História O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Celta
Tags As Brumas De Avalon, Celta, Drama, Druidas, Fantasia, Medieval, Romance, Rpg, Sacerdotisas
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Palavras 3.971
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas da Autora


O título desse capítulo tambem poderia ser: "Um passeio a Três..." mas ai ia ter aquele pra perguntar:
"Quem ta segurando a vela"?

Ai eu achei melhor não por.

kkk

Capítulo 6 - A flor de Belos


Fanfic / Fanfiction O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 6 - A flor de Belos

O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê… (Platão)

 

Os homens de Arwen estavam entusiasmados desbravando a fortificação. Grift lhes guiou até os aposentos e informou que após se acomodarem, ele lhes apresentaria as demais áreas de interesse. A Arwen foi dada a opção de ficar em um quarto único, mas o Dragão rejeitou. Apenas Eustace ficaria em um aposento separado, junto a um outro religioso que estava hospedado no castelo.

O quarto comum era grande, teto baixo, todo de pedra. Para mitigar o frio, uma lareira queimava deixando no ar o cheiro de uma madeira diferente daquela a qual os cavaleiros eram acostumados, para barrar o vento, dispunham de pequenas “portas” de madeira que fechavam as janelas. As camas eram colchões preenchidos com lã ou penas, espalhados pelo chão. Durante o dia, eles podias ser empilhados aumentando o espaço do ambiente. Encostada na parede, uma mesa alta tinha à disposição duas lamparinas cheias com óleo, três barras de um sabão cheiroso e duas tinas vazias. A seu lado destacava-se um grande jarro de barro cheio com água, junto a uma concha de cabo longo que curvava na ponta, permitindo ser presa na borda do jarro.

Pelo quarto estavam espalhados três baús e cestos de palha vazios para os convidados guardarem seus pertences. Numa caixa maior, haviam mantas grossas num xadrez colorido. O urinol tinha a forma de um jarro de barro numa cor escura, e ficava num canto do aposento. Para evacuar, o habitante dispunha de um banheiro público, um cômodo grande com pedras ornadas, e um fascinante e inovador sistema de latrinas. Havia, inclusive um espaço para um músico que era destinado ao local em dias de festividade.

Depois de acomodados Grift lhes mostrou os outros ambientes e os horários de refeição e funcionamento de certos serviços.  Arwen agradeceu ao rei a hospitalidade ainda na mesma noite. Trocou algumas palavras de cortesia e fez um humilde pedido. Afinal, um homem tem que fazer, o que um homem tem que fazer.

 

***

 

- Ora, meu jovem. Fico bastante feliz que tenha esse interesse em conhecer os locais onde seu pai lutou. – Loernius olhou discretamente em volta e então puxou o braço de Arwen curvando-o para sussurrar. Tinha a animação de uma criança divertindo-se com uma nova travessura – Eu pensei em nossa conversa. E fiquei bastante satisfeito com ela. Concordo que este assunto de deuses é muito delicado. Minha filha tem uma personalidade muito forte eu assumo, mas peço paciência... Ela está chegando de uma longa viagem… e… você sabe como são as mulheres. - Resumiu risonho - Elas são como o vento, ora brisa suave, ora tempestade. - Um guarda passou por ambos e o rei aprumou novamente a postura, desconversando, o homem prestou uma reverência ao rei. Este respondeu. Em seguida puxou novamente o braço do dragão - Talvez seja bom para ela ter segundo contato com essa coisa de “outra fé”. Então, para que possam ter o tempo que você sugeriu e possam assim conversar um pouco mais, pedi para que ela seja seu guia nas ruínas. - O rei-raposa fez uma pausa e deu um longo suspiro - Eu e seu pai éramos bastante amigos. E não se engane rapaz, eu lhe tenho em boa conta, mas é necessário mais que isso para que eu mande meus guerreiros para morrer na causa de seu rei.

***

O sol dava nuances de seu despertar tingindo o céu com as cores da alvorada. O frio da madrugada acordava o corpo e afugentava qualquer aconchego. Arwen enfiou-se um pouco mais embaixo da capa procurando alguma mísera proteção contra os fortes e gélidos ventos que vinham do mar e corriam a cidade. Marcus praguejava contra o vento, literalmente, principalmente após uma rufada de ar ter-lhe queimado a mão antes de pôr a luva. Gwendoline por sua vez estava vigilante, com os olhos ativos de sempre. Cheirava a cidra. Tinha um arco preso às suas costas, uma aljava presa em sua cintura e suprimentos para a viagem atados ao cavalo.

Preparavam-se para partir à Dinas Emrys, a fortaleza que pertencera ao pai de Arwen, o primeiro Pendragon, e ficava nos domínios de Loernius. Local esse, onde, de acordo com o rei, o cavaleiro poderia ver por meus próprios olhos as pedras queimadas da fortaleza, escombros da grande batalha em que seu pai e o grande Dragão vermelho lutaram contra Vortigern e seu Dragão branco.    

Gwendoline encerrou a discussão que travava com seu escudeiro e juntou-se aos dois nobres que lhe aguadavam.

- Preparados para a viagem, senhores?

- Estamos apenas no seu aguardo, Alteza. – Respondeu Arwen o mais cortês que pôde.

- Estamos tendo apenas alguns problemas com o vento... E as luvas. – Marcus brincou tocando a mão machucada, Gwendoline riu e guiou o cavalo a aproximar-se um pouco mais.

- Você logo estará acostumado com o vento. Colocou algo sobre a queimadura?

- Até agora, apenas a luva, alteza. – ainda com um ar divertido.

- Deixe-me ver – Com sorriso no rosto ela fez um gesto a Marcus, e este, obedientemente retirou a luva e lhe mostrou a queimadura – Vou pegar algo para você, aguarde um momento.

Arwen estava indignado, ela realmente estava o ignorando?! Não bastante o quanto ela já havia o destratado, ainda se mostrava mais afável com seu conselheiro que com ele mesmo, ele, o filho do primeiro Dragão. Estava tão perdido em sua irritação que mal percebeu Marcus se aproximando e emparelhando o cavalo com o seu.

- Ela não me parece um diabo – Sussurrando

- Mas ela é. - Respondeu como o disparar de uma flecha.

- Ela me achou divertido…

- Realmente, é fácil ser divertido quando a pessoa em questão não roubou suas coisas ou lhe esfaqueou a barriga. Ela não passa de uma bastarda cínica que eu sou obrigado a tolerar, e eu odeio me submeter à coisas as quais sou obrigado.

- Acalme-se homem. Por que está assim? Ela realmente mexeu tanto com você?

- Não gostei dessa sua insinuação. - Desferiu ríspido.

Arwen esperou alguma resposta, mas ela não veio. O momento de silêncio lhe permitiu acalmar os ânimos, então ele retomou.

- Mas não se preocupe, não vou pôr a perder uma aliança entre dois reinos pela intransigência de uma jovem que foi criada com mais mimos do que seria conveniente.

Marcus permaneceu calado.

***

Gwendoline não tardou a voltar, trazia em suas mãos uma espécie de vasilhame com uma pasta que ela prontamente espalhou na mão de Marcus. Em seguida envolveu a mão com um fino tecido e deu algumas recomendações ao conselheiro. Tendo terminado o trato, voltou-se a Arwen, como se apenas a partir daquele momento ele tivesse passado a existir em sua frente.

- Agradeço que não tenha vindo com sua comitiva, Dragão. Não pretendo chamar a atenção e espero que nossa viagem não tenha nenhuma intempérie. Estamos saindo com o sol e espero que voltemos com ele. - Suas palavras não saiam como um informativo, mas como uma imposição. Arwen procurou não se irritar, afinal, concordava com a garota numa coisa, quanto menos tempo aquela viagem durasse melhor seria para os dois.

Os guardas dos portões não pareciam se comover com a ventania, até mesmo os que ficavam nas torres, aconchegados sobre seus espessos mantos acinzentados. Gwendoline os cumprimentou em silêncio enquanto erguia o capuz. Um dos guardas que estavam na base da muralha fez um gesto chamando a atenção para si. A filha do rei puxou as rédeas do cavalo fazendo o animal voltar indo em direção ao guarda.

- Perdoe-me senhora, posso ter um momento de sua atenção? - O Homem tirou seu elmo, tornando visíveis seus olhos lacrimosos.

- Fale Garrett.

- Sei que sua alteza é bastante atarefada e mal chegou de sua viagem, mas... creio que não saiba ainda, é Brianda senhora... Minha filha está... Eu já não sei o que fazer, e... Eu já não sei mais... - O homem que aparentava ter já avançada idade aparentava estar desolado.

Arwen olhava confuso para situação, qual era a razão da súplica então? O homem queria dinheiro para tratar sua filha? Queria dispensa da guarda? O que ele queria?

O guarda então ajoelhou-se.

– Os deuses lhe escutam senhora, eu sou apenas um homem…

– Levante-se meu amigo. - Ordenou a princesa em tom solene, não um solene altivo e opressor. Um solene seguro, como falam as divindades. O guarda a obedeceu. Gwendoline curvou-se, lhe beijou a fronte e encostou sua testa na testa do homem.

Quando o peso sobre seus ombros se tornar insuportável e fizer com que caia. Que o solo dance para equilibrar-te. Quando a noite for escura e o medo se apoderar de seu coração, que as estrelas tracem seu curso e a lua lhe guie em segurança. Que as luzes que lhe assustam na floresta sejam vagalumes e que o choro em sua casa, seja o berrar de um recém-nascido. Que os deuses guardem a ti e a sua família na palma de suas mãos e que as orações de teus antepassados teçam a sua volta um manto invisível de proteção. Que assim seja e assim se faça*.

O homem estava com a face vermelha quando ela se afastou, mas o desespero havia lhe deixado. Ele parecia calmo e não tardou a se recompor.

- Conheço o caminho de sua casa, Garrett. Não se preocupe. Mas se eu nada puder fazer, permita que Brianda abrace o seio da mãe sem mais alentos. A deusa sabe o momento de semear e o momento de ceifar.

O guarda prestou reverência na sua melhor postura e com sua marcha, agora confiante e segura, voltou ao seu posto. Arwen assistia a cena com atenção, sempre se encantara com essas façanhas da realeza. Por mais desamparado que se esteja, eles chegam com sua postura de senhores do mundo, e com algumas palavras lhes fazem crer que são capazes de tudo, que você é importante pra eles e que eles vão conseguir resolver todos os seus problemas.

- Teremos que nos desviar do caminho. - Soltou Gwendoline tensa, sem falar para alguém em específico. Assim agitaram os cavalos e seguiram em uma corrida a passo largo. A maior parte do caminho Gwendoline seguiu calada, com uma feição séria compenetrada.

 

***

 

- Estamos indo em um ritmo muito rápido, os cavalos vão ficar exaustos, teremos que voltar a pé se continuarmos assim. - Alertou o cavaleiro.

- Eu sei o que estou fazendo, Dragão.

- Só estou dizendo que estou acostumado a lidar com viagens e cavalos, alteza, não me compreenda mal, eu-

- Chegamos – Gwendoline interrompeu. Sua feição séria se desfazia em um sorriso saudoso enquanto acalmava o cavalo. Então subitamente deu ao animal um comando que o fez disparar sob o grito animado - Vamos senhores!

À frente, um declive se estendia num manto verdejante, o gado estava espalhado pelo pasto, duas casas podiam ser avistadas ao fim do declive e delas se espalhava um forte cheiro de leite, gordura e fumaça. Gwendoline arrancou em direção à casa. Seu cavalo, que parecia ser acostumado àquele tipo de comportamento, galopava forte para não perder o equilíbrio na descida. Um deslize em um terreno como aquele e nem o mais experiente dos cavaleiros conseguiria sair ileso do acidente. Ela, entretanto, parecia não se preocupar, acelerava mais e mais de modo que em alguns momentos parecia sequer tocar o chão.

- O que vejo? Me parece que nosso Dragão que tem medo de voar?! – Provocou com seu sorriso debochado rotineiro. Arwen acelerou o galope, mas nem o cavaleiro ou seu cavalo tinham o desprendimento para arriscar uma queda. Por fim, a garota chegou primeiro, seguida por Arwen, enquanto Marcus, que não se comoveu com a competição, chegou em último.

O cavalo de Gwendoline relinchava agitado com a aventura, enquanto ela ria desdenhando o nobre cavaleiro Dragão que estava silenciosamente indignado, ele o primo legítimo do rei, perdera para ela em uma disputa. Como perdera para uma mulher em uma corrida? Como? Seu orgulho ferido apenas o deixou ainda mais irritado. Fato que pareceu adoçar o gosto da vitória na boca da filha do rei.

- Não se acanhe Dragão, talvez um dia você aprenda a correr como as raposas… Ou talvez não, afinal, você não precisa correr, você pode queimar a floresta. - E saiu galopando procurando algum movimento na casa.

- Suponho que isso tenha algo haver com o seu primeiro encontro, meu amo.  - Marcus arriscou emparelhando os cavalos.

- É… - Arwen respondeu sem desviar o olhar da garota - Tem sim.

- Hum… - Marcus meneou a cabeça. - Talvez ela realmente mereça alguns de seus adjetivos.

Arwen sorriu, e respirou fundo relaxando o corpo sobre o cavalo.

***

- Menina Gwendoline, é você? – Ecoou uma voz vinda de dentro da casa. A mulher parecia ter mais que o dobro da idade de Gwendoline, tinha os cabelos castanhos e bem trançados, olhos de um verde escuro, desgastados pelo lamento recente.

– Que a deusa proteja seus pastos. - Cumprimentou descendo do cavalo.

– Gwen - Soltou a mulher com uma voz embargada enquanto abraçava a filha do rei. - Você está tão linda. Afastando a garota segurando seu rosto entre as mãos.

– É sempre bom revê-la, Muriel.

– Digo o mesmo, lamento que seja em tão desgostosa situação.

– Os deuses traçam nossos caminhos a se cruzarem, do melhor modo para que possamos cumprir nosso destino.

– Sempre com belas palavras, venha Gwen, entre. - Usando um pano do vestido para enxugar o rosto.

– Muriel - Chamando a atenção da mulher - Trago comigo dois amigos de meu pai, espero que não se incomode. - Apontando para os dois cavaleiros que esperavam alheio à conversa.

– De modo algum, minha casa se alegra diante de suas visitas. Podem entrar.

As duas mulheres seguiram na frente entretidas em sua conversa deixando os homens a dois passos de distância

– Encontramos Garrett, ele estava desolado.

Muriel deu um longo e pesaroso suspiro.

– Sabemos que acabou de voltar de viagem, imagino o quão esteja sendo difícil o término de um noivado tão longo, você e Maweg- Gwendoline lhe interrompeu.

– Não viemos aqui para falar sobre mim. Fale de Brianda, o que houve com ela?

– Tudo bem. - E fez outra pausa - Ela está acamada. Ela já não come e pouco fala. Uma forte disenteria lhe acometeu e minha menina... perdeu as forças. – Os olhos da mulher se embeberam em lágrimas. Muriel respirou fundo e prosseguiu - Eu estou vendo minha filha padecer dia a dia. Um dos filhos de Lorrey foi tomado por esse infortúnio e morreu antes do Mabon*.

- Eu vou ver como ela está.

- Vou acomodar os convidados e já lhe sigo.

Muriel voltou-se a uma das servas, e num tom firme, começou a dar ordens como um general quando decide os rumos da guerra, e desata seus soldados aos pontos estratégicos da vitória: – Shayla, dê água e comida aos cavalos. Peça para que Neera traga algo para os convidados. Timeon! Meu filho, pare de correr pela casa e vá olhar os caldeirões! – Então se voltou aos convidados em um tom respeitoso. - Os senhores sejam muito bem vindos, minha casa é humilde, mas está completamente a sua disposição.

Enquanto falava, os cavaleiros mais prestavam a atenção no garoto que surgiu por trás da mulher. A criança estava ocultada pelo jarro que carregava, quase maior que o próprio infante. A cada passo que dava o vaso balançava e o leite derramava no chão.

- Sian, veja a sujeira que está fazendo na sala, meu filho... - Com uma voz já cansada - Oh, deuses…

- Posso ajudá-lo? - Voluntariou-se Marcus.

A mulher apenas assentiu quase sem pensar,

- As criadas lhes trarão algo para entreter-se, um momento. - E os deixou,  entrando pelo mesmo corredor que Gwendoline entrara. Marcus pegou o jarro com dificuldade e seguiu o garoto para fora da casa enquanto Arwen ficou aguardando na sala. Havia uma mesa baixa e almofadas de peles dispostas a sua volta. O cavaleiro sentou-se em uma delas e ficou no aguardo.

Uma jovem de olhos amendoados lhe trouxe pão, queijo e cerveja. O cavaleiro divertiu-se ao notar o acanhamento da moça ao se aproximar para entregar a comida, depois ela se apressou e foi encontrar outras moças das quais Arwen escutou pequenas risadas por trás da parede.

Vez ou outra alguma das moças passava pela sala para fazer alguma tarefa de necessidade questionável e o olhava disfarçadamente. O cavaleiro acenava com um sorriso e elas enrubesciam. Esse era particularmente um dos deleites de se tornar um cavaleiro, quanto mais brilhante a armadura, mais rápido as moças coravam as faces em sua presença e mais fácil se conseguia aquecer outras coisas que o recato não me permite relatar, embora qualquer um que já tenha provado da flor de uma dama possa compreender.

Passado algum tempo Gwendoline regressou. Sob um “precisamos colher algumas coisas”, desatou a informar a Arwen dos itens desejados. Mostrou-se impaciente, como sempre, quando percebeu que este não fazia diferença entre o “olho” de uma planta e qualquer outra parte do ramo. Por fim, destinou-lhe tarefas mais simples que ela julgava que “qualquer criança que já conseguisse se manter sobre os pés, conseguisse realizar”. Embora qualquer um que ouvisse sua conversa julgasse que ela estava sendo apenas apressada, porém ainda cortês, Arwen sentia o veneno destilado em meio a suas explicações, humilhando-o, diminuindo-o.

- Onde está Marcus? - Ela indagou montando em seu cavalo.

- Acredito que aprendendo a fazer queijo. - O cavaleiro respondeu sem animação - Ele é simpático a novidades.

- Conheço bem pessoas assim. Pois bem, vamos, encontraremos com ele depois.

***

Arwen procurou em sua mente qualquer que ideia pudesse ajudar à enferma, havia sido criado até sua juventude por druidas, antes de ingressar na corte, deveria saber algo, deviam ter-lhe dito algo que fosse útil. Um remédio, um tratamento, alguma planta ou erva que pudesse ajudar. Qualquer coisa...

***

 

- Onde você conseguiu uma flor-de-belos? – Soltou Gwendoline realmente surpresa quando Arwen lhe entregou a flor. Uma Admiração que amaciou o ego do cavaleiro. Este procurou assumir um tom sóbrio e sábio e começou a dar instruções acerca do tratamento.

- A flor-de-belos vai cessar a disenteria, eu recolhi folhas de macieira que também devem ser fervidas, porém separada das flores.

– Eu sei disso. - Ela retrucou ansiosa - Queria saber onde você as conseguiu. Não é comum elas desabrocharem tão cedo. Isso é um bom presságio! - Ainda olhando para a planta, concentrada como se mentalmente fizesse uma oração - Brianda vai viver, estou certa disso agora. -Voltando-se para Arwen - Muito obrigada Dragão. - Acrescentou com um sorriso sincero. Naquele momento, Arwen entendeu as colocações de Marcus, Gwendoline era realmente belíssima.

– Fico grato lhe ajudar.

– Talvez você não mereça completamente as opiniões que tenho a respeito de sua família... Talvez só parte delas... – Comentou entre risos, quase em euforia enquanto montava novamente em seu cavalo. – Agora vamos, leve-me logo onde encontrou essas flores. Nunca lhe ensinaram que quando se traz flores a uma dama, você deve trazer muitas flores?

– Na verdade, não... Pensei que qualquer dama ficaria feliz em receber flores, não importando quantas. – Contagiado pela espontânea alegria da garota. Ela estava leve, com um sorriso radiante, encantador como nunca vira. I isso contagiava.

– Bom, Dragão, isso fica para mulheres quaisquer, recebendo flores de cavaleiros quaisquer. Mas você é um Dragão, pense grande. Eu sou uma raposa, tenho minhas exigências. Agora chega de cortejos e acelere com esse seu cavalo, temos uma jovem para afastar dos braços da Dama Branca.

 

***

 

- O chá deve ser feito com sete sementes da flor-de-belos. Uma vez por dia, durante quatro luas. Pode colocar as pétalas também. Mas conte, não pode passar de sete sementes. Mesmo que ela melhore antes, você deve continuar a dar o chá.

- Sua alteza tem fé que ela sobreviverá?

- Certamente. – Com uma convicção inabalável

- Eu não tenho como agradecer.

- Não agradeça a mim, foi Sir Arwen quem encontrou as flores. Já informamos a seu filho o local onde vocês podem colhê-las se acabar.

- Devo a vida de minha filha a vocês. Que os deuses lhes protejam!

- Que assim seja.

***

 

Despediram-se de Muriel e retomam o caminho. Gwendoline seguia com o sorriso satisfeito de dever cumprido. Embora isso tenha lhe afiado a língua para mais comentários desnecessários. Não tardou para que o nuance da bela mulher que Arwen vira se perdesse novamente sob a face daquela dama irritante.

– Você poderia se mostrar um pouco mais grata. - Reclamou o Cavaleiro

– Mas eu estou grata… - Ela Respondeu - Grata e verdadeiramente surpresa. Quem diria que justo o Dragão encontraria uma solução para o problema.

– Talvez lhe tenha faltado percepção para notar que Javalis também conhecem as florestas, nem tudo em volta deles se resume a violência. - Arwen não iria perder a chance de mostrar a princesa que seus julgamentos eram precipitados e errados, claro que não, principalmente depois de tantas vezes ela ter-lhe alfinetado com referências ao seu primeiro encontro.

– Mas o que vejo - Ela interferiu teatral - Está querendo insinuar que javalis também podem ser mansos?

– Talvez… - Tentando soar despretensioso.

– Ou talvez ele apenas guarde sua violência para damas indefesas, perdidas em florestas, a mercê de guerreiros com instintos bárbaros...

O pior era o seu sorriso, sua face cínica quase convincente. Era simplesmente impossível manter um diálogo com uma pessoa como aquela. Estava farto, até quando ela iria ficar recobrando o evento? De novo, e de novo, não lhe passava pela cabeça que ela também havia errado? Que ela havia o ofendido sem propósito nenhum?

A conversa havia se movido mais rápido do que Marcus conseguira prever. Pelos deuses, o que havia acontecido naquela floresta? Por Júpiter, o que se passou na cabeça  de Arwen para ameaçá-la? Não importava, precisava fazer algo ou a própria Belona desceria dos céus para participar da guerra que se seguiria.

– Perdoe-me Alteza. - Tentou interromper - Mas ainda falta muito para nosso destino?

– Não muito - Respondeu com um sorriso encantador - Mas não se preocupe, cavaleiro, seu Senhor começou um jogo comigo, uma brincadeira com palavras. - Ela explicava com calma e satisfação - Jogo esse que a julgar por seu silêncio, eu pareço ter ganhado. Ou eu estou enganada? Deseja continuar Sir Arwen? Tem algo ainda que gostaria de acrescentar?

– Não. - Respondeu ríspido.

– Não fique chateado Dragão, acontece que de fato sou boa nesse jogo, você apenas não deve estar acostumado. Podemos fazer um outro jogo depois, algo que envolva força. Nisso eu sei que você é bom. Você tem mãos fortes. - Completou.

Marcus ficava mais confuso a cada instante, o que pelos deuse havia acontecido naquela bendita floresta? Precisava conversar sério com Arwen quando tivesse chance. Arwen estava com os dentes trincados, as rédeas apertadas em suas mãos. Para não cometer nenhum desatino, agitou seu cavalo e se lançou à frente na estrada. Bastarda…

 

***

 

- Porque está adiantando seu cavalo?! - A pergunta de Gwendoline soou mais como uma repreensão que realmente como uma dúvida.

- Perdão Alteza, mas se não corrermos, perderemos meu senhorio de vista.

- Não irei forçar a marcha de meu cavalo. - Ela respondeu calmamente - Ele voltará a nós quando perceber não conhecer o caminho.

- Novamente, peço perdão pela impertinência alteza, mas conheço Sir Arwen, ele dificilmente responderá desta forma.

- Percorrer sozinho essas estradas é algo perigoso. Creio que alguém que possui como conselheiro um dos pouco romanos ainda criados na antiga tradição, não deve ser de um todo inepto. Ele terá a sabedoria de voltar a nós.

Marcus respirou fundo, conhecia bem a Arwen, sabia que sua húbris seria sua ruína, mas as coisas estavam saindo muito do controle.


Notas Finais


*Adaptação de uma antiga oração Celta

O proximo Cap é bem pesado....


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