História O Anel do Imperador - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Tormenta
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Fantasia, Oriente, Romance, Rpg, Tormenta
Exibições 5
Palavras 5.006
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Fantasia

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 7 - Problemas de Uma Terra Distante


O grupo havia percorrido as estradas até a cidade e não tiveram nenhum imprevisto durante o caminho. A estrada de terra batida era bem protegida e vigiada, por causa dos ataques de monstros e feras às caravanas de comércio. Quando não encontravam um posto da milícia que fazia a segurança da rota encontravam um destacamento em patrulha. Nem mesmo em um trecho, de mata fechada que engolia a estrada, sequer uma criatura os impediu de continuar a viagem, eles atribuíam toda essa sorte a aura de paz que emanava de Allen.

Com isso os três sorriram se sentindo abençoados quando viram a cidade quilômetros a frente, no final da estrada, que descia colina abaixo.

Collarthan, despontava no horizonte com seus muros de pedra clara. A maior cidade turística do reino, era um lugar preferido tanto para os estrangeiros como para os próprios cidadãos de Sambúrdia. Para estes, ter uma residência na beira da Baía dos Selakos era um status social inigualável.

Situada em um dos pontos mais a leste, a cidade se destacava não pela produção agrícola comum em todo o reino, mas sim pela pesca e pelo comércio interno. Todo o cuidado do poder público era voltado para a segurança e diversão de seus visitantes, por causa disso não se via tantos avanços de uma metrópole, ainda mantinham um ar interiorano. Mesmo com suas ruas cuidadosamente pavimentadas e arborizadas, por suas casas, todas pintadas de branco com gesso e cal e pelo formoso palacete do lorde responsável por aquelas terras, que ficava sobre uma colina no lado oeste da cidade.

Se aproximando perto do portão de ferro (mais decorativo do que defensivo), passaram pelos estábulos, que ficavam em uma parte fora da cidade por questões de higiene e segurança. Logo depois o grupo se reuniu e todos concordaram em falar, caso fossem interceptados pelos guardas, que o objetivo deles ali tinha a ver com um tio doente e um clérigo para salvá-lo. Não queriam contar sobre a venda do anel para ficar longe de suspeitas.

Porém não precisaram. A cidade recebia seus visitantes de braços abertos o único obstáculo foi um dos guardas gritar para Brannford vestir alguma coisa em vez de, por ironia, andar como um bárbaro.

Caminharam pelas ruas estreitas onde, uma hora ou outra, precisavam dar espaço para uma carruagem de algum nobre caipira passar.

Rey não sabia, mas não havia uma nobreza de verdade em Sambúrdia. Todos que possuíam muito dinheiro ali poderiam comprar joias, propriedades e roupas caras, mas os modos continuavam sendo "rústicos perto de nobres, como por exemplo, os da capital Valkarya. Claro, para o garoto que nunca havia saído do Celeiro de Arton( 1) as cenas que via eram suficientes para encantar-lhe os olhos. Já para Allen, que havia conhecido todo o leste do Reinado, aquelas pessoas eram a tentativa de algo maior.

– Temos que ir até a praça do porto, lá devem estar os mercadores. Vendemos o anel e então poderemos aproveitar a cidade! - Disse Rey animado.

– Brannford acha que Rey deveria saber trocar melhor seu ouro – Analisou o bárbaro para a surpresa de todos.

– Eu sei economizar muito bem, Brann, mas com o que é necessário.

– Eu acho que você está colocando fé demais que conseguirá um bom preço por um anel amaldiçoado – Disse Allen cruzando os braços.

– Se ninguém colocá-lo não saberão que ele é – Disse Rey dando de ombros – Alias, depois que vendê-lo não é problema meu.

– Vai colocar a vida de pessoas em risco por causa de ouro? - Allen perguntou indignado.

– Tá bem! - O garoto ergueu as mãos na defensiva – Eu digo que o anel é amaldiçoado, ok? Quem sabe, se tivermos sorte, o mercador não dobra o preço.

– Como um anel amaldiçoado venderia mais?

– Um anel com história é melhor do que um anel sem nenhuma – Sorriu.

Allen bufou.

Seguiram até o destino escolhido por Rey. Fácil de localizar, seguindo a rua principal e o cheiro fresco de peixe. Quando deram por si já estavam no mercado do porto onde um círculo de várias tendas se abria para inúmeras pessoas apreciarem os produtos. Mais a frente galés e caravelas estavam ancoradas e de velas arriadas. Homens robustos descarregavam produtos de outros reinos e terras distantes além-mar.

Rey procurou nas casas da praça do porto por uma joalheria digna de sua atenção. Quando achou seguiu a passos largos para a “Pérola do Oceano”, uma casa estreita pintada de azul com várias joias expostas numa vitrine amarelada pela maresia.

– Ei, Rey – Allen o puxou pelo braço antes que pudesse entrar – Esqueça essa ideia, vamos embora.

– O que? - Rey olhou incrédulo para o clérigo – Eu preciso desse ouro. Nós precisamos se queremos seguir viagem.

– Há outras formas de se ganhar dinheiro, podemos ajudar no porto, por exemplo.

– Brannford consegue erguer várias caixas – Acrescentou.

– Vocês estão loucos? Acha que vou levantar caixas?

Rey se desvencilhou de Allen virando-lhes as costas. Abrindo a porta da joalheria e entrando sozinho.

                                                                                      

                                                                                                    . . .

A joalheria “Pérola do Oceano” era uma entre dezenas de outras no mercado de Collarthan, seu dono era um homem velho chamado Gregori Seaper que por toda sua vida trabalhara ali. Não possuía família, e gostava disso, pois todo o lucro que ganhava, gastava para ele. Gastava seu ouro em grandes festas em seu casarão na cidade, que ocorriam praticamente toda a semana, onde apenas homens poderiam frequentar. Vários maridos deixavam suas esposas e filhos para uma noite de liberdade, onde poderiam ser quem eles verdadeiramente eram.

Foi em uma destas festas que Gregori conhecera um jovem meio-elfo, seu corpo delgado e cabelo curto com uma franja ensebada penteada para cima, chamaram sua atenção. Mal sabia que este encontro o levaria a uma situação não muito digna naquela tarde…

– Não reclame, a culpa foi toda sua – Disse o meio-elfo – Você realmente achou que eu daria bola para um velho babão como você? - Ele olhou debochado para Gregori que estava apenas com sua roupa de baixo, uma sobrepele amarelada com botões dourados. Mãos e pernas atados em uma corda grosseira. Não conseguia falar, sua boca estava entupida por um lenço vermelho o qual não conseguia tirar. Os olhos arregalados olhavam para aquele jovem que estava prestes a lhe levar à falência.

– Você acha que este colar combina comigo? - Ele mostrou um colar de ametistas para Gregori que grunhiu tentando se soltar. O meio-elfo sorriu e colocou em um saco que já estava pesado de tantas joias – Está brabo comigo? Não se preocupe, nunca mais nos veremos – Sorriu amarelo.

A troça foi interrompida quando um garoto maltrapilho entrou no recinto. O meio-elfo levou um susto e olhou para ele com os olhos negros arregalados.

– Olá, gostaria de vender uma joia – Rey Blackstar se encaminhou até o balcão onde ficou aguardando uma ação do outro, como ela não veio, insistiu – Vai ficar me encarando até quando? Gostaria de fazer algum dinheiro aqui – Colocou as mãos na cintura, ainda irritado pela discussão com Allen.

– Ah, sim, claro – O meio-elfo se encaminhou para o outro lado do balcão, largando o saco de joias no chão e pegando os óculos de joalheiro, um instrumento de tiras de couro que se colocava na cabeça, com diferentes lentes que aumentavam ou diminuíam a proximidade do campo de visão – Pode me chamar de Johnny – Sorriu amistoso quando percebeu que Rey era um belo homem. Dentes perfeitos, rosto anguloso e delicado, exóticos olhos vermelhos.

– É este anel aqui – Ele coloca o objeto no balcão e Johnny pega-o fascinado – Feito de ouro, tem inscrições em seu interior, mas não conheço o idioma. E tenho que lhe dizer que é amaldiçoado.

Os olhos de Johnny brilharam gananciosos enquanto observava a peça.

– De onde você roubou isso? - Perguntou, julgando pelas roupas do garoto.

– Está me ofendendo assim, eu sou um aventureiro e futura lenda – Respondeu orgulhoso – Anote este nome para o futuro, Rey Blackstar! Talvez até lá este anel valha mais do que o preço que você me dará por ele.

– Futura lenda, é? Deve roubar o coração de muitas pessoas com estas palavras… - Sorriu sob encanto.

– Você nem faz ideia – Retribuiu o sorriso.

Gregori interrompe a conversa quando de dentro do cofre derruba uma caixa de ferramentas que caem no chão se espalhando, causando um barulho incômodo.

– O que foi isso? - Rey perguntou intrigado se dirigindo para a porta do cofre.

– Ah, nada, não é nada – Johnny se colocou a frente – Sabe o que é, infelizmente estamos fechando – Disse trancando a porta do cofre – Mas volte amanhã que terei um preço estipulado do anel – Entregou o objeto para o garoto.

– Mas eu preciso deste dinheiro – Protestou.

– Amanhã! - Disse levando-o gentilmente para a porta e trancando-a assim que Rey saiu.

 

                                                                                                                  . . .

– Joealheiro estranho, esse… - Reclamou para Brannford e Allen, que o esperava impaciente.

– Você vendeu o anel? - O clérigo questionou.

– Ainda não, mas retornarei aqui amanhã. Ele disse que estava fechando… Nem quis olhar as escrituras no interior do anel - Rey ergueu o objeto para olhá-lo.

– Escrituras? – Perguntou Allen sentindo que explodiria.

– Ah, eu não lhe contei? - Perguntou Rey percebendo que falou demais – Bem, agora não importa – Levou o anel ao bolso, mas antes que pudesse guardá-lo o clérigo, em um movimento rápido o tirou de sua mão.

– Devolva isso imediatamente! - Rey bradou – Precisamos do dinheiro.

O garoto avançou contra o clérigo que o segurou esticando o braço para Brannford pegar o objeto.

– Este anel transforma pessoas em bestas e agora possuí escrituras? Eu não vou deixar ele cair em mãos inocentes, Rey. Desista.

O bárbaro estava visivelmente confuso, não queria se meter na briga dos dois, eles eram seus amigos. Segurava o anel com a ponta dos enormes dedos, na altura do peito esperando o conflito acabar, quando uma sombra escura saltou como uma flecha agarrando a joia e sumindo na multidão.

– Allen, deixe de ser estúpido!

– Rey… Allen… - Brannford balbuciou como uma criança que acabara de fazer uma travessura e se arrependera.

– Deixe você de ser estúpido, seu cabeça dura! - Exclamou o clérigo.

– Pessoal…

– Cabeça dura? Eu não vou ficar pedindo esmola porque você tem consciência pesada! - Rey falou.

– Pessoal… - O bárbaro repetiu.

– Por Marah estou perdendo minha paciência com você!

– Pessoal! - O bárbaro gritou e os dois pararam de se engalfinhar, olhando para ele assustados.

– Alguém roubou o anel! Foi por lá! - Ele apontou.

Não pensaram em saber o motivo, apenas correram. Precisavam reaver o anel por objetivos distintos. Allen sabia, quem quer que tenha sido o ladrão, era bom por passar despercebido na frente de Brannford.

Enquanto corriam notaram murmúrios e gritos de espanto vindo de pessoas à frente, e também viram uma sombra preta, pequena, se esgueirando entre as pernas dos pedestres. Logo em seguida notaram outra saltando do chão para o teto de uma tenda e depois para o telhado de uma casa com velocidade absurda.

– Arrastão! - Um dos mercadores gritou.

E um par de soldados foi visto correndo na direção dos criminosos, mas foram despistados com facilidade, as sombras passavam pelo meio das pessoas.

– Por aqui! - Allen gritou para seus amigos vendo a aura do anel escapar por entre uma ruela.

Correram, pois não podiam perder o anel. Brannford era o mais rápido entre os dois. Acostumado a correr na floresta durante as caçadas de sua tribo.

Rey e o clérigo vinham mais atrás.

– Culpa sua! - O garoto de olhos vermelhos acusou.

– Cale-se! - Allen rebateu.

Estavam próximos dos pequenos assaltantes. Podiam vê-los através do telhado. Eram seres magrelos e erráticos trajando roupas de um tecido preto que cobria todo seu corpo. Com exceção de uma área em seu rosto que ficava a mostra para poderem enxergar.

O trio nunca havia visto algo parecido, mas faziam dois dias, desde que encontraram o anel, que viam coisas estranhas demais.

De repente mais dois bandidos apareceram, com o mesmo tamanho e porte dos outros, saltando entre os telhados, por cima de Brannford. Com velocidade tiraram, de uma espécie de túnica, dois objetos metálicos que arremessaram contra o bárbaro. Ele sem tempo para se defender apenas ergueu os braços protegendo o peito e a face.

Os objetos cravaram em sua pele como adagas, sangue escorreu. O bárbaro praguejou parando no meio do caminho.

Allen e Rey só ultrapassaram, seguiram correndo e os atacantes já haviam sumido a plena vista, porém os bandidos que estavam com o anel ainda podiam ser vistos por sua visão Colenniana.

Quando estes dobraram para a direita pulando entre as casas os garotos também foram obrigados a seguir, entrando por um beco estreito que levava até um bairro periférico. Os assaltantes agora podiam ser vistos mais a frente, haviam descido das casas e seguiam pelo chão lamacento com uma destreza incrível, pois nunca ameaçavam cair.

A dupla seguiu atrás. Allen fez uma oração para sua deusa e um grupo de gavinhas brotou do chão para prender as pernas de um dos fugitivos, mas ele desviou com facilidade, em retorno atirou dois objetos metálicos, um deles errou o clérigo e o outro pegou de raspão em seu ombro direito, abrindo um corte que manchava a túnica branca de escarlate.

Mas isso não o esmoreceu, continuaram correndo.

A perseguição levou-os para outro beco e também para uma emboscada. Os dois pequenos criminosos apertaram o passo enquanto outros dois estavam esperando, um de cada lado do terraço das casas. Do lado deles haviam diversas caixas de entulho empilhadas as quais empurraram sobre os garotos assim que eles passaram perto.

Rey e Allen estavam focados demais que não perceberam a pilha caindo sobre eles antes que fosse tarde demais. Por sorte o garoto de olhos vermelhos conseguiu saltar para frente rolando na lama enquanto seu amigo era soterrado por comida estragada, pedaços de pedra e de madeira. Rey olhou para cima, para enfrentar os atacantes, mas eles já haviam sumido.

– Merda! - Allen praguejou enquanto tentava sair da pilha de podridão – Vá atrás do anel, droga!

E Rey não pensou duas vezes. Seguiu por uma ruela e por outra, procurando os assaltantes, mas eles haviam sumido com a distração. O garoto começou a se sentir frustrado. O gosto amargo da derrota descia-lhe a garganta quando notou um deles tentando abrir a janela de uma das casas para se esconder, mas ele havia calculado mal, pois era pesada demais para sua frágil força erguer.

Rey não pensou, apenas agiu. Tirando o chicote de seu cinto açoitou o bandido. A tira de couro fez uma volta no braço dele e então o garoto puxou-o.

Era mais leve do que imaginava e conseguiu trazer a criatura para perto de si podendo vê-la com clareza. Possuía olhos negros e uma pele verde, nariz pontudo por baixo da máscara de tecido negro. Um góblin.

Por sorte ele era o que havia pego o anel, pois havia deixado a joia escapar com a queda, derrubando-a na lama.

Rey sorriu, mas antes que pudesse alcançá-la os outros goblins que protegeram seus colegas no percurso desceram dos telhados e arremessaram duas esferas de ferro no chão. Delas uma espessa fumaça se espalhou ao redor, tapando a visão do garoto.

Olhou em volta, perdido, enquanto a névoa provocava-lhe uma crise de tosse.

Demorou uma fração de tempo, e para sua surpresa nem os goblins, nem o anel estavam mais lá quando a névoa se dissipou.

Procurou por pegadas nos arredores enquanto se recuperava, mas não havia nenhuma, era como se as criaturas nunca haviam estado lá.

– Rey, você está bem? - Allen perguntou vindo mais atrás, coberto por sujeiras até o cabelo. Brannford que havia sido curado por ele também estava junto.

– Eles fugiram! - Ele pisoteou o chão, irritado – Eles levaram o anel!

– Quem eram eles? - Perguntou. Frustração e raiva estampadas em seu rosto.

– Eu não faço a mínima ideia! Nunca vi nada parecido, a única coisa que descobri é que eram goblins.

– Goblins? - Exclamou surpreso.

– Goblins não usam isso – Brannford mostrou para Rey os objetos metálicos que haviam atirado contra ele. Cabiam na palma de sua mão e eram constituídos por pontas metálicas afiadas como adagas presas a um anel do mesmo material, com o centro vazio para se colocar os dedos. Formava uma estrela de quatro pontas. – São criaturas estúpidas que usam gravetos e pedras.

– Mas que diabos é essa coisa?

– Nunca vi nada parecido – Rey completou.

– Nem Brannford.

– Devemos ir atrás de algum soldado da milícia, informar o caso às autoridades. Talvez elas saibam dizer o que nos atacou.

– Pra que? - Indagou o clérigo – Para você vender a anel?

Rey mordeu a boca irritado.

– Ok, eu agi mal – O garoto deu de ombros – Fiquei tão focado em conseguir dinheiro fácil que me ceguei para as consequências disso. Peço desculpas – Ele colocou a mão na nuca e arrastou o pé de um lado para o outro, com o orgulho ferido.

– Você diz querer ser um herói, Rey. Heróis de verdade se preocupam com o bem-estar dos outros. – Allen estendeu a mão para Rey que trocou um comprimento fraterno com ele – Desculpas aceitas, agora temos que achar esse anel!

– …Novamente – Brannford acrescentou jogando os ombros para trás, cansado de perseguir aquele objeto.

 

                                                                                                     …

O centro da milícia não era tão imponente quanto o trio esperasse que fosse. Por ser uma cidade de ricos muitas das casas eram protegidas por mercenários contratados, e com o lorde local investindo mais em infraestrutura do que segurança transformava o edifício em um bloco decadente de argamassa e pedra.

No interior o cheiro de mofo era evidente. Um oficial ficava atrás de um balcão sem fazer nada a tarde inteira. Quando viu o grupo entrando tratou de se endireitar e inspecionar rapidamente a armadura para ficar apresentável.

– Boa tarde senhores, no que posso ajudar?

– Olha, eu sei que vai parecer estranho, mas eu quero que confie em mim certo? - Rey tomou a frente na fala. Gesticulou bastante e olhou o soldado nos olhos tentando passar credibilidade, apesar do sorriso genuinamente forçado que fazia.

– Deixa eu adivinhar, você também não sabia que a cortesã era um homem – Se apoiou na bancada soltando risadinhas.

– Que?!

– Que? - O soldado fingiu não ter falado nada.

– Olha, o que estou tentando dizer é que fomos assaltados por um grupo de goblins vestidos de preto até a bunda e que jogam estrelas metálicas e bombas de fumaça.

– Ah, por que não falaram isso antes? - O soldado saiu de trás do balcão e se encaminhou até o quadro de procurados pendurado na parede.

– Você os conhece? - Pareceu surpreso.

– São um grupo conhecido. Estão aterrorizando os nobres na cidade, mas nunca soube de um ataque deles em plena luz do dia. - O soldado levou a mão no queixo, pensativo – Parece que estão mais ousados…

– Então – Prosseguiu – Eles levaram uma coisa de muito valor para nós e precisamos encontrá-los.

– Sim, de muito valor – Repetiu Brannford logo atrás.

– Certo, rapazes – O oficial colocou as mãos na cintura, sorridente – Eu tenho alguém que pode ajudá-los.

 

                                                                                                     …

O soldado os levou até uma estalagem no porto, de nome “A Rainha”, que nada havia de majestosa. A madeira caia aos pedaços. Podres por causa da umidade que vinha do Grande Oceano, e não parecia se importar muito com manutenção, apenas receber o ouro que os marinheiros das dezenas de embarcações, que atracavam todo dia, tinham para oferecer em troca de hidromel.

Explicou no caminho que a pessoa em questão era uma mulher que se intitulava de guerreira samurai, estrangeira que veio de uma terra além-mar a procura do chefe dos assaltantes goblinoides. Ela não era de falar muito e se recusava de dar muitas informações a milícia, só pedia para eles mandarem um grupo de aventureiros para ela, que é o que ele estava fazendo agora.

O interior do estabelecimento tinha o mesmo cheiro de mofo que o posto da milícia e era frequentado pelos piores tipos de homem que se poderia encontrar no mar: lobos-do-mar. Homens brutos, sujos e mal educados que só queriam saber de jogos, bebidas e mulheres (não necessariamente nesta ordem). Não eram piratas apenas pelo detalhe de estarem dentro da lei.

Quando o soldado entrou acompanhando o trio todos olharam para eles, por um momento, julgando e analisando para logo em seguida voltaram para seus afazeres viciosos.

Metros a frente estava uma mulher cercada por três homenzarrões. Eles tinham machados atados à cintura e usavam apenas um saiote feito de pele de lobo e botas de couro de veado, atado grosseiramente aos pés por uma corda.

– São da tribo vizinha à minha – Brannford comentou empolgado e ameaçou se aproximar quando foi interrompido pelo guarda que apenas movimentou a cabeça negativamente.

Podiam analisar a situação melhor, os bárbaros em volta da mulher haviam tentado seduzi-la do mesmo modo que Brannford havia tentado na festa do Dia do Reencontro, porém ela deveria ter reagido, pois agora tinha deixado-os furiosos. Eles puxaram-na pelos braços a colocando de pé a força

– Isso não vai acabar bem! - Rey exclamou.

– Brannford precisa ajudá-la, isto é errado! - olhou com raiva para o guarda que apenas fez um gesto para ele não se intrometer, e subitamente todos ali puderam ouvi-la exclamar com um forte sotaque:

– CÃES SEM HONRA! Tentem me tocar outra vez, e prometo que nunca mais poderão tocar em coisa alguma!

A mulher pegou sua espada ainda dentro da bainha, de em um formato que os três nunca haviam visto. Era longa e curvava-se quase que imperceptivelmente para trás. O fio, como descobririam logo, era extremamente afiado. Também notavam agora que a mulher usava uma armadura completa que parecia não lhe cair muito bem, composta por placas vermelhas de metal sobrepostas que cobriam seu torso, braços e pernas. Nas coxas e antebraços um pesado tecido proporcionava agilidade tanto quanto poderia proteger contra danos contusos.

Sem dar espaço para chacota de seus oponentes, atacou.

– Allen, você é um clérigo da paz, não vai fazer nada? - Perguntou confuso, temendo pela vida ad mulher.

– Diferente dos clérigos das Cataratas de Sambúrdia, não tenho paciência para esse tipo de coisa – Disse cruzando os braços.

Com as duas mãos a guerreira golpeou o primeiro bárbaro em um arco de cima para baixo, retirando sua lâmina da bainha com uma velocidade incrível. Ele defendeu erguendo seu machado bloqueando com o cabo de madeira, partindo-se em dois. O som ressoou por todo o salão, e chamou a atenção de quem ainda não tinha notado a briga entre eles.

Um segundo bárbaro aproveitando a guarda baixa correu para agarrá-la apenas para levar um chute no peito que o empurrou para trás. O homem caiu e com a fúria atiçada sacou seu machado.

Aproveitando a surpresa ela ergueu a espada novamente e estocou o primeiro bárbaro trespassando-o. Avançou carregando-o contra a parede enquanto gritava com energia, fincando sua espada na superfície de madeira, deixando-o preso, morrendo aos poucos.

Os dois bárbaros restantes avançaram contra ela de armas em punho. Surpreendida a mulher saca uma espada igual à sua outra, mas com metade do comprimento, e crava no peito do bárbaro mais próximo fazendo-o tombar morto no chão com a arma presa a ele.

O último homem de pé ergue seu machado para atacá-la, porém ela consegue retirar a espada do bárbaro na parede, e com um corte diagonal de baixo para cima, limpo e de movimento preciso, abriu um talho da cintura até o ombro direito de seu oponente, fazendo-o largar sua arma e cair. Também morto.

Ela então limpa o suor que escorria de sua testa enquanto olhava todos com fúria. Respirou fundo, limpou o sangue de sua espada e retirou a menor que ainda estava cravada no peito do oponente morto. Se dirigiu até o soldado, que acompanhava o grupo, que olhava incrédulo para ela.

– Estes são os aventureiros?

– S-sim, senhora. - Disse o oficial abrindo a porta para ela sair.

Rey estava estupefato, mal conseguia respirar ante a visão que tivera da guerreira samurai. O jeito que ela lutava era formidável, além de sua beleza exótica, diferente de tudo que o garoto vira em sua vida. O cabelo negro cortado de forma reta, de modo que seus fios lisos caíssem alinhados, dando sinuosidade a seu rosto de bochechas rosadas. A boca pequena, o nariz fino e os olhos como jamais vira. Amendoados de um castanho brilhante.

Do lado de fora ela os levou até um lugar mais afastado do porto. Limpou o sangue da espada menor em seu antebraço se utilizando do tecido e guardou-a delicadamente em sua bainha, decorada em dourado, com motivos de uma estranha serpente com três pares de patas.

– É uma honra conhecê-los, meu nome é Katsuke Hara. – Ela se curva para eles, mas diferente da reverência que estavam acostumados a receber, ela deixava as duas mãos rente as pernas.

– Pode me chamar de Rey – Ele faz uma reverência da forma tradicional – E estes são meus amigos, Allen Vorpade e Brannford, o bárbaro.

– O último bárbaro com quem trabalhei está sangrando no chão daquele lugar – Ela apontou, com ódio na voz.

– Ah, não, não – Ele ergue as mãos em um gesto nervoso – Ele não é que nem aqueles bárbaros, Brann é bonzinho, não é? - Ele se virou para o amigo.

– Brannford não ataca mulheres, e se Brannford quer conquistar elas, faz através do amor e afeto – Disse batendo no peito em um gesto de respeito.

– Não precisava ter dito isso… - Rey alerta seu amigo sussurrando em seu ouvido.

– Bom – Ela se recompõe – Perdoem minha imensa descortesia por não poder recebê-los em um lugar melhor. Receio que vocês estejam procurando por um trabalho e o oficial John lhes trouxe até mim – Disse cumprimentando o oficial que devolveu a mesura e partiu de volta a seu posto.

– Bem, não exatamente – Allen tomou a voz – Ficamos sabendo que você está perseguindo os goblins assaltantes e está a procura de ajuda. Eles furtaram algo que era muito valioso para nós e receio que tenhamos a mesma vontade de vê-los capturados.

– Goblins… - Queixa-se Katsuke – São uma ofensa às nossas tradições. Eles desonram nossa cultura ao usar nossas técnicas de defesa pessoal para o crime.

– Desculpe a pergunta – Rey interrompe – Mas de onde você vem?

– Venho de Tamu-ra, O Império de Jade. Sirvo a Megane Nomatsu, meu senhor. Ele que me mandou até o bom reino de Sambúrdia, pois deseja a captura do responsável por ensinar a essas… criaturas… Os nossos segredos ancestrais.

– Os goblins usaram isso contra nós – O garoto entregou as estrelas metálicas para a Katsuke.

– Shurikens…

– Shuri o que? - Perguntou confuso.

– Shurikens – Ela explicou – Em Tamu-ra são armas usadas por Ninjas.

– Quer dizer que os goblins que nos atacaram eram ninjas? - Allen perguntou.

– Não! Ninjas são espiões e assassinos de alto nível, entre nosso povo. Não ladrões e arruaceiros – Ela disse um tanto exaltada – Samurais e Ninjas sempre foram inimigos. No entanto, não fiquei sabendo de nenhum ninja verdadeiro nessas terras.

– Acredito que isso seja bom – Rey disse colocando a mão atrás da cabeça um pouco nervoso. Aquela mulher lhe dava um pouco de medo tanto quanto admiração – Mas preciso saber, se não for uma ofensa, quanto receberemos de ouro pela captura desse homem?

– Cento e cinquenta peças de ouro se ele demonstrar resistência e for executado. Caso seja capturado com vida, mais cem - Ela disse.

Era muito dinheiro, Rey estava impressionado e sabia que Allen e Brannford também estavam. Quem quer que fosse esse criminoso era alguém muito importante.

– Pode contar com nossa ajuda!

– Então me encontrem na favela dos góblins amanhã à tarde para começarmos nossa busca. Ela fica nos arredores da cidade, não será difícil para encontrá-la.

Com mais gestos corteses o trio se despediu da samurai. Rey não quis pagar uma estadia naquela taverna, mesmo Brannford protestando querendo que ele economizasse seu ouro. Preferia pagar para dormir em um lugar mais requintado. Foi então que pararam na taverna “Doce Lar”, um estabelecimento na área mais domiciliar da cidade. Aconchegante, cheia de mobília estofada e tapetes de piso e de parede. Era administrado por uma senhora com seus setenta verões, ajudada por seus filhos que atendiam os clientes.

Cada um pagou por sua refeição e por um quarto individual.

Antes de partirem para suas camas e descansarem, pois iriam ter um longo dia pela frente, se juntaram para conversar em uma saleta muito bem mobiliada com quadros, plantas e sofás de um vermelho desbotado com o tempo.

– Parece que temos nossa segunda missão – Disse Rey se recostando no sofá, colocando as mãos atrás da cabeça, relaxado.

– Uma das grandes – Complementou Allen sentando à sua frente – Conseguiremos o anel e o dinheiro que precisávamos.

– Sabia que esse negócio de aventureiro seria lucrativo.

– Mas e se Brannford e os amigos não acharem o anel? – Perguntou o bárbaro.

– Nós vamos achar, Brann, e vamos dar uma surra em quem tirou ele de nós.

O homenzarrão sorriu, principalmente pela parte da surra.

– E você, Rey. Gostou da samurai? Eu vi o jeito que você olhou para ela… - O clérigo sorriu malicioso.

– Você viu o jeito que ela lutava? - Exclamou – Era incrível! Nunca vi algo igual!

– E seu coraçãozinho bateu – Ele riu.

Rey riu.

– Deixe de ser ridículo, Allen. Eu mal a conheço, não sei nem onde fica essa tal de Tamu-ra.

– Pode tentar enganar qualquer um, mas não a um clérigo da deusa do amor! - Sorriu.

– Cale-se, seu cretino! Meu coração pertence a outra.

– Outra? - Allen perguntou curioso.

– Não quero falar disso agora – Rey cortou o assunto sentindo-se um pouco desanimado.

– Na tribo de Hrargark mulheres guerreiras são as esposas favoritas – Brannford disse mudando de assunto, notando o desconforto de Rey.

– Não estou apaixonado por ela, pessoal – Rey deu de ombros – Ela até é um pouco intimidadora pro meu gosto.

– Tudo bem, Rey. Ninguém está te forçando a nada – Allen ergueu as mãos, defensivo e debochado.

– E querem saber de outra coisa? - O garoto de olhos vermelhos continuou – Precisamos dormir, amanhã teremos um grande dia! - Disse enquanto levantava e fazia um gesto para os outros dois irem para os quartos.

 

1: Como Sambúrdia é comumente conhecida.



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