História Nosso Amor - Capítulo 19


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amizade, Amor, Depressão, Drama, Musica, Mutilação, Romance, Violencia
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Palavras 12.852
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Festa, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


BOA NOITE!!!
Gente, fiquei empacadíssima nesse capítulo, então, me perdoem se não gostarem muito. Eu não sou boa em escrever nada nas férias, quando não estou fazendo nada de produtivo.
Mesmo assim, espero que gostem!!!

Capítulo 19 - Feliz Natal


Fanfic / Fanfiction Nosso Amor - Capítulo 19 - Feliz Natal

THEO

Uma vez tive um amor e era um "estouro"

Logo ficou evidente, eu tinha um coração de vidro

Pareceu o mais verdadeiro, só para descobrir

Por muita desconfiança, o amor ficou lá para trás

 

Uma vez tive um amor e era divino

Logo descobri que estava perdendo minha cabeça

Pareceu o mais verdadeiro, mas eu estava tão cega

Por muita desconfiança, o amor ficou lá para trás

- “Heart Of Glass”, Blondie

Dezembro de 2015

Acordei um pouco mais ansioso e animado naquela manhã. Esperneei, tirando o fino cobertor de cima de mim e me sentei na cama, com os pés no chão fresco. Os dias estavam ficando mais quentes, o calor não diminuía nem se eu aumentasse a velocidade do ventilador no máximo, mas a mania de dormir coberto era algo que eu não perderia tão cedo.

Me espreguicei e levantei-me, me aproximei da escrivaninha e liguei o notebook em cima dela. Bocejei e fui até o banheiro, escovei os dentes e lavei o rosto. Fiquei olhando o meu reflexo amassado e bagunçado no espelho e decidi tomar banho. Quando estava devidamente desperto, limpo e vestindo uma bermuda limpa, me sentei em frente ao notebook e entrei no site da Universidade que eu prestara vestibular.

Fiz o login e entrei na página que continha a lista dos aprovados em Medicina.

Comecei a procurar por meu nome, mas sabia que estaria em uma das últimas páginas, já que a lista era em ordem alfabética. Quando li o nome Theodoro MacKay Albuquerque, prendi a respiração. E quando li aprovado na frente do meu nome, eu gritei. Muito alto.

─ THEODORO! ─ minha mãe gritou.

Ouvi um barulho alto vindo da escada e, alguns segundos depois, minha porta se abrindo rapidamente e batendo na parede, fazendo um barulho mais alto ainda. Minha mãe apareceu, com o cabelo ruivo todo emaranhado e os olhos verdes arregalados.

─ Por que está gritando assim?! ─ ela me deu bronca ─ Você vai acordar sua irmã!

─ Mãe, eu passei! ─ respondi.

─ O QUE?! ─ ela berrou.

─ Mãe, você com certeza acordou a Mel com esse grito ─ ri.

─ MEU FILHO VAI SER MÉDICO!

─ Não precisa gritar, m-

Fui interrompido pelo abraço dela. Minha mãe me apertou muito, quase impedindo a minha respiração. Mas logo se recompôs pedindo desculpas e explicando que não sabia se segurar de tanta empolgação. Dexter havia ouvido os gritos e veio me parabenizar também – recebi outro abraço de urso.

Minha mãe ligou para a família inteira – do meu pai, já que ela fora filha única e meus avós já haviam falecido – e contou a notícia. Todos insistiram que queriam me parabenizar pessoalmente, então mamãe teve a ideia de dar um jantar.

─ Você acha isso necessário mesmo, mãe? ─ revirei os olhos.

Ela me fitou como se eu tivesse algum problema mental.

─ É claro que é! ─ ela respondeu, colocando as mãos na cintura ─ Não é todo dia que podemos exibir para o mundo que dois dos meus filhos estão estudando nas melhores faculdades! E é para mostrar para aquela velha chata... quer dizer, sua avó que eu criei vocês direitinho, ela sempre me mandava indiretas e-

Parei de prestar atenção porque sabia que mamãe começaria a contar uma história que eu já ouvira milhares de vezes – meu pai era o único filho homem da família dos meus avós, então vovó morria de ciúmes dele e sempre dizia que minha mãe não seria boa o bastante no papel de mãe.

Eu estava animado com o novo rumo que minha vida tomava, mas com raiva de mim mesmo por ainda pensar tanto em Joanna e em como ela reagiria se ainda estivéssemos juntos. Sabia que ela não ficaria feliz por saber que raramente nos veríamos a partir do momento que eu começasse o ano letivo numa Universidade em outro estado. Afinal, foi justamente por causa de tudo o que aconteceu que escolhi um lugar distante.

Os seis anos seguintes seriam bem longe do peso das lembranças daqui. Felizmente, meus pais sabiam disso e me apoiavam, Mel ficava triste com a ideia, mas ainda era nova demais para entender, e Dex também estava prestes a se mudar... de país. Ele havia conseguido uma bolsa de um ano na Inglaterra e estava mais do que feliz – todos nós estávamos.

─ As coisas vão mudar bastante ─ ele disse, quando foi ficar um pouco comigo no meu quarto, enquanto mamãe fora no mercado comprar tudo o que ela precisaria para o jantar de hoje ─ Principalmente para a mamãe. Ela provavelmente vai nos ligar todos os dias para dizer que está se sentindo sozinha.

Expirei, rindo, mas um pouco triste.

Analisei um pouco tudo aquilo e notei como as coisas podiam mudar num piscar de olhos, sem você ao menos perceber que – mesmo que lentamente – tudo está constantemente mudando. Alguns meses atrás, eu estava feliz, com uma namorada que eu amava e com um milhão de planos para nós na minha cabeça. De repente, descobri que tudo era uma fachada tão absurda que, nem em meus piores pesadelos, eu poderia ter imaginado.

Agora ela estava presa, numa clínica, sofrendo tanto quanto eu e sozinha. E eu estava aqui, tomando um rumo que jamais esperei ter que tomar, me preparando para ir embora por anos, tudo para conseguir esquecê-la. E, mesmo assim, sem conseguir esquecê-la nem por um segundo. Anna estava em tudo o que eu fazia.

─ Tudo está tão estranho ─ eu disse a Dex.

─ O que quer dizer? ─ ele se deitou na minha cama e me encarou.

─ Sei lá ─ me joguei ao seu lado, colocando minhas mãos atrás da cabeça ─ Tudo parece estar indo para uma direção que não era para estar tomando.

─ Está falando da faculdade?

─ Mais ou menos.

Ele parou ´por um segundo, semicerrando as sobrancelhas e pensando. Parecia estar preocupado comigo de novo, e eu odiava quando isso acontecia.

─ Theo ─ ele disse ─ Você está indo para uma das melhores Universidades do país, por que está dizendo esse tipo de coisa?

Suspirei.

Ele não entenderia, mesmo se eu explicasse mil vezes enquanto desenho.

─ Não é nada, Dex, não se preocupe ─ respondi.

─ Você ainda não conseguiu esquecer a garota.

Aquilo não foi uma pergunta, e eu queria que tivesse sido.

─ Ela te pegou mesmo, hein?

─ É complicado ─ dei de ombros, fechando os olhos.

─ Você não sabe onde ela está?

Eu não havia dito uma palavra a ninguém sobre o que havia feito eu e Anna terminarmos. Ninguém sabia do clube, da dança ou das drogas, também nem queria que desconfiassem. A única coisa que contei a eles era que tudo estava acabado e que ela fora embora, quando me perguntaram o que tinha acontecido – detalhadamente – me recusei a contá-los. E não havia feito isso para “não passar vergonha”, fiz isso para proteger a reputação de Anna dentro da minha casa e manter a memória dela como uma garota simples que apenas tinha muitos problemas com que lidar.

─ Sei ─ respondi.

─ E por que não vai atrás dela? ─ meu irmão me olhava incrédulo.

─ Porque ela não quer me ver.

Acho que ele percebeu meu descontentamento com o assunto, porque acabou se calando depois da resposta que eu o dei. Conversamos sobre mais dois ou três assuntos, mas acabei do mesmo jeito de sempre: deitado na cama e sozinho.

Quando mamãe chegou, fez com que todos nós ajudássemos ela a preparar as receitas para o jantar, enquanto Mel se sentava na mesa e ficava assistindo, com um semblante frustrado adorável no rosto. Ela estava chateada com mamãe por não ter a chamado para ajudar, só por ser nova demais.

─ Theo ─ ela pulou da mesa e correu até mim, puxando a barra da minha camiseta ─ Deixa eu ajudar você?

Eu sorri para ela e olhei para mamãe, que estava prestes a censurá-la e, provavelmente, mandá-la ir brincar.

─ Pode me ajudar com o mousse de limão ─ eu sugeri ─ Vou fazê-lo agora, o que acha?

Mel ficou saltitante e até bateu uma mãozinha na outra, rindo. Dexter deu um sorriso e mamãe assentiu para mim, agradecendo-me por ter encontrado algo que ela poderia fazer. Eu peguei minha irmã mais nova no colo e a sentei na mesa, ela me passava os ingredientes, enquanto eu misturava-os e depois pegava uma colher para que ela experimentasse e me dissesse se aprovava o sabor.

Mamãe assou um frango enorme, com batatas, enquanto Dexter fazia os acompanhamentos e eu me dedicava aos doces, junto de Améllie. Naquele momento, eu olhei ao meu redor e percebi como sentiria saudade daquilo.

À noite tudo foi tão repetitivo que eu agia quase que automaticamente – atender a porta, retribuir o abraço do parente que aparecesse em minha frente e dizer “obrigado”. Conversei com algumas pessoas, ouvimos meu pai dizer que estava muito orgulhoso de mim e comemos. Não que eu não apreciasse o carinho de todos, mas é que, de repente, meu corpo parecia pesar toneladas e estava muito difícil me mantar paciente.

Eu só pensava em me sentar no balanço lá fora e ficar lá pelo resto da noite.

Quando tudo acabou, eu estava exausto. Disse a minha mãe que podia deixar a limpeza comigo e com Dexter – levei um soco dele por isso – porque ela parecia bem mais cansada do que todos nós. Só depois que as louças estavam limpas e a casa mais organizada, consegui fugir para o gramado da frente.

Eu me sentei no balanço e fiquei parado, olhando para minha frente. A rua estava vazia, a única coisa que se podia ouvir era o canto dos grilos. Fazia tanto tempo que eu nem me dava ao trabalho de observar aquela rua, que tudo parecia ser novo para mim agora. Mas, mesmo que eu estivesse tendo a sensação de que nada daquele lugar me era familiar, quando olhei ao meu redor, o duplex de Anna foi a única coisa que despertou uma familiaridade no meu coração.

Balancei a cabeça e fechei meus olhos.

Não.

Voltei correndo para dentro de casa, tranquei as portas e fechei as janelas, subi para o meu quarto, tirei minhas roupas e as joguei no chão. Vesti a primeira bermuda confortável que achei e me joguei na cama, mas não consegui dormir tão facilmente como esperava. Durante a breve olhada a antiga casa de Joanna, uma esperança gigantesca de vê-la em sua sacada despertou-se em mim. Mas essa sensação se fora tão rápido quanto havia surgido.

Mesmo assim, por menor que tenha sido aquele sentimento, fora suficiente para trazer todas as memórias que eu tinha sobre ela. Me lembrei de seu cabelo castanho sendo bagunçado pelo vento – na primeira vez que a vi – e de seu cabelo vermelho de alguns meses depois, aquela cor a representava tão bem – mais do que eu desejava. Mas a lembrança de seu cabelo azul, maltratado, trazia também a lembrança de sua aparência doente, sua tristeza e todas as coisas que haviam contribuído para que nós dois não existíssemos mais.

Adormeci com o desespero embalando meu corpo.

Desespero porque, até o final daquele ano, eu nunca mais teria a oportunidade de ver Joanna.

 

No dia seguinte

Pedro me convidou para ir ao parque. Eu odiei a ideia, porque aquele lugar havia sido um dos últimos em que eu estivera com Anna, alguns dias antes dela ir embora. Mesmo assim, acabei indo, já que não seria justo eu negar um último pedido do meu melhor amigo, sendo que eu estava prestes a ir embora.

─ Tinha mesmo que ser o parque? ─ perguntei quando nos sentamos na grama, debaixo de uma árvore.

Ele serviu água gelada num copo com ervas e me entregou.

─ Achei que gostasse de dias ensolarados, sentindo a natureza ─ Pedro respondeu, forçando uma voz mais grossa, tirando sarro de mim por ter dito aquela frase uma vez ─ Você ainda gostava de vir aqui da última vez que chequei.

Revirei os olhos e suguei um pouco do tereré.

─ Muitas coisas mudaram ─ murmurei.

Ele assentiu, como se tivesse acabado de desvendar um enigma.

─ Então esse lugar também deveria ter uma plaquinha de “Cuidado: Joanna pisou aqui”? ─ perguntou.

Eu realmente odiava quando as pessoas faziam aquilo. Elas diminuíam meus sentimentos, como se toda a situação fosse engraçada e simples, como se eu estivesse exagerando e fazendo eu mesmo me sentir mal, quando não era nada disso. E estavam todos agindo assim. Minha família dizia para que eu fosse atrás dela ou a esquecesse de vez, como se fosse uma coisa bem fácil. E Pedro fazia piadas, sempre tocando no nome da Anna, só por eu não querer estar num lugar que me lembrava dela.

É claro que eles não sabiam o que havia acontecido de verdade e que era uma coisa muito séria. Mas, só por verem minha reação, deveriam pedir desculpas e pararem de agir daquele jeito.

Eu não o respondi, continuei tomando o tereré.

─ Não pode ouvir o nome dela também? ─ Pedro insistiu.

E aquilo me estressou de verdade.

─ Você me chamou para vir nessa droga de lugar e ficar falando dela? ─ foi o que respondi ─ Sempre que nos encontramos, você sempre toca no nome dela. Por quê?

─ Eu só estou tentando te entender ─ ele balançou a cabeça de um lado por outro ─ O que aquela garota fez para deixar você assim? Eu entendo que você gostava dela de verdade e descobriu algo que não queria, eu estava lá, Theo. Mas você fez o que achou certo e já fazem meses desde que ela foi embora. Por que não consegue nem estar no mesmo lugar que ela já esteve?

Ninguém havia me perguntado aquilo diretamente. E aquela era a pergunta mais difícil de responder, porque envolvia todo um sentimento que eu mal acreditava que coubera em mim um dia. Por mais que hoje só tivesse me restado poucos sentimentos e, alguns deles, não muito agradáveis, ter Anna por perto me deu a oportunidade de experimentar coisas que eu jamais sonharia em experimentar. Inclusive, ela era a única garota que eu já havia amado, e o amor que eu sentia por ela me assustava, porque era grande demais e, às vezes, me sufocava.

─ Ela era a mulher da minha vida, Pedro ─ eu respondi, tentando pensar num modo simples de explicar o que era estar no meu lugar agora ─ Eu me vi vivendo tudo com ela e acreditei mesmo que nunca a perderia. Me vi construindo uma família com ela e eu jamais senti isso por outra pessoa.

Pedro percebeu. Qualquer um poderia ter dito as mesmas palavras que eu, mas não com o mesmo sentimento. E, por isso, ele percebeu o que eu estava sofrendo durante todos aqueles meses e como isso era horrível.

─ Você tem certeza de que ir embora vai melhorar as coisas? ─ ele perguntou, com o tom de voz baixo.

Eu sabia que não era tão difícil perceber o motivo de eu ter escolhido uma Universidade tão distante de casa, mas a pergunta dele me surpreendeu, porque todas as outras pessoas que sabiam apenas compreenderam e aceitaram minha decisão, mesmo sabendo a razão real do que eu estava fazendo. Pedro foi a primeira pessoa a me confrontar daquele jeito.

─ Eu preciso ir ─ respondi ─ Não aguento mais viver cercado pela lembrança de algo que não terei de novo.

Pedro mudou de assunto depois da minha resposta, agradeci mentalmente por isso. Mas, mesmo assim, o dia não foi o mesmo que deveria ter sido. O clima ficou tenso pelo resto da tarde e eu não consegui me concentrar na conversa por muito tempo.

Queria ir para casa.

 

24 de dezembro de 2015

Era véspera de Natal, e a única coisa que passava pela minha cabeça é que eu me mudaria de estado em dois dias. O clima em casa era triste e desanimador, todos nós queríamos ficar felizes por ser uma data importante, por meu pai ter conseguido tirar o dia de folga e pela nova etapa que se iniciava nas nossas vidas, mas parecia ser impossível, por mais que tentássemos – e tentamos muito.

Passamos o dia inteiro juntos, tentando ficar mais unidos quanto possível. Tomamos café da manhã juntos, fizemos almoço e almoçamos juntos, fomos ao shopping e assistimos um filme infantil juntos, preparamos a ceia de Natal juntos, limpamos a casa, ajudamos o outro a se arrumar e, em algumas horas, estávamos todos dentro do carro, a caminho da casa dos meus avós – onde aconteceria, de fato, o jantar de Natal.

Durante todo aquele dia, tentamos adiar o máximo possível que o entardecer chegasse, todos nós queríamos adiar essa parte da noite, onde teríamos que aceitar que o dia havia acabado e, sendo assim, o tempo que eu e Dexter ficaríamos ali também tinha diminuído. Nossa família sustentava sorrisos tristes em seus rostos e eu até me senti mal por estar, praticamente, estragando um dia tão especial.

─ Você está bem? ─ Dex perguntou.

Por mais que eu tentasse esconder meu desânimo com aquela situação, Dexter era meu irmão mais velho, e a segunda pessoa que mais me conhecia bem no mundo – ele perdia só para minha mãe, que também estava me observando.

Eu apenas assenti, e acabei sendo óbvio demais.

─ Ah, Theo ─ ele colocou a mão em meu ombro ─ Eu sei que é horrível a sensação, mas você vai se acostumar com tudo isso. Eu prometo.

Forcei um sorriso e respondi:

─ Eu sei que vou, Dex.

Nós jantamos, conversamos, parecia até uma festa de despedida. Eu sentia um vazio que não conseguia explicar, parecia que alguma coisa que fazia parte de mim havia se perdido e que, a cada minuto, meu corpo sentia a dor enquanto isso se afastava ainda mais de mim. De repente, eu quis desistir de tudo – da mudança, da faculdade, tudo – e correr até o duplex vizinho da minha casa, subir e entrar no primeiro quarto, deitar-me na cama abandonada e dormir. Eu acordaria somente quando Anna deitasse ao meu lado.

Mas, assim que terminei esse pensamento, eu me achei a pessoa mais patética do mundo.

A sobremesa foi servida, e todos pareciam ainda mais nervosos com isso, mamãe estava quase tremendo e seus olhos brilhavam de tanto ela segurar lágrimas que não queria que as outras pessoas vissem. Eu já estava contando as horas para ir para casa e tentar esquecer o que estava acontecendo quando caísse no sono.

Quando o relógio marcou meia noite, ficou um pouco pior. Todos começaram a chorar – minha mãe um pouco mais que o resto – e, quando vieram nos abraçar, Dexter e eu não aguentamos muito, nós começamos a chorar também. A situação do Dex era bem pior que a minha e, mesmo assim, eu já achava que tudo seria o fim do mundo. Ele ficaria sem ver a família por um ano inteiro, sem ajuda e, ainda por cima, manteria pouco contato conosco. Eu estaria em outro estado, mas ainda teria a família por perto. Então, tentei pensar pelo lado positivo.

─ Eu amo você, querido ─ mamãe sussurrou, enquanto me abraçava ─ Feliz Natal.

Apenas a abracei um pouco mais apertando, afundei meu rosto no pescoço dela e chorei. Ela fazia carinho nos meus cabelos e não lutou contra o meu abraço nem uma vez, ela ficou ali até que eu me acalmasse e a soltasse, e depois sorriu para mim e me deu um beijo na bochecha.

─ Feliz Natal, mãe ─ eu disse.

Estávamos muito cansados, então fomos os primeiros a irem embora. Améllie dormia em meus braços, já que sempre fora uma criança que costumava dormir muito cedo. Dexter apoiava o queixo em uma das mãos e olhava pela janela, estava quieto; mamãe fungava um pouco e respirava fundo repetidas vezes, meu pai não falava nada.

Assim que o carro entrou na garagem, eu abri a porta e apertei Mel um pouco mais, a carregando até seu quarto. Eu a deitei na cama, coloquei seu coelho caramelo de pelúcia no travesseiro dela, ao lado de seu rosto e puxei uma coberta fina sobre seu corpo. Dei um beijo em sua testa, apaguei a luz, saí e fechei a porta, indo para meu quarto.

Quando eu entrei, Dexter estava sentando na minha cama, olhando para o chão. Ele percebeu minha presença e olhou para mim, sorriu por dois segundos e depois voltou ao semblante pensativo.

─ O que foi, Dex? ─ perguntei.

Rapidamente, ele se levantou, correu até mim e me abraçou.

─ Feliz Natal ─ ele disse, sem me soltar.

Fiquei atordoado por um momento. Dexter sempre fora um bom irmão, mas depois que ele começou a faculdade, nos afastamos muito e passamos a conversar só de vez em quando, mas eu ainda lembrava de como ele havia sido um irmão mais velho muito carinhoso quando éramos mais novos. Fechei os olhos e retribuí seu abraço.

─ Feliz Natal, Dexter ─ sussurrei.

Depois que tomei banho, escovei os dentes, tirei uma bermuda limpa da minha mala e a vesti, andei em meio a todas aquelas caixas de mudança e deitei-me no colchão no chão. Todos os meus objetos mais importantes já estavam a caminho do meu novo apartamento, então, meu conforto nos últimos dias era pouco.

Respirei fundo e tentei conter a profunda tristeza que eu sentia, era tão difícil dar as costas a tudo isso e simplesmente ir em frente. Para mim, eu não estava deixando apenas a minha casa, minha família ou a minha cidade natal, estava deixando para trás tudo o que eu poderia ter vivido aqui durante o ano que estava se acabando e os próximos que viriam.

Eu caí no sono em poucos minutos.

E meu último pensamento foi Joanna.

Feliz Natal, Anna.

Espero que esteja bem.

 

26 de dezembro de 2015

Coloquei a última caixa no caminhão. Minha mãe não parava de chorar e isso estava me deixando muito vulnerável, eu estava me segurando mais do que deveria conseguir, e o choro dela estava deixando Améllie ainda mais triste – Dex estava com ela no colo.

Meu pai entrou no carro e me esperou, enquanto eu dava um último abraço em minha mãe e em meu irmão, e um último beijo na testa de minha irmã mais nova. Quando entrei no carro, quis, imediatamente, voltar para a casa. Mas, assim que olhei pelo espelho retrovisor, avistei a antiga casa de Anna. Aquilo só me deu um pouco mais de coragem para permanecer no lugar onde estava, enquanto meu pai dava a partida no carro e seguia para a rodoviária.

─ Eu espero que não se arrependa ─ meu pai disse, me surpreendendo, ele não havia dito uma só palavra sobre o assunto de eu me mudar antes.

─ Não vou, pai ─ prometi ─ Acredite, isso me fará bem.

─ Para falar a verdade, eu não entendo. Mas você se conhece bem melhor do que eu e sua mãe, então, deve estar tomando a atitude certa.

Meu pai era a minha maior inspiração, mesmo nós dois não sendo tão próximos – por causa do trabalho dele – e, mesmo assim, isso ainda me admirava. Era tão nostálgico vê-lo dirigindo aquele carro, com sua expressão séria de sempre, seus cabelos pretos misturados com vários fios brancos e a inegável aparência que entregava um pouco a sua idade. Ele era esforçado e era famoso na família por sempre cumprir suas promessas, além de nunca prometer uma coisa que não seria possível de acontecer.

Ele era meu maior exemplo e, mesmo com a falta de diálogo que existia entre nós, era doloroso ter que deixar as várias conversas que poderíamos ter sobre a faculdade e a possibilidade de acompanhá-lo em um de seus dias como médico. Eu sentiria falta daquilo tudo, mas no fundo eu sabia que estava fazendo o melhor para mim.

Eu não conseguiria evoluir em qualquer lugar que estivesse marcado com a presença de Joanna e com o fantasma que se tornou o nosso relacionamento.

Chegamos ao estacionamento da rodoviária, meu pai saiu comigo. Andamos lado a lado até o lugar onde estaria o ônibus no qual eu deveria embarcar. Quando eu vi uma fila para a entrada, sabia que estava na hora de me despedir, mas meus olhos ardiam e eu não conseguia me mexer.

─ Theo ─ meu pai me chamou.

Eu me virei para ele. Seus olhos estavam marejados e aquilo me assustou muito, porque eu nunca havia visto meu pai chorar. E, então, não consegui me segurar, larguei minha mala no chão e me atirei em seus braços, chorando também.

─ Está tudo bem ─ ele sussurrou, me abraçando ─ Você vai ficar bem.

Não tínhamos muito tempo, então, eu não me demorei muito a me recompor. Mas, mesmo que eu já tivesse parado de soluçar nos ombros de meu pai, as lágrimas ainda não paravam de cair. Ele pegou a mala e me estendeu, eu a segurei e forcei um sorriso.

─ Não esqueça de tomar seus remédios no horário certo, sempre ─ ele disse, assentindo e fazendo uma cara de sério ─ E, por favor, não esqueça de nos ligar assim que puder.

Assenti, passei a alça da mala no ombro e disse:

─ Tchau, pai.

 

JOANNA

Vá em frente e chore, garotinha

Ninguém faz isso como você faz

Eu sei o quanto é importante para você

Eu sei que você tem problemas com o pai

E se você fosse minha garotinha

Eu faria qualquer coisa que eu poderia fazer

Eu fugiria e me esconderia com você

Eu sei que você tem problemas com o pai

E eu também tenho

- “Daddy Issues”, The Neighbourhood

O quarto estava girando quando abri os olhos. Eu pensei estar tendo apenas um pesadelo, já que a sensação de me sentar no colchão no chão e olhar para o casal transando ao meu lado era horrível. Mas não era, eu estava bem acordada. Miguel estava ao meu lado, com o lençol cobrindo apenas a parte mais íntima do corpo dele, enquanto acendia um cigarro.

Eu me sentia horrível e enjoada, mas não era só por causa da bebida. Uma música tocava no som enorme do quarto, e eu tinha certeza que aquela mesma música tocara seguidamente durante o tempo que estivemos ali – o casal ao lado dissera que ela estimulava o sexo – e ela começava a entrar na minha cabeça de um jeito muito ruim.

O enjoo vinha, principalmente, dos gemidos ao meu lado. Eu queria que aquilo acabasse e o terror me deixasse de uma vez. Nada daquilo me fez sentir bem e, muito menos, me fez sentir prazer. Queria implorar para que parassem logo.

Miguel me ofereceu o cigarro, e eu recusei – negando com a cabeça.

Me levantei e o lençol que me cobria escorregou do meu corpo, nem liguei em estar completamente nua. Estávamos em um apartamento de um dos nossos amigos e havia uma sacada, caminhei até ela – já estava aberta. O quarto ficava em um dos últimos andares, tudo lá embaixo parecia de brinquedo por estarem tão minúsculos da vista dali.

Subi em cima da estrutura de ferro, que formava um tipo de cerca de proteção para que as pessoas simplesmente não caíssem, enquanto me segurava no pilar de ferro. Se eu simplesmente me soltasse e me inclinasse para frente, todo aquele mal-estar e a vontade terrível de gritar passariam em alguns segundos.

─ O QUE ESTÁ FAZENDO?! ─ era o grito zangado de Miguel.

Senti os braços fortes dele em volta de mim, me puxando de cima da cerca e me empurrando para dentro do quarto novamente. Eu caí no chão e ele fechou e trancou a porta de vidro da sacada, fechando as cortinas em seguida. Eu comecei a chorar, porque aquele casal de amigos pareceu não perceber o que havia acabado de acontecer e os gemidos pareciam mais altos.

─ No que estava pensando?! ─ Miguel perguntou, tão nervoso que acho até que ele esquecera que estava nu como todos ali dentro, ele se ajoelhou na minha frente ─ Sabe o que poderia ter acontecido se tivesse escorregado?! Você está maluca, Anna?!

─ Eu sei muito bem o que aconteceria, Miguel ─ respondi, murmurando, com uma voz ridícula por causa do choro.

Aquilo pareceu machucar ele.

─ Por favor ─ sussurrei ─ Fale para eles pararem.

Seu olhar mudou de atordoado para confuso.

Desisti de dizer qualquer coisa a mais para ele. Voltei para o colchão chorando, haviam algumas drogas espalhadas no chão e eu peguei o saquinho de plástico com um pó branco dentro. Minhas narinas arderam quando eu o usei. Chorei até dormir mais uma vez.

 

Acordei com o lençol que me cobria grudado em meu rosto. Minhas piores lembranças sempre viravam pesadelos – mais cedo ou mais tarde – e eu já estava acostumada com eles, mas nunca havia acordado suando e ofegante como acordara agora. Uma sensação de terror tomou conta do meu corpo enquanto eu me lembrava de tantos detalhes daquela noite que, inevitavelmente, comecei a senti-las em cada centímetro da minha pele, como se estivesse acontecendo agora mesmo.

Eu quis gritar para que eles parassem, mais uma vez, e pedir para Miguel me carregar para bem longe dali. Mas, de repente, tudo aquilo pareceu ir embora tão rápido que até me tirou o fôlego e a realidade me voltou a cabeça. Eu estava em meu quarto, deitada na minha cama, na minha casa. E estava completamente sozinha.

Dei um gemido agudo, cobri minha cabeça com o lençol e chorei até dormir – como fiz com muita frequência em toda a minha vida.

 

Quando acordei, com o dia já claro, notei que faltava apenas um dia para a véspera de Natal. Levantei-me preguiçosamente, tentando afastar as lembranças da madrugada difícil que eu havia passado, realizei toda a rotina de higiene e vesti roupas limpas. Minha consulta com Dra. Isabel seria depois do almoço hoje, então, decidi caminhar pelo jardim já que teria a manhã livre.

Miguel traria tudo o que havíamos planejado bem cedo na manhã seguinte, já tínhamos combinado tudo e ele parecia bem animado com a ideia – por mais que tenhamos passado os últimos quatro Natais sempre juntos.

Fiquei sentada entre os girassóis até a hora do almoço. Cumprimentei as enfermeiras e alguns pacientes que já haviam conversado comigo alguma vez, entrei na fila para servir minha refeição, sentei-me na grande mesa do refeitório e almocei. A comida estava sempre boa todos os dias e eu geralmente gostava de escutar as pessoas conversando tão alto que não era possível ouvir mais nada além de vozes.

Mas, naquele dia, eu estava diferente.

Todos pareciam estar me observando e enxergando todas as coisas grotescas que eu já havia feito, eles pareciam estar rindo do meu sofrimento e gostando de me ver desanimada, com a esperança diminuída naquele dia. Era uma tortura indireta, mas meu corpo respondia de um jeito assustador.

 

Quando me sentei na frente da minha psicóloga, seu olhar sobre mim não parecia tão tranquilo como antes. Eu senti que ela estava preocupada, principalmente pelo fato da minha aparência estar um pouco pior do que na semana passada.

─ Você não parece muito bem hoje ─ Isabel disse, assim que me sentei em sua frente.

─ Tive um pesadelo terrível ─ respondi.

─ Sobre o quê?

─ Uma coisa que aconteceu há muito tempo. Minhas lembranças sempre viram sonhos.

Ela me encarou por um tempo e assentiu. Eu estava nervosa e desanimada com a consulta de hoje, já que conversaríamos sobre a coisa que fez todo o resto da minha vida e a da de Miguel desandarem, o principal fator que influenciou no nosso comportamento e em todas as tragédias que aconteceram daquele momento em diante.

─ Hoje vamos falar sobre a morte da mamãe ─ eu disse, sem que ela precisasse perguntar.

Isabel apenas assentiu.

 

Maio de 2012

A noite na Alemanha era fria, mesmo sendo primavera. Miguel e eu voltávamos de um passeio no parque – que ficava bem perto de casa – caminhando pelas calçadas que, quando eu observava bem, me faziam sentir como se estivesse dentro de um filme de romance maravilhoso. Meu marido parava a cada dois minutos na minha frente, me puxava para mais perto dele e me dava um longo beijo – aquilo me deixava vermelha e me fazia rir por alguns segundos.

─ Você está fazendo isso com mais frequência nos últimos dias ─ eu disse, rindo, enquanto ele beijava o topo da minha cabeça e voltava a caminhar.

Miguel segurou minha mão e sorriu.

─ Por que eu não iria querer beijar minha esposa toda hora?

Nos últimos dias, ele havia ficando muito mais carinhoso e – como algumas pessoas diriam – “meloso”, mas, para admitir, eu estava adorando isso. Toda a atenção e o carinho que eu recebia dele eram muito novos para mim e me faziam sentir muito especial. Era impossível não amá-lo ou querer estar ao lado dele todas as horas do meu dia.

─ Por que a mamãe não quis ir com a gente? ─ perguntei, eu andava meio preocupada com ela.

─ Ela disse que precisávamos de momentos a sós ─ ele respondeu, semicerrando os olhos, como se duvidasse das próprias palavras ─ Mas, para falar a verdade, acho que o que ela queria mesmo era um momento a sós com o papai. Eles não têm estado muito bem, andam brigando demais. Me sinto um inútil por não saber o que está acontecendo.

Entortei a boca, odiava quando ele dizia essas coisas sobre si mesmo.

─ Deve ser algum assunto de “marido e mulher” ─ fiz aspas com a mão, tentando tranquilizá-lo.

Por mais que eu dissesse essas coisas com frequência agora – até para mim mesma – eu ainda não acreditava nelas. O clima em casa apenas piorou depois do casamento, ouvíamos a gritaria do nosso quarto todas as noites, eu me perguntava o que estava acontecendo e o que o resto da família pensava daquilo, por que ninguém tentava fazer aquilo parar e por que ninguém simplesmente berrava com eles e acabava com tudo de uma vez por todas.

─ Eu tenho certeza que é algo muito além disso ─ Miguel murmurou.

E, então, chegamos em casa.

O tio de Miguel estava sentado no sofá da sala de estar quando entramos, ele costumava ser bem reservado – de um jeito que nunca soubemos de verdade como ele se sentia por eu e Miguel estarmos casados agora – mas ele era bem simpático. Quando nos viu, sorriu e nos deu boas vindas.

Miguel perguntou alguma coisa em alemão ao tio – ele havia me ensinado algumas coisas, mas eu ainda não conseguia entender quase nada, então, parei de tentar ouvir o que falavam com mais atenção. Era mais simples só perguntar a ele sobre o que estavam falando depois.

─ Perguntei onde mamãe estava ─ Miguel respondeu, quando o perguntei ─ Ele disse que ela não saiu do quarto desde que meu pai saiu de casa.

Batemos na porta do quarto dela quatro vezes, ela não atendeu. Miguel a abriu lentamente e bisbilhotou pela fresta, tudo estava escuro lá dentro. Depois ele a fechou novamente, virou-se para mim e disse:

─ Ela está dormindo.

Assenti e respirei fundo, aliviada por saber que ela estava conseguindo descansar – pelo menos antes do nosso pai chegar. Miguel segurou minha mão e me puxou para irmos para nosso quarto. Estávamos cansados, já que havíamos passeado pelo parque enquanto ele pagava por doces e salgados que eu nunca havia comido na vida.

Ele trancou a porta, para evitar que qualquer pessoa entrasse ali sem permissão. Como agora tínhamos uma certidão de casamento a nosso favor, os tios dele não viram mais problemas em nos deixar juntos no quarto o dia todo – se assim quiséssemos. Mas raramente passávamos o dia em casa, sempre saíamos para fazer alguma coisa – mesmo que fosse algo que já havíamos feito nos dias passados – só para nos libertar do inferno que era ter que conviver com as brigas dos nossos pais.

Naquela noite, como nas da última semana, apenas vestimos nossos pijamas, escovamos nossos dentes e nos deitamos – abraçando o outro – atentos a qualquer barulho do lado de fora do quarto, esperando o momento em que os pesados passos do nosso pai surgissem na escada, a porta do quarto deles se abrisse e a discussão começasse.

Mas nada disso aconteceu naquela noite.

Tudo estava num silêncio profundo.

E, mesmo assim, dormi com um peso no meu coração, que indicava que alguma coisa estava muito errada ali.

 

─ Anna!

Abri meus olhos e me sentei na cama, meu coração estava acelerado e eu estava assustada. Alguém gritara meu nome. Tateei pela cama e não senti o corpo de Miguel, olhei para meu lado e vi o espaço vazio, com o lençol amassado. A luz do sol que entrava pela janela machucava meus olhos.

─ ANNA! ─ era a voz de Miguel que gritava.

Joguei a coberta para longe de mim e me levantei, correndo para onde o som desesperado dele vinha – o quarto da minha mãe. Entrei e ele estava ali, com nossa mãe nos braços e aos prantos. Seu rosto estava mais vermelho e úmido do que jamais vira em todo o tempo que estivemos juntos.

Minha mãe não mostrava nenhuma reação.

Nem parecia estar viva.

Mãe...

─ Anna ─ Miguel falou, com a voz rouca por chorar tanto ─ Fique com ela, eu vou chamar uma ambulância.

Eu não sabia o que estava acontecendo, mas o obedeci. Apoiei o tronco de minha mãe em um dos meus braços e Miguel correu para fora do quarto. Olhei para ela, o rosto calmo, olhos fechados. Só não conseguia sentir seu peito subindo e descendo, nenhum sinal de que estava respirando.

E, então, eu entendi.

Eu gritei, espantada, me afastando do corpo dela e comecei a chorar imediatamente. Acabara de tocar no cadáver da minha mãe e só me dera conta agora, eu me senti confusa e como se tudo dentro de mim estivesse entrando em um colapso maluco. Tropecei nos meus próprios pés e caí no chão, batendo a cabeça com muita força – mas não o suficiente, me encolhi no canto do quarto e fiquei ali até ouvir uma sirene que vinha do lado de fora da casa.

Quando os paramédicos entraram no quarto e examinaram minha mãe, eu já sabia o que eles iam dizer. Me recusei a ficar mais um minuto dentro daquele quarto, me levantei e caminhei até a sala. Me sentei no meio do maior sofá, encostei minhas costas e esperei.

Miguel gritou quando disseram que ela já estava morta há mais tempo do que tínhamos imaginado.

Afinal, quando ele entrou no quarto dela na noite anterior, ela não estava dormindo.

 

Dois dias depois

Eu nunca fui a um funeral.

Nunca nem planejei um, mas jamais pensaria que morrer seria tão complicado – para quem ainda está vivo, é claro. Eu nunca achei necessário fazer um funeral para uma pessoa que nem ao menos existe mais, mas sentimentalismo e tradicionalismo são duas coisas horríveis de se lidar.

─ Novecentos euros? ─ perguntei, Miguel estava sentado ao meu lado, com o cabelo todo bagunçado e os olhos fundos por causa das noites em que não dormiu ─ A funerária vai cobrar novecentos euros para enterrar um corpo?

─ Esse é o mínimo, na verdade ─ ele respondeu ─ Vamos gastar um pouco mais.

Eu achava tudo aquilo um gasto de dinheiro sem tamanho, mas a última coisa que eu queria agora era que Miguel ficasse chateado com a minha insensibilidade para com a morte da nossa mãe. E, mesmo que todo mundo achasse que eu tivesse um coração de gelo por estar irrelevante a todos os preparativos do enterro, não era bem assim.

No momento em que vi minha mãe morta e percebi que, se tivéssemos notado algo errado mais cedo ela ainda estaria viva, eu chorei muito. Me senti indigna de todo o amor que ela havia depositado a mim, quebrei todo o meu quarto e xinguei meu pai – bem na cara dele – até meu vocabulário esvaziar-se.

Mas eu simplesmente não via sentido em gastar, no mínimo, novecentos euros com um corpo que já não tinha significado algum. Mamãe não estava mais ali, a vida dela acabara e ponto final. Sua pele endureceu e escurecera, não havia mais vida nela, para que enterrá-la gastando tanto dinheiro?

─ Quando eu morrer ─ murmurei ─ Mande cremarem meu corpo e jogue minhas cinzas num lugar que eu gosto. Mas, por favor, não gaste mais de quinhentos reais para isso.

─ Pare de ser tão maldosa, Anna ─ Miguel sussurrou ─ Por favor, agora não é hora para isso.

Se estivéssemos em um dos nossos dias normais, uma discussão se iniciaria. Mas, como ele acabara de dizer, agora não era hora para isso. Então, apenas assenti, segurei sua mão e disse:

─ Me desculpe por ser tão insensível.

Ele olhou para mim e forçou um sorriso.

─ Não é culpa sua ─ foi a última coisa que ele disse para mim durante o resto da semana.

 

Um mês depois

Não haviam muitas pessoas quando começamos a caminhar pelo cemitério, mas o bastante para as pessoas perceberem a movimentação e saberem que estávamos ali para enterrar alguém. Eu não conhecia mais da metade e acho que Miguel também não. Na verdade, a única pessoa que parecia conhecer todos ali era nosso pai.

Miguel não conseguia parar de chorar, mas conseguia disfarçar muito bem. Ouvi um padre falar alemão por minutos que pareceram se arrastar, não consegui entender nem uma só palavra, mas todos os outros ouviam atentamente. Quando chegou a hora em que o tio de Miguel se levantou, pegou um punhado de terra e se aproximou da cova, ele jogou a terra em cima do caixão três vezes e, em cada uma delas, ele falava alguma coisa.

─ O que é isso? ─ perguntei a Miguel, cochichando.

Ele suspirou, como se tivesse esquecido algo muito importante.

─ Temos que falar enquanto jogamos a areia ─ ele cochichou de volta ─ Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo.

─ E se eu não tiver uma religião?

Ele semicerrou os olhos para mim e disse:

─ Mamãe era católica.

─ Mas eu não sou.

Ele pareceu desapontado com a minha imposição, mas respondeu:

─ Apenas não diga nada, Anna.

E eu não disse nada.

Joguei a areia três vezes e voltei para o meu lugar. Foi aí que percebi algo nojento. Papai estava sentado em uma das fileiras no outro lado da cova, a frente de mim e de Miguel. Ao lado dele, havia uma mulher – loura e de olhos claros – ele dizia alguma coisa no ouvido dela, ela colocava a mão sobre os lábios para disfarçar a risada.

Aquela foi a primeira vez que senti ódio dele.

Olhei para meu marido vestido de preto, ao meu lado, ele evitava olhar para o pai a qualquer custo. O único lugar que direcionava seus olhos era para nossas mãos dadas ou para a cova da nossa mãe – era nessas horas que uma lágrima sempre escorria do rosto dele. Naquele momento, eu prometi a mim mesma que nunca mais perdoaria André por estar manchando a memória de nossa mãe a Miguel, se engraçando com outra mulher bem na sua frente.

Cheguei a pensar que ele estava fazendo aquilo de propósito, que realmente queria provocar Miguel, mas isso seria crueldade demais, pensei. Mesmo assim, ele não parou, nem no enterro e – muito menos – na pequena cerimônia na casa da família logo em seguida.

Se eu já achava ridículo uma cerimônia com comes e bebes por causa de um enterro de um amontoado de carne morta, era ainda mais ridículo a maior parte daquelas pessoas serem completamente desconhecidos para a família e para mim. O jeito que André agia, como se fosse uma reunião de amigos, enquanto Miguel deitava no meu colo e soluçava de tanto chorar na sala ao lado, parecia ser uma sessão de tortura proposital.

O pior de tudo era que, mesmo que estivéssemos na casa da família da mamãe, André parecia ter uma autoridade desnecessária sobre qualquer um ali. Ninguém se impunha às suas vontades ou às ações que o resto da turma dele tomava, ninguém o mandava parar. Ele aprecia dominar todo mundo.

A mulher de antes estava ao lado dele, com a mão dele em uma de suas coxas e um sorriso no rosto. Miguel me apertava e chorava mais, e eu estava começando a desconfiar de que ele não estava mais apenas chorando pela mamãe e, sim, por estar morrendo de raiva de seu pai também.

André olhou para mim, minha respiração pareceu cessar e eu senti minha pele se aquecer. Ele levantou o copo com whisky, como se estivesse brindando algo, sorriu para mim e jogou todo o líquido amarelado dentro da boca.

Eu respirei fundo, tentando me acalmar.

Eu o odeio.

─ Anna, está me machucando ─ Miguel murmurou.

E eu me dei conta que estava puxando seus cabelos forte demais.

─ Me desculpe, amor ─ disse, afastando minha mão de seus fios e lhe dando um beijo na bochecha.

 

As coisas só ficaram piores entre Miguel e eu quando voltamos para casa. Já estávamos quase na metade do ano, apenas um mês de casamento e estar de volta apenas com André era a pior coisa do mundo. Eu ficava frequentemente sozinha em casa, André ia para o trabalho e Miguel desaparecia assim que o pai saía, mas sempre voltava antes dele.

Voltei a ter aulas presenciais, mas ainda eram particulares. Eu ocupava meus dias com estudos o máximo que conseguia, depois assistia um pouco de TV, comia o que estivesse na geladeira, lia alguma coisa que achasse no escritório e dormia pelas horas que sobravam. Acordava no horário que sabia que Miguel chegava, para saber se ele iria querer conversar comigo sobre o que estava acontecendo e o que estava sentindo.

Mas tudo que ele fazia era entrar no quarto, fechar a porta, tirar a roupa, deitar na cama e cair no sono em cinco minutos. E, então, eu voltava a dormir. Acordávamos ao mesmo tempo, tomávamos café da manhã e ele sentava na sala e assistia a algum programa – fazia tudo isso calado. Nosso pai raramente dava as caras.

Eu já estava tão acostumada com toda aquela rotina silenciosa, que quando Miguel finalmente resolveu voltar a falar comigo – um mês depois – eu pensei ter sido minha própria voz resmungando. Então, olhei para ele, com olhos de quem pedia para que repetisse o que havia acabado de dizer.

─ Desculpa por fazê-la se preocupar comigo ─ a voz dele estava tão rouca e grossa, que quase não a reconheci.

Me levantei do sofá e corri até ele, pulando em sua direção e o abraçando – ele me abraçou de volta, para o meu alívio. O cheiro que exalava dele, porém, não estava muito agradável. Parecia não ter tomado banho há dias, seus cabelos estavam embaraçados e a pele toda ressecada e arroxeada debaixo dos olhos.

─ Eu não me preocuparia se me deixasse te ajudar ─ eu disse.

─ Eu sei ─ ele entortou a boca ─ É que... você parece ter superado tudo o que aconteceu rápido demais. Mas acho que isso é devido ao fato de você estar acostumada a perder as pessoas que ama, não é?

─ Talvez ─ admiti, a ausência de Sabine era um buraco constante no meu coração, mas eu tentava me distrair da dor o máximo possível, ao contrário de Miguel, que deixa que isso o consumisse ─ Mas eu acho que nunca superaria a sua perda, então, por favor não se isole de mim. Eu quero tentar fazer você se sentir melhor. É para isso que serve a família, certo?

Ele me deu um sorriso – eu sabia que era forçado, mas fiquei feliz por ele estar se esforçando. Eu o beijei e voltei a abraçá-lo. Eu o queria de volta, o homem com quem havia me casado, e faria qualquer coisa para que isso acontecesse.

─ Eu sei porque ela se matou ─ murmurou.

Não, Miguel, não continue com isso.

─ Eu descobri o que meu pai anda fazendo ─ ele me afastou ─ Você não sabe as coisas que ele disse para mim, Anna.

Percebi que algo no jeito que ele falava me despertava um tipo de aviso, indicando que nada de bom poderia sair disso, minha exaustão pareceu crescer e eu quase desisti de tentar lidar com ele e com sua dor. Alguma coisa havia acontecido e – o que quer que fosse – não era bom, porque os olhos de Miguel me encaravam com um pedido de desculpas carregados neles.

─ O que você fez? ─ eu perguntei, já deduzindo que ele queria me contar algo muito ruim.

─ Eu não sei o que estou fazendo ─ respondeu, parecendo estar sentindo uma dor profunda e não estar respirando direito ─ Ele me fez... Ele me disse coisas horríveis, Anna. Acabei fazendo as vontades dele durante todo esse tempo.

─ O que você fez? ─ perguntei mais uma vez, um pouco mais alto.

─ Meu pai pediu que eu fizesse uma coisa para ele.

 

Eu não dormi naquela noite. Sentei-me no sofá da sala e deixei a TV ligada, num volume que eu sabia que evitaria que eu pegasse no sono. Já havia roído todas as unhas das minhas mãos e eu tremia de raiva e medo. Miguel se descontrolara quando me contou o que havia feito nas últimas semanas, eu consegui acalmá-lo – com muita luta – e convencê-lo a tomar banho, eu o fizera dormir e, justo agora que ele voltara a se abrir comigo, eu não deixaria mais que André o usasse quando ele estava tão vulnerável.

A porta da frente se abriu, e ele entrou rapidamente para dentro da casa. Eu não esperei que notasse minha presença, fui até ele e o empurrei com toda a força que consegui juntar – por mais que não tenha sido o suficiente para causar o impacto que eu queria.

─ O que pensa que está fazendo?! ─ perguntei, com mais coragem do que pensei que teria ─ Não tem vergonha de usar ele desse jeito?!

─ Do que está falando, garotinha? ─ ele sorriu, cínico, como sempre foi comigo.

─ Miguel tem cara de traficante, por acaso? Como tem coragem de usar ele como entregador de drogas, seu doente?!

Eu o empurrei mais uma vez, mas ele conseguiu segurar minhas duas mãos. Ele começou a apertá-las, me machucando, enquanto dizia:

─ Você está falando de algo confidencial, Miguel nem deveria ter lhe contado nada sobre isso. E, por favor, não levante mais essas mãos sujas, eu posso facilmente te machucar-

─ Pai ─ a voz de Miguel ecoou pela sala, olhei para trás, ele estava na escada, com os olhos arregalados ─ Já chega.

André soltou minhas mãos.

─ Anna, vamos dormir ─ Miguel chamou.

─ Miguel, eu-

─ Anna ─ ele me interrompeu, olhando bem dentro dos meus olhos, parecendo tentar fazer-me entender que estava preocupado comigo ─ Vamos dormir, por favor.

Miguel estendeu a mão em minha direção. Dei uma última olhada para meu pai – ele tinha o sorriso cínico de sempre no rosto – meu sangue parecia estar fervendo, voltei a olhar para meu marido e me dirigi até ele, tomando sua mão. Ele me levou para o quarto e esperou que eu me deitasse ao seu lado, para dizer:

─ Por favor, nunca mais faça isso.

─ Eu só queria proteger você ─ sussurrei ─ Odeio ver ele te machucando.

─ E eu odeio ver qualquer pessoa machucando você, Anna ─ ele segurou meus pulsos, onde a marca das mãos de André estavam e beijou cada um deles ─ Não vou permitir que ninguém toque em você, mas para isso preciso que não enfrente mais o meu pai.

Haviam tantas coisas que eu queria perguntar a ele, mas senti a urgência em seu tom de voz, então apenas o escutei.

─ Um dia você vai entender ─ ele prometeu ─ Mas, por agora, apenas continue com sua rotina e me deixe te proteger dessa vez.

Primeiro, eu quis chorar. Como não queria preocupá-lo ainda mais, apenas assenti com a cabeça, segurando qualquer lágrima que ameaçasse sair pelos meus olhos. Ele me abraçou e me beijou, como não fazia há muito tempo.

─ Eu amo você ─ ele sussurrou.

─ Eu também te amo.

 

Atualmente

Parei de falar e um pouco do peso que senti durante toda a história pareceu sair dos meus ombros. Fiquei um pouco aliviada por, finalmente, contar aquilo para alguém. Mas Isabel parecia muito pensativa com aquela última parte.

─ Por que você acha que ele sentia tanta necessidade em te proteger? ─ ela perguntou.

Pensei um pouco sobre o assunto e, para mim, parecia óbvio.

─ Acho que era porque ele não conseguiu evitar a morte da mamãe e depositou toda essa preocupação em mim ─ respondi.

Ela não pareceu muito convencida com esse motivo, mas assentiu, como se fosse uma possibilidade. Me perguntei porque ela estava tão presa nessa parte da história e, pela primeira vez, resolvi pensar um pouco mais nos motivos dele também. Eu também o protegeria a todo custo, se estivesse em meu poder fazê-lo, mas a vontade dele – naquela época e até hoje – parecia vir de algo muito além de simplesmente amor.

─ E o que aconteceu depois? ─ Isabel chamou minha atenção.

Voltei a me concentrar no que eu lembrava daqueles anos que pareciam estar mais distantes do que na realidade estavam.

─ Nada melhorou ─ voltei a contar ─ A cada dia que passava, eu me sentia ainda mais sozinha. Tão sozinha que fiquei feliz quando Kayla e Gabriel voltaram a frequentar minha casa, já que André não ligava e, com o passar do tempo, eu parei de ouvir os pedidos de Miguel para que eu não voltasse a me aproximar deles. Viki também vinha às vezes, para espiar minha vida, é claro.

“Miguel ficava bem sociável de vez em quando, quando bebia bastante, tipo nos aniversários dele. Nessas horas, ele sempre se dava bem com nossos amigos e, como eu também acabava bebendo muito, achava legal. Mas, quando estávamos quase no final do ano, descobri que todos dali – com exceção de Kayla – trabalhavam para o meu pai.”

“Aquilo foi um soco no estômago para mim, parecia que André estava me espionando, tentando saber de tudo o que eu fazia até nos meus momentos mais íntimos, como se ele fosse uma cobra, esperando para dar um bote e me sufocar como sempre planejou. Era horrível a sensação de saber que algo ruim poderia acontecer comigo a qualquer momento. Eu fiquei tão paranoica que comecei a aumentar a quantidade de droga que eu já usava, para tentar me distrair.”

“E isso não foi uma boa ideia.”

 

Agosto de 2012

A música era pesada e a batida parecia penetrar meu cérebro, me causando uma dor horrível. Mesmo assim, eu não estava com a menor vontade de ir embora. Kayla e Gabriel estavam gritando enquanto todo o resto do clube rodava em volta de mim, eu sorri e fechei os olhos. Quando os abri novamente, a imagem de Viki falando algo no ouvido de Miguel me deixou descontrolada.

Eu me aproximei dos dois e sorri cinicamente.

─ Também posso participar da conversa? ─ perguntei.

Ela me olhou com nojo.

─ Eu não sabia que estava aqui ─ ela respondeu.

─ Anna, não precisa ficar brava ─ Miguel disse, ele estava com uma garrafa média de cerveja na mão ─ Ela não disse nada demais, está bem?

─ Eu duvido bastante ─ retruquei ─ Pode se mandar agora, vadia.

Viki empurrou Miguel e veio para cima de mim, agarrando meu cabelo e me jogando contra o balcão do bar, que estava bem próximo de nós. A primeira coisa que senti foi uma raiva incontrolável, a segunda foi uma dor insuportável no peito e a terceira – e a última que me lembro – foi uma dificuldade assustadora para respirar.

Eu ouvi Miguel gritando meu nome e um alvoroço a minha volta, mas perdi a consciência rapidamente.

 

Acordei no hospital, com a mesma dor de cabeça de antes – mas ainda mais forte. Miguel estava sentando na poltrona, bem em frente da cama, com o rosto mais sério que o normal. Ele parecia furioso comigo, mas eu estava me sentindo tonta demais para falar alguma coisa.

─ Você está tentando se matar? ─ ele perguntou.

Semicerrei os olhos.

─ O que? ─ perguntei ─ O que aconteceu?

─ Você teve uma overdose, foi isso que aconteceu.

Eu estava tão confusa, era difícil até prestar atenção no que ele dizia.

─ Você simplesmente apagou no meio do clube ─ ele disse ─ E teve convulsões e eu não sabia o que fazer!

Ele parecia um pouco alterado, o tom de voz dele me assustou e fez com que várias lágrimas se juntassem nos meus olhos.

─ Não grita comigo ─ eu pedi, não conseguindo evitar o choro.

Miguel suspirou e, em apenas alguns segundos, começou a fungar também. Se levantou e deitou-se ao meu lado, apoiou seu rosto em meu ombro e chorou comigo, me abraçando – como se estivesse tentando se convencer de que eu estava ali ao seu lado, viva e bem. Mas, na verdade, eu percebi que não estava bem.

Só estava viva.

Tentei pensar em algum motivo para eu continuar vivendo e, mesmo com Miguel me abraçando, não consegui pensar em nenhum. Eu já estava no meu limite, completamente esgotada e não tinha nada que me convencesse a ver valor na vida que eu levava.

─ O que eu faço se você morrer, Anna? ─ Miguel sussurrou.

Fechei os olhos e respondi:

─ Me desculpa, Miguel.

E eu não pedi desculpas pelo que havia acontecido.

Pedi desculpas porque nem ele era mais capaz de me convencer a continuar vivendo.

 

24 de dezembro de 2015

Eu estava encarando a pequena Árvore de Natal no canto da minha sala quando Miguel chegou, sorridente e entrando com inúmeras sacolas na mão, parecendo um furacão e bagunçando toda a minha cozinha. Era bom quando ele vinha, principalmente, quando estava de bom humor; ele ficava falante e enchia a casa com vida, me fazia sorrir e até despertava algumas risadas.

Ele estava animado com o Natal, isso era claro quando eu olhava para o sorriso que ele fazia enquanto tirava tudo que havia comprado para a ceia. A cada alimento que ele tirava da sacola, ele me mostrava e falava o que era – mesmo eu já sabendo.

─ Já que amanhã é Natal, nada vai estar aberto e você queria sushi ─ disse, tirando um embrulho de uma das sacolas ─ Eu comprei alguns para a viagem, eles têm que ficar dentro da geladeira para não estragarem.

Miguel me estendeu o plástico e eu o peguei de suas mãos, fui até a geladeira e o coloquei no fundo.

─ Você não parece muito animada, Anna ─ sua voz era preocupada e familiar.

─ Estou um pouco pensativa hoje ─ admiti.

─ Sobre o quê?

Sobre o que estava acontecendo aí dentro, Miguel.

─ Nada ─ dei de ombros.

─ Sabe que também pode conversar comigo, certo?

Ele me olhou com expectativa, como se aguardasse aquele momento há muito tempo. Mas eu só respondi:

─ Não é nada, de verdade.

Ele deu de ombros, assentiu e voltou para as compras.

 

Ficamos tanto tempo tentando descobrir como se assava um peru – já que sempre comprávamos um pronto depois que mamãe morreu – que acabamos comendo toda a ceia quando o relógio indicava 1h da manhã. Ele riu quando eu me aproximei da mesa com o peru enorme na mão, estava sentado em uma das cadeiras da pequena mesa de apenas quatro lugares, com um talher em cada mão – como se fosse uma criança esfomeada.

─ Esse peru vai durar um mês inteiro ─ eu disse, me sentando ao seu lado.

─ Posso levar um pouco, se quiser ─ ele disse.

Deve levar.

Eu odiava desperdiçar comida.

Ele cortou pedaços do peito para mim – já que era a única parte que eu gostava de comer.

─ Isso não tem gosto ─ ele criticava.

─ Claro que tem ─ revirei os olhos ─ E é muito bom!

Não conversamos muito, mas Miguel sorria para mim a cada cinco minutos e elogiava qualquer coisa que eu havia cozinhado a cada dez minutos. Era um pouco nostálgico estar com ele – quase sempre era – mas eu estava me sentindo bem, só depois que comemos tudo o que queríamos – até mesmo a sobremesa – foi quando desejamos Feliz Natal para o outro.

Nós nos abraçamos.

Um longo abraço que eu não sentia a menor pressa em interromper.

Decidimos procurar algumas casas que pareciam ter pessoas acordadas e que passaram o Natal sozinhas para doar o resto da comida. Cinco pessoas pegaram um pouco e ainda sobrou alguma coisa, mas fiquei aliviada por ser uma quantidade menor do que havia sobrado anteriormente – nenhum de nós precisaria desperdiçar nada.

Eu lavei e enxaguei a louça, enquanto Miguel as secavam e guardavam. Colocamos música numa altura em que não incomodaria nenhum vizinho. Mesmo fazendo coisas tão simples e estando tão quietos, não era muito difícil perceber que – depois de tanto tempo – estávamos apreciando a companhia do outro e não brigando, como fazíamos com muita frequência quando ele vinha me visitar na clínica – assim como brigávamos muito quando ainda morávamos juntos.

─ Como está sua recuperação? ─ ele resolveu puxar assunto ─ Mais progressos?

─ Como se você não ligasse para cá todos os dias ─ respondi, rindo.

Ele pareceu envergonhado por eu ter certeza que ele fazia isso.

─ É ─ ele sorriu ─ Mas ouvir de você parece ser mais real.

Já que insiste.

─ Eu já me sinto um pouco melhor, Miguel ─ sorri ─ Eu acordei me sentindo horrível ontem, mas hoje estou muito melhor.

Miguel pareceu aliviado, e eu fiquei feliz por isso.

E, então, um barulho de contínuas explosões veio de fora da casa. Nós dois corremos para fora e olhamos ao redor, percebendo que vários fogos de artifício estavam colorindo o céu acima de nós. Vários moradores saíram assustados de suas casas, mas sorriram quando olharam para cima.

─ Acho que a clínica está meio atrasada ─ comentei, rindo.

O céu inteiro estava dourado e depois vermelho, e então mudou para o verde e depois para o azul; e naquele exato momento, pensei em Theo e tentei imaginar o que ele estaria fazendo enquanto eu assistia a queima de fogos. Observar aquela explosão de cores era relaxante e tão hipnotizante que, só quando tudo acabou, eu percebi que Miguel não havia tirado seus olhos de mim. Senti meu rosto ficar vermelho e ele percebeu, porque riu e murmurou:

─ Você está linda hoje.

Eu me odiei por deixá-lo ter tanta influência sobre o meu comportamento e sentimento ainda. Aquilo não estava certo.

─ Miguel ─ sussurrei.

─ O que foi? ─ o olhar de expectativa voltara.

─ Por que você me protegia?

E o olhar preocupado – que eu já havia ficado cansada de receber – voltou. Desta vez, um pouco mais cauteloso, ele perguntou:

─ Como assim?

─ Eu lembrei de uma coisa que me disse nos nossos primeiros dias como namorados ─ contei ─ Você disse que éramos muito parecidos em muitas coisas. Mas, sempre que eu estava com você e comparava sua personalidade com a minha, seu modo de vida e tudo em você, eu tinha certeza que éramos completamente diferentes.

Se Miguel sorrira há instantes atrás, nem um resquício disso permaneceu em sua feição. Agora ele estava carrancudo, seus olhos tristes e parecia prestes a jorrar todo o seu mau humor em cima de mim. Eu previra isso e estava preparada para qualquer coisa que ele dissesse, não perderia o controle, descobriria o que diabos ele escondia de mim durante todos esses anos.

─ Por que está desenterrando isso agora?! ─ disse, voltando para dentro da casa.

─ Porque estou preocupada com você! ─ eu o segui e fechei a porta.

─ Eu acho melhor eu ir embora.

Eu fiquei na frente da porta, me recusando a deixá-lo seguir em frente.

─ Você não vai a lugar algum ─ disse, lentamente, para que ele ouvisse cada palavra.

─ Não faça isso ─ ele balançou a cabeça, parecendo perturbado ─ Eu não quero.

Respirei fundo e esperei.

─ Por que está fazendo isso comigo? ─ ele perguntou.

─ Eu só quero ajudar você ─ respondi, cedendo e indo até ele, ergui seu rosto e o fiz olhar para mim ─ Existe alguma coisa que você nunca me contou?

Depois de tantos anos e tanta intimidade, eu comecei a duvidar de que existiria algo que eu não soubesse sobre Miguel, ou que ele não soubesse sobre mim. Era quase impossível, pois tudo o que havia acontecido em toda a minha vida eu contara a ele em detalhes, eu também achava que seria a mesma coisa no caso dele. Mas, vendo sua reação, eu estava mais certa a cada segundo de que algo havia acontecido.

Ele deixou-se cair no chão, eu me ajoelhei ao seu lado e esperei.

─ Você lembra... ─ murmurou ─ Quando eu disse que sabia por que a mamãe tinha se matado?

Assenti, mas ele não estava mais olhando para mim, então eu falei:

─ Lembro. Você disse que tinha descoberto o que o papai fazia-

─ Não ─ ele me interrompeu ─ Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Vasculhando minhas lembranças, eu havia entendido que a descoberta de Miguel era a chave da causa do suicídio da mamãe. Achei que ela tirara a própria vida por causa do que o marido fazia para ganhar todo aquele dinheiro.

─ Eu a confundi de propósito ─ continuou ─ Não foi por causa disso que ela morreu. Ela nem sabia de nada disso.

─ Então foi por quê?

Minha ansiedade aumentara, meu coração estava acelerado e eu estava com medo de ouvir o que ele tinha a dizer sobre um assunto que não foi o qual eu perguntei.

─ Por minha causa ─ ele soltou ─ Foi por minha causa que a mamãe morreu.

Eu não entendi.

─ Por que está dizendo isso? ─ neguei com a cabeça ─ Ela amava você-

─ Eu sei que ela me amava, Anna ─ me interrompeu mais uma vez ─ O coração da mamãe era gigante, ela amava a todos.

Ele parou de falar e eu fiquei desesperada. O que estava acontecendo? Segurei a mão de Miguel e pensei no que fazer. A respiração dele começou a acelerar e eu percebi que ele estava chorando muito, mas silenciosamente.

─ Ei ─ eu disse, sentando-me e o puxando para mais perto de mim ─ Você pode me contar.

─ Estou com medo ─ ele sussurrou ─ Você não vai mais me amar se souber.

─ Eu pensei a mesma coisa quando Isabel me pediu para contar tudo sobre minha vida a ela ─ admiti, acariciando sua cabeça para acalmá-lo ─ E, agora, eu me sinto muito mais leve. Por que não tenta comigo?

Miguel assentiu e fechou os olhos. Respirou fundo duas vezes antes de começar:

─ Eu morava em São Paulo antes de me mudar para cá ─ fiquei surpresa desde a sua primeira frase, já que nunca tivera curiosidade de saber onde ele morava antes de nos conhecermos, ele ter morado em outro estado antes daqui não era algo que eu esperava ─ Era uma casa bem grande, grande demais para nós três. Não tínhamos empregados, nem muita segurança e as casas nesse lugar não ficavam muito próximas das outras. Esse foi o maior problema.

“Numa das noites em que meu pai saiu, sem nem nos avisar para onde ia ou que horas voltava, minha mãe ficou muito preocupada e começou a ligar para ele uma vez atrás da outra. Ele acabou desligando o celular para que a gente não incomodasse e eu fiquei com muita raiva dele.”

“Minha mãe ficou no sofá chorando por muitas horas e eu odiava vê-la daquele jeito, me sentei ao lado dela e a abracei até que ela conseguisse dormir. O resultado foi nós dois pegando no sono muito rápido.”

“Eu acordei com o barulho de alguma coisa quebrando no chão da cozinha e fiquei assustado. Minha mãe ainda estava dormindo, então me levantei com todo o cuidado e a deitei no sofá. Quando eu me dirigia para a cozinha, percebi que a porta da frente estava aberta e corri até ela para fechá-la. Mas foi aí que eu vi que a fechadura dela estava destruída. Quando me virei para correr até minha mãe e tirá-la de lá de dentro, um homem me acertou com um soco no nariz.”

“Ouvi minha mãe gritando meu nome e fiquei desesperado, chutei quem quer que estivesse próximo de mim e corri até ela, na sala. Um outro homem já estava com ela também e a segurava pelos braços, apontando uma faca para o pescoço dela. Eu praticamente implorei para que ele a soltasse e fizesse o que quisesse comigo, prometi que não contaríamos a ninguém, era só ele deixar ela ir embora. Mas eles acharam meu desespero engraçado e, ao invés de nos deixarem em paz, prometeu que faria mesmo tudo que eles quisessem, com nós dois e... e foi por causa do que aconteceu que nos mudamos para cá“

─ Miguel ─ eu o interrompi.

Visualizar cada palavra que ele dizia era doloroso e eu já não sabia se queria ouvir até o final. Me arrependi por ter perguntando e insistido para que ele me contasse tudo. Eu o abracei e ele escondeu o rosto em meu pescoço, soluçando, eu senti sua dor e beijei o topo de sua cabeça. Mas, para que concluíssemos aquele assunto, perguntei:

─ Estupraram ela, não foi?

Ele não levantou o rosto, mas falou de uma vez:

─ Me fizeram assistir enquanto estupravam ela, e depois fizeram ela assistir enquanto faziam a mesma coisa comigo.

Fiquei paralisada por muito tempo – nem sei quanto. Mas me torturei mentalmente por nunca ter desconfiado de nada disso, principalmente da última parte. Miguel conheceu, na própria pele, tudo o que eu conhecera também e ele me tratou com toda a atenção que uma pessoa que sofreu esse tipo de agressão precisa, mas ele nunca foi tratado do mesmo jeito – nem mesmo por mim.

Eu fui tão egoísta.

Eu o abracei mais forte e disse que estava tudo bem, repeti quando ele começou a chorar descontroladamente. Pedi perdão por fazê-lo se lembrar do que aconteceu numa noite que não era feita para isso. Mas ele me contou o resto da história em seguida.

Acontece que a culpa não era dele de maneira alguma. Os dois homens que invadiram a casa dele naquela noite, trabalhavam para um dos rivais de nosso pai. André o havia irritado e ele apenas mandara um recado a ele. Eu nunca pensei que um ódio tão grande pudesse caber dentro de mim, qualquer coisa relacionada a André me deixava enojada.

Mas uma lembrança me veio à mente.

─ Miguel ─ chamei-o, ele olhou para mim ─ Aquele dia... que saímos numa van e você e os meninos queriam deixar eu e a Viki numa festa. Eu não quis e vocês nos levaram junto, mas não nos deixou sair do carro. Você voltou todo ensanguentado.

Ele abaixou a cabeça e, por causa disso, antes mesmo de eu fazer a pergunta, a resposta já estava bem clara:

─ Você matou eles?

Olhei para seus punhos, eles estavam vermelhos de tanto Miguel pressioná-los.

─ Sim ─ ele respondeu ─ Eu matei um deles, Gabriel matou o outro.

Tudo fez sentido num piscar de olhos. Gabriel ficou completamente maluco depois daquela noite, Miguel ficou apenas um pouco mais estranho do que já era, os outros garotos estavam assustados e eu e o resto das meninas, apenas confusas. Naquela noite, paramos num mercado no meio da estrada, Miguel comprou um spray de tinta de cabelo preta que sairia depois de alguns banhos.

Eu perguntei apenas uma vez o que estava acontecendo e ninguém me respondeu. Sabia que não receberia resposta de ninguém ali, então apenas obedeci quando Miguel pediu para que eu passasse aquilo no cabelo dele.

Agora ele estava nos meus braços, chorando depois de me contar tudo, e eu não conseguia sentir nada além da dor que ele estava sentindo. Não consegui ter raiva por ele ter convencido Gabriel a fazer aquilo – nem um de nós poderia adivinhar no que ele se tornaria depois – e, sobre o fato de ele ter matado uma pessoa – eu era a última garota no mundo que poderia julgá-lo. Foi um erro gigante, e eu não entendia como a polícia não havia chegado até nós, mas eu não ousei censurá-lo, eu não tinha esse direito.

Toquei em sua mão, ela estava quente por causa do sangue acumulado ali, mas ele a relaxou com meu toque.

─ Você vai dormir aqui esta noite ─ eu disse.

Eu permiti que ele dormisse do jeito que se sentisse mais confortável. Ele dormiu sem a calça jeans, mas manteve a camiseta. Minha cama não era muito grande, mas era confortável para nós dois. Me deitei de barriga para cima, abrindo os braços para que ele deitasse a cabeça em meu peito e me abraçasse.

Cantarolei uma canção curta, como eu sempre fazia quando éramos casados e ele não conseguia dormir, e acariciava suas costas – já que isso o acalmava rapidamente. Antes que ele dormisse, eu o assegurei:

─ Mesmo com tudo o que aconteceu com você naquele dia, eu ainda amo você, Miguel.

Senti ele me apertando um pouco mais e, alguns minutos depois, sua respiração ficou calma. Ele estava dormindo, finalmente. Mas eu fiquei um bom tempo acordada, olhando para o telhado e derramando lágrimas, silenciosamente. Eu não conseguia aceitar o fato de que ele e nossa mãe haviam sido obrigados a assistir algo tão horrível.

Me preocupei com o bem-estar psicológico dele, profundamente.

─ Eu vou cuidar de você ─ sussurrei, antes de também pegar no sono.

Nos meus últimos segundos de consciência, percebi que – no decorrer do dia inteiro – só havia pensado em Theo uma vez. Fiquei surpresa, mas algo dentro de mim me fez pensar que eu não deveria estar.

Feliz Natal, Theo.

 

25 de dezembro de 2015

─ Estou feliz por mudar de cenário ─ eu disse, olhando para o horizonte.

Era Natal e eu estava liberada para ficar fora da clínica até o final do dia. Miguel e eu arrumamos tudo para um piquenique – sem esquecer do sushi no fundo da minha geladeira – e não demoramos para sairmos das dependências da clínica o mais rápido possível com seu carro. Não sabíamos para onde ir, então apenas falei para ele seguir em frente.

Até que avistamos uma área verde, com um monte não muito alto. Estacionamos em um local seguro e pegamos todas as coisas no porta-malas, correndo para ver quem chegava no topo do monte baixo primeiro. Ele ganhou.

─ Espero que os sushis não tenham estragado ─ ele falou, se sentando, abrindo o embrulho e comendo um ─ Ainda está bom.

Me sentei de frente para ele e respirei fundo.

─ Hora de experimentar sushi! ─ anunciei, levantando os braços, fingindo que estava animada.

Eu odeio experimentar coisas.

Miguel pegou um par de hashis de madeira, pegou um sushi muito habilmente e molhou-o um pouco num pote com molho shoyu, estendeu-o para mim e eu o abocanhei. Mastiguei aquilo várias vezes, com medo do gosto ser muito ruim. Miguel ficou me observando, aguardando minha decisão.

─ O gosto de tudo é bom ─ eu fiz sinal de positivo com as duas mãos ─ Mas sem o peixe.

Ele gargalhou.

Tivemos uma tarde muito agradável e Miguel esperou até o pôr-do-sol para me contar uma grande notícia.

─ Eu vou começar a faculdade no semestre que vem ─ disse.

Meus olhos se arregalaram, eu fiquei surpresa de verdade.

─ O que vai cursar?! ─ perguntei, mais animada do que ele esperava.

─ Hmmm... ─ ele parecia um pouco apreensivo para contar ─ Serviço Social.

Eu bati palmas e isso o surpreendeu. Provavelmente, papai o havia ridicularizado pela escolha do curso – era óbvio só de olhar a reação dele – mas ele era um ótimo ouvinte e, por mais que não tivesse tido muitas oportunidades para demonstrar esse seu lado, adorava ajudar as pessoas com tudo que estivesse a sua disposição.

─ Você vai se sair muito bem! ─ eu disse.

─ Acha mesmo? ─ ele coçou a cabeça, rindo.

─ Claro que acho!

Eu estava tão feliz por ele estar seguindo sua vida normalmente, como eu sempre o instruíra a fazer. Ele estava feliz e isso me fez sorrir durante aquele dia inteiro. Era tão bom saber que – pelo menos para alguém – as coisas estavam melhorando.

Enquanto eu via o carro dele se afastando, depois de me deixar em casa, eu pensei comigo mesma:

Talvez você devesse fazer o mesmo, Anna.


Notas Finais


Para ouvir a música do capítulo: https://play.spotify.com/user/12145158710/playlist/5U55XR8XphB23As9Ekjn1I

Se não tiver conta no Spotify: https://www.youtube.com/playlist?list=PLopf-mlaohws6-hPFujYcoRBOZNo20Onw

Trilha sonora do capítulo (que eu imagino que seria se fosse uma série haha): https://open.spotify.com/user/12145158710/playlist/7ipolQ2orUaraiMqkXAYYE

Espero que tenham gostado!
Comentem a opinião de vocês e até a próxima <3


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