História Nasce uma rainha amazona. - Capítulo 1


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Categorias Xena, a Princesa Guerreira
Personagens Ephiny, Eponin, Gabrielle, Melosa, Xena
Tags Ação, Aventura, Drama, Ecchi, Femme Slash, Luta, Shoujo-ai, Suspense, Violencia, Xena, Yuri
Visualizações 141
Palavras 17.688
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, FemmeSlash, Ficção, Luta, Shoujo-Ai, Suspense, Violência, Yuri
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Esta fanfiction foi feita apenas como mero entretenimento, não querendo ferir direitos autorais. As personagens, Xena, Gabrielle, Ephiny e Melosa são marcas registradas da MCA/Universal e Renaissance Pictures, Studios USA. Elas são usadas aqui, sem intenção de infringir as leis de copyright.

Capítulo 1 - Capítulo único ........ O retorno da princesa.


Quando os vi pela primeira vez naquela região estava cavalgando a beira mar. Os três navios pareciam navegar sem peso sobre o oceano. As proas e as popas eram altas e quando seus remos penetravam nas ondas, eles deslizavam sobre a água movidos pelo descer e subir das ondas. Cada navio tinha duas fileiras de remos; o sol batia nas pás molhadas parecendo fagulhas de luz. As velas enroladas nos mastros compridos não deixavam identificar de onde era a esquadra.

Era outono. Os penhascos junto ao mar estavam cheios de plantas crescidas no verão, havia uma grande quantidade de aves marinhas girando e gritando no céu e nas pedras. Sentia a crina do cavalo me golpear com os borrifos lançados pelo vento. Cavalguei até chegar onde os bancos de areia se cruzavam com o início da vegetação rasteira das praias. Subi a pequena duna sem grande dificuldade. Meu cavalo já estava acostumado a caminhos difíceis, já tínhamos atravessado grande parte desse país. Quando juntos éramos como um só, ele era minha máquina de guerra, já tínhamos enfrentado muitas batalhas e ele nunca me decepcionou e sei que não o fará agora.

Lembro que era um dia bonito. O sol brilhava, o mar estava calmo, as ondas suaves; no céu de um azul incomparável flutuavam pequenas nuvens que se dispersavam com o vento. Já cavalgando pela vegetação que começava a se espessar, com um leve puxão na rédea conduzi o cavalo na direção norte. Estava ansiosa para chegar à aldeia. Já estava longe a muito tempo, esse último trabalho tinha se estendido mais do que tinha planejado, mas estava tudo resolvido. Agora a minha única vontade era encontrar minha Barda, abraçá-la e matar a saudade de quase dois meses longe de seus carinhos. Segui até uma pequena elevação onde uma parte desmoronada formou uma rampa de terra firme; segui para o interior, Argo venceu a pequena encosta e de lá galopei por uma longa faixa costeira de terra que seguia na direção da aldeia.

A aldeia fica no vale mais verdejante que já vi; verdes como os olhos da minha amada. Me surpreendi sorrindo ao pensar nela. A ansiedade de ver seu doce rosto, seu sorriso, de tocar seus macios cabelos dourados e seu corpo me fez instigar ainda mais meu companheiro inseparável de andanças. Ele pareceu entender meu desejo e disparou pelo caminho como se tivesse criado asas.  Comecei a ver o portão; construída em cima de uma parede de terra, uma paliçada imponente cercava toda aldeia. A amazona que pastoreava o rebanho de ovelhas no vale ao me reconhecer me acena. Respondi rapidamente a saudação.

Passei trovejando pelo arco do portão. Argo brilhava de suor e bufava de cansaço. Com um pequeno puxão nas rédeas meu companheiro reduziu rapidamente a velocidade. Passei pelo estábulo, pelas cabanas de madeira com tetos de palha; as crianças corriam junto ao cavalo gritando e pulando com a alegria típica da infância; me dirigi ao centro da aldeia onde tive uma pequena recepção calorosa. Desci do cavalo; imediatamente uma amazona se prontificou a pegar as rédeas do animal e levou-o para o estábulo para descansar e se alimentar. Procurava ansiosamente por aqueles olhos verdes que tanta alegria me dava. Como sou bem mais alta que a maioria das amazonas, não seria difícil encontrá-la no meio daquelas mulheres.

Recebia as boas vindas. Procurava responder com atenção as saudações. Mas minha atenção estava voltada para a procura de minha alma gêmea, a ansiedade começava a me afligir. - Onde ela está? – Perguntava a mim mesma. Por fim como não consegui encontrá-la perguntei ansiosa:

- Onde está Gabrielle?

- Deve estar com Ephiny. - Responde uma amazona, apontando para o local da arena.

Me dirigi para a arena de treinamento. A arena era imensa, arredondada, toras de madeira de média altura limitavam sua área. Erguia-se numa área isolada próxima ao final da aldeia. Cheguei vagarosamente e me recostei na tora que servia de pilar para o portão da arena. Fiquei observando as mulheres treinando. As amazonas lutavam batalhas imaginárias, girando as espadas e arremessando as lanças. Gabrielle e Ephiny se enfrentavam com os cajados.

A rainha encarregou Ephiny de treinar Gabrielle. A Barda ainda se mostrava desajeitada com a arma, mas estava sendo treinada pela amazona que dominava o manejo do cajado como nenhuma outra da aldeia.

Percebi que a desatenção e as falhas de coordenação da loira irritavam a amazona. Por mais que instruísse na teoria e na prática, Gabrielle não se movia com rapidez suficiente para se defender de um ataque.

- Você tem que ter destreza e leveza ao movê-lo, sem deixá-lo cair. – Orientava a amazona e continuava. - Tem que ter total domínio do que faz e segurar o pulso. – E o treinamento continuava, sem descanso. Quando certa hora Gabrielle não aguentou e se ajoelhou na terra macia, ofegante e com o rosto escorrendo suor.

- O que foi “princesa”? O cajado é pesado demais? – Ironiza a amazona.

- Preciso descansar. Meus braços já nem me respondem mais! – Responde Gabrielle arfando.

- Só quando acertar. Levante-se. – Disse friamente a amazona.

- Eu não aguento mais! – Reclama à loira.

As outras amazonas que presenciavam a cena se entreolharam, mas não fizeram qualquer comentário. Ephiny percebeu que as mulheres tinham parado o treinamento atentas a desavença entre ela e Gabrielle.

- Voltem ao treinamento! – Ordena.

A amazona, que antes parecia tão tranquila em suas ordens e na paciente instrução com todas, estava agora irreconhecível.

Os movimentos repetidos prosseguiam e eram repetidos caso alguma delas errasse nos movimentos de ataque e defesa.

- LEVANTE-SE! – Ephiny grita para Gabrielle.

Continuei recostada na tora, com os braços cruzados sobre o peito assistindo a tudo, procurando não interferir. Mas não gostei da atitude da amazona. Gabrielle era uma jovem camponesa que por um acaso do destino tinha se tornado uma princesa amazona, não tinha os instintos de uma guerreira. Tinha que ser pacientemente treinada, e Ephiny já estava passando dos limites de treinamento, parecia estar se transformando em desafeto pessoal.

Gabrielle levanta-se protestando pelo cansaço, é quando me vê junto ao cercado da arena, sorri e acena para mim. Esse momento de distração é suficiente para que Ephiny com um forte golpe do cajado, bata nas curvas traseiras do joelho da loira, derrubando-a violentamente de costas no chão, pressionando o cajado no peito de Gabrielle, impedindo-a de se levantar.

Reagi indignada, descruzando os braços e retesando o corpo gritei: - EPHINY!

Surpreendida com o tom do meu grito, a amazona se afasta da loira caída no chão. Com um debochado sorriso de lado, oferece a mão a Gabrielle para que se levante. A Barda possessa de raiva, esbofeteia a mão de Ephiny, recusando a ajuda. Levanta-se sozinha e limpando a roupa se encaminha para o portão da arena.

- O TREINAMENTO NÃO ACABOU, VOLTE AQUI AGORA! - Grita a amazona e continua. - VOCÊ TEM QUE APREN....

- EU VOU APRENDER COM A MELHOR! - Responde a Barda.

Sem paciência e ciente que eu a esperava do lado de fora, Gabrielle não deixou Ephiny terminar a frase. Deu as costas e se retirou sem tentar esconder a raiva que sentia.

- Ahrrr, que loirinha irritante! - Desabafa a amazona, continuando os seus afazeres de treinadora com as demais.

Recebo Gabrielle com um abraço forte, levantando-a do chão. Uma alegria imensa me invade quando sinto aquele pequeno corpo finalmente entre meus braços.

- Que saudade meu amor! - Sussurrei no ouvido da Barda.

Gabrielle agarrada ao meu pescoço e ainda suspensa no ar, responde: - Eu também não aguentava mais de saudade!

Coloco-a no chão, pego o rosto da loira entre as mãos e beijo seu rosto, passei o braço sobre seus ombros e nos dirigimos para nossa cabana. Tínhamos muitos assuntos para conversar e mais ainda saudades para matar.

Numa última olhada Gabrielle nota que está sendo observada por Ephiny, mas não dá importância, abraça minha cintura. Sei que o restante do dia e noite será dedicada exclusivamente a mim e nada, nem ninguém mudará isso; seguimos nosso caminho.

......................................

O sol já nascera a tempo; virei-me de lado, abri os olhos e ainda sonolenta apalpei a cama e não encontrei Gabrielle. A cama ainda estava quente. Silêncio no quarto.

Ouvi um grito. Assustada, fique de pé num pulo já pegando minha espada na bainha pendurada na cabeceira da cama. Tudo aconteceu muito rápido. Me enrolei precariamente no lençol e corri para porta do quarto; abri, olhei pela casa e não vi ninguém.

- GABRIELLE! - Gritei chamando pela loira.

- SOCORRO XENA! - Ouvi como resposta.

Outro grito vindo do fundo da casa; corri para lá com a espada em punho e me deparei com a loira nua gritando dentro da tina que servia para banho, apavorada com um pequeno sapo que pulara para dentro da tina. O sapo boiava acomodado tranquilamente junto à borda, mas Gabrielle se espremia junto à borda oposta, jogando água no pequeno animal tentando espantá-lo enquanto gritava.

Quando percebi o motivo da gritaria me encostei no portal, apoiei a ponta da espada no chão de certo modo me divertindo com a cena, nesse momento aparecem correndo cinco amazonas empunhando lanças e espadas. O grupo imediatamente se espalha pelo local prontas para um confronto com algum invasor, observam rapidamente a área e não encontram nada ameaçador.

- Ouvimos gritos, o que houve? - Pergunta Ephiny.

- Nada demais meninas, está tudo bem. - Respondi enquanto me esforçava para conter o riso que a cena causou.

As amazonas relaxam quando percebem que não existe perigo e vão saindo lentamente, só então Ephiny percebe o pequeno sapo junto à borda da tina. Sua fisionomia muda instantaneamente, seu rosto enrubesce.

- VOCÊ FEZ ESSE ESCANDALO TODO SÓ POR CAUSA DESSE BICHINHO? - Berrava com Gabrielle, sua mão agarrava fortemente o cajado de luta, deixando claro a sua irritação com o falso alarme.

Resolvi intervir, pois sabia que o relacionamento das duas não era dos melhores: - Está bem, já chega! Ela se assustou, foi só isso. - Disse colocando a mão com firmeza no ombro da amazona.

Ephiny encarava seriamente Gabrielle; desvia o olhar para mim e vira-se para sair. Bufando de raiva ela me diz: - Não sei como você aguenta essa criatura! - E sai rapidamente pisando forte.

Me aproximo da tina e retiro o pequeno sapo de dentro da água, jogando-o a certa distância. - Pronto, o “monstro” não vai mais te incomodar. - Esboço um sorriso irônico.

Gabrielle percebe meu tom debochado e sua fisionomia séria deixa claro que ela não tinha gostado da piada. Notei que a situação estava se encaminhando para um desfecho nada agradável. Sabia que a Barda quando se irritava se transformava. Aquela meiga criatura dava lugar a uma fria e irritante mulher. Gabrielle reagia mergulhando num silêncio gélido, ignorando minha presença por dias e isso me irritava imensamente.

- Tem lugar para mais uma? - perguntei enquanto me desenrolava do lençol e entrei na tina; Gabrielle observa a minha nudez com o canto do olho, mas não responde nada. Me acomodo ao lado da loira que permanece imóvel.

- Vire-se, me deixa esfregar suas costas. - Digo enquanto esfrego o sabão no pequeno pano usado no banho.

Depois de alguns segundos, mostrando uma falsa relutância, ela vira-se e eu começo a esfregar seu pescoço, depois passo para a orelha direita.

- Por Zeus Gabrielle, a quanto tempo você não lava atrás dessas orelhas? - Ela contém o sorriso, não quer dar o braço a torcer que está se divertindo com a situação.

Ensaboo novamente o pano e continuo esfregando o corpo da loira, passando para a outra orelha, desço para o pescoço e ombro esquerdo, sinto Gabrielle relaxar; me acomodo para aconchegar melhor o corpo dela, a proximidade de seu corpo me faz estremecer, sinto um calafrio no estômago, um arrepio me sobe pela espinha. - Pelos deuses como é possível essa mulher mexer comigo dessa maneira? - Penso enquanto acaricio seus ombros, começo a beijar suas costas e pescoço. Gabrielle ouve minha respiração se alterar e vai se entregando as carícias.

Me acomodo de maneira a fazer Gabrielle sentar-se entre minhas pernas, mas permanecendo de costas para mim. A loira sente os meus seios encostarem nas suas costas e os pelos de meu sexo se encostar nas suas nádegas. Esse contato causa uma sensação muito agradável em ambas. Continuo com as carícias por suas costas, delicadamente minhas mãos deslizam para os seios de minha amada, apalpo-os sentindo os mamilos já rígidos. Passo a língua delicadamente no seu pescoço, subindo até a orelha, minha língua quente e ávida passeia na orelha dela, examinando os contornos. Gabrielle se arrepia e encolhe-se dengosamente, oferecendo seus lábios. Minhas mãos já deslizavam pelo ventre de minha amada examinando a cavidade de seu umbigo e já iam aproximando-se dos pelos de seu sexo, quando senti que alguém se aproximava. Simultaneamente com reflexos felinos empurrei Gabrielle e levantei-me da tina, expondo meu corpo forte completamente nu, escorrendo água. Gabrielle se assusta com meu movimento repentino, sem entender o motivo, quando percebe a menina parada na porta espantada com a visão de uma mulher gigantesca, completamente nua olhando-a.

Parada na porta estava uma menina de cacheados cabelos ruivos e olhos azuis claros, a pele muito branca realçava as sardas nas pequenas bochechas, aparentava sete ou oito anos. Embaraçada me agacho novamente dentro da tina e Gabrielle se encolhe tampando os seios com as mãos.

A menina permanece estática, apenas olhando para nós que estávamos completamente embaraçadas com a situação.

Após constrangedores segundos, me dirijo à criança: - Olá menina..., você quer alguma coisa? - Perguntei com voz suave, tentando amenizar a situação.

- Vo...você é a princesa Gabrielle? - Pergunta a menina gaguejando, olhando para mim.

- Eu sou Gabrielle, você quer falar comigo? - Diz a loira se apresentando.

- É que a rainha mandou te chamar, disse para você ir urgente falar com ela... - A pequenina ainda tinha a expressão de espanto estampado no rostinho.

- A rainha? - Repetiu Gabrielle.

- É sim, ela disse que é muito importante. - A menina já se sente mais à vontade e estica o corpo, com ar de estar cumprindo uma importante missão.

Antes que Gabrielle pudesse responder me antecipei e disse: - Está certo nós vamos lá agora mesmo..., você pode me dar esse pano aí? - falei enquanto apontava para o lençol próximo à criança.  - A menina prontamente me entrega o lençol, levantei me enrolando no pano ainda dentro da tina. A menina acompanha cada movimento meu, ficando admirada com a minha altura quando me aproximo dela.

- Puxa..., como você é grande! - Exclama a menina espantada.

Abri um grande sorriso e acariciei a cabeça da pequenina, me curvei dando um beijo na sua cabeça agradecendo pelo recado e pela ajuda com o lençol.

- Quando eu crescer, eu quero ficar grande igual você. - Disse a menina com a típica inocência das crianças.

Abaixei-me apoiando um dos joelhos no chão; abracei a pequena amazona com carinho quase maternal. - Gabrielle assiste a cena encantada com a minha docilidade com a criança.

- Você vai crescer e ser uma grande amazona. Agora vá dizer à rainha que a princesa Gabrielle já está indo, está bem? - Disse e levantei me despedindo da menina, que sai correndo feliz por ter cumprido sua missão.

- Xena! - Gabrielle me chama.

Virei e deparei com a loira com ar interrogativo, como questionando sobre a situação em que fomos interrompidas. Retorno para junto da tina, abaixo-me, acaricio seus cabelos e rosto e digo: - Amor, Melosa não te chamaria sem um forte motivo. Vamos ver o que ela quer, depois continuamos com o nosso “banho”. - Digo enfatizando a palavra e dou um beijo nos lábios da loira. Ela beija a palma de minha mão e com um suspiro de resignação levanta-se saindo da tina.

Fico admirando a mulher enquanto ela levanta-se; a água escorrendo pelo seu corpo nu é de uma sensualidade que mexe com os meus sentidos. Mas agora tínhamos que atender ao chamado da rainha, não podíamos nos deixar levar pelo desejo de continuar onde paramos. Ambas seguimos para a cabana e nos vestimos com rapidez. Gabrielle me dá uma fruta e sai mastigando um pedaço de pão, pois não tínhamos feito o desjejum. Caminhamos para a cabana real.

A cabana real era erguida sobre uma pequena elevação natural do terreno. Uma escadaria de dez degraus dava acesso à entrada da cabana. Chegamos à escadaria e encontramos as amazonas que faziam parte do Conselho chegando ao mesmo tempo.

- A coisa é mais séria do que pensei. - Murmurei.

O salão de armas estava iluminado pela quente luz da manhã que entrava pelas largas janelas. Em torno da mesa de madeira rústica as cadeiras aguardavam as guerreiras convocadas. Melosa sentada na imponente cadeira alta na cabeceira da mesa aguardava as demais amazonas chegarem para dar início à reunião. Em poucos minutos o salão abrigava todas as chefes guerreiras e nós duas.

- Sentem-se. - Ordenou a rainha.

Todas se acomodam exceto eu, que permaneço de pé ao lado de Gabrielle. Melosa me convida para sentar, mas agradeço, justificando que não sou amazona e que estou ali por ter sido convocada pela princesa Gabrielle. A loira não se incomoda com a meia verdade que contei.

O silêncio cai sobre o salão, tudo que se ouvia eram os pássaros do lado de fora. Melosa dá um suspiro pesado e recosta-se na cadeira.

- Guerreiras..., tenho informações seguras que os romanos chegaram a nossas praias. - Sua voz tinha uma tensão firme de preocupação. - E continua. - Eles estão reunindo forças para invadirem nossas terras. Tenho certeza que atacarão primeiro a tribo da rainha Varia, elas são o portal de entrada para o sul do nosso território.

- E porque eles iriam querer conquistar primeiro o sul? - Perguntou Eponin.

- O porto! Os melhores compradores de escravos se concentram em Daneses, o porto sempre fervilha com a movimentação dos navios de escravos e se o mercado está mais agitado que o de costume, boa coisa não é. - Respondo me manifestando pela primeira vez.

- Pelo que se sabe, o império romano está se expandindo cada vez mais, estão cada vez mais sedentos de conquistas, espólios e escravos. - Diz Melosa.

As amazonas se entreolharam. A notícia causou um pequeno alvoroço.

- Mas Daneses é fora do nosso território. - Observa Eponin.

- Se eles abrirem uma rota pelo território amazona, as viagens até o porto encurtarão em várias semanas, além do lucro que terão com a venda de escravos. - Eu explico.

- Nunca nos submeteremos à escravidão! - Se exaspera Solari.

Todas ficam agitadas com tal ideia. Era inimaginável amazonas serem capturadas e vendidas como escravas. Antes sangrarem e morrerem defendendo suas terras do que serem escravizadas.

Gabrielle assistia a tudo sem se pronunciar. Era a primeira vez que participava da reunião de um Conselho amazona, era inexperiente e desconhecia as táticas e estratégias de combate. Ao meu lado já participara de inúmeras brigas, mas nunca de uma batalha. A simples ideia de matar alguém a deixava horrorizada. Mas agora ela era uma princesa amazona. Sei que no íntimo se sentia insegura, mas estava se esforçando para merecer o legado que tinha recebido com a morte de Terreis e sabe que poderia contar comigo nessa tarefa.

As amazonas começaram a discutir estratégias de guerra, números e armamentos. Uma coisa era certa, elas não poderiam abandonar sua posição, o lugar delas era defendendo esta região, mesmo sabendo que estão em desvantagem e não contariam com muita ajuda. É por isso que terão que resistir custe o que custar. Disso todas tinham certeza.

........ A ameaça romana.

Estranhamente naquele dia o céu estava carregado de nuvens escuras, anunciando a tempestade. A água batia contra as pedras violentamente, jogando nuvens de espuma dezenas de metros acima das rochas, batia contra o cais sem piedade, cobrindo-o ininterruptamente. Causando receio até mesmo aos marinheiros mais experientes. A pressão do mar sobre a terra era imensamente mais violenta que o de costume, principalmente por não ser época para isso estar acontecendo. Ao fundo, tempestades distantes escureciam o horizonte, enquanto raios cortavam as nuvens altas.

Os navios com os romanos não conseguiam atracar, tamanha a violência das ondas se chocando contra as rochas e o cais, correriam o risco de serem destroçados pela fúria do mar, teriam que ficar longe, estavam ancorados a quatrocentos passos de distância da praia aguardando a tempestade passar. Isso era algo com que não podiam lutar. Tinham que esperar a natureza se acalmar.

Encobertas pela vegetação costeira, do alto do penhasco, eu, Gabrielle e Solari observávamos os imponentes navios atracados no porto sendo sacudidos sem piedade pelas gigantescas ondas, mas o que nos importava eram o três navios ancorados distantes do cais. Os romanos tinham chegado, e isso significava guerra. Cada navio trazia aproximadamente cento e cinquenta homens fortemente armados, sedentos se vingança, visto que na tentativa de invasão anterior tinham sido derrotados vergonhosamente. Todas as tribos amazonas tinham se unido numa só intenção: expulsar os invasores de suas terras.

Uma leve chuva começou a cair quando o trovão sacudiu as nuvens. As gotas aos poucos se transformaram em chuva forte que escorriam pelas plantas e formava poças na terra. Mas nenhuma de nós saiu de sua posição. Com o passar dos minutos as poças se tornaram maiores e mais numerosas. O solo não absorvia mais a água. Ouvíamos as ondas de arrebentação contra as pedras do penhasco e cada vez mais raios cortavam o céu. Protegíamos os olhos da água forte com a mão. As árvores se dobravam com a forte ventania. Já não se definiam os navios no mar revolto.

- Vamos embora. - Disse.

Montamos nos animais que estão assustados com a os trovões; puxamos as rédeas com força e iniciamos a corrida contra o tempo para chegarmos à aldeia com a notícia para que as guerreiras tivessem tempo de se armar para a defesa. Sabiam que não tinham tantas amazonas assim para defender a aldeia e isso era a preocupação de todas.

Melosa está no grande salão de armas recostada na sua cadeira; apoiava o cotovelo no braço da cadeira e o queixo no punho fechado, a testa franzida mostrava o ar de preocupação, as notícias sobre as atrocidades dos romanos eram praticamente semanais. A rainha sentia o coração pesado com a ameaça de uma guerra iminente. As cenas das batalhas travadas contra os romanos em outras épocas voltavam a sua mente.

- Minha rainha... - Diz Ephiny. - O chamado desvia os pensamentos de apreensão de Melosa.

- Sim? O que foi Ephiny?!

- As mulheres retornaram com informações sobre os romanos! - Informa a amazona.

Descemos dos cavalos que estão bem cansados; entregamos as rédeas às outras amazonas que os levam imediatamente para o estábulo.  Subimos apressadamente as escadarias da cabana real, entramos no grande salão; Solari inclina ligeiramente a cabeça em reverência a rainha.

- Minha rainha, os romanos estão ancorados próximo ao porto de Daneses. - Diz Solari.

- Quantos são? - Perguntou a rainha.

- São três navios, cada um transporta em torno de cento e cinquenta soldados. - Informei.

- Ephiny, reúna as chefes guerreiras no salão de armas, convoque uma reunião com urgência! - Ordenou Melosa.

- Sim minha rainha. - Diz Ephiny que juntamente com Solari reverencia a rainha e saem.

Eu e Gabrielle permanecemos com Melosa. O pesado silêncio é interrompido por um espirro de Gabrielle, que ainda molhada esfrega os braços mostrando estar com frio. Melosa confidencia a nós duas seu temor de não conseguir conter a invasão de sua região. Ela sabe que a nação amazona está dividida, o isolamento das tribos facilitaria as invasões. As resistências isoladas não eram páreo para os poderosos exércitos romanos. Todas as tribos tiveram muitas baixas desde a última guerra e agora a frágil paz estava sendo novamente ameaçada. 

- Rainha Melosa, a sua tribo é a que fica mais ao norte do território, se os romanos chegarem até aqui, é por que as outras tribos foram dominadas. Não devemos ficar esperando eles chegarem tão perto. - Digo.

- Sei muito bem disso, mas não temos opção, não podemos arriscar, não tenho guerreiras suficientes para um ataque frontal. - Melosa me responde.

- Então temos que pensar num plano que diminua a força de ataque deles. Um ataque em dois flancos, dividiria o exército. E temos a vantagem deles não conhecerem o território. Podemos usar isso a nosso favor. - Insisto.

Melosa me olha curiosa. - Como assim?

- Vocês tem um belo bosque próximo da aldeia não é? O que você acha de darmos um passeio por lá? - Respondo, convidando Melosa com um irônico sorriso de lado.

........ O ciúme.

Sentia que alguma coisa estava errada, minha doce Barda andava se esquivando de mim. Gabrielle nunca se recusava aos tórridos momentos de amor, as carícias mais atrevidas e agora sempre existia a desculpa do cansaço do treinamento, além do fato dela “sumir” quase diariamente por bom tempo.

Passei a observá-la discretamente e notei que ela está sempre acompanhada de Eponin. As duas conversam, sorriem com ar de estarem felizes desfrutando da companhia uma da outra. Percebi que sempre que me aproximava as duas desconversam e isso não está me agradando nada. - Você está imaginando coisas. Ela não faria isso. - Disse a mim mesma, mas meu sangue ferve cada vez que as vejo juntas.

Eponin é uma bela amazona; forte, corpo rígido, bem feito, coxas bem torneadas, sua pele tem uma leve tonalidade bronzeada pouco comum para as amazonas dessa região, seus longos cabelos castanhos escuros completam o rosto de traços marcantes, seus olhos negros são penetrantes e observadores e os lábios... - Sinto meu coração bater forte só de imaginar aqueles lábios encostando na pele de minha Barda. Meus músculos retesam, o sangue corre mais rápido nas veias, cerro os dentes contraindo a fisionomia. - Você me deve umas explicações Gabrielle. - Resmungo.

Gabrielle chega e me encontra sentada no pequeno tronco junto à porta da cabana, amolando a espada. Levanto os olhos apenas o suficiente para vê-la chegando acompanhada de Eponin. Elas se despedem, a loira me cumprimenta com um sorriso, beija minha cabeça e entra. Meu semblante está tenso, meus olhos faíscam acompanhando Eponin enquanto ela se afasta. Minhas entranhas se reviram de raiva e ciúmes. - Isso acaba agora! - Murmuro enquanto me levanto disposta a seguir a amazona.

- XENAAA! PODE VIR AQUI? - Grita à loira.

Respondo rispidamente: - O QUE VOCÊ QUER?

- PRECISO DE VOCÊ! - Gabrielle responde.

As palavras causam um efeito quase instantâneo em mim. Guardo a espada na bainha e entro, encontrando Gabrielle mergulhada na tina. A visão dela nua enfraquece minha raiva.

- Você pode esfregar minhas costas? - Diz a loira esticando a mão com o pano ensaboado.

Com certa relutância me aproximo, abaixando junto à borda da tina. Começo e esfregar as costas e os ombros da mulher. Tento não me deixar levar, mas a visão daquele corpo maravilhoso e a maciez daquela pele vão invadindo meus sentidos. Minhas mãos deslizam pelos ombros dela, acariciando-os. Vou ensaboando vagarosamente suas costas até meus olhos se fixarem num ponto.

- Acho que amanhã vou ver você treinar. - Digo observando atentamente a reação da loira.

Gabrielle me olha surpresa e responde - Porque? Você nunca quer ir! É a mesma coisa de sempre, não tem novidade nenhuma.

Não era a resposta que eu esperava. - É..., pensando bem você tem razão, é que ando muito entediada, esqueça! - Digo enquanto termino de ensaboar suas costas. Em seguida jogo água para retirar o sabão. - Pronto! Está terminado.

- Está muito quente, vou dar uma cavalgada por aí, está bem?! Não se preocupe se eu demorar.

- Xena! - Ela chama me olhando confusa.

Não lhe dou ouvidos, vou para o estábulo. Monto em Argo e passo galopando pelo arco do portão. Queria correr sentir o vento no rosto; instigava Argo a correr mais e mais. O ódio borbulhava em meu sangue, minhas têmporas latejavam. A besta tanto tempo adormecida nas entranhas aflorava com violência. Cavalguei por horas, sem rumo, até perceber que Argo não tinha mais condições de continuar no mesmo ritmo, estava exausto. A imagem da mancha roxa nas costas de Gabrielle queimava em meus olhos. A cena de Eponin e Gabrielle se acariciando e se amando, martelava meu cérebro.

Já era noite, sentada olhando as chamas da fogueira, sentia o coração pesado. Meu peito doía; a dor da traição era a mais profunda e indescritível das dores. Meus olhos lacrimejavam. Com um grito sufocado, apertando a garganta, chorei. Soluçando como nunca tinha feito.

Voltei para a aldeia, já era madrugada e encontrei Gabrielle dormindo abraçada ao meu travesseiro. Sem fazer ruído me acomodei na cadeira próxima a janela e passei o restante da madrugada olhando a frágil criatura. Não consegui dormir, as horas se arrastam penosamente. Uma leve chuva começa a cair; da janela do quarto observava tristemente as gotas tilintando nas palhas dos telhados que pouco a pouco foram se transformando em chuva mais forte que encharcavam os telhados. Olhava os riscos de água que caíam do céu, respirei fundo e soltei o ar melancolicamente. Gabrielle acorda com o barulho da chuva e me vê incomodamente dormindo sentada na cadeira.

- Xena! - Ela chama, mas não tem resposta. Ela levanta-se e me cobre delicadamente com uma manta, me agasalhando da brisa fria que entrava pela janela. Olha para mim por alguns instantes, acariciando meus cabelos, dá um delicado beijo em minha cabeça e volta para cama encolhendo-se agarrada ao meu travesseiro. Finjo dormir e sinto um nó na garganta quando meus cabelos são acariciados, insistentes lágrimas teimam em rolar pelas minhas faces e assim as horas vão passando.

Um sol forte começou a brilhar logo nas primeiras horas da manhã, secando a terra úmida da chuva que caiu durante a madrugada. Sentia-se um ar abafado saindo do solo. Acostumada a manter sempre os sentidos em estado de alerta finjo dormir quando percebo que Gabrielle levantava-se cuidadosamente, tentando não me acordar. A loira movia-se silenciosamente pelo quarto vestindo-se e sai vagarosamente.

Levanto-me e resolvo segui-la. Dei uma boa vantagem de tempo, não terei dificuldade em rastreá-la.  Procuro por Eponin e não me surpreendo quando também não a encontro na aldeia. A dor da traição volta a incomodar, o coração está apertado e a sensação de meu mundo ter desmoronado são visíveis no meu abatimento.  Mas será apenas questão de algumas horas. Sei com quem ela vai se encontrar, é uma boa oportunidade de flagrar as duas e desmascarar Gabrielle. - Os rastros são tão visíveis que até Joxer poderia encontrá-la sem qualquer dificuldade. - Penso.

Sigo-a e acabo por encontrar as duas mulheres numa clareira escondida dentro do bosque próximo à aldeia. Minha respiração para. Surpresa vejo Gabrielle e Eponin treinando golpes com cajado concentradas na disputa. Meu coração parece que vai explodir de felicidade ao ver que a Barda não estava me traindo. Um grande sorriso brota no meu rosto, agora iluminado pela alegria. Não posso evitar uma ponta de orgulho de ver a perícia que a loira já demonstrava no uso da arma. Nesse momento, Gabrielle me vê parada na borda da clareira, recostada numa árvore com os braços cruzados sobre o peito.

Gabrielle fica desconcertada e faz sinal para Eponin. Elas param e se aproximam. - Então minha princesa, o que achou? - Gabrielle está visivelmente embaraçada como uma criança pega numa mentira.

- Vejo que você está bem melhor. - Respondo sem conseguir esconder o largo sorriso de alegria.

- Estou tentando melhorar o que aprendi com Ephiny. - Diz a Barda sorrindo encabulada e continua. - Eponin está me ajudando.

- Ora é mesmo?  - Olho em volta e com um golpe de espada corto um galho forte, quase reto de um arbusto próximo, limpo rapidamente o galho, livrando-o dos pequenos ramos. - Que tal me mostrar um pouco de seu conhecimento?

Gabrielle respondeu-me com um sorriso e partiu para me atacar. Com golpes precisos os cajados se cruzavam e se batiam. A loira me surpreendia com seus movimentos inesperados, bons reflexos e ótima mobilidade, até que numa distração, Gabrielle bate com o cajado nos meus dedos. Solto um berro de dor. Ela se assusta.

Sacudindo a mão olho para Gabrielle que me observava atônita; preocupada ela joga o cajado no chão e se aproxima pedindo desculpa, temerosa que o acidente se transformasse numa verdadeira luta. Ela prende a respiração, mas minha risada lhe devolve a tranquilidade. Eu estava satisfeita com minha princesa amazona. A luta prosseguiu, Gabrielle rodava o cajado no ar com perícia, seus golpes tinham precisão. Defendia-me, mas agora estava atenta a cada golpe da loira. Não haveria ganhadoras naquela brincadeira, e assim instruía Gabrielle no manejo do cajado no qual eu também era perita.

Eponin se mantinha afastada observando a amigável disputa. O treinamento seguiu por toda manhã até próximo o meio dia, quando resolvemos parar.

- Você está muito bem! - Elogiei, passando o braço sobre o ombro de Gabrielle.

- Tenho treinado bastante. Eponin é a segunda melhor da aldeia com o cajado. - Responde à loira.

- Parabéns Eponin, você tem feito um bom trabalho! - Digo sorrindo para a amazona. Que agradece e responde ao sorriso da mesma forma.

- Como estão suas costas? - Pergunta a amazona, se dirigindo à Gabrielle.

- É..., dolorida, deve estar uma mancha roxa. - Responde à loira.

- Me desculpe novamente. Eu não queria machucar você, foi um acidente. - Diz Eponin.

Ouvia a conversa contente e ao mesmo tempo envergonhada por deixar meu ciúme cegar-me daquela forma.

- Ia pedir para você dar uma olhada ontem, mas... - Gabrielle se dirige a mim, mas interrompo suas palavras.

- Quando chegarmos em casa eu olho e passo unguento se for preciso. - Respondi e dei uma sonora risada.

Eponin e Gabrielle se entreolham sem entender o motivo da risada, mas sorriem e voltamos as três alegremente conversando para a aldeia.

........ A princesa amazona.

Era uma gostosa tarde fria. Os dois cavalos estavam preparados, Gabrielle encontrou comigo nos estábulos. Ajudei-a montar no belo cavalo branco, já que devido à falta de prática a pequena loira era extremamente desajeitada com a montaria.

Montei em Argo e coloquei-me ao lado dela. - Você está linda. - Falei.

- Obrigada. - Responde Gabrielle, enquanto desajeitadamente tentava por o cavalo para andar.

- Você está bem? - Perguntei.

- Sim, por quê? - Ela responde, tentando esconder sua irritação.

- É que estou sentindo você irritada. Aconteceu alguma coisa? - Perguntei segurando o cavalo dela pelas rédeas.

- Não é nada importante... É Ephiny, não entendo porque ela não gosta de mim... – Gabrielle responde com tom de mágoa na voz. - Então vamos para nossa aula? - Ela pergunta desconversando o assunto. - Abri um largo sorriso.

Iniciamos a cavalgada, procurava lhe ensinar como controlar o animal. A todo momento lembrava Gabrielle que ela e o cavalo quando estão juntos, viram um único ser, tem que ter as mesmas ações e assim dia após dia as aulas prosseguiam pelos campos verdejantes e bosques próximos a aldeia. A rotina da aldeia era mantida, os treinamentos e os ensinamentos durante grande parte do dia e nas horas disponíveis eu reforçava o aprendizado.

 Gabrielle se sentia cada dia mais segura no controle do cavalo. Até que um dia numa das cavalgadas resolve se aventurar e me desafiar apostando corrida ao longo do bosque. Gabrielle sempre tentava se manter distante, como a me atrair, fazendo um sutil jogo de caça e caçadora, e logicamente eu percebia; propositalmente preferia manter a pequena distância entre nós deixando Gabrielle acreditar que tinha vantagem na disputa. 

- MEU CAVALO É MELHOR QUE SUA LESMA! - Grita Gabrielle em tom de pilhéria.

LESMA?! Ninguém chama meu cavalo de lesma. - Rosnei indignada. Segurando mais firme nas rédeas de Argo, instiguei o cavalo a aumentar a velocidade, o comando é imediatamente obedecido pelo potente animal que dispara e em minutos se aproxima e emparelha com o cavalo de Gabrielle. Numa rápida olhada dei um debochado sorriso para a loira. Argo ultrapassa e vai ganhando distância do outro animal, cada vez mais instigado por mim. Então arrisco uma manobra por entre as árvores.

Apostar corrida em meio ao bosque não foi uma boa ideia. Galhos baixos escondidos poderiam acertar alguém, mesmo sendo uma hábil amazona. Gabrielle não conseguiu se esquivar rapidamente de um galho mais baixo e pôs o braço na frente do rosto para se proteger. Com isso afroxou as rédeas e com o galope do cavalo foi ao chão.

Numa rápida olhada para trás vi Gabrielle caída; num rápido comando nas rédeas, Argo diminui a velocidade e retorna onde a loira estava caída.

- GABRIELLE! - Gritei aflita pulando do cavalo e a tomo nos braços.

Tirava algumas folhas de seus cabelos quando ela voltou a si. Tinha pequeninos arranhões pelo rosto e braços causado pelo galho. Suspirei aliviada quando a vi abrir os olhos cor de esmeralda.

- Está machucada? - Perguntei preocupada.

- Acho que não... - Responde a Barda enquanto se mexe sentindo o corpo. Nada quebrado, felizmente. Gabrielle então sentiu minha mão acariciando seu rosto e demonstrou gostar da sensação. A simples sensação de tê-la em meus braços disparava meu coração.

- Gabrielle, você vive nos meus pensamentos, no meu coração. Não posso mais viver sem você, eu te amo. - Disse enquanto acariciava o rosto de minha amada e a encarava com o olhar apaixonado.

A voz de Gabrielle faltou naquele momento. Eu nunca tinha feito uma declaração desse tipo para ela. Senti sua respiração quente e meus lábios se encostaram nos dela, devagar, sem pressa. Nos abraçamos; nossos lábios se abrem e as línguas se encontram num beijo profundo e apaixonado.

No bosque já se ouvia o vento nas folhagens e alguns piados de corujas anunciando que a noite se aproximava. Retornamos para a aldeia, dessa vez cavalgando tranquilamente.

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Tropas romanas tinham desembarcado próximas a tribo de Varia, acompanhávamos seus movimentos com apreensão. Seu alvo parecia ser aquela tribo. Informações chegavam com tanta rapidez que esperávamos sofrer um ataque a qualquer momento.

Era hora da refeição, uma grande mesa rústica estava servida e farta, com pães, leite, mingau de aveia e frutas da estação. Eu, Gabrielle, Solari e Eponin estávamos nos alimentando sentadas numa mesa afastada das demais, quando vimos à chegada de uma amazona à porta. Fazendo reverência à Melosa ela se aproxima informando que um comboio de mulheres e crianças estava no portão da aldeia e que uma amazona da tribo da rainha Varia pedia para falar com a rainha. As amazonas se entreolharam surpresas e curiosas.

- Traga-a aqui. - Ordena Melosa.

- Sim minha rainha. - Responde a amazona, faz reverência e sai. Poucos minutos depois retorna acompanhada de outra mulher, que se aproxima, reverencia a rainha e se apresenta:

- Meu nome é Cyssin, em nome da rainha Varia vim pedir-lhe abrigo para as mulheres velhas e crianças de nossa tribo que estão lá fora. - Entregando um pequeno colar com um pingente com o símbolo usado pela rainha Varia entalhado em couro, para identificar a legitimidade de sua portadora como mensageira de sua tribo.

Houve uma pequena agitação no ambiente. Instantaneamente todas pararam de comer e as atenções se voltam para a cena que se desenrolava.

- Abrigo? - Questionou Melosa surpresa.

- Sim rainha, Os romanos estão acampados a três dias de nossa aldeia, esperamos ser atacadas a qualquer momento e a rainha pede que dê abrigo para essas mulheres e crianças que fatalmente serão baixas de guerra ou escravizadas.

Melosa se levanta. - Quantas são? - Pergunta enquanto se dirige para a porta.

- Sessenta e duas ao todo, a maioria crianças. - Responde a amazona.

Melosa vira-se surpresa, encara a mulher e diz. - Nós não temos alimentos para todas essas pessoas!

O refeitório era um silêncio pesado, ninguém se atrevia a murmurar qualquer coisa. A aflição da amazona foi notada por todas as mulheres.

- Mas rainha..., a sua tribo é a mais afastada de todo território, com essas pessoas seguras poderemos...

- A frase foi interrompida por Melosa. - Não é possível, vocês podem descansar e se alimentar hoje, depois procurem abrigo em outra tribo!

A amazona olha em volta como procurando apoio de alguém, mas algumas mulheres desviam o olhar, outras abaixam a cabeça. Gabrielle observa as amazonas indignada com a indiferença de todas, se levanta repentinamente e se dirige a Melosa.  Solari e Eponin se surpreendem com o rompante da loira. Ninguém na tribo se atreve a contrariar Melosa conhecida por sua arrogância e ferocidade em combate.

- Ai meu Zeus, isso está cheirando à encrenca. - Murmuro coçando a testa.

Gabrielle toca o braço da rainha que se vira e a encara com seriedade. Seu olhar frio e penetrante intimidava qualquer um que tentasse encará-la. Mas a pequena Barda com toda sua docilidade e humildade começou um pequeno discurso a principio se dirigindo a Melosa, depois olhando para todas as amazonas do refeitório; exaltava a necessidade de ajudar as irmãs que estavam aflitas e em perigo, da necessidade da nação amazona ressurgir como uma nação forte e unida; encorajando as mulheres, investindo em sua coragem e audácia para conseguirem seus objetivos. Eu observava as fisionomias das mulheres, ninguém se mexia, todas atentas a cada palavra. O discurso cada vez mais inflamado exultava repetidamente a honra e a coragem amazona. Não sei quanto tempo Gabrielle falou, mas senti que fez o efeito desejado. A loira finalmente se calou. Na sala ficou um silêncio tenso.

Melosa que ouviu tudo calada, encarando a pequena mulher, segura-a pelos ombros e diz: - Terreis fez uma sábia escolha. Você um dia será uma ótima rainha!

A tensão se quebra, as amazonas relaxam, todas ficaram exultantes, voltam a conversar e se alimentar. Observo que a única que não mostrava satisfação era Ephiny. Melosa ordena a uma amazona que dê abrigo e alimento a Cyssin, a escolta e a comitiva.

- Obrigada grande rainha. - Cyssin agradece emocionada. - Em seguida se dirigindo a Gabrielle, faz reverência e agradece: - Obrigada princesa.

Eu observava tudo sentada à mesa, orgulhosa da minha princesa loira. A docilidade daquela criatura sempre me surpreendia. Sempre pensando em ajudar, sem medir as consequências de seus atos. Gabrielle retorna à mesa e é congratulada por Eponin e Solari. Orgulhosa e feliz aconchego minha pequena num abraço.

Na manhã seguinte Melosa convoca Cyssin para que relate a situação. A amazona informa detalhadamente o que ocorreu até sua saída e que agora que sua missão estava cumprida voltaria com as outras guerreiras para a sua tribo para ajudar na defesa. Após o desjejum as dez guerreiras se despedem e partem com velocidade.

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Todas elas eram boas amazonas, treinadas em defesa e ataque, afinal fazia parte da tradição, além de ser um dever de honra. As meninas eram treinadas desde muito jovens no manejo da espada, da lança, arco e flecha e do cajado.

Ephiny, Solari e Eponin passavam horas ensinando as meninas a se defenderem, a atacar e o mais importante, a nunca baixar a guarda, pois até mesmo um soldado despreparado sabe quando pode atacar livremente um oponente descuidado. Eu sabia que Gabrielle como princesa amazona tinha que se integrar às tradições e assim diariamente continuava participando dos treinamentos juntamente com as demais amazonas. Embora não tivesse a destreza das amazonas mais experientes como Ephiny, já mostrava boa desenvoltura com o cajado.

Apoiada na cerca de toras da arena observava Gabrielle treinando com Ephiny; fazia comentários instruindo Gabrielle nos movimentos para torná-los mais precisos. Com rápidas olhadas na minha direção Ephiny parecia se incomodar com minhas observações, com um gesto parou o treinamento com Gabrielle.

- Você se acha muito capaz não é? - Diz a amazona se dirigindo a mim com ar desafiador.

- Estou apenas orientado Gabrielle, já que sou mais experiente. - Respondi encarando-a seriamente.

O olhar da amazona faísca. - Então que tal me mostrar a sua experiência, hein? - Me diz com tom provocador.

A estranha atitude de Ephiny chama atenção das demais amazonas que param de treinar e ficam observando a cena. Sinto meus músculos se retesarem, procuro me controlar e não ceder à provocação da amazona.

- O que há com você? Isso é só um treinamento, não é uma disputa! - Repondo rispidamente.

- Você está sempre defendendo essa loirinha irritante não é?! - Diz apontando para Gabrielle.

As amazonas espalhadas pela arena vão se aproximando lentamente. Eponin se aproxima de Ephiny tentando acalmá-la, mas a amazona está muito irritada e não lhe dá ouvidos. Querendo evitar que a situação piore, chamo por Gabrielle encarando Ephiny seriamente. - Venha Gabrielle, por hoje chega!

Gabrielle dá um passo na direção do portão, mas tem seu caminho bloqueado pelo cajado de Ephiny que me encara com ar desafiador e diz: - Eu que digo quando o treino acaba, você não manda nada aqui! - Diz em tom ameaçador; seus olhos faíscam.

Repiro fundo, tentando acalmar o sangue que já esquenta rápido nas veias, meus punhos estão fechados, meus músculos tencionam. - Escute Ephiny, nós vamos sair daqui tranquilamente antes que eu perca a calma, está bem? Não quero confusão.

- O que foi princesa guerreira, está nervosa? - Debocha a amazona, com um sorriso de lado.

- Acredite, você não vai gostar de me ver nervosa. - Respondo entre os dentes e chamo novamente por Gabrielle. Que se afasta de Ephiny se encaminhando para o portão. Quando dá o segundo passo, Ephiny com um golpe rápido do cajado trava os passos dela, enfiando o cajado entre seus tornozelos fazendo-a tropeçar e cair violentamente no chão ferindo o lábio e o joelho direito.

Meu sangue ferveu, apoiando as mãos nas toras, pulei o cercado e caminhei a passos largos até elas. Empurrei a amazona com força. Levantei Gabrielle que limpava o sangue que escorria de seu lábio. As amazonas se entreolhavam como prevendo o que iria acontecer, estavam se reunindo em um grande círculo a nossa volta. Senti Ephiny se aproximar as minhas costas. Eponin se aproxima amparando Gabrielle e levando-a para cuidar dos ferimentos. Com os olhos faiscando de raiva pego o cajado de Gabrielle que estava no chão.

- Você está perseguindo Gabrielle desde que chegamos aqui. Qual é o problema? - Digo já segurando firmemente o cajado.

- É um absurdo ela ser princesa amazona. Eu que seria a sucessora de Terreis por direito e não essa camponesa idiota. - Reclama a amazona irritada.

Agora compreendi o motivo de tanta irritação com Gabrielle.

- Você estava lá e viu o que aconteceu, você foi testemunha do último desejo de Terreis, sabe que Gabrielle não tinha nenhuma intenção de ser princesa amazona. - Falei em tom ríspido sem deixar de encarar a amazona com olhar furioso. As amazonas se agitaram.

- Não se preocupe, nós iremos embora logo, não pretendo ficar aqui. - Disse e virei as costas me dirigindo ao portão.

Pressenti Ephiny se aproximando com o cajado em punho pronta para me derrubar como fizera com Gabrielle. Me virei e pulei com rapidez suficiente para evitar o golpe. Agora não era mais possível ignorar a amazona, que insistia em me atacar. Iniciei me defendendo e esquivando dos golpes. Não tinha intenção de usar toda minha força e perícia na disputa, mas Ephiny estava realmente disposta a um combate real, medindo força e habilidade comigo. Curvei ligeiramente os joelhos firmando solidamente meus pés enquanto girava o cajado no alto da cabeça. Ephiny fazia movimento semelhante, mas girava o cajado com firmeza e velocidade a frente do corpo. Com velocidade ela investe em uma estocada sobre meu peito. Meus reflexos neutralizaram o golpe e assim as investidas aconteciam e eram revidadas de ambas as partes. Os cajados se chocavam violentamente. Girei o cajado e o apoiei na minha cintura, preso junto ao corpo apenas com um braço, enquanto com o braço livre mantinha distância da amazona. Examinávamo-nos enquanto andávamos em círculo, sem deixarmos de nos encarar.

Ephiny era realmente uma ótima adversária, manejava o cajado com destreza e reflexos impressionantes. Esquivava-se dos golpes curvando o corpo e simultaneamente golpeava com força surpreendente. Eu bloqueava seus golpes que tendiam a atingir meu abdomen e a cabeça. Os cajados se chocavam com tanta força que pareciam que se quebrariam a qualquer momento.

Algumas vezes nos aproximávamos num contato de corpos, que eram imediatamente separados por empurrões, socos ou chutes. Num rápido movimento girando o cajado num inesperado movimento em arco, Ephiny me dá uma violenta pancada lateral nas costelas.  Senti o golpe, com a dor terrível me curvei ligeiramente do lado atingido. Ephiny percebendo a situação investe novamente, procurando me atingir na altura do estômago. Bloqueio o golpe com firmeza e ataco com rapidez e violência querendo atingi-la seguidamente nas pernas e laterais do corpo. Os golpes são habilmente defendidos.

As amazonas assistiam sem interferir vez por outra abrindo mais ainda o círculo, dando espaço para nós; a luta prosseguia, até que num rodopio de corpo encontrei uma brecha na defesa de Ephiny e dei um potente soco nas suas costelas. Ela sente sufocar, se curva abraçando o lado atingido, mas se recupera. Fizemos uma rápida separação como se estivéssemos nos avaliando. Nossos olhares faiscavam de pura raiva. Ela volta a atacar com fúria descontrolada; a dor dificultava minha respiração. Eu sentia o ódio borbulhar em meu sangue, foi quando a besta negra emergiu de minhas entranhas com uma fúria descomunal.  Ataquei e ataquei, obrigando Ephiny a cambalear de costas. Minha força se multiplicou como se a fúria de Ares estivesse possuindo meu corpo e alma.  Ataquei como se estivesse numa batalha, ataquei para matar aquela que agora via como inimiga, sem dar qualquer chance de revide; fui empurrando Ephiny para a cerca da arena; a amazona se defendia com precisão, mas sua fisionomia demonstrava o espanto por minha súbita transformação num ódio descontrolado. Numa fração de segundos de distração quando Ephiny é encostada nas toras, dou um veloz golpe rasteiro nas pernas da amazona desequilibrando-a, mas antes que ela caísse dou um violento chute em seu abdômen derrubando-a. Rapidamente com o cajado pressionando sua garganta, ponho o pé em seu peito pressionando meu peso impedindo-a de se levantar.

Gabrielle e Eponin tinham retornado e assistiram os últimos instantes da luta. A loira se compadece da amazona, percebendo que a garganta de Ephiny está prestes a ser esmagada.

- XENA NÃO! - Ela grita e corre para mim, segurando minhas mãos que pressionam o cajado e repete: - Por favor não!

A voz de Gabrielle me trás de volta a razão. Respiro fortemente tentando acalmar minha fúria: - Isso acaba aqui e agora. Gabrielle é a sua princesa e você vai respeitá-la! - Disse bufando, enquanto segurava firmemente o cajado na garganta da amazona.

Ephiny respirava com dificuldade, me encarando com um olhar de temor fez sinal afirmativo. Retirei o pé e o cajado e ajudo-a a se levantar. As amazonas estavam perplexas, nunca tinham visto Ephiny ser derrotada antes.

Nitidamente constrangida e humilhada, ela se levanta com dificuldade, cambaleando, tossindo e massageando a garganta. Com grande dificuldade dominei a besta dentro de mim, a encaro sem dizer nada. Para minha surpresa Gabrielle corre para junto de Ephiny, amparando-a.

- Vamos eu te ajudo! - Exclama a loira.

A amazona olha surpresa para a loira; a dor nas costelas e abdômen a faz andar curvada e a sensação de garganta inchada, não permite que Ephiny fale nada. O bondoso olhar de Gabrielle a deixa sem ação, ela é amparada por Solari e Gabrielle que a levam para a cabana de cura. Eponin trata de dispersar as amazona que se espalham pela arena, retornando aos seus treinamentos.

Confesso que tenho uma imensa dificuldade de entender como pode existir uma criatura tão meiga e iluminada quanto essa Barda.

........ A morte da rainha.

Melosa sabia que a próxima invasão seria mais letal e destruidora que a anterior. Não me lembro de passarmos uma semana sem receber notícias horríveis sobre as atrocidades dos romanos. As batedoras trouxeram notícias que uma grande tropa de romanos tinha desembarcado ao leste. Outra tropa estava acampada bem próxima ao território da rainha Varia em número bem superior ao das amazonas.

Numa noite fria, cheia de névoa e uivos Gabrielle sobressaltada dá um pulo na cama. Eu acordo assustada pelo movimento brusco de minha amada, o estado de alerta se manifesta instantaneamente em mim; sento-me na cama. Ela está suada, amedrontada. Eu a abraço, aconchegando-a em meu peito, acaricio seus cabelos, tentando acalmá-la.

- O que foi? Teve um pesadelo? - Pergunto murmurando. Sentia seu pequeno corpo ainda trêmulo.

- Xena..., eu tive uma visão. - Gabrielle disse visivelmente abalada.

- Calma querida, você estava dormindo, foi um pesadelo. - Insisti.

- Não, não foi um sonho..., era real demais, como se eu estivesse lá assistindo tudo. - Responde a loira que começa a chorar baixinho, aninhada em meu colo.

Embora acreditasse que tudo não tinha passado de um pesadelo, disse: - Está bem, me conte o que você viu. - Ela começa a relatar que vira uma grande quantidade de soldados romanos atacando e destruindo completamente a aldeia do leste e que muitas guerreiras tinham sido capturadas.

A certeza com que Gabrielle falava me deixou preocupada. Se for verdade significa que as amazonas foram escravizadas e seriam vendidas no mercado do porto de Deneses e que os romanos tinham começado a invasão. Me esforcei para não demonstrar minha preocupação. Voltamos a deitar; com ela aconchegada em meu ombro continuei acariciando seus cabelos, ela foi se acalmando até que percebi que adormecera. Passei o restante da noite remoendo as palavras da Barda, já não tinha mais tanta certeza que tinha sido apenas um sonho. Aguardava com ansiedade que o dia raiasse, precisava pensar num plano e falar com a rainha.

Minha inquietude mal deixou o dia clarear. Deixei Gabrielle dormindo e fui procurar Melosa, já a encontrei desperta olhando o horizonte da janela da cabana real. Começamos a conversar sobre a inevitável guerra. Contei sobre a visão de Gabrielle e sugeri que batedoras fossem mandadas a aldeia do leste para verificar a situação por lá. Ela concorda e me conta o que Cyssin tinha informado sobre a situação da tribo de Varia. Seu semblante era tenso, rugas na testa mostravam a preocupação com o destino não só de sua tribo, mas também de toda nação amazona. O sol já se firmava quando ela manda reunir todas as chefes guerreiras e a princesa.

Retorno à cabana para chamar Gabrielle e a encontro dengosamente se espreguiçando na cama. Ela se surpreende em me ver já totalmente vestida. - O que houve? - Pergunta ainda sonolenta.

- Levanta sua princesa preguiçosa! - Brinquei enquanto puxava seu lençol. - Vamos, tem uma reunião esperando por você.

- Ah não de novo..., agora vive tendo reuniões. - Reclama a loira sem qualquer vontade de se levantar.

Gabrielle dengosamente se acomoda na cama. Confesso que a visão dela toda preguiçosa me encanta, tenho que me esforçar para não ceder ao desejo de me juntar a ela. - Vamos depois você volta, agora temos que ir. - Insisto. - Ela boceja e se levanta.

No salão de armas as amazonas avaliavam a quantidade de armamentos e guerreiras disponíveis, discutiam estratégia de combates e prováveis rotas de ataque dos romanos, quando chega a informação de que uma guerreira da tribo de Varia trazia um pedido de ajuda para reforçar suas linhas de combate. A situação se complicava, Melosa não podia deixar de atender ao pedido, mas também não podia deixar sua aldeia descoberta, com a invasão iminente de seu território.

- Solari, nós temos quantas guerreiras preparadas? - Pergunta a rainha.

- Umas duzentas minha rainha. - Responde a amazona.

- Podemos dispor de umas setenta ou oitenta guerreiras para mandar para ajudar Varia. - Pondera Melosa.

A partir daí surgiu a discussão sobre o desfalque que teriam em suas frentes se atendessem ao pedido de socorro de Varia. Gabrielle pede a palavra. Melosa pede silêncio para que todas ouçam o que a princesa tem a dizer. A pequena loira com a sua facilidade em falar vai conduzindo as divergências para um ponto comum: A união das tribos para que a nação amazona não despareça. Com uma habilidade surpreendente, ela vai exultando a honra, a coragem, as habilidades das guerreiras, fala sobre a necessidade de ajudarem suas irmãs da outra tribo.

Observo que como na vez anterior as mulheres a ouvem com atenção, vez ou outra uma manifestação de aprovação às palavras da loira. Vejo com uma ponta de orgulho que a jovem princesa está se transformando numa rainha. A jovem camponesa insegura, inexperiente e infantil, está se mostrando numa mulher segura de seus pensamentos e atitudes. Sem dúvida ela ainda terá um longo caminho a percorrer para se tornar uma líder, mas o entusiasmo, a força que ela transmitia contagiava todas as demais amazonas. A maior barreira que ela terá que transpor será se tornar realmente uma guerreira. Isso trará consequências irreparáveis, um caminho sem volta. - Será que ela estaria preparada para ver a carnificina de um campo de batalha? - Me pergunto.

Eu sabia que Gabrielle tinha que se integrar aos costumes, mas será que ela já tinha consciência do peso de sua responsabilidade? Por enquanto ela parecia se adaptar bem a sua nova vida, mas e quando tivesse que encarar a terrível realidade de uma batalha onde tudo se resume em matar ou ser morta? Ela suportaria o choque da perda de pessoas com quem conviveu? Suportaria viver com o peso da morte de alguém na consciência? - Me pergunto e as respostas são sempre trágicas. Ver minha doce Gabrielle perder sua inocência me angustia.

Depois que se mata a primeira vez tudo muda. Eu já perdi a conta de quantas vidas tirei, mas ela era pura de coração e alma. Eu não podia permitir que ela se envolvesse nessa guerra. - Não, ela não está pronta para isso. Tenho que tirá-la daqui o mais rápido possível, antes que o ataque aconteça. - Pensava.

Tínhamos notícias de tropas romanas desembarcando em toda região e acompanhávamos seus movimentos com apreensão. Mas não se moviam contra a tribo de Melosa. Seu alvo principal parecia ser a tribo de Varia. Vivíamos com ansiedade diante do avanço das tropas cada vez mais frequentes.

Durante uma reunião onde se traçavam estratégias eu e Melosa tivemos uma violenta discussão, eu insistia que se a tribo do leste e a do sul caíssem, eles partiriam para cima de nós, sem dúvida seríamos a parte mais fácil de ser dominada. Sugeri que antes de deixar que se aproximassem das paliçadas da aldeia, o melhor era reunir uma tropa e partir em direção deles. Melosa pensava, enquanto andava preocupada pelo salão.

Estava decidido, Ephiny e Solari, ficariam na aldeia comandando o grupo de guerreiras que ficaria vigiando a aldeia e Gabrielle ficaria no comando do pequeno grupo de mulheres que vieram da aldeia de Varia e tratariam das guerreiras feridas no combate. Eu, Melosa, Eponin e as demais guerreiras partiríamos para a batalha.

.......................................

A primeira vez que vi uma tropa tão grande foi naquela tarde, de cima do meu cavalo. Era um número impressionante de soldados. Eles desciam a colina numa fúria bestial, berrando e batendo as espadas e lanças em seus escudos. Melosa fazia questão de estar entre as primeiras fileiras. As mulheres já estavam armadas com suas lanças, espadas e flechas em posição nos arcos. Eu respirava fundo como se tentasse sentir o cheiro da batalha. Eponin liderava as arqueiras e com o consentimento de Melosa, disparou a primeira saraivada de flechas sobre os romanos. Muitos caíram, mas parecia que nada podia pará-los. O fato de estarmos em número bem inferior me preocupava e eu sabia que essa preocupação também ia no coração das outras.

Melosa ordenou que a tropa fosse dividida, atacando em dois flancos. O som do trote vigoroso dos nossos cavalos se misturava aos gritos de raiva dos inimigos. O choque entre as duas forças aconteceu. As amazonas eram muito bem treinadas. Tinham o domínio das armas e causavam boas baixas no inimigo. Apesar de possuírem escudos e armaduras que os protegiam dos golpes fatais vindo de meia altura, as pernas ficavam vulneráveis. Essa falha era aproveitada com destreza e agilidade por todas nós, decepando pernas pelo joelho sempre que possível, mas mesmo assim eles ainda eram maioria e logo começamos a sofrer perdas em grande número. Todas nós lutávamos no limite de nossas forças, os músculos doíam, mas nada parecia diminuir o número de soldados. As mulheres a cada momento se reduziam com os combates corpo a corpo. Faço sinal para Melosa; então ela ordena que as amazonas recuem e muda a estratégia como tínhamos combinado: aquelas que estivessem montadas dariam cobertura as que estavam a pé. Corremos para nos abrigar nos bosques, os soldados nos seguiam gritando ensandecidos confiantes na vitória. A primeira tropa de mulheres se embrenha no bosque seguidas pelos romanos que na ânsia de matar se descuidam da defesa e caem na armadilha.

São recebidos por uma saraivada de flechas das amazonas que se escondiam nas árvores. As flechas certeiras traspassavam pescoços, se cravavam profundamente em peitos, costas, rostos, enquanto troncos de árvores até então camuflados tinham suas cordas de sustentação cortadas, funcionando como aríetes mortais. Os troncos cravados de estacas pontiagudas eram arremessados com tal velocidade que era impossível evitá-los. Surpreendidos os soldados eram arremessados à distância com a violenta pancada ou então ficavam cravados nas estacas. Outros caíam nos vários buracos camuflados espalhados pelo bosque. Seus corpos estrebuchavam traspassados pelas estacas pontiagudas escondidas nos buracos. Os que conseguiam se livrar das armadilhas eram mortos, dilacerados sem piedade. Em pouco tempo o bosque era um mar de sangue.

A luta prosseguia; meu corpo doía tamanha era a tensão, até que tudo pareceu ficar devagar, via o desenho em arco que as espadas faziam no ar. Após derrubar mais um soldado, passei os olhos pelo bosque ensanguentado, foi quando vi um soldado traspassar as costas de Melosa com a lança e outro perfurar seu peito com a espada. Melosa cai ajoelhada.

- NÃÃÃOOO!!! - Grito.

Minha força dobrou, pulando sobre os corpos caídos cavalguei até Melosa, que tombou pesado com a boca cheia de sangue. Fui para cima dos assassinos e os estripei com toda fúria.

Uma amazona tentou se aproximar do corpo de Melosa, mas não conseguiu. Um romano enfia a espada no peito da mulher, espirrando sangue quente no próprio rosto. No mesmo momento desmontei e tomei Melosa nos braços. Ela ficou mole como uma boneca de pano, o sangue escorria em grande quantidade pelos ferimentos e pela boca. Tentei acordá-la. Ela abriu os olhos e pegou minha mão. Uma sensação de impotência apertava meu coração. Tudo ao redor parecia ter parado, o som da luta, os gritos de dor e fúria.

- ... diga a Gabrielle... - Com a respiração entrecortada ela continua. - ...que hoje lutamos por uma nação forte e livre... - Ela respirou com dor. - ... E que ela agora é uma rainha amazona. - Melosa respira fundo uma última vez, o corpo retesou, sua boca ensanguentada permaneceu aberta, sua cabeça pendeu pesada para trás, seus longos cabelos se arrastaram no chão e seus olhos não se abriram mais.

Cinco amazonas nos cercaram defendendo o corpo de sua rainha que jazia morta em meus braços. Pousei seu corpo no chão. Minha mente rodopiou... Eu segurava o punho da espada como se quisesse estrangulá-la. Olhava os romanos em sua bestial satisfação e me joguei sobre aqueles cães nojentos.

Cravei minha espada no pescoço do primeiro soldado a minha frente e continuei num acesso de fúria: degolava um, esmurrava outro, arremessava a espada no que vinha atrás. A besta negra em minhas entranhas tinha se libertado. As amazonas pareciam contagiadas pelo meu ódio, desferiam golpes sem qualquer piedade, decepavam braços, cabeças, pernas, rasgavam e perfuravam peitos, barrigas, pescoços, rostos.

Meu rosto e braços estavam molhados de sangue e eu gostava do gosto e do cheiro da morte. Eu seria a morte... Por vezes tinha impressão de ouvir as sonoras gargalhadas de Ares.

De repente fomos cercadas por oito soldados, tamanha era minha fúria que decepei algumas cabeças e braços sem dificuldade, deixando os corpos se contorcendo como animais no abatedouro. Eponin se juntou a nós e juntas acabamos rapidamente com cerco. A luta prosseguia intensa, mas já tínhamos causado grandes e importantes baixas no destacamento inimigo. Agora os poucos sobreviventes é que recuavam perseguidos pelas mulheres furiosas.

Eu e Eponin gritávamos ordenando que as amazonas retornassem aos seus postos. O bosque tinha pedaços de corpos por todos os lados. As amazonas foram se reunindo e os gritos de alegria por terem rechaçado o inimigo, foram dando lugar ao silêncio e aos prantos de lamentação quando viram o corpo sem vida da rainha.

As amazonas recolhem as armas dos mortos. O corpo de Melosa é levado para aldeia, onde terá um funeral digno de uma rainha. Todas seguem num silêncio respeitoso. Já bem próximas da aldeia encontramos o corpo de um soldado com duas flechas cravadas nas costas. Meu coração disparou. Instiguei Argo, abandonei a comitiva. Passei disparada pelo portão e para minha surpresa encontrei mais alguns corpos espalhados pela aldeia. Já puxava as rédeas para desviar o cavalo, quando vi alguém sinalizando para mim. Era Ephiny. Agitava os braços com o cajado na mão. Fui até ela e encontrei Gabrielle, chorando desesperadamente agarrada ao corpo de uma amazona. Era Solari. Não acreditei no que via. No mesmo momento desmontei e a puxei. Ela caiu no meu colo, seu choro era desesperado, incontrolável. Perguntei o que tinha acontecido, mas ela não conseguia pronunciar uma palavra, seu corpo se sacudia num choro convulsivo. Olhei para Ephiny que me explicou que a aldeia tinha sido atacada por um grupo de vinte soldados e na luta Solari tinha sido morta.

Solari estava caída sobre as pernas de Gabrielle, o rosto sujo, o nariz coberto de sangue. Tinha um grande corte no peito e uma flecha quebrada na barriga.

- É..., é tu...tudo culpa mi...minha. - Disse Gabrielle gaguejando entre soluços. - Eu a aninhava em meus braços, acariciava seus cabelos tentando consolá-la, mas nada parecia dar resultado.

- Como assim? - Pergunto ansiosa. - Mas a jovem princesa não conseguia controlar o choro. - Ephiny se afasta com os olhos marejados, liberando o choro que agora não conseguia mais esconder. O jeito era esperar as duas se acalmarem para saber o que tinha acontecido. Muitos minutos depois as guerreiras chegam carregando as irmãs feridas e o corpo de Melosa. Eponin chega nesse instante, cansada e ofegante. Sua fisionomia de incredulidade deu lugar ao desespero, sem saber o que fazer primeiro, ficou paralisada ajoelhada diante do corpo inerte de Solari.

Com muito custo levei Gabrielle para nossa cabana, preparei um chá forte com ervas sedativas e a obriguei a tomar e deitar-se. Deitei-me junto dela abraçando-a pelas costas, fiquei assim até perceber que o choro foi se acalmando e que ela finalmente adormecera.

.......................................

O dia me encontra acordada sentada na cadeira próxima à janela, não consegui dormir. Passei a noite velando o sono de minha amada, um sono agitado, cheio de pesadelos. Gabrielle acordou num pulo, assustada. Sento na cama e a abraço, acaricio seus cabelos e beijo seus lábios delicadamente.

- Bom dia, você está melhor? - Pergunto ansiosa.

Gabrielle parecia desorientada, ela piscava como se seus olhos doessem com a claridade do sol que entrava pela janela. Após alguns minutos em silêncio ela responde que estava em dúvida se estava bem e se aconchega em meus braços, se encolhendo como uma criança procurando proteção.

- Xena foi horrível... Solari morreu por minha culpa! - Sua voz começou a ficar trêmula.

- Ssshhiiii calma..., não fique assim, calma. - Murmuro enquanto a aperto em meus braços.

- Eu estava com a lança nas mãos, se eu tivesse atirado a lança naquele romano, ela agora não estaria morta. - Sinto sua voz engasgada com início de choro. - Minha indecisão matou minha amiga. - Um soluço cortou sua voz.

- Gabrielle, você viveu uma pequena parte dos horrores de uma guerra. Numa situação como essa você tem que agir rápido, a sua vida ou a vida de outra pessoa pode depender da sua decisão, dos seus reflexos. Aja, não reaja, siga seus instintos. Numa batalha não existem momentos para dúvidas. Ou você mata ou você morre. - Digo friamente.

Ela afasta a cabeça de meu peito, me olhando assustada. A imagem de seu rosto molhado pelas lágrimas cortava meu coração. Senti que tinha chocado minha pequena Barda, mas agora ela teria que escolher o seu caminho na realidade da vida. Agora ela era uma rainha amazona.

Seguindo todo um ritual, o corpo de Melosa é lavado e vestido com as vestes reais, um belo adereço de couro trançado e contas coloridas tendo na parte central um rubi de médio tamanho que indicava sua posição dentro da tribo, é colocado em sua cabeça, seu pescoço é adornado com colar detalhadamente adornado com pedras e contas coloridas. As amazonas cantam uma canção de lamento enquanto dançam em volta da pira onde o corpo de Melosa será queimado. Entre os galhos secos e palhas da pira, são colocados grossos feixes de incensos, que segundo a tradição servirão para purificar a alma da gloriosa guerreira em sua passagem para o outro lado.

A pira se ergue em frente à cabana real. Eu e Gabrielle estamos paradas nos degraus, silenciosamente assistindo os preparativos. Três degraus abaixo estão Eponin e Ephiny, em respeitoso silêncio. Em outra pira estava o corpo de Solari que foi preparado com o mesmo respeito, embora sem a mesma pompa que a rainha. Mas o ritual de passagem era igual. Gabrielle e Eponin estavam visivelmente abaladas. Tudo já estava pronto. As demais amazonas formavam um grande círculo em volta das duas piras. Finalmente os tambores, os cânticos e as danças pararam. Um silêncio pesado se fez sentir. Uma tocha é acesa e entregue a Gabrielle. Cabia a ela agora como rainha, a tarefa de atear fogo às piras onde estavam Melosa e Solari. Ela respira fundo, contendo a emoção. Descendo lentamente os degraus, se aproxima da pira onde está o corpo de Melosa e ateia fogo; a palha e aos galhos secos incendeiam imediatamente; as labaredas sobem com rapidez. Gabrielle retorna a escadaria e entrega a tocha à Eponin e diz: - Você tem esse direito, ela era sua amiga.

Ephiny e Eponin se entreolham, pela tradição somente a rainha tem esse direito. Com essa atitude já se via que a nova rainha não seguiria as tradições tão fielmente. Emocionada a amazona pega a tocha e ateia fogo na pira de Solari e retorna para seu lugar ao lado de Ephiny. O silêncio continua, o único som que se ouve é o crepitar das palhas e galhos sendo consumidos pelo fogo.

Enquanto olhava as chamas, meus pensamentos gritavam apenas uma coisa: Gabrielle agora era a rainha. Uma rainha amazona!

........ A separação.

Embora sempre com a expectativa das invasões romanas rondando o território, os dias se seguiam tranquilos. Eu tentava não demonstrar minha inquietude, mas a rotina de vida da aldeia era entediante para mim, eu, uma mulher guerreira que já tinha sido conquistadora de nações, não me encaixava nos padrões amazonas de vida em comunidade. A recente batalha contra os romanos atiçara meu espírito guerreiro.

O dia mal havia começado quando saí para cavalgar. Tinha dormido mal a noite inteira. Queria correr, sentir o vento no rosto e o sol esquentar meu corpo, isso me ajudará a pensar e tomar uma atitude que não agradará Gabrielle.

Voltei à aldeia, entreguei o cavalo no estábulo e fui caminhando até a cabana real. Parei na porta e respirei fundo, já estava decidida em relação a nossa permanência na aldeia, aquela conversa será desagradável para nós duas. Gabrielle agora tinha responsabilidades nas quais eu não me encaixava e isso estava provocando alguns desentendimentos entre nós.

Encontrei Gabrielle examinando alguns pergaminhos amontoados sobre a mesa. - Gabrielle precisamos conversar! - Disse firmemente.

Sem me dar atenção ela continua examinando os documentos, se limitando a um mero “Humrrum”. Isso me irritou demais, aproximei-me da mesa e espalmei as duas mãos sobre o pergaminho que ela lia.  - Eu disse que precisamos conversar. - Repeti encarando-a seriamente e ela me olhou da mesma forma.

- Xena estou muito ocupada, será que não podíamos deixar isso para mais tarde, em casa? - Ela me responde com uma expressão decidida.

- Não Gabrielle adiei essa conversa o máximo que pude. Tem que ser agora. É importante para nós duas. - Respondo.

- Está bem, sente-se. - Ela responde se recostando na cadeira com um grande suspiro.

Não sentia mais a inocência, a meiguice daquela camponesa que um dia tinha me pedido para tirá-la de Poteidia, para ensiná-la tudo que sabia. Eu estava diante de uma rainha amazona, chefe de uma tribo de guerreiras, zeladora de uma tradição milenar.

Eu procurava palavras para começar a falar, quando fui surpreendida pela pergunta de Gabrielle: - Você não está feliz aqui não é?

- É não estou, toda essa vida comunitária está me fazendo mal, isso aqui não é para mim. Acho que já está na hora de partirmos, já ficamos aqui tempo suficiente. Vamos pegar a estrada como fazíamos antes. – Digo.

- Você não entende que agora eu sou uma rainha amazona. Tenho responsabilidades e deveres com essas mulheres. Sei que posso e tenho muito a fazer por aqui, não posso abandonar tudo agora! - Gabrielle respondeu taxativa.

A resposta me pegou de surpresa, não acreditava no que estava ouvindo. Senti um peso no peito; engoli em seco. Imediatamente meu corpo se retesa. Procuro disfarçar o choque que as palavras me causaram.

- Se entendi bem, você está me dizendo que não quer sair daqui, é isso? - Pergunto.

- Xena veja, aqui temos segurança, tranquilidade, uma casa, estamos cercadas de pessoas amigas que...  - Impaciente interrompo a frase de Gabrielle.

- Você que não está entendendo! - Digo rispidamente e continuo. - Esse tédio está me sufocando. Você ainda tem seus afazeres e preocupações como rainha e eu o que tenho para fazer? Sou uma guerreira, não uma amazona! Foi ótimo esse tempo que passamos aqui, mas tem um mundo além dessas paliçadas. Temos viagens para fazer, aventuras para viver.

- Eu não posso ir embora agora! - Diz Gabrielle com certa tristeza na voz.

- Então você está me dizendo que isso aqui é mais importante que nós duas? - Pergunto.

- Não coloque dessa forma, não é isso... Só estou dizendo que não é hora de... - Novamente interrompo a loira.

- Bem se você prefere dar prioridade a sua nova vida de rainha, então está na hora de nossos caminhos se separarem. - Digo sem demonstrar a dor que sinto com a ideia da separação.

Ela reage dando um pulo da cadeira, eu também me levanto. Ela aproxima-se e me encara com um olhar triste e confuso. Minha única vontade é tomá-la em meus braços, mas meu orgulho fala mais alto. Minha decisão está tomada.

- É isso que você quer? - Ela me pergunta com voz trêmula.

- Sim, e isso. Vou arrumar minhas coisas e vou embora amanhã. - Sinto um nó na garganta, mas me esforço para a voz sair firme.

Ela fica por instantes de cabeça baixa, como se pensando na situação. Por fim dá um grande suspiro, levantando os olhos de esmeralda marejados, com uma indisfarçável tristeza no semblante. Sinto como se meu coração fosse parar.

Vejo uma lágrima escorrer, sinto que ela controla a voz que insiste em tremer, mas é uma decisão firme digna de uma rainha; então ouvi de seus lábios o que mais temia:

 - Xena, eu não posso te impedir de seguir seu caminho, eu te amo mais que tudo no mundo, mas a coisa que mais quero na vida é te ver feliz... Se é assim que você quer...

Meu coração parou, uma dor dilacerante rasgou meu peito. Mas não voltarei atrás. Tive que procurar forças no mais fundo de minhas entranhas para não demonstrar meu arrependimento. Olhei-a seriamente e me limitei a um mero: - Que assim seja. - Virei-me e sai do salão.

Desci os degraus como se estivesse dormente, o choque da aceitação da nossa separação me deixou atordoada. Confesso que jamais esperei tal atitude de Gabrielle. A mulher que acabei de deixar, não era mais a minha doce camponesa, era uma altiva rainha amazona.

........ A partida.

Os movimentos repetidos prosseguiam sem protestos. Ephiny também se mostrava uma espadachim talentosa, forte e experiente. Ela rodeava as companheiras, falando sobre equilíbrio, paciência, fortaleza e mandava refazê-los com mais firmeza. Os dias de treinamento se seguiam ininterruptos. Seus olhos seguiam atentos os movimentos das amazonas, procurando corrigir as falhas.

- Vocês só podem vencer o inimigo se não cometerem erros. - Ephiny dizia com firmeza.

Com o tempo o novo grupo de jovens guerreiras já estava hábil no manejo da lança e espada. Ephiny andava entre elas elogiando sua força e seu espírito. Com os músculos rígidos, elas agora estavam habilitadas a passar para a segunda etapa dos treinamentos que seria o domínio das montarias.

Eponin também era uma lanceira experiente, que montada no cavalo, arremessava sua lança sobre um alvo móvel sem errar. Não importava se fazia sol ou chovia, Eponin saía com sua tropa de moças para cavalgar e realizar os exercícios no campo. Treinavam numa área irregular com troncos fincados no chão formando um caminho preestabelecido. Elas teriam que conduzir os cavalos, contornando os troncos, tirando o máximo proveito do animal. Ao longo do percurso deveriam pegar uma espada no chão e abater os alvos de palha que surgiam entre as árvores. Seria preciso controlar muito bem as rédeas para não cair e não ser atropelada pelo cavalo, depois as guerreiras deveriam alcançar três lanças fincadas no chão e acertar três alvos fixos na clareira no meio do bosque. Uma após outra, todas as mulheres fizeram o percurso indicado. No início houve bastante dificuldade, mas o retorno para aldeia só se dava quando todas fizessem o trajeto com perfeição. O ponto mais difícil era pegar a espada do chão. Várias caíram de seus cavalos; neste momento Eponin interrompia e dizia:

- Esse é seu carro de guerra. É nele que precisarão combater. Precisam saber como segurá-lo. O erro do cavalo também é o seu.

Quando parecia que nenhuma das guerreiras teria sucesso. Eponin resolve fazer uma demonstração. Ela recua até o início do campo e começa a galopar. Segurando-se no pescoço do cavalo, apertou as pernas no animal, curvou-se e com a cabeça quase roçando no capim, pegou o cabo da espada e se endireitou jogando o corpo para esquerda. As mulheres partiram para a tarefa, outras quedas aconteceram, mas foram se tornando menos frequentes. Foi um período de exaustivos treinamentos.

Treinavam de dia aprendendo a controlar as montarias e a reconhecer o terreno e de noite para adaptar os olhos a luz fraca e aprenderem a distinguir as sombras.

Eponin e Ephyni sabiam que estavam no caminho certo. Elas repetiam constantemente as orientações com as armas e as montarias. A tropa amazona, já se encontrava bem mais capacitada para enfrentar o exército romano, caso retornassem para uma nova invasão.

.......................................

O dia amanheceu quente, o ar abafado, um sol radiante ofuscava meus olhos cansados de uma noite em claro. Estava fazendo meus últimos preparativos quando a vi se aproximar. Seu caminhar continuava delicado. Desde que se tornara rainha, suas vestes mudaram quase totalmente. A saia agora curta mostrava suas pernas bem torneadas, a blusa decotada e curta, decorada com adornos realçava seus lindos e carnudos seios, além de deixar seu abdômen rígido bem visível. Admito que foi uma transformação maravilhosa. Sua pele branca realçava ainda mais sob as vestes de cor marrom. Uma espécie de adorno, mais parecido com uma máscara cerimonial no alto da cabeça a destacava das demais amazonas. Ela se aproxima acariciando a cabeça de Argo.

Seu olhar triste cruza com o meu. - Você está mesmo decidida ir embora? - Pergunta.

Eu desvio o olhar, tenho medo de não resistir aqueles olhos verdes. Sinto a pressão na garganta apertando, disfarço ajustando firmemente a sela e as bolsas. Pigarreio escondendo minha voz embargada, com um esforço além de mim, respondo: - É estou sim, já estou pronta. Só falta encher o odre.

Ela se esforça para não deixar transparecer sua fisionomia triste, seus olhos lacrimejantes e sua voz trêmula. Sinto meu peito se rasgar de dor, minha vontade é abraçá-la com força, beijá-la, fazer com que ela sinta meu coração batendo forte no meu peito. Mas meu orgulho não permite que eu fraqueje. Pego o odre e caminho para a cabana, encho e retorno a tempo de ouvi-la murmurando para Argo:

- Cuide bem do meu amor!

Tenho que ir embora imediatamente não estou mais suportando a angústia, a dor da separação. Amarro o odre com firmeza, quando percebo uma das bolsas desamarrada. Provavelmente uma distração minha. Ela se aproxima mais como se fosse me abraçar, estamos tão próximas que sinto sua respiração. O seu olhar carente me dilacera a alma. Sinto meus olhos marejarem, o nó em minha garganta está apertando, me sufocando, a angústia explodindo meu peito. Acaricio seu rosto, beijo sua testa e sem mais nenhum gesto de carinho me despeço: - Adeus Gabrielle, seja feliz!

Monto em Argo e puxo as rédeas na direção da saída da aldeia. Ouço soluços que vão se perdendo na distância. Quando cruzo o arco do portão, não tenho mais forças para conter as lágrimas que agora escorrem em quantidade pelas minhas faces. Instigo Argo para que corra e se afaste o mais rápido possível. Disparo pelo caminho sem rumo certo quero apenas me afastar mais, mais e mais.

........ A primeira batalha.

Eram tempos perigosos aqueles. Vivíamos protegidas em nossa aldeia, embora isoladas dos fatos sangrentos do lado de fora. Os romanos pilhavam os territórios com uma fúria devastadora, pisoteando o que encontrassem pelo caminho, e temíamos que essa fúria viesse bater em nossos portões como antes. Eponin passava horas sobre seu cavalo com lança e espada nos campos de treinamento. Eu treinava com Ephiny e as outras amazonas na arena. Ela e eu questionávamos se Xena voltaria. A amazona não dizia, mas mostrava estar convencida que ela não voltaria.

Eu fui a responsável pelo total restabelecimento de Ephiny. Duas costelas quebradas, a garganta quase esmagada que exigiram vários meses de tratamento e vários hematomas foram o saldo da luta com Xena. Às vezes penso que por uma ironia do destino, a guerreira grega contribuiu para que eu a amazona nos aproximássemos, já que ela foi responsável por seus ferimentos. Nossas divergências foram esquecidas.

Com ela eu me sentia à vontade para contar sobre minha vida acompanhando Xena, de como nos conhecemos, sobre tudo por que passamos em nossas aventuras pelas estradas e de como eu sentia que nossas vidas estavam entrelaçadas; embora agora estivéssemos separadas, eu sentia que nossos caminhos voltariam a se encontrar; as conversas acabaram nos aproximando nas noites que se seguiram após Xena ter partido.  A amazona demonstrava a qualidade de me ouvir com silêncio e respeito. Nossas conversas aos poucos se tornaram mais leves e eram misturadas com ensinamentos sobre as tradições, contos e batalhas. Nos sentíamos mais unidas, Ephiny entendia minha solidão e tristeza.

Ephiny e Eponin me ensinaram tudo que sabiam, do uso do cajado ao domínio da montaria. Eu era querida e respeitada por todas na aldeia. Já passara pelos rituais. Agora podia ser considerada uma amazona. Mas ainda me restava uma última prova, que do fundo de minha alma rogava aos deuses que nunca acontecesse. Se acontecesse uma nova invasão, eu seria capaz de matar alguém? A lembrança de Solari morta devido minha indecisão numa batalha, ainda me atormentava.

Aja, não reaja, siga seus instintos. Numa batalha não existem momentos para dúvidas. Ou você mata ou você morre. - A frase dita por Xena ficou gravada a fogo em minha mente.

Xena... A lembrança dela ainda rondava meus pensamento e meus sonhos. Meses já tinham se passado e nenhuma notícia dela. Um suspiro profundo e melancólico sai de meu peito. Lágrimas ainda brotavam nos meus olhos, mas a vida é assim, é o que acontece com as coisas que você ama. Às vezes elas simplesmente te deixam.

.......................................

Meses já tinham se passado e eu viajava de uma cidade a outra sem parada certa. Por vezes uma voz me fazia lembrar a Barda.  Minhas noites eram vazias, atormentadas pela saudade. Olhava as chamas da fogueira agitadas pelo vento, o crepitar me lembrava das várias noites que conversávamos junto à fogueira, rindo ou simplesmente aconchegadas uma a outra. As noites agora eram solitárias e frias. Meu peito ainda sentia o vazio da perda do amor puro e incondicional de Gabrielle.  As lágrimas ainda insistiam em brotar nos meus olhos. Maldisse o gênio terrível que eu tinha. Quando meu sangue fervia, não escutava ninguém. Fui orgulhosa, egoísta, não quis entender as razões de Gabrielle, ela agora tinha uma vida independente da minha e isso eu tinha que aceitar.

O vento frio e cortante balançava as chamas com violência, minha pele se arrepiava; tinha que procurar um local mais abrigado do vento, Argo estava inquieto, isso era um infalível prenúncio de uma tempestade. Por sorte passara a pouco por uma pequena caverna. Arrumo minhas coisas, apago a fogueira e monto. Com um leve toque nas rédeas o cavalo volta pelo caminho. Raios agora cortam o céu. Apresso o galope, o vento se torna mais forte, balançando os galhos das árvores sem piedade. Em pouco tempo chegamos à caverna. Desmonto e entro puxando Argo pelas rédeas. Estamos abrigados, o vento uiva do lado de fora, preciso de galhos para a fogueira, mas tenho que me agasalhar. Abri a bolsa amarrada à sela; puxo o grande agasalho de couro e surpresa vejo cair um pergaminho escondido dentro do casaco. Um trovão ressoa, Argo relincha inquieto. Pego o pergaminho, examino, mas é impossível ler, a caverna está escura, só iluminada pelos rápidos clarões dos raios que riscam o céu. Visto o casacão e saio à busca de galhos e gravetos. Retorno antes da chuva começar a cair, acendo uma pequena fogueira o suficiente para iluminar a caverna. Me aproximo de Argo e retiro todos os apetrechos de montaria.

Acaricio sua cara e pescoço. - Pronto companheiro, está tudo bem..., calma! - Digo confortando o animal.

Sento-me numa pedra próxima a fogueira, pego o pergaminho e de imediato reconheço a letra de Gabrielle. Meu coração dispara, avidamente começo a ler:

Canto a dor de Gabrielle, a dor de quem perdeu seu grande amor, de quem perdeu sua alma, seu tudo. Não sei quando você estará lendo isso, ou se vai ler, mas quero que saiba que você sempre será a pessoa mais importante da minha vida. É mais fácil acreditar em si mesmo, depois que alguém acreditou em você primeiro. Você viu em mim tudo que eu realmente poderia ser, acreditou em mim, me deu aconchego, me deu carinho, me deu amor.

O amor significa pensar mais na felicidade da outra pessoa do que na própria, não importando quão dolorosa seja sua escolha. Quando você diz a alguém que vai amá-lo para sempre, isso significa para sempre, e foi isso que aconteceu comigo. Por isso saiba que haja o que houver caminharás sempre comigo, diga o que disser você estará sempre ao meu lado e faça o que fizer serei sempre tua! Eu te amo e sempre te amarei. Gabrielle.

Quando terminei, as lágrimas escorriam pelo meu rosto, pequenos soluços sacudiam meu peito. A dor sufocava meu coração e toda minha fortaleza desmoronou, chorei como uma criança desconsolada.

O temporal caía com violência, o barulho da ventania não foi suficiente para abafar meu grito de desespero tanto tempo contido na garganta.

.......................................

Era hora da troca de sentinelas. Quando uma das mulheres chama atenção para um ponto no horizonte.

- Está vendo aquilo? - A amazona apontou para um determinado ponto.

A outra protegeu o olhar com a mão e apertou as pálpebras. Havia realmente algo longe meio sem definição. Aos poucos as formas humanas foram se delineando as centenas. De repente, um sinal de alerta da sentinela do portão alarmou a todas. A tropa de Eponin também os tinha visto e retornava para a aldeia galopando a toda velocidade. Com uma boa distância de vantagem, elas chegaram ao portão. Ordenei que todas as mulheres velhas e crianças fossem abrigadas na cabana de cura e que fossem preparando material para atender as amazonas feridas na batalha.

O portão foi fechado e escorado com grossas toras de madeira. Ephyni correu com um destacamento de arqueiras para o andaime junto da paliçada, onde posicionadas aguardavam a aproximação dos soldados. Eponin já ordenava que as guerreiras sob seu comando se armassem com lanças e espadas, enquanto ela mesma pegava as suas e também se posicionava no andaime atrás da paliçada. Os romanos avançaram sobre nós com uma fúria vingativa.

O primeiro pelotão de homens que chegaram mais próximos começou a atirar flechas incendiárias contra o portão e a paliçada. Uma grande quantidade de flechas incendiárias caiu sobre as cabanas. Um grupo de soldados com escudos formavam uma proteção contra as flechas e lanças atiradas por nós, enquanto por baixo dos escudos outros homens com machados iam cortando as toras, enfraquecendo a paliçada do lado leste próximo ao portão.

Ephyni com seu destacamento disparavam suas flechas acertando muitos soldados que caíam e eram pisoteados pelos outros, mas sabia que a quantidade de flechas não seria suficiente para o número de soldados que a cada minuto se aglomeravam no portão e na paliçada. Vez por outra, um romano achava uma brecha entre as toras do portão e atirava uma flecha por ali, acertando alguma amazona.

Os romanos lutavam e berravam de maneira a intimidar e trazer pânico entre nós. Ordenei que um grupo de espadachins guardasse o buraco que estava prestes a se abrir nas toras próximas ao portão. Meus músculos estavam retesados, apertava o cajado com força.

A madeira era consumida pelo fogo em vários pontos da paliçada; algumas partes das nossas defesas já estavam bem fragilizadas. As arqueiras insistiam em disparar suas flechas certeiras causando baixas nas linhas inimigas.

Foi então que vi alguém vir galopando a toda velocidade abrindo caminho entre as frentes romanas. Sua espada girava em arco e se abatia sobre os peitos, costas e pescoços dos soldados sem piedade. A destreza com que se contorcia e se desviava dos golpes, só tinha visto com uma mulher...

- XENA..., É XENA, ABRAM O PORTÃO! - Ordenei. - As amazonas surpreendidas por minha ordem ficaram confusas. Continuei a gritar. - ABRAM O PORTÃO, XENA ESTÁ LÁ FORA, TEMOS QUE AJUDÁ-LA!

- EPONIN PREPARE SUAS GUERREIRAS! - Ordenei e continuei gritando. - EPHYNI NOS DÊ COBERTURA. AMAZONAS PREPAREM-SE!

Assim que o portão foi aberto o choque das duas forças aconteceu. A tropa de guerreiras montadas investiram contra os soldados que se aglomeravam no portão, os cascos não poupavam ninguém que estivesse em seu caminho. As lanças certeiras furavam peitos, barrigas e rostos; transpassavam pescoços sem piedade. A desordem se instalou entre os soldados pegos de surpresa, o que foi suficiente para que o grupo de mulheres espadachins a pé fosse completando o serviço iniciado pelas lanceiras. O caos se instalou entre os homens; se descuidaram da proteção com os escudos, baixando a guarda, dando oportunidade para as arqueiras de cima dos andaimes cravarem suas flechas certeiras nos corpos dos soldados.

Foi a primeira vez que participei de uma batalha. Homens e mulheres gritando e caindo, a toda volta a fumaça das cabanas incendiadas subiam em redemoinhos, de modo que o sol nevoento estava vermelho. As espadas subiam e desciam, rasgavam e perfuravam e o sangue espirrava por todo lado. Foi então que vi pela primeira vez Xena lutar em uma batalha, então entendi por que era tão temida como a destruidora de nações. Ela era uma guerreira terrível, uma portadora da morte. Corria contra os soldados, cravando sua espada nos corpos dos inimigos. Eponin juntou-se a ela e suas guerreiras foram atrás, gritando de ódio contra os romanos.

A luta prosseguia sangrenta, uma chacina. De repente vejo Xena ser atingida na coxa por uma lança romana. Ela é derrubada do cavalo, mas apesar de ferida continua lutando, como se possuída por alguma besta das entranhas do Hades. Num momento estava cercada por soldados, mas ouvia-se um grito de ódio, um choque de lâminas e ela surgia do emaranhado de homens com a espada vermelha, sangue espalhado pelo corpo, pisoteando os corpos. De repente sinto como se o tempo parasse; vejo um soldado bater violentamente com o escudo na perna ferida, ela cambaleia e cai ajoelhada se apoiando na espada, com uma máscara de dor deformando seu rosto. Ele arma o golpe fatal com a espada suspensa sobre sua cabeça. Corro até ela, derrubando um e outro romano com violentos golpes do cajado, mas não chegarei a tempo de evitar o golpe. Uma lança cai perto de mim, um grito explode na minha cabeça: AJA, NÃO REAJA, SIGA SEUS INSTINTOS.

Num ato de puro instinto, peguei a lança e atirei com toda força que meus músculos tinham. O homem cai pesadamente com a lança cravada no peito. No segundo seguinte percebo o que tinha feito, eu matara alguém. Minha mente rodopiou, senti o chão abrir-se sob meus pés, fico paralisada, em choque, como se todo o caos a minha volta tivesse congelado no tempo. Nada fazia sentido, todo esse ódio, esse sangue derramado, essas mortes...

Um violento tranco me arremessa no chão me trazendo de volta a realidade. Sinto o peso de um corpo sobre o meu; é Eponin, que acabara de evitar que uma lança me atingisse mortalmente. Ainda atordoada levantei e corremos até Xena, eu a amparo enquanto Eponin nos protege; a levo até Argo, ela monta com dificuldade. Os romanos estavam encurralados entre a chuva de flechas, a cavalaria de lanceiras e as espadachins a pé. Os gritos e a matança vão diminuindo aos poucos, até restarem apenas gemidos dos feridos. Os sobreviventes fogem como gado assustado. Monto no cavalo mais próximo, faço sinal para Eponin, dando a batalha por encerrada. As amazonas erguem as lanças e espadas comemorando a vitória.

Ephyni e as outras guerreiras vêm ao nosso encontro para ajudar com as companheiras feridas e ordena que sejam recolhidas as armas e levadas para a aldeia. A luta não terminou simplesmente com a derrota dos romanos, agora caberia dar um funeral digno a cada uma das que caíram em combate e reconstruir a aldeia.

........ O recomeço.

- Temos que cuidar disso rápido, você perdeu muito sangue. Vou levar você para a cabana de cura.- Digo enquanto ajudo Xena a descer do cavalo.

- Não, eu não quero ir para lá. - A guerreira resmunga, enquanto se apoia em meu ombro e pula apoiada em uma perna. Um gemido de dor e eu a acomodo sentada no degrau da escadaria da cabana real.

- Xena você tem que tomar banho e cuidar desse ferimento. - Digo enquanto examino o ferimento que não é grave, mas é profundo.

- Eu não vou para a cabana de cura. - Xena teima.

- E posso saber para onde a senhora quer ir? - Pergunto já com certa irritação.

Ela abaixa a cabeça pensativa e depois me olha com seus maravilhosos olhos azuis e me responde: - Eu gostaria de ir para nossa antiga cabana.

A resposta me pega de surpresa, por instantes fico sem ação. - Aja, não reaja. - A frase vem na minha mente como um raio. Peço ajuda a uma amazona e a levamos para nossa antiga cabana.

Acomodo Xena na cama enquanto enfaixo sua perna para estancar o sangramento. Tiro sua armadura, sua roupa de couro, braçadeiras, munhequeiras e botas. Jogo tudo no chão, pois estão sujas de sangue.

O corpo daquela mulher nua ainda me deslumbra. Sacudo levemente a cabeça como querendo afastar lembranças que insistem em voltar. Sinto o olhar de Xena acompanhando cada movimento meu. Sinto-me desconcertada com a situação.

- Vou preparar um banho para você. - Digo e saio para encher a tina, tento me concentrar; um profundo suspiro sai de meu peito. - Acabou Gabrielle, acabou..., esqueça. - Digo a mim mesma, quando escuto a voz de Xena:

- Não Gabrielle, não acabou, está apenas recomeçando.

Viro-me e deparo com ela encostada na porta completamente nua. Caminho até ela e a conduzo para a tina, sem fazer qualquer comentário sobre o que ela acabou de dizer. Eu a acomodo na tina enquanto jogo água sobre ela e vou esfregando seu corpo com um pano ensaboado, a água vai se tingindo aos poucos enquanto sua pele vai se limpando dos sangues da batalha. Lavo delicadamente seu rosto lindo e perfeito e deparo com os olhos azuis que me desconcertam. As lembranças me incomodam demais. Apresso o banho e me afasto.

- Vou buscar algo para você se enxugar. - Volto e a encontro tentando sair da tina. Me aproximo para sustentá-la enquanto ela sai; não sei se propositalmente ela se desequilibra e me abraça com força. É uma sensação maravilhosa sentir novamente seus braços fortes envolvendo meu corpo que estremece ao toque dela. Tento me afastar, mas para minha surpresa ela me abraça ainda mais apertado, sinto sua respiração forte e descompassada. Não consigo mais resistir e me aconchego em seu peito ouvindo seu coração bater acelerado. Ficamos assim por minutos, até que ela levanta meu queixo e acaricia meu rosto. Minha cabeça gira, quase esqueço que ela precisa de cuidados urgentes. A conduzo até a cama, me ajoelho a sua frente; enxugo o ferimento com cuidado.

- Vai precisar costurar? - Ela pergunta.

- Não, fique tranquila que você está livre das minhas mãos de marinheiro. - Respondo enquanto começo a passar unguento na ferida que já diminuiu o sangramento.

Ela solta uma sonora risada. Termino o curativo, enfaixo a sua coxa com firmeza, ela me puxa para sentar-se ao seu lado, me observando atentamente. Seu olhar penetrante me deixa encabulada. Alguns minutos de pesado silêncio no ar. Nossos olhares se encontram. Ela pega minhas mãos e as beija com carinho.

- Você salvou minha vida. - Ela diz emocionada.

A lembrança do homem morto por minhas mãos destrói o encanto do momento. Meu coração se parte em pedaços. A culpa me arrasta para o mais profundo tormento com que Hades pode castigar um mortal. Uma tristeza cai sobre mim fazendo meus olhos marejarem. A angústia vai tomando conta do meu peito, dificultando minha respiração. As lágrimas vão dando lugar aos soluços e em minutos estou chorando desesperadamente. Xena puxou-me contra seu corpo e me abraçou apertadamente; retribui o abraço da mesma forma.

- Xena, eu... - Fui interrompida.

- Ssshhiiii, não diga mais nada..., está tudo bem. - Disse a guerreira emocionada, tentando me acalmar acariciando meus cabelos.

.......................................

Apesar do chá das ervas calmantes que tomei, tive uma noite de sono muito agitado, acordava com frequência assustada, suando. Mas sempre me deparava com Xena zelando por mim e cada vez ela me aconchegava em seu corpo e me acalmava até que voltasse a dormir.

O dia amanhece e a encontro cochilando recostada no travesseiro. Tento levantar vagarosamente, mas é inútil, com os sentidos sempre em alerta ela desperta e me olha com preocupação.

- Como você está? - Ela pergunta preocupada.

- É..., tenho que me acostumar com esse peso na consciência. Não tem mais jeito. - Digo com tristeza.

- Eu temia que isso acontecesse, nada que se diga poderá melhorar sua dor. Agora é dar tempo ao tempo que essa ferida vai fechar. - Xena me abraça me confortando.

- Você tinha razão, depois que se mata tudo muda e dói muito por dentro. - Sinto a garganta apertar, o nó começando a me sufocar.

- Eu sei amor, eu sei. - Ela responde e beija minha cabeça. Alguns minutos de silêncio e ela volta a falar.

- Gabrielle..., eu quero pedir desculpas. - Se antecipou a guerreira. - Fui egoísta, só pensei no meu bem estar, na minha satisfação. Eu deveria ter sido mais compreensiva, deveria ter escutado o que você tinha para dizer, mas sabe como é que eu sou... Gostaria que você me perdoasse.... Sinto sua falta, você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Eu..., eu te amo.

Emocionada um sorriso aparece em meu rosto junto com as lágrimas que começavam a brotar. Num ímpeto de felicidade abracei a guerreira com toda força.

- Aaaarrhhhh... - Xena solta um gemido de dor, me assustando, afasto-me imediatamente me lembrando do ferimento.

- Ai meu Zeus..., me desculpe. Eu esqueci!

- Não foi nada..., tudo bem. - Xena respira fundo se recuperando da dor. - Vamos ter que esperar mais um pouco para “comemorar”, mas depois...

- Xena..., você mal está se aguentando em pé, nem pense nisso. - Digo, embora intimamente desejasse uma rapidíssima recuperação dela.

- É, mas beijar eu posso. - Diz abrindo um lindo sorriso.

Carinhosamente a beijo. Nossos lábios se tocam e se entreabrem num beijo profundo e apaixonado, um beijo que sela a certeza de nossas almas estão destinadas a caminharem juntas por toda vida.

.......................................

Mais alguns meses se passam, a aldeia vai sendo reconstruída, Xena vai se recuperando com rapidez e a vida voltando ao normal. Ephyni e Eponin continuam com seus treinamentos e a primavera chega florindo os campos e colinas. Sabíamos que essa paz não duraria muito tempo, continuávamos sempre na expectativa de outro ataque. Mantinhamos vigilância constante sobre cada movimento romano.

O remorsso foi cedendo aos poucos. Sabia que sendo uma rainha amazona aquela foi a primeira de muitas outras batalhas que teria que enfrentar. Vivia sufocada com preocupações. E acabei por me esquecer que existe uma parte muito importante do corpo que merece cuidados, o coração.

Xena estava sempre ao meu lado, embora ela mostrasse estar bem, eu a sentia inquieta, por vezes até melancólica. Isso não podia continuar. Eu a estava sacrificando, exigindo uma coisa que não estava no seu temperamento. Eu precisava fazer algo à respeito.

Da janela da cabana real eu olhava o horizonte, uma suave briza balançava as folhas, as crianças agora corriam e gritavam alegres pela aldeia. Senti uma presença às minhas costas; a mão pousa suavemente em meu ombro. Viro-me e vejo Xena me olhando com ternura.

- Você está bem? - Ela pergunta.

Beijo sua mão. - Estou sim. - Respondo e volto a olhar o horizonte.

Ela me abraça pelas costas, recosto minha cabeça em seu peito e assim ficamos em silêncio apenas admirando a tarde cair.

.......................................

O dia amanhece ensolarado, Chamo Ephyni e ordeno que seja convocada uma reunião com todas as amazonas da aldeia. Desejo fazer um pronunciamento e que todas me aguardem no pátio em frente a cabana real.

Passados alguns minutos o pátio esta lotado pelas guerreiras. Desço as escadas acompanhada por Xena. Faço um ligeiro sinal e ela para.

- Gabrielle você tem certeza? - Ela me pergunta.

- Tenho. - Respondo com firmeza.

Desço mais alguns degraus. Acompanhada por uma amazona com minha máscara de rainha. Vejo que todas me olham com curiosidade. Eponin e Ephyni estão logo à frente do grupo. Chamo por elas e as convido a ficarem me ladeando.

Iniciei meu pronunciamento: - Amazonas, nesses tempo que estamos juntas tive a honra de viver e lutar com vocês, compartilhamos perdas, sofrimentos, tristezas, alegrias, vitórias e esperança. Muito me orgulho de sua coragem, dessa tradição milenar e de ser sua rainha, mas sinto que minha liderança agora não é mais necessária. - A notícia causou uma agitação entre as mulheres. Ephyni e Eponin me olharam e se entreolharam surpresas. E continuei. - É chegada a hora de partir.

- Mas..., não podemos ficar sem uma líder, sem uma rainha. - Diz Ephyni.

- E vocês não ficarão. - Faço sinal para a amazona que carregava a máscara cerimonial de rainha. Pego a máscara e levanto sobre minha cabeça e com voz firme declaro que Ephyni será a nova rainha e que todas devem respeito e obediência a ela e que Eponin será a segunda em comando na tribo.

Ephyni me olha incrédula, sua fisionomia espantada quase me provoca riso. Entrego a máscara a ela, retiro o colar real e o coloco no seu pescoço.

- Ma...mais eu não tenho a sua sabedoria. - Ela me pergunta ainda com expressão surpresa e incrédula.

- Aja, não reaja, siga seu coração. - Disse-lhe com um sorriso. - Ela volta-se para as guerreiras e coloca a máscara sobre a cabeça. Todas as amazona inclinam a cabeça em reverência a sua nova rainha, inclusive Eponin.

.......................................

- Você tem certeza que não quer ficar conosco? - Ephyni me pergunta.

- Meu caminho é com Xena, ajudando em tudo que puder. Farei o que for preciso para protegê-la. - Respondo e me despeço com um abraço apertado nela e em Eponin. Xena me aguarda já montada em Argo junto aos degraus da cabana real.

- Gabrielle..., seu cavalo! - Diz Eponin me dando as rédeas do corcel branco.

Monto na garupa de Argo, me acomodo e abraço a cintura da guerreira. - Não obrigada, está ótimo aqui! - Digo com um alegre sorriso e me agarro com força a minha princesa guerreira.

Todas sorrimos. Xena toca as rédeas conduzindo o cavalo para o portão, cruzamos o arco e seguimos pela estrada que nos levará a novas aventuras só os deuses sabem onde.

FIM


Notas Finais


Atenção: Esta fict também se encontra publicada no Nyah e a autora é Alba Diniz, portanto não se trata de plágio, eu sou a própria.


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