História Não teve graça: A Origem - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Categorias Batman, Christian Bale, Heath Ledger
Personagens Alfred Pennyworth, Bruce Wayne (Batman), Comissário James "Jim" Gordon, Coringa (Jack Napier), Dr. Jonathan Crane (Espantalho), Dr. Thomas Wayne, Lucius Fox, Martha Wayne, Personagens Originais, Rachel Dawes
Tags Alfred Pennyworth, Arthur, Batman, Bob, Brian Kerr, Bruce Wayne, Burkiss, Christian Bale, Coringa, Danny, Dc Comics, Heath Ledger, Helena Napier, Jack Napier, Jeannie, Jim Gordon, Jonathan Crane, Joseph Kerr, Lucius Fox, Martha Wayne, Não Teve Graça, O Cavaleiro Das Trevas, Origem Coringa, Peter, Rachel Dawes, Sheila, Tdk, The Dark Knight, Thomas Wayne
Exibições 67
Palavras 4.095
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Espero que gostem do capítulo, hora de conhecer Joseph.

Capítulo 6 - Monstros debaixo da cama


“Mas eu não quero me encontrar com gente louca. ” – Observou Alice.

“Você não pode evitar isso. ” – Replicou o gato sorridente.

“Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco, você é louca também... ”

“Como sabe que eu sou louca? ” – Indagou Alice.

“Deve ser.” – Disse o gato. “Ou não teria vindo aqui. ”

Alice no país das maravilhas.

 

Os passos inocentes de crianças estavam em sintonia com a doçura de suas risadas. O vento que batia forte em seus rostinhos não era agressivo, era leve e geladinho. Suas peles macias e contentes eram divertidamente cobertas por roupas coloridas e uma bola murcha era mais que o suficiente para o entretenimento da garotada... os garotos brincavam com a esfera em roda, enquanto as garotas tinham bonequinhas em seu colo. Sim, aquilo deveria ser um belo retrato de uma infância normal e mágica...

- Meu amor? Ainda está aí? Vai esfriar... tome logo. – Helena dizia saindo do quarto, enquanto dobrava um pano de cama, observando o menino sentado em frente à janela.

- .... Não estou com vontade. – A voz da criança soou melancólica e vazia.

- Por favor querido, você já come tão pouco, é uma alegria termos alimento hoje, não podemos desperdiçar. – Helena se sentou à frente da criança em outra cadeira, lhe estendendo o copo mediano cheio de leite com achocolatado.

- ...

- Joe... – Helena o encarou serena. – Faz esse esforço por mim, meu amor. – Helena tocou no rosto do menino.

- Hum... – Joe respirou fundo, seus olhos estavam sem ânimo, olhando para a janela gigante que era o único local “lúdico” daquela sala sem nada. As crianças do lado de fora insistiam em pular, estariam eles exibindo para Joseph um gozo que a ele não cabia?

- Eu sei que está entediado, eu também sinto falta de uma televisão nessa casa.... Quem dera um rádio. – Helena sorriu lhe estendendo novamente o copo. – Por favor. – O garoto de cinco anos se deu por vencido, coçou a cabeça cheio de cachos encaracolados, castanho escuros, e pegou o copo. Helena se animou ao ver o menino tomando uns goles do seu raro alimento. – Mas, apesar de tudo... eu fico feliz por você estar agasalhado nesse frio de congelar pinguim. – Helena observava a roupa colorida do pequeno, que tanto deu trabalho para costurar.... Eram assim as roupas de todos os habitantes daquela morada, costurar era mais barato do que comprar pronta...

- Eu trocaria tudo isso, para ficar um pouco lá em baixo... – Joe comentou segurando o copo, agora vazio.

- Não diga isso querido, já temos tão pouco. – Helena pegou o copo de sua mão, o depositando na mesa lateral.

- A senhora entende o que quero dizer mãe, eles têm outras crianças.... Eles, podem brincar.... Essa riqueza sim me regozijaria se eu assim a tivesse... – Joe assistia as crianças vizinhas brincarem na rua.

- Sabe que o papai não gosta. – Helena abaixou as vistas...

- Mamãe.... Porque não nos é permitido sairmos de casa? Eu, eu fico tão irritado com tudo isso. – Joe virou seu rosto agora para a mãe, que mesmo não demonstrando, sentia a mesma revolta que o filho.

- A rua é perigosa filho, aqui estamos seguros. Eu já te disse, aqui é seu castelo e temos que manter o príncipe em segurança. – A mãe brincou apertando a bochecha do filho.

- Não sente falta mãe? – Joe dizia tão convicto de sua solidão que conseguiu facilmente tirar o sorriso de Helena.

- Um pouco filho, mas eu gosto de ficar em casa. Eu não sou muito de sair, sou caseira, e mesmo que pudesse, nem teria para onde ir. – Helena olhava seu pequeno, mentindo enquanto tentava fazer seus rodeios costumeiros.

- A senhora não tem nenhuma amiga.... Nunca te vejo falando com ninguém.... Como aguenta? – Joe desde pequeno se mostrava observador, e isso pegava Helena pelo pé nas suas mentiras curtas.

- Eu tenho amigas, e muitas. Mas, sempre que falo com elas, você está dormindo, por isso não as vê. – Helena ergueu as sobrancelhas, tentando deixar seu filho satisfeito com sua resposta.

- Se a senhora está dizendo... – Joe deu um suspiro e Helena se perguntava se o garotinho percebia que ela o enganava... ou ao menos tentava. – De qualquer modo, eu sinto falta de ter amigos mãe...

- Seu melhor amigo é o seu pai. – Helena pegou na mão pequena do filho.

- Não, não mesmo. – Joe balançou a cabeça. - Meu melhor amigo é o Bob... – Joe falou e Helena juntou as sobrancelhas.

- Que Bob filho? – Helena perguntou curiosa.

- O Bob mãe, o meu amigo circense. – Joe respondeu em sua ingenuidade. – Ele brinca comigo quando me sinto só. – Helena olhava o menino falar com rosto preocupado. – Eu conheci ele na última vez que fui no parque.... Faz muito tempo... Ele me faz companhia... Veja você, ele está bem aí, atrás da senhora. – Joe apontou com o dedo.

- Joe, não diga essas coisas. – Helena se sentiu arrepiada, era só o que faltava seu filho brincar com fantasmas.

- Olha! Ele está dando tchau. – Joe abriu um sorriso. – A senhora não vê? Acena de volta mãe...

- Filho, como poderei ver? É um amigo imaginário.... – Helena tirou o sorriso do rosto de Joseph. – E eu não quero que fique imaginando essas coisas. – Helena não gostava da maneira que Joe olhava para “alguém” atrás dela, como se realmente estivesse alguém ali.

- Se não quer mãe, me deixe descer. Se eu tivesse amigos, não precisaria contar tanto com o Bob. – Joe deu a bronca.

- Eu não posso filho, seu pai não gosta. – Helena disse se sentindo triste: seu filho estava sendo privado de uma vida inteira... igual a mãe.

- Porque?! – Joe aumentou o tom tão repentinamente que acabou assustando até a mãe com seu grito. – Porque não posso? O papai tem amigos, o papai sai de casa, o papai trabalha, o papai pode tudo. E porque eu não? Porque a senhora não? Eu estou cansado disso mãe, eu duvido que as outras crianças têm um pai como eu tenho! Eu não o suporto! – Enquanto Joe falava tão irritadamente do pai, Helena sentiu um aperto em seu coração.... Não era bom, aquilo não era nada bom.... Uma criança de cinco anos demonstrar toda aquela raiva do próprio pai. E a culpa era de Brian, deixar o menino em cárcere privado desde que se entende por gente... Helena era adulta e conhecia a injustiça da vida, mas era forte para aguentar o confinamento que fosse. Agora deixar uma pessoa crescer naquele ambiente sem cor, isolado, era aterrorizante. E enlouquecedor... - Isso não é justo. Não é, não é, não é!

- Joe, pare! – Helena segurou o menino pelos ombros. Estava com as veias pulsando em seu pescoço e com suas mãos suando de tamanha sua ira.

- Mãe... a senhora gosta do papai? – Joe arregalou os olhos de uma maneira tão assustadora, que nem parecia mais uma criança. Helena não conseguia mais mentir, aqueles olhos castanhos esbugalhados testemunhavam contra ela. – Pois eu não gosto... eu o detesto, assim como sei que ele não gosta de mim. – Joe dizia pausadamente, uma frieza tomou conta de seu rosto e seu olhar ficou irreconhecível para a própria mãe.

- Não filho.... Não fala mais isso... – Helena deixou lagrimas caírem desesperadamente dos seus olhos. O liquido quente que escorria em seu rosto despertou Joe do seu momento de fúria, o garoto foi “voltando ao normal”. – O seu pai te ama. – Disparou ela.

- ... O que disse? – Joe piscava buscando ouvir melhor. – É mentira, está mentindo de novo!

- Não... – Helena balançava a cabeça freneticamente. – Seu pai te ama tanto, que morre de medo de perde-lo... O mundo lá fora é muito perigoso, mas você é pequeno demais para saber o que se passa por todos os becos de Gotham.... Por isso não o permite sair, e nem a mim... O amor dele é tão grande, que ele acaba exagerando um pouco na sua proteção... -

- ... – Joe ficou olhando atentamente a mãe, tentando abrir a mente, tentando acreditar que existia a possibilidade daquela xaropada toda ser verdade.

- Seu pai te ama. – Helena passava a mão delicadamente na bochecha do filho.... Dessa vez, ela conseguiu prender sua atenção.... Infelizmente, com mais uma mentira...

- Me ama? ... – Joe perguntou e Helena balançou a cabeça, dizendo que sim. – E ama a senhora também? – Joe novamente questionou e Helena abriu um sorriso, apontando que sim.

- Por isso, nunca mais repita essas palavras, meu filho. Nunca deixe a raiva tomar sua cabeça, e nem o ódio cegar seus olhos. Quando o papai chegar, você vai dar um beijo nele, está bem? – Helena tentava fincar essa mensagem no subconsciente do menino.

- Tudo bem.... Me perdoe mãe.... Eu não queria ter gritado - Helena o tomou para um abraço.

- Está tudo certo, meu filho, só não o faça de novo. – Helena distribuía afagos na cabeça do menino que devolvia o abraço. Joe era tão quente e seu toque era leve como de toda criança. Joe tinha a cabeça encostada na mãe, quando escutou a barriga dela roncar.

- Está com fome mãe? ... – Joe levantou a cabeça e olhou para a sua progenitora, que o olhou de volta sem saber como desviar de mais aquele fato. – O papai nos dá pouca comida, porque nos ama muito também?

- Para Joe, não puxe a ironia do seu pai. Já falei que não gosto disso. – Helena suspirou aflita.

- Não respondeu minha pergunta. – Joe passou a língua nos lábios.

- Filho... vamos brincar de um joguinho? – Helena iluminou mais essa ideia para despistar as irresponsabilidades de Brian para o filho.

- Sim, sim, sim. – Joseph sorriu empolgado.

- Vamos ver quem de nós aguenta ficar mais tempo sem comer? Quem ganhar, receberá um prêmio depois. – Helena abriu um sorriso também.

- Moleza mãe, eu ganho da senhora, vai ver como não perco. Já estou acostumado a ficar horas sem comer.

Ouvir aquelas palavras do filho machucou Helena, mas a desgraça era verídica.

[...]

A noite caiu, Helena estava deitada no sofá, com as mãos na barriga, pálida de fome. Igualmente Joe estava mais branco que o normal, estava sentado no tapete do chão, a sua única diversão era olhar para a janela e ver as pessoas passarem: gostava de tentar imaginar como foi o dia delas, para onde estavam indo, o que fariam amanhã... Joe gostava de inventar histórias, porém a fome apertava sua barriga e o tirava do foco dos seus contos imaginários.

- Boa noite. – Joe falou se levantando e beijando a mão de Helena.

- Já vai dormir, meu amor? – Helena beijou seu rosto.

- Sim, acho que é a melhor saída para não ficar com fome, não vou deixar a senhora me vencer. – Joe afirmou fazendo a mãe soltar uma breve risada.

- Está bem, eu também vou daqui a pouco. – Helena olhou o menino caminhar até a porta de seu quarto, depois de muita demora Brian fez o quarto do Joe, como prometido. Ao menos o canalha cumpriu essa promessa.

- Mamãe... – Joe se virou de frente. – Se eu pedir para o papai será que ele deixa eu ir no parque de diversões?

- Acho que já sabe a resposta querido. – Helena disse desanimada.

- Mas, se ele ir junto não vai precisar se preocupar conosco, ele pode nos proteger se estiver ao nosso lado... se essa é a desculpa. – Joe comentou cansado das negativas.

- Eu vou tentar falar com ele, amor. Prometo. – Helena sorriu sem graça.

- ... – Joe entrou para seu quarto, sem grandes expectativas.

O quarto de Joe não era grande coisa, assim como nada naquela casa, ele era uma área inútil do quarto de Helena e Brian, que apenas tinha a parede separando os dois cômodos. O piso era desnivelado, porém limpo. A janela era pequena, mas foi suficiente para Brian brigar com Helena, pois a caixilharia ficou na parte do quarto de Joe, deixando o quarto do pai sem ventilação. A cama era alta, até demais para uma criança subir, Joseph sempre fazia um esforço para realizar sua “escalada” até o colchão. Na parede, só havia um relógio com formato de carrinho de criança, um presente que Helena comprou na época em que ele ainda era bebezinho. E uma cômoda lhe servia de guarda-roupa.... Dava para o gasto, ele não tinha muitas roupas mesmo... Joe deitou-se na cama, e tentando ignorar a fome que o consumia, adormeceu.

[...]

Brian estava ajudando a fechar o restaurante, detestava seu trabalho de garçom, mas detestava mais ainda a hora de ir para casa, e ter que encarar aqueles dois inúteis, como assim denominava sua família. Estava dobrando as cadeiras e mesas dobráveis de metal, quando seu chefe surgiu atrás dele.

- Brian. – O homem baixo o chamou.

- Oi, oi, oi. – Brian o saudou sorridente, embora não estivesse de bom humor. Brian permanecia com seu rosto feio e agora voltou a usar sua barba nojenta de pirraça, pois sabia que Helena a odiava.

- Você adora sorrir não é mesmo? E está rindo as minhas custas? – O chefe perguntou sério.

- Como assim? – Brian diminuiu o sorriso.

- Já é a terceira vez nesse mês que alguém o pega bebendo escondido. – O chefe alegou, tornando o rosto de Brian sério, o haviam pegado fazendo coisa errada...

- Não vai acontecer de novo senhor. – Brian tentou ser educado, falando com “respeito”.

- É claro que não vai! Se acontecer mais uma vez, está despedido! – O chefe lhe levantou o dedo.

- Não faça isso, preciso do emprego, tenho filho pequeno e a minha esposa para sustentar. – Essa era a única coisa que Helena e Joseph serviam: a fachada da família de Brian.

- Não se faça de bobo, todos sabemos que não se importa com eles para nada, mas eu me importo com o meu dinheiro, não pago caro nas minhas mercadorias para meus garçons beberem tudo escondido! – O chefe estava impaciente para as desculpas do seu empregado.

- Sim senhor. – Brian abaixou as vistas.

- Espero que estejamos entendidos. – O patrão passou a mão no pouco cabelo que tinha na cabeça.

- Claro. – Brian permaneceu de cabeça baixa, pensativo. O homem se aproximou dele.

- Deveria ter mais cuidado Brian, ninguém das redondezas daria um emprego digno a você, sua fama de cão sujo o impede de trabalhar em qualquer lugar! Só o mantenho aqui porque dona Helena já deve sofrer demais por estar casada com você, mas minha misericórdia não é eterna, assim como meu dinheiro!

- Sim senhor... – Brian o olhou nos olhos, se segurando para não responder nada além do que devia.

- Agora vá para casa, e amanhã sem gracinhas! – O homem o enxotava com as mãos.

- ... – Brian se retirou do restaurante, e agora caminhava pela calçada sem olhar para trás. - Velho nojento, ainda te mato... Droga.... - Sussurrou para si mesmo, quando sentiu gotas molharem seu rosto suado. - Ótimo, era só o que me faltava. – Brian passou a caminhar mais rápido, indo para casa se molhando com a chuva que iniciara, pensando o tempo inteiro quem o teria dedurado para o patrão...

[...]

Helena já estava deitada quase dormindo, quando seu sono despertou com o barulho da porta sendo aberta bruscamente. Passou a mão no rosto, já sentindo o fedor de álcool “perfumando” a casa. Suas vistas doeram imediatamente quando uma luz forte a incomodou.

- Apague essa luz Brian! – Helena sussurrou baixo, cobrindo os olhos.

- Dorme traste. – Brian tirava a camisa do trabalho molhada.

- É o que estou tentando fazer! – Helena se levantou do colchão ao chão rapidamente e caminhou até o interruptor, apagando a luz.

- Não tá vendo que estou me trocando, porra?! – Brian gritou. – Acende essa merda! – Brian bateu no interruptor acendendo a luz novamente.

- Arrogante, olha a boca... Joe está bem aí do lado dormindo. – Helena falava baixo, como era terrível aos seus olhos enxergar aquele homem que não tinha respeito.

- Eu falo como eu quiser, e daí? – Brian tinha os olhos miúdos de cansaço, e sempre permanecia com sua expressão rude.

- Fale baixo, por favor, vai acordá-lo. – Helena fechou a porta, tentando abafar o som.

- Quem aqui está falando alto, sua doente? – Brian naturalmente tinha a voz alta.

- ... – Helena preferiu não esticar o assunto, o marido era ignorante demais para perceber que seu filho dormia do outro lado da parede. - Depois de amanhã, leve Joe ao parque. Por favor...

- Hahahahaha, não vou nem responder. – Brian debochou tirando os sapatos molhados e gastos.

- Não precisa me levar junto, apenas leve ele para sair um pouco. – Helena pedia em tom baixo e suplicante.

- Veja você... Ele pode sair, sair do quarto para a cozinha, da cozinha para a sala, da sala para o banheiro, olha que divertido. Hahahahaha. – Brian irritava Helena com seus jogos irônicos.

- .... – Helena respirou fundo, era difícil manter a paciência. - Não precisa gastar um centavo com ele, e nem demorar muito. Faça esse único favor e ficarei o mês inteiro sem lhe pedir nada. – Helena juntou as mãos, pedindo.

- Se eu levar aquele moleque feio para dar um rolé, deixo ele na primeira esquina e volto para casa. – Brian abriu seu sorriso amarelo, e olhava Helena nos olhos, como se tivesse graça aquele tipo de frase...

- Miserável, você ainda vai pagar caro por tudo o que faz. – Helena dizia entredentes e desviou o olhar, mas logo se calou.

- Tá me ameaçando? Tá muito pirada? Só pode ser. – Brian se aproximou, encurralando Helena contra a parede.

- Você sabe que eu não tenho como fazer nada contra você, mas uma hora a vida vai te dar a surra que você merece! – Pronto, Helena precisava soltar sua raiva, estava com aquelas palavras entaladas na garganta há muito tempo. Porém, não foi uma boa ideia... Brian lhe deu um soco brutal no rosto, fazendo a magra mulher cair no chão.

- Tá aí a sua surra. – Brian permaneceu de pé, sorrindo em frente a mulher que gemia de dor no chão.

- Seu nojento! – Helena estava com tanto ódio que se levantou, e passou a estapear os peitos de Brian. E então, aquele quarto se tornou um ringue de luta livre, tendo é claro, Helena como o saco de pancada.

O barulho no quarto ao lado, junto ao estrondo dos fortes trovões acompanhados da chuva, já havia acordado Joe há muito tempo: o garoto estava escondido debaixo das cobertas e chorava enquanto juntava as mãos nos ouvidos, para não escutar mais os gritos de seus pais. “De novo... de novo... Parem... por favor...”, o garoto sussurrava para ele mesmo.

Joe chorava desesperadamente, e o raio de luz que partia sua janela ao som de um novo trovão o assustava ainda mais. Morrendo de medo, desceu da cama e se escondeu debaixo da mesma. Sua cama era alta e o garoto pequeno, cabia assim confortavelmente a criança que se balançava de um lado para o outro, numa terrível agonia. Joe se assustou ao sentir algo no seu pé, e com o pulo do susto que o corpo deu, acabou batendo a cabeça na cama.

- Au... – Joe passou a mão nos cabelos, tocando a nova ferida que surgia. – Bob, ah é você Bob. Que susto que me deu cara.

- ... – Bob era o fantasma imaginário da mente esquisita de Joe, havia sido “inventado” quando Joseph foi a primeira vez a um parque de diversões e o “projetou” a imagem de um dos rapazes que trabalham no circo que havia ali. Bob era um palhaço que se vestia com extravagancia, tinha um batom fora das proporções desenhando sua boca em maior escala, seus cabelos coloridos e armados eram ainda maiores que seus sapatos sem sentido. Bob flutuava como um espirito, e dessa vez estava olhando triste para a criança, que chorava em demasia.

- Era tudo mentira, minha mãe mente igual a ele... – Joe abaixou as vistas, enquanto suas lagrimas tomavam de conta de seu rosto. – Não estão bem coisa nenhuma.

- ... – Bob permanecia imóvel vendo o garoto desabafar, seus olhos sombrios mais pareciam ter vindo de um filme de terror.

- Estão brigando, isso está claro... mais claro do que esses relâmpagos insuportáveis... – Joe mesmo debaixo da cama podia ver o clarão que invadia seu quarto, quando os trovões tempesteavam no céu.

- Talvez estejam se divertindo. – A voz de Bob era como um coro, parecia ser de várias pessoas falando juntas ao mesmo tempo, agora o palhaço abriu um sorriso. Era feio demais, ele não tinha todos os dentes...

- Não podem estar brincando, ninguém brinca berrando desse jeito. – Joe não se espantava com Bob, se espantava com os gritos do quarto ao lado, era terrível escutar o som dos murros e pontapés, que com certeza era a mãe quem os recebia.

- Escute Joe, vamos embora, você pode vir comigo, longe dessa gritaria. – Bob flutuava em volta de Joe, seu corpo sem matéria, passava por entre os móveis.

- Ir para onde? – Joe examinava os olhos do palhaço ficando mais longe, como se estivesse indo embora. - Bob, não me deixe aqui sozinho... – O menino se tremia, imaginando que seu pai poderia entrar no seu quarto a qualquer momento.

- Se você se desligar da realidade, poderá vir comigo. Suba no trenzinho. – A imaginação fértil de Joe o permitiu se sentir por alguns instantes em outro lugar: era um parque abandonado e macabro. Porém, parecia ser melhor que sua casa naquele momento.

- ... Não! – Joe fechou os olhos com força saindo daquela visão horrível e novamente estava debaixo da sua cama, “de volta ao mundo real”.

- Deixe essa histeria e venha seguindo a trilha escondida debaixo da sua cama. – Bob sumia e aparecia na escuridão daquele quarto.

- Debaixo da minha cama só tem monstros. – Joe se negava a seguir a trilha que enxergava a sua frente... A trilha era tortuosa e lembrava muito a trilha de um trem típico dos anos 50.

- Não, o monstro está no quarto ao lado, batendo na sua mãe. – Bob sussurrava rente ao ouvido do menino. - Venha comigo pequeno Joseph, venha, pegue seus sapatos e venha caminhar pelo meu trenzinho, está na hora de começar a rir dos problemas.

- Rir dos meus problemas, impossível. – Joe tentava parar de soluçar, detestava chorar daquela maneira.

- Sua saída de emergência está tão próxima. É só apertar o botão vermelho. – Bob tentava a todo custo fazer o menino enxergar coisas além. O céu estava alaranjado, com nuvens roxas e os brinquedos quebrados do parque giravam e piscavam luzes coloridas, mesmo sem ninguém para brincar neles.

- Aonde? – Joe começou a sentir tudo girar ao seu redor, estava ficando tonto, mas estava funcionando, pois, o barulho os gritos da sua mãe, estavam ficando mais baixos...

- Na sua loucura. – Bob enfim sorriu, mas Joe levou as duas mãos na cabeça, tentando desembaralhar a imagem que sua mente doentia desenhava.

- Bob, cale a boca! Você é meu amigo, ou o bicho papão? Sai daqui! Me deixe sair também!!! – Joe forçava sua mente, como alguém que tenta acordar de um pesadelo.

♫ “Se as pessoas não te compreenderem, não ligue. Vire as costas, vá em frente, não brigue. E se disserem que você regula pouco, e porque não sabem: como é bom ser louco. ” ♫ - Bob cantava aquele horror para o menino, mas a força de vontade de Joseph acordar o conseguiu retirar daquele lugar sinistro em que se encontrava. E voltou a estar de baixo da sua cama, mas dessa vez, sem Bob.

“Eu estou vendo coisas... Nada aconteceu, estou no mesmo lugar...” Joe reparava como não havia trem nenhum, e os gritos de seus pais ainda permaneciam. Joe se arrepiou por inteiro, estava alucinando, vendo coisas e ouvindo vozes que não existiam. “Acho que por isso minha mãe não foi com a cara dele...”. Joe não aguentou aquela aura insana e saiu debaixo da sua cama, mas não tinha coragem para sair do quarto. Encostou-se então no chão frio, de costas para a janela, e ficou a balançar, para frente e para trás, com o rosto coberto por lagrimas. E a cada segundo o medo não lhe dava espaço nem para um refúgio, pois a natureza fazia questão de trovejar mais alto. O céu faltava cair em cima da sua casa, ao mesmo tempo que Joe perdia a cabeça, não sabendo ao certo o que era sua realidade.

[...]



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