História O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Celta
Tags As Brumas De Avalon, Celta, Drama, Druidas, Fantasia, Medieval, Romance, Rpg, Sacerdotisas
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Palavras 4.236
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas da Autora


E a briga de egos ganha um novo capítulo...

Capítulo 5 - Hostil


Fanfic / Fanfiction O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 5 - Hostil

 

“A inteligência é a insolência educada”. (Aristóteles)

Arwen estava atônito, incrédulo essa era a palavra correta. Custava-lhe aceitar que a mesma ladra que roubara suas coisas na floresta se tratava da filha do rei. Quanta sorte a sua... Procurou não transparecer a tensão e desviar o olhar, que delator, procurava as marcas de machucado no pescoço da garota.

Fez uma mesura à moça que desfilava pelo salão como um cisne soberano em seu lago.

– É um prazer conhecê-la… Alteza. - Havia um gosto amargo em sua boca, gosto esse que o cavaleiro tentou não derramar em sua voz. Ter que usar um tom moderado e cortês lhe deixava ainda mais incomodado, detestava esses joguetes da corte, os sorrisos supérfluos, as conversas onde cada palavra tinha de ser pensada e medida para não ser usada pela outra pessoa a fim de constranger-lhe ou deturpar suas intenções.

– Igualmente sir. - Ela cumprimentou cheia de graça e cortesia, mal parecia a mesma pessoa que lhe confrontara na floresta. Seus cabelos estavam presos, diversas tranças pequenas se uniam a uma única trança maior que escorria pela nuca, ombro, busto. Uma fina tiara dourada em sua cabeça, uma capa de peles exageradamente felpuda fechava em seu pescoço cobrindo-lhe quase por completo. Uma imagem digna da realeza.

– Lorde Arwen - iniciou o rei - é o atual senhorio do Castelo dos Pen Draig. Cavaleiro do Rei Rheged, a serviço do rei dos Bretões. - Fez uma pequena pausa e ganhou um tom de constatação súbita - Que por curiosidade é seu primo. - Olhando para Arwen com um sorriso.

Arwen apenas sorriu, sem saber ao certo se por simpatia, constrangimento ou nervosismo.

– Imagino que a viagem tenha sido longa, cavaleiro, espero que tenha sido tranquila. - Ela tinha um sorriso singelo no rosto.

– Sim, alteza, agradeço a preocupação. - A incerteza do que estava por vir era o que mais angustiava.

– Graças aos deuses - Gwendoline suspirou em alívio - Soube que há um javali feroz atacando os viajantes pela floresta.

Um “eu me preocupo mais com ladrões” se desenhou no pensamento de Arwen, mas ele não falou. Discutir diante do rei não lhe traria nenhuma vantagem. E talvez essa fosse mesmo a intenção da bastarda. Talvez notando o desconforto do ‘Filho do Dragão’, ou apenas por estar entediado com o rumar do assunto, Loernius atalhou:

– Minha filha, você sugeriu a mim e sir Arwen que conhecia problemas com o rei do cavaleiro, por que não compartilha conosco? Junte-se a nós e exponha suas considerações.

– Agradeço…- A filha do rei sorriu satisfeita com ar de quem está ganhando numa disputa. Uma disputa não declarada explicitamente, mas que tanto ela quanto Arwen, acatavam com igual fulgor. – Como dizia, soubemos recentemente que o rei casou-se com uma cristã. Com os votos a sua esposa, seu rei fez votos ao deus dos romanos. Um deus intolerante e opressor que toma unicamente para si toda a criação do mundo e prega por medo, não por compreensão; medo de ser castigado, medo de queimar. O problema em questão é que um homem, antes de ser fiel a um reino, é fiel à sua família, a sua esposa. Ao que ouvi dizer, seu rei é um jovem nobre de bom coração. Logo, ele vai procurar atender ao reino em igualdade, uma jura com o deus dos romanos, uma jura com os nossos deuses. Mas logo ele terá de tomar decisões. E quando seus filhos lhe perguntarem como se criou a terra, o que ele responderá? Quando seu povo estiver confuso sobre o que é verdadeiro, como ele acalmará e aconselhará seu povo? Dirá que ambos os deuses existem e são verdadeiros? Mas o deus dos romanos se diz “o único e verdadeiro deus”, logo nossos deuses não existem ou são falsos? Ou ele dirá aos romanos que seu deus mente? - Ela fez uma pequena pausa como se esperasse uma resposta que Arwen não conseguiu formular antes dela retomar a palavra - Quando os deuses entrarem em conflito, sua amada esposa estará lá, graciosa e bela, implorando para que ele proteja seu deus. Já os nossos… - Cruzou as mãos a frente do vestido de forma quase sacerdotal. - Quem falará por eles?!

– Se me permite a palavra, alteza, um rei sabe de seus deveres. - Resoluto. Por mais que não gostasse, Gwendoline tinha, de certo modo, um ponto. Mas esse era um problema entre o rei e seus súditos.  Não dele.

– Se me permite cavaleiro, um rei, antes de ser rei, é um homem. - Com solidez similar.  - Um homem que uniu sua sorte* a de uma cristã.

– Minha filha, - Interrompeu o rei meneando a cabeça. - A jura de Arthur com o Povo foi feita diante de uma cerimônia sagrada de todo modo. Se os deuses lhe deram a coroa, quem somos nós para tirá-la? - Mesmo surpreso com a declaração, Arwen se permitiu um discreto sorriso de vitória. Sua sorte parecia estar mudando.

A filha do rei pareceu não se abalar.

– Não estou discutindo sua legitimidade como rei. Mas seu compromisso com ambas as causas.

O rei meneou a cabeça outra vez.

– Tomando as palavras do filho de Emrys: Um bom rei sabe de seus deveres. De todo modo, somente o tempo mostrará a força de caráter do jovem. - Então voltou-se a Arwen - Cavaleiro peço que fique alguns dias em nossa companhia, preciso ponderar se os dragões dessa geração possuem o mesmo valor dos quais eu lutei ao lado.

- Que então seja, majestade.

Embora não fosse uma ideia agradável, Arwen já imaginava que teria de passar alguns dias na cidade. Só não imaginava em se deparar com tamanha hostilidade da corte local. E quando dizia corte, se referia unicamente a bastarda que lhe atacou na floresta.

– Pedirei que Grift lhe mostre os aposentos que separei para você e sua comitiva.

– Agradeço a cortesia majestade, contudo, eu e meus homens estamos acomodados em uma bela estalagem, não queria tomar como uma afronta, mas-

– Ora, mas o que é isso, meu jovem. Que tipo de homem seria eu se permitisse que o único filho de meu grande amigo ficasse em algum local que não fosse em meu próprio castelo?!

 

***

 

A Pele de Foca havia separado uma das mesas para a “comitiva do Dragão” como Desmond gostava de intitular. Não que fosse um título oficial, mas nenhum dos membros parecia muito contrário à ideia do nome. A mesa de madeira pesada tinha algumas fendas e alguns riscos com desenhos mal feitos de obscenidades. Tinha cheiro misturado entre gordura, cerveja e outros ingrediente que foram derramados em sua longa estada naquele bar.

Eustace tamborilava os dedos na mesa enquanto os homens bebiam e falavam futilidades, vigiava a porta da hospedaria com ansiedade esperando Arwen passar por ela a qualquer momento lhe trazendo notícias de seu encontro com o rei de tão bárbaro povo. Marcus já havia retornado, e como o incompetente que era, desencontrou-se do lorde e não trouxe nenhuma notícia relevante. Talvez fosse melhor assim, talvez isso fosse uma providência divina para afastar o lorde da presença infame do romano. Quase cuspiu quando pensou nisso. “Romano”, Mascus não deveria ser chamado de romano. Roma abriu os olhos para verdade, reconheceu que a Verdade é o único caminho. Já Marcus, mais parecia um fariseu.

A silhueta de Arwen apontou pela porta, parecia um demônio com todas aquelas escamas vermelhas. Eustace levantou-se com prontidão e deu alguns tapas em Tristan que a sua frente lhe barrava passagem. Atalhou o cavaleiro no caminho para mesa com um “Como foi a audiência, senhor?”. O lorde respondeu com um “falarei a todos” e continuou atravessando o salão em passos largos. Algumas pessoas teciam comentários de admiração a medida que passavam pelas  mesas, a armadura exercia bem seu papel em chamar a atenção. Eustace particularmente não gostava daquela aparência. Seu senhorio deveria vestir algo mais reluzente, mais condizente com seu status de defensor da lei sagrada, algo que lhe fizesse lembrar um anjo na terra trazendo a vontade divina. Talvez, quando provasse a indignidade do atual conselheiro e assumisse ao lado do Senhor das Terras do Leste, o convencesse a abandonar tão imprópria imagem.

Os homens afastaram-se para dar lugar ao seu senhor mas ele não sentou. Um leve tom de tensão se estabeleceu na mesa. Exceto por Marcus que com a tranquilidade de sempre, pôs uma caneca a frente de Arwen. O filho do primeiro Dragão sorveu quase metade da caneca e afastou de sua mente pensamentos mais sombrios. - O rei nos convidou para o castelo. - Ele iniciou.

O homens encararam isso como uma vitória e a tensão se dissipou.

- Não gosto de castelos. - Tristan resmungou - A comida sempre chega fria no quarto dos convidados.

- Eu estou ansioso para conhecer a fortaleza das fadas, - Os olhos de Desmond brilhavam enquanto ele falava - eu ouvi dizer que aquelas pedras são encantadas. Que existem ninfas de beleza exorbitante que entremeiam em seus corredores.

- Um fato é que o rei Loernius adora toda e qualquer inventividade mais exótica. - Marcus complementou -  Ele paga a viajantes para lhes trazer esses inventos. Na primeira vez que vim a este reino, Loernius festejava para mostrar a todos seu novo sistema de latrinas não deixava mal cheiroso o aposento.

Larzo interrompeu com um sonoro “Isso é bobeira, toda latrina fede”, e um burburinho sobre a possibilidade ou impossibilidade do fedor irrompeu na mesa. Arwen estava alheio, projetando seus dias num conflito eterno e indigesto de sua estada na fortaleza e seus encontros com a bastarda que lhe rasgara a barriga.

- Por gentileza homens, - Eustace interveio já irritando-se com o assunto - Não viajamos todos esses dias para discutir sobre o fedor das latrinas. - Voltando-se para Arwen - meu senhorio, o rei já concordou em firmar as alianças para lutar em nossa causa?

- Na verdade, não. - Arwen ergueu o braço para limpar a boca na manga da camisa, mas percebeu que estava com a armadura. Marcus lhe entregou um pano que estava consideravelmente limpo, dada as condições da viagem, o Dragão agradeceu com um gesto de cabeça enquanto prosseguia - Arrumem suas coisas, vamos partir para o castelo quando estiverem prontos.

- Homens peçam algo para comermos. - Marcus ordenou enquanto se levantava - Meu amo, venha comigo, eu lhe ajudo a retirar a Pele. - Ele apanhou uma garrafa e duas das canecas de barro que estavam sobre a mesa e começou a se retirar - Aproveitamos e trocamos algumas palavras.

***

Eustace estava parado na porta do quarto com Marcus lhe impedindo a passagem.

- Poderia nos dar um momento, padre?!

- Eu vou ficar e aconselhar o Lorde. - Respondeu com uma convicção inabalável.

Marcus estava pronto para mostrar suas oposições quando seu senhorio o interrompeu, gesticulando para que o romano desse passagem ao sacerdote. Satisfeito, o homem da fé sentou-se na cama de Brendan. Esticando os lençóis encardidos antes de sentar. Pobre garoto... até poderia ser uma boa pessoa, era uma pena que não tivesse alma.

O protesto no olhar de Marcus era nítido. “É melhor assim” Arwen respondeu em um sussurro enquanto retirava as peças da armadura. Desagradado mas retornando a sua feição de imparcialidade e tranquilidade costumeira, Marcus terminou de ajudar seu senhorio com as peças mais complicadas,  desenhou seu sorriso singelo no rosto, encheu um copo com a bebida que trouxera e sentou confortavelmente diante do padre. “Vejamos o que a voz divina nos diz”, debochou. Eustace respirou fundo e o ignorou.

Não que Arwen fosse uma pessoa religiosa. Na verdade, o cavaleiro nunca se interessou por assuntos de santos e diabos. Para ele, o verdadeiro mal estava nos homens. Eram homens que enfrentava no campo de batalha, era seu sangue que derramava e suas espadas que o cortavam. Nunca vira besta alguma, seja infernal ou divina, as únicas bestas que conhecia moravam nos corações daqueles com quem lutava. Mas a corte de seu rei estava cercada por padres, e ele aprendera bem os hábitos do clericato. Quanto mais se tenta calá-los mais eles falam, e Arwen não estava em meus melhores dias para discutir.

- Pode Começar Eustace. - Deu a palavra enquanto passava um pano úmido pelo corpo antes de vestir uma camisa.

- Percebo sua aflição meu lorde. - O religioso iniciou. - É notória a provação que enfrenta, mas antes de tudo, o senhor tem que manter sua fé. - Arwen teria revirado os olhos, mas não o fez, bastava Marcus criando intriga com o emissário do rei. Rheged sempre lhe falara da sabedoria dos cardeais, e mesmo não sendo religioso, o rei repetira várias vezes “essa nova fé é como os elefantes do imperador. Se você se por contra ela, será pisoteado, mas, se você estiver com ela, poderá estar nas costas do gigante. Então você poderá pisotear”. O Dragão, particularmente, nunca vira um elefante, mas pelas imagens nas tapeçarias, ele parecia ser algo de fato medonho. Arwen entendia que esse conselho não tinha a intenção de atraí-lo à fé, mas era preciso reconhecer que mesmo sendo algo imaginário, o credo produzia mais conflitos que muitos motivos tangíveis. Estava vivenciando isso nesse exato momento. Procurou tentar a prestar atenção nas palavras de Eustace, talvez de fato ele lhe desse algum conselho prático da situação. - O que lhe falta senhor, é consagrar sua viagem a Deus. Orar para que ele lhe atenda as palavras. Até agora, o senhor cercou-se de concelhos tendenciosos,  não ouviu a palavra de Deus. Somente Ele pode lhe guiar a vitória. Lhe dar a sabedoria para escolher as palavras certas, para que Deus possa agir e tocar o Rei.

Não, definitivamente, desta conversa não sairia nada de útil.

- Meu problema não é falta de palavras, sacerdote, - Interrompeu - meu problema não é algo imaginário, ele é bem palpável e personificado, e não é o rei.

- Estou confuso, senhor.

- O rei tem uma filha… – Arwen começou a por o problema, e tão logo suas palavras saíram o sorriso de Marcus se alargou.

- Meu senhor... - Acrescentou tranquilamente o romano - Todo seu problema realmente consiste em apenas uma mulher? - Seu tom de voz diminuía o problema a algo quase supérfluo. Como um infante que chora por não conseguir subir num banco.

- Não é apenas uma mulher - tentando transparecer a real seriedade de sua dificuldade - é a filha do rei!

- Uma mulher. - Marcus insistiu

- Arg! Que seja! - Contrariado.

- Meu senhor, toda e qualquer convicção de uma mulher cai diante de palavras doces.  

- Heresia! – Cuspiu Eustace de imediato enquanto Arwen apenas voltou-se ao romano, atônito. O sacerdote, contudo, prosseguiu bravejando como se exorcizasse um demônio. – Um homem de bem como sir Arwen jamais, eu repito, JAMAIS! Curvar-se-ia ante tais práticas promíscuas. Sequer se relacionaria com esses pagãos.

- Mas, é o sangue desses pagãos que será derramado para proteger as suas igrejas, padre.

- Você não passa de uma serpente peçonhenta Marcus. - Rasgava entre os dentes apertando os olhos.

- Recomponham-se homens. - Interviu Arwen. Uma ordem que serviu mais para conter Eustace que a Marcus, o romano estava calmo, sentado como se degustasse a indignação do religioso. Girando a bebida no fundo do copo.

- Mas senhor - O religioso interferiu aflito.

- Eustace, deixe-nos a sós.

- Lorde Arwen…

- Entenda padre - Sibilou o conselheiro - existem assuntos de Deus e existem assuntos de homens. Vá ler o sermão às prostitutas, talvez alguma se revele sua Madalena. - Marcus ignorou o olhar de censura de seu senhorio e virou o restante do líquido do copo.

- Eu irei orar por sua alma Marcus - Retaliou o padre arrogante, ofendido pelo comentário - E lhe aconselho que faça o mesmo.

- Deixarei as orações para você, meu amigo, não quero incomodar os ouvidos de Deus tantas vezes com o meu nome, acredito que ele tenha coisas mais importantes a fazer.

- Marcus, basta! Eustace, eu lhe dei uma ordem.

Relutante, o sacerdote deixou o aposento. Marcus parecia satisfeito, pôs as duas canecas no chão e as encheu. Entregou a de Arwen e voltou a sentar-se. Estava ficando com fome.

- Sinceramente Marcus… Você me coloca em situações desconfortáveis quando se põe a discutir com o sacerdote… Você sabe que ele está conosco por indicação de nosso rei.

Marcos meneou a cabeça pensativo.

– Começo a pensar que temos muitos reis para poucos súditos. Quase me sinto em roma – Rindo.

- Gostaria de estar com esse bom humor, meu amigo. Mas estamos diante de um problema que requer bem mais a nossa atenção que discussões religiosas. - Colocando a caneca de lado e deitando na cama. Ignorou os pequenos fios do linho que lhe arranhavam levemente a pele.

- Desculpe, não dei a devida atenção ao fato. - Notando o genuíno pesar na voz do Dragão - Conte-me, como sucedeu a conversa com o rei após minha retirada?

- O rei em pessoa não demonstrou declinar da ideia de se aliar a meu primo. Mas como eu disse antes, o rei tem uma filha.

- Sei. - Contendo o gracejo

- Ela é completamente indisciplinada, pertinente e contrária a toda e qualquer aliança. - Gostaria de adicionar “cadela ardilosa e fingida”, mas conteve-se - Além de tudo isso o rei lhe dá ouvidos e tem sua opinião em conta.

Marcus aprumou-se numa melhor  postura.

- Sabe qual a diferença entre nós dois, meu amo?

- Você não é um Dragão?! - Soltou sem pensar virando a cabeça para olhar diretamente a Marcus.

- Não isso - O romano sorriu, claro que essa seria a primeira resposta que ele iria lhe dar - A diferença é que onde você vê um problema, eu vejo uma oportunidade, até mesmo uma solução.

- Você não falou sério quando sugeriu que eu cortejasse a filha do rei, falou? - Levantando a cabeça.

- Sim. - Resoluto - Sem sombra de dúvida.

- Isso... - Afundando novamente na cama cobrindo os olhos com o braço - Não é uma possibilidade. - Definitivamente, não era uma possibilidade.

- Por que não?

- Porque não!

- Você rejeitando a ideia de seduzir uma mulher… Logo você. Algo está errado. - Girando o copo enquanto balançava a cabeça - Muito errado.

- Ela não é como uma mulher comum, certo?! - Quase levantando-se num tom aquecido - Ela é hostil, insana e insuportável.

- Ah, Arwen, você também não é das companhias mais fáceis.

- Marcus, eu não acredito em demônios, mas ela me faz considerar que eles existem e que ela é um diabo encarnado. - A esta altura Arwen já estava sentado, gesticulando energicamente.

- Veja que dádiva - Brincou - Ela está lhe transformando num homem com fé. Eustace vai gostar dela.

- Sem brincadeiras, Marcus, eu estou falando sério. - De fato o dragão estava realmente ficando irritado por Marcus não lhe levar a sério.

- Eu também estou. - Rindo do comportamento do cavaleiro a frente. Arwen lhe encarou furioso, e o romano procurou se pôr numa postura mais sóbria - Escute, eu me informei acerca do rei e sua corte. Existe o rei, a rainha que parece ser uma espécie de espírito raposa e portanto vive viajando. Há quem diga ainda que ela se transforma em um animal e fica passeando pelo castelo. - A história era tão absurda que fez o Dragão  esquecer a raiva iminente. - Além disso ela parece ter uma capacidade mágica de gerar mais de uma criança por parto. Assim como as raposas.

- Marcus - Já ficando confuso - O que essa história tem haver?

- Vou ser mais direto. A filha mais nova do rei, é muito popular, ela é um tipo de sacerdotisa, é tida como uma ponte para com os deuses.

- Mais deuses - Expirou em desânimo.

- Sim, mais deuses. - Colocando o copo no chão para expor melhor - Mas o problema da sua dama, não é que ela influencia apenas o rei, mas o reino. Então, meu amigo, eu lhe aconselho a cair nas graças da moça , ou até mesmo, propor um casamento.

- Não, eu não vou fazer isso. Não estamos tão desesperados assim.

- Arwen! Sejamos razoáveis. Os saxões estão nas nossas portas. Uma aliança dessas seria extremamente benéfica. Quando os povos da Benícia investirem contra nós, será bom ter um rei querendo proteger sua filha que está naquelas terras.

- Eu não preciso de uma mulher ou de um casamento para defender as terras.

- Pelos deuses… Me sinto discutindo álgebra com um camponês.

- Marcus, você não entende. Casar com alguém como ela será como um inferno em vida.

- As vezes eu tenho vontade de bater em você. - Com um sorriso incrédulo e indignado no rosto - Sinceramente… Você não é estúpido. Pare de agir como um.

- Não é questão de estupidez, meu pai não não precisou se casar por alianças e ele conteve a invasão dos saxões. Não só nas terras dele, mas em toda a ilha.

- Seu pai também tinha uma besta cuspindo fogo e devastando cidades com ele. - Respondeu o romano casualmente. - Não é isso que dizem as histórias?

Esperou alguma resposta, mas ela não veio. O cavaleiro apenas virou emburrado.

- Eu sou seu conselheiro e esta é a minha sugestão. Por favor… Você já é um homem adulto, não aja como se isso fosse um sacrifício, ela é uma das mulheres mais belas que eu já vi, é jovem, cheira bem. Você é um homem que sabe tratar com as mulheres, corteje-a, torne-se seu campeão. Faça-a ver que você é um bom homem. Faça-a interceder por você e não contra você junto ao rei.

- Não é tão simples. Nós... - Não adiantava, não havia como justificar a irritabilidade que a bastarda lhe causava sem revelar o encontro desastroso que tivera - Nós não começamos muito bem.

- Esse é o seu problema? Um início ruim?

- Ele não foi exatamente apenas ruim.

- Arwen, eu sei disso. - A fome começava a lhe deixar impaciente. O romano respirou fundo e tentou colocar da forma mais prática para que seu querido, ingênuo e apático Dragão entendesse. - Meu caro... Pense no incidente da floresta como uma oportunidade, você cativou a atenção da moça.

- Como você soube? - Numa surpresa comovente.

- Você pode ter enganado aos outros, Arwen, mas eu conheço bem as feições de um homem que tomou um bom banho. E as suas, eram as de alguém que recebeu uma golpe na barriga. E… convenhamos, você está enfaixado. - Arwen o olhava como se o Marcus tivesse descoberto o segredo mais secreto do mundo - Você realmente achou que eu não fosse perceber? - Arwen permaneceu calado - Sinceramente… O que você pensa que eu sou?! Cego ou estúpido?

- Esse não é o foco de nossa conversa. - Tentando desviar o assunto.  

- Verdade. - Levantando-se e esticando as pernas - Pense bem, você tem um motivo pelo qual se retratar, ela tem um motivo pelo qual se sentir culpada, - Apontando para o torso do cavaleiro - logo vai abrandar um pouco mais com você. Convença-a e você terá sua aliança.

Arwen começou a ponderar o assunto, mas logo a silhueta debochada e arrogante se desenhou em sua mente, conseguiria ele cortejar a bastarda que lhe humilhara diversas vezes? Não... Tinha que haver outro jeito. Outra maneira de firmar essa aliança.

- Marcus, e se eu desafiasse um dos cavaleiros do rei? - Genuinamente tentando apresentar outra solução viável -  nessas regiões provas de força coragem e valentia são muito apreciada.

- E se você convidar a princesa para um passeio? Pais costumam gostar de campeões que estão nas graças de suas doces filhas.

- Ela não é doce. - Resmungou desapontado e irritado por ter sua idéia desconsiderada

- Arwen… eu estou descendo para comer algo.

- Eu ainda tenho meu orgulho! Eu sou um cavaleiro, o que ela vai pensar se depois de tudo eu me rebaixar a cortejá-la? Que eu sou um cão a espera de ossos?

- Eu estarei lá embaixo caso você queira sugestões de presentes para dar. - Apanhando os copos e a garrafa.

- Marcus, se é tão simples e imprescindível, por que você não a seduz?

O romano parou na porta.

- Porque, como você disse, “Eu não sou o dragão”. Porque eu não sou o senhor destas terras do leste, porque não foi a mim que o rei delegou essa missão. E eu te digo, se a única forma de fazer essa aliança for pedir a mão da moça eu te aconselho a reconsiderar suas opiniões.

- Você não entende a situação...

- Não, Arwen, é você que parece não entender que a vida na corte não é como os camponeses pensam, nós não fazemos apenas o que queremos. Nós temos que mentir. Nós temos que enganar. Fazer o que for preciso para fazer o que tem que ser feito, e muitas vezes temos que esquecer nossas vontades e colocar de lado o nosso orgulho em prol dos nossos objetivos. Ou você nutre essa ilusão que vai casar com aquela que arrebatar seu coração? De toda forma, não se preocupe, já farei o pedido de algo para você comer também.


Notas Finais


*Uniu sua sorte: Jogo de palavras com a palavra “consorte” que também é utilizada para cônjuge.


Então... o que Arwen fará?!


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