História O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 7


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Categorias Mitologia Celta
Tags As Brumas De Avalon, Celta, Drama, Druidas, Fantasia, Medieval, Romance, Rpg, Sacerdotisas
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Palavras 3.766
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas da Autora


Esse é cum cap triste.

Nota:
Branwen (BRAHN-wen) - Deusa do amor e da beleza. Sua lenda se molda em torno de um casamento infeliz e uma morte martirizada. Numa aliança fala entre “Gales” e “Irlanda”.

Capítulo 7 - O Rochedo


Fanfic / Fanfiction O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 7 - O Rochedo

“O fogo é a prova do ouro; a miséria, a prova do homem forte”. (Sêneca)

 

O céu já se tingia com as cores do poente quando Arwen desacelerou o cavalo. A sua volta, somente as velhas árvores lhe faziam companhia. Não havia movimento na estrada ou sinal algum de Marcus e Gwendoline. O cavaleiro guiou o corcel em um ritmo mais moderado. Cedo ou tarde eles teriam que passar.

O arvoredo a sua volta lhe transmitia uma sensação de semelhança. Como aquela que se sente ao visitar um local conhecido. Talvez já tivesse visitado as ruínas, talvez conhecesse o caminho perdido em algum lugar da memória, e qual não seria sua satisfação em encontrar o local sem a necessidade de ter como guia a filha do rei. Arqueou um sorriso, atiçou as rédeas do cavalo novamente e se pôs a correr.

Quando a noite já havia caído por completo, encontrou uma fonte de água. Encheu novamente os cantis e deu de beber ao cavalo. A lua iluminava a noite como uma rainha fazendo das estrelas sua corte. Arwen lembrou-se das criadas na casa de Muriel. Suas faces coradas ante sua presença, seus corpos jovens e vigorosos. Perdeu-se em pensamentos enquanto imaginava o gosto da pele das senhoritas até um barulho na mata lhe trazer à realidade. Atou rapidamente os cordões da calça, empunhou a espada e espreitou. Notou duas silhuetas percorrendo a folhagem em sua direção e quase que instantaneamente uma satisfação lhe encheu o peito, imaginar Gwendoline em toda sua arrogância a sua procura era realmente algo divertido de se pensar.

- Marcus, você não precisava vir me procurar. A dama deve estar cansada. – Permitiu-se um pouco de petulância na frase.

- Desculpe amigo. - Respondeu a sombra emergindo - Mas ainda não encontramos a dama para que ela fique realmente cansada.

O sorriso no rosto do cavaleiro se desfez, um gosto amargo tomou sua boca junto a um nó na garganta. Em contrapartida, o assaltante a sua frente exibia um porte seguro, com um arco em punho.

- Será melhor para você abaixar essa espada. Minha flecha certamente é mais rápida que suas pernas e eu jamais erraria a essa distância. Hori, - Voltando-se ao comparsa - vá encontrar os outros dois e traga-lhes aqui, teremos uma noite divertida.

O Filho do Dragão traçou em sua mente o percurso mais seguro entre ele e o arqueiro. Usaria as árvores de escudo, sem a armadura sentia-se mais leve que o de costume. Três passos largos, e teria uma árvore de escudo, talvez mais três passos, chute forte nas pernas, giro com a espada, e um corte na garganta do infeliz.

Mas, como diziam os gregos, a ideia é em si perfeita, enquanto a realidade…

Na realidade o Filho do Dragão já estava amarrado a uma árvore, com uma flecha enfiada em seu ombro e a cabeça ainda desnorteada pela pancada que recebera de um gigante, quando os outros do bando chegaram. Marcus foi jogado no chão, surrado e semiconsciente, enquanto Gwendoline foi levada ao que parecia ser o líder. Dizer que estava irritada seria um eufemismo, ela estava furiosa como uma fera aprisionada numa gaiola. Amordaçada e com as mãos amarradas nas costas, tinha traçada em seu pescoço uma linha vermelha de um corte profundo o suficiente para apenas ameaçar-lhe a vida. Sua capa lhe tinha sido tirada e seu vestido rasgado.

O homem a recebeu como um joalheiro que recebe uma pedra e se põe a inspecioná-la; e tal qual o artesão, impressionado pela beleza da pedra, logo se põe a imaginar usos para a mesma.

- Até parece que a própria Branwen voltou ao mundo dos homens. Não se preocupe rainha, lhe seremos bons maridos. - Então voltou-se para o grupo - Parece que teremos muito o que fazer esta noite rapazes.

O bando era composto por seis assaltantes. Dois pareciam ser irmãos, tinham os olhos maníacos e ficavam andando de um lado para o outro, inquietos, dançando suas facas entre os dedos. Outro tinha o nariz quebrado, seus braços eram cheios de cicatrizes, tinha uma espada curta na cintura e um arco nas costas. O maior de todos realmente intrigava, como um homem daquele tamanho poderia passar despercebido numa floresta, ou esconder-se dos guardas numa cidade? Ele deveria ser preso tão logo passasse diante de um. Aquele que parecia ser o líder tinha uma boa postura, talvez fosse o filho de alguma família falida ou um desertor.

Arwen ficava a cada instante mais aflito com a situação. Marcus havia sido amarrado numa árvore ao lado e oscilava em sua consciência como um moribundo entre a vida e a morte. A filha do rei estava a mercê de um grupo de assaltantes como uma meretriz qualquer, não que fosse simpático à jovem, mas havia destinos que ele, como cavaleiro, não podia admitir que fosse aplicado nem a mais vil das mulheres.

- Vocês já têm o ouro e os cavalos - Arriscou o Dragão - deixem ao menos a dama ir embora.

O líder deu um sorriso, mas antes mesmo de responder outro do grupo se alardeou.

- Escute aqui, seu verme – Praguejou o de nariz quebrado na direção do cavaleiro - não é você quem dá ordens aqui.

- O verme que eu vejo aqui é você. - Cuspiu

O ladrão não pareceu gostar do comentário empurrou a flecha ainda mais, girando-a até fazer Arwen gritar.

- Escute aqui amigo. – Disse calmamente o líder – Esta belíssima jovem vai ser a última a sair daqui, isso... - E fez uma pausa para um riso debochado - Isso se ela conseguir sair.

- Seu porco imundo. – Ainda arquejando com a dor.

- Tranqueira, pegue-a – e a empurrou sobre o homem que havia amarrado os prisioneiros, a única coisa que Arwen sabia sobre ele, é que sabia dar bons nós. – Comece, você é sempre que faz os menores estragos.

O homem a abraçou de uma forma quase romântica e fez um carinho em seu rosto.

- Drug veja isso, - Afastando o cabelo de Gwendoline para expor melhor a singela cicatriz em meia-lua na testa - ela é uma sacerdotisa.

- É? – respondeu o líder com indiferença.

- Não podemos fazer isso. Já temos o ouro vamos deixá-los ir.

- Deixe de ser frangote, me dê a vadia. – Adiantou-se o de nariz quebrado.

Ver as mãos fétidas daqueles bandidos agarrando Gwendoline fez Arwen entrar em desespero, não apenas pelo fato e imaginar as atrocidades que estes estavam prestes a fazer com ela, mas por imaginar a guerra que seu pai levantaria por conta do incidente. Seu ombro estava ficando dormente mas, não o suficiente para minimizar a dor que sentia. A indignação, o ferimento e a raiva lhe deixavam inquieto. Ela era uma sacerdotisa, seus deuses deveriam protegê-la, eles tinham de fazer isso.

O ladrão lambeu o rosto Gwendoline, tirou a mordaça e tentou beijá-la.. Em seguida deu um soco que fez a cabeça da jovem se lançar para trás.

- O que foi isso, homem? - Irrompeu o líder

- A vadia me mordeu.

- Eu amaldi- Gwendoline começou a falar, e tão logo o som começou a ser proferido o líder ordenou que lhe calassem a boca. O homem de nariz quebrado cerrou as mãos em torno do pescoço da jovem com tanta força que a fina linha ferida em seu pescoço voltou a verter sangue. Arwen assistia a mão do ladrão tingir-se de vermelho enquanto Gwendoline se debatia, e a cada instante esperava que ela fosse se soltar e enfiar uma faca na barriga de seu agressor. Mas isso não aconteceu e ela desmaiou.

- Vá acabar com ela em outro lugar!

- Droga… Eu queria que ela estivesse desperta. – Resmungou o ladrão enquanto a colocava no ombro como uma saca de grãos e se afastava. O Homem-dos-nós apenas sentou-se de cabeça baixa e começou a sussurrar algo que pareciam preces. Bastardo, bravejava para si mesmo o Filho do Dragão, se realmente quisesse impedir aquilo deveria fazer alguma coisa, não apenas implorar um milagre do divino.

Não tardou até que os gritos pudessem ser ouvidos, ecoando desesperados pela floresta. Um sentimento de impotência e indignação encheram o peito do cavaleiro. Nunca em sua vida, no passado ou no futuro, Arwen sentiria algo que fosse pior que aquela sensação. Marcus acordou em meio aos gritos, atordoado e engasgando com seu próprio sangue. Seus olhos encontraram os de Arwen procurando algum entendimento. Não foram necessárias palavras para explicar a situação. E em meio ao sangue que marcava seu rosto, duas finas lágrimas correram desoladas, indignadas, passivas ao som dos gritos.

Depois de algum tempo, o silêncio voltou, quebrado apenas pelas discussões dos ladrões em torno da fogueira. Impacientes, os dois irmãos foram a procura do ladrão e Gwendoline, ansiosos para desfrutar do achado da noite. Os gritos recomeçaram, dessa vez mais cansados, roucos, porém, não menos agonizantes. Arwen tentava de todas as formas se soltar das cordas que lhe prendiam, mas o esforço só fazia com que a flecha enfiada em seu ombro castigasse ainda mais.

Quando os gritos diminuíram novamente e nem um dos três ladrões voltou, o líder começou a ficar irritado.

- Potrus, vá ver o que está acontecendo. Traga alguns deles aqui, ainda temos que resolver o que faremos com esses dois.

O gigante levantou-se contrariado mas saiu sem dizer uma palavra. Não houve gritos dessa vez.

***

 

- Ela está morta... - Sussurrava Arwen, sem forças para pronunciar seus pensamentos. “Ela está morta e eu não fiz nada”

 

***

 

Um grito gutural ecoou pelo ar. Os cavalos soltaram-se e começaram a correr agitados. Potrus voltou ao acampamento cambaleante, tinha duas flechas enfiadas em sua garganta e a faca de um dos ladrões presa em sua coxa. Antes mesmo dele cair morto, o líder começou a procurar a sua volta o responsável pelos assassinatos.

- Morrigan levantou-se sobre nós. – Soltou o Homem-dos-nós – Ela vai matar a todos! – E ajoelhou-se – Não há como fugir... ó Senhora da guerra e da morte, perdoa-me…

- Isso não é obra de Morrigan. Apareça vadia! – Berrou o lider aos ventos – Apareça ou eu vou matá-los. – Apontando o arco em direção aos cavaleiros. – Apare-

Sequer teve tempo de terminar a palavra quando uma flecha atravessou sua garganta.

Assim ela surgiu, banhada de sangue, iluminada pelo luar, usando os farrapos do que outrora fora um belo vestido, seus cabelos rebelados com o vento e seus olhos iluminados, amarelos como uma fera noturna.

- Levante-se – Ordenou em uma voz rouca ao último ladrão que restara. Este obedeceu recompondo-se do choro. – Ajude-me a desamarrá-los.

Não houve hesitação, e mal o Homem-dos-nós tivera tempo de desatar a Arwen, este avançou no homem derrubando-o no chão. Ele o teria matado ali, com as mãos nuas se Gwendoline não tivesse interferido.

- Espere! - Ordenou. - Vá soltar Marcus.

- Mas ele…

- Arwen!

Transtornado, Arwen foi a Marcus e se pôs a desatar as cordas com toda a destreza que seu braço ferido lhe permitiu.

O homem-dos-nós começou a se levantar ainda tonto, Gwendoline lhe derrubou novamente com o pé e esticou ainda mais a linha do arco, mirando uma flecha na cabeça do rapaz.    

- Reconheço sua ajuda. Hoje você me ajudou, por recompensa, de sua morte eu poupo agora. Vá, e se realmente teme os deuses, lembre-se, tudo o que fizer, a você voltará, sejam bênçãos ou maldições.

O homem rastejou para longe e correu se embrenhando na mata. Desesperado para sumir antes que a ideia de redenção de Gwendoline expiasse. Arwen ainda furioso despejou sua frustração e confusão.

- POR QUE DEIXOU ELE IR? - Berrou

- Não vou me repetir. - Sem alterar o tom de voz

- Mas o q*... Ele não fez nada o tempo todo…- Ainda bravejando. Gwendoline apenas permaneceu calada enquanto se aproximava, o que indignou o cavaleiro ainda mais - Você deixou ele ir porque ele não fez nada a você? É isso? Porque ele lhe reconheceu como uma sacerdotisa? E quanto a todas as outras que ele já violou?

A filha do rei apenas abaixou-se e começou a analisar o estado de Marcus. Arwen, furioso como estava, permaneceu encarando-a no aguardo da resposta. Até que ela veio, sóbria e petulante.

- Foi ele quem nos amarrou, imagine como ele pode ter me ajudado, se for esperto para tanto.

O cavaleiro bufou enquanto se afastava. Teria o homem amarrado seus comparsas? Não, ele não saíra da vista do cavaleiro. As orações? Como orações poderiam ter ajudado? E o que isso tem a ver com o fato dele ter-lhes amarrado? AAAAAAAAAAAAAARGR! Grunhiu, com a mente perturbada demais para raciocinar. A dor em seu braço era lancinante e o irritava ainda mais. Nervoso, pegou a flecha com força para arrancá-la do braço.

- Eu não faria isso. - Soltou Gwendoline que estava de costas para o cavaleiro

Arwen cerrou os olhos na direção da sacerdotisa e começou a puxar a flecha, sentia como se estivesse arrancando o próprio braço. Quebrou a flecha ainda mantendo a ponta estacada em seu ombro e se pôs a procurar algo para distrair-se e dissipar sua fúria.

- Você consegue me ouvir? - Sussurrou Gwendoline para o romano com o pouco de voz que lhe restava.

- Você nos deu um grande susto, princesa. - Juntando toda sua força para tentar tocar no braço da jovem. – Você não faz ideia ... nós pensamos... Eu pensei… - A frase morreu tão lenta quanto a lágrima que rompia a face. Marcus já presenciara quando um grupo de “jovens bons romanos” invadiram a casa de uma prostituta para divertir-se com ela. Todos de uma única vez, alegres e satisfeitos com a impunidade do ato. Essa era uma memória que havia obscurecido de sua mente, mas que nesta noite emergira com todo vigor.

- Está tudo bem - Gwendoline consolou - Estamos todos bem.

A aparente intimidade entre Marcus e a filha do rei intrigava. Ela o acolhia de uma forma tão amável que parecia uma mãe consolando um filho após um pesadelo noturno. Arwen procurou ignorar e começou a juntar os pertences que os ladrões haviam espalhado, suas mãos tremiam, seu corpo estava fraco e seu braço latejava, procurava se agarrar a seu único consolo: no fim das contas, ela estava bem, era isso que importava.

***

Arwen conduziu todos ao lago que encontrara mais cedo. Sem muitas palavras, encheram todos os cantis e se lavaram tão bem o quanto puderam. Gwendoline se dedicou acender a fogueira, enquanto os cavaleiros vasculhavam entre os pertences coisas úteis para sua sobrevivência.

- Me atrevo a dizer – Sussurrou Marcus apoiando-se no cavalo - que muitas damas da corte que conheci, vestida nos mais caros trajes, não são capazes de se equiparar à essa mulher. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ela tem a força do carvalho, e a graciosidade de uma folha dançando com a brisa.

- Logo se vê que não visitou muitas cortes. - Resmungou o cavaleiro. Arwen procurou Gwendoline com o olhar tentando ver a cena que seu amigo admirava. - Ela mais parece um simulacro da morte do jeito que está. - E voltou a vasculhar as bolsas dos ladrões.

 

***

 

- Wow! Wow! Wow! Espera um momento - Arwen tentava se afastar da mellhor maneira que podia - Calma…

- O que foi? - Gwendoline bufou cansada.

- Por que você vai cortar meu braço?

- Eu sei o que eu estou fazendo.

Arwen deixou o “tem certeza?” ou o “não parece” subintendido. Ele já vira feridas serem tratadas, não se assustou quando a viu esquentando a faca, pensou que ela fosse queimar a ferida, mas ela apenas afogou a lâmina na água. Agora ela queria lhe cortar ainda mais?! Ela deveria estar tirando a flecha de seu braço, não o lesionando mais.

- Você quer que eu ajude ou não? - A garota indagou impaciente. Arwen ficou num silêncio perturbado refletindo os riscos. - Escute, o cabo está mole, se eu simplesmente puxar a ponta pode ficar solta dentro do seu braço. Quando isso acontecer, eu lhe garanto que será bem mais complicado…

- Me dê a bebida. - Ordenou contrariado. A princesa pegou a garrafa, e derramou parte na ferida. Arwen rangeu entre os dentes com a dor. - MAS Q-

- Não queremos os bodach entrem na ferida e apodreçam o seu braço, queremos? Acho que não. Marcus, me de algo para que Arwen possa morder.

- Eu não preciso disso.

- Tudo bem, mas não acorde a floresta.

O Dragão sentiu os dedos gelados de Gwendoline contornando a ferida, logo em seguida, a lâmina ainda morna rasgando mais sua pele. Dois pequenos cortes. E ela abriu um pouco mais a ferida a dor lancinante quase carregou o guerreiro para o outro mundo. Lentamente, com o auxílio da faca ela começou a remover a ponta de ferro.

Quando Arwen tornou a si, ela já estava terminando os pontos. Concentrada. Seu rosto parecia um mosaico de tons entre o roxo, vermelho e o amarelo. O lado esquerdo de sua boca estava inchado, marcado com o sangue seco. Um corte próximo a sobrancelha ainda vertia uma sutil corrente de sangue. Seu rosto não estava deformado como o de Marcus, mas ver sua beleza destruída... Era triste.

Arwen se dividia nas opiniões quanto a moça, podia dizer que a detestava, mas naquele momento… Quando ela olhou no fundo dos seus olhos, desafiante como sempre. Não havia nada destruído. A comparação de Marcus estava errada, ela não era sábia e velha como um carvalho. Ela era um rochedo, capaz de edificar uma vila ou destruí-la a seu bel prazer.

O Dragão tocou de leve o braço de Gwendoline, ela saltou num susto repuxando os ponto. Arwen agonizou sem fazer som.

- Perdão - Nervosa - Mas por que resolveu me assustar?

- Eu apenas toquei no seu braço.

- Eu estava concentrada!

- Você está muito tensa - Reclamou.

Ambos bufaram irritados, e resolveram parar a discussão antes que os ânimos se aquecessem. A Filha do rei prosseguiu o curativo com habilidade, sua mão era fina e seus dedos longos e fortes como mão de um arqueiro experiente. Arwen lembrou-se das flechas na garganta do gigante, e todas as cenas e sons da noite tumultuaram sua mente. E se o arco tivesse falhado? Certamente o gigante a teria esmagado. E se ela não tivesse acordado a tempo? E se ela não tiver acordado a tempo? Os gritos voltaram a sua cabeça e ele imaginou aqueles dedos que agora cuidam de sua ferida arranhando e empurrando aquele ladrão fétido. E os gritos soaram ainda mais estridentes em sua cabeça.

Quase por impulso tomou a mão de Gwendoline com força, talvez até mais que o necessário e ela rapidamente protestou:

- Se continuar a apertar assim, vai me machucar.

- Por favor – Sussurrou, afrouxando o aperto – Me diga que tudo aquilo foi apenas uma mentira, uma farsa sua para atrair os homens.

- Não desejo falar sobre isso.

- Eles fizeram algo a você? Algo pior, algo imperdoável?

- O que seria algo imperdoável a você, cavaleiro? E se tiverem feito, o que você fará? Eles já estão mortos.

- Eu quero apenas saber. - O olhar de Gwendoline lhe deixava confuso, suas respostas evasivas apenas aumentavam sua angústia. - Não vou deixar que você continue esse curativo se não me disser a verdade.

- Bom, essa é sua escolha – Disse enquanto soltava sua mão e se levantava.

- Você vai me deixar aqui?

Ela não respondeu.

***

Quando Gwendoline entrou no lago, toda água a sua volta ficou vermelha. Ela orou a Lua e aos espíritos das fontes. Pediu forças aos deuses. Suas provações ficavam maiores a cada dia. Estava tão cansada que não teve forças para se limpar como sentia que devia. Enxugou-se numa manta e se vestiu a túnica mais limpa que encontrou, pegou uma das capas grossas, fez dois buracos para passar os braços e amarrou um cinto em sua cintura. Pensou em arrumar os cabelos mas seus braços pesavam toneladas, a fome consumia o seu ser, a cabeça latejava e cada parte de seu corpo reclamava o desconforto. Era melhor descansar.

Arwen carregou Marcus para que esse pudesse se lavar de uma melhor forma. O Romano checou seus dentes, e agradeceu por nenhum estar fora do lugar. A cabeça girava, e não fosse Arwen lhe sustentando, dificilmente conseguiria se colocar de pé. Mesmo debilitado, insistiu que fosse ele quem manteria a guarda, já que caso fosse preciso, Arwen teria de estar descansado para proteger a todos. A contra gosto, o Dragão acatou. Lançou o olhar sobre a filha do rei, que já dormia, um sono conturbado entregue a seus demônios.

Arwen também não tardou a cair no sono. Em seu sonho o ladrão que havia escapado voltava para realizar sua vingança. O homem-dos-nós esfaqueava Marcus e em seguida seguia para a cama de Gwendoline. No sonho, Arwen não conseguia se mover, e por mais que gritasse, o som não saia de sua boca. Gwendoline permanecia deitada em um sono calmo enquanto o ladrão se aproximava, rindo, fazendo gestos obscenos e provocativos para o cavaleiro, e este, por mais que tentasse, permanecia imóvel, assim a sua frente ele via perturbações de uma violência sinistra com tudo o que sua mente conseguia imaginar de pior.

Arwen acordou num súbito, confuso e exaltado. Marcus lhe repreendeu pelo barulho. O conselheiro estava sentado ao lado de Gwendoline lhe fazendo carinhos nos cabelos.

- O que está fazendo?! – Sussurrou o cavaleiro ainda nervoso.

- Estou de vigília - Respondeu singelo como sempre.

- Não, não está. Deixe-a dormir tranquila.

- Ela está tranquila agora.

O cavaleiro fitou o semblante de Gwendoline por um momento, seu sono realmente parecia calmo. Marcus riu por algum motivo e comentou:

- Pensei que jamais fosse fazer a corte à dama. Algo sobre “um inferno em vida”.

- Isso nada tem a ver. Preocupo-me apenas com o que ela pensará quando acordar, não preciso que ela diga a seu pai que meu conselheiro tentou molestá-la enquanto dormia.

- Meu senhor, não se preocupe quanto a isso, sim?! Volte a dormir, teremos uma longa viagem até voltarmos nosso curso. Nos distanciamos muito da estrada para lhe procurar.

Contrariado como só Marcus conseguia deixá-lo, o Filho do Dragão procurou voltar a dormir e se convencer de que ela estava em segurança e de que não iria ter um acesso quando acordasse. Escutava Marcus murmurar de uma cantiga suave, e o som de sua voz o ajudou a cair no sono mais uma vez.

Um sono exausto, negro e vazio.


Notas Finais


Er... bem isso ai mesmo


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