História Nisa Benthon no KOF 97 - Capítulo 12


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Categorias The King of Fighters
Tags Kof, Lutadores, Nisa Kof, The King Of Fighters, Viagem No Tempo
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Terminada Não
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Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 12 - Alimentando o coração.


Fanfic / Fanfiction Nisa Benthon no KOF 97 - Capítulo 12 - Alimentando o coração.

Na tarde de domingo após toda a confusão criada na abertura do KOF eu resolvi fazer uma visita inesperada a alguém.

Preparei um almoço típico brasileiro com feijão, muito alho, arroz soltinho e vegetais com molho de pimenta leve. Um cardápio diferente para quem come comida japonesa....

Tomei um banho demorado, deixei os cabelos pretos  com mechas vermelhas soltos na altura dos ombros. Vesti um sobretudo de couro negro, uma calça da mesma cor, coturnos  e uma blusa vermelha de mangas longas e gola comprida.    Arrumei a comida fumegante em recipientes térmicos, coloquei em uma mochila e sai de moto rumo ao meu destino.

Parei em frente ao portão da casa  em que queria entrar e fiquei observando se existia algum movimento lá dentro.  Senti algo mexer em minhas pernas e logo em seguida vi o gato de Iori aos meus pés miando. Peguei-o no colo, empurrei o portão já aberto (e danificado) e caminhei até a varanda.

Naquele momento ouvi o barulho de um chuveiro ser ligado. A tensão foi deixando aos poucos meus músculos... pensei comigo:  o senhor “sem amigos” estava em casa no momento.

Olhei pela janelinha da sala.... a arrumação da casa parecia ainda conservada ainda.

Não deu tempo de dar um suspiro do lado de fora, quando ouvi:

- Isso é invasão de propriedade! – a voz rouca e forte de Iori ecoava  logo atrás de mim, próximo aos meus ouvidos, me fazendo estremecer de medo.

O gato que estava em meu colo  havia se assustado e pulado no chão, me arranhando o braço. Dei um salto  e senti que o  sangue de meu rosto sumiu com o susto.

Virei para o homem “delicado” que gritara comigo e também gritei:

- Isso não é jeito de receber visitas! – desta vez senti o sangue circulando em meu rosto e queimando as bochechas.

- Não pedi visitas, você está aqui de bisbilhoteira que  é! –  o ruivo com cara de poucos amigos cruzou os braços na altura do peito por onde algumas gotas de água escorriam, abrindo levemente as pernas e fazendo uma carranca.

- Você não estava ao banho?? – apontei para dentro da casa -  Como esta aqui fora?? - Eu estava com os olhos fixos nos olhos dele, mas por instantes, meu olhar escorregou mais para baixo, analisando o corpo que ele ostentava.

- Conhece um artefato que inventaram que se chama janela? – se moveu um pouco para frente em minha direção – Eu sei pular estas coisas para pegar bisbilhoteiros! – ao bravejar gotas de agua de seus cabelos respingaram em meu rosto.

Yagami estava apenas com uma toalha negra amarrada a cintura. Não contive o olhar sarcástico e falei novamente sorrindo:

- Como você pulou a janela do banheiro usando uma toalha? – apontei para a cintura dele.

Vi que  o rosto dele enrubescia aos poucos. Só não soube dizer se era de raiva ou vergonha.

- Não precisei dela  para pular! Ora bolas! – praguejou e arrumou o nó que se desfazia.

Em sua varanda, haviam pilastras que dividiam o quintal dele e  o quintal vizinho. Não havia muros.

Coloquei a cabeça para fora da varanda para observar a casa vizinha. Logo ao lado, na varanda parecida com a dele, haviam duas moças e uma senhora, com caras de estupefatas olhando para mim e encarando Iori com certo desprezo e vergonha.

Puxei-o pelo braço, coloquei a mão no alto da cabeça dele, guiando o seu rosto na direção em que eu olhava e mostrei a cara das pessoas  que nos encaravam:

- Você viu se elas estavam lá, quando pulou? – falei próxima a orelha dele, quase sussurrando.

Em câmera lenta, ele virou o rosto para mim, encostando o nariz em minha face. Começou a  me olhar com uma feição que poucos encarariam. Senti um empurrão que ele deu  com ambas as mãos seguras em meu ombro, me fazendo andar de costas até entrarmos totalmente na sala dele.

Comecei a rir. Aquilo fora inusitado.

Ele estava mudo, com a cara de poucos amigos. Caminhou até o banheiro batendo os pés no chão de madeira encerada.  Desligou o chuveiro e voltou - se para mim quase gritando:

- O que  você quer de mim? Fala logo! – sentou-se no chão como um cão acuado e raivoso. A toalha havia se deslocado um pouco do devido lugar. Lutei contra mim mesma para não olhar e não fazer mais piadas.

Tirei a mochila das costas,  coloquei os recipientes quentes  sobre a mesa, passando por ele sem olha-lo de frente. Segurava meu riso.

- Eu estava sem companhia para o almoço. – falei em tom ríspido - Achei que  você também estaria.–  apontei para o nariz dele e ordenei -  vai tomar seu banho e volta para almoçarmos. – apontei para o banheiro - É comida  brasileira. – sentei ao lado dele ao chão e sorri. - Você vai gostar.

Naquele momento ele desviou o olhar virando o rosto para o lado oposto onde eu estava, se levantou em silencio, quase derrubando a toalha que usava  e obedeceu minha ordem.

 Em alguns minutos ele estava vestido com uma camiseta preta sem estampas e sem mangas,  uma calça de moletom azul escura, descalço, com os cabelos molhados escorridos no rosto,  me olhando da porta do banheiro. Parecia um adolescente quando recebe uma bronca.

Num gesto rápido, ele retirou jogou a toalha que  usara mostrando mais um pedaço de carne branca bem desenhado de seu corpo de nuance e  arremessou pela sala, acertando um cesto de roupas que  ficava na divisão entre cozinha e área de serviço.

Bati palmas e sorri.

- Bom lutador e bom arremessador de toalhas. Pode tentar outra profissão além dos ringues.... – cruzei os braços e encostei-me no biombo que  separava a pequena sala de estar da minúscula cozinha.

Eu estava feliz com meu avanço. Ele não tinha me expulsado dali ainda!! Mas sabia que  não podia contar com mais hospitalidade que  aquela que estava recebendo.  Ouvi o chuveiro desligar, senti o vapor da agua quente inundar o ar.

Iori ainda estava parado no batente da porta, mexendo na franja e me olhando curioso:

- O cheiro é bom. – apontou com o rosto a comida posta na mesa. – O que  é?

- Arroz solto, feijão que fiz em minha casa e alguns legumes pré-cozidos que  eu achei em sua geladeira.

Como um gato assustado, desconfiado de minhas intenções, porém faminto, Yagami sentou a mesa e devorou a comida  com talheres convencionais. Jurava que  naquele momento eu via uma criança traumatizada e solitária na minha frente. Ele precisava de atenção, mas não sabia como receber.

Analisei cada movimento e cada olhar que ele, sem querer,  me depositava enquanto comíamos.

- Obrigado... – falou quase sussurrando, sem olhar para mim ao terminar a refeição. – Mas você não devia estar aqui. As pessoas falam.

Esperava isso dele. Então aproveitei a deixa para lhe falar:

- Iori, preciso de sua ajuda. Por isso estou aqui. – peguei as mãos dele que  estavam juntas acima do prato em que  comera. Vi as unhas grandes, bem lixadas, bem cuidadas, que  mais pareciam armas.

- Não sei em que  posso te ajudar. – enrugou a testa de leve ao ver que eu lhe tocara a pele - Você sabia que  aquilo que  vocês fizeram na abertura do campeonato foi vergonhoso? – desvencilhou a mão das minhas.

- Mas foi divertido, né? – sorri olhando em seus olhos. – você pelo menos não jogou a cadeira  na Mai e em mim!

Ali, dentro daquele homem que parecia inabalável,  haviam muitas coisas para serem arrancadas.

Eu tinha que  chegar com calma até essas coisas. E tocando em suas mãos, eu tinha um contato maior com seus pensamentos.

Li algumas memórias.

 Há um ano ele assassinou  duas mulheres no campeonato anterior.  As cenas ainda estavam frescas em sua memória.  Os pelos de meus braços se arrepiaram com o que  vi. Desviei o olhar dele.

-  Não gosto de pessoas próximas a mim. – se levantou da mesa, recobrando suas atitudes menos delicadas de antes.

- Iori, ninguém sabe o que  você fez não é? – olhei para as mãos dele e as apertei novamente.

- Não entendo o que  isso teria a ver com a ajuda que  você me pediu, menina. – os olhos dele voltaram a serem frios e distantes.

Levantei-me junto com ele e sorri.

- Então você me ajuda? Isso foi um sim não foi?

Ele esboçou um sorriso. E eu disparei a falar:

- Isso é um sim!  É UM SIM!! – pulei feliz pela sala e dançando dei uma volta nele.

Com um braço esticado, Iori bloqueou meus movimentos, me segurando pela cintura.

- Você tem certeza de que é normal? – pela primeira vez eu vi os dois olhos dele, pois foi necessário ele abaixar um pouco a cabeça e a inclinar para falar comigo.

- Não sou... – cocei a cabeça - Alias, quem, em situação normal, poderia fazer você sorrir e pular uma janela pelado em um mesmo dia?? – sorri alegremente com a receptividade que havia recebido.

Ele olhou para o teto, assoprou a franja e suspirou.

Minha tarde foi coroada com uma gargalhada sincera dele naquele momento. Um pedacinho de Iori Yagami me pertencia naquela hora. Vi um violão no canto da sala, próximo ao sofá. Estava conhecendo mais dele do que esperava.

- Conte o que  você quer de mim. – ele acompanhou meu olhar e se pôs na frente do instrumento, a fim de escondê-lo- Não estou disposto a perder muito tempo com essa conversa estranha com você.

Suspirei. O que  ele fazia era um imenso esforço para construir uma barreira entre ele e as outras pessoas. Quando via que um tijolo de resistência psicológica cedia, ele corria para refazer o muro todo.

- Iori, preciso que  me conte sobre essa sua rivalidade entre você e o Kyo – peguei seu braço e caminhamos e nos sentamos no chão da varanda da casa.

Preferi puxar o assunto que eu precisava tratar.  Senti que ele havia me depositado um olhar frio, o qual já havia experimentado antes, quando o vi pela primeira vez.

- Garanto que com qualquer um você consegue essas informações – e deitou-se no chão com as mãos juntas apoiando a cabeça.

Olhei intrigada para ele. Como conseguia fugir de si mesmo daquela forma??

- Posso ouvir ou ler a sua versão da história? - Fiquei olhando fixamente para os olhos dele

Estava sentada a seu lado e mexendo devagar em sua franja com a ponta dos dedos, enquanto ele me permitia esse luxo..

- Não falarei nada, pára de insistir. – virou o rosto de lado, se desvencilhando de minha mão.

Respirei fundo e contei até 10.

Inclinei-me na direção dele, retirei a franja da testa e a beijei por segundos, fazendo uma pequena prece silenciosa para seu coração.

Vi que ele havia fechado os olhos em consentimento ao que eu fazia. Ele sentia muita dor em sua alma. Eu sentia aquelas sensações da mesma forma  como sentia o ritmo do coração dele mudar.

Naqueles 3 segundos em que tive contato com sua pele, senti todo o sofrimento que ele passou ao longo da vida. Vi  a dor de não ter conhecido direito sua mãe, pois ela morrera para lhe dar a vida.  Vi  raiva de carregar uma maldição em seu sangue e de não poder controlar isso. Me assustei. Ele também se transformava em algo parecido com Chris. Ele carregava a mesma carga de energia demoníaca que o pequeno garoto.  Fechei meus olhos sentindo uma onda amarga de dor, de dó, de medo e sofrimento. Senti meu coração se tornando mais apertado ainda.

Mechas que escapavam de meus cabelos estavam jogadas em cima do rosto dele. Eram cores significativas..... Mesclavam o negro e o vermelho, sangue e dor.

Eu sentia o leve perfume do banho que ele havia tomado momentos antes. A respiração dele estava pesada, quase ofegante, pois seu peito arquejava conforme respirava. Eu o via como um animal preso em uma jaula, sem querer aceitar a comida que lhe davam para sobreviver. Ele lutava com todas suas forças contra toda sua natureza.

Afastei-me um pouco. Yagami ainda estava de olhos fechados. Comecei a observá-lo com mais atenção.

Senti meu coração acelerando  aos poucos, conforme o que eu observava nele.  Mordi meus lábios instintivamente em um momento de pensamentos perdidos.  Eram poucos segundos de observação  que me pareciam eternos.

Ele me parecia um garoto criado em um mundo cão, no qual ele se encouraçava nos próprios maus hábitos para se defender. Mordia para não ser mordido. Ofendia para não ter sentimentos bons e sofrer.

Yagami ressonava. Sorri ternamente para ele, contendo meus impulsos.

Levantei-me  devagar, sem fazer barulho. Fiz carinho no gato, que estava se aconchegando no peito de seu dono adormecido.

Deixei-o dormir e me retirei da varanda em direção a saída.

Passando pelo portão, voltei meu olhar para ele e observei seu corpo despojado ao chão. A camiseta que vestia estava levemente levantada e dava para ver seu umbigo.  Sacudi a cabeça como quem deseja espantar pensamentos mais profundos e caminhei pela rua.

Deixei a moto ali mesmo. No primeiro telefone publico que vi, liguei para a locadora e passei o endereço  para irem pega-la.

Eu precisava caminhar para espantar minhas idéias malucas.

As historias tristes daquelas pessoas estavam me ferindo a alma. E fazendo meu coração despertar para algo estranho, perigoso e fora de meu controle. 



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