História Nirin de Roma - Capítulo 1


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Cicatriz, Cicatrizes, Distância, Ficção, Fragmentos, Lembrança, Memória, Nirin, Roma
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Palavras 1.319
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Fantasia, Misticismo, Shoujo (Romântico), Suspense

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olá, possível leitor ou leitora.

Dois informes: "Nirin de Roma" é uma estória que surgiu a partir de uma frase/ideia, e é segmentada em três turnos - sendo dois, semelhantes. Assim sendo, ela pode soar um pouco "diferentona" para leitores mais rijos e pouco abstratos, inflexíveis na interpretação ou reconhecimento de personificações. E mais: tal estória já foi publicada, por aqui e por outras vias, antes, mas, atualmente, após ter sido revisada, encontra-se disponível, por ora, apenas por aqui.

Desejo uma boa leitura, sonhadores.

Capítulo 1 - 1460 - 1


Um raio azulado, quase mecânico, rimbombou distante, despertando e atirando Nirin de volta ao concreto, à parte superior da plataforma de linhas férreas, clareando seu nuvioso par de olhos que não haviam se fechado – olhos solitários, que seguiram adiante como os passos cadenciados de cores descombinadas para fora dali.

O rapaz sentiu as primeiras gotas de chuva ao atravessar o arco da entrada, após os degraus, e, de forma inevitável, ao encontrar, imóvel, a marca em seu anular direito, ele a intensificou, quase se esquecendo de que a intenção inicial era desdobrar as mangas da camisa, evitar o frio; quase fisgando por inteira uma lembrança fantasmagórica ao tocar a cicatriz: uma lembrança que desde o começo lhe atingiria.

Roma.

Nascida intencionalmente no berço de antigos credos (latinos, ele suspeitava – nunca fora muito inteligente), a cicatriz moldada por um anel de fogo puro, presente em seu dedo anular, não o vinculava a nenhuma irmandade, ritual ou promessa, mas sim a uma mulher – mesmo que apenas dentro de sua consciência pessoal. Uma mulher que ele conheceu num fim de tarde banhada pelo alaranjado, de filetes vaporosos, abaixo do teto rústico de um coreto descolorido e atrás de um chafariz que salpicava de luzentes gotas. Os olhares, o dele e o dela, encontraram-se de forma tão natural que chegou a fugir do comum. Nirin não desviou para baixo ou lado, locais onde linhas desordenadas e brancas, avermelhadas e invisíveis, se intercalavam como pequenas e menores cicatrizes, machucados, na pele dela, que, por ordem de vez, fitou-o as cores em contrastes com as próprias, adotando certa reflexão, uma nubla, salientada curiosidade. Ninguém costumava abrigar-se, muito menos frequentar aquele espaço onde estavam e, estranheza, como jamais se evidenciara longe do próprio reflexo cristalino, foi o que fez com que ela ali permanecesse.

Levando uma das mãos à curva do braço oposto, ela abaixou a cabeça e conseguiu sorrir. Sorriu um riso ingênuo e carregado – como fogo intenso, fátuo, num mar de neve –, transportando os claros globos de Nirin às suas marcas. Nirin, que se alterou pela velocidade com que pensamentos corriam, atravessando seu imaginário, imóvel permaneceu. “Eu a conheço?”, “soa-me familiar” e “sempre está aqui?” foram os descartes não exaltados, como qualquer outro que pudesse gerar movimentos.

“Roma”, ele ouviu.

“Roma”, ele repetiu.

“Roma”, ela pareceu dizer e ele, sentir.

Fruto ascendente em sementes acumuladas. Essência vulgar do mediterrâneo oriental. Viagem ao passado, presente e esquecimento. Momento provocador. Restauração. Sentimento. Poder!

Na boca o gosto de sal.

“Não esperava encontra-lo aqui, mesmo que a contradição esteja em mim, não em ti” foi o que disse Roma. Seus braços voltaram à posição original de relaxamento e uma expressão dócil e aérea apoderou-se do rosto quando então já recostada sobre o pequeno muro estava seu corpo. “Nirin. Estou certa?”, e a dupla de amêndoas escurecidas que eram seus olhos filtravam as luzes verticais; já as direções determinadas eram exclusivas para Nirin, que, sabendo que deveria estar surpreso, e não estando, assentiu. “Sobre seu nome? Costumo observar a todos, saber um pouco mais de suas histórias, sentimentos...”, uma mecha escura e azul-avermelhada livrou-se da posição confortável atrás de sua orelha e cobriu-lhe, de forma não linear, um lado do rosto – mas somente quando o chão entrou em foco. “... mesmo que isso muitas vezes me fira.” Moveu os braços e os reiterou. As cicatrizes e marcas. Um olhar como caule. “Contudo, seu caso não é um dos piores. Tampouco um dos melhores. Em meu fardo, assinaria ‘efervescente’ logo abaixo, sabendo que, de forma ou outra, muito ainda há de distorcer, dissolver, contornar... e devo afirmar que compreendo, sim.”

Nirin, fugido de palavras, sentiu o impulso de deseja-la. Queria, por um momento, poder toma-la por inteira para si, mesmo que naquela realidade fosse ela uma estranha e requeresse justificativas superficiais; queria uma aproximação, tocar o rosto e mergulhar nas árvores que flanqueavam o nariz, sussurrar: “eu também a compreendo” sem palavras, sabendo que isso não seria uma mentira, embora não fosse uma verdade completa. Em seu paralelo, a pós-locução de letras já ditas seria seguida por uma interação contatual, explorada sob uma pouco verbal e selada com um ato simples, em demasia, natural.

E do paralelo, Nirin aterrissou direto naquele momento, realizando mais do que pretendia. Aproximou-se lentamente de Roma, em uma ação que poucos sentiam vontade ou necessidade de fazer, tomou-lhe os braços, sem observá-los e, assim, conquistou um olhar contínuo, obstinado e acolhedor – um filho do ódio e paixão.

“Quero que faça” decidiu, em primeiro tom, ele.

“Você não sabe quem é, ou o que está pedindo” contrapôs Roma, encolhendo os braços de volta para perto do corpo como se algo os tivesse repelido. “Desconhece meu verdadeiro nome e foge à realidade, infame e infantilmente cedendo ao toque e impossibilitado de ouvir pelo próprio egoísmo”, seu tom estava firme, diferente ao anterior. “Não deveria ter se aproximado tanto, bem como não deveria ter tocado minha pele...” e não precisou dizer mais.

Desde o momento em que se dera o toque, os braços de Roma estavam a emanar um calor que se elevava de forma sucessiva. Nirin conscientizou-se somente neste momento, o qual ambos, atônitos às suas formas, observavam um círculo negro ser formado no anular esquerdo dela, para depois ser resfriado por uma brisa instantânea e inexistente, como magia, e receber um tom pálido.

Roma não esboçou reações.

A cicatriz, apesar de parecer-se com as demais, exibia somente uma diferença: sua forma. Era antiga, larga em um círculo profundo e imperfeito. Roma já estava familiarizada a receber tais marcas, fossem elas singulares e em locais menos visíveis ou desalinhadas em pontos nus. Mas Nirin não, e tal pensamento não o convenceu a dispensar o vagar de que aquela mais nova cicatriz, sob algum aspecto, era especial.

Como numa repetição inalterável e inabalável, ele disse: “Eu quero que faça”, e precipitando dedutivamente o que poderia vir a sair da boca de Roma, continuou com “eu sou isto, aquilo que sou, e posso não saber sobre consequências, mas as almejo com inveja”. A última palavra causou certo estremecer em Roma. “Inveja. Não é? Estou certo de que você a conheceu de forma mais circular que eu...” e seu corpo aproximou-se mais ao de Roma, o tom de voz foi diminuído para um sopro: “Não quero saber seu verdadeiro nome, apenas quero que siga, desprezando minha infame infantilidade e lidando com o egoísmo que, com certeza, não me atingiu antes do que alcançara você, os outros. Definitivamente fiz bem ao tocar-te. Eu, Nirin...”.

A mão, que decolou à altura dos pescoços e que determinava o estreito espaço entre eles, ganhou atenção: no anular direito de Nirin nascia um círculo escuro, similar ao de Roma, de momentos atrás. Esta tomou a mão nas suas duas e ouviu: “você sabe quem sou eu, mas não sabe a quantidade de cicatrizes que carrego comigo”.

“Não está mais sozinha” continuou ele, soprando suave a calorosamente o local que ganhava o mesmo tom esbranquiçado que viram antes, “e nem estará”.

Roma sorriu, mas desta vez um riso real; um que não surgia há séculos. E compreendeu.

E Nirin, então, observava as gotas afundarem nas poças do solo da mesma forma como ele havia se afundado em Roma, tempos atrás. Ele não se importava, realmente, em se molhar, e sabia que por mais convincente que soasse seu fingimento ou por mais que se empenhasse em esquecer-se do tempo, algo o atingiria, causando-lhe a indiscrição que habita o espaço entre a saudade e o pesar.

Indiferente à água que um dia viria a afogar o mundo, Nirin realizou o movimento automatizado de conferir no pulso direito o relógio inexistente, no qual não havia ponteiros, números, texturas – não era preciso.

Para Nirin, apenas uma data importava...

“Mil quatrocentos e sessenta sóis e uma estação – está determinado, nem mais e nem menos. É a regra”.

... e esta data ele jamais conseguiria esquecer.

Era como uma cicatriz.


Notas Finais


Um novo olá para você, que chegou até aqui. Gostaria que soubesse que sou um cara que gosta de responder comentários, perguntas ou dúvidas das mais estranhas categorias, então... Caso tenha ficado curioso sobre algo acerca do que acabou de ler, escreva-me um comentário. Ficarei feliz em responder e explanar mais sobre os universos que criei e que, fragmentados, tornam-se palavras em fileiras.


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