História Nosso Amor - Capítulo 13


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Abandono, Coração, Depressão, Doença, Drama, Revelaçoes, Romance
Exibições 66
Palavras 4.673
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Olá, pessoinhas!
Eu sei, mais uma vez - para variar - eu demorei bastante.
Mas estou de volta!!!
Espero que gostem do capítulo, comentem suas opiniões, críticas e elogios (:

Capítulo 13 - Espere Por Mim


Fanfic / Fanfiction Nosso Amor - Capítulo 13 - Espere Por Mim

I watched it all in my head,

Perfect sense,

They'll take me from my bed,

Leave everything that is worth a single cent and just take me instead.

That TV show that I saw as I fell asleep,

Had me on both knees,

Praying to whatever is in heaven,

Please send me felon,

And don't let the police know...

 

Anything, anything,

Don't tell them anything,

Anything, please

- “Female Robbery”, The Neighbourhood(*)

 

JOANNA

 

Março de 2011

Deslizei, deitada num skate, até sair debaixo do carro.

Me levantei e deixei a ferramenta no armário mais próximo.

Levantei o portão da garagem com toda a minha força e consegui fazer com que meu corpo passasse para o lado de fora. Agora eu estava na fachada da minha casa e não queria subir de volta para o meu quarto.

Queria ver Miguel. Desesperadamente.

Olhei para o sobrado rústico a minha frente, suspirei, e atravessei a rua.

Na lateral da casa havia uma escada – que ficava bem próxima a janela de seu quarto.

Sorri e me preparei para a escalada.

 

No dia seguinte

Meus olhos ainda estavam fechados, mas eu sabia que estava nua e mal coberta por um tecido fino. Senti o calor da presença ao meu lado e sorri. Em poucos minutos, a mão dele foi escorregando pela minha cintura, até me envolver totalmente em um abraço.

Eu senti sua respiração em minha nuca, era reconfortante.

Quase me fazia esquecer o que eu havia feito na noite anterior.

 

 

Atualmente

Eu quase não percebi aonde estávamos.

Toda a paz que havia sentido na noite passada, naquele lugar verde, tinha se esvaído tão rápido quanto várias coisas da minha vida. Eu sentia a agitação, o desespero – tudo em câmera lenta. Vi Theo dando a volta no carro, com tanta rapidez e lentidão que eu acabei me desesperando também.

─ O que aconteceu com ela?! ─ Miguel gritava.

Eu estava tremendo, tudo balançava e só conseguia identificar o céu cinzento.

Estava sendo carregada.

─ Eu não sei! ─ Theo respondeu e me passou para os braços de Miguel ─ Estava tudo bem no carro e de repente começou a tremer e a olhar esquisito.

Meus olhos estavam entreabertos, a claridade me irritava, Miguel subia as escadas comigo em seu colo e Theo a frente. A porta do quarto foi aberta, eu fui colocada na cama.

Senti o edredom grosso com os dedos das mãos, agarrei-o e puxei por cima de mim, até o pescoço, estava com muito frio. Forcei meus olhos a se abrirem mais. Na cortina que cobria a sacada, uma silhueta alta e escura se formou.

Meu coração disparou.

─ Tem alguém ali ─ sussurrei.

Theo preparava meu banho, Miguel me deixava confortável e ignorava o que eu repetia.

─ Tem alguém ali ─ chorei.

─ Anna ─ sussurrou Miguel ─ Não tem ninguém ali, você só está queimando de febre.

Segurei sua mão e o puxei até que seu rosto estivesse a apenas alguns centímetros do meu.

Eu estava suando frio, o mal-estar era insuportável e tudo girava rápido demais.

─ Ali, na sacada ─ apontei, ele acompanhou meu olhar ─ Está vendo?

O encarei, esperando sua reação.

─ Não tem nada ali, querida ─ ele respondeu, olhando para mim novamente.

Resmunguei enquanto ele tirava as minhas roupas.

Meu corpo doía, sentia os meus músculos tensos pedindo socorro. Minha cabeça latejava e gritava para eu aplicar alguma substância nas veias ou beber um pouco.

Eu estava imersa, incapaz de nadar contra a corrente. Theo havia se lançado no mar para me salvar, Miguel era o salva vidas que massageava meu peito, tentando me reanimar.

─ Consegue andar? ─ Miguel perguntou.

Balancei a cabeça, negando.

─ Minhas pernas doem ─ respondi, ele me levantou e pegou-me no colo ─ Preciso de analgésicos.

─ Vou pegar, fique tranquila.

Ele me colocou na banheira com cuidado.

─ Theo vai dar um banho em você ─ Miguel sussurrou e retirou-se.

Por mais quente que a água da banheira estivesse, eu ainda estava morrendo de frio.

Theo estava sentado na pia, o rosto inchado de tanto chorar. Me odiei por ser o motivo de seu choro, eu deveria ser punida por isso. Deveria ser machucada por isso.

Ele se aproximou, pegou uma esponja e a esfregou num sabonete de açaí. Começou a ensaboar meus braços, seios e pescoço, mas nem olhava para mim.

─ Olhe para mim ─ pedi.

Ele negou com a cabeça.

─ Theo ─ chamei-o, alterando minha voz ─ Olhe para mim.

E ele olhou.

Seus olhos estavam marejados.

Pequenos lagos castanhos, de águas silenciosas e relutantes.

─ Me desculpe ─ sussurrei.

─ Você não fez nada, Anna ─ ele respondeu.

─ Sim, eu fiz.

Direcionei meu olhar para os dedos dos meus pés, empurrando a borda da banheira de cerâmica.

─ Só que sempre faço as coisas erradas ─ concluí.

Um silêncio horrível pairou sobre nós dois. Conseguia ouvir sua respiração pesada e as gotas d’água que pingavam da torneira. Eu queria poder dizer algo que deixasse o coração dele mais tranquilo, mas era péssima em tranquilizar as pessoas.

─ Só estou preocupado ─ ele disse, sorrindo para disfarçar sua preocupação, sem sucesso ─ Eu fiquei assustado, só isso.

Ele queria ser forte para mim, e o agradeci mentalmente por isso, precisava que alguém tivesse a força que eu e Miguel não tínhamos. Queria, de verdade, que ele se mantivesse assim, pois as coisas estavam ruins e prestes a piorar.

─ As coisas que vamos passar pelos próximos meses ─ disse ─ Vão nos marcar para sempre.

Não queria encará-lo agora, meu coração parecia se contrair com cada olhar de agonia que eu identificava em seu rosto.

─ Eu estou bem, Anna, de verdade ─ ele se agachou e aproximou-se de meu rosto ─ Concentre-se na sua recuperação agora.

Eu realmente queria me concentrar, mas era muito difícil com ele ao meu lado, não queria que conhecesse o meu lado mais violento e doloroso. Meu maior desejo era poupá-lo de tudo, mas sabíamos que isso não era possível.

Theo pegou minhas mãos e beijou os nós dos meus dedos.

Alguns minutos depois, ele me ajudou a sair da banheira, me secar e vestir um conjunto muito confortável de moletom. Ele se afundou na cama, debaixo dos cobertores, comigo. Estar nos braços dele era tão bom, que eu quase esqueci o que estava acontecendo a minha volta.

─ Eu sei que você achou a droga no armário ─ admiti.

Senti-o ficar tenso, quase desconfiado.

─ Como? ─ ele perguntou.

─ Miguel me contou ontem de manhã ─ dei de ombros ─ Brigamos feio.

Ele não disse nada, por alguns segundos.

─ Ainda sente dor? ─ perguntou.

Eu o esganei, em minha imaginação, por fazer minha concentração voltar-se para a dor intensa que sentia por todo o corpo.

─ Sim ─ respondi, fazendo uma careta.

─ Vou ver se Miguel conseguiu alguma coisa para você tomar.

Ele se desvencilhou de mim, delicadamente, e levantou-se da cama.

─ Theo ─ chamei-o, mas ele não se virou ─ Obrigada por levar aquelas coisas para ele. Você, provavelmente, me salvou de fazer uma besteira.

Theo não se virou em nenhum momento.

─ De nada ─ ele respondeu.

E se retirou do quarto.

Quis contar para ele que havia deixado o saquinho com as agulhas cair, que eu o havia encontrado na minha cama quando acordei na manhã anterior, mas não contei.

Por que não contei?

 

Fevereiro de 2011

Amarrei uma faixa azul celeste na cabeça, como uma tiara, para segurar minha franja e esconder a raiz – com a verdadeira cor do meu cabelo – que começava a aparecer. Descolorir o cabelo era um processo muito chato, mas meu pai insistiria. Só que eu não queria me preocupar com ele naquele dia.

Eu vestia um vestido de verão, com alcinhas finas e azuis. Azul era a minha cor favorita.

Saí do quarto e desci as escadas até a sala, queria sair e tomar um ar.

Meu pai não estava em casa – o que era muita sorte, já que minha mãe costumava ser boa comigo, quando estava de bom humor. Eu só tinha que dar um “bom dia” para a criança que eu havia gerado como se fosse apenas uma dedicada irmã mais velha.

Eu sabia que nossa relação familiar não era nada normal, mas minha mãe tinha ciúmes de mim. A culpa não era minha, mas ela se forçava a não acreditar nisso.

Não havia ninguém na sala, então, encaminhei-me a cozinha.

Luíza estava em sua cadeirinha, comendo cereais. Era impossível imaginar um dia em que não sentiria um amor especial por ela e seus olhinhos puxados. Ela era a garotinha mais especial do mundo inteiro, não por causa de sua deficiência, mas porque – por mais que todos se recusassem a admitir – ela era minha.

─ Mãe? ─ chamei.

─ Estou aqui ─ ouvi-a dizer.

Ela entrou rapidamente pela porta que dava para a lavanderia, ficando tensa ao me ver próxima a Luíza.

─ O que você quer, Joanna? ─ perguntou, se aproximando, olhando de mim para minha filha, e dela para mim novamente.

─ Não havia pedido para eu entregar a geleia para os vizinhos novos?

Eu tinha quase certeza que ela tinha ciúmes de mim por não poder mais ter filhos.

─ Ah, claro ─ ela respirou, aliviada ─ Está ali na bancada.

Ela apontou para uma cesta com três potes de vidro com geleias de cores diferente e pegou Luíza, aninhando-a em seu colo.

Minha mãe fora uma Princesa Aurora, num tempo distante, com seus cabelos dourados, encaracolados e longos, tivera os olhos verdes mais brilhantes que alguém jamais vira. Mas, agora, ela simplesmente prendia os cachos num coque mal feito e seus olhos apenas transmitiam cansaço e submissão.

Apesar disso, eu reconhecia que ela ficava mais atraente com uma criança nos braços. Mamãe tratava Luíza como sua filha, e me tratava como uma agregada que, por acaso, estava morando ali. De qualquer jeito, eu preferia as coisas daquele jeito. Eu não saberia o que fazer com uma criança.

Ela levou a bebê, em seus braços, para seu quarto. Eu caminhei até a bancada e peguei a cesta de madeira e fui para a porta da frente.

Uma nova família possuía o sobrado na frente do nosso e haviam acabado de chegar, três caminhões de mudança e um carro preto estavam estacionados. O movimento de pessoas entrando e saindo de dentro da casa era grande, mas percebi um garoto de pé, no meio da rua, analisando todo aquele trabalho.

Me aproximei dele, que não demorou a perceber minha presença.

─ Olá ─ ele disse, sorrindo.

Ele devia ser uns quatro anos mais velho que eu, muito alto, cabelo liso e louro, tinha os olhos da cor do céu no verão.

─ Oi ─ falei, sentindo minhas bochechas esquentarem.

Não fique vermelha.

─ Eu sou a vizinha da frente ─ sorri ─ Joanna. Mas pode me chamar de Anna.

Estendi minha mão e ele a apertou.

─ Miguel ─ ele se apresentou.

Nossas mãos ficaram ali, paradas, uma na outra.

Quando percebi o quanto aquilo era estranho, desfiz o aperto de mão e esfreguei a minha no vestido, percebendo o quanto ela estava suando. Não sabendo mais o que fazer, estendi a cesta com os vidros de geleia e ele a pegou.

─ Presente de boas-vindas ─ expliquei ─ São geleias de morango, amora e goiaba. Minha sempre faz.

Miguel soltou um leve riso e agradeceu.

─ Que bom que ainda não tomei café da manhã ─ ele brincou.

Sorri, nos despedimos e eu me virei, de volta para casa.

Eu não senti como se havíamos feito uma boa ação, um verdadeiro presente de boas-vindas.

Sentia como se a cesta de geleia fosse um disfarce.

Nosso disfarce era parecer uma família normal e unida, para que quando os vizinhos pensassem que algo estava estranho, lembrassem daquela cesta de geleias de quando se mudaram para cá, o champanhe do Ano Novo e o panetone trufado do Natal.

Era quase um ritual.

 

Atualmente

─ Anna.

Alguém estava me chamando.

Me forcei a abrir os olhos, porque meu corpo não estava querendo responder aos meus comandos.

Assim que senti os raios de luz perfurando minhas vistas, fechei os olhos novamente e gemi de dor. Quando percebi que estava acordada de verdade, senti meu estômago revirar e a dor muscular que sentia pelo corpo parecia ter sido causada por martelos de concreto.

Gemi mais alto.

─ Anna ─ era a voz de Miguel ─ Trouxe remédio.

Estendi as mãos e ele depositou uma pílula na minha mão esquerda e um copo de plástico na direita. Coloquei a pílula na língua e a engoli com um gole d’água, e mais um gole para descer melhor.

─ Você vai se sentir melhor ─ ele me assegurou.

─ Parece que tem um cara muito grande me martelando ─ retruquei com minha voz rouca.

Eu não podia vê-lo, mas sabia que ele estava com sulcos de preocupação na testa.

─ Eu odeio os primeiros dias ─ sussurrou.

Eu suspirei.

─ Eu odeio mais que você ─ disse ─ Pode acreditar.

Entreabri os olhos quando ele apagou as luzes e acendeu meu abajur, a luz era amarelada e fraca, era mais confortável e menos dolorosa para os meus olhos.

Miguel se sentou ao meu lado na cama e colocou as costas da mão em meu pescoço e testa.

─ Você está com febre ─ confirmou ─ Mas deveria estar agitada.

─ Como pode saber disso?

─ Você é viciada em cocaína.

─ Eu não usava cocaína.

─ Mas da última vez-

─ Está bem ─ interrompi ─ Só que já fazem dois anos, Miguel, as coisas mudam.

─ A irritabilidade está intacta.

Bufei.

─ Onde está Theo? ─ perguntei.

─ Ele foi dormir ─ deu de ombros ─ Precisava descansar, eu disse que tomaria conta de você.

Assenti.

─ Eu não acho isso uma boa ideia ─ Miguel soltou.

Estreitei os olhos e o encarei.

─ Eu concordo com a recuperação, Anna ─ explicou ─ Mas acho que você precisa fazer isso numa clínica especializada.

─ Eu não preciso de clínica ─ respondi, grosseira.

Não precisa ou não quer?

─ Que tal os dois?

Ele suspirou e sussurrou:

─ Teimosa, como sempre.

Miguel parecia tenso e, por mais que ele merecesse o peso da preocupação, me senti mal por ser a responsável. Aquele estava chegando perto de ser o pior dia de todos, nunca havia sentido tanta culpa em tão pouco tempo.

─ Você vai ter que ficar longe da escola por um tempo ─ continuou a conversa.

─ Por quê? ─ perguntei.

─ Porque não sou idiota ─ ele revirou os olhos ─ Quando você quer, arranja fornecedores em qualquer lugar.

─ Não vai acontecer dessa vez ─ assegurei-o.

Miguel não entendia que eu estava mesmo disposta a fazer aquilo.

─ Por causa dele ─ suspirou.

Não foi uma pergunto, mas acabei soltando:

─ Sim.

Eu olhei para as minhas mãos, porque sabia que Miguel me encarava agora, com aquele olhar tristonho que ele sempre mantinha quando eu falava de Theo um pouco mais que o necessário. Eu queria muito que aquilo parasse, que ele parasse de me amar, que me odiasse, qualquer coisa para que eu não visse mais seus olhos tristes.

─ De qualquer modo ─ eu disse ─ Esqueci meu material escolar na casa do Gabriel.

Miguel deu um soco no criado mudo ao lado dele, fazendo um barulho tão alto que pensei que ele houvesse quebrado os ossos dos dedos.

─ Eu sabia que acabaria indo para lá de novo! ─ gritou ─ Aquele garoto-

Você sabe como as coisas aconteceram ─ o interrompi ─ Você se lembra.

Ele ficou calado, fitando-me sem realmente focar-se em mim, algo mais além parecia estar chamando sua atenção. Uma lembrança, talvez, de tempos mais sombrios que o que estávamos vivendo.

─ Ele não causou isso sozinho ─ terminei, virando-me para o outro lado ─ Não estou em condições de conversar agora, Miguel, quero descansar.

Depois que ele desligou o abajur, saiu do quarto e fechou a porta, graças ao remédio que havia me dado, peguei no sono em alguns minutos. Sem dor, o que era uma novidade muito bem-vinda.

 

─ Acho que não entendi direito ─ minha voz saía falhada, por causa da força que fazia para tentar segurar as lágrimas.

Os policiais se entreolharam, ambos com pena de mim, e voltaram a me encarar.

Eu odiava que sentissem pena de mim.

De repente, ficar ali, de pé, encostada no batente da porta da minha casa se mostrava extremamente fatigante, mesmo tendo acabado de acordar da melhor noite de sono que tive em anos.

─ Seus pais e sua irmãzinha estavam num carro ─ o policial começou a explicar novamente, bem devagar ─ Aparentemente, o freio estava com algum defeito e seu pai dirigia em alta velocidade, o freio não funcionou quando deveria e acabou causando um acidente.

─ Minha... ─ era atordoante ter de ser cautelosa ao falar de minha filha quando ela havia acabado de sofrer um acidente ─ Minha irmã e minha mãe, elas estão bem?

Um dos policiais suspirou e voltou para o carro.

─ A bebê está internada ─ as expressões que eles faziam e tentavam esconder eram péssimas ─ Sinto muito, os médicos disseram que é quase impossível que ela sobreviva.

Uma fina lágrima escapou de meus olhos, eu queria desmoronar, me culpar e gritar.

─ Meus pais? ─ perguntei.

─ Sinto dizer que os dois faleceram na hora.

O mundo todo começou a girar em câmera lenta, vi o policial no carro, me encarando e temendo a minha reação, assim como o policial que permanecia em minha frente. Eu estava nauseada, mas apertei meu antebraço com as unhas até a pele ficar arroxeada e a sensação de estar quase desmaiando passar.

─ Quantos anos a senhorita tem? ─ o homem perguntou.

─ Tenho doze anos ─ respondi.

─ Você tem algum parente próximo? Alguém para quem possamos ligar?

─ Meu pai era filho único, seus pais faleceram há dois anos, minha mãe era órfã.

Minha mãe era órfã, e eu havia acabado de me tornar uma também.

 

─ Joanna!

Um par de mãos segurou meus pulsos acima de minha cabeça e uma pessoa se sentou em cima de minhas pernas que, segundos atrás, estavam agitadas.

Abri meus olhos.

Theo estava em cima de mim, perto demais, com os olhos arregalados.

A realidade me atingiu com a mesma violência de um impacto entre um ferro de construção e um crânio: eu havia sonhado com o dia em que perdera meus pais e minha filha, senti, novamente, o alívio de quando vi os policiais em minha casa e a dor esmagadora da perda.

Assim que as lembranças daquele dia me invadiram novamente, fiz o que me segurei para não fazer toda vez que o sentimento vinha à tona: desmoronei.

─ Eu matei ela ─ disse, inconformada, enquanto soluçava.

Theo ficou confuso, mas saiu de cima de mim.

Eu mal pude me mexer.

─ Meu bebê ─ sussurrei.

Virei-me para o lado contrário ao de Theo, abracei meus joelhos e fiquei em posição fetal, me torturando mentalmente, recordando-me de cada detalhe daquela noite e do quanto me arrependi na manhã seguinte.

Lembrei de quando respirei fundo, já esperando eles anunciarem a morte do meu pai. Mas não fazia parte do plano a casa estar vazia. E, logo em seguida, lembrei da sensação de vazio quando percebi que o acidente que causei fez mais vítimas que o planejado.

─ Você precisa sair desse quarto ─ ouvi meu Theo dizer, puxando-me o braço.

─ Eu preciso que você fique longe de mim agora ─ respondi, fechando os olhos.

Ouvi-o bufar.

Ele saiu da cama e se ajoelhou no lado onde eu estava.

─ Anna ─ ele disse ─ Não vai conseguir melhorar trancada num quarto.

Eu não olhei para ele.

─ Precisa tomar ar fresco ─ continuou ─ Se movimentar e ficar longe de problemas.

─ Eu não quero sair.

─ Mas vai.

Theo se levantou rapidamente e saiu pela porta gritando:

─ Miguel, nós vamos levar a Anna para andar de carro!

Em cinco minutos eu estava dentro do carro de Miguel, usando o mesmo conjunto de moletom, meias e com pantufas cor salmão. Theo tentou fazer um rabo-de-cavalo em mim que, provavelmente, não deve ter ficado muito bom, e Miguel começou a dirigir.

Os dias estavam ficando mais claros, com menos nuvens e um pouco mais quentes. Observei a brisa balançando as folhas dos ipês amarelos e eu estranhei a nostalgia que aquilo acendeu em mim. Notei que estávamos indo ao parque e apreciei a ideia, mas não estava totalmente recuperada.

Por alguma razão, eu quis desabafar ali dentro, não ligando para a promessa que havia feito a Miguel anos atrás.

─ Eu passei noites procurando como destruir um freio de carro ─ disse ─ Todas as noites, quando meu pai deixava meu quarto, eu pesquisava vários vídeos de tutoriais.

Olhei para o retrovisor interno do carro e encontrei os olhos de Miguel me encarando, quase perguntando se queria mesmo fazer aquilo.

Suspirei e continuei:

─ Numa noite, saí escondido pela janela do meu quarto e corri para a garagem. Eu havia pegado o skate do Miguel emprestado, mas ele não sabia de nada do que eu estava planejando. Eu sabia exatamente quais ferramentas usar e meu pai tinha todas que eu precisava.

Respirei fundo, nem precisava olhar para Theo para saber que ele estava tenso.

─ Eu odiava ele, meu pai ─ disse, omitindo a parte que foi naquela noite que eu e Miguel fizemos amor pela primeira vez ─ E eu não sentia remorso nenhum. Eu não fiquei surpresa em ver policiais na minha porta no dia seguinte...

Aquela parte era difícil demais de contar em voz alta.

─ Mas...? ─ Theo me incentivou.

─ Mas minha mãe e Luíza estavam no carro também ─ tencionei o maxilar, segurando as lágrimas o máximo que podia ─ Todos eles morreram.

─ Luíza...

─ Minha filha.

Não dissemos mais nenhuma palavra o resto do dia. Caminhamos pelo parque em silêncio enquanto eu pensava em tudo o que havia acontecido desde o momento em que conheci meu ex-marido.

Eu sentia que Theo estava ficando muito cansado de persistir na minha recuperação – não só física, mas psicológica também – e que Miguel não acreditava que eu conseguiria algum progresso. Eu mesma quase duvidava.

Mas não podia duvidar.

Se eu não acreditasse que dessa vez eu conseguiria, quem iria acreditar?

Theo não olhava para mim, não olhava desde que saímos do carro. Parecia estar pensando, tentando decidir uma coisa muito importante.

Não sei por quanto tempo andamos, mas as dores no corpo só pioraram. Por isso, andei até não aguentar mais e me sentei num banco de madeira, tingido de verde-musgo. Era impossível esconder o sofrimento agora, comecei a chorar, fazendo mais barulho do que eu queria.

Miguel sentou-se ao meu lado e disse:

─ Acho que já chega por hoje.

Eu não queria mais voltar para casa, mas, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, fui carregada de volta ao carro. Fiquei deitada no banco traseiro durante todo o trajeto, cochilei e acordei na minha cama de novo.

Bufei.

Voltei a dormir.

 

Março de 2011

─ Eu matei todos eles! ─ não conseguia evitar gritar daquele jeito, estava histérica demais.

Miguel mal parecia acreditar no que estava ouvindo e eu não o conhecia bem o suficiente para confiar tal segredo, mas foi a única pessoa que veio a minha cabeça quando disse a mim mesma que precisava da ajuda de alguém. As coisas estavam desabando em cima de mim, como se eu estivesse no primeiro andar de um prédio, no meio de um terremoto.

─ Luíza era sua filha? ─ perguntou, incrédulo ─ Isso é doentio!

Bufei, chorando um pouco mais e revirando os olhos.

─ De todas as coisas que te contei ─ neguei com a cabeça ─ Essa foi a única coisa que ouviu?

─ Claro que não ─ ele suspirou ─ De qualquer jeito, o idiota mereceu.

─ Ninguém pode ficar sabendo disso, está bem? Ninguém!

Fitei-o, não querendo discutir, mas zangada por ele ter feito um comentário tão inapropriado. Esperei que ele confirmasse que faria como eu pedia.

─ Ninguém saberá ─ respondeu ─ Prometa que nunca mais falaremos sobre o acidente.

Eu assenti.

─ Eu sinto muito, Anna ─ ele disse, realmente comovido ─ Você não devia ter feito isso.

─ Eu sei.

─ Mas já que fez ─ continuou ─ Aceitou os riscos, terá que lidar com isso. Ele merecendo ou não, foi assassinato, e acabou envolvendo pessoas inocentes.

Eu tive raiva por ele estar apenas repetindo coisas que eu já sabia, e pelas quais eu já estava me torturando. Queria que ele me consolasse, mas não adiantaria e, de qualquer maneira, eu merecia estar passando por aquilo.

─ Eu não sei se consigo fazer isso ─ admiti, esfregando as costas da mão em minha bochecha, para afastar as lágrimas ─ Eu amava aquela garota com todas as minhas forças.

Não sabia exatamente como reagir àquela situação.

Eu via na televisão, quase todos os dias, mães perdendo os filhos e saindo carregadas dos funerais, dizendo que a vida delas havia acabado e que nunca mais seriam as mesmas, algumas chegavam a cometer suicídio. Para todos os efeitos, eu era praticamente uma criança ainda – por mais que lutasse para não admitir – e, desde seu nascimento, Luíza fora afastada de mim.

Eu não a segurei nos braços quando ela saiu de dentro de mim, nunca me deixaram amamenta-la ou cantar canções de ninar da minha infância para fazê-la dormir, e meu pai sempre estava ocupado demais comigo quando ela acordava a noite, chorando, chamando por mim, pela mãe dela.

─ Qual é o próximo passo? ─ Miguel perguntou.

─ Eles vêm me buscar em algumas horas ─ respondi ─ Disse que queria me despedir de você.

Os olhos dele perderam o brilho de repente.

─ Para onde vão leva-la? ─ ele se levantou.

─ Eu não sei.

Ele assentiu, se virou e caminhou alguns passos até a janela. Colocou as duas mãos atrás da cabeça, parecia estar pensando seriamente em algo.

─ Não se preocupe ─ ele murmurou, voltando-se para mim ─ Eu vou fazer alguma coisa.

─ O quê? ─ perguntei, tremendo de ansiedade.

─ Eu ainda não sei ─ admitiu ─ Mas você não vai ficar em nenhum orfanato, eu prometo. Seu lugar é ao meu lado, e ninguém vai desfazer isso.

Respirei fundo e sorri, correndo e me jogando em seus braços. Ele me abraçou com tanta força, que estava quase sufocando.

Aquilo era amor.

Eu estava sufocando de amor.

E eu esperava que aquilo fosse algo bom.

 

Quando os policiais vieram me buscar para me levar para algum abrigo de menores, Miguel me ajudou com as malas, colocou-as no porta-malas da viatura, comigo ao seu lado. Estava tão nervosa com o fato de que não iria mais vê-lo, que estar ao seu lado me ajudava a não enlouquecer de vez.

Ele fechou o porta-malas quando acomodou a última mala, segurou minha a mão e me conduziu até a porta do banco de trás. Beijou os nós dos meus dedos, e jurei ver uma lágrima fina e transparente descendo pelo canto de seu olho esquerdo.

─ Espere por mim ─ pediu.

Eu apenas assenti, porque não queria que minha voz me traísse.

─ Nós vamos nos ver de novo ─ ele prometeu ─ Não vou te abandonar.

Enquanto o policial ligava o carro e dirigia para longe da minha casa, eu observava – virando a cabeça para atrás, encarando o vidro traseiro – Miguel voltando para sua casa, não desgrudando os olhos do automóvel que me levava embora.

Depois que percebi que estávamos em território desconhecido – um lugar que eu não me lembrava de ter conhecido – encostei minha cabeça no vidro do carro e me concentrei em sua voz me pedindo para esperá-lo.

Sempre vou esperar por você.

.


Notas Finais


(*)Eu assisti tudo na minha cabeça
Num sentido perfeito,
Eles vão me levar da minha cama
E ao contrário de levar tudo o que vale algum centavo, eles vão só me levar.
Esse programa que eu assisti enquanto adormecia
Me fez cair de joelhos
Rezando para qualquer coisa que tenha a ver com Deus
Para me mandar um anjo da guarda
E não deixar a polícia saber...

De nada, de nada
Não conte nada para eles,
De nada, por favor


Para ouvir a música do capítulo: https://play.spotify.com/user/12145158710/playlist/5U55XR8XphB23As9Ekjn1I

Se não tiver conta no Spotify: https://www.youtube.com/watch?v=jwK7-u_0VWk&list=PLopf-mlaohws6-hPFujYcoRBOZNo20Onw&index=15

Trilha sonora do capítulo (que eu imagino que seria se fosse uma série haha): https://play.spotify.com/user/12145158710/playlist/6hFDO8w2nhdTCdrJbYeB35


Espero que tenham gostado, de coração.
Deixem seus comentários!
Beijo e até o próximo capítulo!!!


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