História Note To Self. - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Girls' Generation
Personagens Hyoyeon, Jessica, Seohyun, Sooyoung, Tiffany, Yuri
Tags Snsd, Yulsic, Yuri
Exibições 77
Palavras 5.930
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Não é a primeira vez que posto algo do gênero, mas sempre me deixa receosa. x.x
Espero que gostem, boa leitura. :3

Capítulo 1 - Algo como apresentações.


Fanfic / Fanfiction Note To Self. - Capítulo 1 - Algo como apresentações.

Era um fim de tarde, o sol estava a se pôr na costa oeste, em São Francisco. A temperatura nem chegava aos setenta na escala fahrenheit. A praia estava relativamente vazia, poucas pessoas e gaivotas. As ondas batiam contra as pedras em certa parte da costa. Eu estava sentada sobre uma delas e Tiffany ao meu lado, com os pés na areia.  A brisa pesada que vinha do oceano batia em nossos cabelos, jogando-os para trás.  Compensava o calor dos raios de sol sobre a pele. Nós duas observávamos o mar, sem trocarmos palavras até então.

- Viu? Vale a pena sair de casa às vezes. – Tiffany sorriu ao notar meu olhar contemplativo sobre as águas.

- Obrigada por me tirar de lá, então. – Ri baixo para Tiffany e então tornei a olhar as águas agitadas em um tom de verde escuro.

Era uma tarde de domingo. Tiffany havia acabado de voltar de Nevada, onde trabalhara por algumas semanas como parte do programa de estágio da universidade onde eu e ela estudávamos, em Palo Alto. Tiffany Hwang fazia e era apaixonada por veterinária. A sua paixão tomava bastante do seu tempo, nós dávamos jeito de nos falarmos com certa frequência, quando os horários da Hwang, um ano mais velha, permitiam.

Nossa relação era saudável até que discordássemos em algo. Éramos muito teimosas. Eu impaciente e Tiffany muito sensível. As discussões entre nós duas só tinham fim quando Tiffany saía de perto sem dizer mais nada, me deixando a falar com as paredes. Eu reconhecia que não dizia as melhores coisas quando irritada, apesar de que, com Tiffany, meu nervoso não durava mais do que um minuto. Logo estava normalmente a perturbando por diversão. Aliás, eram só em minhas brincadeiras que eu costumava pedir desculpas. Era bem raro voltar atrás em algo que dizia em uma confusão, por mais errado que achasse. Eu tinha o pior tipo de orgulho.

– Como foi em Virginia? – Puxei algum assunto, visto que o silêncio se fizera novamente presente.

- Incrível! Uma pena que tive que voltar... – Tiffany suspirou com pesar, brincando com os grãos de areia entre os dedos dos pés. Seu vestido de praia balançava conforme o vento. – Foi tão bom ter contato fora da universidade... Mas e você? Aquele estágio sobre o qual tinha comentado?

- Eu não sei... – Respondi ao tirar e colocar novamente o boné na cabeça, arrumando os fios de cabelo que caíam sobre os olhos. – Eu ainda estou vendo. De qualquer forma, não é para esse ano.

- Você não vai deixar essa passar, vai? Jessica, é uma oportunidade e tanto poder atuar como administradora pública em um estágio! – Tiffany olhou para mim, desacreditada. – Não vai voltar com aquela crise de “odeio o que faço”, né? Eu pensei que tinha passado!

- Não é isso, é verdade quando eu disse estar até que gostando! – Eu me defendi, ainda com os olhos perdidos no horizonte. Suspirei e então retribui o olhar de Tiffany. – Mas é em San Mateo, período integral e nos cinco dias da semana. Eu teria que me transferir de horário, encontrar um novo grupo para os trabalhos... E não ouço muitas coisas boas sobre o período noturno. – Fiz uma pausa e respirei fundo. – O salário é uma merreca, mas, bem, eu tenho vinte anos. Eu não quero ter que pedir dinheiro dos pais até para comprar um café.

- Então aceite. – Tiffany disse, em tom de decisão. – Você tem ótimas notas, seu currículo seria brilhante, e não seria apenas pelo “Graduada em Negócios por Stanford” estampado nele.

- É, eu tenho noção. Mas eu só ficaria em São Francisco para passar a noite, isso seria uma mudança bem complicada. – Tiffany assentiu, compreensiva. Eu sempre levei uma vida pacata. Era sempre ela que me levava para sair, já que o meu melhor amigo, Kris Wu, geralmente ia visitar-me em casa. Raramente saíamos para qualquer lugar juntos. – Sair cedo para uma cidade, ir para o Vale, depois fazer mais uma viagem de volta de mais de uma hora. Acha que eu dou conta?

- Muitas pessoas fazem isso. – Tiffany respondeu, balançando os ombros.

-Eu não sei se trabalhar em sede de governo bate com minhas doutrinas mentais. – Ri novamente ao que Tiffany negou com a cabeça. – Ah, eu quero te mostrar uma coisa.

- Que coisa? – Tiffany perguntou quando me viu tirar o celular do bolso frontal da calça jeans e lhe entregar. Tiffany pegou o aparelho depois de desbloqueado por mim. Era uma senha melosa e estúpida.

- Esse fim de semana, depois de ler uma matéria no jornal, eu fiquei numa de fazer um aplicativo para celular. Então eu fiz esse aí. – Eu me aproximei mais. O ícone era um unicórnio pixelado.

- “O Aplicativo da Jess”? – Tiffany riu do nome do aplicativo antes de clicar sobre o ícone quadrado, de bordas arredondadas. – Você realmente não sabe o que quer da vida. Qual vai ser a próxima ideia? Construir um celular?

- Você sabe que não, então não me dê ideia. – Tampei os ouvidos por brincadeira. Tiffany continuava de olho na tela do aparelho. Tinha uma pergunta que dizia exatamente “posso lhe fazer uma pergunta?” e só havia uma caixa de resposta, dizendo “okay”. Tiffany clicou sobre ela.

- “Você é gay”? Que pergunta é essa? – Tiffany estava prestes a devolver o celular, mas eu a impedi.

- Só diga sim ou não, não me pergunte! – E, enquanto eu dava risada, Tiffany clicou na simples caixa branca que dizia “não”. Outra pergunta surgiu: “seus amigos sabem que você é gay?”. As únicas respostas eram “sim” ou “não”. Tiffany fechou a cara e eu começou ri ainda mais alto. – Qual a utilidade disso?

- Nenhuma, eu estava entediada. – Eu tomei o celular de Tiffany antes que ela o jogasse na areia. Da última vez que quebrei um celular fiquei cinco anos sem um para ganhar um porcaria, que nem meu pai suportou por mais de dois anos. Tinha finalmente um aparelho bom e iria protegê-lo. Fui criada no auge dos devices, afinal.

- O que acontece se você responder sim? – Tiffany perguntou por curiosidade.

- O unicórnio diz que você é gay. Essa é a frase exata. – Lhe respondi e Tiffany negou com a cabeça.

- Vamos para casa. A maresia está te deixando chapada. – Tiffany se desencostou da rocha e eu me levantei dali. Peguei o par de all stars e só fui calçá-los quando chegamos à calcada da praia, onde eu havia deixado a bicicleta acorrentada a um dos postes de iluminação.

Montei em minha bicicleta e Tiffany se sentou de lado na garupa. Guiei-a sem pressa pelas colinas de São Francisco. Tomei a Lincoln Way rumo ao Sunset District, onde Tiffany morava. Deixei-a em frente à sua casa, uma cuja frente era completamente calçada em cimento, a Hwang deixava o carro há não muito tempo adquirido, o que não implicava em um veículo novo. Era algo dentro do orçamento de qualquer estudante. A casa era num tom de amarelo pastel, com molduras vermelhas nas janelas e portas da frente e da garagem, que era mais utilizada como depósito. Nos despedimos, então, sem muitas cerimônias já que nos veriamos no dia seguinte.

Continuei pedalando sozinha para Haight-Aushbury, pelas ruas decoradas com casas em estilo vitoriano e pequenos comércios independentes nas principais vias. A minha casa ficava em uma das intersecções menos movimentadas, em uma rua um pouco inclinada. Era uma típica residência de São Francisco. Frente estreita, uma escada que levava a porta principal e a sua direita, um pouco abaixo do nível da rua, uma garagem. Tinha dois andares mais o sótão, formando um telhado triangular. Revestida em madeira de tom bege e portas, janelas e detalhes da pintura em marrom.

- Yo, Jess!

Assim que desmontei da bicicleta, ouvi meu nome ser chamado. Encontrei Kris descendo as escadas da casa ao lado, uma em tons de verde. Era um garoto alto e magro, sempre bem vestido. Eu o conhecia desde a sétima série, do ginásio. Era meu melhor amigo e mais próximo, apesar de não sermos mais tão grudados agora, como costumávamos ser na época de escola. Cada um de nós tinha suas próprias obrigações com os estudos e vidas a dar rumo. Podíamos não nos falar todos os dias, talvez por semanas ou mais, mas sabíamos que estaríamos ali, na casa ao lado, sempre que precisássemos. Ah, e assim como eu, Kris teve de abdicar de um grande sonho em favor de alguma estabilidade financeira. Ele estudava comércio exterior em uma faculdade de São Francisco, ao contrário de seu tão sonhado curso de moda em Nova Iorque.

- Está de saída? – Ele perguntou, cumprimentando-me com um toque de mãos. Era costume, assim como dizer “yo”, ao invés de “oi”, ou “olá”.

- Na verdade acabei de chegar. Tiffany praticamente me obrigou a ir para a praia, disse que estava com saudades. – Não pude evitar sorrir de como Kris arregalou os olhos.

- Você? Na praia? Se suas bochechas não estivessem coradas eu não iria acreditar! – Kris zombou ao abaixar a aba do boné dos Golden State Warriors e cobrir os meus olhos, afundando o boné largo em minha cabeça. Para mim, o que diferenciava um melhor amigo dos demais é que as presunções dos outros quanto a você são sempre equivocadas.

- Não precisava humilhar. – Falei ao arrumar o boné mais uma vez, segurando a bicicleta com uma das mãos. – Onde vai assim, todo engomadinho?

- Quando eu não estou? – Kris respondeu com um sorriso torto. Foi minha vez de revirar os olhos enquanto o rapaz ria. – Aquele lance que te contei... Estou indo mais uma vez.

- Você e seus “lances”. – Soquei o peito do garoto, que riu sem graça. – Kris, vê se sossega!

- Eu só quero encontrar o cara certo... – Ele passou a mão pelos cabelos perfeitamente arrepiados com gel.

- Você sabe o que eu acho disso. – Respondi ao deixar a bicicleta sob seu cuidado para poder destrancar e erguer o portão da garagem.

- O que todos dizem, “vai aparecer quando você menos esperar”. – Ele me disse quando peguei a bicicleta de volta e entrei com ela na garagem, para guardá-la. Havia ali também o carro de meu pai, além de mais duas bicicletas; a dele e outra de Krystal, minha irmã caçula.

- Não, mudei de ideia. – Comecei a falar e o deixei esperando quando puxei a porta da garagem para baixo mais uma vez. Usei o mesmo molho de chaves, o que tinha todas as que precisava, para trancá-la. – Eu sou a pessoa certa para você! – Abri os braços ao me aproximar. Kris franziu o cenho na mesma hora.

- Você é louca, amor da minha vida, mas eu estou atrasado. – Kris falou após checar o relógio de pulso. Ele era um dos poucos jovens que usava um relógio sem um “i” na frente. Eu não tinha nem um, nem outro.

- E eu tenho trabalhos para amanhã. – A vida de estudante não é fácil. – Comentei e ele concordou com a cabeça. Apesar de estudar à noite e bem mais perto de casa, nossas responsabilidades e até mesmo a grade curricular eram parecidas.

- Bom divertimento. – Me cumprimentou com um novo toque de mãos e eu agradeci antes que se afastasse.

- Boa sorte, garanhão! – Provoquei-o quando ele continuou sua caminhada e, sem se virar para trás, acenou para mim com a mão que não estava no bolso da jaqueta de couro.

...

A segunda-feira começou como qualquer outra segunda-feira começava para mim, com aquele sono prévio e preguiça que se acumularia durante os cinco dias da semana. Eu nunca fui do tipo que funciona perfeitamente bem antes do almoço e acordar às cinco da manhã não era lá a coisa mais prazerosa a se fazer.

A única coisa que havia diferido dos demais dias até então foi que meu pai pôde me dar uma carona de carro até Stanford. Geralmente eu iria sozinha de transporte fretado da própria universidade ou, quando os horários de aula de Tiffany permitiam, ganhava uma carona no seu carro estiloso. Apesar de meu pai trabalhar em Santa Clara, não era toda vez que seus turnos de trabalho me permitiam transporte grátis. E não, eu ainda não tinha uma carteira de motorista.

- Você volta na hora do almoço hoje? – Depois de ter cruzado a Palm Drive e ter dado meia volta ao redor do famoso Oval do jardim, ele estacionou o carro e eu me apressei em desafivelar o cinto de segurança.

- Não. Vou pegar uma carona com Tiffany e aproveitar para a tarde fazer um trabalho. – Respondi ao pegar a mochila que eu havia deixado entre meus pés, no chão do carro.

- Se quiser vir antes, apenas me ligue. – Ele ofereceu e eu aquiesci com um sorriso.

Despedi-me rapidamente e logo o sedã prateado fez seu caminho para longe do campus. Apoiei uma das alças da bolsa sobre o ombro e fiz o mesmo caminho que diversos outros estudantes.  Coloquei os fones de ouvido e liguei a música do celular no aleatório. Estava um dia ensolarado e de céu limpo, e fresco o suficiente para que o calor não me desanimasse. Segunda-feira era o melhor dia da semana - não dos fins de - para mim. Era quando estava mais disposta e, confesso, sempre me sinto como uma protagonista de algum filme quando tenho trilha sonora. Não seria de se estranhar se meu jeito de andar mudasse com o tipo de música que estivesse ouvindo.

Eu já havia alcançado o pavilhão da escola de negócios quando uma figura bem conhecida entrou no meu campo de visão; há alguns metros e de costas, mas não havia como não reconhecer Seo Juhyun. A história de como a conheci é um tanto engraçada. Devido ao meu hobby de escrever para a internet. Foi num tempo em que eu não estava muito bem emocionalmente, na verdade, eu não me lembro do motivo, nem muito bem do que se passava comigo na época – memória não é meu forte – mas foi à vez que descobri como era estar no fundo do poço. Ela me procurou em modo privativo, com uma mensagem, e eu sorri ao lê-la. Desde então venho sorrindo e tentando fazer com que ela também sorrisse.

Eu dava bastante valor a nossa amizade, e Seohyun era uma garota incrível. Prova disso é que, com dezessete anos, Seohyun, como eu a chamo, já estava no seu segundo semestre de Engenharia da Computação. Ela não terminou o ensino médio por ter passado em Stanford com uma bolsa integral. Se isso não é ser incrivelmente inteligente, eu não sei o que é ser então. Sua personalidade era adorável, também. Eu costumava brincar que, quando crescer, queria ser como ela, mas eu tinha consciência de que nem a sua altura, literalmente, eu iria chegar algum dia. Ah, e ela fazia temakis deliciosos. Lendários.

- Bu! – Eu era a melhor pessoa para cumprimentos. Se você fosse realmente próximo a mim, nunca me ouviria dizer “oi”.

- Ah, oi unnie! – Ela me chamava com o pronome de tratamento coreano. Eu não via necessidades para aquilo, ambas éramos nascidas na Califórnia. Mas confesso, eu gostava. Unnie soa legal.

- O que está fazendo por aqui? – Tirei os fones de ouvido, deixando o fio ao redor de meu pescoço. Seohyun tinha nos braços um enorme livro de alguma coisa de programação.

- Algum desocupado infectou os computadores da sala que iríamos usar hoje. Então vamos usar os de vocês emprestado, tudo bem? – Ela riu ao me pedir permissão e eu fiz bico e franzi a testa, como se estivesse refletindo sobre o assunto.

- Não. – Respondi e ela me empurrou pelos ombros enquanto ria. – Ah, eu fiz algo esse fim de semana! Acho que você vai gostar. – Lembrei-me de minha brincadeira do sábado e parte de domingo. Desconectei os fones de ouvido e lhe dei o telefone. Seohyun soube onde clicar, e já tinha um sorriso assim que viu do que se tratava. Deixei que ela brincasse o quanto quisesse. Na verdade, não tinha muito o que fazer naquele “aplicativo”, então ela logo me devolveu o aparelho.

- Está estudando programação, unnie? – Ela me perguntou, animada. Infelizmente, eu teria que frustrá-la.

- Não. Eu usei o Swift. Peguei um desses tutoriais de “seu primeiro aplicativo” e troquei algumas sentenças. Queria saber personalizar mais, sabe, uns arco-íris animados num fundo rosa. – Seohyun desatou a rir novamente e entregou o celular para mim. – Eu ainda prefiro escrever textos a códigos.

- Eu compro sua ideia. – A mais nova disse em um tom decidido.

- Vamos formar uma parceria. Seremos as próximas Larry Page e Sergey Brin do Vale do Silício. – Dessa vez Seohyun riu ainda mais alto e me empurrou de leve mais uma vez. Ah, só para mencionar. Seohyun era de Shoreline West, em Mountain View.

- Você é ambiciosa. – Seohyun poderia estar até certa, mas não sei se minha ambição recaía sobre mesmo significado que tinha para as outras pessoas.

- Começa a fazer parte de você quando frequenta meu curso. – Foi o que me limitei a dizer no momento. – Vai para a aula, eu também estou quase atrasada. – Bati de leve em suas costas e corri, com Seohyun a se despedir apressadamente, mas provavelmente continuou a caminhar no mesmo ritmo. Eu não gostava de chegar antes dos professores, questão de preferência. Não acho que mereça uma explicação lógica, se é que há alguma.

...

Creio que não há necessidade de dissertar muito sobre as aulas da segunda-feira. As primeiras aulas eram ocupadas por coisas teóricas de uma organização, como os processos, por exemplo, e as restantes matemática, que de nem há quilômetros de distância passava do meu tipo de aula favorita. Não que eu fosse horrível com números, eu me dava bem com eles e até havia aplicado para arquitetura e engenharia na universidade há quase dois anos atrás, mas os problemas e explicações brincavam com meu sono.

Eu não era tão chegada assim aos meus colegas de sala – fosse por falta de identificação ou sei eu lá o motivo de ter implicado com a maioria deles, minha seletividade com pessoas era de certo bipolar – então apenas me despedi das garotas mais próximas de mim, tanto fisicamente quanto porque eram as que dividiam suas notas de trabalho comigo. Com a mochila nos ombros novamente, fui ao refeitório mais próximo, que também era o maior e onde a maioria das pessoas ficava, coincidentemente.

Estava novamente com os fones de ouvido ligados, com o fio passando por baixo da roupa. Nas mãos uma bandeja com meu almoço, algo com bastante salada e uma garrafa dessas de suco saudável e quase sem açúcar que todos deveriam beber. Meu prato era mais consciente do que os dos atletas ou nutricionistas, na maioria das vezes. Eu também preferia comer sozinha. Até porque Tiffany geralmente ficava em outro refeitório, mais próximo a sua sala de aula.

O preferia fica duas vezes no passado. Ao início desse ano, conheci uma futura psicóloga. Foi um primeiro encontro bem estranho. Eu estava bem em minha introversão disfarçada de timidez, comendo meu almoço em uma das mesas dos cantos. Era dia de hambúrguer para todos, não me perguntem quem na cozinha achou que fosse uma boa ideia. Eu coloquei o sanduíche e o refrigerante para dentro sem dificuldade, não sou hipócrita para pagar de consciente do que como o tempo todo. Só não havia jeito de me fazer comer as batatas, essas não. Foi por isso que a garota, no seu primeiro semestre na época e eu em meu terceiro, perguntou se podia pegá-las. Ela era nova e não conhecia ninguém, então também havia procurado o canto mais sossegado naquele dia. Eu também não conhecia muita gente nessa universidade.

Foi assim que Choi Sooyoung se tornou minha colega de almoço. Eu criticava o tanto de vezes que ela repetia a comida e ela comia minhas batatas, mas nós conversávamos também. Coisas loucas eu descobri sobre ela, como ela acompanhar os mesmos cantores que eu, ler as mesmas coisas que eu, e até ler as coisas que eu mesma escrevia! Claro, tentei parecer acostumada com isso e não surtar, mas até hoje não sei se isso funciona. Nossa amizade se estreitou ainda mais enquanto acompanhamos o retorno de um desses grupos femininos de pop coreano, nosso favorito em questão, enquanto tomávamos um delicioso sorvete, o clássico de três sabores. Por muito tempo, desperdiçamos a hora do intervalo com napolitano e soshis.

Eu a encontrei na mesa em que costumávamos sentar, perto ao banheiro feminino. Deveria ser por isso que estava sempre vazia. Sentei-me a sua frente e tirei os fones do ouvido. Então pela primeira vez naquele dia ela olhou para mim e sorriu enquanto mastigava. Seu prato era mais como uma montanha de macarrão, molho e almondegas. O copo mais parecia um balde de xarope de cola gasificada.

- Eu só consigo pensar em “A Dama e o Vagabundo” quando vejo isso. – Referi-me ao seu prato enquanto abria a tampa da minha garrafa de suco, com certo esforço.

- Nós podemos comer junto um espaguete, o que acha? – Sooyoung me respondeu e sugou parte de um fio do macarrão para fora. Usou o garfo para estendê-lo em minha direção. – Vem, vai ser lindo!

- Vai ser horrivelmente gay, eu passo. – Respondi ao rir baixo e Sooyoung deu de ombros e puxou o resto do macarrão para dentro. Seus lábios avermelhados não estavam assim por conta de batom. – Ah, falando nisso! – Tirei o celular do bolso outra vez e, assim como havia feito com Seohyun, deixei que Sooyoung se virasse com aquela porcaria de aplicativo que eu havia honrado com meu nome.

- Você é ridícula. – Sooyoung riu enquanto seu indicador fuçava na tela. Fazia breves pausas para levar o macarrão à boca. – O unicórnio me pegou.

- É um unicórnio esperto. É o meu unicórnio. – Sorri e peguei o celular quando ela o deslizou de volta para mim, pela mesa. Sooyoung negou com a cabeça ainda com um sorriso e eu me concentrei em comer, permiti a shikshin que fizesse o mesmo, então.

O almoço se seguiu em silêncio, na maior parte. Fora o barulho de nossa mastigação, trocamos algumas palavras sobre o nosso dia de aula. Ela falava mais que eu. Eu ria e comentava suas histórias, ocasionalmente lembrando-me de alguma da minha parte. Apesar de tanto falar, quando Choi Sooyoung finalizou seu almoço e copo de refrigerante, eu ainda estava dando as últimas garfadas na minha comida e ainda tinha metade de uma garrafa de suco ao lado.

- Seria uma honra te fazer companhia enquanto termina de comer, mas as meninas estão me esperando na biblioteca. – Sooyoung chamou minha atenção. Passava um guardanapo nos lábios, passando o molho laranja para o papel.

- Sem problema. – Sorri de boca fechada.

- Nos vemos amanhã, Jung. – Ela se levantou com a mochila nas costas e a bandeja vazia nas mãos.  Eu acenei para ela e a olhei sobre a garrafa de suco. Não fiquei muito tempo sozinha, porém. Tinha acabado pelo menos com a comida quando uma mão tocou meu ombro. Só pelas unhas enfeitadas, já sabia de quem se tratava. Antes mesmo de ver o sorriso de seus olhos. – O que faz por essas bandas?

- Na verdade eu tenho almoçado por aqui desde a semana passada. – Tiffany me respondeu. Na outra mão, ela tinha uma bandeja com seu almoço intacto. – Só não vim lhe chamar porque sempre está acompanhada... Aliás, quem é a garota?

- Choi Sooyoung, segundo semestre de psicologia. – Tiffany, a veterana do sexto semestre de seu curso, balançou a cabeça positivamente.

- Eu sei que você já comeu, mas venha me fazer companhia. – Tiffany disse em tom pidão e apertou de leve o meu ombro, onde sua mão continuava a repousar.

- Tudo bem, só me deixe levar essa bandeja para – Tiffany não me deixou responder. Pegou minha mão e me puxou. Eu só tive tempo de pegar minha bolsa e tampar o suco, para que não tingisse minha camiseta branca de colorido. – Vou aproveitar essa sua delicadeza para lhe comunicar que me dará uma carona até em casa,

- E se eu não tiver lugar para você? – Tiffany me perguntou. A brincadeira estava mais que clara pelo sorriso que ela tinha no rosto.

- Você sempre tem lugar para mim. – Sorri convencida e ela seguiu caminho ao dar risada.

- Quero te apresentar uma amiga. Você fez suas colegas de almoço, eu fiz uma também. – Eu ignorei o plural. Tudo bem que Sooyoung dava quase duas de mim de altura. Também comia por nós duas, mas era uma colega só.

- Não sei se quero conhece-la. Eu não em dou bem com suas amigas. – Comentei antes de levar o gargalo da garrafa aos lábios. Tiffany revirou os olhos com minha resposta. – Mas eu não tenho escolha, não é mesmo?

- Que bom que sabe. – Recebi também um sorriso como resposta.

Tiffany parou em uma mesa mais ao centro, numa parte mais movimentada do refeitório. Além de sua bolsa reservando o lugar, a frente dela estava outra garota que dividia sua atenção entre o próprio almoço, um computador e um caderno com uns rascunhos de desenho e anotações. Eu não me lembrava de ter a visto antes, mas o campus era enorme.

- Desculpe a demora. – Tiffany sorriu para a garota, que parecia mais nova que ela, a propósito. Ela sorriu, como se dissesse tudo bem para a Hwang e depois olhou para mim, provavelmente se perguntando o que eu fazia ali. Nem eu sabia, ao certo. – Essa é minha amiga de quem estava lhe falando, Jessica Jung. – Ergui uma de minhas sobrancelhas para Tiffany. Estava falando o quê?

- Kwon Yuri. – Meus olhos deixaram de questionar Tiffany, em silêncio, quando a garota falou diretamente comigo.  Cabelos em um tom de castanho escuro, combinando com os olhos, sorriso nos lábios e uma mão de pele bronzeada se estendendo em minha direção.  Notei também a jaqueta do time de esporte de Stanford em tons de cinza e vermelho, o boné também em rubro nos detalhes, mas preto na maior parte e o pequeno alargador na orelha que não estava coberta pelos cabelos. Tudo isso enquanto retribuí ao aperto de mãos. Sou ótima observadora, me gabo disso.

- Ela é da turma de design que abriu esse semestre. – Tiffany continuou com as apresentações. Arrastou-se um pouco para o lado e me deu espaço, puxou-me pelo pulso para que me sentasse ali também. Yuri concordou com o que dizia ao balançar a cabeça. É, eu provavelmente ainda não tinha a visto por aí. – E então, Yuri, o que está achando?

- Pensando em fugir. Já tenho trabalho para fazer até o fim do mês. – Yuri coçou a nuca ao responder a interlocutora da conversa. Eu aproveitei para dar uma olhada em seu caderno, sem muito sucesso.

- Já quer desistir? Não vai aguentar os quatro anos. – Tiffany bateu palmas ao rir e eu ri baixo. Era verdade. Ainda me lembro da experiência traumática do meu primeiro semestre.

- Eu tenho que terminar. – Yuri falou mais uma vez. Admito que fiquei curiosa do porquê, mas, se não disse que sou extremamente desconfortável perto de desconhecidos, fica aí relatado.

- A Jessica está no quarto...? – Tiffany me olhou com certa dúvida e eu aquiesci em confirmação. – Está aí, quarto de sua faculdade de negócios. Nossa futura empresária!

- Ou operadora de caixa do McDonald’s. – Respondi baixo, sem me importar muito se pareceria rude ou não. Por consequência, levei um leve beliscão de Tiffany.

-Ela é sempre engraçadinha assim. – Tiffany revirou os olhos. Foi minha vez de sorrir amarelo. Yuri ria para nós duas.

- Eu sou uma graça... Na maior parte do tempo. – Sorri brincalhona para as duas. Tiffany, tipicamente, negou com a cabeça e Yuri continuou a rir, quieta, talvez por falta de intimidade para fazer o mesmo que a Hwang.

A conversa continuou pelo restante de hora que tínhamos naquele intervalo. Tiffany era quem mais falava, seguido de Yuri. Eu dizia algo quando achava que tinha uma opinião convicta do assunto – a maioria deles envolvendo estudos – ou quando uma pergunta me era feita, a maioria por Tiffany. A Hwang também foi a primeira a deixar a mesa, alegando que teria aulas práticas importantes pela tarde e não poderia se atrasar. Se eu dissesse que fiquei completamente confortável na presença de Yuri apenas estaria mentindo. Estava tímida, mas o pouco que havia aprendido sobre ela não se adequava aos padrões das clássicas amigas de Tiffany. Ela era diferente.

Fui eu que saí em seguida. Aleguei que tinha um trabalho a terminar e com um sorriso me despedi de Yuri rumo ao laboratório de informática livre. Ali era sempre um freezer, no inverno ou verão. Era para o bem das máquinas e para o mal para o meu sistema imunológico. Se bem que, talvez por causa daquele treinamento intensivo de mudanças drásticas de temperatura, eu não havia ficado doente ainda esse ano.

...

É verdade que quando se está ocupada as horas passam voando, mesmo que seja quando se faz algo tão tedioso quanto pesquisa bibliográfica para um trabalho acadêmico. Meus olhos estavam tão concentrados no meio da tela que não me importei em ver as horas. O som do meu celular vibrando contra a mesa de madeira foi o que me despertou para a vida. Era uma mensagem de Tiffany que dizia exatamente “se você não aparecer no estacionamento em cinco minutos, vai ter que correr atrás do carro até São Francisco”.

Eu nunca corri tanto por uma carona em toda a minha vida.

Toda atrapalhada me aproximei do Cavalier da década de noventa de Tiffany, de um vermelho quase vinho. Abri a porta com pressa e me joguei contra o banco de couro antigo, deixei a bolsa no chão e passei o cinto pelo meu corpo.

- Faltava meio minuto. – Tiffany sorriu para mim. Nunca aqueles olhos me pareceram tão sádicos.

- Deus, olha só o estado do meu cabelo! – Reclamei por ela ter me apressado e me estiquei para poder usar o retrovisor de espelho, sem ter de mexer nele e acabar com a regulagem que Tiffany havia feito. Também, sem pedir muita permissão, conectei um cabo de meu celular a central de som. Podia ser um carro antigo, mas era bem cuidado. Tiffany também gostava de ouvir música em alta e boa qualidade.

- Não é minha culpa, eu já estava te esperando há um bom tempo. – Tiffany era uma boa motorista, eu demorado mais para tirar o carro da vaga apertada em que estava. Eu confiava nela como meu volante, e eu era uma boa copilota.

- Desculpa, mas acabei por me distrair com o trabalho. – Sorri amarelo e Tiffany me respondeu com um sorriso tranquilo. Eu sabia que ela não estava realmente brava.

- Não peça desculpas a mim. Eu ia dar uma carona para Yuri, ela mora aqui pertinho, mas sua demora foi tanta que ela preferiu ir a pé. – Com os olhos fixos a rua que levava a estrada, o caminho mais rápido até nossa cidade, Tiffany voltou a falar.

- Uau, você até a leva para casa? Agora entendi seu motivo em me apresentar a ela. – Sorri de canto para Tiffany, que me encarou como se eu estivesse louca.

- Você está louca? – Pois é, exatamente como eu disse. Eu só queria que ela olhasse para a rodovia novamente. – Você sabe que não estou a fim de relacionamentos agora, não depois de Taeyeon.

- É, ela foi uma babaca. – Não medi minhas palavras. Tiffany continuava a olhar feio para mim. – Você pode, por amor a vida, olhar para frente?! – Tiffany suspirou e tornou a olhar o caminho, eu aumentei o som do carro em uns dois volumes e abri a janela. Outro fato sobre mim é que sou bastante inquieta. Não vou nem comentar quantas vezes iria mudar minha posição naquele banco até que chegasse em casa.

- E então, o que achou de Yuri? – Tiffany me perguntou e me olhou rapidamente, já que fazia uma ultrapassagem.

- Tem certeza que não está interessada? – Perguntei retoricamente ao dar risada. Fui tão retórica que nem ao menos recebi um revirar de olhos dessa vez. – Ela é legal.

- Só legal? – Eu não entendi bem  pergunta. Foram cinco minutos de conversa, eu não sei o que poderia achar mais além daquilo. – Eu vi que continuaram a conversar quando eu saí.

- Ela fala bem e é divertida. Tem um estilo e alargadores legais também. – Talvez essa não fosse a descrição detalhada que Tiffany queria. Ela deu risada assim que parei de falar. – O que foi?

- Sério que você julgou a garota desse jeito? – Tiffany ainda ria, desacreditada. Eu balancei a cabeça em confirmação. Eu sou bastante visual.

- Isso conta vários pontos na escala. – Declarei. Foi a vez de Tiffany de sorrir  para mim. – Se você não tem uma escala para separar babacas de pessoas legais o problema é seu.

- Nossa, me desculpe. – Tiffany torceu o nariz. Não me surpreenderia se ela tivesse ficado realmente ofendida. – É só que para você quase todo mundo é babaca.

- Originalidade é outro critério que pesa bastante. Eu só viro amiga de gente louca. – Sorri abertamente e olhei para Tiffany de relance.

- Você é a pior delas. – Tiffany me mostrou a língua e retornou a atenção para o asfalto. Ficou alguns segundos sorrindo em silêncio antes de voltar a falar. – Ela queria te conhecer.

- Sério? – Minha resposta não foi imediata, assim como a última palavra de Tiffany. Se eu soubesse daquilo antes, talvez tivesse me comportado de outra forma... Não sei se para o melhor ou pior.

- Sim. Eu falo bastante de você, principalmente quando me perturba com algo, tipo um unicórnio. – Tiffany me cutucou com as palavras e eu só pude rir baixinho pela respiração.

- Isso tudo é amor reprimido? – Fiz biquinho para ela que desviou tão logo o olhar, provavelmente de saco cheio.

- Venha almoçar com a gente novamente amanhã, em troca lhe dou uma carona. – Tiffany fez o convite. Não é como se a carona fosse um pré-requisito para eu lhe conceder minha companhia. Não fazia diferença.

- Posso levar Sooyoung também? – Aquele sim era requerimento importante. Não poderia deixar quem tanto admirou o sabor de um autêntico sorvete napolitano comigo, por tantas vezes, à deriva.

- Sem problemas. – Tiffany deu de ombros. Acreditei que elas se dariam bem. – Agora abra mais sua janela e aumente o volume, sabe muito bem que essa é minha música favorita! – Tiffany falou empolgada ao abaixar a própria janela quando a canção começou a tocar. Tão empolgada quanto eu fiz o que me foi pedido e, como algo a mais, comecei a cantar, incitando a Hwang a fazer o mesmo.

Era em momentos como aquele que eu me esquecia de todos os problemas e frustrações da vida e apenas curtia o instante. Eu era grata pelas pessoas que me cercavam, cada uma a sua maneira. Claro que já tive meus arrependimentos, também não esperava agradá-los ou que fosse agradada a todo tempo, mas eram pessoas de quem eu não abriria mão tão cedo. Talvez com a adição de mais duas... Ou três, quem sabe, das quais ainda não tive a oportunidade de relatar ou ainda não tive a necessidade. Ainda não era a hora.

Naquele pôr do sol de segunda feira eu sabia que as coisas se encaminhavam para um dia bom. Era um tempo que eu queria que fosse quiçá eterno, e o deixarei eternizar aqui. 


Notas Finais


Jessica e Tiffany estavam ouvindo I. u.u

PS: História nomeada e com formato baseado nessa música: https://www.youtube.com/watch?v=GLR8rrdZl1o


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