História Nepenthe - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias Once Upon a Time
Personagens Capitão Killian "Gancho" Jones, David Nolan (Príncipe Encantado), Ingrid / Rainha da Neve / Sarah Fisher, Princesa Aurora, Príncipe James, Regina Mills (Rainha Malvada), Robin Hood, Ruby (Chapeuzinho Vermelho), Tinker Bell, Will Scarlet
Tags Álcool, Drama, Drogas, Outlawqueen, Regina, Robin, Sequestro, Violencia
Visualizações 60
Palavras 4.590
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Demorar menos de dois meses pra att? É isso mesmo que eu estou vendo????? HAHAHAH
Olá! Depois de alguns dias de enrolação, terminei o Capítulo 4 de Nepenthe, nomeado de "O encontro de AA". Ele está pronto desde segunda, eu acho. Todavia, esse excelentíssimo capítulo recebeu uma betagem "exclusiva" ASBHAEHUAE de Júlia, ou varuba para os intimos e Juba *pra mim*. Obrigada, meu anjo, você foi muito gentil ao betar pra mim esse capítulo gigantesco de 4,5k de palavras. Sendo o honrável a ser feito, dedico ele à você.
O capítulo 5 já esta sendo escrito e eu não quero deixá-las na mão como tenho feito. Atualmente venho tendo mais inspiração pra Nepenthe, e Selenophile está ficando um pouco de lado, mas pretendo terminar o Cap 3 da fic anteriormente citada também. Eu gostaria que as atts saíssem semanalmente, por volta de sexta ou sábado, mas minha vida escolar vai começar a me foder em ângulo, número e grau. Com isso, não tenho certeza sobre nada, mas me empenharei ao máximo pra cumprir tal meta.
Beijox, boa leitura
xoxo emmet

Capítulo 4 - Chapter four: The AA meeting


Fanfic / Fanfiction Nepenthe - Capítulo 4 - Chapter four: The AA meeting

“Ela fez com ele o que o dia faz com a noite”

 

Chapter 4

The AA meeting

 

 

O que definitivamente não faltava na vida de Robin, no momento, eram imprevistos. Naturalmente é comum haver movimentos inesperados na vida de uma pessoa, mas às vezes o loiro pensava que uma possível “sacanagem divina” o impedia de cumprir suas metas.

Sua pressa era surreal. O “dia” já estava ficando “tarde” e Robin, que nem ao menos parou em casa decentemente para ver se havia algum relógio funcionando e certificar-se das horas, não conseguia nem prever o presente horário. Dada a situação atual e a luz do dia, Robin pôde certificar-se de que não sabia nada sobre relógios-de-sol, tampouco como descobrir que horas eram a partir de como estava o dia. Mesmo assim, chutou que seriam quase cinco horas da tarde.

O jovem não sabia muito bem onde se “encontrava” AA’s, fazendo com que as reuniões fossem uma espécie de coelho a ser caçado por um abutre realmente faminto. Contudo, sabia que havia uma na igreja de St Mary the Virgin, mas não aprovava muito a ideia de ter que ir à uma igreja sendo que, além de não ser muito religioso, possuía traumas, uma vez que sua família sempre o obrigava a ir à igreja aos finais de semana e, por vezes, os De Locksley tão gentilmente o faziam passar vergonha e raiva.

Lembrou-se que há um certo tempo, em sua segunda ou terceira consulta (e bem provavelmente a última desde que sua avó faleceu), sua psicóloga havia lhe recomendado um local no qual Robin sempre passava pra ir pra casa. Ficava a dois ou três quarteirões de um bar que ele também costumava ir — quanta ironia! — e por isso, Robin sabia quase que exatamente aonde ficava

Quando chegou ao local, pôde dizer que ficou, no mínimo, pasmo. Robin tinha que admitir que não era uma pessoa de se surpreender fácil e isso era algo bom e ruim ao mesmo tempo. Era uma organização, uma espécie de irmandade. Ele pensou que teria que preencher uma ficha, fazer um juramento ou algo bem escandaloso. Entretanto, ao observar, timidamente, “tudo” — já que não estava acontecendo muita coisa — pela janela, viu que não era bem assim. Quase todos que entravam deixavam seus nomes em uma prancheta com caneta que estava presa a uma mesa de madeira, que mesmo sendo do material descrito, aparentava ser tão resistente quanto ferro. Ademais, também parecia estar presa ao chão. Talvez aquilo tudo fosse premeditado para casos de roubo ou furto, já que a doce e querida Nova Iorque dava o que falar nos noticiários mundiais, tendo em vista seu altíssimo nível de criminalidade, homicídios, e outras coisas perturbadoras.

Robin olhou para o local. Estreito, apertado entre tantos outro quartos, cômodos, prédios; mas que, ainda assim, parecia deveras agradável. Era quase inevitável fazer um pré-julgamento da condição — financeira ou não — das reuniões, mesmo antes de entrar. A única coisa que o permitia ter uma visão de verdade do que, porventura, poderia acontecer ali, era a janela — que já estava bem “embaçada” e suja — e a porta,  que possuía uma pequeníssima janela localizada bem em seu centro.

Algumas outras pessoas entraram e olharam de soslaio para Robin, que se sentiu um pouco intimidado, mas não se importou. Talvez tivessem achado que ele era algum intruso ou um “curioso intrometido”, sendo que algo que verdadeiramente prezavam nas AA’s era o anonimato. Julgando por isso, o loiro novamente não se importou, dando de ombros levemente, mais para si mesmo do que para as pessoas ali. Os outros o olhavam, e logo depois entravam. Dada a dedução que Robin acabara de fazer, ele serviu-se da máscara do “atrevimento” e continuou olhando. Talvez as pessoas que ali passavam achavam-no um covarde, um intrometido, um intruso, um idiota, talvez. Certamente, algumas pessoas de Nova Iorque não eram lá muito amigáveis, mas Robin continuava não se importando.

Percebeu, finalmente, duas coisas. Os únicos acontecimentos que estava “autorizado” a presenciar, graças ao seu limitadíssimo campo de visão fortalecido pela janela embaçada e suja, era a mesa e a prancheta presas ao chão de material não-identificável. A outra ação que havia percebido é que ninguém mais estava entrando, talvez porque a reunião já havia começado ou alguma outra coisa qualquer, que não tinha muita importância pra ele no momento. Ele olhou para os lados e percebeu que mesmo já sabendo que estava ficando fora de hora, o dia estava começando a tornar-se tarde, e logo, noite. Com a falta de luz e o entardecer, a temperatura — que já estava baixa — também caía. Sorte de Robin por estar com o casaco em seu corpo. Suspirou e depois soltou o ar, vendo que logo após o ato, uma leve fumaça gelada se mostrava presente ao seu redor, sendo seguida por um vento frio, vindo de sua boca. Um poste iluminava o lado direito da calçada e Robin, se encontrando no esquerdo, tomava coragem para adentrar a porta que representava as diversas coisas que lhe aguardavam, as quais ele não tinha certeza que viriam.

O loiro sempre teve, querendo ou não, certeza do que aconteceria em sua vida logo depois que começou a beber. A única coisa que ele não teve certeza, foi quando o médico tinha lhe avisado que sua avó tinha falecido, sendo isso quase que incaptável e, por vezes, Robin se lembrava da voz do doutor lhe dizendo uma frase que ele já deveria ter dito para muitas pessoas na vida: “Ela faleceu, eu sinto muito”. Como se a vida de uma pessoa não importasse a ele. Ou, talvez, a vida de uma pessoa importasse tanto a ele que, como médico, ele não podia mostrar remorso, tristeza, ou qualquer coisa do tipo. Claro que ser médico incluía no pacote ter que lidar com a vida e com a morte, e compreendia o jovem, ser algo para poucas pessoas.

Robin, mesmo sendo uma pessoa emotiva, não gostava muito de sentimentos, pois pensava que eles apenas atrapalhavam as pessoas. E estava certo. O problema do loiro sempre foi ser muito sentimental por dentro, uma vez que apenas ele e sua avó sabiam de seu lado emocional. As pessoas que Robin não conhecia o julgavam tão frio quanto toda a família De Locksley, família a qual ele odiava ser comparado, mesmo tendo nascido com esse sobrenome, perpetuado no dia de seu nascimento e em um pedaço de papel quase que inútil, pelo menos para ele. As certezas de sua vida sempre estavam em suas mãos. Quando se sentia vazio, a única coisa que precisava fazer era encontrar o boteco mais próximo e pronto. Tudo estava resolvido. Sentindo-se triste? Simples, a bebida facilmente preenchia toda a tristeza que se emaranhava em seu corpo. Entretanto, tais certezas esvaíram-se das mesmas mãos que a seguraram com tanto afinco tempos atrás quando sua avó faleceu e o fez prometer algo que, explicou sua psicóloga, ele não conseguiria cumprir se não tivesse uma motivação a mais.

Ele inspirou e expirou novamente, vendo o vento e as fumaças geladas preencherem o ar envolto pelo seu rosto sendo iluminado pela luz alaranjada do poste que estava fincado no chão de concreto.

Robin presumiu que já estava demorando um pouco a mais do que o recomendado, mas a tensão presente em seu corpo era maior que tudo que fosse, por algum acaso, recomendado. O medo principalmente. Medo é algo estranho de ser definido; não é como se você fosse estar diante de um homem que estivesse apontando uma arma pra você. Isso é um pouco estranho, sendo que o racional seria você, obviamente, ter medo de ter sua integridade física comprometida; ademais, sua vida poderia, em um piscar de olhos, não ser mais uma vida. Contudo, o medo quando não se há nenhuma ameaça por perto, o verdadeiro medo, é aquele que você sabe que não há nada para te machucar a não ser você mesmo. Você teme por você, pelo que pode acontecer à sua pessoa, caso você mesmo interfira na sua vida de qualquer modo que seja.

O loiro estava terrivelmente amedrontado, mas inspirou profundamente, pensando que o ato o ajudaria a amenizar as incertezas que carregava dentro de si, incertezas estas que foram intensificadas quando atravessou a rua e deu de cara com a porta que tinha escrito, perto da maçaneta, bem leve: “AA Meeting”

Quando expirou viu a fumaça gelada ser iluminada, novamente, pela luz alaranjada do poste preso ao concreto. Ergueu sua cabeça e olhou para cima, encarando o céu agora escuro. Pediu uma ajuda divina, mesmo após os tantos tombos que tomou. Robin não era muito de acreditar em Deus ou algo do tipo, mas tinha um instinto (talvez incentivado pela avó) que algo maior que ele existia, e podia garantir que não estava falando de tamanho.

Ele olhou para porta e sentiu, por um segundo, que a porta olhava para ele também, por mais idiota que aquilo poderia parecer. Olhou para trás, pensando em ir embora e, talvez, realmente fosse. Estava aterrorizado. Contudo, uma voz ecoou em sua cabeça, não deixando claro quando iria “deixar” Robin e, essa voz, muito provavelmente, era a de sua avó. A voz dizia somente: “Não vá, não vá...”. Tal som causou um impacto no cérebro do jovem, que estimava continuar ouvindo com clareza a voz dócil, gentil e preocupada da senhora lhe dizendo para não ir embora dali e cumprir, de uma vez por todas, a promessa que havia feito. Robin não queria... desapontá-la.

Entretanto, quando desapontamos aos outros desapontamos a nós mesmos, e ao desapontar o próximo, o impacto bruto e imediato reverbera como um efeito dominó, tornando-nos incapazes de realizar uma simples ação, um simples passo, sem parar de pensar que em algum momento seremos incapazes de ser úteis a alguém.

Estar lá para os que amamos, estar lá para os que precisam de nós.

Ele avançou e encarou a porta. Tirou as mãos do bolso do casaco e, quando estava prestes a colocar a mão na maçaneta cilíndrica mal polida e suja para abrir a porta e entrar, parou. Deu um passo para trás e pensou. Quanto mais pensava, mais o medo se apoderava de seu corpo, apossando-se dele.

 Melhorar, talvez? Ele era um viciado. Ele merecia perdão?

Não.

Sim.

 Questões complicadas para um doente como ele, principalmente pela necessidade de autojulgamento. Robin não conseguia ver sua vida sem o álcool, não conseguia saber como seria, não tinha a certeza que antes possuía, certeza em saber que, caso se sentisse triste ou vazio, essa lacuna poderia ser preenchida com um, dois ou três shots de vodka seguidos. Mesmo estando há três semanas sóbrio, o que havia lhe motivado era o sentimento de luto, que era mais forte do que a necessidade de beber. Não só o luto, mas a raiva e o peso na consciência o motivaram a não beber por esse período de tempo. O tempo muda tudo, e mesmo que esses sentimentos estejam perpetuados no coração e mente de Robin, eles irão diminuir. Nunca por completo, é claro. Mas sim, irão diminuir gradativamente. Haverá uma hora em que Robin vai sentir falta do gosto amargo e um pouco ácido que passará com dificuldade pela sua goela, raspando sua garganta, mas que ainda assim, ele vai sentir falta. Vai sentir falta Esse sentimento de ser preenchido novamente e de se afogar cada vez mais em um caminho que dificilmente teria volta.

O jovem olhou para os lados novamente e, engolindo secamente todos os desapontamentos, todos os medos e incertezas que rodavam como um carrossel em sua mente tão desgastada no presente momento, colocou rapidamente a mão na maçaneta e a girou, abrindo a porta bruscamente e entrando logo em seguida. Se tudo não fosse feito com rapidez, Robin poderia perder a coragem insana que pairava em seu corpo no exato instante. Tudo tinha que ser feito do mesmo modo como se arranca um curativo: rápido, ágil e de uma vez, para que a dor seja quase nula. Se não for, saberá que ela vai passar depois de um tempo; você só precisa aguentar o início.

Robin entrou e, olhando para o lado esquerdo, viu a mesa e a prancheta de madeira que havia observado pela janela encostada numa “pilastra” em formato quadrado. Olhou mais para frente e se espantou ao perceber que o cômodo era maior do que ele imaginava.

Tirando a grandeza, os vitrais, as pilastras colossais em mármore de cores distintas, o altar e os santos, ele poderia dizer que o local era bem parecido com uma igreja. Das pequenas, é claro. O chão era meio amarelo-acastanhado, meio cor de linho, de modo que, bem polido e limpo como estava, refletia um pouco do teto na cor bege-claro. Haviam detalhes por todo o cômodo, em uma madeira escura, parecida com a madeira da árvore de nogueira, como o rodapé, e uma parte da parede em relevo, que era igualmente de madeira, da qual Robin não sabia o nome.

Haviam dois ou três móveis acolchoados — dois sofás e uma poltrona — afastados do centro do grande cômodo que, pelo tamanho, o jovem pôde ser capaz de compará-lo a um auditório “pequeno”. O meio do grande espaço era constituído de umas catorze cadeiras, um tanto quanto simples, na cor de palha acinzentada escura, formando um círculo, meio afastadas, mas ainda assim uma do lado da outra. Elas ficavam ao redor de um conjunto de lâmpadas retangulares no teto, sustentadas por uns fios desconhecidos pelo jovem Robin, mas que pareciam bastante resistentes.

Percebeu que o cômodo era composto pelo centro e pelas laterais, unicamente; sendo o centro discernido a partir da “fronteira” estabelecida por quatro pilares finos de madeira polida, dois de cada lado do cômodo, sustentando uma parede mais fina ainda, vertical, que ia até o teto, dividindo o meio dos outros lados do cômodo e era somente nesse meio em que as únicas coisas que se encontravam eram o conjunto de cadeiras em formato circular e uma mesa (no estilo diretor de colégio interno) e uma cadeira atrás, talvez para o orientador.

Haviam alguns quadros pequenos espalhados pelas paredes limitadas por outras paredes verticais que batiam no teto. Haviam alguns pequenos armários caídos no chão também, mas que não aparentavam estar ali por acidente, e sim, de propósito. Bem mais à frente, Robin pôde ver um pequeno palco atrás da grande mesa escura, mas não conseguiu deduzir pra que ele poderia servir.

Parando de observar a surpreendente decoração do quarto, ele atentou-se ao fato de estarem todos se arrumando para sentar nas cadeiras dispostas para a reunião. Ele era o único que havia sido “deixado pra trás”. Robin apertou seu passo, fazendo um leve barulho, mas não o diminuiu, chegando até o local em que ficavam as cadeiras e contando-as. Eram realmente catorze assentos. Parecia que estavam exatamente catorze pessoas ali. Caso não, pelo menos tinha treze. Se tivesse uma a mais, não seria problema, já que também haviam várias cadeiras no extremo canto esquerdo do cômodo para abrigar uma quantidade maior de pessoas.

De qualquer modo, Robin retirou seu casaco roxo, já que estava dentro do cômodo e não estava sentindo frio. Depositou-o atrás do encosto de sua cadeira e com um pouco de dificuldade — uma vez que uma cadeira estava muito próxima da sua e, a outra, estava ocupada por um homem que aparentava não ser uma das melhores pessoas para se bater um papo — sentou-se, observando os outros à sua volta.

Passados alguns minutos todos já estavam em seus devidos lugares. Robin notou várias pessoas se movimentando anteriormente, mas só pode se concentrar em seus corpos, rostos e trajes logo depois delas se sentarem, sendo que uma face em particular chamou sua atenção, tão difícil de ser realmente conquistada.

— Atenção — uma voz masculina, porém bem fina, pediu silêncio e concentração. — Todos estão em seus devidos lugares e, com isso, posso prosseguir — sorriu. — Me chamo Archie Hooper, serei o instrutor, coordenador, inspetor... bem, chamem como quiserem. Eu prefiro coordenador, e como ia terminar, serei o coordenador de vocês. — disse tudo rapidamente, tornando quase que impossível para Robin de digerir todas as palavras proferidas. — Por favor, me chamem apenas de Archie.

— Olá, coordenador Archie — todos, menos Robin e a pessoa que havia despertado particular atenção no jovem loiro, disseram em claro uníssono. Tal gesto assustou o jovem garoto, fazendo-o arregalar os olhos.

— Muito obrigado — sorriu novamente. — Suponho que essa seja a nossa primeira AA do ano, pelo menos a que sou coordenador. — riu, descontraído. — De qualquer forma, como é a nossa primeira reunião, acho bom começar explicando como funciona, como que vai ser e o objetivo dos nossos encontros. Depois, pretendo conhecê-los um pouco e ouvir as suas histórias, ok?

O grupo “grunhiu” em concordância.

— Pois bem,­— Archie prosseguiu — as AA’s ou Alcoólicos Anônimos, como vocês devem ter conhecimento, é uma irmandade de pessoas que se ajudam mutuamente a alcançar a sobriedade. Para ser um membro da AA, o único “requisito”, digamos assim, é o desejo de parar de beber. Sendo essa uma reunião aberta, me sinto encantado com a presença de vocês aqui, e antes gostaria de saber se todos os presentes sofrem de problemas com o álcool?

Todos, sem exceção (incluindo Robin e a pessoa que o capturou sua particular atenção) grunhiram novamente, em concordância, com a única diferença de fazerem gestos com a cabeça quase que ritmados, de tão cronometrados que aparentavam estar. Tais movimentos também eram um sinal de equivalente concordância, sendo eles caracterizados pelo movimentar para frente e para trás das cabeças dos presentes ali.

— Certo — sorriu, pela terceira ou quarta vez naquele minuto. — Reuniões abertas podem incluir alcoólicos e não alcoólicos, podendo os últimos serem convidados a falar também. Como já mencionei, me sinto maravilhado com a presença de todos aqui, mas ainda irei pedir para que limitem seus comentários a seus problemas com o álcool, está bem?

Os grunhidos deram espaço ao gesto feito instantes atrás, indicando equivalente concordância.

— Naturalmente, o objetivo é impulsioná-los a ficar sóbrio por mais tempo possível. O alcoolismo, para mim e para muitos outros, é uma doença física, mental e espiritual que ainda não contém uma cura. Uma pessoa que tenha perdido a possibilidade de controlar a bebida, jamais voltará a beber normalmente, sendo ela impossível de ser curada. Entretanto, a AA pode ajudar vocês, gradativamente, a virarem o que chamamos de “alcóolicos em recuperação” ou “alcóolicos sóbrios” — tossiu. — De qualquer modo, pouquíssimos falharam quando seguiram nossos métodos e recomendações à risca. Eventualmente, vocês podem ter uma recaída. Geralmente isso acontece quando não se acostumaram com o programa de reuniões da AA, ou estão passando por uma quantidade maior de problemas e estão aqui há semanas ou há poucos meses. Nós seguimos os sugeridos Doze Passos e Dozes Tradições, que pretendo iniciar na próxima reunião, bem provavelmente. Acho que isso cessa um pouco das dúvidas de todos e dos novatos, principalmente — disse, olhando para todos, em especial para os que pareciam mais novos. — Alguém aqui gostaria de se apresentar ou compartilhar suas experiências com o álcool?

Robin havia ouvido tudo o que o homem tinha dito com atenção dividida entre encarar sutilmente a pessoa que havia despertado nele um interesse anormal e ao pequeno discurso do coordenador Archie. De qualquer modo, havia compreendido tudo e supôs que não tinha nenhuma dúvida. Mesmo que tivesse, ele sabia que não conseguiria perguntar diante de tantas pessoas ali. Encarando-o, julgando-o, pensando sobre ele.

— Meu nome é Emma, Emma Swan — uma mulher loira posicionou-se, mantendo sua face impassível, mas com um tom de voz que demonstrava temor, rispidez e coragem interior ao exercer tal ato, tudo ao mesmo tempo.

— Olá, Emma — todos disseram, em uníssono.

— Oi, Emma — comentou Archie. — Você é uma alcóolatra?

— Sou... sim — demorou a responder e, quando respondeu, disse bem baixinho, engolindo em seco.

— Poderia, por favor, reformular o que disse?

A loira demorou a raciocinar o que o orientador havia lhe coordenado a dizer, mas logo após, entendeu. Era um procedimento padrão e fazia parte dos Doze Passos.

— Meu nome é Emma Swan e eu sou uma alcóolatra — disse firmemente, piscando os olhos repetidas vezes.

— Olá, Emma — as outras doze pessoas repetiram, alguns com uma entonação que não mudou nem um decibel, parecia ser algo gravado, igual ao anteriormente proferido.

— Eu julgaria minha história como clichê, mas aprendi que minha dor não deve ser diminuída, independente da minha opinião sobre tal — disse, olhando vez ou outra para o lado, mas mantendo seu olhar fixo em Archie, que balançava a cabeça em concordância, ininterruptamente. — Quando meu pai morreu, a obrigação principal de minha mãe foi arranjar um marido pra ela ou um padrasto para mim. Nisso, eu tinha dezesseis anos incompletos. Infelizmente, ela não soube escolher a pessoa correta dessa vez e eu pude testemunhar de perto o que era sofrer na mão de um homem pela primeira vez na vida; ele a abusava verbalmente, fisicamente... — narrava com a voz começando a ficar falha e os olhos também começando a ficarem marejados. Hooper, vez ou outra, virava-se mirando os lenços de papel. — De qualquer modo, eu via que toda vez que minha mãe estava debilitada demais para satisfazer os desejos doentios dele, ele saía pra beber e voltava com duas mulheres nos braços — disse, fortalecendo o tom de voz. — E nisso, eu só pensava na minha mãe. Não sabia se sentia pena dela, afinal, ela arranjou aquilo para ela mesma. Todavia, eu tinha uma certeza: eu não queria ser como ela. Nunca. Contudo, com o passar do tempo, eu me tornei algo pior. Eu comecei a sair todo o final de semana, logo toda a semana, voltando totalmente embriagada com uma mulher nos braços. Em suma: eu não me tornei minha mãe, mas me tornei o meu padrasto...

O jovem loiro não estava muito interessado. Não que a história não fosse tocante, talvez até fosse. Algo bem triste, trágico... que seja. Mas mesmo assim, para atrair a atenção de Robin, por mínima que fosse, tinha que acontecer algo intrigante o suficiente para prendê-lo. O cérebro do jovem era algo um tanto quanto curioso, pois funcionava de dois modos: obsessivo ou completamente desinteressado. Pensando bem, desinteresse talvez nem fosse a correta palavra para descrever o seu “estado de espírito” no presente momento. Ele olhava para cada rosto com uma atenção indescritível e todos estavam voltados para a mulher loira falando.

Menos um.

A expressão facial parecia tão alheia quanto a de Robin. Talvez se interessasse somente em perceber os quadros do cômodo e como eles eram belos e bem pintados, se as poltronas haviam sido colocadas ali devidamente ou se haviam sido jogadas à grosso modo. Robin analisava-a dos pés à cabeça. Não somente por sua beleza estonteante, que poderia ser percebida mesmo com seu rosto virado de lado, mas por seu olhar oblíquo, obtuso, que denotava alguém que transbordava mistérios, do jeito que o jovem admirava. Certamente, não parecia uma pessoa muito usual, mas Robin adorava uma excentricidade.

Pele branca, mas “amorenada”, sem perder os traços de fragilidade, como uma boneca de porcelana devidamente personalizada para um colecionador compulsivo. Seus cabelos marrons-ébano, meio acinzentados, demonstravam que o exotismo poderia não ser só colocado em palavras, mas em fios de cabelo também. Seu rosto, suspeitava Robin, ser perfeitamente simétrico, era no formato de um triângulo ao contrário, com os ossos de sua bochecha levemente sobressaídos, um queixo também suavemente rachado e com alguns “pontinhos” marrons-claro perto de seu nariz e bochechas, nos quais Robin deduziu serem adoráveis sardas. Tal tão obtusa face intensificava seus olhos, que se apresentavam com um formato perfeitamente amendoado, com suas pálpebras caindo exageradamente, não fechando seus olhos totalmente, mas denotando que sempre estava em uma entediante conversa, por mais que não estivesse falando. A cor de suas íris eram algo... indescritível, essa era a palavra.

 Robin tomou partida e contentou-se em ser o então desbravador daquelas íris tão “indesbraváveis” e decidiu, portanto, tentar classificá-la de alguma forma: Algo perto do ébano, deveras obsidiano. Se não tivesse uma galáxia nebulosa, uma aurora-boreal em seus olhos, o jovem loiro poderia assegurar que, no mínimo, um céu-estrelado tinha. Eram olhos simplesmente intensos, que transmitiam uma energia desconhecida para quem se atrevesse a encará-los. Ao tomar esse risco, Robin pôde notar, também, haver um toque de frieza. Ele sabia, por ser quem era, que todos carregavam consigo suas friezas. Uns de mais, outros de menos. Entretanto se, por algum acaso, as íris da mulher que estava à sua frente fossem azuis-acinzentadas, ele poderia jurar ter visto os olhos de sua irmã, Harriet. Por um segundo, ao lembrar-se dela, sentiu seu corpo se arrepiar por completo e decidiu focar em coisas mais interessantes. Suas sobrancelhas eram um tanto arqueadas, indisciplinadas, também um pouco onduladas, padronizadas pelo cabelo, também ondulado, que era quase dividido ao meio, tendo uma textura meio encaracolada, enrolada. Rebelde, porém não cheio.

Suas pernas estavam cruzadas, usava roupas bem despojadas, um grande casaco marrom-caramelo que ia até sua cintura. Uma bota preta bem autêntica, meia-calça grossa preta, uma saia que ia até a metade de seus joelhos, vermelha, preta e branca quadriculada, e uma blusa preta pra frio. Seu corpo, deduziu Robin, era magro, porém curvilíneo, e suas mãos eram simplesmente delicadas. As características externas eram de fato estonteantes, mas... e as internas?

A mulher parou de encarar os quadros e decidiu olhar para frente, percebendo que um jovem loiro a mirava ininterruptamente. Ficou assustada, mas olhou de volta, percebendo que no mesmo instante que o encarou, ele virou o rosto, fingindo prestar atenção no que um homem dizia, sendo que Emma Swan já havia acabado de falar já havia algum tempo e ambos nem se deram conta disso. Robin, mesmo não acreditando muito em Deus, religiões e afins, rezou internamente para que ela não tivesse o visto olhando descaradamente para ela.

O jovem estava pasmo, pois as pessoas nunca encaravam quando sabiam que estavam sendo encaradas. A face dela, antes dele se virar, não foi de raiva ou objeção, tampouco de ofensa. Foi uma face simples, e suas pálpebras nem caíram tanto quanto Robin observou cair. O jovem loiro não podia dizer que estava apaixonado, já que não acreditava em amor à primeira vista, mas estava minimamente encantado. Contudo, ele mal sabia o nome dela. Não sabia como era a voz, o sorriso, ou o modo de andar...

Em poucos instantes, Robin pôde criar diversas vozes para ela, e todas tinham uma característica em comum: melancolicamente melodiosas. Como não sabia seu nome, pôde batizá-la em seus pensamentos de “garota dos olhos ébano-amendoados cuja voz  ele ansiava ouvir”. Era algo um pouco longo, mas poderia ser substituído facilmente, caso Archie a convidasse a falar, e mesmo que saísse somente um “Ah” de seus lábios meio cheios, Robin iria embora de lá feliz. Ele continuava fingindo que estava compreendendo e prestando atenção no que o homem, cujo nome nem havia se dado o trabalho de relembrar, falava. Percebeu, ao rolar seus olhos para o lado, que ela continuava o encarando, do mesmo modo que ele havia feito com ela instantes atrás. Algo estranhamente audacioso tomou conta de seu corpo e ele decidiu encará-la. Como de (in)esperado, ela se assustou bem levemente, arregalando as pálpebras caídas ligeiramente, empurrando seu corpo sutilmente para trás, como se o encontro de duas íris, com história e paixão o suficiente para duas ou três vidas, fosse algo digno de intensidade. Ele não sabia o que ela pensava e nem ela sabia o que ele pensava, mas algo que ambos podiam ter certeza era que uma conexão deliciosamente incomum se mostrava presente naquele momento em diante.

 

 

 


Notas Finais


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Twitter da fanfic: @_nepenthe


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