História O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 8


Escrita por: ~

Postado
Categorias Mitologia Celta
Tags As Brumas De Avalon, Celta, Drama, Druidas, Fantasia, Medieval, Romance, Rpg, Sacerdotisas
Exibições 6
Palavras 4.351
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas da Autora


Algo mais suave

Capítulo 8 - Diplomacia


Fanfic / Fanfiction O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 8 - Diplomacia


Ser ofendido não tem importância nenhuma,
a não ser que nos continuemos a lembrar disso. (Confúcio)

 

Arwen acordou com o cheiro de comida, o sol estava alto, caminhando a seu ápice no céu de poucas nuvens.
    - Onde está Marcus? – Perguntou vendo apenas Gwendoline que preparava algo na fogueira.

- Ele dorme.

Sentou-se com alguma dificuldade e após uma rápida vistoria a sua volta, percebeu Marcus enrolado em suas mantas. Gwendoline entregou ao cavaleiro uma caneca quente sem qualquer cerimônia, e com um “Beba!” retornou a mexer na panela. Arwen provou o líquido amadeirado com um certo receio. O gosto forte e amargo desceu violento pelo estômago.

- O que é isto?! - Irritado pelo desconforto

- Não importa.

- Eu não vou beber algo que eu não sei o que é!

- Bom… se você quiser ainda algum dia segurar sua espada novamente, é bom que beba todas as vezes e todas as coisas que eu lhe der, Dragão.

- Você fala como se eu nunca tivesse sido ferido. - Resmungou ainda alto o suficiente para que ela ouvisse

- Quando os bodach apodrecerem seu braço, eu não terei nada a ver com isso. Lavei sua ferida com a bebida mais forte que encontrei, mas não sei por quanto tempo eles ficarão afastados. Então, se você não quer continuar com os cuidados, o problema é todo e completamente seu.

Arwen não acreditava nesses seres invisíveis que entravam em feridas e apodreciam as carnes dos enfermos, mas já participara batalhas o suficiente para ver homens em agonia, tendo que retirar membros inteiros para conter uma doença que começara com uma ferida mal cuidada.

Seu ombro estava quente e inchado, seu corpo febril. Quando o cavaleiro percebeu que era quase insuportável a dor que sentia ao segurar uma simples caneca com a mão direita, bebeu o líquido com relutância e entregou a caneca à Gwendoline.

Passado algum tempo ela serviu um cozido com grãos, e embora o gosto chá ainda lhe embrulhasse o estômago, a fome parecia lhe devorar. Intimidado e cansado pela noite anterior, o Filho do Dragão pegou sua caneca e sentou na margem do lago. Começou a catar pedras e atirar no espelho d’água. Tateava o chão sem muita atenção quando seus dedos se depararam com uma estrutura lisa e fria.

Quase não acreditou quando percebeu que se tratava de uma pedra ballaun. Durante toda sua infância ouvira os druidas repetirem diversas vezes sobre os poderes mágicos destas pedras. Nem se recordava qual a última vez que vira uma destas. Tocou a face rochosa com o carinho dedicado aos tempos passados, queria ter fé para fazer uma prece.

- Por sorte, você não tão estúpido para alguém criado nas suas condições. Tem ignorantes dessa nova fé que preferem morrer a beber um chá de ervas. - Soltou Gwendoline mal humorada enquanto enchia os cantis. Arwen apenas alternou o olhar entre ela e a pedra, como alguém podia ser tão amarga?! Tão peçonhenta ao ponto de não perder uma única oportunidade de ofender-lhe?

- Está melhor? - Ela perguntou sem lhe direcionar o olhar.

- O quê? - Arrancado de seus pensamentos

- Seu braço, está melhor?

- Ah não se preocupe. É falam “foi só um arranhão”.

- Eu espero nunca me arranhar dessa forma. - Com um sorriso cansado. A iluminação diurna tornava mais fácil perceber os machucados em seu rosto. Embora ele estivesse limpo e sem sangue, os inchaços e hematomas ainda persistiam com vigor. A altivez havia dado lugar a um olhar exausto, quase sereno. - Pretende treinar a espada com a mão esquerda?

- Sim, eu na verdade já vinha treinando, mas perder o apoio da mão dominante é realmente algo complicado.

- Pense assim, ao menos você tem opção - começando a se levantar. - Com arco, perder a força em qualquer mão, é perder tudo.

- É realmente algo bem complicado.

Gwendoline apenas assentiu e voltou a seus afazeres.

- Sabe atirar Dragão? - Perguntou enquanto amassava algumas ervas.

- Se eu arremessar minha espada, acho que ela vai relativamente longe. - A sacerdotisa apenas balançou a cabeça. Arwen riu de sua própria brincadeira. - Mas, não, não sou bom com flechas, Marcos é melhor. Eu sempre achei Arco e flecha algo muito feminino.

-  Mesmo?

- Sim, não há muita honra em ficar a léguas de distância, em segurança, soltando setas nos inimigos. Você não se envolve no combate, sabe, o perigo real.

- Você lembra que eu sou uma arqueira não lembra?

- Sim, sim, e você é uma arqueira muito boa devo assumir. Incrível. - Lembrando da figura firme e assustadora da noite passada. O elogio saiu com tanta espontaneidade que Arwen ficou constrangido. - Mas, é como eu dizia, o arco é uma arte feminina.

- Então para você, uma arte feminina é arte sem honra?

- É sem honra para um homem. É bom para a mulher poder ficar em  uma posição segura, distante do conflito, contribuindo a sua maneira. Homens são mais fortes. Por isso eles devem ficar na frente da batalha, onde é mais perigoso.

- Não existe isso de lugar de homem, lugar de mulher. Cada um deve ficar onde sua habilidade for maior.

- Mas é disso que eu estou falando, homens são mais fortes que mulheres, logo... Você se diz tão inteligente, pensei que já tinha entendido isso. - Cansado de ficar se repetindo.

- Eu conheço mulheres que usam suas espadas com mais virilidade que você.

- O que você está falando contradiz a sua própria crença.

- Agora você entende até da minha crença?!

- Eu entendo que homem tem papel de homem, mulher tem papel de mulher determinado pela própria natureza. A deusa é a Grande mãe e o Deus é o Caçador, e eles são chamados assim por um motivo - Já agitado com a discussão -  Mulheres são mães! Elas são capazes de parir. Homens são guardiões, são provedores! Eles garantem que as mulheres possam ter as crianças em paz.

- Primeiro, “mãe” é apenas uma das faces da deusa... Você nem sabe o que você está falando.

- Eu sei o que eu estou falando sim, ao contrário do que você pensa não fui sempre criado em uma corte, o início de minha criação foi druídica.

A feição de Gwendoline passou de leve irritação, para confusão, seguida rapidamente por uma indignação categórica.

- Então você foi criado por druidas, no seio dos deuses, e agora se curva diante desse novo deus? E não só isso, vem pedir para que nós lutemos por ele?

Arwen respirou fundo mais uma vez, a conversa não seguia o rumo pretendido.

- Eu não vim aqui em nome de fé alguma, eu vim em nome do meu rei.

- Mas o seu rei está apoiando a nova fé. Então…

- Qual é o seu problema? - Sem paciência - Tentaram nos matar ontem e você parece mais indiferente à isso que a essa sua implicância com a nova fé. Eu nunca vi um padre empunhar uma espada e forçar alguém a acreditar em um ou em outro deus. As pessoas acreditam no que elas querem, e não é você ficar hostilizando essa fé que vai mudar isso.

Houve um momento de silêncio onde os ânimos se acalmaram.

- Você tem razão numa coisa - Respondeu Gwendoline numa voz pesada - Eles não usam espadas, mas é tolo aquele que acredita que um homem só pode ser forçado pelo uso da espada.

 

***

 

Com a precisão dos sinos de igreja, a filha do rei refazia os chás para Arwen e Marcus, intercalada apenas pelos seus próprios asseios. E foram tantos que chegaram a intrigar o cavaleiro a ponto de ele chegar a comentar

- Vai banhar-se de novo?

- Estou suja. - Respondeu distraída

- Ah… Você não sabe o que é sujeira, se viajasse com meus homens por apenas cinco dias você descobriria o real significado dessa palavra.

Gwendoline pensou em explicar que não era a essa sujeira que se referia, mas logo concluiu que não tinha motivos para isso.

 

***

 

Quando Marcus acordou todos desfizeram o acampamento e partiram às ruínas. Afinal, lá seria o primeiro local que a guarda iria procurá-los. Cavalgaram com o sol, e quando este declinava no horizonte, puderam ver as pedras da construção, fragmentadas e queimadas, o resto das paredes do forte que Vortigem tentou erguer.

Arwen subiu o monte de certo modo ansioso. Sempre achou a história um tanto fantasiosa quando Taliessin lhe contava com os olhos vivos. Sempre pensou que fosse delírios de um velho ou algum tipo de parábola. Mas estando ali, tocando as manchas negras nas rochas, tudo parecia plausível. Seu pai havia de fato ganho as graça de um dragão, lutado a seu lado, vencido a seu lado. Deveria realmente ter negligenciado isso por tanto tempo? “Pendragon é um título, não havia dragões de verdade” lembrava das instruções dos padres. Mas que outra criatura poderia causar tamanha destruição?

Marcus logo se acomodou entre as paredes da ruína a procura de abrigo para o vento. Acendeu uma fogueira e deu a Filho do Dragão o primeiro turno da vigília. Arwen e Gwendoline permaneceram em silêncio, sentados sobre as rochas vendo o sol fazer um espetáculo em sua dança de cores enquanto se escondia no horizonte.

Aquela viagem estava sendo mais desgastante do que Arwen imaginava. Contudo, sentado sobre aquelas pedras com o vento morno o abraçando e o calor do poente, o cavaleiro tinha a certeza de que não desejava estar em qualquer outro lugar. Naquele momento não havia nomes, regras ou obrigações. Não havia nada além do universo que se desenrolava a sua frente e ele se sentia livre. Esse era o poder da divindade. Não um ser ou criatura que pensa e julga os erros ou glórias, os pecados e transgressões. São os homens que fazem isso. Inventam regras e condenam quem não as cumpre. O Deus e deuses que os homens dizem venerar não passavam de uma forma de justificar suas atitudes.

A noite caiu, e o único calor que tinha, vinha da fogueira que estalava às suas costas. Por fim, voltou-se ao acampamento. Marcus estava deitado dormindo junto a fogueira, suava e tremia numa precária e febril respiração. Procurou por Gwendoline, mas não a encontrou, assim como o ar que imediatamente lhe fugiu aos pulmões.

Empunhou sua espada com dificuldade e se lançou a procura descendo a colina. As piores ideias começaram a correr em sua mente, e se o ladrão que escapara tivesse lhes seguido? Estava distraído e Marcus estava acamado. Talvez houvessem comparsas, ou até mesmo um outro bando de ladrões. Lamentou não acreditar em um deus consciente que interfere nos assuntos do mundo, ter a quem rezar, mesmo que inútil, talvez lhe acalmasse um pouco mais os nervos.

Depois de algum tempo, Arwen percebeu que a claridade de sua fogueira aumentara no topo da colina. Ladrões deveriam ter pegue Gwendoline e agora que ele saíra, aproveitaram para saquear e pilhar suas coisas. Certamente estavam queimando os pertences que não julgavam úteis nesse momento. Assim o Filho do Dragão rumou ao acampamento, ainda mais apreensivo, calculando estratégias para a emboscada.

Contudo, ao se aproximar, notou que a fumaça não cheirava a tecido ou couro queimando, cheirava, na verdade, a carne, uma deliciosa carne. Gwendoline tinha Marcus a seu colo e lhe dava algo para beber, enquanto na fogueira pedaços de um javali que parecia ter abatido

Arwen não sabia dizer se ficou feliz e tranquilizado por encontrá-la bem ou se enfurecido por ter se preocupado inutilmente.

- Fiquei preocupada, Dragão - Soltou antes mesmo de Arwen se aproximar. - Voltei e não o encontrei, pensei que tivesse sido devorado por um urso... Ou um lobo, talvez…

- Estava lhe procurando, Alteza - Respondeu ríspido. Ela pareceu engolir a brincadeira que estava prestes a fazer.

- Estava tão compenetrado em seus pensamentos que não quis importuná-lo quando sai para caçar.

- Como Marcus está?

- Ele vai se recuperar. Precisa apenas de descanso para seu corpo voltar a harmonia. Colhi algumas ervas para ajudá-lo. – Ela deitou a cabeça de Marcus e se dirigiu à fogueira - Pegue, coma um pouco, vai lhe fazer bem. Fizemos uma longa viagem, precisamos nos alimentar.

Arwen em seu orgulho tentou recusar, mas a fome, unida ao delicioso cheiro de carne assada lhe fez desistir da ideia. Comeram em silêncio. Vez ou outra Gwendoline verificava a temperatura de Marcus, e como não demonstrava grande preocupação, típica das mulheres quando algum infortúnio acontece, o Filho do Dragão começou a se despreocupar também.

- Eu vou enterrar a carcaça do animal para não atrair a nenhum lobo.

- Eu já providenciei isso Sir Arwen. Aqui costumamos queimar os restos, o cheiro de pelo queimado costuma ser um prenúncio de morte bem entendido pelas feras. Coma e descanse, eu faço a primeira vigília, depois você assume.

- Eu sou um cavaleiro, senhora. É meu dever zelar por sua segurança – Friamente, apenas relembrando seu juramento de cavalaria.

- Mas você também é um homem, precisa descansar. Um cavaleiro cansado não será de muita valia.

- Um cavaleiro dormindo não será de valia alguma.

Talvez a rispidez resoluta nas palavras, ou a consciência de que possivelmente tivesse exagerado na imprudência, ou qualquer outro motivo que o cavaleiro não se ocupou em pensar, fez a filha do rei desistir da discussão. Gwendoline apenas deu os ombros. Arwen lhe ignorou, embora tivesse que admitir que a fome sendo saciada, o vento frio, o calor aconchegante da fogueira, os sons da noite e o próprio cansaço fizessem os ânimos do cavaleiro se acalmarem.

 

***

 

- Aqui... - Gwendoline chamou a atenção, estendendo uma caneca de hidromel que havia preparado - Ajuda a manter desperto, já que é o que deseja.

Arwen realmente duvidou que uma bebida preparada por uma mulher fosse lhe manter desperto, principalmente hidromel que costumava manter um gosto suavizado. Deu um grande gole que desceu como uma labareda viva pela garganta. Seus olhos lacrimejaram. Gwendoline encheu uma caneca e a bebeu sem demora, encerrando com uma careta cômica enquanto limpava a boca.

- Não imaginava que uma princesa beberia algo tão forte como se fosse um cavaleiro.

- São as mulheres da sua terra que são muito  ‘frígidas e recatadas’. - Gwendoline esperou uma resposta que Arwen não conseguiu formular sem que parecesse uma repreensão. O cavaleiro apenas colocou um pouco mais da bebida em seu copo e tornou a beber. Por educação de mesa de bar, ofereceu a garrafa a Gwendoline que a recebeu sem acanhamento.

- Se você se impressiona comigo, Dragão, imagino se conhecesse Brianda, ela sim parece ser filha do próprio Sucellus, ou no mínimo, muito abençoada pelo deus.

- Alguns tem o dom da espada, outros da marcenaria, e outros… o dom da fanfarronice.

- Algo assim.

Tornaram a concentrar-se em suas bebidas por um razoável tempo, até Arwen quebrar o silêncio.

- Eu… tenho que agradecer aos cuidados que tem dedicado a mim e a Marcus.

- Não precisa agradecer, eu sou uma sacerdotisa. Eu também tenho votos a cumprir. - Ela desfez-se do manto e sentou-se em uma das meias-paredes da construção. O vento tremulava seu cabelo como uma bandeira e enquanto ela fitava a lua como os amigos que se encontram novamente após um longo tempo. - Quando foi encontrar com seu rei, acaso viu Viviane ou Taliessim? – Perguntou em voz amena.

- Não vejo a corte de Artur desde seu casamento. E quanto a Taliessim, não tenho nenhuma notícia.

- Entendo... - Ficou parada algum tempo, fechou os olhos e quando seu corpo começou a pender, ela despertou de súbito e desceu da parede com alguma dificuldade. Caminhou até o ponto mais alto da colina que ficava a alguns passos de distância. De Onde estavam ainda era possível sentir um leve calor proporcionado pela fogueira. Os ventos àquela altura eram fortes e teriam apagado completamente sua única fonte de calor, se Marcus não a tivesse feito calculadamente no local mais protegido entre os escombros da fortaleza, ainda sim, vez ou outra uma corrente de ar conseguia contornar a construção e fazia as labaredas dançarem, se contorcendo para não se extinguirem.

Gwendoline deitou-se na grama e fechou os olhos. Seus cabelos se espalharam ondulando pela terra como raízes. Arwen passou algum tempo em pé sentindo o vento em meu rosto, então sentou-se a seu lado. Esperava que ela fizesse algum comentário ou que soltasse alguma de suas piadas ardilosas a respeito da companhia, mas ela não o fez. Permaneceu calada, o cavaleiro a admirou por um momento, depois voltou-se ao horizonte. Não se dignava a encantar-se pela sua beleza irritante, daquele tipo de beleza que você considera injusto de se atribuir a alguém. Antes disso, achava um desperdício tão belos moldes ornando uma personalidade tão mesquinha.

Mas, mesmo que não gostasse da filha do rei, Arwen reconhecia que a gosto ou desgosto, ela cuidara de seus ferimentos com uma presteza impecável, bem como dos de Marcus, a quem ela parecia mais afável. Esse fato lhe fazia pensar que a garota não passava de apenas mais uma garota a quem Marcus conseguia ganhar em cortejos. Apenas uma menina com uma criação sem rédeas.

- Posso lhe fazer uma pergunta? - Arriscou quebrando o silêncio.

- Uhm... - Ela respondeu sem mesmo abrir a boca ou os olhos, o que deixou o cavaleiro em dúvida se estaria ainda acordada.

- Eu não quero ser intrometido, mas qual o seu problema com essa nova fé? Quando eu era bem pequeno, eu sempre ouvi histórias de grandes guerreiros, de deuses e monstros, quando eu voltei a corte, os padres me contaram histórias de grandes guerreiros, gigantes, reis, e criaturas aladas. As histórias não eram muito diferentes. Porque elas eram contadas por homens que não eram muito diferentes. - Arwen respirou fundo, seu ombro reclamou mas ele não se importou -  Eu tenho dificuldade em entender, por que não nos unir-mos contra um perigo maior, um perigo real que são os Saxões. Um povo estrangeiro tentando dominar nossas terras. Tendo como justificativa o conflito entre criaturas de um outro mundo.

Gwendoline ficou em silêncio por algum tempo, abriu os olhos e o fitou. Seu semblante parecia pensativo, Arwen não se sabia se a bebida havia lhe desorganizado as ideias, ou se ela analisava se deveria responder ou não. Passado um momento ela, respirou fundo e passou a olhar a lua. O cavaleiro já considerava que ela iria ignorá-lo quando ela começou a falar.

- O problema não está nos heróis ou gigantes, o problema é no que se ensina como certo e errado, os valores que essa nova fé destrói. Quando se é um líder, aquilo no que seu povo acredita é uma preocupação tão importante quanto uma invasão em suas terras - Então olhou para lua e começou a conversar com ela - Eu caminhei com padres dessa nova fé, eu vi o deus dos romanos, um deus que fala de amor, mas prega a intolerância. Um deus que teme o que não conhece. Renega a natureza e induz seus súditos a abandonarem a negarem sua natureza também. Ele nega a mãe se colocando como único criador, e condena todo aquele que se opõe.

- Bom, eu conheço sacerdotes que não o descrevem dessa forma. Mas, de toda forma, deuses são cruéis, tão cruéis como os homens podem ser. Você como sacerdotisa sabe disso.

Ela ficou calada por mais algum tempo, não concordava ou discordava das palavras de Arwen por completo, apenas bebeu mais alguns goles e retomou.

- Artur fez uma jura aos deuses da terra. Ele jurou proteger ambas as crenças. Se o deus dos romanos lhe deu uma noiva, nossos deuses lhe deram a coroa. E se Artur não tiver o apoio das tribos, seu exército não será suficiente para conter a invasão. Você veio aqui para pedir que mandemos nossos homens para morrer em seu nome. Mas, nós não podemos arriscar e sacrificar nossos guerreiros, nossos amigos, nossos maridos e filhos, por um deus que lhes condena.

- Artur foi criado na ilha, ele é tão filho da deusa quanto eu ou você.

- Ele pode ter nascido da deusa, mas cercou-se de pessoas que a renegam. Seus conselheiros, sua esposa.

- Você parece Eustace falando. - Arwen soltou lembrando-se do sacerdote.

- Quem?

- Ninguém em específico - A julgar pelas opiniões de Gwendoline, não seria nada agradável imaginar a reação da moça ao ser comparada com um religioso da fé que ela condena.  Assim, tão rápido como pôde, procurou desconversar - Você cita muito a rainha, vocês se conhecem?

- Não, mas eu nem preciso. Eu ouvi bastante sobre sua majestade.

- O que você ouviu sobre ela?

Gwendoline deu um leve sorriso, como se lembrasse de uma piada que apenas ela conhecia. - Prefiro guardar minhas opiniões.

- Por favor, compartilhe. Seu mistério me faz ficar curioso.

- É sua rainha.

- Arg! Como se em algum momento você tivesse contido qualquer palavra para não me ofender. - Justificou - Pode falar.

Gwendoline bebeu um pouco mais, usando a caneca para esconder um sorriso malino. Sua desculpa não havia sido comprada.

- Quanto mais você demora, mais absurdidades minha mente imagina. - O cavaleiro ameaçou numa brincadeira.

A lua estava encantadora deixando a noite iluminada. O ambiente estava frio, mas a bebida aquecia. Era bom conversar bobagens as vezes. Tentar se entreter para afastar seus demônios da mente. A filha do rei sentou-se de uma forma mais confortável, se recompôs, arrumou o cabelo e começou em tom solene:

- Dizem que a esposa do Rei é tão bela como um sol, que como o ouro mais puro seu cabelo reluz, que é tão graciosa como desabrochar de uma flor, um exemplo de dedicação e comportamento para as damas, criada na ilha dos padres e uma verdadeira e fiel seguidora da nova fé. - Falava de uma forma propositalmente poética, cheia de floreios, o que fez o cavaleiro precisar conter o riso de suas caras e bocas.

- Eu não a descreveria melhor.

- Eu sou boa com palavras. - Vangloriou-se enquanto enchia o copo de bebida.

- Mas… Ainda não estou convencido como tão angelical figura pode ‘perverter a mente do rei’. - A última oração foi dita num sussurro debochado simulando uma preocupação com possíveis delatores de conspiração.

- Vou pegar carne e ver como Marcus está. Quando voltar lhe explico meu ponto... mais uma vez.

A carne derramava sua gordura entre os dedos da garota, a banha lhe dava um gosto mais salgado, mas deixava a filha do rei com uma sensação de agonia. Marcus permanecia estável, seu corpo lutava para recuperar-se como a fogueira para se manter acesa.  Ela sentou ao lado do cavaleiro que despertou de um leve cochilo. Mas ela não percebeu. Apenas colocou a garrafa de cerveja ao lado da outra, que já vazia, rolava na grama.

- Notei apenas agora que minha caça foi um javali… - Comentou rindo de uma forma maligna.

- Não vamos começar com isso de novo. Por favor. - Esfregando violentamente as mãos no rosto - Eu não aguento mais…- Bufou

- Não posso fazer nada, - rindo - foi você quem me atacou.

- Você roubou minhas coisas primeiro.

- Não roubei, não.

- Roubou.

- Você está com elas?

- Estou ma*

- “Mas” nada, você está com seus pertences, logo eles não foram roubados. - E abocanhou o pedaço de carne vitoriosa.

- Não era disso que estávamos falando.

- Verdade. Vou lhe explicar meu ponto. - Terminando de mastigar - Quando uma corte, um grupo de conselheiros tentam lhe convencer de uma ideia da qual você é contra ou simplesmente não adepto, algo como princípios, costumes, hábitos de fé, manter-se indiferente é difícil, mas não impossível. Você pode tomar decisões cabíveis, se eles forem muito impertinentes, pode impor-se, trocar os conselheiros. - Arwen meneou um pouco ponderando sobre a “facilidade de se opor” a corte. Mas não interrompeu o discurso de Gwendoline - Entretanto, se a corte tem o apoio do cônjuge para protegê-la e ajudá-la, é muito complicado… - A filha do rei terminou por derramar cerveja na mão na tentativa de dissolver a gordura. - É doloroso sempre se opor sempre aos pedidos de alguém que você ama. Então, com o tempo você vai cedendo aos poucos. Quando você vê que algumas coisas são realmente importantes pra ele, então você começa a atender, um pedido simples, algo que não vai ser muito inconveniente para você, mas que vai deixar a quem você ama feliz, você vai mudando lentamente e se não perceber a tempo, você se transforma em outra pessoa. E isso é muito perigoso quando se trata de um rei.

- Mas, isso refere-se apenas a intimidade do rei. Seu reinado é indiferente aos pedidos de sua esposa. Um rei sabe distinguir.

- O rei, Desculpe interromper, - Ainda com a boca cheia -  Momento… - Terminando de mastigar. Bebeu um gole de cerveja e prosseguiu - Um rei, seja na sua intimidade ou não, reflete em seu reino.

- Há uma verdade nisso.

- Simplificando, no caso de Arthur. Sua corte, seus conselheiros, sua mulher,  vão construir paredes tão fortes a volta de sua Majestade, que ele não vai ouvir outras palavras que não sejam a que eles proferirem. Você pede que nós mandemos nossos homens para morrer em seu nome, mas se Artur falar outra língua que não a nossa, nós não teremos como lhe escutar.

- Eu entendo seu ponto, mas, alteza...- Ela o interrompeu

- Perdoe-me! O esforço para me manter acordada me exaure.

- Oh, tudo bem.

- Uma boa noite dragão - Levantando - Quem diria que pudéssemos ter uma conversa razoável.

- Bom, eu sempre estou disposto a conversar, mas é normalmente sua alteza que conduz a conversa para um duelo de egos.

- O que me resta fazer? Você é arrogante Dragão, eu preciso mostrar que fogo de raposa também queima. - Dito isto ela retirou-se de sua presença.


Notas Finais


S2


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...