História Nefando - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Chen, D.O, Kris Wu, Xiumin
Tags ?2concursoexofanfics?, Drogas, Dtehospital, Hospital, Kris Wu, Krisdo, Krisoo, Kyungsoo, Vicio, Wu Yi Fan
Exibições 22
Palavras 4.256
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Pois é, aqui estou eu em mais um concurso de fics (meu primeiro no EXOFANFICS). E espero que tudo dê certo e eu siga direitinho os temas. >.<

O que escrevi foi o que me veio a mente imediatamente assim que soube o tema. E o que acontece com o KyungSoo infelizmente aconteceu/acontece com muitos médicos por aí.
Queria ter feito um suspense, mas como sou péssima nisso (abafa!), optei por seguir outro caminho.

Eu espero sinceramente que vocês gostem e comentem caso tenham apreciado.


P.S: Relevem essa capa, pois eu e o photoshop somos inimigos mortais. Quem quiser me doar uma capa eu aceito de coração.

Então boa leitura!

Capítulo 1 - No abismo do vício


NEFANDO

 

Nefando: De que não se deve falar, por ser digno de aversão; abominável, execrável, condenável.

 

—Viu o que fez? O que tem na cabeça? Não devia ter deixado você participar dessa cirurgia, KyungSoo. - seu olhar sobre mim expressava toda sua frustração, arrependimento e decepção que tomavam conta de si.

 

Naquele momento, só naquele momento, eu percebi que tinha passado dos limites. Mas já era tarde de mais para voltar atrás e querer me desculpar, pois o pior já tinha sido feito.

Eu Do KyungSoo considerado um ótimo médico, um dos melhores na minha profissão estava definhando aos poucos. Isso por causa de algo que não conseguia evitar, por mais que quisesse me livrar daquilo eu simplesmente não conseguia.

Sentia que tudo pelo que um dia lutei não valia mais a pena diante do que tinha me tornado, diante da criatura sem consciência e sem o mínimo de empatia que agora habitava em mim.

Tudo que um dia jurei proteger e seguir honrando já não valia mais de nada quando estava sob o efeito de uma alegria instantânea, que me fazia bem momentaneamente, mas que depois me deixava com uma sensação de vazio imensurável e querendo mais e mais para que aquela sensação nunca me abandonasse.

Um jovem que sempre sonhou em se tornar o orgulho da família, e com muito esforço me tornei. Mesmo tendo noites e noites de sono roubadas pelos milhares de livros que precisava estudar, finalmente eu havia me tornado aquilo que meus pais mais queriam, principalmente o senhor Do, que também seguia a mesma profissão sonhada para mim.

Ser médico mesmo que não fosse meu verdadeiro sonho, acabou se tornando minha realidade quando passei no vestibular e comecei a cursar medicina no SNUH (Seoul National University Hospital), ou Hospital da Universidade Nacional de Seul, na área geral, em Jongno-gu em Seul mesmo. O que facilitou bastante no começo, já que eu morava por perto.

Minha vida ia começar a mudar, definitivamente, eu só queria que fosse para melhor.

 

Logo que cheguei fui bem recebido pelos novos colegas de residência e os médicos veteranos, tudo parecia ir bem e dentro dos conformes, até que o conheci. Seu corpo alto, intimidante, e esbanjando uma imponência gigantesca que me fazia querer saber mais e mais sobre si, e através dessa minha curiosidade não foi difícil ter coragem e me aproximar dele, descobrindo em nossa primeira conversa que se tratava de um estrangeiro, pois seu sotaque o entregava de cara.

Um chinês chamado Wu Yi Fan, mas que tinha adotado Kris como seu nome para facilitar mais sua vida.

Ele sempre foi gentil comigo e me passava uma confiança extrema e uma tremenda vontade de ser como ele, pelo menos um terço que fosse, já que não devia ser nada fácil ficar longe da família para seguir um sonho em outro país, tendo que se adaptar com o idioma, cultura, pessoas e por aí vai. Kris me ajudava muito, não só dentro do hospital nas horas de emergência quando o professor fazia alguma pergunta que eu se quer sabia a resposta por puro nervosismo, que apagava completamente tudo da minha mente, como também nas poucas horas vagas que tínhamos para colocar a matéria em dia e aproveitávamos para conversar e falar sobre nossos gostos em comum.

E eu devo dizer que não demorou mais do que alguns meses para que meu interesse nele aumentasse de uma tal maneira, que foi impossível não o convidar para sair, com a desculpa de que precisava de novo de sua ajuda na matéria.

Foi no meu pequeno dormitório que eu dividia com mais um colega que o beijei pela primeira vez, tomado por uma súbita coragem com a ajudinha de soju. E Kris pareceu não se surpreender, já que, correspondeu ao ósculo melhor do que eu tinha imaginado.

Começamos a namorar naquele período e tudo ia as mil maravilhas, eu estava realmente feliz, não precisava de mais nada para minha vida.

 

O primeiro contato.

 

Depois de mais um dia exaustivo no hospital cheguei em casa e vi a cena que mudaria tudo. Meu colega de dormitório MinSeok estava no banheiro com uma das pernas sobre o vaso sanitário aplicando algo em si. Foi naquele dia que eu conheci o que viria a ajudar no meu fim.

Quando perguntei do que se tratava aquela aplicação ele me disse que não era nada demais, mas eu poderia experimentar se quisesse, pois se tratava de algo bom para aliviar toda a tensão que tínhamos no hospital. MinSeok também cursava medicina como eu.

No início eu não queria muito saber do que realmente se tratava aquilo, mas o ímpeto em meu ser foi maior e a expressão de paz na face dele também ajudou. Porque não era nada fácil dia após dia chegar muito cansado em casa depois de um plantão agitado no hospital, era exaustivo demais, e mesmo que tudo tenha sido escolha minha eu sabia que só pioraria depois que me formasse. Foi quando eu a senti pela primeira vez em minhas veias.

 

O uso frequente.

 

A dolantina, de uso fácil, intramuscular, subcutâneo ou intravenoso. É destinada apenas para tratamento de dor aguda, moderada ou grave, pois é mais forte que a morfina. Ajuda muito por ser empregada como pré-anestésico e seu tempo médio de ação é muito rápido, agindo em poucos minutos após sua administração.

Eu sabia muito bem com o que estava mexendo, afinal, aprendi isso nos meus anos de estudos na faculdade e mesmo assim não fui capaz de evitar tudo o que me aconteceu.

Foi mais forte do que eu a necessidade cada vez maior em tê-la em minha vida, eu tinha total noção de que poderia sim me tornar dependente do medicamento derivado do ópio, assim como muitos pacientes tinham se tornado. Só que a minha percepção foi totalmente alterada com o seu uso contínuo.

A cada aplicação minha necessidade por mais ficava maior, e para que ninguém percebesse, principalmente Kris, sempre apliquei em partes do meu corpo que nunca mostrassem o meu vício, como na clavícula, apesar de que quase fui pego quando em mais uma noite de amor com meu namorado ele suspeitou das marcas em minha pele, então eu decidi que seria melhor começar a aplicar entre os dedos dos meus pés, de qualquer forma o efeito seria o mesmo.

E mesmo que a dolantina devesse ser somente utilizada com um rigoroso controle médico não era complicado para mim consegui-la. MinSeok me ajudava na maioria das vezes, me fornecendo o que conseguia diretamente no estoque do hospital. Começava a ficar evidente minha dependência física provocada pelo uso, o que depois de me formar e ter mais trabalho do que podia suportar estava prejudicando minhas relações dentro e fora do hospital. Isso devido as muitas vezes em que tentei interromper o uso, mas foi em vão, já que com as interrupções bruscas que eu mesmo tentava causar o que acabava desencadeando em mim era uma síndrome de abstinência, por causa do uso prolongado.

O mínimo que poderia usar sendo um adulto seria algo de 25 a 100 mg – via intravenosa – mas, é claro que eu utilizava bem mais do que isso por dia. E conforme eu me dedicava ao uso meu corpo já se acostumava aos seus efeitos, que não eram poucos. Entre eles a maioria eu podia sentir serem efeitos vagotrópicos, tais como a bradicardia (diminuição da frequência cardíaca), misturada com uma taquicardia (aceleração do ritmo cardíaco), hipotensão (pressão baixa), broncoespasmo (chiado no peito), miose (constrição da pupila), soluço, náuseas, enjoos, tontura, confusão mental – que era o que mais começava a me afetar – e raramente vômitos.

Onde aplicava ficava a evidência do que tinha feito, pois a vermelhidão no local da aplicação não desmentia. Durante muitos plantões no hospital eu tinha dificuldade em urinar e acabei adquirindo também uma constipação, vulgo prisão de ventre. Mas na minha visão aquilo era o de menos perto do que a droga podia me proporcionar. Os efeitos negativos nunca a meu ver, superariam os “positivos”, que entre muitos era um estado de completa sedação e euforia.

Eu simplesmente ignorei o fato da dolantina ser altamente viciante e induzir a completa dependência. Sabia muito bem todos os efeitos que ela poderia me causar e tudo o que perderia se continuasse dependente, mas quem disse que eu conseguia parar. Poderia até querer, mas não conseguia. Isso afetou minha vida de uma tal maneira que todos já percebiam, inclusive os meus colegas de trabalho.

E não foi diferente com Kris, que nessa fase do nosso relacionamento não poderia deixar de perceber, pois estávamos morando juntos em um apartamento modesto perto do hospital, conseguido com muito esforço de nossa parte. Não foi impossível para ele notar que algo de errado acontecia comigo, isso porque era evidente que o meu estado de alerta e tempo de reação diante uma emergência estavam afetados, minha capacidade de dirigir também foi prejudicada.

Nada, absolutamente nada mais era como antes. E foi em uma noite de folga que ele me fez a temida pergunta:

- KyungSoo, você está se drogando?

Eu podia ver em seus olhos a preocupação comigo, sua voz não estava alterada, mas, mesmo assim, eu podia sentir a tensão no seu jeito de me questionar esperando inutilmente que eu negasse sua suspeita.

Não fui capaz de mentir, eu precisava de ajuda, não conseguia mais sofrer calado. E ninguém me compreendia tanto quanto o homem que dividia agora uma vida comigo. Eu precisava ser sincero com ele.

- Sim Kris, eu estou. - apenas disse isso.

Mas que foi o suficiente para ele entender e me consolar em meio a um abraço apertado e uma crise de choro vinda da minha parte. Eu apenas precisava daquilo naquele momento, sentir que era amado e que meu erro poderia ser perdoado, e que poderia ter uma chance de me livrar do vício antes que cometesse alguma besteira.

- Eu vou te ajudar meu amor, não se preocupe. - ele disse após um longo tempo em silêncio.

 

Resolvi aceitar a ajuda que ele quis me dar, o que consistia em eu ter que ir pelo menos uma vez por semana no setor de psicologia para ter uma sessão com a psicóloga do hospital, o que de início me garantia a certeza de um dia parar de me drogar. E tudo foi indo bem, até que a correria todo dia no hospital na área que eu trabalhava, que era a de emergência e UTI, foi me dando uma ansiedade e desencadeou um início de depressão – algo que atinge muitos médicos e poucos sabem – tudo foi por água a baixo. Quando a depressão veio e o refúgio era sempre a dolantina.

Um jovem brilhante formado em uma das melhores universidades da Coreia do Sul, de repente se torna viciado em um remédio usado para aliviar a dor em casos de câncer terminal, chegando a consumir em escala industrial. E o que para alguns é um anestésico para mim, com certeza, era uma forma de aliviar a dor.

E não demorou nada para que eu fosse atrás daquele que me mostrou esse caminho sem volta – na maioria das vezes – aquele que eu deveria me arrepender de ter conhecido.

 

Do:Você tem?

Kim: Precisa de quanto?

Do: Talvez 1000.

Kim: É muito você não acha? ¬¬

Do: Vai acabar logo e você sabe disso.

Kim: Calma estressadinho, vou buscar e a gente se encontra.

 

Nós nos encontramos no lugar de sempre que era uma cafeteria perto do hospital, ele me entregou as 10 ampolas dentro de um estojo para disfarçar e o preço acertado foi pago em espécie, algo em torno de 1000 wons. Mas tudo deu errado, naquela que de longe era a minha primeira compra com MinSeok, quando eu avistei quem menos desejava naquele momento. Kris entrava todo sorridente acompanhado de JongDae, um dos médicos amigo nosso.

E assim que me viu logo foi ao meu encontro e não gostou nada de me ver na companhia do Kim, pois sabia que ele tinha uma ponta de culpa no meu estado de viciado. Com a expressão fechada para cima de MinSeok, Kris tentou me levar embora, só que antes eu precisava resolver o assunto da compra, sem claro, meu namorado perceber.

O que óbvio não deu certo, porque assim que MinSeok tentou pegar de volta as ampolas, o estojo caiu e como eu tinha aberto para conferir se estava tudo certo, a dolantina foi toda ao chão espatifando algumas. E foi nesse dia que fui parar na delegacia com os dois, e diante um delegado tive que confirmar que era MinSeok o meu fornecedor.

Lembro que ele até tentou se defender dizendo que estava apenas ajudando um amigo de trabalho sem a intenção de comercializar, mas como estava descaradamente vendendo o medicamento, e fora do ambiente hospitalar isso configurava tráfico de drogas, porém sua família tinha dinheiro e influência, garantido a ele que ficasse apenas três meses preso.

Depois do ocorrido Kris me fez prometer que nunca mais injetaria a substância em meu corpo, que ficaria longe de qualquer medicamento que não fosse de uso exclusivo para os pacientes. E que minha depressão e ansiedade deveriam ser tratadas com outro tipo de alívio, meditação, o que fosse. Ele me fez prometer.

Mas novamente não deu certo.

 

O descontrole.

 

Não controlava mais, não tinha mais o controle. Eu comecei a faltar no trabalho e a cada dia aumentava a dose, porque mesmo que não conseguisse mais as ampolas com MinSeok, eu tinha outros meios de conseguir. E isso me garantia comprar caixas e mais caixas, tomando até uma completa por dia, tudo de forma injetável.

E claro, que tudo isso me levou quase a falência, gastando cerca de uns vinte, quarenta mil wons em um ano. Eu pagava qualquer valor quando estava em abstinência, e sabia que muitos traficantes cobravam muito mais que o dobro do preço que é vendido para hospitais. O contato com esses novos “fornecedores” eu fazia pelas redes sociais e marcava encontro em locais públicos, como no metro.

Sabia que com o tempo os riscos só aumentariam e era notável através das várias cicatrizes e algumas sequelas que começavam a afetar meus músculos, causando começo de atrofia muscular com risco de amputação, isso eu sabia, já que era médico, mas absolutamente nada me impedia de continuar as aplicações.

E ele estava lá, sempre ao meu lado, me levantando quando eu caia, cobrindo minhas faltas quando já não aguentava ficar mais em pé, se desculpando por mim quando era rude com algum paciente, enfermeiro, ou qualquer um que cruzasse meu caminho. Eu já não era mais o mesmo.

 

 

- PARA! Minha perna dói. - berrei em meio ao desconforto de ter minha perna apoiada em seu ombro.

Durante nossas relações sexuais nos últimos meses, eu sentia uma dor terrível nas minhas articulações, e eu mesmo querendo evitar que algum gemido de dor escapasse da minha garganta, aguentava firme até ele gozar e sair de dentro de mim. Mas aquilo estava ficando insuportável, não tinha como fingir ou esconder mais, e Kris percebeu. Ele sempre percebia.

- Você mudou Soo, já não é o mesmo que conheci a dez anos. - ele falou quando retirou seu pênis do meu ânus.

Ele sabia que meu estado tinha piorado, pois o uso era contínuo e depois de uma overdose que sofri ficou ainda mais terrível. Seus olhos transmitiam aquele mesmo pavor de quando me viu no leito do hospital depois de ser encontrado por um enfermeiro, dentro do banheiro sentado sobre o vaso, com um garrote preso no meu braço para ajudar a injetar agora não mais a dolantina, e sim uma outra droga que tinha descoberto a pouco tempo.

 

O Fentanyl, anestésico hospitalar derivado do ópio, só que oitenta vezes mais viciante que a heroína e a morfina. Com ele a sensação era um pouco diferente, eu aplicava, o efeito agia rápido, me dava uma pequena loucura e logo depois eu apagava. Isso me afetava mais do que qualquer coisa.

E nesse dia Kris mais uma vez sabia que não precisava me questionar se eu ainda me drogava, porque ele assim como eu sabia muito bem a resposta. E caso alguém de fora perguntasse o que de fato tinha acontecido, eu mentiria como em inúmeras vezes, dizendo que tudo foi culpa do cansaço, depois de mais um plantão de trinta e seis horas.

Mas é claro que a verdade era bem mais do que isso. Com o tempo eu fui me distanciando de todos, família – que só não sabia sobre o meu verdadeiro estado por causa de Kris – e amigos.

E por falar nele parecia ainda querer que eu me pronunciasse diante a sua afirmação de que eu tinha mudado. Não podia negar isso a ele.

 

- Realmente eu mudei, e foi para pior. Sinto muito, mas eu não sou mais aquele jovem de dez anos atrás que se formou em medicina, em uma festa e tanto. Através de muita dedicação, garra, perseverança e que era orgulho de amigos e parentes.

Meus olhos começaram a lacrimejar.

- Você era o meu orgulho. - Kris disse sem me olhar indo ao banheiro.

 

 

Sinceramente eu chegava a pensar algumas vezes que não adiantava nada querer colocar a culpa da minha dependência no que acontecia comigo dentro do trabalho, afinal, eu escolhi essa vida. Sempre soube com o que um médico trabalha, pois meu pai se tornou um. Só não imaginei que fosse sentir na pele como a ansiedade, depressão e o stress são algumas das portas para drogas legais ou ilegais.

Todo o apoio psiquiátrico que recebi não funcionou. Talvez porque eu trabalhasse nos setores mais tensos de um hospital que eram o pronto socorro e a UTI.

Eu queria muito que alguém além de Kris, notasse meu desespero e insegurança em trabalhar com medo de acontecer algum erro. Pedia todo dia que descobrissem que eu era um viciado para poder quem sabe, trocar de emprego quando minha dependência fosse descoberta.

Porém isso nunca aconteceu, parecia até que eles me acobertavam, por talvez eu já ter sido um dos melhores no que fazia, eles praticavam comigo o chamado corporativismo me embrenhando em uma rede de silêncio. Que poderia ser fatal, e foi.

Talvez tenha sido isso também o que aconteceu com o Michael Jackson, o famoso rei do pop, de quem eu sempre gostei, que naquela notícia do jornal jazia morto por causa de uma dose excessiva de Propofol, algo a meu ver bem menos excitante e envolvente que a dolantina e o fentanyl que eu tomava. Aposto que com ele e com o Prince, todos em volta percebiam que estavam chegando ao fundo do poço, mas absolutamente ninguém fez nada para impedir a tragédia.

E toda aquela tranquilidade imensa, vendo o mundo em cor-de-rosa, sem sentir dor, só relaxando, e cada vez mais aumentando a dose da aplicação das drogas não acabaria tão cedo. Na verdade, tudo parecia não ter fim, mesmo me sentindo cada vez mais mole, e sem muita coordenação, o que era agravado por causa de uma sonolência profunda, eu não parava.

A falta de fiscalização nos hospitais onde se consegue essas drogas facilitou muito a minha vida, mesmo que tudo devesse ser registrado quando retirado da farmácia ou devolvido após uma cirurgia o que era facilitado pelos códigos nas embalagens, muitas vezes eu tinha certeza de que não era isso o que acontecia, já que elas chegavam a mim sem nenhum empecilho.

E mesmo que por acaso, eu não conseguisse a dolantina ou fentanyl, nunca fiquei sem me drogar, pois eu ia atrás de algo mais fraco diante o que usava, mas que me garantia um pouco da mesma sensação, e nisso a oxicodona me ajudava.

O vício me consumia cada dia mais, e absolutamente tudo o que fazia era em torno dessa minha maldita condição. Tudo que me levou a ficar mais propenso a cometer erros em meu ambiente de trabalho, e claro que não demorou muito para isso acontecer.

Essas drogas deveriam ser usadas apenas por pacientes em estado grave, mas é tanto silêncio envolvendo todos os que trabalhavam comigo, que ninguém fez nada para me impedir de participar daquela cirurgia, nem Kris, que deveria estar de olho em mim sempre.

Naquele dia eu estava sim, muito drogado, dopado, e desde a minha primeira overdose não trabalhava mais como cirurgião e sim agora, como anestesista. E com o consumo diário dessas substâncias muitas vezes eu tinha lapsos de memória e ficava bem alienado diante muitas coisas. Não fazia ideia na maioria das vezes onde estava e o que deveria fazer, precisava de muitos minutos para me recompor, ou tentar seguir como se nada de mais tivesse acontecido.

Foi dessa forma que entrei naquela sala de cirurgia, em mais um dia de trabalho para aplicar a anestesia no paciente de meia idade, que poderia ser meu pai, mas que, com certeza, era o pai de alguém, uma vida que não volta mais e que se foi por minha causa.

A única conduta que eu precisava seguir como médico, era perceber a chamada “classificação de risco”, ou seja, os casos graves têm prioridade e ponto final, o que não era o caso daquele homem que gozava de boa saúde. Tratava-se de uma cirurgia simples. Não interessava quem era o paciente da porta do hospital para dentro, não me cabe julgá-lo, só prestar assistência, pois eu tinha estudado para ser médico e não juiz.

Naquele dia todo o meu juramento de Hipócrates foi pelos ares junto com a vida daquele homem, pois por um erro meu tudo teve fim.

 

—Viu o que fez? O que tem na cabeça? Não devia ter deixado você participar dessa cirurgia, KyungSoo. - seu olhar sobre mim expressava toda sua frustração, arrependimento e decepção que tomavam conta de si.

Kris tinha total razão em estar daquele jeito, afinal, eu tinha matado um homem, com choque anafilático, ou seja, morte por causa da anestesia mal aplicada que eu tinha dado. Aquilo se tornou como um estigma que eu comecei a carregar, era como viver nas sombras eternamente a partir dali.

Aquilo só foi o estopim para a minha desordem psiquiátrica, para toda a minha desorientação, confusão, delírio, alucinações, euforia, disforia – mudanças de humor – e agitação. A terapia sintomática com todas as medidas gerais de suporte nunca adiantaram no meu caso.

E quando em um telefonema eu ouvi Kris falar sobre o famoso Bethlem Royal Hospital, em Londres eu soube que a minha situação havia chegado em um ponto que não tinha mais como reverter. Mesmo que ele quisesse apenas a minha cura eu não aceitava aquilo muito bem, já que esse hospital – que eu tinha certeza ser para onde ele me mandaria – fosse um dos melhores em tratamentos de abuso de substâncias, também sabia que oferecia serviços de saúde mental. E para mim tudo pareceu muito óbvio, Kris queria me internar porque eu estava ficando completamente louco.

 

Mas eu não queria ir para esse lugar sem saber o que me aguardava, e eu tinha decidido optar por um caminho sem volta. Foi por isso que no dia seguinte, quando me demiti do hospital e prometi a Kris que iria me internar, eu me tranquei no banheiro do térreo – assim seria mais fácil me encontrarem, foi o que pensei – para realizar minha última loucura e me despedir.

Fiz tudo o que já estava acostumado, mas com um pouco mais de emoção e desespero garantindo que nada desse errado. Como não deu.

E todos aqueles efeitos, já bem conhecidos por mim começaram a aparecer mais rapidamente do que nunca, todo o rubor, sudorese, taquicardia, toda a liberação de histamina levando à hipotensão, me garantia um estado de nirvana.

A sedação no meu corpo, vertigem, tremor muscular, boca seca, os distúrbios visuais e a elevação anormal da temperatura corporal. Tudo era indício da superdosagem.

O colapso circulatório já acontecia em meu organismo, já não respirava de forma normal, tinha muita dificuldade, isso era sinal da depressão respiratória, da anestesia. A sonolência estava progredindo, podendo me levar ao coma, mas eu duvidava muito que isso acontecesse, apliquei o suficiente para não ter que passar por isso.

Por fim eu já podia sofrer com a falta de oxigênio, já imaginando minha pele roxa, tendo uma parada cardíaca logo em seguida e … morte.

 

Era o meu fim!

 

 

Um ano depois


 

Mesmo passado tanto tempo que o outro tinha partido Wu Yi Fan ainda não se conformava. O corpo inerte no banheiro com pontos de sangue nos tornozelos, e com uma leve expressão de alívio nunca sairia de sua mente, quando no desespero um dos faxineiros lhe chamou para ver o que tinha acontecido com aquele que tanto amou.

Ele se foi levando consigo a esperança de melhora, de se livrar do vício, se foi por uma intoxicação de fentanyl e dolantina. Tirando a chance do chinês de formar uma família e só deixando lembranças, como a de quando estavam no início do namoro aproveitando uma rara folga em um dia ensolarado no parque da cidade.

- E aí amor, aonde você quer ir hoje? - perguntava sorrindo com sua boca delicadamente desenhada em forma de coração.

- Ah, por mim tanto faz. Quero ir aonde você for. - respondeu o chinês simplesmente.

E ali ficaram, se provocando por vezes, deitados na grama a beira do lago, quase adormecendo, como se estivessem em seu mundinho próprio, entre quatro paredes.

Não importando para onde estivessem indo, ou mesmo se não fossem a lugar algum. O importante era estarem juntos.



 

Fim <3

 


Notas Finais


Então é isso pessoal, espero que tenham gostado. Perdão pelos poucos diálogos, mas eu quis focar mesmo no que o que KyungSoo sentia por causa do vício.

P.S: Saibam que essas drogas (altamente viciantes) e lugares citados existem mesmo. E tudo escrito teve uma base de pesquisa.

Nos vemos em uma próxima. Beijos!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...