História O Diário de Alice Taylor - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Assassinato, Romance
Visualizações 3
Palavras 2.803
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


O que acharam do último capítulo?

Capítulo 9 - Capítulo nove


Com um chute nada delicado nas costelas doloridas, ela o acordou.

Ainda estava grogue, piscando demasiadamente lento, tentando entender o que estava acontecendo e porque tinha cordas em seus pulsos e tornozelos, uma mordaça em sua boca e um nariz sangrento. Alice sentou diante dele em uma daquelas cadeiras de praia com estampas coloridas e girava o taco de basebol sujo que tinha em mãos, quando os olhos dele foram em sua direção, arregalaram-se e ele emitiu ruídos abafados. Ela já estava entediada esperando com que acordasse, pois sua vida só tinha graça com suas trilhas sonoras preferidas. Achava graça naquela cena já que ela deveria ser a indefesa, dopada e amarada no chão sujo de um depósito abandonado, mas só se seu mundo girasse certo.

Tudo era ao contrário.

Ou era apenas ela.

Haviam se conhecido em um bar afastado, juntou-se a ele na mesa porque agia como se precisasse de companhia. Davi Morgan tinha 23 anos, uma estrutura facial um pouco esquisita, os olhos cor de caramelo pareciam assustados como os de uma coruja e várias sardas se espalhavam pelo seu nariz adunco. Ela não planejava mata-lo (na verdade sim, mas preferia pensar que foi totalmente por impulso), inventava fatos para as perguntas feitas por ele se apresentando como Gabrielle e anotava mentalmente informações desnecessárias sobre a vida dele, mas eram informações em meio dessas que definia se ele poderia ser uma vítima em potencial ou não. Não tinha uma relação boa com sua família por causa das drogas, morava sozinho e não tinha ninguém – apenas um cachorro vira-lata em seu apartamento.

No fim, lá estavam eles no velho galpão.

Seu celular apitou.

LEMBRE-SE DE TOMAR SEUS REMÉDIOS

EVA.

Revirou os olhos, aquilo não era hora.

Davi emitiu ruídos indistintos, mas pareceram muito uma enxurrada de palavrões contra ela enquanto a mesma prendia seus cabelos em um coque mal-feito, pegou as luvas cirúrgicas na bolsa ao seu lado e as colocou. Era uma mera formalidade usá-las, apenas para finalizar seu look de assassina em série de quinta categoria, mas mesmo assim gostava da sensação do látex e do cheirinho que ficava depois. Apoiou o taco no chão e pegou a faca que estava em seu colo, girando-a lentamente; ajoelhada e com o rosto a alguns centímetros do rapaz, sorriu ao ver a confusão em seus olhos e o nariz quebrado pelo taco. Era possível dizer que ele estava se sentindo pior do que ela.

― Só quero que você entenda, Davi... Não é nada pessoal, ok? ― disse em seu tom mais doce de voz. Sem pestanejar, cravou a faca no ombro do rapaz e girou a arma na carne. ― É mais uma necessidade ― continuou a falar, ignorando os ruídos que ele emitia. Uma lágrima escorreu dos olhos de coruja. ― Você alguma vez já se perguntou se era louco? Eu não, mas tenho uma amiga aqui ― apontou para a própria cabeça. ― que se pergunta isso direto... Não sei o que dizer para ela.

Tirou a faca do ombro dele e segurou o rosto do mesmo com as mãos, analisando-o com cuidado. Sentia vontade de rasgar sua pele com as próprias unhas, como um animal selvagem, mas infelizmente sabia que não podia. A lamina perfurou uma das orbes caramelo, lágrimas cristalinas se mesclavam com lágrimas escarlates e tudo o que ela conseguia escutar era o som dos gritos transformados em choro e o pulso abafado ecoando em seus ouvidos. Naquele momento, ela era apenas uma telespectadora de seus atos, como se não estivesse ali de fato. Não foi ela que o desmembrou, não foi ela que o estripou, talvez tenha sido ela quando cortou um sorriso de orelha a orelha no pescoço de Davi, mas só talvez. Conversava consigo mesmo, mas não conseguia ouvir as palavras então não conseguia responder, estava sentada em seu sofá observando aquele filme gore que passava diante de seus olhos e não podia interagir com os participantes, eram nesses momentos que ela sabia que não estava no controle. No fim, a outra Alice queimou os restos do rapaz, junto com as luvas e tudo que utilizou para limpar o ambiente – tecidos, papeis, esponjas – e só depois de tudo, acalmou-se e dissipou como um fantasma, permitindo que Alice as levasse para casa para que pudessem aproveitar uma boa noite de sono até a tarde do dia seguinte.

 

 

Sentada no sofá às três da tarde do sábado, comia um sanduiche requentado de bacon e uma garrafa de cerveja barata a acompanhava, Nirvana tocava e ela ignorava a figura pequena e peluda que estava aos seus pés pedindo por um pedaço do sanduiche. Por que diabos tinha um cachorro ali?, você deve estar se perguntando e Alice também. Veja bem... Ela cometeu um erro, ok? Depois de sair do conforto de seu galpão e entrar na cidade, percebeu que Davi tinha deixado suas chaves e sua carteira em cima do banco do passageiro, por algum motivo Alice se lembrou do animalzinho que o mesmo disse que estava no apartamento sozinho e por algum motivo pior ainda sentiu o impulso de ir até lá mesmo sabendo que seria perigoso, mas era madrugada e ela não tinha nada para fazer. Deveria ter ido dormir!!!!, eu sei, eu sei. Ao chegar no prédio, subiu com cautela, evitando qualquer ser vivo que encontrasse – para sua sorte, não encontrou nenhum –, assim que entrou o cachorro avançou para cima dela sem latir, mas felizmente não passava de um filhote de pelagem branca com caramelo e orelhas de morcego que ficou abanando o rabo enquanto cheirava suas pernas. O que estamos fazendo aqui?, ele é fofo. Puta merda, Alice. Pegou a guia que estava atrás da porta, prendeu na coleira que o mesmo usava e o pegou no colo, saindo como se ali fosse sua moradia. Agora ela tinha arrumado um cachorro, que sentiu o cheiro do seu dono e confiou nela, agora ela tinha a porra de um cachorro que estava mijando em papel de jornal e comendo bacon. E ele se chamava Dylan. 

O celular vibrou em cima da mesa de centro onde seus pés estavam apoiados agora, ignorou já que deveria ser Amy. Ela poderia esperar, bacon e Kurt Cobain (e Dylan) eram prioridades maiores no momento.

Infelizmente, começou a tocar e ela revirou os olhos, engolindo o resto do sanduiche que tinha na boca pegou o controle do som para diminuir o volume do mesmo e olhou no visor para ver que estava a perturbando aquela hora.

James Smith.

Ah, vá a merda. Atendeu.

― Alô?

― Alice? ― a voz de Lucas soou do outro lado da linha.

― Lucas?

― Ah, olá!. ― disse. ― Estava achando que havia errado o seu número. Como está?

― Como conseguiu meu número? ― indagou.

― Tenho meus contatos, boneca.

Revirou os olhos dramaticamente e bebericou a cerveja: ― O que você quer?

― Vamos sair.

Alice se surpreendeu com a objetividade dele, pois geralmente quando os garotos a chamavam para sair as vozes vacilavam, mas a dele permaneceu firme, de modo que a fez pensar seriamente sobre aquilo.

― Como amigos. ― Acrescentou. ― Antes que você pense que quero abusar de você.

― Nós não somos amigos, Smith.

― Mas poderíamos usar isso para virarmos amigos, não acha?

― Não quero ser sua amiga.

― Então que tal namorada? ― disse com uma voz sedutora, mas brincalhona.

― Qual o teu problema?

― Você é tão difícil. Vamos sair como conhecidos então, fingimos que nos encontramos por lá. Te pego às quatro e meia.

Antes que Alice pudesse responde-lo, o telefone ficou mudo, ela olhou para Dylan que a olhava com a cabecinha torta, com as orelhas de morcego apontando para o lado.

― Depois eu que sou a doida. ― disse.

Claro que ele estava brincando, por que diabos chamaria logo ela? Jogou o celular embaixo de uma almofada qualquer e levantou-se para jogar o lixo fora e trocar o CD, optando dessa vez por algo mais pesado Ace of Spades, do Motörhead. Suas gavetas e prateleiras eram repletas de CD’s, tantos que não se lembrava da maioria, mas sabia que havia várias discografias completas ali. Passou a hora seguinte apenas escutando músicas, cantando e dançando por vezes na companhia do cachorrinho que corria pra lá e para cá ao ver a animação da nova dona. O bom do velho rock n’ roll e derivados era que as notas pesadas penetravam em sua mente, acalmando-a em vários momentos. Um solo de guitarra era quase um analgésico para ela, as letras fortes envolviam-na, tocando a alma inexistente de modo confortante. Isso fazia com que esquecesse os problemas e devido a isso esquecia de dar atenção a Outra-Alice e esqueceu também, por desventura, do que Lucas lhe disse: ― Te pego às quatro e meia.

 

A campainha tocou duas vezes, Alice tinha acabado de acordar de um breve cochilo no chão da sala e resmungou baixo enquanto esfregava os olhos e bocejava, andou trôpega na direção da porta com Dylan ziguezagueando por entre suas pernas (ele havia dormido, finalmente, mas o ding-dong alto o acordou). Atrapalhou-se com as chaves penduradas na parede, não sabia o porquê de ter tantas e assim que abriu a porta, o cachorro avançou para o recém-chegado, cheirando suas pernas e mordendo a boca da calça.

― Eu não sabia que você tinha um cachorro.

Depois de uma exclamação feia escapar, completou: ― Nem eu.

― Belas pernas. ― observou-a apenas de camiseta. ― Mas acho que não vai sair assim, não é?

― Não.

― São quatro e meia, esqueceu de mim?

― Sim.

Ele adentrou no apartamento sem pedir autorização, arrastando a bola de pelos que mordia seu sapato caro, Alice o fitava com as sobrancelhas erguidas na esperança que ele se tocasse, mas Lucas Smith não o fez. Os olhos castanhos estudaram a sala pequena e Lucas sentou no sofá, colocando o cachorro para cima também. Dylan pulou em seu colo e começou a lamber seu rosto.

― Vá se arrumar. ― pediu educadamente, afagando as orelhas de morcego.

Alice revirou os olhos, cruzando os braços sobre o peito.

― Já falei que você está sexy?

― Ok, você ganhou. Eu vou sair com você, mas é só hoje. Fique aí.

Com isso, adentrou no banheiro e se olhou no espelho. Os cabelos estavam amassados para um lado de sua cabeça, tinha olheiras fundas e seus olhos brilhavam de forma estranha, o que não combinava nem um pouco com os lábios comprimidos e as sobrancelhas franzidas. Revirou os olhos de lápis-lazúli mais uma vez, demoradamente, e prendeu os cabelos. Tomou um banho rápido evitando pensar que Lucas Smith estava em seu apartamento, aquele pensamento era estranho, pois ninguém nunca tinha entrado ali desde que os rapazes arrumaram a mobília, estava com certo ciúmes do seu lugar. Escovou os dentes e se enrolou na toalha, saindo de lá com a camisa e a calcinha que usava anteriormente em mãos, conteve o impulso de checar se o rapaz ainda estava no seu sofá e foi para o quarto, trancando a porta.

Arrumou-se rapidamente, com seus jeans, camiseta de banda amassada e seus Converses surrados, mas não saiu do quarto em vez disso foi até a janela – e embora Alice gritasse para ela se jogar – acendeu um cigarro e o tragou sem pressa. Sabia que não deveria ir, mas uma parte dela estava se perguntando qual era a pior coisa que poderia acontecer, na melhor das hipóteses, poderia morrer.

― Vamos. ― disse ao sair do quarto com a jaqueta de couro em mãos.

― Minha jaqueta. ― observou esticando a mão.

― Fica melhor comigo.

― Verdade, você parece uma criança com ela.

Alice jogou a cabeça para trás, rindo forçadamente e o encarou, séria.

― Pelo menos por hoje, você poderia ser legal comigo e rir das minhas piadas.

― Eu já fui legal demais com você, Smith.

Dylan dormia no sofá parecendo um anjinho peludo e estava com os potes cheios – tanto o de ração (que ela havia comprado às pressas) quanto o de água –, talvez ela realmente ficasse com ele. Saíram, descendo as escadas em silêncio, já quase no térreo Lucas indagou o motivo dela morar ali e surpreendeu-se quando ela respondeu que era o lugar mais barato que havia encontrado, também perguntou se ela estava atrás de outro emprego e ela ignorou. Ao chegar no Porsche estacionado na frente do prédio, Alice achou uma sorte enorme ele ainda ter todas as rodas e os vidros inteiros, talvez tivessem tirado apenas a gasolina, Lucas se adiantou e abriu a porta para ela como um cavalheiro. Revirou os olhos, relembrando a ele que aquilo não era um encontro e nem se transformaria em um, sentou-se no confortável banco de couro chocolate sem se sentir confortável. Ela não deveria estar ali.

― Então, quais são seus planos? ― Alice indagou quando o rapaz sentou-se ao seu lado.

― Bom, inaugurou um novo parque de diversões, que tal? ― Deu a partida no carro, o motor roncou.

― Parque de diversões?

― É um lugar onde as pessoas vão para se divertir.

― Ah! Não me diga?!

― Que tal? Você pode escolher: um filme no cinema com direito a beijos e o que quiser ou ir a um parque de diversões chato para se divertir com o risco de cair de algum brinquedo e morrer. ― Lucas fez uma pausa como se estivesse avaliando as chances daquilo realmente acontecer. ― Sabe... Está passando uns filmes legais, poderíamos assistir três sessões seguidas.

― Não, obrigada. ― Ela entortou o nariz. ― O risco de cair de um brinquedo é bacana.

― É o que vamos ver, Freaktaylor.

Aquilo soou quase como uma ameaça aos ouvidos de Alice, que se perguntou mentalmente o que ele realmente tinha planejado, a partir daí uma cena ridícula de Lucas empurrando-a da roda-gigante começou a passar em looping por sua cabeça, revirou os olhos para a tremenda estupidez. No sinal vermelho, ele ligou o som e aumentou o volume de modo que o refrão bastante conhecido preenchesse o ambiente fechado.

Hey oh!

Let´s go!

― Ramones? ― indagou cética, encarando o som sem acreditar.

― Sim. Gosta?

Alice apenas balançou a cabeça positivamente, batendo o pé ao ritmo da música.

― Vamos, Alice. Cante. ― disse. ― Hey oh!

― Let’s go. ― Ela completou em uma mescla de confusão e uma faísca de animação.

Então ela começou a se soltar, conversaram bastante sobre suas bandas preferidas e até discutiram amigavelmente por conta de gostos duvidosos já que a top 1 de Lucas era Beatles.

― Eles são lendas!

Alice tossiu fingida, Beatles não era de seu agrado porque a música não ensurdecia sua cabeça e se a música não fazia isso, não tinha muita utilidade para ela. Falaram sobre suas vidas, na verdade Lucas falou. Toda vez que fazia uma pausa para Alice falar, ela retrucava com alguma pergunta aleatória para ocupar o tempo. Foi um trajeto um tanto quanto demorado por conta do transito, mas eles não perceberam isso.

Ele era filho de uma das melhores neurocirurgiãs de Seattle, Emily Gonsalves, o que explicava o carro e o ego do garoto. Tinha uma irmã mais nova chamada Melissa e o pai – um professor bêbado de universidade, segundo ele – morava em Cambridge, Massachusetts. Ela se atreveu a perguntar se eles haviam sido abandoados ali pelo homem, mas Lucas negou e explicou que devido aos inúmeros desentendimentos dos pais, os mesmos resolveram entrar em um acordo e em seguida com o divórcio (“Eu não acho que é assim que deve acabar, mas se acabou talvez não era realmente para ser, não é?”, indagou para ela que não respondeu). De repente, Alice percebeu o que realmente estava fazendo, ela não se importava com nada daquilo realmente, estava apenas coletando informações úteis para caracteriza-lo como uma vítima ou não, da mesma forma que fez com Davi e todos os outros. Fazia aquilo inconscientemente e era um dos motivos de sua cabeça confusa, informações demais das quais ela não se lembrava com clareza de todas, algumas informações eram apenas palavras sem nexo e certas pessoas eram apenas rostos sem informações, mas sabia que se esforçasse conseguiria ligar tudo.

Suspirou.

Lucas parecia que não era ressentido com o pai, talvez fosse como se ele não existisse de fato e ela entendia aquilo perfeitamente, nem mesmo seu tom de voz ou seus gestos deixavam alguma coisa transparecer. Quem sabe tivesse acabado de forma pacifica e ele o tenha perdoado a ponto de não se lembrar mais do rosto do mesmo, ela queria perguntar mais, porém se conteve e ficou apenas batendo as mãos nas coxas ao ritmo da música que tocava, essa ela não conhecia.

― Chegamos. ― Lucas anunciou animado.


Notas Finais


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