História O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Celta
Tags As Brumas De Avalon, Celta, Drama, Druidas, Fantasia, Medieval, Romance, Rpg, Sacerdotisas
Exibições 10
Palavras 4.108
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas da Autora


Chegamos ao ultimo Capítulo desse Arco,
No próximo, a trama se intensifica.
Novos personagens, novos lugares.

Conseguirá Arwen cumprir seu dever e fazer a aliança?!
A Guerra eclodirá?

Capítulo 9 - Escolta


Fanfic / Fanfiction O Dragão e a Raposa - Arco 1 - Capítulo 9 - Escolta


A guerra é mãe e rainha de todas as coisas;
alguns transforma em deuses, outros, em homens;
de alguns faz escravos, de outros, homens livres.(Heráclito)

Os olhos treinados varriam a mata como um fazendeiro examinando um boi de arado. Galhos quebrados, rastros de animais, qualquer inconformidade naquele mar caótico que era a floresta. O som dos pássaros, o vento nas folhas, o barulho dos animais e o barulho de um idiota que ficava estalando os lábios e assobiando.

- Pelos Deuses, Dan, você pode parar com isso?

- O que foi, farejador? Hoje você está mais nervoso que o normal.

- Eu estou tentando me concentrar.

- Me desculpe, senior - Carregando um sotaque na última palavra - mas é assim que eu guio meu cavalo.

- Com beijos e estalos? Por que você não usa as rédeas como qualquer outro cavaleiro normal?

- Porque eu preciso das duas mãos para atirar minhas flechas.

- O Kevin também é um arqueiro e eu não o vejo com essas esquisitices.

- Lewins, perceba, quando Kevin ainda estiver procurando sua flecha em sua aljava, minha flecha já estará transpassando o infeliz que tenha atentado contra a filha de nosso rei.

- Ow, ow, vocês dois não me envolvam em suas picuinhas.

- Ei, - Insistiu Dan aproximando o cavalo - pessoal, vocês já pararam pra pensar que a princesa é uma Lowarn, então nós estamos caçando uma raposa? Hum? Hum? caçadores de raposa.

- Ah, eu mereço... - Arquejou Connor, o mais velho da guarda.

Lewins tentou ignorar a postura irritante do arqueiro e continuou sua busca, conhecia as habilidades de Dan e as lendas acerca de sua vila. A vila onde os homens domam o vento para guiar suas flechas

O latido de Leuad ecoou chamando a atenção dos guadas para mais adentro da floresta. Lewins, o patrulheiro, montou em sua égua e seguiu acompanhado dos outros três cavaleiros. Um forte cheiro de podre se espalhava pelo lugar. Todos pararam antes mesmo de entrar no que outrora fora um acamamento.

- Oh! Deuses…- Soltou Connor cobrindo o nariz com sua própria capa.

Corpos estavam espalhados por entre as árvores, suas entranhas rasgadas, vermes invadindo percorrendo suas carnes. O cachorro latia acuado pelos corvos que se regozijavam com a carne podre.

- Lewins, o que você acha?

- Esses corpos já estão aqui a uns três dias… - Com o estômago embrulhado.

Em sua vida de patrulheiro, Lewins já havia visto muitas emboscadas, muitos corpos mortos, mas aquela cena era uma das mais violentas que já investigara. Alguns membros já estavam completamente consumidos pela floresta. Os animais haviam esfarelado os corpos de modo que era difícil sequer contar quantos eram ao certo.

- Você precisa ir lá ver se algum dos copos é o da princesa. - Falou Dan por ente os panos que cobriam seu rosto.

Havia quase uma placa sobre a cabeça de cada um dos cavaleiros “nós não vamos entrar nessa área”. Vencido pela mensagem implícita, o patrulheiro avançou por entre os copos. “E então?”; “E aí?”; “Encontrou?” indagavam com uma frequência agoniada os cavaleiros incomodados com o mal cheiro.

- Eu não sei - Respondeu o patrulheiro antes de vomitar mais uma vez.

- Vamos embora, - Ordenou Connor - Tem um lago aqui próximo, você precisa se recompor.

- Ajudar que é bom… - Resmungou o patrulheiro voltando para sua égua.

 

***

 

O lago não ficava tão distante, embora Lewis já estivesse melhor. Todos encheram seus cantis e aguardaram o patrulheiro melhorar, teria sido uma pausa calma se o cachorro não tivesse começado a latir freneticamente numa direção.

- Lewins, acalma esse teu animal. Depois eu que sou barulhento.

- E você é! Já Leuad é um rastreador, seu estúpido, deve ter encontrado algo. - Levantando-se para ir checar o ocorrido.

- Você me chamou de estúpido? Vocês viram isso?

- Eu não ouvi nada. - Saiu-se Kevin

- Você está ouvindo coisas - Completou Connor

- Ele disse sim, como vocês não ouviram? Ele disse…

Embolada em diversos farrapos e galhos uma pequena raposa grunhia, fraca, com o focinho preso em uma caneca. O patrulheiro retirou a caneca com cuidado e se condoeu ao ver o focinho do animal ferido. Desembolou o bicho que mal soltou-se, correu, cambaleante aos tropeços. O cavaleiro olhou para a caneca, era parecida com as panelas que estavam jogadas no acampamento a pouco, mas foi somente quando notou os trapos em sua mão que seu coração parou por um instante.

- Homens, parece que aquela pequena raposa veio trazer a resposta que procurávamos.

- O quê, ela era um oráculo? 

A pergunta de Dan morreu no ar quando Lewins exibiu o vestido de Gwendoline, em farrapos, banhado em sangue. Todos os cavaleiros ficaram em silêncio. Mais que a morte da filha do rei, era a morte de uma sacerdotisa, a morte de uma figura que se fazia respeitável pela sua atenção ao povo.

- O rei estava tão feliz com a volta de sua filha… - Connor, por ser um dos mais velhos da guarda, conhecia bem o rei e sua afeição por seus filhos, sabia que seu carinho era tão forte como o de qualquer pai zeloso. Quase por empatia, imaginou se algo assim acontecesse a seus filhos, olhou para o vestido mais uma vez e um nó apertou em sua garganta. Por fim retirou-se da companhia dos demais para tomar um ar.

- Como vamos dizer ao rei…? - Soltou Kevin

- O problema não é como a gente vai dizer. O problema é a filha dele ter morrido assim. - retrucou o segundo arqueiro

- O problema é como a gente vai dizer, sim.

- Gente... Basta chegar e falar: Rei sua filha está morta.

- Arh, eu não sou obrigado a ficar escutando isso. - Lewins começou a se retirar. - Kevin, eu não tenho paciência, vocês são arqueiros se entendam.

- Por que eu? - Indignado, Dan em contrapartida o encarava confuso, quase inocente, esperando do companheiro alguma orientação. Kevin respirou fundo e esfregou a as mãos no rosto e começou com o tom mais calmo que conseguiu, quase como se falasse com uma criança - Escuta, essas coisas a gente não fala assim.

- Por quê, não? - Genuinamente intrigado

- Você tem que dar a notícia aos poucos, tipo: ” A raposinha subiu numa árvore, o galho no qual a raposinha estava quebrou, a raposinha caiu e acabou morrendo”.

- Pronto você já sabe como dar a notícia. - Um sorriso satisfeito se abriu em seu rosto. Afinal, ele havia ajudado o amigo a resolver o problema da questão.

- Não, Dan, eu não sei, parece que você não entendeu o que eu disse.

- Eu entendi sim, a gente vai chega no rei e dizer: “A sua filha subiu numa árvore…”

- Vocês dois poderiam ter mais respeito?! - Interrompeu Connor irritado.

O silêncio voltou, e com o silêncio a cabeça de Lewins pôde trabalhar melhor. Algo não fazia sentido, a roupa estava distante do local dos mortos, mas a raposa podia tê-la carregado, havia sinais de uma segunda fogueira, olhou no fundo a caneca e ainda haviam vestígios de folhas cozidas, não imaginava que os bandidos fizessem chá de folhas, enfiado entre alguns arbustos, haviam pequenos panos rasgados e sujos de sangue, talvez houvessem feridos, talvez a sacerdotisa houvesse escapado. E se tivesse escapado, para onde iria? Para onde iria? Para onde iria...? Para onde ela estava destinada a ir. Para o primeiro local onde iriam procurá-la caso ela demorasse. E de fato, foi o primeiro local visitado.

- Senhores, montem em seus cavalos, eu sei onde a princesa está.

- Nós também sabemos - Respondeu Kevin quase sem pensar.

- Vamos invadir o Annwyn atrás dela? - Dan interrompeu - Não seria um exagero? Não me parece certo os vivos visitarem o mundos dos mortos.

- Cale a boca e se apresse - Arrancando no galope.

***

Arwen assustou-se com a marcha dos cavalos soando abrupta em sua direção. Acordou Gwendoline sem delicadeza. Mesmo que Arwen quisesse correr sentia que não havia tempo. Os cavalos se aproximavam rápido demais e mal o Filho do Dragão chegou a Marcus, pôde ver a sombra de um dos cavalos na construção. Dois dos cavalos passaram direto para o fim da da ruína. Outro circulava a área enquanto um quanto se aproximou. Suas capas eram costuradas em um mosaico de retalhos em tons de verde, uma capa pesada que pouco se abalava com o vento.

O homem que se aproximara abaixou o capuz expondo o rosto já castigado por batalhas anteriores. Seus cabelos eram de um louro pintado para parecer mais branco, com tranças junto a cabeça como solo arado. Ele olhou para Marcus e Arwen com severidade e seguiu a Gwendoline.

- Bom dia - Rompeu o filho do Dragão quase se pondo entre o homem e a filha do rei. O Homem olhou para a postura de Arwen sem se alterar.

- Pode descansar, cavaleiro, vocês estão sob a proteção da guarda real agora. - Ele retirou sua capa, e a entregou à Gwendoline. Connor era o mais robusto dos cavaleiros, usava uma armadura de couro com placas de metal costuradas no busto, os símbolos de Gwynedd tatuados no braço, uma pesada espada embainhada na cintura e um bracelete de ferro cobrindo mais da metade do antebraço.

Logo os outros guardas voltaram como resultado de suas vistorias.

- Ninguém no poço - Confirmou Lewins

- Ninguém no entorno da construção. - Confirmou Kevin

- Daqui de cima, eu também não vejo ninguém - Confirmou Dan do topo de uma das estruturas mais altas

- Sua Alteza, vocês estão em segurança? - Connor indagou diretamente; sabia dos votos da sacerdotisa, sabia que ela nunca mentia, mesmo quando era forçada com uma pergunta direta, se fosse obrigada, ela poderia desconversar mas nunca mentia. Se eles estavam em segurança, ou se estavam reféns que alguém, ela seria a melhor pessoa para inquirir.

- Até vocês chegarem, estávamos nessas ruínas apenas eu, Lorde Arwen e Sir Marcus, esperávamos a melhora do cavaleiro para voltar à cidade.

Connor não disfarçou o suspiro de alívio e ajoelhou-se, um a um os outros cavaleiros se juntaram e se ajoelharam diante de Gwendoline.

- Senhora, sua benção.

- Que a deusa lhes dê a força no coração para crê, quando não houver mais esperança, que o deus lhes dê o fôlego no corpo, para resistir quando o cansaço de apoderar de vós. Que se derramem glórias e bençãos, sobre cada um de vocês.

***

- Senhores, eu sou Connor, de Gwynedd. - E apresentou cada um dos guardas que lhe acompanhavam.

- Kevin, dos Carvalhos Cinzentos, parecia mais novo, tinha os cabelos negros como os de Marcus, mas cacheados, usava uma armadura leve de couro, tinha uma espada curta a cintura e um arco às costas. Dan, dos ventos tempestuosos, era o mais baixo de todos, tinha cabelo curto e uns braceletes de pêlo estufado, como o rabo de um lobo. Seu arco estava sempre na mão, um arco com relevo, entalhes que seguiam o desenho de uma tatuagem que começava em seu braço, escorregava pela sua mão, e continuava na arma. Lewins, o patrulheiro, tinha os cabelos num castanho acinzentado, como o tronco da macieira, tinha uma faca de caça na cintura, e outra atada a perna, bem como um simplório arco nas costas. Seu cachorro estava sempre lhe rondando. Com sua pelagem rala, cor de neve suja, Leuad, parecia sempre inquieto.

 

***

Marcus acordou com pouca febre e comeu por Arwen e Gwendoline juntos. Terminado o lanche e mais uma rodada de chá amargo, todos levantaram acampamento e iniciaram sua volta ao castelo, desta vez, sem desvios ou contratempos acompanhados pela escolta de quatro cavaleiros da coroa. O vento soprava a favor e os cavalos descansados correram como um rio furioso.

A chegada na cidade causou mais alvoroço do que Arwen imaginava. Pôde perceber alguns guardas disparando em seus cavalos, provavelmente para informar ao rei. A apreensão começou a tomar conta do cavaleiro, Marcus lhe olhava como se quisesse dizer algo que o Filho do Dragão não foi capaz de perceber. Sua aflição lhe tornava quase cego às nuances de seu conselheiro. Logo estariam diante do rei, três dias após a partida, com sua filha surrada, vestida em trapos, e os dois cavaleiros que lhe acompanhavam em estado igualmente lamentável. E quando o rei soubesse que foram capturados? Quando soubesse que não foram capazes de garantir a segurança de sua filha? Arwen estava perdido.

Quando chegaram a praça real, os guardas seguiram seus destinos enquanto Arwen, Marcus e Gwendoline desmontaram e seguiram a pé. Os criados incapazes de esconder seu espanto receberam as correias e se demoraram a retirar os cavalos, atônitos analisado suas condições. Gwendoline atravessava a praça como uma divindade indiferente à existência humana, enquanto o Filho do Dragão e seu conselheiro seguiam atrás como guardiões.

Sem lampejo ela parou em meio a praça, se pôde perceber que um jovem corria em direção da sacerdotisa. Seu esforço na corrida era notório, visto a meia armadura que usava. Ainda no impulso ele ajoelhou-se em reverência de modo a fazer tinir o metal de encontro com o chão. Em uma empatia inconsciente, Arwen sentiu em seu próprio em meu joelho a dor do impacto.

- Alteza, o que lhe aconteceu?

- Desculpe-me Dylan, mas primeiro devo ter com o meu pai, o rei.

- Perdoe minha intransigência, alteza. Sua majestade já fora informado de sua chegada e segue ao seu encontro.

Ela ficou parada esperando que ele se retirasse para só então prosseguir em sua marcha. Loernius surgiu no alto das escadarias e nem mesmo isso a fez mudar o passo. As feições do rei eram indescritíveis como se centenas de ideias atribulassem sua mente em um só instante.

- Pai ... – Cumprimentou ela em reverência de modo que Arwen e Marcus lhe acompanharam no gesto.

- Minha filha - Arquejou ele assustado com as marcas no rosto da garota. - O que houve?

- Fomos emboscados no caminho, meu pai. Assaltantes.

Arwen sentiu um nó na garganta, sua boca secou, preparava-se para o interrogatório do rei, imaginava as respostas que poderia dar mas nenhuma parecia isentar-lhe da fúria iminente do monarca.

- Conte-me mais. – Loernius sussurrou em voz apreensiva.

Eles iriam realmente continuar aquela conversa alí? Às portas do castelo? Tendo como plateia o aglomerado de curiosos que começava a juntar-se na praça às suas costas? A aflição do cavaleiro apenas crescia, sua humilhação seria pública.

- Eram muitos, - Iniciou Gwendoline - Eu mesma matei cinco deles, os senhorios Marcus e Arwen lutaram bravamente, contudo ficaram bastante feridos. Estando em segurança eu cuidei de seus ferimentos. Partimos às ruínas, onde fomos encontrados por quatro dos guardas reais, por fim voltamos à cidade. Peço desculpas por meu traje, mas o que usava ficou sujo com o sangue dos ladrões e não desejei passear por nossas ruas de tal modo, pois poderia ser mal interpretada.

- O que me diz é verdade em juramento sagrado?

- Nenhuma só inverdade foi proferida de meus lábios em nossa conversa. Visto que tenho a terra e o sol, a água e o ar como testemunha.

Arwen estava lívido. Nunca em sua vida iria imaginar que Gwendoline mentiria para lhes proteger. Estava tão confuso que mal escutou quando o rei começou a bradar algo sobre um banquete. Um banquete para homenagear os heróis no dia de Ostara. A sacerdotisa se despediu se muita demora e se enfiou sem cerimônia pelos corredores do castelo. Depois de algumas míseras palavras trocadas, como manda a cortesia, Marcus e seu senhorio se dirigiram à ala do castelo que lhes fora destinada. Pouco se falaram. O cansaço, a surpresa, a febre vários fatores que fizeram com que cada um se dirigisse a seu quarto sem muitas delongas.

***

O homens não estavam no aposento quando Arwen e Marcus chegaram, o que lhes permitiu um momento de paz e sossego. Pouco tempo depois uma serviçal bateu a porta, trazia para o filho do primeiro dragão um unguento a ser passado em seu ferimento, e o mesmo chá, agora com um gosto ainda pior, que deveria ser tomado pelo cavaleiro. Uma tina de águas mornas e ervas especiais estava sendo preparada para que o cavaleiro se purificasse do sangue da batalha recente. Para Marcus, ela trazia ordens de levá-lo ao arvoredo, onde seria melhor tratado pelos druidas e druidesas locais a fim de melhorar sua saúde e aparência para a festividade que teriam em breve.   

***

Arwen pediu a um dos empregados que lhe avisasse quando o banho estivesse pronto. E o criado demorou o tempo preciso de lhe acordar quando, cansado da espera, o cavaleiro se entregara ao mundo dos sonhos. Faminto, depois de um aconchegante descanso em lençóis quentes e macios, e uma soneca profunda dentro daquela gigante caneca de chá, preferiu caminhar até a cozinha a esperar pela agilidade dos criados lhe trazerem comida.

Encontrou o cômodo com alguma dificuldade, embora o burburinho nele fosse surpreendente. Esgueirou-se entre alguns criados que bravejava uns com os outros agitados, num dialeto tão distinto que o cavaleiro pouca coisa entendia. O cômodo que tinha o tamanho de três casas possuía mais de uma fornalha, afora outras construções que pareciam poços, das quais labaredas se erguiam para lamber o que quer que estivesse a sua volta. Incomodado pelo barulho incessante e confuso em meio aquele aglomerado, procurou a saída mais próxima. Uma passagem na qual uma rampa conduzia para o que parecia ser a área externa. Distraído com o gritaria da cozinha, acabou trombando algum dos carregadores que subiam a rampa para entrar no castelo, diversas peças de queijo caíram no chão e rolaram nas mais distintas direções.

O que você fez?! - Reclamou indignada a moça que fora derrubada. Seus olhos estavam lacrimosos e o rosto rubro pela dor da queda.

Me perdoe – Estendo a mão para ajudá-la a se levantar.

Deixa… eu consigo me levantar sozinha…

Arwen ficou parado vendo as tentativas frustradas da moça recompor o equilíbrio, aparentemente seu pé estava machucado, e a rampa inclinada aliada às suas constantes pausas para brigar com alguém que discutia com ela de dentro da cozinha, só lhe fazia demorar ainda mais.

Apesar de toda a situação, Arwen achava divertida a cena. A menina era de uma rusticidade encantadora. Tinha os cabelos cor de trigo, penteados em duas tranças que caiam por seus ombros, olhos cor de avelã, grandes e ativos, sardas que se espalhavam pelo seu rosto e desciam por seu colo.

Vendo que os gritos não cessavam, resolveu intervir outra vez.

- Por favor, sinto que se não sairmos logo da passagem vão nos atropelar com essas carroças. - Ela riu de um jeito inocente, aquele riso fácil que nos deixa à vontade, daqueles que nos faz sorrir em resposta mesmo sem perceber– A senhorita me permite?

O cavaleiro a levantou, e ela quase chorou quando tentou apoiar o pé no chão. Com alguma dificuldade, conseguiram sair da rampa.

Rapidamente, surgiram Arwen não sabia de onde, pessoas que começaram a juntar as peças de queijo e destiná-las a seus devidos fins.

Caminharam até uma parte mais calma no jardim que cercava a construção. O cavaleiro ajudou a moça a sentar-se em um dos bancos de pedra. Sem cerimônia ela retirou a bota e começou a massagear o pé.

- Mais uma vez, me perdoe.

- Tudo bem, você deve ser novo por aqui, é algum novo cozinheiro? - Dando mais atenção ao pé que ao cavaleiro.

- Eu de fato, sou novo por aqui…

- Bom… - Virando-se para o cavaleiro mas ainda sem parar a massagem - Seja bem vindo. Você vai gostar daqui, e se precisar de qualquer coisa, é só me procurar.

- Você é muito prestativa com a pessoa que acabou de esbarrar em você - Sorrindo sem jeito. Aquela era a primeira vez que alguém realmente se colocava tão voluntariamente a sua disposição. De uma forma tão sincera e gentil.

- Quê isso… Acidentes acontecem. - Era seu sorriso o que mais encantava, aquele riso leve, fácil, de quem ri com os olhos.

- Sinto que estou em dívida com a senhorita. É meu dever zelar por seus cuidados até que possa andar novamente.

Ela riu novamente, um riso alto dessa vez.

- Ah, meu bem, com uma proposta dessas, não tenho certeza de quando poderei ficar em pé novamente.

- Para mim não seria problema…

- Nem brinca, - Mudando a expressão para uma mais séria - minha mãe morreria se algo assim acontecesse. - Suas palavras sempre eram acompanhadas por gestos enfáticos e fortes expressões faciais - Mas, enfim. - Arregalando os olhos curiosos - Você é um cozinheiro novo?

- Não. Eu so* Ela o interrompeu

- Não, não, espera, deixa eu adivinhar.

- Tudo bem então - Entrando na brincadeira.

Umm… - Com um ar divertido de especulação - Você é um vendedor!

- Não.

- Fazendeiro?

- Não. - Já rindo.

- Ah, já sei! Um … druida?

- Não.

- Um artesão?

- Não.

- Umm… Você é um daqueles viajantes que vem ver o rei. Como é o nome… - Estalando os dedos olhando em volta tentando lembrar - Aqueles homem que vem…

- Mais ou menos isso, - Arwen a conteve -  Eu vim para ver o rei.

- Eu sabia! - Dando um tapa na perna - Sou boa nessas coisas de adivinhar, eu olho pras pessoas e “ bum!” Já sei tudo sobre elas.

- Eu percebi isso, Parece um dom natural.- Arwen realmente estava se divertindo, e se pegava imaginando o quão precisas eram as análises da garota. Ela aceitou o elogio com orgulho.

- Que bom que você é uma daquelas pessoas que sabe das coisas. Eu estou querendo descobrir quem é o cavaleiro que chegou com a princesa hoje.

- Algum motivo em especial? - Uma leve tensão tomou o seu ser.

- Porque ele vai ser homenageado no banquete, oras, - E fez um gesto que Arwen não entendeu o significado - Ele e um outro cavaleiro menos importante que chegou com ele. - Arwen riu, pensava na reação de Marcus ao saber que fora chamado de “Cavaleiro menos importante”. A garota não se acanhou e continuou falando numa empolgação flamejante. - Esse cavaleiro chegou com um monti de guarda, e pessoa que anda com um monti de guarda é sempre importante.

- Não posso negar que há sentido.

- Dizem que ele salvou a filha do rei de um grupo de trinta bandidos.

- Trinta?

- Sim, sim, e eles ainda foram pegos de surpresa, uma emboscada. - Narrando com a dramatização de um orador de circo.

- Isso deve ser algum exagero…- Animação da garota lhe deixava desconcertado

- Não, não, foi desse jeito mesmo! Desse jeitinho que eu ‘to te contando - Convicta - Parece mentira, mas é que ele tem o sangue de um Dragão, sua pele é resistente como escamas de pedra, e quando ele se enfurece, ela fica vermelha e quente, e nada pode pará-lo.

- Quem lhe disse essas coisas? - Começando a se assustar com as histórias à seu respeito.

- Minha fonte é confiável, mas não posso revelá-la. - Balançando a cabeça - Danadinho, já querendo pegar minha fonte pra você, né?! Talvez eu apresente vocês depois. - Começando a por novamente a bota. - Mas não é por isso que eu quero me encontrar com ele, não. Sabe? - Arwen ouvia com atenção, mas permanecia intrigado: Ela realmente iria desbulhar suas intenções a um completo desconhecido?! Ela em contrapartida, parecia ignorar qualquer reação do cavaleiro e mantinha seu falatório. - Eu queria agradecer a ele, ele meio que salvou a minha vida.

- Salvou? - Sem conseguir esconder o espanto.

- Sim, sim. - Gritos começaram a ser ouvidos de uma carroça não muito distante, a garota gritou em resposta a plenos pulmões, Arwen procurou não demonstrar, mas seu ouvido doeu um pouco, a jovem então voltou-se ao cavaleiro com naturalidade - Legal te conhecer, mas eu meio que tenho que ir agora.

Arwen levou a garota e lhe ajudou a subir na carroça. Estava intrigado, como podia ter-lhe salvado a vida. Ela era singular demais para que ele tivesse encontrado e esquecido dela tão rápido.

- Bom, se precisar de algo. Nós temos uma banca na feira. - Se aproximou sussurrando - - Nosso queijo é o melhor daqui tudo.

- E a quem eu procuro?

- Ah, eu sou Brianda Powell, filha de Muriel e Garrett.


Notas Finais


Annwyn : Mundo dos mortos


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