História O anjo de vidro - Capítulo 13


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, Chen, D.O, Kai, Kris Wu, Lay, Lu Han, Personagens Originais, Sehun, Suho, Tao, Xiumin
Tags Chanbaek, Drama, Exo, Longfic, Romance, Sehun
Exibições 102
Palavras 9.823
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Ooi!

Foi uma semana a mais, não foi? Me desculpem pelo atraso, mas de agora em diante eu tive que admitir pra mim mesma que não consigo escrever um capítulo em uma semana. As atualizações de "O anjo de vidro" serão feitas quinzenalmente no minimo, como já vem acontecendo, até por que tem uma coisinha que eu preciso contar pra vocês.
Geralmente os autores fazem um capítulo de aviso, mas isso assusta muita gente, e eu realmente odeio. Não é um hiatus, pelo amor de Deus ahshash! É só que, nessa próxima semana, eu vou viajar pra um evento estadual do colégio e não vou ter tempo pra escrever o capítulo 13 por motivos de "não vou levar meu notebook". Mas o verdadeiro problema é quando eu voltar. Não sei de que estado vocês são, mas aqui no Paraná muitas escolas já foram ocupadas pelos alunos (cerca de 420 já), e nessa segunda o meu colégio fará uma votação pra decidir uma ocupação. "Mas como assim autora, isso não te deixaria sem aula e te daria tempo pra escrever? Não é bom?". Para a situação da fanfic não. Sinto avisá-los que, se a votação der favorável para a ocupação, eu vou estar lá com a minha barraquinha e a minha mochila lutando pelos meus direitos. Vou levar o notebook e fazer o meu melhor para escrever, mas nenhum estudante fica parado nas ocupações, como muita gente pensa. Existe toda uma programação que nos manterá ocupados. Não sei quanto isso pode durar se ocorrer, então me desculpem desde já.

AGORA VAMOS FALAR DE COISAS ALEGRES! TIPO O INÍCIO DO CAPÍTULO QUE EU ADORO E ESCREVI HÁ MAIS DE DOIS MESES! Sério, a fanfic nem tava formada e eu já tinha escrito isso ahsahshash! Espero que gostem, chuhchus!

Capítulo 13 - Capítulo XII - Occulta Verba


Fanfic / Fanfiction O anjo de vidro - Capítulo 13 - Capítulo XII - Occulta Verba

Capítulo XII – Occulta Verba

<Palavras Escondidas>

 

Casa nº 122.

 

Aquela havia, definitivamente, sido uma das manhãs mais estranhas que eu já tinha presenciado. Para começar o caso, Baekhyun se levantou pontualmente às sete e meia da manhã, contradizendo toda a sua filosofia de ser humano que prezava acordar tarde nos dias onde a escola não existia. Dando-me um pequeno susto, ele se sentou com tudo na cama, chutando os lençóis onde estava embolado depois de alguns segundos agindo como um vegetal. Depois saltou do colchão e se sacudiu inteiro, como se estivesse se esforçando para ficar bem acordado. Abriu as gavetas da cômoda e escolheu algumas roupas, já estava saindo do quarto com todo aquele arsenal que levava para o banho quando parou subitamente na frente da escrivaninha.

O boneco.

Imediatamente me lembrei do que Catherine tinha dito sobre aquilo, e vi que realmente eu não deveria tirar as coisas que Baekhyun considerava importante do lugar. Eu me sentia quase um ladrão, apesar de não ter mexido naquilo ou muito menos roubado. A imagem do demônio de pele branca jogando o brinquedo para cima na madrugada anterior fez um calafrio percorrer minha espinha e se espalhar por minhas asas, ouriçando minhas penas. Era melhor não pensar naquilo agora, eu tinha uma coisa muito mais importante com o que me preocupar, e essa coisa se chamava “Byun Baekhyun e seus comportamentos estranhos logo pela manhã”.

Engoli em seco quando ele pegou o objeto entre os dedos delicados e ergueu uma sobrancelha, confuso sobre como aquilo tinha ido parar ali se ele nunca tirava aquelas coisas do lugar em vão. Seu semblante parecia dizer: “Eu não me lembro de ter deixado você aí cara”. Felizmente, depois de uma pequena observação, ele o colocou no devido lugar e seguiu seu caminho.

Um peso invisível saiu das minhas costas.

Não demorou muito para que, com os cabelos molhados, ele voltasse para o quarto vestido com um casaco grosso escuro, que tinha uns botões engraçados que se pareciam com sementes. Aparentemente eles eram moda, já que todos estavam usando por conta do frio do inverno. Com movimentos mecânicos, ele calçou os coturnos e secou o cabelo, parando na frente do espelho.

Imóvel, seu olhar parecia indeciso, como se ele estivesse fazendo tudo aquilo em resposta dessa indecisão. Encarava-se no espelho analisando-se meticulosamente, como se procurasse algo fora do lugar ou estudasse se a vestimenta estava adequada para a ocasião misteriosa. Enfiou o celular e a carteira nos bolsos do casaco, mas antes de sair do quarto deu meia volta até a cômoda.

- Só por garantia... – disse baixinho enquanto borrifava um pouco de perfume no pescoço.

Só depois disso ele saiu, tomando cuidado para não acordar seus pais do sono profundo depois do trabalho, apesar dos dois estarem praticamente desmaiados naquele dia de folga. Contudo, o menino não queria se dar ao luxo de perturbar o merecido descanso dos enfermeiros chefes. Era visível que também não avisaria aonde estava indo.

O vento gelado castigou suas costas enquanto ele trancava a porta da frente, e a rua estava vazia. Era sábado, e se alguém estava em pé, era no centrinho da cidade ou em seu trabalho. Ao que me parecia, ele era o único quebrando a rotina naquele dia.

Baekhyun se demorou tanto observando a casa de Catherine que cheguei a pensar que ele estava esperando a humana, mas logo ele começou a andar na direção da beira-mar. Com as coisas que tocavam música no ouvido e com passinhos mais apressados do que o normal, ele se dirigiu num embalo até a avenida principal como se estivesse com receio de voltar atrás se diminuísse o ritmo.

Contradizendo ainda mais tudo o que eu poderia esperar, ele se sentou em um ponto de ônibus em frente a uma sorveteria aonde ele sempre ia com a amiga nos dias não tão frios. Ficou sentado olhando de modo meio perdido os idosos que caminhavam na orla mesmo com as temperaturas baixas e o comércio abrindo até aquele veículo grande e verdolengo chegar.

Dentro do ônibus, a maioria da meia dúzia de humanos que existia desceu bem ali, fazendo sobrar apenas um senhor e Baek. Por sorte, o garoto se sentou em um banco que não era individual, então em pude ficar ao seu lado.

Eu não sabia para onde ele estava indo naquela manhã gelada, muito menos de onde ele havia tirado empenho para tal – visto que levantar para ir à escola parecia um martírio diário – em pleno sábado. Entretanto, apesar de ter um destino, ele não parecia tão certo do que faria lá, e isso era mais do que óbvio. Eu quase podia ouvir os batimentos ansiosos de seu coração, e a angústia que o assolava era palpável. Parte dele sabia que deveria ir, mas a outra preferia ter ficado debaixo das cobertas na cama quente.

Baekhyun se inclinou e pousou a cabeça na janela, olhando fixamente para o mar cinzento que quebrava suas ondas na praia enquanto esperava a sua parada. Lentamente, escorreguei no banco acolchoado até me encostar a seu ombro encasacado, esperando também. Tentando de algum jeito deixá-lo mais calmo, ainda que parecesse impossível.

Eu podia ouvir a música que entrava em seus ouvidos

Tudo era muito conflitante, pois nos momentos onde ele tentava não pensar em nada e ficava aquietado, quem se desaquietava era eu. E tudo aquilo por conta de uma única frase que fora literalmente deixada no ar pelo demônio que havia visitado o quarto dele sem ser convidado. Mas Kyungsoo não era do tipo que se podia expulsar depois de uma aparição, ainda mais depois de tudo o que havia dito.

Cerrei meus olhos com força, ainda bobo com a quantidade de informações que havia recebido de supetão. Muita coisa para se pensar com uma cabeça só, mas o demônio obviamente não tinha se preocupado nem um pouco com isso. De um lado o problema com o repugnante Kai e meu humano, de outro Junmyeon, que tinha a ver unicamente comigo. O comunitário e o pessoal. Aquele que eu deveria me preocupar, e o que ironicamente não deveria nem existir. Em tese, eu deveria deixar tudo para lá, ou, no máximo, me preocupar apenas com o tal interesse do demônio de olhos vermelhos em Baekhyun. Na prática, os dois empecilhos me assolavam de maneira quase equilibrada, juntos em um grande tormento.

A ideia de Kai ter provocado tudo aquilo ainda me parecia tão absurda quanto o fato de Junmyeon algum dia ter tido asas. Isso por que significava que eu precisaria ter cuidado redobrado com Baekhyun de agora em diante, o que resultava em não largá-lo em momento algum, e que conflitava totalmente com descobrir a verdade sobre o ser que morava na ala abandonada do hospital. Descobrir sobre suas asas. Descobrir sobre o que ele era. Por que não as tinha mais.

O rosto sorridente de Junmyeon ainda estava nítido em meus pensamentos quando Baekhyun se levantou e por pouco eu não dei de cara na janela por falta do apoio de seu ombro. Apressado, eu o segui com medo de ficar para trás, afundando os sapatos sociais na areia mais desajeitado do que seria possível.

Me engasguei quando notei onde estávamos.  Sem uma alma viva no local, o final do asfalto se misturava com a areia da praia que estava logo ali, convidando a quem quisesse seguir em frente a dobrar a curva que levava ao fim dela, onde ficavam os rochedos e a casinha de madeira de n° 87.

Olhei para Baekhyun extremamente preocupado com que tipo de decisão ele havia tomado, me perguntando se deveria persuadi-lo a voltar ou não. Entretanto, era quase engraçada aquela situação em que estávamos. Eu não sabia quem de nós dois estava mais indeciso sobre o que fazer.

Uns momentos depois, descobri que era eu.

Em passadas não tão rápidas agora, como se estivesse querendo prolongar o caminho, Baekhyun andava olhando volta e meia para o céu azul do inverno ou para o mar não mais tão cinza. As mãozinhas tamborilavam ansiosamente dentro dos bolsos do casaco, e pude ouvir que a música em seus ouvidos ficou ainda mais alta, mas não o suficiente para abafar as batidas escandalosas de seu coração.

Foi quando entendi que ele estava com medo que chegamos ao final da rua sem saída, onde um pequeno bosque encontrava o rochedo e a praia era interrompida por ele. Também onde ficava a casa de Chanyeol.

De costas para a praia, Baekhyun parou para encarar seu destino final, entendendo que, se passasse dali, não teria mais como voltar atrás. Aquela era sua última chance de desistir daquilo que, com dificuldades imensas, pretendia fazer.

Foi quando pensei que meu humano daria meia volta que ele apareceu. Saído de trás de um barco grande que ficava na oficina ao lado da casa, Chanyeol usava uma camiseta de mangas compridas arregaçadas e um macacão jeans engraçado que fazia o papel de calça, ambos sujos de graxa, assim como os braços e o rosto de seu dono. Apenas Tao nos viu, sentado na grande bancada de ferramentas onde seu humano estava trabalhando agora, de costas para nós. Aparentemente, o anjo estava tão surpreso quanto eu com a presença de meu humano ali. Acenei calidamente para ele, recebendo um cumprimento com a cabeça receoso. Não foi preciso palavra alguma para que soubéssemos que ambos estávamos preocupados com aquele encontro repentino.

Baekhyun suspirou pesadamente em resposta à imagem de seu ex-namorado trabalhando na oficina, eu sabia que ele sempre tinha gostado de ver Chanyeol fazer aquilo, principalmente vestido com aquele macacão. Fissuras estranhas de humanos. Parecia que a vida estava zombando dele ao mostrar o garoto alto de modo nostálgico, enquanto, da última vez em que tinham se visto, ele estava com outra.

Quase um minuto foi gasto na análise da situação antes que os coturnos de Baek avançassem na rua e ele tirasse aquelas coisas do ouvido, os passos abafados pela areia e pelo assovio do vento gelado vindo da praia que açoitava o casaco às suas costas. Ele não entrou pelo portão de ferro. Deu a volta até o que parecia uma grande entrada para a oficina, contornando os barcos que ficavam no caminho entre ele e o garoto.

O cheiro de graxa forte invadiu minhas narinas quando ele parou ao lado do grande portão de madeira que parecia nunca ter sido fechado. Agora, só alguns poucos metros os separavam.

O barulho dos nós dos dedos de Baekhyun batendo na madeira do portão fez, finalmente, sua presença ser notada.

- Só um instante! – A voz densa de Chanyeol pediu ainda de costas, enquanto ele terminava de deixar suas mãos livres para atender quem lhe chamava.

A simpatia que estava presente em sua voz se dissipou quando ele viu quem era.

Até o mar e o vento pareceram fazer silêncio quando os dois pares de olhos escuros se encontraram pela primeira vez em muito tempo, em um choque que não pôde ser evitado. O coração de Baekhyun batia tão angustiantemente que eu me impressionava como ele ainda estava em pé, encarando o outro garoto. Chanyeol, por sua vez, mudou seu comportamento muito rápido. A surpresa inicial por ter encontrado meu humano não durou nem dois segundos antes de ser substituída por um desinteresse e costas viradas novamente. O barulho das ferramentas voltou a ser ouvido.

Aquilo foi como uma punhalada no coração de Baek. O garoto fechou os olhos com força e respirou fundo, sabendo que agora tinha que continuar, precisava pelo menos tentar melhor. Mas derrubando todas as minhas noções de impossibilidade, não foi meu humano quem falou primeiro.

- O que veio fazer por aqui? Você tem algum barco agora? – Chanyeol foi sarcástico.

Olhei para Tao que, triste, agitou a cabeça negativamente, dando a entender que aquilo possivelmente fora um erro. Mais uma vez não falamos um com o outro. Já estava feito, e agora nós dois éramos meros espectadores daquela tragédia. Cada um com seu humano para cuidar.

- Não. – de algum modo, a voz de Baekhyun não estava abalada – Eu não tenho um barco.

O humano de Tao riu soprado enquanto mexia na bancada.

- Claro que não. – continuou maldosamente – Byun Baekhyun só gosta do cheiro de graxa da oficina, eu havia me esquecido.

Tomado por uma coragem que provavelmente nem ele conhecia, Baek caminhou para mais perto do outro, até parar no início do toldo da oficina, a três metros dele.

- Chanyeol, - ele chamou sem muita emoção – vamos conversar.

 O garoto alto parou de mexer em seu trabalho por um instante.

- Claro. – concordou ainda de costas, deixando claro o quanto achava todo aquele esforço uma perda enorme de tempo – Sou todo ouvidos para você.

Qualquer um ali – eu e Tao – poderia ver que aquela postura de Chanyeol estava surtindo o efeito desejado em Baekhyun, desanimando-o a cada palavra. Deixando-o sem chão ao não reconhecer aquele que amava. Contudo, havia algo nele naquele dia, como se ele não quisesse mais estar naquela situação. Rapidamente, o nome de sua melhor amiga foi gritado para fora, e eu entendi que ela tinha um papel importante em tudo aquilo.

E agora, Baekhyun estava disposto a colocar os pingos nos “is” daquele assunto, um ponto final. Ele sabia que devia aquilo a si mesmo.

- Ótimo. – decidiu entrar na onda do outro, ainda que não com o mesmo objetivo – Orelhas tão grandes têm que servir pra alguma coisa no fim das contas.

Não foi preciso ver seu rosto para saber que Chanyeol tinha se incomodado com o comentário.

- Diga o que quer de uma vez. – foi direto.

- Sabe, eu estava conversando com a Catherine esses dias. – Baekhyun disse sem mudar de postura, continuando a falar banalmente – E ela me contou que veio te ver. Apesar da falta de detalhes, ela me deixou bem claro que talvez você tenha sido estúpido demais.

O olhar preocupado de Tao denunciava que Chanyeol estava ainda mais arrependido do modo que tinha agido com a garota na última vez, Baekhyun havia cutucado uma ferida, e eu me surpreendi por ele ter a informação. Ele sabia até mais do que eu julgando pelas palavras usadas. Catarina não havia me contado que tinha sido destratada.

- Falei pra você ser direto, mas acho que você ainda não entendeu. – o mais alto voltou a trabalhar – Mas já que você quer dar voltas, vamos dar algumas. Umas a mais ou a menos não vão nos matar a essa altura do campeonato. – voltou com o tom maldoso – Não sabia que a Cathy precisava da sua proteção agora. Sempre pensei que fosse ela quem ficava resolvendo os seus problemas por aí.

Baekhyun fechou as mãos em punho, tentando se controlar. Havia muitas coisas que aguentava facilmente, mas assuntos onde Catarina estava envolvida não era uma delas. Não suportava saber que, mesmo depois de tê-la tratado mal, Chanyeol ainda tinha a audácia de chamá-la pelo apelido e insinuar grosserias. Sua amizade era aquilo de mais precioso que tinha, e iria proteger com unhas e dentes. Até por que, se estava ali, a culpa era em grande parte da garota.

- Melhores amigos cuidam um do outro, mas esse claramente é um relacionamento que você não conhece, não é mesmo Chanyeol? – alfinetou com raiva.

- Não tive muita sorte com meus relacionamentos, não sei se já notou. A grande prova disso é que você está aqui.

Mais uma pontada foi sentida no coração de Baek. Estava difícil manter aquela conversa lutando contra a vontade de esbofetear Chanyeol até que ele parasse de ser um imbecil.

- Voltando ao assunto que comecei... – Baekhyun se esforçou para contornar a situação – Minha preciosa amiga Cathy, como você muito bem sabe, é boa falando sobre a vida, já que passa pelas situações mais estranhas, principalmente com as pessoas próximas. – disse entre dentes – Em uma conversa qualquer ela me convenceu a vir até aqui. Você nem sabe o que foi que ela me falou, é algo realmente curioso.

Chanyeol respirou fundo.

- O que foi que ela te disse? – perguntou.

- Que você me deve uma explicação. – de repente, o tom de Baekhyun deixou o sarcasmo de lado e ficou sério. Aquele era o ponto onde ele descobriria qual rumo a conversa iria tomar.

Mais a frente, Chanyeol largou as ferramentas e apoiou os braços na bancada, inclinado sobre seu trabalho misterioso. Estava impaciente.

- Que bom que terminou com os rodeios. – sua voz bateu na parede à sua frente – Mas é quase uma pena que esteja perdendo seu tempo com isso, poderia se poupar de algumas coisas.

- Não vim aqui para pedir seus conselhos. – Baekhyun disse firme.

- Percebi. – a ironia era clara na voz do outro – Mas me diz aí, o que quer saber?

Baekhyun franziu as sobrancelhas, afetado. Era falta de consideração demais para uma só manhã.

- Por que fez tudo isso? – sua voz soou sincera, pedindo a resposta do misto daquelas perguntas.

E então, calmamente, Chanyeol se virou, revelando o rosto com vestígios de graxa e um sorriso que não era agradável. Nada de bom viria dali em diante.

- Você sempre soube que eu também gostava de garotas. – Chanyeol disse com desdém.

Aquilo foi tão cruel que Baekhyun precisou respirar fundo para não chorar, cada palavra pronunciada por Chanyeol era como um murro no estômago.

- Não foi isso que eu te perguntei. – eu podia sentir um esforço maior para ficar firme, aquela resposta havia sido demais para ele – Eu te perguntei o porquê.

- O porquê de quê? – o mais alto se fez de desentendido, deixando bem claro que não estava levando-o a sério.

Ele tinha conseguido acabar com a paciência de Baekhyun.

- O porquê de você ter desistido de nós dois tão rápido. – foi sucinto.

Chanyeol riu maldosamente, fazendo Tao estremecer e olhar para mim com um pesar desastroso nos olhos escuros.

- Eu cansei de brincar de casinha com você, Baekhyun. Até por que você nem serve para ser mãe.

A voz desesperada de Tao veio antes de qualquer coisa.

- Não! Sehun, por favor, ele está mentindo!

Por mais óbvio que fosse para nós dois que ele não estava falando a verdade, Baekhyun não podia ouvir a voz de Tao, e aquela foi a gota d’água.

- E ela serve? – perguntou por fim, com algumas lágrimas silenciosas que lhe escapavam dos olhos.

Eu havia me esquecido de que Baekhyun não sabia do término dos dois.

- Seohyun? – Chanyeol se abaixou para pegar algumas ferramentas que estavam embaixo da bancada e colocou-as em cima da mesma, tentando se mostrar desinteressado no ex-namorado – Concordo com você que ela não foi a melhor escolha, mas o que eu podia fazer se a minha primeira opção é a sua melhor amiga? Eu tenho meus limites.

Olhei para Tao, que sacudia a cabeça negativamente. Senti algo ruim subir por meu estômago. Os blefes de Chanyeol estavam começando a me tirar do sério.

Fui mais para perto de Baek, me amaldiçoando por ainda não conseguir sussurrar direito em seus pensamentos. Segurei em seus ombros e vi que ele estava tremendo, sua aura se acinzentando mais e mais. Raiva e tristeza estavam juntas em algo tóxico.

- Não meta a Catherine em suas histórias, Chanyeol. – ele limpou as lágrimas com as costas das mãos – Ela não tem nada a ver com isso.

Tao não parava de sussurrar no ouvido de seu humano, cheio de desespero. Algo me dizia que o outro anjo também tinha a sua própria opinião sobre o assunto, não conseguindo se manter imparcial.

- Eu sei. – Chanyeol pareceu ficar um pouco mais manso – Mas entende? Não é um negócio sentimental. Eu só quero sair por aí, beijar por aí, fazer as coisas do jeito certo.

Apertei meus punhos quando ele disse aquilo, evidenciando que pensava que os dois anos – e todos os outros de amizade – passados ao lado do meu humano foram um erro, tempo perdido. Baekhyun, ao contrário de mim, parecia estar absorvendo aquelas palavras falsas como uma esponja.

- Eu sempre disse a mim mesmo que se não fosse eu deveria ser a Cathy. – sua voz tremeu por causa do choro que o sufocava – Mas acho que mudei de ideia. Eu não quero que ninguém que eu amo chegue perto de você. Ela merece muito mais do que isso.

Um lampejo de fraqueza passou pelos olhos escuros de Chanyeol quando Baek terminou de falar. Aquela frieza repentina o pegou de surpresa.

- Não se preocupe com isso, nós a conhecemos o suficiente para saber que eu não tenho a menor chance. Até por que eu já estou bem acompanhado, finalmente. Pelo menos por enquanto, não é mesmo? – o outro mentiu descaradamente.

Baekhyun perdeu definitivamente qualquer resquício de paciência com aquela conversa absurda.

- Como é que você pode estar com alguém que não ama de verdade? – perguntou indignado.

Chanyeol soltou mais uma risada sarcástica.

- Parece que você não me conhece tão bem assim, Baekhyun.

- Ainda não faz sentido pra mim.

- Se passei dois anos com você, é meio estranho o que eu te disse não fazer sentido.

O coração de Baekhyun parou por um instante, o ar se tornou mais pesado.

- Você não tem esse direito, Chanyeol! – ele gritou com força, seu rosto avermelhando instantaneamente – Não desdenhe dos meus sentimentos! – ele emendou mais baixo, porém com a mesma raiva.

Aquilo estava indo para um nível ainda menos saudável.

- Tao, faça alguma coisa! – pedi preocupado.

- Não consigo! – o anjo respondeu com a voz embargada de choro – Ele está me bloqueando!

Fechei meus olhos com força enquanto ouvia Tao falar coisas como “Por que você está me ignorando? Pare! Você nunca faz isso!”. Era o mesmo que falar com uma parede.

- Baekhyun... – Chanyeol começou, mas foi interrompido por meu humano.

- Chanyeol, olhe nos meus olhos e me responda. – Baek chegou mais perto do ex-namorado, apenas alguns passos de distância os separavam – Ela faz seu coração bater tão rápido quanto eu faria?

O olhar desafiador de Chanyeol caiu por terra com a pergunta. Não houve tempo para que ele pudesse responder.

- Você pode me dizer qualquer coisa, Park Chanyeol, qualquer mentira que quiser inventar. – ele se aproveitou da brecha – Mas não tente, não se atreva a me dizer novamente que nunca sentiu nada por mim, que nunca me amou e que foi por isso que não veio atrás de mim. Tenha um pingo de decência. – seus lábios tremiam, a respiração de Baekhyun estava curta.

Eu sabia o que ele estava tentando fazer com suas últimas cartadas. Dizendo a Chanyeol o que ele já sabia, esperando que o outro não conseguisse mais se esquivar. Mas estratégia alguma faria as palavras seguintes serem menos dolorosas.

- Vá para casa, Baekhyun. – Chanyeol virou suas costas mais uma vez, mexendo no balcão de ferramentas – E pare de se humilhar.

Quando Baek deu meia volta, pude jurar que meus olhos encontraram os dele. Lá havia lágrimas e a sombra de uma desistência indesejada. Contudo, antes de fazer a curva em um dos barcos, ele parou e disse:

- Ainda há outro favor que você pode me fazer. – mesmo sem resposta, ele sabia que Chanyeol estava ouvindo – Esqueça que algum dia você me tocou.

E deixou-o lá, sozinho na oficina. Afinal, por mais quebrado que estivesse, Byun Baekhyun sempre seria a pessoa que teria a última palavra em uma discussão. Principalmente com Chanyeol.

Tive que forçar minhas pernas para acompanhá-lo e acordar daquela loucura. Antes de ir embora, olhei uma última vez para o terreno de onde havíamos saído, e não consegui ver Tao e o humano. Porém, vi que um homem estava na janela da casa, espreitando. Algo me dizia que o pai de Chanyeol tinha visto e ouvido mais do que desejava.

Disposta a desmanchar tudo aquilo, a neve caiu antes que pudéssemos alcançar o ponto de ônibus.

 

~X~

 

Padaria.

 

- São três e meia da tarde, Cathy. – meu pai disse enquanto enxugava as mãos em um pano de prato, escorado na parede do corredor que levava à cozinha da panificadora – Por que não vão para casa e descansam? Acabaram de voltar da escola...

O olhar preocupado de meu pai caiu sobre mim e Baekhyun, que estava sentado em uma das mesas, perdido em seu próprio mundo. Tentei de alguma forma me comunicar com olhares para fazer meu pai entender que era melhor não perguntar nada sobre a situação e apenas nos deixar ficar por ali um pouco, enquanto não havia movimento. Era quarta-feira, as pessoas só viriam comprar pão depois do trabalho.

- Queremos comer um pouco de bolo. – falei fazendo movimentos com a cabeça indicando para ele pegar logo alguma coisa no balcão.

- Eu posso embalar pra vocês. – ele se ofereceu ainda sem entender.

Suspirei, tomando fôlego para recusar.

- É uma boa ideia. – Baekhyun concordou antes que eu pudesse falar, quebrando todo o meu plano de fazê-lo ficar fora de casa. Aquilo não faria bem a ele.

Meu pai sorriu gentilmente, as ruguinhas aparecendo no canto dos olhos verdes.

- Morango e Baunilha. – disse antes de ir buscar a encomenda.

Enquanto meu pai embalava tudo, Baekhyun não olhou um segundo sequer para mim. Na verdade, ele não me encarava direito desde sábado, quando foi inexplicavelmente chorar de forma compulsiva em meu colo. Depois disso, não saiu de casa no domingo e faltou aula na segunda e na terça, sem uma palavra de justificativa. Não atendeu meus telefonemas e ignorou quando toquei inúmeras vezes à campainha de sua casa. Não falou comigo nem quando eu joguei pedrinhas na janela de seu quarto, que ficou fechada o tempo todo. Meu coração quase se desmilinguiu quando eu saí de casa para ir ao colégio e ele estava me esperando, encasacado e escondido embaixo de um cachecol. Depois de um cumprimento desconfortável não ouvi muito sua voz durante o resto do dia.

Eu não sabia o que tinha feito de errado, e quando tentei perguntar a Sehun, tudo o que ele me disse foi:

- Não foi você, foi Chanyeol.

Aquilo não fazia muito sentido pra mim, e pelo visto nem para o anjo. Se havia sido Chanyeol – o que eu não duvidava – por que Baekhyun não estava falando comigo direito? A verdade é que eu não tive muito tempo para perguntar a Sehun, já que ele estava muito preocupado com o estado de seu humano. Tudo o que eu queria era que ele voltasse ao normal.

Aquilo estava acabando comigo.

- Prontinho, aqui está! – meu pai estendeu o pacote para Baek.

- Obrigado, senhor Rait. – ele agradeceu.

Respirei fundo. Pelo visto era melhor ir para casa mesmo.

- Tchau, pai. Nós já vamos indo. – Acenei enquanto Baekhyun já estava abrindo a porta, praticamente sem me esperar.

- Espera! – meu pai pediu quando eu estava na porta, Baek já na esquina – O que foi que aconteceu? Vocês dois brigaram? – ele perguntou preocupado.

A parte mais engraçada era que eu não sabia o que tinha acontecido.

- Não. – sorri antes de sair, tentando demonstrar que estava tudo bem. Eu realmente esperava que estivesse.

Lá fora, o vento soprava frio e um resto de neve suja ainda estava na sarjeta. Baekhyun já estava na outra esquina, definitivamente empenhado em não me esperar. Sehun olhava mais para mim do que para frente, fazendo gestos para que eu me apresasse.

Foi uma luta correr até os dois sem beijar o chão. A calçada estava mesmo escorregadia por conta da neve que caía cada vez com mais frequência, afinal de contas, já era dezembro.

- Ei, Baek! Espera aí! – pedi enquanto corria feito uma pata – Vai tirar o pai da forca, por acaso?

Baekhyun então parou, sem se virar para mim. Eu não tive tempo de falar nada antes de ele se virar de supetão e me empurrar o pacote com o bolo, fazendo uma careta estranha, como se olhar para mim doesse um pouco. Sustentou a posição por um tempo, o braço esticado com o pacote pressionado contra o meu peito, onde eu já o segurava. Olhava para mim como se esperasse uma resposta que esclareceria tudo.

- Me desculpe por isso. – despejou as palavras com um semblante sério – Mas hoje eu preciso fazer alguma coisa sozinho, algo que não me deixe ficar pensando demais em certas coisas...

Eu não ligava muito sobre não saber das coisas, mas quando se tratava de Baekhyun, isso era diferente. Eu detestava não entender o que estava acontecendo, não saber o que estava errado ou o que ele estava pensando. Ele foi a única pessoa com que eu pude contar em anos, e quando as coisas saíam um pouquinho dos trilhos eu ficava, para não dizer apavorada, receosa.

- Baek...o que está acontecendo? Eu fiz alguma coisa?

Ele cerrou os olhos com força e sacudiu a cabeça, soltando todo o ar de uma vez, como sempre fazia quando estava confuso.

- Cathy, a minha cabeça está uma bagunça! – ele soltou – Em pensei tanto depois da conversa que tive com você-sabe-quem que eu nem sei mais o que estou pensando! Você não fez nada...na verdade você tinha razão sobre tudo o que disse. Eu precisava colocar um ponto final nisso, e coloquei.  – sua mão foi até meu ombro e o apertou de leve – Só que não foi fácil, e agora eu preciso descansar. Eu juro que vou melhorar, eu prometo.

Atrás dele, Sehun pousou a mão no ombro do humano, assim como Baek fez comigo. Porém, os olhos do anjo me encaravam com um olhar tranquilizador, me dizendo sem palavra nenhuma que eu não precisava me preocupar. Baekhyun estava falando sério e só precisava de um tempo sozinho. Era só isso.

Melhores amigos também tinham que ficar sozinhos de vez em quando, e eu precisava lembrar que isso não se aplicava só a mim. Não era hora para hipocrisias egoístas.

- Eu sei. Você sempre melhora, afinal, é Byun Baekhyun, não é? – respondi com um sorriso tranquilizador.

Um peso saiu das minhas costas quando ele sorriu sincero, bem diferente de todos aqueles sorrisos que ele sempre dava que eram mais debochados e maliciosos. Era um sorriso onde eu podia ler gratidão.

Porém, um barulho atrás de nós o fez parar de prestar atenção em mim e fez com que eu me virasse para trás com curiosidade. Era um ônibus há umas quatro esquinas. Mais do que rápido, trocamos um olhar cúmplice e eu entendi que ele iria entrar naquele ônibus.

- Eu vou dar uma passadinha no hospital. – ele revelou – Até amanhã! – completou.

Baekhyun mal tinha dado cinco passos quando deu meia volta e voltou correndo todo desengonçado até onde eu estava, brincando seriamente a possibilidade de perder o ônibus que estava vindo.

- Eu me esqueci de te dizer uma coisa! Eu te amo, Cathy! - ele se inclinou e pressionou os lábios contra a minha testa, para logo depois sair feito um condenado para não perder o ônibus.

- Até mais tarde. – disse Sehun quase de forma irônica, dando a entender que Baekhyun não esperaria até amanhã para falar comigo. Contudo, houve uma última surpresa antes que ele fosse atrás de seu humano que já estava subindo para o ônibus mais adiante. Quando vi sua mão se erguendo acima de mim logo tratei de me encolher, o que o fez dar uma risadinha soprada.

Foi meio estranho quando sua mão pousou na minha cabeça e bagunçou meus cabelos. Minhas bochechas esquentaram, mas devia ser reação ao frio. Claro.

O anjo correu até o ônibus e conseguiu entrar no último segundo, graças ao número de pessoas que estavam descendo naquele ponto. Eu não conseguia entender como ele podia ser tão protetor e tão negligente ao Baekhyun ao mesmo tempo, hora se preocupando, hora estando mais tranquilo do que seria saudável.

Se a bagunça tivesse nome, se chamaria Sehun.

 

~X~

 

Píer.

 

Eu já estava a mais de meia hora no píer, apoiada nas grades de ferro que sempre ficavam cheias de adolescentes quando não estava frio. A água estava cinzenta e o vento que vinha do mar cortava meu rosto como uma faca gelada. Contudo, eu não queria ir pra casa, já que ficaria sozinha de qualquer maneira. Só que a minha solidão não durou muito além disso.

- Cathy!

Eu reconheceria aquela voz em qualquer situação, afinal, como esquecer o timbre do pior ator do mundo?

Me virei para ver o garoto gigante e encasacado vindo o mais depressa possível até mim, com um sorriso brilhante quase forçado. O sobretudo cinza e pesado se alongava até seus joelhos, deixando Kris ainda mais alto, se é que algo assim ainda fosse possível.

- Quem é vivo sempre aparece. – cumprimentei não muito contente por ele ter interrompido o meu silêncio.

- Aish, ainda azeda feito limão! – ele se apoiou ao meu lado – O que andou fazendo nesses dias? Eu não te vi muito perambulando pelo colégio...

Suspirei conformada quando vi que ele estava disposto a ficar por ali e puxar assunto. Não era tão ruim para falar a verdade, mas tudo o que vinha à minha cabeça quando eu via Kris era um novo plano maluco pra conquistar alguém, e digamos que eu não estava muito disposta depois da experiência da última vez.

- Por aí com o Baek, – contei – o que explica eu não perambular pelo colégio.

Kris riu.

- Ele ainda parece querer me matar com o olhar cada vez que me encara.

- Pode apostar que sim! – confirmei a especulação. Baekhyun não gostava nadinha da ideia de eu falar com Yifan no colégio, e provavelmente faria uma cena se nos visse agora. Na verdade, meu melhor amigo adorava fazer uma cena por qualquer coisa – Ele acha que você vai me roubar dele.

- Isso que ele é só seu melhor amigo... imagina se fosse seu namorado? Pode dizer pra ele que não tem perigo, você é um partido incrível, mas eu estou muito bem com a Seohyun. – ele soou convencido.

Revirei os olhos para as gracinhas. Era reconfortante e estranho ouvir dele que eu era um “ótimo partido”, já que, por um lado ele era muito bonito, e por outro um lunático.

- Como se eu fosse deixar algum namorado fazer isso comigo...

- Não deixaria um namorado, mas deixa seu amigo? – Kris ergueu a sobrancelha esquerda.

- É que com o Baek o caso é mais complicado. – limpei a garganta, querendo mudar de assunto – Mas falando em namoro, como vão você e a Seohyun?

A simples menção ao nome da garota mudou sua expressão. Kris abaixou o rosto e sorriu timidamente, ruborizando as bochechas. Apesar daquele tamanho todo não posso negar que ele estava fofo. Um grande tolo apaixonado que se podia identificar à distância.

- Ah, o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas! – falei teatralmente, escorregando meus braços até ficar toda torta, com a cabeça na borda do píer. Não fiquei nem meio segundo naquela posição, aquele negócio estava gelado demais.

- Você não tem dó... – ele sorriu enquanto fitava o mar – mas não posso discordar de nada do que disse.

- Claro que não pode. Até alguém resfriado sentiria esse seu cheiro de moleque apaixonado...

Ele me empurrou de leve com o ombro.

- Dá uma trégua Cathy! Você deveria me agradecer ao invés de ficar debochando dos meus sentimentos.

Olhei para ele confusa. Que motivo eu tinha para agradecer no momento? Eu por acaso não tinha agradecido pelo vestido da última vez?

- Agradecer pelo quê? E, aliás, eu não estou debochando de você. – esclareci – Eu fiquei até bem feliz que vocês dois estão juntos, imagine que tragédia seria se depois de tudo aquilo ela não estivesse afim de você?

- Como se algo assim fosse possível! – sua autoconfiança era proporcional à sua altura – E sobre o agradecimento, achei melhor não te falar na hora em que eu cheguei, mas você estava sendo observada.

No mesmo instante, me virei para procurar esse suposto alguém, mas tanto o píer quanto a praça estavam vazios. Olhei para Kris desconfiada, supondo que ele estava inventando aquela história tosca, o que ele rapidamente notou.

- Não me olhe assim, não é minha culpa se ele foi embora! – ergueu as mãos em defesa – Estou falando a verdade!

Olhei mais uma vez para trás, um pouquinho mais preocupada, já que ele não parecia estar mentindo sobre aquilo. Um arrepio ruim cruzou a minha espinha, e o anjo da guarda de Kris logo tratou de colocar a mão no ombro de seu humano, o instruindo em algo que eu não conseguia ouvir.

- Não precisa ficar preocupada com isso, não era um estranho. – Kris tentou me tranquilizar – Na verdade era alguém bem conhecido.

O olhar que ele me lançava dizia claramente que ele queria que eu perguntasse.

- Quem era?

Ele ficou um pouco sério antes de dizer.

- Chanyeol.

- Ah. – aquilo foi tudo o que eu consegui responder. Ouvir o nome dele me deixou mais desconfortável do que o normal, me fazendo olhar mais uma vez para o início do píer, procurando-o. Buscando o rosto dele para me certificar de que ele não estivesse mais ali, e tudo isso por que eu não queria vê-lo. Não depois da quantidade de lágrimas que Baekhyun derramou no sábado.

- Imaginei que reagiria assim. – o garoto colocou a mão no queixo, pensativo.

- Não há muito que reagir já que ele não está aqui. – falei fazendo-o olhar para mim.

- E o que você faria se o visse te observando? – Kris perguntou num tom de desafio, se divertindo com aquela situação.

- Não tenho certeza. – virei para o mar com as sobrancelhas franzidas – Mas ele com certeza não sairia ileso, pode apostar.

Kris abriu um sorriso.

- Não preciso de apostas pra acreditar nisso. – se apoiou nos cotovelos – Não duvido nadinha.

Ri com ironia.

- Pelo menos alguém tem que acreditar nas minhas ameaças.

- Você fala como se eu fosse um qualquer! – exclamou falsamente ofendido, fazendo uma careta cômica – Evito que você mate o garoto e ainda fala assim comigo?

Soltei todo o meu ar de uma vez.

- Kris, pare com o drama, você sabe que o teatro não é o seu forte.

- Cada frase é uma flechada... – ele disse com as mãos no coração.

Não pude segurar a risada, destruindo qualquer tentativa de parecer desinteressada na conversa, fazendo um sorriso calmo surgir no rosto do garoto.

- Seja menos ranzinza, Cathy. – disse calmo – Ou você e o Baekhyun vão acabar se afundando...

Dei uma cotovelada nele, apesar de concordar.

- Eu sei. – suspirei – Só que é um pouco difícil.

- Ah, nada é tão difícil assim! – ele tentou me animar.

Mas a verdade, é que era. E o anjo atrás dele deixava isso bem claro. Não importa o quanto minha vida se ajeitasse, aquela era uma sombra que estava determinada a me seguir para sempre.

- Quem sabe. – comentei por fim.

Gastamos mais uns minutos olhando para o mar e sentindo o vento castigar nossos rostos, praticamente implorando por um resfriado. E quem sabe fosse exatamente disso que eu precisasse, uns dias em casa, totalmente sozinha. Mas a prova de física não se faria sozinha, muito menos a de matemática e os outros tantos trabalhos onde Baekhyun era a minha dupla. Se eu não fosse até ele dar uns bons chacoalhões ficaríamos os dois sem nota, e ainda por cima eu aguentaria uma noite inteira de choradeira dele. Todo bimestre era a mesma coisa, aquele era o jeito Baekhyun de ser.

Depois de algum tempo, Kris levantou um pouco a manga do sobretudo para revelar um relógio dourado que parecia custar mais do que todas as minhas roupas juntas. Após olhar as horas, ele disse:

- É a minha deixa, tenho que buscar Seohyun em casa! – avisou animado, parecendo muito satisfeito com seu compromisso. Wu Yifan não passava de uma criança feliz.

- Ohou! – comecei sarcástica – Precisou de algum plano infalível pra conseguir esse encontro?

Ele fez um bico engraçado.

- Por acaso você me odeia, Cathy?

Sorri.

- Não vou dizer que sim nem que não.

Foi a vez dele de revirar os olhos.

- Quanto mais eu falo com você, mas entendo essa possessão do Baekhyun...

Era extremamente engraçado para mim esses comentários aleatórios que ele deixava no ar, isso só contribuía para que eu não o levasse à sério. Não foi preciso tanta convivência para que eu entendesse que era uma mania que ele não deixaria de lado. Na minha opinião, era o jeito de Kris de me dizer que éramos amigos, ainda que fosse uma amizade com o início mais anormal do mundo.

- Vá de uma vez, Kris, antes que a Seohyun mude de ideia! – tentei ser séria, mas minha intenção foi por água abaixo.

- Melhor seguir seu conselho. – ele prestou continência se despedindo.

Antes de passar por mim, Kris deu dois tapinhas calmos em meu ombro.

- Até outro dia. – disse já se afastando – Me deseje sorte!

Acenei enquanto o via chegar à praça com os pés apressados, lutando para não escorregar. No fim das coisas, Kris não era tão insuportável assim.

Depois de assisti-lo se afastar, puxei meu celular, conferindo que eu ainda tinha tempo antes de escurecer. É incrível a forma como o tempo se estende quando não há nada de interessante para fazer e se encolhe quando estamos nos divertindo ou fazendo algo importante. Era no mínimo injusta toda aquela distorção psicológica que acontecia tantas vezes.

Sem nenhuma perspectiva, achei que estava na hora de sair do píer e voltar para a padaria, nem que fosse para ficar sentada comendo ou conversando com o meu pai sobre alguma coisa aleatória até chegar a hora de fechar. Fui em meus passinhos de tartaruga para não cair, mais olhando para o chão do que para onde estava indo. O frio tinha aumentado, e agora, mesmo as minhas luvas pareciam não estar fazendo diferença alguma contra ele. Envolta em lã ou não, minhas mãos continuavam um cubo de gelo.

Tirei as mãos dos bolsos do casaco e comecei a esfregá-las umas nas outras, me amaldiçoando por não ter trazido um cachecol mais grosso e tentando entender por que o uniforme do colégio não tinha a opção calça para as garotas. Não havia meia-calça que aguentasse o frio do inverno, mas a maioria das outras pessoas não parecia compartilhar do mesmo pensamento que eu.

Olhei para o céu cinzento enquanto chegava à praça, torcendo para que não nevasse na volta para casa, o que muito provavelmente aconteceria. Eu não gostava muito do inverno.

Foi quando baixei meus olhos que vi que alguém estava me observando, em pé ao lado de um banco. Havia um anjo da guarda de aparência cansada acompanhando um senhor encasacado que me encarava fixamente com os pequenos olhos escuros, o cachecol xadrez avermelhado chamando atenção em contraste com as vestimentas de cores mais discretas, escondendo parte de seu rosto.

Paralisei por um momento, sem saber o que fazer. Eu não estava muito longe da panificadora, e estava calculando – na verdade eu só estava assustada – quais as minhas chances de conseguir correr até lá sem quebrar a cara no chão e ser sequestrada por aquele estranho. Eu já tinha começado a me mover quando o homem falou.

- Espere, garota! – ele tinha a voz rouca – É Catherine, não é?

Meu coração gelou.

Eu estava juntando todo o meu pouco fôlego para gritar por socorro quando, percebendo meu apavoro, o estranho abaixou o cachecol, revelando o resto de seu rosto. Ali eu definitivamente perdi qualquer noção do que estava acontecendo e minha cabeça deu um nó. Eu conhecia aquela pessoa, apesar de tê-la visto poucas vezes durante os quatro anos em que vim para cá.

O rosto cansado do anjo era um reflexo frágil de todas as marcas que o tempo tinha deixado naquele homem, que eu sabia ser mais novo do que aparentava. O pesar que o anjo da guarda carregava deixava claro que o trabalho de cuidar daquela pessoa não era fácil, e que os dois tinham passado por muita coisa. Algumas das quais eu sabia, e outras que eu nem poderia imaginar.

Um misto de vergonha e receio pela vontade anterior – e ainda presente – de sair correndo me inundou, e parecia que todas as palavras tinham fugido da minha boca. Eu só conseguia olhar para aquele cachecol vermelho e branco que agora não cobria mais o rosto do pai de Chanyeol.

- Me desculpe se eu te assustei... – o mais velho disse desconfortável, percebendo a situação em que estávamos – eu acabei cobrindo demais meu rosto com o cachecol do Yeol.

É claro que eu conhecia aquele cachecol. Quantas vezes eu já não o tinha visto no pescoço de seu dono, de Baekhyun, e até no meu? Pisquei forte para afastar as lembranças, me concentrando no que estava acontecendo agora.

Encarei o Sr.Park sem entender por que ele tinha me chamado do nada, justamente no lugar onde antes seu filho estivera me observando. Eu nunca tinha trocado mais do que meia dúzia de palavras com aquele homem. Ele estava sempre fora de casa, trabalhando, ou desmaiado no quarto depois de passar a noite bebendo. O máximo que eu tinha ido além dos cumprimentos havia sido um “parabéns” desejado no meu aniversário do ano anterior.

- Não foi nada. – menti, ainda com o coração batendo rápido – Eu só não tinha reconhecido o senhor.

O homem trocou o peso do corpo de uma perna para a outra, e limpou a garganta pigarreando baixo, aparentemente tão nervoso quanto eu. Ele queria claramente me dizer alguma coisa.

Eu só não queria imaginar o que era.

- Certo. – começou – eu... seria muito incômodo pedir para conversar com a senhorita?

Fiquei tão tensa que até as gaivotas na praia resolveram parar de fazer bagunça. Tudo aquilo estava me pegando de surpresa, a forma como Sr.Park falava, seu tom de voz, o cachecol, o pedido... eu nunca tinha imaginado que, algum dia, precisaria pronunciar mais do que um “boa tarde” para ele, ou pelo menos não tão cedo.

Notando a minha relutância em responder, ele olhou para os lados, nervoso, e respirou fundo. Foi o seu anjo quem me convenceu de que ele realmente precisava falar comigo, e que eu precisava escutar. Era importante.

- Não, incômodo nenhum. – tentei não soar tão incerta – Eu não posso demorar muito, já que preciso ajudar meu pai a encerrar com as coisas na padaria.

O pai de Chanyeol pareceu ficar aliviado com as minhas palavras, mas as suas seguintes pareciam não ser tão simples assim, julgando pelo tempo que ele demorou para se pronunciar novamente. Não parei para contar o número de vezes em que ele abriu a boca, mas não saiu som nenhum.

- Eu me sinto extremamente incapaz vindo até aqui, – Sr.Park pronunciava devagar, pensando bem no que dizia – então estou com um pouco de dificuldade em falar com você, espero que me desculpe.

Quanto mais ele falava, mais eu notava o quanto eu tinha convivido com Chanyeol sem falar com seu pai. Seu vocabulário era mais complexo do que eu imaginava, ainda que fosse maldade pensar isso.

- Não se preocupe com isso, senhor. – fiz que sim com a cabeça, tentando passar uma tranquilidade que eu não tinha – Nós nunca nos falamos direito antes, então acho que isso é normal.

Minhas poucas palavras – que tinham muito mais o objetivo de me convencer do que convencer a ele – pareceram surtir efeito.

- Eu preciso te perguntar... – a voz rouca fez uma pausa – você por acaso tem falado com meu filho ultimamente?

Senti um nó se formar em meu estômago, amarrando o espaço vazio sem comida. Pelo visto o pai de Chanyeol não sabia sobre a nossa última e desastrosa troca de palavras. Não que eu esperasse que ele soubesse. Eu só não queria voltar a pensar no assunto.

Vendo meu silêncio, ele prosseguiu:

- Eu não tinha mais a quem recorrer.

Olhei para o adulto cansado a minha frente, me esforçando para lembrar de não descarregar as mágoas guardadas, e sim só responder o que estava sendo me perguntado. Havia algo naquela conversa que me fazia ver uma preocupação que Chanyeol dizia nunca ter sido alvo, um interesse súbito. Uma pontada de curiosidade. Quem sabe até de arrependimento.

- Olha, Sr.Park, - tentei ser cuidadosa – a última vez que eu falei com o Chanyeol foi há mais de um mês atrás.

Aquilo pareceu chocá-lo. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo naquela família, mas tinha certeza de que as coisas não estavam às mil maravilhas. Não do modo que Chanyeol estava dando a entender.

- Entendo... – o homem encarou seus pés por um momento – acredito que deve ter notado que ele está... mudado.

Engoli em seco. O comportamento de Chanyeol estava tão anormal que seu pai, que sempre foi tão distante dele, havia notado. E agora estava procurando ajuda. A minha ajuda.

Só quem ainda não havia entendido era o próprio garoto.

- É, eu notei. – não pude conter o pesar em minha voz – Eu fui atrás dele por que estava preocupada, mas as coisas não correram como eu esperei.

A imagem de Chanyeol todo machucado despontou em minha mente, me fazendo voltar ao desconforto anterior ao me lembrar que fora o homem na minha frente o responsável por todos aqueles hematomas. Assim como tinha sido responsável pelo olho roxo do Baekhyun.

- Eu estou muito preocupado com ele. – o pai de Chanyeol admitiu com a voz trêmula – Nunca fomos muito de conversar, mas... agora ele realmente não troca uma palavra comigo. Não nos falamos há semanas.

Olhei para aquele homem adulto, que me encarava como se esperasse milhares de respostas e soluções de minha parte, como se eu pudesse resolver tudo em um piscar de olhos. Apagar todas as coisas erradas, consertá-las.

Mas eu não sabia nem resolver a minha própria vida.

- Sr.Park... por que exatamente veio me procurar? – perguntei receosa, tentando deixar claro que eu não fazia mágica – O senhor disse que não podia recorrer a mais ninguém, mas o que exatamente quer recorrer?

Seus olhos mais uma vez vieram direto para os meus, e eu não desviei o olhar. Eu não era um disk problemas familiares, muito menos tinha uma bola de cristal. Só um coração mole que funcionava com condições específicas.

- Eu... tenho medo de ter feito uma besteira naquela noite. – admitiu com dificuldades - Das grandes.

Eu já estava tão surpreendida com toda aquela situação, que não tinha pensado que poderia ficar mais. Meu coração teve uma pequena falha quando ele disse aquilo, e meus pulmões resolveram se fechar por alguns segundos agonizantes onde eu fiquei paralisada. Eu sabia que ele estava pedindo a minha ajuda, sabia que ele tinha percebido que havia algo de errado, sabia que se sentia culpado. Só não imaginava que admitiria com palavras tão sinceras quanto aquelas.

O Sr.Park definitivamente não se parecia em nada com os antigos relatos de Chanyeol e com o pouco que eu tinha visto. Aquele olhar era o de uma criança assustada que não sabia o que fazer, que sentia muito, que estava enxergando seus erros. E seu anjo da guarda confirmava isso, mesmo sem saber que eu estava ali. Eu sabia que, agora, algo de muito significativo naquele homem tinha mudado.

Lembrei meu corpo de que eu precisava de ar e me recompus, tentando não parecer tão espantada assim, apesar de isso não importar mais.

- Parece que concordamos nisso, Sr.Park. – expus minha opinião sem medo dessa vez – Isso é algo que eu realmente posso confirmar: o senhor fez uma grande besteira.

O homem olhou para os próprios pés, envergonhado e sem tentar se defender. Talvez, tudo o que ele precisasse fosse aquela confirmação.

- É um tanto contraditório eu estar levando bronca de uma adolescente. – disse por fim, voltando a me encarar.

- Vocês adultos não gostam de admitir, mas nós temos um cérebro bem desenvolvido. E, às vezes, vemos coisas que vocês fingem não enxergar. – dei de ombros.

Então, pela primeira vez em quatro longos anos, eu o vi sorrindo.

- Agora eu entendo por que meu filho é seu amigo. Você é uma criança que sabe o que falar.

O fato de a frase dita estar no presente fez meu coração se apertar. Mais uma vez, o potinho da esperança que eu guardava lá dentro se encheu um pouco.

Limpei a garganta, sentindo minhas bochechas esquentarem pelo elogio.

- Acho que devo agradecer. – disse incerta – Obrigada.

Seus olhos me encararam no silêncio, me analisando. Os orbes escuros não eram nada parecidos com os do filho, e não apareciam muito. Depois de alguns segundos, ele riu consigo mesmo e virou-se rapidamente para ver o mar cinzento, voltando logo depois.

- Me sinto patético por ter pensado durante todos esses anos que meu filho estava saindo com você. – confessou.

Apesar do pensamento dele fazer sentido, eu nunca havia pensado naquilo. Sempre que saíamos, Chanyeol deixava claro que estava indo tanto comigo quanto com Baek para os lugares, nunca mencionando uma pessoa só. De novo, fui pega de surpresa.

- Bem, como o senhor agora já sabe, não era eu, mas sim o Baekhyun. – falei com um resquício de sarcasmo aparecendo na voz. – Os dois namoraram por dois anos inteiros.

Foi a vez dele de ficar surpreso, erguendo as sobrancelhas por conta da informação. Pelo visto ele não sabia muita coisa daquele relacionamento que tinha ajudado a destruir.

- Dois anos? – indagou.

- Sim, dois anos. – reafirmei.

O olhar dele se desconcentrou de mim, provavelmente perdido em lembranças sobre o filho e o ex namorado do mesmo, sobre coisas que eu não podia descobrir, mas poderia facilmente imaginar.

- Então foi por isso que ele tentou tanto... – se interrompeu – ele não me contou nada disso. Ele não me disse uma palavra, Catherine. – dizia, esperando que eu desse uma resposta para aquilo – Eu... eu não o deixei dizer. Em vez disso eu...

Ao ver o desequilíbrio e a emoção que tomava conta da voz do homem mais velho, resolvi que seria melhor intervir levando-o um pouco para longe daquilo. Já devia ser humilhante o bastante se abrir para uma adolescente praticamente desconhecida, ele não precisava também de choro.

- Eu sei o que aconteceu, Senhor Park. – eu disse com cuidado – Chanyeol ainda estava com os machucados quando eu fui vê-lo. Mas acho que ficar se martirizando por causa disso agora não resolve nada. Se o senhor está arrependido, e eu acredito que esteja, precisa tentar corrigir seu erro.

Ele me ouvia com atenção, como se escutasse as instruções de uma prova final do colegial.

- Mas como vou fazer isso se ele não me ouve? – sua voz soou embargada.

Suspirei para tentar ficar menos tensa por causa do assunto. Eu estava atolada naquilo até o pescoço desde o início, não havia mais volta. Finalmente tinha a chance de ajudar em alguma coisa, finalmente poderia tentar consertar aquilo. Sem planos malucos ou conversas impulsivas.

- Vocês vão ter que conversar de algum jeito. – expliquei – O senhor era um dos dois principais empecilhos para que essa conversa acontecesse, o outro é o seu filho. Ele não está enganando mais ninguém além dele agora.

- Mas o que eu devo fazer? – ele ainda estava perdido.

Eu o encarei com mais vontade, querendo realmente passar toda a confiança que eu tinha naquilo, toda a esperança que eu estava depositando.

- O senhor tem que lembrá-lo, e também se lembrar – deixei bem claro – de que ser quem você é não é errado. Não importa se alguém gosta de garotos ou de garotas. Todos devemos fazer o que nos faz feliz, Sr.Park, e não o que os outros acham que é certo.

Ele abaixou o olhar, impactado com a dose de verdade que eu tinha jogado nele.

- Meu garoto estava certo. – ele estava mais compreensivo do que eu imaginava – A senhorita realmente sabe o que fala.

Agradeci por ele não estar olhando para mim, ou eu ficaria ainda mais vermelha. Eu não estava acostumada a receber elogios de pessoas mais velhas, muito menos aconselhá-las.

- Eu tenho uma ideia, - voltei para o assunto anterior – e se vocês dois fizessem algo juntos? Não tem algo que costumavam fazer antes disso?

O homem mais velho pareceu pensar profundamente, evidenciando mais uma vez a sua falta de contato com o único filho.

- Nós... costumávamos pintar coisas juntos. – disse um pouco receoso – Os barcos, a casa...

Sorri para encorajá-lo.

- Acho que essa pode ser uma boa oportunidade. – eu estava animada – Ele pode acabar se soltando desse jeito.

Senhor Park sorriu consigo mesmo, satisfeito.

- É uma boa ideia.

- O senhor poderia vir me contar o resultado disso? Eu geralmente passo pela padaria na saída da escola. – pedi curiosa – É só falar com o meu pai, ele me avisará.

- Claro. Virei assim que acontecer. – ele estampava um sorriso cálido – Mas ele não vai se incomodar?

Foi a minha vez de sorrir.

- Não há preocupações quanto a ele. É um cara bem compreensivo. – me arrependi depois de falar, com medo de ter soado arrogante. Era como se eu estivesse esfregando na cara dele o quão bom era nosso relacionamento familiar. Contudo, nenhum lampejo diferente passou por sua expressão.

O senhor Park continuava agradecido.

- Certo,então. – disse tímido – Acho que já tomei muito do seu tempo, senhorita...

- Rait. – completei sorrindo.

- Rait. – ele repetiu um pouco envergonhado – Senhorita Rait. Já está ficando tarde para crianças ficarem na rua, você deveria ir até o seu pai.

- O senhor tem razão. – concordei. Já estava quase totalmente escuro, e meu pai logo fecharia a padaria. Eu tinha que me apressar – Acho melhor eu ir.

- Muito Obrigada. – ele fez uma reverência, e eu a devolvi.

- De nada. Até mais, senhor Park.

Quando comecei a andar, a sensação que tive foi que aquela conversa não tinha acontecido, e que o pai de Chanyeol nunca tinha estado ali, muito menos se arrependido. Aquela aflição me fez dar meia volta, encontrando o homem no mesmo lugar de antes, há alguns metros de distância. Havia algo que eu queria muito perguntar a ele.

- Senhor Park, posso fazer mais uma pergunta? – o outro fez que sim, mexendo a cabeça para cima e para baixo – Aconteceu algo em específico que o fez mudar de ideia?

Por conta da distância e do cachecol que escondia seu rosto novamente, eu não pude ver sua reação, e cheguei a pensar que ele não responderia. Entretanto, ele afastou o cachecol com a mão e disse com a voz carregada de culpa.

- Talvez você me entenda algum dia, senhorita Rait, mas eu espero que não. – ele disse de maneira enigmática – Assistir um filho chorando por um erro seu pode mudar muita coisa. E eu o vi chorando na oficina depois que Byun Baekhyun foi embora.

 

~X~

 

“Você pode pegar este coração

Curá-lo ou parti-lo ao meio

Não, isso não é justo

Me ame ou me deixe aqui.”

Love Me or Leave Me,  Little Mix

 

 ~X~


Notas Finais


QUEM AÍ QUERIA VER O CHANYEOL DE MECÂNICO?
Seria meu sonho?

Vamos recapitular ahsahshas

Teve bate boca ChanBaek (com Baek mostrando mais uma vez que é rainha e que Nobody Can Drag me Down); teve Baekhyun meio bolado com a Cathy (tadinha) por causa da idiotice que o Chanyeol falou pra ele; teve comeback do KRIS todo apaixonado pela Seo; e teve a aparição de uma personagem que teve uma das maiores mudanças desde que a fanfic existe, o pai do Channie. As pessoas que gostariam da reconciliação do único casal que já foi real nessa estória deveriam prestar bastante atenção nele.

É, parando pra pensar, até que não aconteceu muita coisa nesse capítulo... mas eu quase me matei pra escrever a parte final, e na verdade não estou muito satisfeita com o resultado dela. A culpa é da trilha sonora que só tinha Sandy & Junior e me deixou meio louca. Perdoem.

Aconselho vocês a ouvir a música que eu coloquei no final, ela é realmente linda. Eu adoro Little Mix, e foi um dos singles delas que me fizeram começar essa fanfic, junto com alguns Mv's do Troye Sivan. Na verdade foi uma fã que acabou juntando a música das meninas com partes dos vídeos dele, e eu chorei tanto que quase desidratei.

Bem, espero que entendam o meu lado pelo que eu expliquei nas notas iniciais, e volto a ressaltar que o assunto da ocupação não está confirmado. Já são dois Institutos Federais ocupados aqui no Paraná e mais de 400 escolas estaduais. Existem muitas chances do meu IF minha ser o próximo colégio.

Espero que me contem o que acharam, por favor! Eu gosto muito quando vocês comentam, minha mão até coça para responder! Só sendo autor pra entender a importância dos leitores e dos comentários deles.

Obrigada por ler!


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