História O Conto do Gatoelho - Capítulo 1


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Mistério

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Para todos que perguntei sobre certa criatura, falaram coisas distintas. Cada um contou uma história, aparência e, principalmente, uma personalidade diferente.

Esses aos quais estou entrevistando disseram que ele era grande, musculoso. Um coelho merecedor de respeito. Elogiaram seus pelos azuis turquesa, e diziam que suas altas orelhas se mexiam como se fossem olhos, procurando inimigos escondidos onde sua visão não alcançava. Elogiaram também seu par de dentes, dizendo que eram perfeitamente brancos e até mesmo afiados!

Eu, entretida na história, rabisquei em meu bloco com os mais variados tipos de desenhos, todos acompanhando perfeitamente a estrutura que me era contada. E quando sua aparência finalmente fora relatada, começam a descrever sua incrível personalidade.

— Ele é muito corajoso! Outro dia, o vi salvando um pequeno gatinho de cima de uma árvore. — Contou-me uma menininha esquila empolgada.

Em seus braços ela segurava firmemente uma noz, como se aquela fosse sua única refeição.

Após mais descrições daquele formidável herói, agradeci e continuei caminhando por aquela floresta.

— Ora — Disse para mim mesma. — Esse parece ser o incrível herói que estou procurando para meu livro. Tenho que encontrar mais informações sobre esse tal coelho.

Caminhei mais um pouco, era fim de tarde. Os poucos raios de luz vindos do Sol atravessavam com certa dificuldade entre os galhos das grandes árvores recheadas de folhas. Mas a pouca luz que vinha já era suficiente para iluminar aquela trilha na qual caminhava.

Aquela era uma floresta bastante peculiar. Os animais que viviam ali eram de uma estranha mistura entre a raça humana e animal. Alguns, ainda, eram misturas de suas próprias espécies.

Pairava uma lenda misteriosa sobre a floresta, na qual aqueles animais foram criados por uma terrível bruxa que os escravizava, até que um dia um nobre guerreiro os libertou.

Muitos temem aquela floresta apenas quando citam seu nome, mas eu não. Assim que ouvi falar sobre essa enquanto passava pela cidade, fiquei curiosa e ansiosa para visitá-la.

Todos os animais eram muito hospitaleiros, principalmente a doce família de esquilos que acabei de visitar. Porém, agora o que me interessava era saber mais daquele herói que a pequena menina esquila me contara.

Caminhei tranquilamente, tentando seguir aonde a luz ainda chegava com mais força.

O doce aroma daquele lugar tão natural relaxava-me por completo. A mistura das frutinhas das árvores com os mais variados perfumes das flores que cercavam a trilha deixava aquele local ainda mais encantado.

Junto a mim, carregava minha fiel bolsa de ombro, minha parceira inseparável a anos, assim como o meu bloco de notas.

— Ei — Sussurrou alguém. — Você não é daqui, não é?

Virei na direção da voz. Ela vinha de um pequeno arbusto, alguém estava escondido atrás. Era uma voz adulta, mas curiosa como de uma criança aguardando pelo presente de aniversário. Sorri na direção que a voz viera, mesmo não vendo ninguém naquela direção.

— Bom, na verdade, não mesmo. — Comecei me explicando. — Vim aqui porque ouvi falar e muito desta floresta no vilarejo aqui perto. — Enquanto contava, fiquei atenta para qualquer movimento do sujeito. — Acho que seria mais apropriado ver com quem converso.

— Não falo com estranhos! — Respondeu, bruto e seco.

— Pois então deixe-me dizer meu nome. Sou Mavis. Mavis Lockwood. Sou uma escritora, e estou à procura de um tal herói, bravo e destemido, no qual ouvi falar mais cedo.

Uma risada rouca veio do outro lado do esconderijo, e enquanto ria, a criatura mexeu-se atrás do local. Pude ver um par de orelhas pontudas em um tom de laranja. Ao meu ver, parecia uma raposa.

Peguei meu bloco e rabisquei rapidamente aquela visão, fazendo o esboço perfeito do arbusto e das orelhas. Não podia perder nenhum detalhe daquela estranha floresta.

— Creio que está no lugar errado, Maquis.

— É Mav...

— Escute — Interrompeu-me. — Aqui não tem nenhum herói, há somente pilantras. Gatos que fazem de tudo para roubar seu dinheiro. Eles costumavam andar em gangues, mas se mudaram quando a cidade mais próxima começou a aparecer mais comerciantes. — Conforme explicava a situação, ele se mexia mais atrás do arbusto, dando-me cada vez mais certeza que era realmente uma raposa. — Agora só sobrou um dos gatos, o pior deles, era líder da gangue. Mas com o tempo ele perdeu o jeito, está gordo, ranzinza, e mal conseguimos o ver.

Aquela história era realmente diferente da que haviam me contado sobre o tal coelho. Disseram-me que era alguém que podia ser chamado de herói. Já esse gato, pelo jeito, era o oposto daquilo.

Virei rapidamente a página em que fiz o esboço da criatura que me explicava, e comecei a desenhar aquele gato.

Quando ele notou que sua história me interessava, aproximou-se mais um pouco, e pude ver pés de pato.

Aquela era mais uma criatura misteriosa da floresta. Uma raposa com pés de pato era realmente algo curioso.

— Por que o interesse pela história, senhorita? — Perguntou-me a criatura.

Dei um pequeno sorriso na direção dele, dando um leve aceno com a cabeça.

— Como eu disse, sou uma escritora, e estou atrás de um nobre coelho, o qual me contaram sua história a pouco. — Respondi. — Porém, a história desse gato também é muito fascinante.

— Infelizmente, não irei te contar mais. Estou atrasado e preciso ir.

Tentei o impedir, mas a criatura sumiu rapidamente entre as folhagens, desaparecendo tão misteriosamente quanto chegou.

Aquilo deveria me entristecer, mas o que acontecia era exatamente o contrário. Tinha praticamente a história perfeita: um heroico coelho que servia de exemplo para as crianças e um gato cruel e traiçoeiro, um perfeito inimigo para o nosso querido herói.

Mas sabia que tinha que explorar ainda mais daquela bela floresta e interrogar mais algumas das fantásticas criaturas que ali viviam.

O céu já estava quase que completamente escuro, e me perguntei onde foram parar os raios de luz que banhavam meu caminho. Em meu interior sentia que deveria voltar para a cidade, me afastar daquela floresta, era meu sexto sentido falando que ali era perigoso, confrontando-se diretamente com meu extinto aventureiro e destemido.

Decidi seguir em frente!

E lá fui eu, saltitando pela floresta com meu pequeno bloquinho, cantarola cantigas infantis, fazendo todo o possível para me distrair e esquecer do medo que ia crescendo lentamente dentro de mim.

Passou-se um tempo e eu já não enxergava nada. Mal conseguia ver meu próprio corpo. Sabia que a Lua iluminava os céus, mas os espessos galhos das árvores bloqueavam a esfera pálida.

Aquela floresta que à luz do Sol era tão bela e encantada, ao anoitecer transformava-se em uma cena horripilante de filmes de terror.

— O que eu faço agora?

Murmurei baixo. Até lembrar que havia uma lanterna em minha bolsa. Aliviada, percorri minhas mãos até a bolsa, mas não a encontrei. Como poderia ter a perdido?! Deveria estar em algum lugar.

Abaixei-me e comecei a procurar no chão, tateando a terra úmida.

— Procurando isso...?

Fiquei estática, meu coração acelerando tanto que eu conseguia senti-lo palpitando em meu peito. Inutilmente, fitei a escuridão, tentando olhar na direção da voz, mas nada vi.

Uma risada rouca veio da mesma pessoa — ou criatura — que falou antes. Sua voz era charmosa, sedutora, pertencente ao típico vigarista. Ao típico vilão. E sua risada era tão atraente quanto.

Levantei e me encolhi, dando passos para trás. Não era uma ação planejada, mas não conseguia controlar meu próprio corpo.

Ouvi um “click” e a luz veio em minha direção, cegando meus olhos. Na tentativa de me esquivar daquele intenso brilho, coloquei os braços na frente do rosto.

— E-Ei! — Reclamei.

Novamente o “click” e a luz se apagou.

Pisquei algumas vezes, tentando recuperar a visão, mas a escuridão tomava conta de tudo, aumentando meu desespero. Não conseguia mais enxergar ou aquela intensa luz era o que todos chamam de “luz no fim do túnel”? Haveria eu morrido?

Apenas sentia o terror crescendo dentro de mim, deveria ter ignorado meu lado aventureiro e ter ido embora!

Agora, ali estava eu, fora roubada, isso se não estivesse morta, e alguém estava brincando comigo e com minha bolsa!

— Por que tem tanta curiosidade em saber mais sobre esse gato e sobre esse coelho?

— Eu... sou uma escritora! Estou procurando um protagonista para meu livro. — Respondi, tentando não transparecer o medo em minha voz, mas claramente havia falhado.

O silêncio dominou, juntamente com a escuridão. Um estranho som viera da criatura, algo entre um ronronar e uma risada sarcástica.

Aquilo fez meu cérebro livrar-se do medo e entrar a curiosidade. Vigarista, traiçoeiro, um ladrão. Aquele em minha frente só poderia ser ele!

— Você — Comecei, minha respiração já estava irregular mesmo antes de começar a falar. — Só pode ser o tal gato!

— Um gato? — A voz ainda estava no mesmo tom que antes. — Um coelho...

Algo pesado caiu, rolando até minha direção. Não pude ver o que era, e não tive coragem em me abaixar para descobrir.

— Venha comigo. — Ordenou a voz. E então uma luz mais fraca acendeu-se, parecia vinda de um isqueiro, apenas alguns poucos metros a minha frente.

Ela começou a se mover, afastando-se, mas tentando manter o brilho.

Pensei em fugir, em me esconder ou sair correndo, mas aquele mesmo extinto me ordenava a seguir o desconhecido, e o fiz.

Caminhei entre tropeços, batendo em árvores e arranhando-se em galhos. Ele nada disse, apenas meu próprio barulho era o que conseguia ouvir e apenas o brilho fraco do fogo era o que conseguia ver.

— Onde vamos? — Indaguei.

Sem resposta.

Era difícil acreditar que eu seguia alguém e não uma luz que flutuava. Não havia som de passos a não ser o meu.

E ali fomos. Caminhamos por mais algum tempo e meus olhos pareciam já acostumados a escuridão intensa. Não haviam mais tropeços ou galhos me arranhando. Era como se meu próprio corpo estivesse acostumando a viver sem luz.

Mas, pouco a pouco, a escuridão sumia. Lá na frente, não muito distante de onde estávamos, havia o que parecia ser uma casa, e de lá vinha uma fraca luz e também música.

— Quando entrarmos não quero que fale nada. Vai apenas me seguir e ficar calada.

Não o respondi, mas iria obedecer. Sua voz autoritária não me deixava pensar diferente.

Andamos mais um pouco e agora a luz refletia em nossos corpos, banhando o caminho estreito ao qual andávamos. Assim, revelando o que era aquela criatura.

Ele caminhava em minha frente, ou melhor, saltitava em minha frente. Suas grandes orelhas acompanhavam os pequenos pulos, balançando para baixo e para cima, assim como sua calda peluda, que abanava lentamente para todas as direções. Aquele sujeito parecia ser pesado, não fazia ideia como as pequenas pernas de coelho aguentavam uma barriga tão roliça. E, mesmo com todo aquele peso, seu saltitar era leve, sutil, uma dança serena em meio aos galhos caídos ao chão. Sequer um fora quebrado pela criatura.

Aquele era o coelho ao qual me falaram? Não. Deveria ser apenas mais um coelho. Em silêncio, continuei o seguindo.

Aquela cabana de madeira envelhecida ficava em meio a um lugar aberto daquela floresta que ao anoitecer era tão sufocante. Parecia uma casa abandonada, o cheiro de mofo impregnava meu nariz, fazendo-me tossir repetidas vezes. A fumaça deslocava-se da estranha chaminé de tijolos, e risadas altas misturadas a música country vinham do interior do estabelecimento.

Pensei em perguntar que lugar era aquele, mas sabia que o silêncio seria minha resposta.

Apenas o segui, esperando pelo pior.

Caminhamos até a porta de entrada, era tão velha quanto o resto da madeira, e vendo de tão perto, repleta de musgo.

Asqueroso. Isso era aquele lugar. Além do cheiro repugnante que vinha lá de dentro, — uma mistura de álcool com fumaça de cigarro — tudo ali era nojento. Desde a madeira velha que até mesmo os cupins rejeitavam, até as risadas hediondas.

A criatura abriu a porta. Enquanto segurava na maçaneta pude perceber sua pata. Era de gato. Garras afiadas que apareciam conforme a maçaneta era pressionada, e rapidamente desapareceram à medida que a porta se abriu.

O sopro quente que veio daquele local deixou-me tonta, era tão repugnante quanto a parte de fora, talvez até mais. Animais e humanos bebiam juntos, gargalhavam e divertiam-se com coisas que não eram engraçadas. Todos bêbados.

Ninguém parecia nos notar ali, e agradeci por isso. O meu guia fora saltitando até o interior do local, ele esbarrava em homens gargalhantes, mas não parecia se importar. Agora perante a luz daquele bar, pude notar o colete de cor mostarda que o coelho — se assim posso chamá-lo — vestia. Era pequeno demais para alguém tão redondo.

A bagunça de cadeiras e mesas para todos os lados dificultavam nosso caminho, ou pelo menos o meu, já que ele contornava com facilidade, assim como fazia com os galhos caídos ao chão.

Mais alguns passos e ele sentou na mesa mais distante de todos, no fundo da cabana, virado de costas para mim. Ainda não pude ver como era sua face, mas nem me importava, já sabia que era um coelho.

Desloquei-me até ele, agora a multidão já estava afastada, ainda riam e murmuravam coisas sem sentido ainda, mas ao menos ninguém me emburrava. Contornei a mesa, sentando na única cadeira que havia sobrado, justamente em sua frente.

Ali, uma surpresa. Olhando-o assim, se eu conseguisse ignorar as grandes orelhas de coelho que se mexiam constantemente como antenas procurando algo a ter receio, o meu guia era um gato. O nariz achatado junto com a boca perfeitamente delineada tirava toda aquela autoridade aparente, mas entravam em contraste perfeito com os olhos verdes cansados. O sofrimento e a dor pareciam ter o dominado, não haviam mais motivos para aqueles riscos negros que formavam sua boca levantarem em um sorriso, por menor que fosse. A expressão variava entre carrancuda e vazia, solitária e sem vida.

— Não há nenhum gato, nenhum coelho. Há somente uma criatura, tal que fora amaldiçoada por toda eternidade. — Começou ele falando. O tom agora era mais sério, mais cansado. — Você deve ter ouvido falar dessa floresta, não ouviu?

“A muito, muito tempo, essa floresta que hoje é tão encantada e bela, fora moradia de uma mulher, Elena. Elena era aquela que havia conseguido o que muitas invejavam: roubara o coração do príncipe. Era uma linda jovem, bela e sorridente, os cabelos vermelhos esvoaçantes entravam em perfeita divergência com a pele pálida, tão branca quanto o mais deslumbrante luar. O príncipe era apaixonado por aquela mulher, que além de tão linda e doce, tinha um coração bondoso, ajudando aqueles que precisavam.

Mas, quem era ela? Uma camponesa com um horrível histórico na família. Sua mãe e suas tias foram queimadas vivas quando Elena ainda era uma criança, acusadas de bruxaria. Iria o grande e poderoso rei permitir tal amor? É claro que não.

Um príncipe deveria se casar com uma donzela de família nobre, alguém que tenha um nome conhecido e educação privilegiada, e não com uma bruxa!

Forçado pelos pais a destruir aquele amor, o príncipe obrigou-se em acabar com os sentimentos de Elena, dizendo que ela não era nada além de uma camponesa, uma bruxa. O coração de Elena escureceu, e aqueles formosos olhos verdes encontraram a escuridão pela primeira vez.

A floresta se calou. Não havia vento ou um canto de pássaro naquela manhã. Tudo se denegriu junto com o coração do príncipe, e os olhos de Elena.

E lá ficou ela, parada, mesmo que seu príncipe, aquele que ela chamou de amado um dia, tenha ido embora.

Ah, sim. A família de Elena era uma bruxa. E ela também. A floresta começou a virar sufocante, os galhos tinham vida e impediam que qualquer luz banhasse a terra. Os animais tentaram fugir, mas Elena os amaldiçoou, unindo espécie com espécie, fazendo o que ninguém poderia um dia fazer. Os guardas do rei também tentaram a impedir, mas eles também caíram na terrível maldição. Tornaram-se parte homem, parte animal. O rei e a rainha foram as próximas vítimas, sofrendo assim como os outros. Todos eram escravos da bruxa.

O príncipe culpava-se, sabia que aquilo era delito seu e agora seria tarde demais para impedir sua doce Elena. Sabia que perdera seus pais e seu reino, aquela pequena vila, onde todos caíram na maldição da bruxa, já estava morta. Mas, pensou o príncipe, não poderia ele salvar seus súditos?

Com uma espada na mão e o escudo na outra, ele foi atrás de sua amada, mas agora, para tirar a vida dela.

O príncipe a matou, libertou seu povo. Mas sofreu, e irá sofrer toda a eternidade por essa escolha. ”

Lá estava eu, entretida naquela história, mas dessa vez sem nenhum bloco ou lápis na mão, apenas meus ouvidos atentos a todos aqueles relatos.

A lenda era real, mas jamais imaginaria que a história seria tão profunda e amarga como era.

— Não existe nenhum gato, nenhum coelho. Existe apenas um homem que teve seu tudo destruído. O nobre coelho que salvou todos da escuridão, e o gato miserável que sobrou depois disso.

O que ele queria dizer com isso?

Estava mesmo me dizendo que aquele coelho, alto e elegante, um verdadeiro herói que todos falavam, era ele?

“Um nobre guerreiro libertou”. O guerreiro era o príncipe, e o príncipe fora amaldiçoado. Isso quer dizer que...

— Sim, esse sou eu. — Respondeu ele, parecendo ler meus pensamentos. — Sou o que todos chamam de Gatoelho. Uma criatura medíocre, um gato vigarista, o antigo e nobre príncipe que a todos salvou, hoje vive eternamente pela maldição de Elena, nunca encontrarei a felicidade. A mistura da marca de meu reino e da criatura que todos chamam de traiçoeira.

A marca do reino. O antigo reino que aqui estava a décadas atrás. O reino que misteriosamente desapareceu. Sua marca era um coelho, lembro-me disse quando li desesperadamente tudo o que encontrei sobre essa floresta antes de vir para cá. A bruxa, Elena, transformou o príncipe que a traiu em um gato misturado com coelho: um gatoelho. Deu-lhe vida eterna, para que todos os dias ele lembra-se o que ele fez. O quanto a magoou.

Calei-me. Não sabia como progredir nem o que lhe dizer. A história era muito pior do que eu jamais imaginei.

O coelho que a menina esquilo me contou era apenas uma história que as mães deveriam contar para as crianças dormirem bem, sabendo que lá fora havia um protetor salvando os inocentes. Apenas uma lenda sobre o nobre príncipe. A raposa tinha razão, não havia herói, havia apenas aquela ilustre criatura que sacrificou a própria vida pelo bem do seu povo. Que sacrificou sua felicidade pelo bem do reino.

Que sacrificou sua amada por um bem maior.

Gatoelho levantou e vestiu uma cartola, escondendo as enormes orelhas peludas e brancas. Um pequeno aceno com a cabeça fez para mim, a solidão em seu olhar era devastadora, chegava a ser cruel. Ele então afastou-se, saltitando até a porta da saída. Seus passos não eram mais danças entre as cadeiras, era arrastado, sem nenhuma leveza, trazendo consigo toda a mágoa e a tristeza que levaria para o resto de sua vida imortal.

Eu fiquei parada, imóvel. Sentia a melancolia crescente dentro de mim. Conseguia sentir o desespero daquele nobre homem. Daquela nobre criatura. E lá, sozinha naquele animado bar onde haviam apenas risos e gargalhadas, deixei que ele fosse embora, não me atrevi a segui-lo e compartilhar da mesma dor que a eternidade o condenou a viver. 



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