História O coração de uma rainha - Capítulo 8


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Magia, Mistério
Avisos: Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Capítulo Oito


Tomei um banho longo. Fiquei pensando em como minha vida havia se tornado tão complexa em apenas alguns dias. Estava tudo normal, mas de repente ficou tudo tão bagunçado. Eram muitas informações para serem processadas ao mesmo tempo e muitas responsabilidades que eu teria que adquirir. Eu não tentava demonstrar, porém me sentia perdida em meio a tudo isso.

Minha relação com minha tia estava indo de mal a pior. Nós nunca fomos muito próximas, éramos mais o tipo "cada uma por si", o que fez com que eu tivesse que crescer mais rápido. Aliás, não sei o que é receber amor de verdade, porque o que sempre recebi foi um balde de água fria quando o que eu mais precisava era apenas um abraço. Então, acho que eu também não seria capaz de amar, se, na verdade, eu não sei o que é o amor.

Vesti-me e fui para a cozinha para poder jantar. Conforme ia descendo as escadas, conseguia ouvir com mais clareza a conversa entre os Greenlays e a Amberly. Não pude escutar direito, mas sei que estavam falando sobre a tal profecia que estava se cumprindo, contudo logo pararam de falar quando perceberam que eu estava me aproximando.

- Olá, Anna. Está se sentindo confortável com essa roupa? - a anfitriã perguntou.

- Estou sim. Obrigada, aliás - agradeci.

- Estamos aqui para servir - Jiin afirmou com timidez.

Acenei com a cabeça e continuei parada ao lado da porta observando os três colocarem à mesa. Os Greenlays voavam rapidamente de um lado para o outro carregando os pratos e talheres enquanto Amberly estava terminando de preparar o jantar. 

Reparei que os três, a todo momento, estavam tentando ajudar uns aos outros. Tinham uma ligação muito bonita. Era belíssimo de ser ver.

Por fim a comida estava pronta. Amberly me convidou a sentar à mesa e logo o fiz. Eu me sentia meio incomodada com essa situação toda, então, antes de jantamos, uma dúvida surgiu em minha mente:

- Com licença, mas o que é essa profecia?

- Ah, sim. Eu quase havia me esquecido disso - Amberly afirmou. - Pois bem, há mais ou menos trezentos anos um mago disse que o rei de um vilarejo se apaixonaria por uma feiticeira pouco tempo antes do seu casamento com a rainha e estes teriam uma filha, mas que não seria assumida pelo seu pai. A feiticeira, então, juraria se vingar do rei, lançando uma maldição a qual todas as pessoas do vilarejo morreriam, inclusive o monarca e sua esposa, menos algumas pessoas da realeza, pois no fundo a feiticeira saberia que sua filha possuía sangue real. No entanto, sua criança também teria poderes especiais assim como a mãe e que, ao completar dezoito anos, ambas entrariam em uma batalha gravíssima onde teriam que colocar seus dons à prova para descobrirem quem teria controle absoluto sobre todas as criaturas do Reino.

Naquele instante eu havia perdido a fome. Toda a profecia estava se cumprindo e não havia nenhum jeito para eu sair dessa situação. Por um momento me arrependi de ter perguntado sobre, mas minha curiosidade me dominou; não pude evitar. 

Faltavam apenas poucos dias para o meu aniversário, sendo assim, poucos dias para a batalha. 

- Então, Anna - Niia cortou meus pensamentos, agora todos misturados - você está bem?

Era uma pergunta simples, contudo difícil de responder. Eu estava bem, mas também não estava. Era complicado de explicar, eles não entenderiam. Então, achei que a melhor resposta seria:

- Sim, só que agora eu perdi a fome. Preciso descansar um pouco - disse, já me levantando.

- Ah, o que é isso? - Amberly perguntou. - Sente-se, você precisa se alimentar, Anna. Coma alguma coisa e depois vá descansar.

Por um breve instante pensei se tudo aquilo valia a pena, logo sentei-me de volta e esperei os Greenlays me servirem.

Enquanto fazia meu prato, Jiin afirmou:

- Você está com medo. Posso sentir.

Meus olhos arregalaram. Eu me sentia desprotegida e sozinha mesmo tendo a companhia dos três. Eu realmente sentia medo, todavia era medo de tudo. Absolutamente tudo. A profecia estava se realizando e quando eu menos esperasse, entraria em uma batalha com a minha tia, entretanto, depois de tudo isso,  acho que a pergunta que eu deveria ter feito era: por quê? 

Por que eu? Por que comigo? 

O que eu havia feito de errado para merecer tudo isso? Eram tantas responsabilidades que eu vim adquirindo ao longo dos anos  que a única coisa que eu queria era não ter nenhuma preocupação, só que isso era impossível.

- Não fique assim, Anna. Logo irá se acostumar com tudo isso, basta ter paciência - disse, Amberly.

Aquela frase foi o estopim para eu explodir de raiva.

- Eu não aguento mais ouvir que devo ter paciência - gritei, batendo com o garfo na mesa. Meu punho estava cerrado e eu o pressionava cada vez mais forte contra a madeira até meus dedos ficarem brancos. - Eu só quero que tudo isso passe. Minha vida está tão confusa nesses últimos dias. Minha tia é, na verdade, minha mãe e uma das feiticeiras mais perigosas do Reino, eu tenho poderes e uma profecia de trezentos anos está se cumprindo agora. Vocês ainda me pedem para ter paciência

- Anna, você precisa se acalmar. Não é se estressando que irá resolver seus problemas.

- Eu não me importo, está bem? Eu só quero ficar sozinha, e, por favor, não venham atrás de mim.

Joguei o garfo com tanta força  contra a parede mais próxima até fazer uma marquinha e fui correndo até a sala. Abri a porta e saí sem rumo, na esperança de que ninguém me seguisse e eu pudesse relaxar.

Comecei a andar pelas ruas do vilarejo. Estava nevando e logo senti um pouco de frio. Conforme caminhava, fui reparando nas casas que eram bem pequenas e simples por sinal. A madeira do telhado estava quase em ruínas por causa dos cupins, mas isso não era um problema tão grande que os moradores teriam que enfrentar a partir de agora. Logo todas essas pessoas morreriam e não sobraria mais ninguém; pagariam o preço por algo que nunca fizeram. Isso cortou meu coração, então eu simplesmente ajoelhei no meio da rua e comecei a chorar. Eu chorava por todas as mães que perderiam seus filhos, pelas crianças que perderiam seus pais, esposas que nunca mais veriam seus maridos e futuros que seriam jogados fora, tudo por causa da vingança de uma feiticeira que se apaixonou pela pessoa errada.

Agora eu sentia que carregava todo esse peso nas minhas costas. O peso da dor de várias pessoas. O verdadeiro peso da culpa, que, a partir da primeira morte no vilarejo, eu carregaria pelo resto da minha vida.

Sentia a neve cair sobre mim. Estava ficando cada vez mais frio. As maçãs do meu rosto queimavam conforme as lágrimas rolavam. Eu estava sozinha.

De repente comecei a ouvir passos atrás de mim. Alguém estava se aproximando até ficar completamente ao meu lado. Ergui a cabeça e, para a minha surpresa, era um rapaz. Aparentava ser uns dois anos mais velho que eu. Tinha a pele clara e cabelos negros e metade do rosto coberto pelo seu capuz. 

- Precis de ajuda? - perguntou.

Levantei-me apressadamente e fiquei quase da sua altura. 

- Não, obrigada. Eu já estou indo para casa - disse, limpando o rosto cheio de lágrimas com as minhas mãos gélidas.

- Deixe-me acompanhá-la, então - insistiu, já me seguindo como se fosse meu amigo.

Apenas o ignorei e, mesmo sem minha permissão, começou a me acompanhar. Demos apenas alguns passos e logo o silêncio se tornou constrangedor. 

- Então, qual é o seu nome? - perguntou, depois de longos segundos. 

- Não interessa - respondi, tentando não estender o assunto que nem havia começado.

- Bem, já que você não  vai se apresentar, eu vou. Meu nome é Charles . Charles Walker. Tenho dezenove anos. Prazer em conhecê-la - disse, todo simpático, estendendo a mão para mim.

Para não ser grossa, retribui o gesto.

Eu, tão ingênua, mal sabia que ali, através daquele pequeno aperto de mãos, começava uma história, ou melhor, a nossa história.

- Anna Johnson. Prazer em conhecê-lo.




- Então, Anna, o que uma garota tão bonita como você estava fazendo no meio da rua?

- Se eu fosse feia você se importaria?

- Ah, eu não quis dizer isso.

- Tudo bem. Eu não ligo mesmo.

Por um instante Charles parou de andar e ficou me observando.

- Você tem uma personalidade forte, gostei disso - afirmou, piscando seu lindo olho castanho direito para mim. Tentei segurar, mas foi impossível não soltar um sorriso de canto. Charles ainda estava me acompanhando, eu não queria sua companhia. Queria apenas ficar sozinha para poder pensar um pouco, mas ele me atrapalhou. 

- Então, você não me disse o que estava fazendo aqui. Está nevando, pode se resfriar. 

Para mim, ele era um estranho. Como eu contaria os meus problemas para uma pessoas que eu acabei de conhecer e, provavelmente, não o veria mais? Não fazia sentido.

- Não é nada que te interesse. Você é persistente, hein? - disse, tentando fazer com que ele não quisesse mais saber sobre mim.

- Hum, é bravinha também. Estou gostando de você.

Meu plano não havia dado certo.

- Quer saber? Por que você está me acompanhando? O que você vai ganhar com isso? 

- É... eu não vou ganhar nada, mas um cavalheiro nunca deve deixar de acompanhar uma dama - afirmou, dessa vez sorrindo para mim. Que sorriso lindo.

Ah, para com isso, Anna. 

Charles parou de caminhar e ficou me observando por breves segundos e, agora com a luz da lua a nosso favor, pude ver melhor seu rosto. Seus olhos castanhos eram de uma tonalidade a qual eu nunca vira. Seu rosto tinha um formato único e seu sorriso era simplesmente maravilhoso. Era uma pessoa de aparência única, incomum no vilarejo. O capuz cobria parte de seu cabelo, mas ainda consegui ver um pouco melhor os fios negros. Logo percebi que estava o observando demais, então, constrangida, continuei a andar. Apressei o passo para tentar deixá-lo para trás, porém ele era mais rápido que eu e, quase instantaneamente, me alcançou.

- Percebi que você é uma garota diferente. Já disse que gostei de você?

- Dá para parar de ser persistente?

- Deixe-me ver... não - disse, destemido.

- Pff... bem, você pode até  ter gostado de mim, mas saiba que não gostei de você. Não gosto de pessoas persistentes, para falar a verdade - disse, tentando deixar claro que não o queria por perto.

- Eu gosto de pessoas com personalidade forte como você.

- Acabou de me conhecer. Não pode gostar de mim ou querer ser meu amigo.

- Quem disse?

- Eu.

- Mais um motivo para eu querer saber mais sobre você.

Charles era uma pessoa que estava me irritando de certo modo naquele momento. Eu queria ficar sozinha para poder pensar um pouco sobre tudo o que estava acontecendo, mas ele não permitiu. 

- Sua casa é longe? - disse, com as mãos dentro dos bolsos de sua roupa.

- Na verdade eu vou para casa de uma amiga. Fica logo atrás dessa rua - afirmei, apontando com o dedo indicador a direção da casa de Amberly. 

- Então por que estamos indo na direção contrária? - perguntou, parando de caminhar.

- Porque meus objetivos eram sair e pensar um pouco sobre minha vida, mas você apareceu e estragou tudo.

- Na verdade, eu acho que eu te ajudei. Você estava no meio da rua cheia de neve e chorando por algum motivo que eu não sei.

- Nem vai saber - afirmei, com autoridade. Então, resolvi dar a volta e refazer o meu caminho até a casa de Amberly. Charles, persistente, foi me acompanhando, porém agora sem dizer nada. 

Tentei dar passos largos para que ele parasse de me seguir ou que ao menos ficasse para trás, todavia as pernas dele eram mais compridas que a minha e logo me alcançava. 

- Ei, não adianta andar mais rápido, Anna. Eu sempre vou te alcançar. 

- Você fala isso como se tivesse alguma intimidade comigo.

- E eu não tenho? 

- Claro que não. Como eu disse, acabei de te conhecer. Você não pode querer ser meu amigo.

- Posso sim. Eu gostei de você.

- Certo. Agora pode parar com esse seu teatro de jovem bonzinho porque eu não acredito, está bem?

- Isso não era nenhuma encenação, mas tudo bem.

Quando percebi já estava a apenas alguns passos da casa de Amberly, então Charles se aproximou mais de mim, porque antes estava um pouco afastado e disse:

- Aqui é a casa da sua amiga?

- Sim. - respondi - Agora pode ir embora. Obrigada por me acompanhar. Tchau - afirmei, logo virando as costas e colocando meus pés na varanda.

- Ei! - gritou. - Posso te encontrar amanhã no mesmo lugar e no mesmo horário? 

- Não vou sair com um estranho.

- Eu não sou estranho. Sou seu novo amigo - afirmou, com um sorriso estranho no rosto.

- Mesmo assim. Não crie esperanças - disse, logo abrindo a porta e entrando em casa.

- Estarei lá - disse, com a voz meio abafada por causa da certa distância que havia entre nós agora.

Logo percebi que eu estava sorrindo.

Ele é só um cara que acabou de conhecer, disse uma vozinha na minha cabeça, mas eu sentia que ele era especial, mesmo não querendo admitir. Meus sentimentos estavam todos misturados; eu gostei de tê-lo conhecido, contudo eu não queria um amigo, eu só queria pensar, entretanto o garoto misterioso surgiu, trazendo consigo o real significado de persistência, o que eu estava precisando ter muito nesses dias.





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