love - Capítulo 2


Escrita por: ~

Visualizações 189
Palavras 5.202
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 2 - 1 temporada - capitulo 1


Fanfic / Fanfiction My wild love - Capítulo 2 - 1 temporada - capitulo 1

Se alguém tivesse me perguntado há uma semana, eu teria dito que jamais seria vista comprando uma dessas revistas de noivas. No entanto, a perita no assunto – minha secretária, recém-casada, na Universidade de Sydney – disse me que era impossível planejar um casamento sem recorrer a elas.
 É lógico que eu tinha conseguido organizar meu casamento sem o auxílio de nenhuma dessas revistas luxuosas, mas olha só qual foi o resultado. Um rápido episódio passageiro de três meses de casamento que estragou meus trinta e dois anos de solteirice imaculada.
O irônico é que agora cabia a mim, com uma pequena ajuda de minhas irmãs Zoraida e Dulce, planejar o casamento perfeito. Com duas semanas de antecedência.
 Não, não o meu. Meu QI genial não me impede de cometer erros, mas venho tentando ao máximo não repetir esse, então eu meio que larguei mão dos homens.
 Minha irmã mais nova, Anahi, lá em Vancouver, na Colúmbia Britânica, será a noiva que marchará até o altar. Uma marcha nupcial com que ela sonha desde quando, aos cinco anos, atirava a Barbie noiva nos braços do Ken de smoking.
 Anahi vai se casar com Poncho, sua alma gêmea desde o ensino médio. O óbvio seria que quinze anos de amor e de sonhos tivessem resultado em algo mais organizado do que um casamento de última hora. No entanto, Anahi teve um ano um pouco difícil no que se refere à saúde, e, como Poncho encontrou uma oferta imperdível para um cruzeiro pela costa mexicana, num intervalo de treze dias minha irmã mais nova estava a caminho de ter o casamento com o qual sempre sonhou.
 O único problema era que ela estava desesperadamente tentando recuperar as aulas e os trabalhos na faculdade, que tinha perdido em decorrência da doença, e não tinha tempo para organizar o casamento.
 Anahi precisava de ajuda, e eu a amava. O mesmo posso dizer de nossas irmãs Zoraida e Dulce, é claro, mas, como sempre, eu era quem organizava as coisas. Para falar a verdade, eu gostava de estar no comando. Na verdade, preferia fazer as coisas eu mesma, para garantir que saíssem direito. Arrogante, metida, irritante? Por causa do meu impressionante QI, das expectativas dos meus pais e das responsabilidades que caíram sobre mim desde cedo, haveria alguma maneira de eu ser diferente?
 Portanto, justamente eu, que não acredito nessa conversa de véu-e-grinalda-e-promessas-de-amor-eterno, estava agora em busca dessas revistas cheias de babados para complementar a gigantesca bíblia de planejamento de casamentos que eu havia comprado na livraria. Assim que eu passei pela fiscalização do aeroporto de Sidney no domingo à tarde, fui direto para a livraria.
 Uma pilha de livros de capa dura perto da entrada me chamou a atenção. A pirâmide em construção dava destaque para Wild Fire, o novo livro de um dos romancistas mais populares da Austrália, Christian Chavez. A balconista pregava nas capas adesivos de “exemplar autografado” que, com suas chamas misteriosas em amarelo e vermelho sobre fundo preto, davam um toque berrante a elas chamando a atenção.
 Como socióloga especializada no estudo dos aborígenes australianos, eu conhecia o Chavez. Ele tinha ascendência aborígene e escrevia histórias de mistério paranormal protagonizadas por um policial aborígene australiano.
 Embora eu raramente leia ficção, já havia comprado um dos seus romances. Era surpreendentemente divertido, mais ou menos preciso com os fatos reais e com observações perspicazes aqui e ali, mas só aqui e ali. Achei que seu trabalho era principalmente, e grosseiramente, comercial. Esse cara deveria dedicar seus talentos de escritor para algo mais sério.
 Eu certamente não pretendia ler outro de seus livros.
— Desperdício de tempo. Simplista e superficial.
— Senhora? — a balconista se virou para mim.
— Sinto muito — Um dos perigos de passar tanto tempo sozinha... Eu tinha o péssimo hábito de expressar meus pensamentos. — Eu não quis dizer isso em voz alta.
A funcionária da loja sorriu:
— Não se preocupe. Contudo, muitos leitores discordam de você. Ele com certeza vende muito bem. No meu caso, não consigo largar seus livros, fico acordada a noite toda, e isso aconteceu mais de uma vez — ela piscou. — Mas bem que ele poderia fazer isso comigo em pessoa... Ele acabou de autografar estes livros e, olha, o homem é um gato.
— Tenho certeza de que ser um tesão é um critério importante para uma pessoa escolher sua leitura — retruquei secamente.
Um homem que ria abafado me disse que alguém tinha ouvido esse meu comentário. A garota olhou por cima de meu ombro. Seus olhos se arregalaram e o rubor preencheu suas bochechas.
— Oops! Sinto muito — Ela abaixou a cabeça e se concentrou em continuar colocando adesivos nos livros. Virei-me e vi um homem que com certeza poderia ser chamado de “tesão”. Suas roupas eram simples até demais, jeans surrados, uma camiseta básica, mas que cobriam um homem alto e musculoso. Seu rosto e seus braços estavam bronzeados e ele, obviamente, não ligava para cortes de cabelo. Embora eu não fosse fã de cabelos, as ondas pretas brilhantes combinavam com ele. Apresentava um rosto forte e olhos castanhos exóticos e brilhantes, que estavam agora me avaliando com um toque de humor.
Senti a presença física dele de modo diferente, como homem. E de mim como mulher. A maneira que definitivamente eu não costumava reagir a um cara. Havia algo de familiar nele, mas eu tinha certeza de que não o conhecia. Eu teria me lembrado dessa bizarra sensação...
— Não vai comprar um livro, então? — perguntou ele provocativamente, com um sotaque australiano.
Envergonhada por minha reação, desviei meus olhos e murmurei:
— Não.
Quando me virei para ir embora, eu o ouvi dizer:
— Não sabe o que está perdendo.
Por que eu me sentia como se estivesse fugindo dele? Afastei esse pensamento – e o homem – da minha mente enquanto comprava uma garrafa d’água e, em seguida, me dirigi para a seção das revistas.
Era muito surreal estar vasculhando as revistas de noivas.
— Deixe eu contar as razões pelas quais eu odeio essas coisas.
 Opa, lá estava eu resmungando em voz alta novamente. Continuei meu discurso dentro da minha cabeça. É uma indústria gigantesca que manipula as noivas e as faz pensar que um evento mais caro vai trazer para elas um casamento mais feliz. As pessoas não sabem que...
— Com licença? Você vai comprar esse? — Uma voz feminina invadiu meus pensamentos e eu percebi que uma jovem ruiva e alegre estava olhando para mim interrogativamente.
— O quê? — Olhei para a revista na minha mão, com a noiva onipresente vestida de um branco espumoso. — Oh, ainda não decidi.
— É o último exemplar. Então, se você não vai ficar com ela, gostaria de comprar. É minha revista favorita.
— Então, pode levar — disse, entregando a edição a ela. — São todas a mesma coisa para mim.
— Oh, não, não são! — o tom de voz da garota sugeria que eu havia cometido um sacrilégio. — Essa é para a noiva australiana, que sou eu.
Ela apontou para outra revista na prateleira, usando a mão esquerda e piscando um pequeno diamante.
— Esta já é para a noiva moderna, a do lado é mais tradicional, e aquela outra tem as coisas mais lindas, mas caras demais, embora algumas das ideias possam ser adaptadas — ela pegou um exemplar.
Enquanto ela se emocionava ao folhear as páginas, estudei as capas de cada uma, pensando como todas as revistas pareciam mostrar a mesma coisa. Anahi sempre deixava diversas dessas revistas de noivas espalhadas pela casa, mas era difícil dizer qual delas era sua preferida.
A ruiva tinha escolhido três:
— Eu vou me casar em abril, então temos menos de um ano para organizar tudo. É muito divertido. E você?
— Eu? Ah, não sou eu quem vai se casar, é minha irmã mais nova.
— Ah... — Ela olhou para minha mão esquerda sem aliança. — Deve ser difícil, mas tenho certeza de que sua hora vai chegar, mais rápido do que imagina.
— Deus, espero que não — As palavras explodiram e, quando a testa lisa da garota se encheu de vincos, expliquei: — Eu gosto de estar solteira. Acho que cada um de nós acaba encontrando o seu caminho na vida, aquele que parece mais certo. Eu encontrei o meu.
Ela ainda estava franzindo a testa um pouco quando levantou a mão esquerda e mexeu os dedos, fazendo com que o diamante brilhasse mais uma vez.
— E eu já encontrei o meu. Talvez você esteja certa, mas é difícil para mim imaginar alguém escolher viver sozinha. Para o resto da vida.
 Sei lá, o modo como ela deixou escapar essa frase me soou mais como uma sentença de prisão perpétua na solitária. Por um momento, lembrei-me da maneira como eu me senti com Jeffrey. A vida tinha sido mais brilhante, mais rica, mais feliz. Na nossa simples cerimônia de casamento, eu estava eufórica. Tudo bem que não estava usando a roupa branca virginal das noivas, mas as promessas que eu tinha feito significavam alguma coisa para mim. Um futuro, uma parceria, uma partilha de vida, amor, trabalho...
 Uma partilha? Compartilhar, é isso? Ah, sim, Jeffrey queria definitivamente que eu compartilhasse, mas ele não havia retornado o favor. Não, ele mentiu para mim desde o início e, em seguida, me traiu. A verdade lamentável é que eu não era o tipo de mulher que inspirasse o amor e a lealdade de um homem.
— Algumas de nós, mulheres, simplesmente se dão bem sozinhas — respondi para a garota. — E eu espero que você seja muito feliz.
— Sua irmã também.
Depois que ela se foi, escolhi as revistas tradicionais e modernas que agora havia identificado. Seria bom ter os dois extremos e tentar perceber as diferenças entre elas, caso existissem.
 Depois de pagar, enfiei as revistas em minha bagagem de mão. Além do meu laptop e do livro de planejamento de casamento, dentro da maleta estavam ainda as provas da faculdade. Graças às notícias de última hora de Anahi, eu estava saindo da faculdade uma semana antes do fim do semestre.
 Quando passei pelo portão de embarque, a classe executiva já estava embarcando. Entrei na fila, pois, como era passageira frequente, tive a sorte de receber esse privilégio. Naquele voo de dez horas para Honolulu – a primeira etapa de minha viagem para Vancouver –, as vantagens da classe executiva fariam uma enorme diferença. Comida decente, algumas taças de um bom vinho, espaço para trabalhar, um assento onde se pode realmente dormir.
 Agora, para completar, só faltaria mesmo um companheiro de assento que colocasse seus fones de ouvido e me deixasse em paz.
 O avião tinha duas seções de classe executiva: uma no andar superior, que era mais reservada, e uma no convés principal. Eu estava no principal, no assento da janela em um dos bancos laterais de dois assentos.
 Os assentos na classe executiva eram diferentes daqueles mais básicos da classe econômica. Em vez de ligados entre si com braços deslocáveis, estes tinham cadeiras independentes. Mais ou menos como aquelas espreguiçadeiras reclináveis para assistir à TV, exceto pelo fato de que eram montados dentro de duras carapaças.
 Quando cheguei à minha fileira, um homem de cabelos negros estava no assento do corredor, inclinando-se para arrumar uma bolsa debaixo do banco da frente, e eu não podia passar por ele para chegar ao meu. Atrás de mim, as pessoas pareciam impacientes, então eu disse:
— Com licença. Gostaria de passar, para não segurar as outras pessoas.
— Sinto muito — ele se endireitou com um rápido sorriso, um daqueles que desarmam qualquer pessoa com olhos castanhos plissados e mostrando dentes brancos no rosto moreno emoldurado por cabelos pretos.
O homem da livraria.
— Você!
Definitivamente, esse não seria o colega de assento que eu teria escolhido, mesmo que fosse, como teria dito minha secretária, um colírio para os olhos.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso que eu tinha dificuldade para ler.
— Ora, se não é a leitora exigente...
Ele se levantou e foi para o corredor, para me deixar passar.
Eu não sou desajeitada por natureza, mas consegui tropeçar em seus pés. Pés grandes, bem-formados, calçados em sandálias de couro.
Quando tropecei, a mão direita do homem pegou no meu ombro e segurou-o.
— Cuidado.
Cuidado? Como ter cuidado com o calor de sua mão queimando meu cardigã? Minha respiração ficou presa e eu não podia me mover. Algo – uma espécie de energia, calor, qualquer coisa que seja – saía dele. Um formigamento delicado percorreu todo o meu corpo, embora a única coisa que ele estivesse segurando fosse meu ombro. Havia também um cheiro que me lembrava das viagens pelo campo: a luz do sol brilhando sobre os eucaliptos, ou árvores de goma, como eles chamam na Austrália. E havia um brilho em seus olhos que, se eu fosse uma mulher mais atraente, teria lido como interesse sexual. Contudo, rapazes autoconfiantes e tesudos como ele nunca davam uma segunda olhada em mulheres estudiosas e simples como eu.
Consegui descongelar meus músculos e me arremessei em meu lugar, com a maleta e a bolsa no colo.
— Quer que eu ponha sua maleta lá em cima? — perguntou ele, apontando para o compartimento de bagagem.
— Não, obrigada, vou deixar aqui comigo.
Uma mulher idosa no corredor rapidamente disse:
— Você pode colocar a nossa mala aí em cima, se não se importar.
— Deixa comigo, Delia — disse o homem de cabelos grisalhos atrás dela.
— Claro que deixo, Trev. Eu só quero fazer este jovem mostrar seus músculos — e deu uma piscadela a meu colega de assento.
 Ele lhe devolveu aquele sorriso deslumbrante e ergueu a mala facilmente. Quando colocou a bagagem no compartimento, seu corpo se esticou em um movimento poderoso e gracioso. Os músculos se flexionaram nos braços e, enquanto a manga esquerda de sua camiseta subia, pude ver a borda de uma tatuagem – um dragão? – que parecia se enrolar em torno de seu bíceps.
A camiseta moldava ombros fortes, peitorais duros. Ela saía livre de seus jeans sem cinto. Meu olhar rastreou a linha de sua braguilha para registrar que os jeans moldavam, também, algo bastante atraente. Um arrepio sexual me atravessou, fazendo-me contorcer no assento do avião. Droga. Raramente eu olhava para um homem de maneira sensual assim. Afinal, não havia muitos homens que valessem a pena ser notados desse jeito.
Ele disse:
— Pronto, aí está — para a mulher.
 Antes que ele pudesse me pegar de olhos escancarados analisando-o, comecei a vasculhar as provas dos alunos na minha maleta e tirei duas delas. Com o canto dos olhos, notei o casal mais velho, um par bem-ajustado, tomando os assentos da fileira do meio, do outro lado do corredor.
 Meu colega do assento ao lado sentou-se e sua presença física quase me oprimiu. Meus colegas da universidade eram intelectuais como eu, e raramente eu estava com alguém como o homem ao meu lado. Ele exalava sexualidade. Dei graças aos céus pelos espaçosos assentos independentes. Se eu tivesse sido amontoada ao lado dele na classe econômica, braços e coxas se tocando a cada vez que alguém mudasse de posição, eu terminaria a viagem como uma massa de hormônios trêmulos.
 Esse despertar sexual era um sentimento raro para mim. Eu sempre, desde a mais tenra infância, me dediquei a questões intelectuais, sem dar bola para os aspectos físicos da vida – e foi este exatamente o modo como o sexo oposto tinha me visto. Eu estava em busca de um tutor e não de um amante. Foi então que encontrei Jeffrey. Ele havia me escolhido dentre os demais jovens professores e estudantes de pós-graduação. Ele foi apenas o meu segundo amante, e com ele aprendi a gostar do meu corpo. A desfrutar do sexo.
 Pensei que ele fosse uma pessoa diferente, que Jeffrey tinha me visto como Maite, a mulher, e não o cérebro, mas eu estava errada.
Mais fácil, e mais seguro, era fazer sem os homens. A única vez que decidi experimentar novamente, com um professor de antropologia que conheci em uma conferência em Melbourne, o sexo tinha sido um desastre. A compatibilidade intelectual não tinha se traduzido em seu equivalente físico. Graças aos céus meu impulso sexual era baixo, senão certamente teria ficado frustrada com apenas a minha mão e um vibrador para me satisfazer.
 Fiquei imaginando como esse homem ao meu lado deveria ser na cama. Meu palpite é que ele era ou incrivelmente hábil ou totalmente egocêntrico. Não que pretendesse descobrir, esse cara definitivamente não era o meu tipo, e eu podia apostar que não era o tipo dele também.
 Fiquei com calor, tanto pelo fato de o avião estar cheio como pela presença de meu vizinho de assento, e comecei a lutar para tirar o cardigã.
— Quer ajuda com a blusa?
— Não, estou...
 E antes que pudesse dizer “bem”, sua mão estava lá novamente, no meu ombro, ajudando a descer meu cardigã azul marinho pelos braços, que eu tinha vestido sobre uma regata. A blusa era de cor ferrugem e destacava o preto de meu cabelo curto. Eu podia ser uma garota simples, mas não totalmente sem vaidade. Eu procurava me vestir de um jeito confortável, prático e razoavelmente atraente. Não adiantava tentar pôr um glamour que nunca poderia ser meu, eu só ficaria patética.
 O homem tirou o casaco lentamente, os dedos roçando a pele nua do meu braço, e mais uma vez me arrepiei toda. Seu toque parecia uma carícia deliberada, mas claro que isso devia ser minha imaginação.
 Lancei um olhar de soslaio e vi o brilho nos seus olhos que eu tinha notado antes. Seu olhar deslizou do meu ombro, pousou no meu peito, e percebi que o decote em V da minha blusa estava sendo puxando para baixo enquanto o cardigã saía. Com as mãos presas dentro das mangas, eu não tinha como alcançar o decote para ajustá-lo.
 Minha pele aqueceu-se e eu sabia que minhas bochechas, assim como meu colo, ficaram coloridos para combinar com o tom avermelhado da regata. Meus mamilos se eriçaram e o bico dos seios endureceu. Finalmente, meu braço se soltou e eu apressadamente puxei para cima o decote da minha blusa e virei de costas para ele, a fim de me ajudar com a outra manga. Assim eu poderia esconder meus mamilos eretos.  Nesse meio-tempo, pensei em algo casual para dizer, para disfarçar meu desconforto.
— Por que os australianos falam sempre com esse “ie”? Cardie em vez de cardigã, barbie em vez de barbecue.1
— Sei lá, acho que é preguiça, mesmo... Brissie em vez de Brisbane, bickie em vez de biscoito.
 Tentei me concentrar em suas palavras, em vez de prestar atenção nos dedos quentes que demoravam demais para tirar a maldita blusa de meu outro braço.
— E essas palavras com o final em “ie” não são tão abreviaturas assim. Não pode ser preguiça.
— Hã... — ele fez uma pausa. — Footie para futebol... De fato, você tem razão. Acho que é a nossa maneira de deixar as coisas um pouco mais amigáveis — com um golpe final e sedutor, ele deslizou a blusa para fora do braço. — Pronto. Agora, me deixe pensar em outros exemplos... Sunnies para óculos de sol...
 Eu me virei para encará-lo e peguei a blusa que ele me entregou.
— Obrigada.
— Tem hottie para... — ele fez uma pausa, os olhos brilhando.
 Droga, ele estava pensando no comentário da balconista da livraria sobre ele ser “quente”, e depois na minha resposta. Cruzei os braços sobre o peito, tentando manter a compostura, e disse:
— Hottie? Essa eu nunca ouvi.
 Os cantos da boca do homem se contorceram:
— Seria a abreviatura para bolsa de água quente.
 Tive que rir. Ele tinha me enganado direitinho.
— Não é algo de que eu tenha precisado em Sydney.
— Ah, é? Teve algo melhor para aquecer sua cama?
— Isso é segredo.
Meu Deus, o que é isso? Eu estava... meio que... flertando?
— Com licença — uma voz feminina interrompeu. Desviei o olhar dos brilhantes olhos castanhos para ver uma aeromoça morena muito atraente com um sorriso largo. — Alguns itens da L’Occitane para deixar sua viagem mais agradável.
 Ela entregou-nos as sacolinhas.
— Senhor Chavez, vejo que já está acomodado. E a senhorita Savinon. How ya going?
Esse era o jeito australiano de perguntar tudo, desde “Como vai você?” até “Está tudo bem?” ou “Como tem passado?”.
— Está tudo bem, obrigada.
 Fiquei surpresa de ela ter se dirigido a nós pelo nome. Obviamente, na classe executiva, as aeromoças tinham uma lista de quem ocupava cada poltrona. A testa dela franziu um instante.
— Vocês não estão viajando juntos, não é?
— Não — respondi rapidamente.
O homem atirou um olhar divertido para mim.
— Certo, então — disse a mulher com o rosto suavizado e lançando outro sorriso. — O voo é bastante longo, mas farei o possível para torná-lo agradável.
Ela olhava diretamente para o meu companheiro de assento, inclinando-se em seu espaço enquanto passageiros que ainda embarcavam passavam ao redor dela, e me fez pensar que dera uma ênfase especial à palavra agradável.
— Muito gentil de sua parte, Carmen — disse ele, parecendo muito feliz que o tecido das calças do uniforme tivessem roçado seu joelho coberto pelos jeans. E lançou-lhe um daqueles sorrisos devastadores.
 Então, ele sabia o nome dela também. Claro, dava para ver que a aeromoça era o tipo dele. Bem, na verdade, era o tipo de qualquer homem... Liguei os pontos e concluí que ambos tinham conversado – flertado? – antes de eu chegar. Não que me importasse, lógico, mas é que não queria ser ignorada pelo serviço de bordo. Limpei a garganta para lembrá-la de que eu estava lá.
— Obrigada — Fiz uma pausa. — Carmen.
 Ela me deu um sorriso que parecia um pouco piedoso. Mulheres como ela sempre me davam uma vontade incontrolável de berrar que eu me formei PhD – summa cum laude 2 – aos vinte e dois anos. Ridículo, porque eu sabia perfeitamente bem que credenciais acadêmicas não a impressionariam nem um pouco. Ela olharia para a minha figura comum, meu rosto comum, minhas roupas comuns e saberia imediatamente que meus atributos nunca poderiam competir com os dela.
— Aceita uma taça de champanhe? — perguntou a comissária de bordo.
Engoli aquele surto bobo de... Certamente não era ciúme, era?
— Seria ótimo.
 Aquela bebida deliciosa seria um bom começo para uma longa viagem e talvez ajudasse a me distrair do homem ao lado.
— O mesmo para mim — disse meu companheiro de viagem.
— Claro, já volto — ela tremulou os cílios para ele?
 Quando ela foi atender o casal mais velho do outro lado do corredor, o homem se virou para mim.
— Está empolgada por passar dez horas dentro de um avião? Alguma ideia de como passar o tempo? — perguntou em um tom sugestivo.
 Que ótimo. Ele era o tipo de cara “aproveite a minha companhia” e que flertava com qualquer fêmea que estivesse por perto. Mesmo uma mulher como eu.
 A vontade de brincar tinha passado.
— Tenho trabalho a fazer — puxei a bandeja do braço da minha cadeira e depositei os cadernos das provas sobre ela.
— Acontece que eu também.
 Apesar de suas palavras, ele não puxou nenhum trabalho, apenas se reclinou em seu assento, ajustou o descanso para os pés e fechou os olhos.
 Ótimo. Ele não dava a mínima se eu conversaria com ele ou não. Tudo bem, ali estava o que eu esperava: um companheiro de viagem que me deixaria em paz. Não que eu quisesse a atenção de um paquerador arrogante como ele, mas às vezes realmente me irritava o fato de que os homens me ignorassem com tanta facilidade.
 Tentei ajustar meu descanso de pé, mas ele não quis cooperar, então me concentrei na primeira prova. Mal tinha começado quando meu telefone móvel – não, meu celular, precisava me readaptar aos termos canadenses – tocou. Puxei-o da bolsa e pelo visor descobri que era minha irmã Zoraida. Nós éramos quatro, um pacote de três e mais uma, sendo que essa uma, a adição não planejada, era Anahi. Eu era a mais velha, a simples gênia. Zoraida era um ano mais nova, a Miss Social. Vivia em Montreal e gerenciava o departamento de Relações Públicas de um hotel lindo.
— Oi — respondi baixinho, os olhos do meu companheiro de viagem ainda estavam fechados. — Não posso falar muito, o avião já vai decolar — Meu cérebro calculava o tempo. Eram cinco e meia da tarde aqui, o que significava que lá... — Zo, não são três e meia da manhã? Você acabou de chegar ou de acordar? — Certamente, nem uma baladeira compulsiva como minha irmã ficaria na rua até essa hora.
— Eu acordei e não conseguia voltar a dormir. Você recebeu o e-mail que enviei algumas horas atrás? Não recebi resposta.
— Deve estar na caixa de entrada. Baixei todos os e-mails antes de sair. Vou dar uma olhada durante o voo. E aí, conseguiu tirar aqueles dias de folga?
 Carmen estava de volta com as bebidas. Balancei a cabeça em agradecimento quando ela me entregou uma taça de champanhe borbulhante. Quando a comissária colocou a bebida do meu vizinho em sua bandeja, seus olhos se abriram com rapidez suficiente.
Zoraida dizia:
— Você sabe quanto é difícil para mim tirar uma folga sem aviso prévio? — e começou a falar sobre todas as pessoas no hotel que dependiam dela. Minha irmã era sempre a alma da festa, seja em sua vida social seja no seu local de trabalho. Enquanto ela falava, meu companheiro de viagem e a aeromoça conversavam, acompanhados por consideráveis rebatidas de cílios da parte dela. Será que ela não tinha outros passageiros para atender? Ou será que ela pretendia passar a viagem inteira flertando com ele, como se esse homem fosse um presente divino para toda a humanidade? Interrompi as divagações de Zoraida.
— Se for mesmo um problema pegar uns dias de folga do trabalho, não se preocupe com isso. Como eu disse antes, posso cuidar de tudo.
 Houve uma pausa. Então:
— Bem, é claro, eu esqueci que você já cuidou de um casamento, e com tanto sucesso.
 Ai. Eu sabia que minhas irmãs mais novas sempre tiveram inveja de mim: de meu cérebro, das responsabilidades que meus pais me deram, do jeito como eu sempre atendi às suas maiores expectativas. Agora que eu tinha pisado em um dos calos de Zoraida, ela revidara pisando em um dos meus. Meu casamento fracassado.
 Se eu estivesse sozinha, teria retrucado sobre a extraordinária capacidade dela de escolher sempre o cara errado. No entanto, a paquera Carmen tinha ido embora e o homem ao meu lado, aparentemente, não tinha nada melhor para fazer do que saborear o champanhe e ouvir meu lado da conversa telefônica. Então eu disse:
— Desculpe. Seria ótimo se você pudesse tirar uma folga no trabalho e me ajudar. — Peguei minha fiûte e calmamente dei um gole da bebida.
— Meu Deus, Mai, você fala como se fosse um projeto seu. É nosso, de todas nós. Seu, meu e de Dul. Isso é o que nós concordamos. Vamos trabalhar juntas para dar a Anne o casamento dos sonhos.
Passei a mão pelo cabelo e esfreguei a testa, que latejava sinalizando o início de uma dor de cabeça.
— Certo, claro.
 Evidentemente, eu só queria o melhor para minha irmã caçula. Entretanto, eu preferia não trabalhar em equipe. Muito menos com minhas irmãs, que nunca tinham atingido os meus padrões.
— Além do mais — continuou Zoraida —, se você tivesse me deixado terminar, eu contaria que consegui alguns dias livres. Vou comprar as passagens de trem e depois passo o horário por e-mail. A viagem vai durar quatro dias.
— Se você pegasse um avião, estaria em casa em menos de um dia.
— Você sabe que não ando de avião.
 Sua voz tinha um tom de alerta e eu conseguia visualizar seu rosto, os olhos castanhos se estreitando, uma ruga vertical dividindo a testa. Ela provavelmente estava à beira de uma dor de cabeça também. Provocar dores de cabeça uma à outra era a única coisa que tínhamos em comum.
Suspirei. Zoraida era uma louca mistura de qualidades. Ela era fluente em duas línguas, havia se dado muito bem na escola, tinha um emprego de responsabilidade, convivia com dezenas de amigos e mantinha uma vida social mais ativa do que se podia imaginar. E, no entanto, tinha um medo irracional de voar e um gosto horrível para homens.
 Não que minhas conquistas com o sexo oposto fossem muito melhores, é claro. Entretanto, eu sabia que não devia continuar tentando, enquanto ela se mantinha sempre apaixonada por alguém novo e totalmente errado.
 Sabendo que nenhum discurso lógico seria capaz de persuadir Zoraida a voar, perguntei:
— E aí, alguma notícia de Dul? Deixei uns dois recados na caixa-postal dela, mas não tive retorno.
Dulce era a irmã seguinte na escadinha, a terceira de nosso pacote, que era como nós nos chamávamos antes de Anahi nascer. Um ano mais nova do que Zoraida, faria trinta anos em breve. Dulce tinha firmado seu lugar na família como a alternativa.
— Não, e a gente prometeu manter contato pelo menos uma vez por dia.
— Você conhece a Dul, ela odeia qualquer tipo de regra ou ter que prestar contas.
— Verdade, mas isso é importante — Zoraida deu um suspiro frustrado. — Ela deve estar no meio do deserto com aqueles pássaros.
Dulce, que nunca tinha conseguido ficar em um mesmo emprego – nem com o mesmo homem – por mais de seis meses, tinha seguido um namorado surfista até Santa Cruz e se envolvido em uma pesquisa sobre o falcão-peregrino.
— Eu vou tentar falar com ela com o telefone do avião, assim que decolarmos. Ahn, qual é o fuso horário em Santa Cruz?
— Três horas a menos que aqui, então agora deve ser tipo uma hora. Sábado à noite, domingo de manhã... Aposto como saiu para a balada, deixou o celular desligado. Ou então a bateria acabou e ela se esqueceu de carregar — Nós compartilhamos um momento silencioso de compreensão.
— Se você conseguir falar com ela — disse Zoraida —, peça para ela me ligar. Vou dormir mais umas duas horas, depois estarei no trabalho organizando as coisas.
— Nem me fale — Minha secretária e eu passamos boa parte das últimas vinte e quatro horas fazendo a mesma coisa.
— Não consigo acreditar que estaremos todas juntas no mesmo lugar simultaneamente. Faz tempo.
— Natal do ano retrasado.
A voz no alto-falante disse aos passageiros para desligar todos os aparelhos eletrônicos.
— Zo, eu tenho que ir. Vou verificar os e-mails e a caixa-postal em Honolulu.
— Certo, faça boa viagem.
 Desliguei o celular e me peguei balançando a cabeça. Quando minhas irmãs e eu éramos pequenas, havia muita competição e inveja mesquinha. Tínhamos cada uma desenvolvido personalidades e interesses distintos e isso nos levou para direções diferentes. Agora, vivendo em quatro cidades diferentes em três países, raramente nos falávamos, quanto mais nos víamos. É claro que nos amávamos, mas era mais fácil nos amar à distância. Isso era um pouco triste, mas essa foi a maneira como as Savinon tinham seguido com suas vidas.
 Agora, graças a Anahi, iríamos nos reunir pela primeira vez em anos. O véu branco e os melhores votos para ela.
 Para o resto de nós sobrava um tiquinho do inferno enquanto tentávamos fazer bonito – ou ao menos, bom o suficiente – umas com as outras para planejar um casamento em menos de duas semanas.
— Essa não é a maneira de começar uma longa viagem — disse o homem ao meu lado.
— Perdão? — eu me virei a fim de olhar para ele e vi um brilho em seus olhos castanhos.

1 Churrasco, em inglês. (N.T.)
2 Com louvor. (N. T.)



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