História O Lado Mais Sombrio ❀ CAMREN - Capítulo 4


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Categorias Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), Camila Cabello, Fifth Harmony, Hailee Steinfeld, O Lado Mais Sombrio, Taylor Swift
Personagens Camila Cabello, Coelho Branco, Gato de Cheshire (Gato Risonho), Hailee Steinfeld, Lauren Jauregui, Personagens Originais, Taylor Swift
Tags Camila Cabello, Camren, Lauren Jauregui, O Lado Mais Sombrio, Wonderland
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Palavras 4.534
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Romance e Novela, Saga
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - A Aranha e a Mosca


Fanfic / Fanfiction O Lado Mais Sombrio ❀ CAMREN - Capítulo 4 - A Aranha e a Mosca

Com exceção de Alison, sua enfermeira e dois jardineiros, o pátio está deserto.

Alison está sentada em uma das mesas pretas de ferro fundido em um terraço de cimento cuja ornamentação do piso imita seixos. Até a decoração tem que ser escolhida cuidadosamente em um lugar como este. Não há vidro em lugar nenhum, somente um globo refletor prateado firmemente preso ao pedestal que lhe serve de base.

Como alguns pacientes são conhecidos por pegar cadeiras ou mesas e atirá-las, as pernas da mobília são aparafusadas ao cimento. Um guarda-sol preto com pintas vermelhas surge do centro da mesa como um cogumelo gigante e deixa metade do rosto de Alison na penumbra.

Xícaras e pires de chá prateados brilham ao sol. Três jogos: um para mim, um para papai e um para ela.

Trouxemos o aparelho de chá de casa há anos, logo que ela foi internada. É uma indulgência permitida pela clínica a fim de mantê-la viva. Alison não come nada — seja um filé à Salisbury ou uma torta de frutas — a menos que esteja em uma xícara de chá.

Nosso sorvete de cheesecake e chocolate aguarda sobre um jogo americano, pronto para ser servido. Gotas de condensação escorrem pela embalagem de papelão.

As tranças platinadas de Alison pendem sobre o encosto da cadeira, quase tocando o chão. A franja está enfiada em uma faixa preta na cabeça. Vestida com uma espécie de camisola azul e coberta pelo peitilho longo de um avental para manter suas roupas limpas, ela se parece mais com a Alice no chá do Chapeleiro Maluco do que qualquer ilustração que eu já vi. É o bastante para me deixar enjoada.

A princípio, penso que ela está falando com a enfermeira, até que a mulher se levanta para nos saudar, alisando seu jaleco verde. Alison nem percebe, pois está muito atenta ao vaso de metal com cravos diante dela.

Minha náusea aumenta quando ouço os cravos falando por sobre o zunido dos ruídos de fundo.

Eles estão dizendo como é doloroso ser podado nas hastes, reclamando sobre a qualidade da água na qual estão nadando, pedindo para serem recolocados na terra para que possam morrer em paz.

Foi isso que ouvi. Tenho que imaginar o que Alison acha que eles estão dizendo em sua própria mente distorcida. O médico não consegue dar detalhes, e eu nunca toquei no assunto porque isso significaria admitir que herdei a doença dela.

Papai espera pela enfermeira, mas seu olhar, repleto de ansiedade e desapontamento, permanece fixo em Alison.

Uma leve pressão no meu braço direito muda minha atenção para o rosto artificialmente bronzeado da enfermeira Mary Jenkins. O aroma que ela exala é uma mistura de torrada queimada e talco em pó. Seu cabelo castanho está preso em um coque, e um sorriso branco de alta voltagem quase me ofusca a visão.

— Olazinho — cantarola ela. Como sempre, Alison está ululante como Mary Poppins. Ela analisa minha bengala. — Puxa! Você se machucou, docinho?

Não. Nasceram algumas lascas de madeira em mim.

— Foi no skate — respondi, determinada a agir da melhor maneira possível por causa de papai, apesar de o lamento das flores sobre a mesa me irritar.

— Ainda anda de skate? Que hobby interessante. — Seu olhar de piedade insinua um "para uma moça" mais do que as palavras. Ela analisa meus dreads azuis e a pesada maquiagem dos meus olhos com uma expressão sinistra no rosto. — Você precisa ter em mente que uma calamidade como esta pode perturbar sua mãe.

Não estou certa se ela está falando do meu machucado ou do meu estilo de me vestir.

A enfermeira olha de soslaio para Alison, que ainda está sussurrando para as flores, alheia a nós.

— Ela está um pouco alterada hoje. É melhor eu aplicar alguma coisa. — A enfermeira das drogas começa a tirar uma seringa do arsenal que contém em seu bolso.

Uma das muitas coisas que eu desprezo na mulher: ela parece gostar de aplicar injeções nos pacientes.

Ao longo dos anos, os médicos descobriram que os sedativos controlam melhor os ataques de Alison. Mas eles acabam fazendo dela um zumbi, distante de tudo que se passa à sua volta.

Eu preferiria vê-la alerta e conversando com uma barata a ver isso. Lanço um olhar carrancudo para meu pai, mas ele nem nota, porque está muito ocupado esboçando sua própria carranca.

— Não — reage ele, e o tom profundo e disciplinador de sua voz faz as sobrancelhas da enfermeira se arquearem. — Se tivermos problemas, mando a Camila chamá-la. E temos os jardineiros ali, se precisarmos de força bruta. — Ele aponta os dois homens corpulentos que estão ali perto podando arbustos. Eles poderiam ser gêmeos, com seus bigodes enormes e corpos que lembram morsas, enfiados em aventais marrons.

— Tudo bem. Estarei na recepção se precisar de mim. — Com outro sorriso brilhante e falso, a enfermeira entra saltitando no edifício, deixando nós três a sós. Ou nós oito, se contarmos os cravos.

Pelo menos eles tinham parado de falar.

No instante em que a sombra de papai atinge o vaso, Alison levanta a cabeça. Um olhar para minhas muletas e ela dá um pulo do assento, fazendo tremer o jogo de chá.

— Ele estava certo!

— Quem estava certo, meu bem? — pergunta meu pai, afastando os fios de cabelo que cobrem as têmporas dela. Mesmo depois de anos de decepções, ele não consegue ficar sem tocá-la.

— O gafanhoto... — Os olhos azuis de Alison brilham com uma mistura de ansiedade e excitação quando ela aponta para uma espessa teia de aranha nas varetas do guarda-sol. Uma aranha do tamanho de uma moeda de 25 centavos desloca-se pela teia, envolvendo um casulo branco para protegê-lo do vento cortante — na certa, o jantar.

— Antes de a aranha protegê-lo, o gafanhoto gritou alguma coisa. — As mãos de Alison se retesam na altura da cintura. — O gafanhoto disse que você tinha se ferido, Allie. Ele te viu no lugar em que você anda de skate.

Olho para o caroço mumificado na teia da aranha. Lá estava aquele inseto que ficava subindo na minha perna no Submundo. Será que ele pegou carona no carro?

Sinto um nó no estômago. Sem chance. Não é possível que seja o mesmo inseto.

Alison deve ter ouvido eu e papai conversando com a enfermeira sobre o meu tombo. Às vezes acho que ela finge não se importar porque é mais fácil do que encarar o que lhe aconteceu ou o que ela causou à nossa família.

Ela retesa as mãos com tanta força que as juntas se sobressaltam e ficam brancas. Desde o dia em que me feriu, ela evita qualquer contato físico entre nós. Alison acha que eu vou quebrar. É por isso que eu uso luvas, para evitar que ela veja as cicatrizes e que se lembre.

Papai separa suas mãos e entrelaça seus dedos nos dela. A atenção de Alison volta-se para ele, e aquela tensão intensa se dissipa.

— Olá, tomatinho — diz ela, com a voz suave e firme.

— Olá, minha ursinha.

— Você trouxe sorvete. É alguma comemoração?

— É. — Ele beija sua mão, abrindo aquele sorriso afetuoso no estilo Elvis. — E a Alyssa está aqui para nos ajudar a comemorar.

— Perfeito. — Ela retribui o sorriso, movimentando o olhar. Não me admira que o papai seja irremediavelmente apaixonado por ela. Alison tem a beleza de uma fada.

Papai a ajuda a voltar para a cadeira. Ele estende um guardanapo de tecido no colo dela e lhe serve um pouco de sorvete na xícara de chá. Colocando a xícara em um pires, ele abaproxima de Alison junto com uma colher de plástico.

— Il tuo gelato, signora bella — dispara ele.

— Grazie, fofinho! — agradece ela de impulso, num raro momento de leveza.

Papai ri e ela dá uma gargalhada, um tilintar que me faz pensar nos sinos de prata que temos na porta de casa. Pela primeira vez em tempos, ela se sente em casa. Começo a pensar que esta será uma visita das boas. Com tudo que tem acontecido na minha vida ultimamente, seria muito bom desfrutar de um momento de estabilidade.

Eu me sento, e papai pega minhas muletas, colocando-as no chão, e depois me ajuda a estender o tornozelo sobre uma cadeira vazia entre Alison e eu. Ele dá um tapinha no meu ombro e vai sentar-se do lado oposto.

Por alguns minutos, rimos e sorvemos sopa de cheesecake em nossas xícaras de chá.

Conversamos sobre coisas corriqueiras: o final do ano letivo, o baile de formatura que acontece esta noite, a colação de grau da noite passada e a Loja de Artigos Esportivos do Alejandro. Parece que pertenço a uma família normal.

Então, papai estraga tudo. Ele tira sua carteira para mostrar a Alison algumas fotos dos meus mosaicos que foram condecorados na feira de artes. As três fotos estão enfiadas nas abas de plástico, junto a uma variedade de cartões de crédito e recibos.

O primeiro é Lua assassina, todo em azul: borboletas azuis, flores azuis e pedacinhos de vidro azul. Depois, O último suspiro de outono — um torvelinho de cores outonais feito de mariposas marrons e pétalas de flores laranja, amarelas e vermelhas.

Pulsação de inverno, meu orgulho, é um emaranhado caótico de flores-mosquitinho e contas de vidro prateadas dispostas sobre a imagem de uma árvore. Frutos silvestres desidratados pontilham o final de cada ramo, como se a árvore estivesse sangrando. Grilos negros compõem o pano de fundo. Por mais mórbido que pareça, a mistura do bizarro e do natural, de alguma maneira, cria beleza.

Alison remexe-se na cadeira, perturbada.

— E música? Ela ainda estuda violoncelo?

Papai semicerra os olhos e olha para mim. Alison participou muito pouco da minha educação. Mas uma coisa em que ela sempre insistiu é que eu fizesse parte de uma orquestra, talvez porque ela mesma costumasse tocar violoncelo. Abandonei o curso este ano porque só tinha tempo para uma matéria opcional. Nós não tínhamos mencionado isso porque parecia muito importante para ela que eu continuasse.

— Podemos falar disso mais tarde — disse papai, apertando a mão dela. — Eu queria que você visse como ela tem bom olho para os detalhes. Assim como você em suas fotografias.

— As fotografias contam histórias — Alison murmura. — Mas as pessoas esquecem de ler as entrelinhas. — Libertando a mão da mão de papai, ela cai num silêncio mortal.

Com os olhos cheios de tristeza, papai está prestes a fechar a carteira quando Alison vê o aromatizador com a foto da libélula... que ele ainda não pendurou no caminhão.

Com as mãos trêmulas, ela agarra o aromatizador. — Por que você está levando isso?

— Mamãe... — Minha língua faz força para formar a palavra, artificial e dura, como tentar torcer a haste de uma cereja e dar-lhe um nó. — Fui eu que fiz para ele. É um modo de manter uma parte de você junto conosco.

Com a mandíbula cerrada, ela se volta para papai. — Eu disse para você manter esse álbum escondido, não disse? Ela nunca deveria ter visto. Agora é só uma questão de tempo...

É só uma questão de tempo até o quê? Até eu acabar aqui onde ela está? Será que ela acha que as fotografias a enlouqueceram?

Franzindo a cara, ela joga o aromatizador sobre a mesa. Sua língua estala num ritmo firme. O som penetra em mim como se alguém estivesse revirando minhas entranhas com a palheta de um violão.

Suas explosões mais violentas sempre começam com um estalar de língua.

Papai tensiona os dedos em torno do aromatizador, cauteloso.

Uma mosca pousa em meu pescoço, fazendo cócegas. Quando eu a espanto, ela vai pousar ao lado dos dedos de Alison. Ela esfrega as patinhas uma na outra.

"Ela está aqui. Ela está aqui."

Os sussurros do inseto ficam mais altos que o vento, e o resto dos ruídos ambientes, mais altos que o estalar de língua de Alison e da respiração cautelosa de papai.

Alison inclina-se na direção do inseto. — Não, ela não pode estar aqui.

— Quem não pode estar aqui, ursinha? — indaga papai.

Fico olhando, duvidando que seja possível. Será que os loucos compartilham seus delírios?

Porque é a única explicação para que Alison e eu estejamos ouvindo exatamente a mesma coisa.

A menos que a mosca realmente falasse.

"Ela cavalga no vento", ela sussurra mais uma vez, e depois sai rodopiando pelo pátio.

Alison me enquadra com o olhar desvairado.

Fico tensa, assombrada.

— Benzinho, o que foi? — Papai está parado ao lado dela, com a mão em seu ombro.

— O que isso quer dizer: "Ela cavalga no vento"? Quem? — Pergunto a Alison, sem me importar mais em revelar meu segredo a ela.

Ela olha para mim, intensa e muda.

Papai fica olhando para nós duas, cada vez mais pálido.

— Papai? — Inclino-me sobre minha perna apoiada e puxo a meia. — Você poderia ir pegar um pouco de gelo para o meu pé? Está latejando.

Ele franze o rosto. — Não pode esperar um pouquinho, Camila?

— Por favor. Está doendo.

— Sim, Alyssa está com dor. — Alison estica o braço e toca meu tornozelo. O gesto é chocante — tão normal e acolhedor que gela meu sangue e os meus ossos. Alison está me tocando pela primeira vez em onze anos.

O acontecimento monumental deixa papai tão aturdido que ele sai sem dizer mais nada. Percebo, pelo tremor em sua pálpebra direita, que ele trará a enfermeira de volta com ele.

Alison e eu não temos muito tempo.

No instante em que ele desaparece pela porta, eu recolho minha perna da cadeira, contraindo-a por causa de um espasmo de dor no tornozelo. — A mosca. Nós duas ouvimos a mesma coisa, certo?

O rosto de Alison fica lívido. — Há quanto tempo você ouve as vozes?

— Que diferença isso faz?

— Toda a diferença. Eu poderia ter lhe dito coisas... coisas que evitariam que fizesse a escolha errada.

— Diga-me agora.

Ela balança a cabeça.

Talvez ela não esteja convencida de que ouço o mesmo que ela. — Os cravos. Devemos honrar seu último pedido. — Pego uma colher de plástico e, segurando os cravos, vou aos pulos com a muleta até a beira do pátio de cimento, onde começa o jardim. A terra tem aroma úmido e fresco. Os aspersores acabaram de regá-la. Alison me segue de perto.

Não vejo mais os jardineiros com cara de morsa. A distância, a porta da cabana está aberta. Os homens devem estar lá dentro. Bom. Ninguém para nos interromper.

Alison pega as flores e a colher e ajoelha-se. Ela usa a colher para cavucar a terra macia. Quando o plástico quebra, ela cava com os dedos até abrir uma cova rasa. Ela coloca os botões dentro da cova e cobre-os com terra. A expressão em seu rosto é como um céu repleto de nuvens que se revolvem, indecisas sobre dispersar-se ou provocar uma tempestade.

Minhas pernas vacilam. Por tantos anos, as mulheres de nossa família foram tachadas de loucas, sem o serem. Podemos ouvir coisas que outras pessoas não podem. É a única explicação para nós duas ouvirmos a mosca e os cravos dizerem a mesma coisa. O truque é não responder ao que dizem os insetos e as flores diante de pessoas normais, porque aí pareceríamos loucas.

Não somos loucas. Eu devia estar aliviada.

Mas algo mais está acontecendo, algo inacreditável.

Se as vozes são reais, não faz sentido que Alison insista em se vestir como Alice. Por que ela estala a língua? Por que ela tem ataques de fúria sem razão aparente? São essas coisas que a fazem parecer mais louca que tudo. São tantas as perguntas que quero fazer. Eu as coloco de lado, porque existe uma que é a mais premente de todas.

— Por que nossa família? — pergunto. — Por que isso acontece conosco?

A expressão de Alison torna-se amarga. — É uma maldição.

Uma maldição? Será possível? Lembro-me daquele site estranho que encontrei quando pesquisava sobre a mariposa. Somos amaldiçoadas com poderes místicos, como aqueles intraterrenos que eu vi? É por isso que minha avó Alícia tentou voar? Ela tentou testar a teoria?

— Tá bom — digo, fazendo um esforço para acreditar no impossível. Quem sou eu para retrucar? Ando batendo papos com dentes-de-leão e besouros há seis anos. A verdadeira magia deve ser melhor do que ser esquizofrênico. — Se é uma maldição, existe um modo de quebrá-la.

— Sim. — A resposta de Alison é um grunhido de pesar.

O vento fica mais forte, e suas tranças tremulam como um chicote.

— E qual é? — pergunto. — Por que ainda não fizemos isso?

Os olhos de Alison me fitam. Ela se retirou para algum lugar dentro de si mesma — um lugar em que ela se esconde quando fica assustada.

— Alison! — Inclino-me para agarrar seus ombros.

Ela volta a se concentrar. — Porque temos que entrar na toca do coelho.

Nem pergunto se a toca do coelho é real. — Então nós vamos encontrá-lo. Quem sabe alguém em sua família possa ajudar?

É um exagero. Nenhum dos Liddells britânicos sabe de nossa existência. Um dos filhos de Alice teve um caso secreto com alguma mulher antes de partir para a Segunda Guerra Mundial e morreu no campo de batalha. A mulher engravidou e veio para os Estados Unidos criar o fruto de seu amor. O menino cresceu e teve uma filha, minha avó Alícia. Nunca tivemos contato com nenhum deles.

— Não — diz Alison, com a voz cortante. — Deixe-os fora disso, Camila. Eles não sabem mais do que nós, ou não continuaríamos nessa situação.

A determinação por trás de sua expressão, é o fato de ter me chamado de Camila e não Alyssa, anula qualquer dúvida que sua afirmação críptica possa levantar. — Está bem. Sabemos que a toca do coelho é na Inglaterra, certo? Existe um mapa? Algum tipo de instrução por escrito? Onde devo procurar?

— Não deve.

Dou um pulo quando ela abaixa minha meia para expor a marca de nascença sobre meu tornozelo esquerdo inchado. Ela tem uma marca idêntica no lado interno do pulso. A marca é como um labirinto feito de linhas com ângulos retos, igual aos quebra-cabeças que se veem em revistas.

— Tem muito mais nessa história do que as pessoas sabem — acrescenta ela. — Os tesouros mostrarão a você.

— Tesouros?

Ela pressiona sua marca contra a minha, e uma sensação de calor surge no ponto de contato. — Leia nas entrelinhas — sussurra ela. O mesmo que dissera antes sobre a fotografia. — Você não pode perder a cabeça, Camila. Prometa que vai se afastar disso.

Meus olhos queimam. — Mas eu quero que você volte para casa...

Ela se afasta do meu tornozelo. — Não! Não fiz tudo isso por nada. — Sua voz é contundente e ela parece tão pequenina e frágil aos meus pés.

Me dói perguntar o que ela quer dizer, mas, acima de tudo, quero somente abraçá-la. Caio de joelhos, ignorando a ferida por baixo da bandana de Hailee. Sentir os braços dela ao meu redor é como estar no paraíso. Sentir o perfume de seu xampu ao enterrar o nariz em sua têmpora é igualmente delicioso.

Não dura muito. Ela se retesa e me afasta. Um sentimento conhecido de rejeição me atinge o peito.

Depois, me lembro de que papai e a enfermeira devem voltar a qualquer instante.

— A libélula — eu digo. — Ela tem um papel nisso tudo, não tem? Eu encontrei um site. A foto da libélula preta e azul me levou até ele.

Lá no céu, nuvens diminuem a luz do sol e a transformam numa névoa cinza, e a pele de Alison reflete a mudança. O terror molda seu olhar.

— Então você já começou. — Ela levanta as mãos trêmulas. — Agora que começou a procurar por ela, ela não vai faltar com a palavra. Não tecnicamente. Você é alvo fácil.

Entrelaço meus dedos nos dela, tentando trazê-la de volta à terra. — Você está me assustando. De quem está falando?

— Ela virá buscá-la. Ela vai penetrar em seus sonhos. Ou no espelho... Fique longe dos espelhos, Camila! Está entendendo?

— Espelhos? — pergunto, incrédula. — Você quer que eu me afaste dos espelhos?

Ela se coloca de pé com dificuldade, e eu procuro equilibrar-me na muleta. — Um espelho quebrado corta mais do que a pele. Ele corta sua identidade.

Como se estivesse esperando essa deixa, a bandana de Hailee escorrega do meu joelho, revelando a atadura cheia de sangue. Um pequeno uivo escapa da boca de Alison. Nenhum estalar de língua me avisa de que ela vai dar o bote. Minhas costas batem no chão. O ar é forçado para fora de meus pulmões e uma dor explode entre meus ombros.

Alison me escarrancha no chão, tirando minhas luvas com as lágrimas lhe escorrendo pela face. — Ele me fez machucar você! — Ela soluça. — Não deixe que aconteça novamente!

Eu já a ouvi dizer essas palavras antes e, em um instante, volto no tempo e no espaço. Uma criança de cinco anos — inocente, distraída — observando uma tempestade de primavera se formar através da porta de tela. Os aromas da chuva e da terra molhada me agitavam, me davam água na boca. Bem diante do meu nariz, uma libélula pousou na tela, do tamanho de um corvo e com um corpo luminoso e asas negras semelhantes a cetim.

Deixo escapar um som agudo e ela alça voo, flutuando no ar, me provocando, me convidando para brincar. O lampejo de um relâmpago, uma imensidão de luz. Mamãe sempre me disse que não era seguro ir lá fora no meio de uma tempestade... Mas a libélula pairava, linda, zombeteira, prometendo que não haveria problema. Empilhei alguns livros para alcançar a tranca e fui correndo para fora dançar com o inseto no canteiro de flores, com a lama escorrendo pelos dedos dos pés. O grito de mamãe me fez olhar para cima. Ela vinha correndo na nossa direção com um par de tesouras de poda.

— Vou cortar sua cabeça! — gritava ela, podando todas as flores onde a libélula pousava, cortando as pétalas de seus talos.

Eu a segui, hipnotizada por sua energia, com a chuva caindo sobre nós e os relâmpagos incendiando o céu. Achei que ela estava dançando e abri meus braços no ar atrás dela. Então, tropecei. Pétalas brancas caíam ao chão, cheias de sangue. Papai chegou correndo. Eu lhe disse que precisávamos de curativos para os narcisos. Ao me ver, ele soltou um gemido. Eu era jovem demais para entender que flores não sangram.

De alguma maneira, eu havia me colocado na linha de fogo, e as tesouras de poda retalharam minha pele — das palmas das mãos até os pulsos. O médico disse que eu não senti dor por causa do choque. Aquele foi o última dia em que Alison morou em casa, e a última vez em que eu a chamei de mamãe.

Um trovão me traz de volta ao presente. Meu coração martela contra meu esterno.

Eu havia me esquecido da libélula. Aquele inseto foi meu animal de estimação secreto quando era criança, e o catalisador de minhas cicatrizes. Não é de admirar que sua fotografia me parecesse tão familiar. Não é de admirar que Alison ficasse tão louca ao vê-la novamente.

Ela chora compulsivamente, expondo minhas mãos nuas à luz tênue. — Eu sinto muito, muito! Ela me usou, e eu falhei com você. Você merece muito, muito mais do que isso. Todos merecemos.

Ela sai de cima de mim e desenterra os cravos. A terra cai dos talos enquanto ela se levanta. — Ela não pode levá-la! Digam a ela que... — Alison espreme as pétalas entre os pulsos, como se tentasse estrangulá-las. Depois, atira os botões em frangalhos para o lado e vai aos tropeços até o globo de luz, tentando tirá-lo da base. Como ele não se mexe, ela soca a bola com os punhos.

Seguro seus cotovelos, temendo que ela se fira. — Por favor, pare — imploro.

— Você me ouviu? — Ela grita para o globo prateado, libertando-se de mim. — Você não pode levá-la! — Algo se move lá dentro, uma sombra embaçada. Mas, olhando melhor, é somente a imagem de Alison refletida, gritando tanto que as veias de seu pescoço saltam.

O que acontece a seguir é quase um sonho. As nuvens formam um redemoinho.

Começa a chover com força. Fico olhando a chuva e de repente — como em câmera lenta — o vento enrola sua trança no pescoço.

Uma tosse seca faz tremer sua garganta e ela se inclina para a frente, os dedos tentando soltar a trança.

— Alison! — Dou um pulo na direção dela. Nem percebo que meu tornozelo não está mais doendo.

Alison cai na terra que já virava lama, procurando respirar. A chuva desaba com mais força, como se alguém estivesse atirando pedrinhas em nós. Suas unhas sujas de terra se cravam no cordão platinado que a estrangula. Em seu desespero, ela arranca um pouco da pele do pescoço. O sangue surge nos vergões da pele. Seus globos oculares saltam, vão de um lado para outro enquanto ela luta para respirar. Seus sapatos batem contra o chão enlameado.

— Alysss — sibila ela, incapaz de falar.

Estou chorando tanto que não consigo ver meus dedos lutando contra a trança. Um relâmpago cai a distância... Uma vez... Duas... E então o cordão trançado se aperta em volta dos meus dedos e os enreda, uma pressão tão intensa que tenho a sensação que minhas juntas vão se separar. Meus dedos voltam ao lugar contra minha vontade e apertam o pescoço dela.

Alguma coisa está me forçando a matar minha mãe!

Náusea, quente e cruel, me rasga as entranhas.

— Não... — Quanto mais eu luto para libertar a nós duas, mais juntas ficamos.

Meus dreadlocks grudam em meu pescoço como um pano molhado. Chuva e lágrimas brotam de minha sombra nos olhos, e gotículas negras mancham o avental já sujo de Alison.

— Solte! — grito para o cabelo dela.

— Pare... Camz — Seu apelo soa oco e sibilante, como o ar escapando de um pneu.

A trança volta a apertar meus dedos.

— Me desculpe — sussurro, soluçando. — Não estou tentando machucá-la...

O trovão me penetra os ossos, o riso debochado de algum demônio maligno. Por mais forte que eu puxe, as tranças me envolvem com mais força ainda e apertam o pescoço dela. Suas mãos ficam frouxas. Ela fica roxa, os olhos virados para cima até as íris desaparecerem.

— Alguém me ajude! — O grito força meus pulmões.

Os jardineiros vêm correndo. Dois pares de mãos carnudas me pegam por trás e, sem mais nem menos, a trança se solta.

Alison suga o ar com força, enchendo os pulmões e tossindo. Eu volto a mancar, e um dos jardineiros me segura.

A enfermeira Jenkins chega apressada com a seringa nas mãos. Papai está bem atrás dela e eu me jogo em seus braços.

— Eu n-n-não — digo, gaguejando. — Eu nunca, nunca...

— Eu sei. — Papai me abraça. — Você estava tentando impedir que ela se ferisse.

— O abraço dele faz minhas roupas ensopadas grudarem no corpo.

— Mas não foi a Alison — murmuro.

— É claro que não — sussurra papai no meu ouvido. — Não foi ela. Sua mãe não é ela mesma há anos.

Consigo controlar a vontade de vomitar. Ele não entende. Ela não estava tentando estrangular a si mesma; o vento controlava sua trança. Mas quem, em sã consciência, acreditaria nisso?

Pouco antes de Alison fechar os olhos, ela murmura alguma coisa, num gaguejo de bêbado:

— As margaridas... escondem o tesouro. O tesouro enterrado.

E então, ela fica inconsciente — um zumbi.

E eu fico sozinha para encarar a tempestade.



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