História O Lado Mais Sombrio ❀ CAMREN - Capítulo 5


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Categorias Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), Camila Cabello, Fifth Harmony, Hailee Steinfeld, O Lado Mais Sombrio, Taylor Swift
Personagens Camila Cabello, Coelho Branco, Gato de Cheshire (Gato Risonho), Hailee Steinfeld, Lauren Jauregui, Personagens Originais, Taylor Swift
Tags Camila Cabello, Camren, Lauren Jauregui, O Lado Mais Sombrio, Wonderland
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Palavras 12.390
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Romance e Novela, Saga
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 5 - Fios de Borboleta


Fanfic / Fanfiction O Lado Mais Sombrio ❀ CAMREN - Capítulo 5 - Fios de Borboleta

Demorou tanto para acomodar Alison na clínica que papai teve de me levar direto para o trabalho.

Encostamos na guia diante da única loja de roupas vintage em Pleasance. Ela fica localizada em um pequeno centro de compras no lado comercial do centro da cidade, com um bistrô de um lado e uma joalheria do outro. A Loja de Roupas Esportivas do Alejandro fica do outro lado da rua.

— Lembre-se. Estou no trabalho. É só dar uma ligadinha que eu venho pegar você. — A careta de papai forma rugas nos cantos de sua boca.

Sinto-me entorpecida, ainda me pergunto se imaginei tudo aquilo. Olho para além da fachada de tijolos cor-de-rosa da loja e da cerca preta de ferro. Meu olhar foca e desfoca as letras pretas arredondadas sobre a porta: FIOS DE BORBOLETA.

Seguro o aromatizador diante de meu nariz. O cheiro me lembra a primavera, caminhadas ao ar livre e famílias felizes. Mas só o que eu sinto aqui dentro é o inverno, e a minha família está mais bagunçada do que nunca. Quero dizer ao papai que os delírios de Alison são reais, mas sem nenhuma prova ele vai pensar que minha sanidade também está se estilhaçando.

— Você não precisa fazer isso — afirma ele, pegando minha outra mão. Mesmo através das minhas luvas, seu toque parece gelo.

— São só duas horas — respondo, rouca de tanto gritar no pátio. — Heather não conseguiu ninguém para cobrir o turno dela na última hora e Perséfone — minha chefe — está fora da cidade.

Sexta-feira é dia de prospecção para Perséfone, quando ela vai a cidades vizinhas para visitar feirinhas e brechós à procura de mercadorias. Ao contrário do que papai pensa, não estou bancando a mártir. O horário entre três e cinco horas é completamente morto; praticamente não entra nenhum cliente, só depois da hora do rush. Pretendo usar esse tempo para pesquisar o site da libélula no computador da loja.

— Tenho que ir. — Aperto a mão de papai.

Ele aquiesce.

Abro o porta-luvas para colocar o aromatizador lá dentro, e uma avalanche de papéis cai sobre meus pés. Um panfleto que está por cima da pilha me chama a atenção. A cor de fundo é um rosa bem claro, com uma letra genérica branca impressa na frente: ECT — Porque a Terapia Eletroconvulsiva é Adequada para o Seu Ente Querido. 

Eu o recolho. — O que é isso?

Papai se inclina sobre o banco para guardar os outros papéis. — Falamos nisso mais tarde.

— Pai, por favor.

Ele se retesa e olha pela janela. — Eles tiveram que dar a ela outra dose de sedativos enquanto você estava no saguão.

Aquelas palavras são um golpe para mim. Fui fraca demais para continuar quando eles levaram Alison na cadeira de rodas para a cela com paredes acolchoadas. Covarde, fiquei deitada no sofá do saguão puxando meus arruinados dreadlocks feito um robô enquanto assistia a algum reality show idiota na TV.

Realidade... Eu nem sei mais o que é isso.

— Você me ouviu, Camz? Duas doses em menos de uma hora. Todos esses anos eles a têm drogado para que ela esqueça. — Ele aperta o volante. — Mas ela está ficando pior. Ela ficou gritando sobre tocas de coelho e libélulas... E pessoas que perdem as cabeças. As drogas não estão funcionando. Então os médicos me ofereceram essa opção.

Minha língua absorve a saliva como uma esponja.

— Se você olhar o primeiro parágrafo — começou a explicar, apontando para alguns números no panfleto —, essa prática voltou a ser usada desde...

— Sabe, eles usavam enguias — interrompo em voz alta demais — antigamente. Eles as envolviam na cabeça do paciente. Um turbante elétrico.

As palavras não têm sentido — espelham como me sinto por dentro. Eu só consigo pensar nos meus animais de estimação em casa. Aprendi bem cedo que não poderia ter o costumeiro cão ou gato.

Não que os animais falem comigo; só insetos e plantas estão na minha frequência. Mas, toda vez que o gato tigrado de Heather pega uma barata e a rasga em pedaços, tenho náuseas só de ouvir os gritos do inseto. Então, decidi criar enguias. Elas são elegantes e místicas e usam um órgão de choque para atordoar sua presa. É uma morte silenciosa e digna, parecida com a dos insetos que morrem por asfixia em minhas armadilhas. Mesmo assim, não toco a água delas sem usar luvas de borracha. Nem posso imaginar o que elas fariam com a mente de alguém.

— Camz, não é a mesma coisa que faziam setenta anos atrás. É feito com eletrodos enquanto o paciente está anestesiado. Os relaxantes musculares mantêm o paciente alheio a qualquer dor.

— Mas ainda podem causar danos cerebrais.

— Não. — Ele lê o texto de cabeça para baixo em voz alta. — Quase todos os pacientes da ECT apresentam alguma incomodidade como confusão, incapacidade de concentrar-se e perda de memória recente, mas os benefícios superam os desconfortos temporários. — Ele procura meu olhar, com o olho esquerdo trêmulo. — Perda de memória recente é um desconforto. Não é dano cerebral.

— É uma forma de dano cerebral. — Sou filha de uma doente mental há onze anos. Sei todas as definições e níveis de anomalias psicológicas.

— Bom, isso pode ser uma bênção, levando em consideração que as lembranças mais recentes de sua mãe consistem em nada além da clínica e de uma infinita sucessão de drogas e avaliações psicológicas. — Os sulcos profundos em volta da boca dele parecem se estender até o crânio. O que eu não daria para ver seu riso de Elvis naquele momento.

Minha garganta se contrai. — Quem é você para decidir isso por ela?

Os lábios dele se reprimem e formam aquela expressão sisuda que ele esboça sempre que ultrapasso os limites. — Sou um marido que ama sua esposa e sua filha. Um homem que está exausto além de suas forças. — A mistura de defesa e resignação em seu rosto me fazem ter vontade de me encolher e chorar. — Ela tentou se matar bem na sua frente. Mesmo que seja uma impossibilidade física para ela sufocar a si mesma, isso não importa. Os remédios não estão funcionando. Temos que dar outro passo.

— E se isso não funcionar... O que vai ser? Uma lobotomia com um abridor de lata? — Jogo o panfleto sobre o banco dele. O papel vai parar em sua coxa.

— Camila! — A voz dele fica mais cortante.

Consigo enxergar o que ele quer. Ele está desesperado para ter Sinu de volta, mas não para mim. Todos esses anos ele vem ansiando por ela, a mulher que ele costumava levar para o drive-in... Que andava de mãos dadas com ele pulando sobre poças e sarjetas depois da chuva... Que bebia limonada na varanda e compartilhava os sonhos de um futuro feliz. Se ele fizer isso, ela pode nunca mais voltar a ser essa mulher.

Abro a porta e piso na calçada. Embora o sol do fim de tarde tenha despontado por entre as nuvens, um arrepio me percorre o corpo todo.

— Pelo menos deixe-me ajudar com as muletas. — Papai se prepara para desenterrá-las de debaixo do banco do passageiro.

— Não preciso mais delas.

— Mas Hailee disse que você torceu...

— Novidade, papai... A Hailee nem sempre está certa. — Aperto a bandana que cobre minha atadura.

Meu tornozelo não dói desde que Sinu apertou sua marca de nascença contra a minha. Na verdade, meu joelho arranhado também parece melhor. Acrescente isso à lista de esquisitices inexplicáveis.

Não tenho tempo para ficar pensando nisso. Tenho problemas maiores.

Papai olha ao longe, cerrando a mandíbula. — Borboletinha...

— Não me chame assim — retruco.

Ele abaixa o rosto ao passarem duas clientes tagarelando. A última coisa que quero fazer é magoá-lo; ele ficou ao lado de Sinu durante anos, sem falar que me criou sozinho.

— Me desculpe. — Eu me abaixo para vê-lo melhor. — Mas vamos pesquisar um pouco mais, tá bom?

Ele solta um suspiro. — Assinei os papéis antes de sairmos.

Minha máscara de compreensão se esvai e dá lugar à raiva. — Por que você fez isso?

— O médico ofereceu essa opção há meses. Eu já venho pesquisando há algum tempo. A princípio, não conseguia nem pensar na ideia. Mas... Eles vão começar na segunda-feira. Você pode ir comigo visitá-la depois.

Um calor desconfortável me sobe pelo pescoço. A umidade da tempestade e o ruído dos insetos que estão por perto tornam tudo ainda pior.

— Por favor, tente compreender — explica papai — o quanto eu preciso que ela volte para casa.

— Eu também preciso dela.

— Então não faria tudo para que isso acontecesse?

Dentro de mim, um lado escuro se agita e ganha vida. Ele me provoca para dizer exatamente o que estou pensando. — Sim. Eu até entraria numa toca de coelho. — E bato a porta.

Papai buzina, certamente querendo uma explicação para o meu comentário. Entro depressa na loja, sem olhar para trás.

A campainha automática produz um trinado e uma lufada de ar balança o candelabro de contas de cristal pendurado no centro do teto. Fico ali, atordoada, enquanto o ar-condicionado gela minhas roupas úmidas. O forte aroma de coco que as velas dos candelabros exalam ao longo das paredes revira meu estômago.

— É você, Camz? — A voz abafada de Heather soa por meio da porta aberta do depósito.

Limpo a garganta e aperto o aromatizador. Na pressa de escapar, me esqueci de deixá-lo no caminhão. 

— Oh-oh. 

— Viu meu vestido para o baile de formatura? Está na arara de mercadorias novas. 

Pego o único cabide da arara. A capa de plástico faz barulho. Heather comprou dois vestidos na Fios de Borboleta há meses. Ela os cortou e remontou a fim de criar um top verde-limão bem justo que se abre em uma renda cor-de-rosa com estampa de zebras minúsculas. Lantejoulas furta-cor presas a mão refletem a luz quando eu penduro o cabide de volta na arara.

— Legal — digo. É incrível mesmo, e, sob circunstâncias normais, eu ficaria muito mais entusiasmada com sua criação. Mas hoje não consigo encontrar forças.

Jogo o aromatizador de libélula por baixo do balcão do caixa, ao lado da bolsa de maquiagem de Heather. Ele vai parar em cima dos volumes de mitologia de Perséfone.

Uma sensação de que alguém está nos observando me gela os ossos e eu viro a cabeça para olhar o pôster na parede. É de um filme chamado O Corvo. Perséfone é apaixonada pelo herói: couro preto, rosto branco, maquiagem preta nos olhos e uma expressão de perpétua inquietação. Criou-se um pouco de mistério em torno daquele ator. Ele morreu no set de filmagem.

Sempre me senti atraída por aquele pôster. Mesmo em um pedaço de papel, o sujeito consegue ter olhos muito expressivos — olhos que parecem me conhecer, assim como eu os conheço. Embora eu nunca tenha visto o filme, o ator me parece familiar, a ponto de eu conseguir sentir o cheiro do couro que envolve o seu corpo... De sentir sua maciez em meu rosto.

Ela está aqui... — Dou um pulo quando essas palavras invadem meus ouvidos — as mesmas que a mosca disse antes. Só que desta vez não é um sussurro, não é um dos ruídos aos quais estou acostumada. É um homem com forte sotaque britânico.

Espelhos cobrem as paredes da loja, e um borrão se movimenta entre eles. Quando olho mais de perto, os reflexos nada mostram além da minha própria imagem.

Ela cavalga no vento. — A voz penetra no meu sangue. Uma rajada de ar frio surge de repente e apaga as velas, deixando somente a luz da tarde e o candelabro do teto. Vou recuando aos poucos até bater no balcão. Os olhos insondáveis do pôster seguem cada movimento meu, como se fosse ele que estivesse falando com a minha cabeça e agitando o vento.

Arrepios gélidos me percorrem a espinha.

— Camz! — O grito de Heather quebra a magia. — Pode me ajudar a carregar umas coisas? Precisamos montar a vitrine do Anjo Negro antes de eu sair.

Esforço-me para fugir do olhar hipnótico do pôster e ir para o depósito. O ar-condicionado desliga. A rajada de vento deve ter vindo de lá. Rio de nervoso. Estou cansada, com fome e em choque. Meus delírios são reais e minha família está amaldiçoada. Só isso. Devia ser fácil de aceitar, certo?

Errado.

Meus sapatos ensopados fazem barulho a cada passo quando eu atravesso o piso ladrilhado nas cores branco e preto. Heather me encontra na porta, com uma pilha tão alta de roupas e acessórios nos braços que mal consegue me ver.

— Então, meu vestido é legal? — A pergunta chega por detrás da pilha. — É assim que você alimenta o ego da sua melhor amiga?

— É maravilhoso! O Bret vai amar. — Ainda sentindo os olhos do pôster, fico na ponta dos pés e pego a peruca azul e a pequenina máquina de gelo seco do alto da pilha em seus braços.

— Como se isso importasse — ela diz por detrás do amontoado de coisas. — Eu te disse que a Heather ameaçou transformar o Bret em uma abóbora amassada se ele não me trouxer para casa antes da meia-noite? Ela pegou um lindo conto de fadas como "Cinderela" e transformou em uma ameaça de morte. É perversão pura.

— É, ela vem encarnando algum personagem ultimamente.

Tudo começa a deslizar de cima daquela torre. Retiro vários acessórios do alto da pilha e o rosto dela finalmente aparece.

Seus olhos verdes delineados com muito lápis preto se arregalam quando ela me vê: — Caraca! Parece que você brigou com o Pé-Grande! Você e a Heather acertaram os ponteiros em uma poça de lama?

— Rá-rá. — Indo na direção da vitrine, largo as coisas ao lado da Moça na Janela, o manequim de Perséfone.

Heather acomoda algumas asas com plumas escuras no alto da pilha de acessórios. Elas cintilam com lantejoulas pretas.

— Não, sério. O que aconteceu? Eu achei que vocês iam visitar sua mãe. Espera aí. — Heather toca meu braço. — Alguma coisa deu errado?

Vários cachos rosa escuro despencaram de seu cabelo preso no alto da cabeça. Os cachos formam espirais parecidas com chamas cor-de-rosa sobre seu tubinho preto, lembrando-me do que fizeram com o cabelo de Sinu na clínica.

— Ela surtou — deixo escapar. — E me atacou.

Todos os outros detalhes ficam parados na minha garganta: como eles rasparam seu cabelo para que ela não tentasse se sufocar novamente — embora agora eu desconfie que já era uma preparação para a terapia com choques. Como eles ficaram limpando a baba dos cantos de sua boca e colocaram fraldas de adulto, porque, quando alguém está muito sedado, não tem controle das faculdades. E, o pior de tudo, como eles a levaram para a cela acolchoada em uma cadeira de rodas, curvada e tolhida por uma camisa de força, como uma velhinha sem vida. Por isso não pude segui-los e dizer adeus. Já tinha visto o bastante.

— Poxa, Camz. — A voz de Heather é suave e carinhosa. Ela me puxa para dar um abraço. O perfume cítrico de chiclete de seu xampu me acalma. — Pode deixar que eu faço a minha própria maquiagem e o resto. Vá para casa.

— Não posso. — Eu a puxo para mais perto. — Não quero ficar perto das coisas que me lembram dela. Ainda não.

— Mas você não deve ficar sozinha.

A campainha soa e três senhoras adentram a loja. Heather e eu nos afastamos uma da outra.

— Eu não vou ficar sozinha — respondo. — Não durante o horário comercial. Heather inclina a cabeça, me analisando. 

— Olha, eu posso ficar mais meia hora. Vá se recompor. Eu cuido dos clientes.

— Tem certeza?

Ela sacode de leve uma de minhas tranças. — Certeza absoluta. Não posso deixar você tomando conta da loja com cara de palhaço que foi recusado no circo. E se entra alguma gata?

Forço um sorriso. — Leve minha bolsa de maquiagem — oferece ela. — Tenho uns apliques que você pode experimentar.

Vasculho minhas coisas que se encontram no depósito e pego um par de botas de plataforma e algumas roupas, e depois me agacho para entrar no pequenino banheiro. O tubo de ventilação acima da pia joga ar gelado sobre a minha pele. Um brilho fluorescente vindo da pequena luminária distorce meu reflexo. Eu escovo o cabelo, desfazendo os nós, e prendo um dos dreads roxos de Heather.

Minha maquiagem já foi lavada por lágrimas e pela chuva, deixando manchas pelo rosto. Agora só consigo me lembrar de Sinu. Mas, se eu olhar com mais profundidade, sou eu usando uma camisa de força e um turbante de enguia, fazendo caretas que nem o Gato de Cheshire ao sorver carne assada de uma xícara de chá. Quanto tempo ainda tenho antes de a maldição me pegar de vez?

Apoio-me na pia, desamarro a bandana de Hailee e absorvo o aroma dela. Antes desta tarde, tudo o que eu queria era ir para Londres ficar com ela e ganhar créditos para a faculdade. É incrível a diferença que algumas horas podem fazer.

Se eu não encontrar uma maneira de ir para a Inglaterra procurar a toca do coelho, o cérebro de Sinu será frito e eu vou terminar onde ela está dentro de alguns anos. Não tenho como conseguir dinheiro suficiente para a passagem de avião antes de segunda-feira. Sem contar o passaporte.

Rangendo os dentes, começo a tirar meu legging rasgado e a atadura. O corte no meu joelho está quase bom, e quase sem casca. Estou esgotada demais para ficar imaginando a razão. Abro a torneira de água fria e esfrego as lembranças físicas do que aconteceu, secando minha pele e lingerie com o secador de cabelo.

Depois de riscar meus olhos com pinceladas verde-escuras e me contorcer para entrar em uma meia-calça xadrez roxa, verde e vermelha, jogo por cima uma minissaia com combinação bufante.

Uma camiseta de manga cavada verde por baixo de um bustiê vermelho — junto com meias-luvas roxas — e estou pronta para encarar os clientes.

Dou uma última olhada no espelho. Alguma coisa se move por trás de minha imagem, tremeluzente e negra, como as asas emplumadas da pilha de acessórios. O aviso figurado de Sinu me toma de assalto. 

"Ela virá buscá-la. Ela vai penetrar em seus sonhos. Ou no espelho...fique longe do espelho.

Solto um grito agudo e me viro depressa. Não há nada ao redor a não ser minha sombra. O cômodo parece encolher e me desequilibrar, como se eu estivesse dentro de uma caixa rolando ladeira abaixo. Meu estômago fica embrulhado.

Saio correndo para o depósito mal-iluminado e quase tropeço nos cadarços de minha bota alta, numa corrida desesperada para voltar para perto de Heather.

Ela corre para me encontrar. — Nossa. — Ela me conduz para o banquinho que fica atrás do balcão do caixa. — Você está com uma cara como se a sua cabeça fosse explodir. Comeu alguma coisa?

— Sopa de sorvete — murmuro, aliviada por as clientes já terem saído e não terem me visto.

Estou tremendo toda.

Heather sente a temperatura da minha testa. — Você não parece ter febre. Talvez seja algum problema com o nível de açúcar no sangue. Vou pegar algo para você no bistrô.

— Não me deixe. — Agarro o braço dela.

— Por que não? Eu já volto.

Percebendo o quanto eu pareço maluca, mudo de tática. — A vitrine. Nos temos que... — A explicação se detém na minha língua quando percebo que ela já terminou de montá-la. — Ah...

— É, ah. — Heather solta meus dedos de sua manga. — Vou acender as velas também. Por que você as apagou? Você precisa de todas as vibrações relaxantes possíveis. Vou trazer um croissant e algo para beber; algo sem cafeína. Nunca vi você tão pilhada. — Antes que eu possa responder, ela já atravessou a sala.

A porta se fecha atrás dela, deixando-me só com a decoração da vitrine. Uma peruca azul e uma fantasia aderente de anjo negro abraçam a silhueta da Moça na Janela. As asas gigantes estão amarradas em volta dos ombros do manequim com uma tira de couro da mesma cor.

Lantejoulas pretas cintilam sobre as plumas, e há fumaça saindo da máquina de gelo seco, serpenteando a cena macabra. De alguma maneira, aquelas asas e a fumaça são uma coisa só. Penso na minha amiga libélula. Por que Sinu a atacou com a tesoura de poda?

Só porque ela me atraiu para uma tempestade? Tem que haver algo mais sério, algum tipo de animosidade já existente, mas não consigo compreender qual. Relutante, viro o rosto para o pôster. Seus olhos escuros olham direto para mim, penetrantes. — Você sabe, não é? — sussurro. — Você tem as respostas.

Silêncio...

Rio com desdém — um som vazio e solitário. Estou oficialmente perdendo a razão. Insetos e flores que sussurram já não são mais do que o suficiente? Esperar que um pôster responda? Isso me torna uma candidata ao sanatório.

Tremendo, vou até o computador do outro lado e encontro o site que pesquisei antes. Passo direto por tudo que já vi, tentando encontrar uma conexão com os desvarios de Sinu. Há outra série de fotos: um coelho branco tão magro que parece um esqueleto; flores ostentando braços, pernas e bocas de onde pinga sangue; uma morsa com algo que se projeta de sua metade inferior, como raízes de árvores. É a turma do País das Maravilhas depois de uma boa dose de radiação venenosa. É também uma conexão: de alguma forma, a libélula e esses seres do reino subterrâneo estão ligados à história de Lewis Carroll. Não é de admirar que vovó Alícia tenha continuado a pintar os personagens da história nas paredes.

Desde Alice, minha família é maluca. Será que ela realmente entrou na toca de um coelho e voltou para contar a história, mas nunca mais foi a mesma depois dessa experiência? Aliás, quem seria? Todos os meus pelos se eriçam como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo.

Depois da última imagem, há uma moldura antiga de hera e flores nos dois lados do fundo preto, e um poema centralizado em letras brancas adornadas.

Era briluz. As lesmolisas touvas


Roldavam e reviam nos gramilvos.


Estavam mimsicais as pintalouvas,


E os momirratos davam grilvos.[1]


Eu já vi esse poema no livro original. Com o bloco de anotações em mãos, rabisco País das Maravilhas no alto e copio o poema, palavra por palavra.

Abro uma nova janela de pesquisa para buscar interpretações. Um mesmo site apresenta quatro possibilidades diferentes. E se todas elas estiverem erradas? Leio superficialmente dois outros sites até que o terceiro me chama a atenção. Ele mostra ilustrações junto com as palavras — criaturas com narizes longos e envergados cavam buracos debaixo de relógios de sol. Uma sensação de que conheço aquilo toma conta de mim, e eu fecho os olhos. Crianças brincam na tela das minhas pálpebras. Um menino alado e uma menina loira mergulham em um buraco debaixo da estátua de uma criança que equilibra um relógio de sol na cabeça.

Não sei de onde vêm essas imagens. Devo tê-las visto em algum filme — mas não consigo lembrar qual. Elas parecem tão reais — e tão familiares.

Anoto rapidamente as definições daquela interpretação do poema. De acordo com quem escreveu, briluz significa quatro horas da tarde; a touva é uma criatura mítica — uma mistura de texugo e lagarto com focinho de saca-rolhas. Elas são conhecidas por fazerem seus ninhos debaixo de relógios de sol. Roldar e reviar são verbos que significam cavar na terra como uma hélice gigante, revirando o solo até que um túnel profundo seja formado.

No contexto do poema, o buraco está sendo cavado em um local específico, considerando que gramilvo é a grama debaixo de um relógio de sol. As outras palavras não estão definidas, mas já é um começo. Segundo o poema e as imagens na minha cabeça, parece que a toca do coelho pode estar localizada debaixo daquela estátua do menino com o relógio de sol. Eu só preciso encontrá-la.

Volto para o site dos intraterrenos e vou descendo para ver se há mais algum detalhe que tenha me escapado. No final, um enorme espaço preto que vai até o fim da página. Nenhum outro texto, nenhuma foto, mesmo com muito espaço para colocar algo. Será que o webdesigner quis deixar espaço para mais tarde?

Estou quase saindo do site para pesquisar relógios de sol na Inglaterra, na esperança de encontrar uma cidade e um endereço, quando um movimento no fundo escuro do site me chama a atenção. É como assistir a um grilo nadando em meio à tinta. Mas, em vez de um grilo, a simulação de uma libélula negra flutua pela tela, como a libélula do meu passado.

Estou começando a achar que a libélula está ligada a tudo: ao menino e à menina que vi ao lado do relógio de sol, à verdadeira maldição de minha família. Se pelo menos eu conseguisse lembrar mais sobre o inseto. Mas minhas lembranças estão borradas e obscurecidas, como olhar para baixo de uma altura estonteante através de nuvens espessas.

A animação volta a deter minha atenção. Ela começa no alto de um espaço vazio. Quando chega a um quarto da descida, um texto em azul brilhante aparece por baixo do rastro das asas da libélula.

Encontre o tesouro.

Leio e torno a ler até que meus olhos queimam, chocados pela semelhança com o que Sinu disse.

"As margaridas escondem o tesouro. O tesouro enterrado."

Papai cavou todo o jardim quando ela foi internada pela primeira vez, anos atrás — e o deixou destruído. Não havia nada enterrado lá. Então o que será que ela queria dizer? Outra linha de texto aparece na tela. 

Se deseja salvar sua mãe, use a chave.

Dou um pulo para trás, me afastando do computador, com o coração acelerado e as mãos suando dentro das luvas. Não percebi. As palavras estão olhando para mim, piscando. Como alguém pode estar falando comigo?

Como alguém saberia sobre Sinu e como me encontrou?

Olho para todos os cantos da loja vazia. Tenho que contar para alguém. Papai está fora de cogitação; ele me mandaria para a terapia de eletrochoque. Heather vai pensar que é só mais um dos meus atormentadores da escola me pregando mais uma peça.

A Hailee. Apesar da estranheza entre nós, sei que ela sempre irá me apoiar. Vou mostrar o site para ela. Só o fato de pensar no seu sorriso confortador — que diz que ninguém me compreende como ela — já me resgata do limite do terror.

Ao som da campainha, olho para cima. O rosto de Taylor retribui o olhar e eu quase solto um gemido bem alto. Seu cabelo na altura dos ombros reflete o brilho dourado do sol.

As palavras Brilho, Glamour e Muita Petulância estão escritas em letras reluzentes na sacola que ela carrega. Volto ao computador. A tela fica branca e mostra uma mensagem de erro.

— Oi, Alyssa. — Taylor examina atentamente a prateleira de joias a caminho do balcão. — Alguma promoção hoje? — Ela ergue um broche de strass em forma de caveira com penduricalhos de ossos cruzados. — De preferência algo que não cheire a casa funerária.

Ignorando-a, digito mais uma vez o endereço do site. A mensagem de erro volta a aparecer. Chacoalho o mouse. Se eu não conseguir encontrar o site novamente, nunca poderei convencer Hailee de que o que vi era real.

Taylor chega mais perto. Uma das alças de sua bolsa de grife escorrega de seu ombro bronzeado. — Acho que não importa. Gente como você não se importa com quem usou essas coisas e nem se estão mortos ou não.

Depois de fazer uma pausa para torcer o nariz para uma camiseta, ela joga a sacola de compras e a bolsa do outro lado do balcão e rapidamente apoia os braços na beirada dele. Ela era uma ótima tenista, mas, quando viu que seu pai nunca ia aos torneios, desistiu. Uma pena.

Os dez centímetros extras das minhas botas me elevam quase à estatura dela. — Você não precisa se aprontar para um baile? — pergunto, esperando que ela vá embora.

O olhar dela se enche de delicadeza e inocência. — É por isso que estou aqui. Vim na loja ao lado pegar o presente de formatura da Hailee. Pensei em deixá-lo na casa dela de tarde para ela poder usar hoje à noite.

Nem pergunto o que ela poderia ter comprado para Haile em uma joalheria.

— O que é isso? — Ela estica a mão por cima do balcão e puxa minhas anotações para si. Tento pegá-las, mas ela é rápida. — País das Maravilhas, é? Então está pesquisando sobre os coelhos da família.

— Tchau, Taylor. — Recupero minhas anotações à força, e acidentalmente derrubo sua bolsa no chão diante do balcão.

Ela nem se incomoda em pegá-la. Sua expressão endurece. — Nada de tchau. Primeiro vamos conversar.

Aquela presença inquieta em minha mente me provoca para revidar. Uma explosão de adrenalina faz minha língua disparar. — Obrigada, mas prefiro falar com um besouro.

Os olhos de Taylor se arregalam, como se ela tivesse se surpreendido com o insulto. Sorrio. É bom a gente se sentir por cima de vez em quando.

Ela demora alguns segundos para pensar em uma resposta. — Você fala com besouros, é? É bom saber que vai poder brincar com alguém quando Hailee for embora. E não fique pensando que pode usar essa bobagem de amiga magoada para impedir que ela se mude para Londres comigo no mês que vem.

— Com você? — Acabo de despencar de onde estava. Sinto-me como quando estava andando de skate e caí — como se um holofote de mineiro estivesse focado em mim.

— Ela ainda não te contou? — Taylor estava exultante. — Não me surpreende. Ela está sempre tão preocupada com seu estado mental. — Ela se encosta no balcão e coloca seu rosto a poucos centímetros do meu. Seu perfume caro faz meu nariz pinicar. — Vou fazer o último ano do Ensino Médio em uma escola preparatória em Londres. Me ofereceram um contrato como modelo lá. Meu pai vai alugar um apartamento para a Hailee. Assim, todo mundo sai ganhando. Hailee pode fazer contatos para se promover como pintora através das pessoas que eu vou conhecer, e nós ficamos na casa dela nos finais de semana. Interessante, não acha?

Sinto um aperto no peito.

Ela se retrai. Há certo pânico em sua expressão. Por quê? Ela acaba de anular a chance de eu ter a amizade de Hailee só para mim mais uma vez. Agora ela tem tudo.

— Nossa! Você realmente achou que tinha uma chance, não? — Taylor zomba. — Só porque ela pediu que você posasse para alguns rabiscos, isso não quer dizer que ela é a fim de você.

Fico boquiaberta. Hailee nunca me pediu para posar. Algumas vezes ela tirou seu lápis e caderno de desenho quando estávamos juntas, mas eu nunca imaginaria que ela estivesse me retratando.

— A arte dela trata da morte, da tragédia, então é óbvio que ela goste de seu estilo Mortícia. Isso não é um elogio. Não se iluda.

Estou atordoada demais para responder.

— Nós duas gostamos da Hailee. — A voz dela fica mais suave, e posso ver que, pelo menos desta vez, ela está sendo sincera. — Mas você gosta dela o bastante para deixá-la fazer o que é melhor para ela? Ela tem talento demais para ficar servindo de babá para você o resto da vida, como seu pobre pai. Você não acha que isso seria uma tragédia colossal?

A ânsia de arrancar os olhos dela faz minhas veias fervilharem. — Pelo menos eu tenho um pai que gosta de mim o bastante para me apoiar. — As palavras a atingem feito setas envenenadas. Sua expressão ferida faz com que eu me arrependa de ter dito aquilo.

A campainha soa e o aroma de café expresso invade a loja. — Ah, droga. — Heather lança um olhar de raiva para Taylor enquanto a porta se fecha atrás dela. — O que está fazendo aqui? — Ela para perto de mim e coloca de lado um croissant e uma vitamina de fruta.

Taylor limpa a garganta e sua máscara de indiferença volta ao lugar. — Alyssa e eu estávamos conversando sobre Londres e sobre por quê ela não é bem-vinda para ficar comigo e a Hailee. — Ela pega sua sacola. — Fede aqui na terra dos mortos. Fui.

No instante em que ela sai, Heather vira-se para mim. — Um dia desses ela vai se descuidar e mostrar a Hailee esse lado perverso.

Eu arranco a pontinha do meu croissant. — É por causa dela que Hailee não quer que eu vá. Ela não quer que eu... atrapalhe elas.

Torcendo sua meia arrastão com uma caneta, Heather não responde.

— Por que não me contou?

Os olhos dela se enchem de remorso. — Eu só soube que ela ia hoje de manhã. E eu não sabia como contar para você quando você entrou. Você está sofrendo tanto com sua mãe.

Dobrando as anotações do País das Maravilhas, olho novamente para o computador fora do ar. O que importa se o site sumiu? Hailee não vai mais me ajudar e nós nunca mais seremos como antes.

— Camz?

Os soluços que eu vinha reprimindo desde a minha briga com papai se aninham em meu peito. E explodem como milhares de bolhas de ácido, consumindo meu coração silenciosamente. Mas me recuso a chorar.

— Vamos lá — Heather me anima. — Se alguém pode convencê-la a largar Taylor, é você. Conte para ela. Conte o que você sente de verdade.

Penso nas maravilhosas pinturas de Hailee. Em todas as coisas que ela pode ser, se tiver oportunidade. Ela não precisa de mais bagagem emocional para atrasá-la. E eu tenho o suficiente para afundar um petroleiro. Ademais, não conseguirei aguentar se ela me recusar.

Ela já escolheu Taylor em vez da gente.

Enfio as anotações no bolso da saia. — Nada a dizer. Eu me apaixonei por ela quando estávamos na sexta série, então não conta. — Ela começa a dizer alguma coisa, mas eu a detenho. — E você também não vai contar. Nós fizemos a promessa do dedo mindinho, e isso é para sempre.

Uma ruga de preocupação surge em sua testa enquanto ela pega seu vestido e sua maquiagem para o baile. — Isso não terminou.

— Terminou, sim. A Hailee fez a escolha dela.

Balançando a cabeça, ela sai.

No momento em que a porta se fecha, eu me volto para O corvo. O cara emo olha para mim, e seus olhos vertem lágrimas negras, como se ele soubesse da minha dor. Sinto o estranho desejo de estar em seus braços — aninhada no couro —  e de alguma forma sei que não é ele, e sim ela.

Estou esperando dentro da toca do coelho, amor. 

Encontre-me. 

Seu olhar marca o desafio na minha alma como um ferrete em brasa.

Assustada com o aprofundamento da nossa conexão, dou um passo para trás e derrubo o porta-canetas com o cotovelo. Um lápis rola do balcão em frente e cai no chão.

Dou a volta para pegá-lo e fico surpresa ao ver a bolsa de Taylor no chão. Ela saiu com tanta pressa que esqueceu de pegá-la.

Resisto ao desejo de jogar as coisas dela na rua. Em vez disso, pego a bolsa pelas alças e a guardo debaixo do balcão até ela voltar. O zíper está meio aberto, revelando um grande maço de dinheiro.

Confusa, tiro o dinheiro, desenrolando o maço de notas de vinte e cinquenta dólares. Tem mais de duzentos e quarenta dólares. Se eu acrescentar aquilo às minhas economias em casa, terei o suficiente para comprar uma passagem de ida para a Inglaterra, e ainda sobrará um pouquinho para um passaporte falso e as despesas; então, eu só precisaria encontrar um endereço para o relógio de sol.

Não seria a primeira vez que ficaríamos devendo aos Swift. Na quinta série, papai pegou um empréstimo com o pai de Taylor para ajudar a pagar as despesas médicas de Sinu.

Foi assim que Taylor ficou sabendo sobre meu parentesco com Alice Liddell. Então, de certa maneira, é uma indenização justificada. O pagamento de Taylor a mim por todos os anos em que ela tornou minha vida um inferno.

Meus dedos tremem enquanto eu jogo a bolsa estripada no fundo da lata de lixo e coloco papéis por cima. Estendo a mão por baixo do balcão para pegar o aromatizador e o derrubo— junto com o dinheiro — sobre o livro de cristais místicos de Perséfone. O volume tem um elástico costurado na encadernação que mantém as páginas fechadas.

Volto-me mais uma vez para o pôster. Os soturnos olhos, do que eu imaginava ser um rapaz, mas que agora tenho certeza ser de uma garota, parecem controlar tudo que eu faço, e não há nada que me impeça de ultrapassar os limites desta vez. Não há mãe, não há pai, e com certeza não há Hailee. Nem mesmo seu sorriso poderia me salvar agora.Demorou tanto para acomodar Alison na clínica que papai teve de me levar direto para o trabalho.

Encostamos na guia diante da única loja de roupas vintage em Pleasance. Ela fica localizada em um pequeno centro de compras no lado comercial do centro da cidade, com um bistrô de um lado e uma joalheria do outro. A Loja de Roupas Esportivas do Alejandro fica do outro lado da rua.

— Lembre-se. Estou no trabalho. É só dar uma ligadinha que eu venho pegar você. — A careta de papai forma rugas nos cantos de sua boca.

Sinto-me entorpecida, ainda me pergunto se imaginei tudo aquilo. Olho para além da fachada de tijolos cor-de-rosa da loja e da cerca preta de ferro. Meu olhar foca e desfoca as letras pretas arredondadas sobre a porta: FIOS DE BORBOLETA.

Seguro o aromatizador diante de meu nariz. O cheiro me lembra a primavera, caminhadas ao ar livre e famílias felizes. Mas só o que eu sinto aqui dentro é o inverno, e a minha família está mais bagunçada do que nunca. Quero dizer ao papai que os delírios de Alison são reais, mas sem nenhuma prova ele vai pensar que minha sanidade também está se estilhaçando.

— Você não precisa fazer isso — afirma ele, pegando minha outra mão. Mesmo através das minhas luvas, seu toque parece gelo.

— São só duas horas — respondo, rouca de tanto gritar no pátio. — Heather não conseguiu ninguém para cobrir o turno dela na última hora e Perséfone — minha chefe — está fora da cidade.

Sexta-feira é dia de prospecção para Perséfone, quando ela vai a cidades vizinhas para visitar feirinhas e brechós à procura de mercadorias. Ao contrário do que papai pensa, não estou bancando a mártir. O horário entre três e cinco horas é completamente morto; praticamente não entra nenhum cliente, só depois da hora do rush. Pretendo usar esse tempo para pesquisar o site da libélula no computador da loja.

— Tenho que ir. — Aperto a mão de papai.

Ele aquiesce.

Abro o porta-luvas para colocar o aromatizador lá dentro, e uma avalanche de papéis cai sobre meus pés. Um panfleto que está por cima da pilha me chama a atenção. A cor de fundo é um rosa bem claro, com uma letra genérica branca impressa na frente: ECT — Porque a Terapia Eletroconvulsiva é Adequada para o Seu Ente Querido. 

Eu o recolho. — O que é isso?

Papai se inclina sobre o banco para guardar os outros papéis. — Falamos nisso mais tarde.

— Pai, por favor.

Ele se retesa e olha pela janela. — Eles tiveram que dar a ela outra dose de sedativos enquanto você estava no saguão.

Aquelas palavras são um golpe para mim. Fui fraca demais para continuar quando eles levaram Alison na cadeira de rodas para a cela com paredes acolchoadas. Covarde, fiquei deitada no sofá do saguão puxando meus arruinados dreadlocks feito um robô enquanto assistia a algum reality show idiota na TV.

Realidade... Eu nem sei mais o que é isso.

— Você me ouviu, Camz? Duas doses em menos de uma hora. Todos esses anos eles a têm drogado para que ela esqueça. — Ele aperta o volante. — Mas ela está ficando pior. Ela ficou gritando sobre tocas de coelho e libélulas... E pessoas que perdem as cabeças. As drogas não estão funcionando. Então os médicos me ofereceram essa opção.

Minha língua absorve a saliva como uma esponja.

— Se você olhar o primeiro parágrafo — começou a explicar, apontando para alguns números no panfleto —, essa prática voltou a ser usada desde...

— Sabe, eles usavam enguias — interrompo em voz alta demais — antigamente. Eles as envolviam na cabeça do paciente. Um turbante elétrico.

As palavras não têm sentido — espelham como me sinto por dentro. Eu só consigo pensar nos meus animais de estimação em casa. Aprendi bem cedo que não poderia ter o costumeiro cão ou gato.

Não que os animais falem comigo; só insetos e plantas estão na minha frequência. Mas, toda vez que o gato tigrado de Heather pega uma barata e a rasga em pedaços, tenho náuseas só de ouvir os gritos do inseto. Então, decidi criar enguias. Elas são elegantes e místicas e usam um órgão de choque para atordoar sua presa. É uma morte silenciosa e digna, parecida com a dos insetos que morrem por asfixia em minhas armadilhas. Mesmo assim, não toco a água delas sem usar luvas de borracha. Nem posso imaginar o que elas fariam com a mente de alguém.

— Camz, não é a mesma coisa que faziam setenta anos atrás. É feito com eletrodos enquanto o paciente está anestesiado. Os relaxantes musculares mantêm o paciente alheio a qualquer dor.

— Mas ainda podem causar danos cerebrais.

— Não. — Ele lê o texto de cabeça para baixo em voz alta. — Quase todos os pacientes da ECT apresentam alguma incomodidade como confusão, incapacidade de concentrar-se e perda de memória recente, mas os benefícios superam os desconfortos temporários. — Ele procura meu olhar, com o olho esquerdo trêmulo. — Perda de memória recente é um desconforto. Não é dano cerebral.

— É uma forma de dano cerebral. — Sou filha de uma doente mental há onze anos. Sei todas as definições e níveis de anomalias psicológicas.

— Bom, isso pode ser uma bênção, levando em consideração que as lembranças mais recentes de sua mãe consistem em nada além da clínica e de uma infinita sucessão de drogas e avaliações psicológicas. — Os sulcos profundos em volta da boca dele parecem se estender até o crânio. O que eu não daria para ver seu riso de Elvis naquele momento.

Minha garganta se contrai. — Quem é você para decidir isso por ela?

Os lábios dele se reprimem e formam aquela expressão sisuda que ele esboça sempre que ultrapasso os limites. — Sou um marido que ama sua esposa e sua filha. Um homem que está exausto além de suas forças. — A mistura de defesa e resignação em seu rosto me fazem ter vontade de me encolher e chorar. — Ela tentou se matar bem na sua frente. Mesmo que seja uma impossibilidade física para ela sufocar a si mesma, isso não importa. Os remédios não estão funcionando. Temos que dar outro passo.

— E se isso não funcionar... O que vai ser? Uma lobotomia com um abridor de lata? — Jogo o panfleto sobre o banco dele. O papel vai parar em sua coxa.

— Camila! — A voz dele fica mais cortante.

Consigo enxergar o que ele quer. Ele está desesperado para ter Sinu de volta, mas não para mim. Todos esses anos ele vem ansiando por ela, a mulher que ele costumava levar para o drive-in... Que andava de mãos dadas com ele pulando sobre poças e sarjetas depois da chuva... Que bebia limonada na varanda e compartilhava os sonhos de um futuro feliz. Se ele fizer isso, ela pode nunca mais voltar a ser essa mulher.

Abro a porta e piso na calçada. Embora o sol do fim de tarde tenha despontado por entre as nuvens, um arrepio me percorre o corpo todo.

— Pelo menos deixe-me ajudar com as muletas. — Papai se prepara para desenterrá-las de debaixo do banco do passageiro.

— Não preciso mais delas.

— Mas Hailee disse que você torceu...

— Novidade, papai... A Hailee nem sempre está certa. — Aperto a bandana que cobre minha atadura.

Meu tornozelo não dói desde que Sinu apertou sua marca de nascença contra a minha. Na verdade, meu joelho arranhado também parece melhor. Acrescente isso à lista de esquisitices inexplicáveis.

Não tenho tempo para ficar pensando nisso. Tenho problemas maiores.

Papai olha ao longe, cerrando a mandíbula. — Borboletinha...

— Não me chame assim — retruco.

Ele abaixa o rosto ao passarem duas clientes tagarelando. A última coisa que quero fazer é magoá-lo; ele ficou ao lado de Sinu durante anos, sem falar que me criou sozinho.

— Me desculpe. — Eu me abaixo para vê-lo melhor. — Mas vamos pesquisar um pouco mais, tá bom?

Ele solta um suspiro. — Assinei os papéis antes de sairmos.

Minha máscara de compreensão se esvai e dá lugar à raiva. — Por que você fez isso?

— O médico ofereceu essa opção há meses. Eu já venho pesquisando há algum tempo. A princípio, não conseguia nem pensar na ideia. Mas... Eles vão começar na segunda-feira. Você pode ir comigo visitá-la depois.

Um calor desconfortável me sobe pelo pescoço. A umidade da tempestade e o ruído dos insetos que estão por perto tornam tudo ainda pior.

— Por favor, tente compreender — explica papai — o quanto eu preciso que ela volte para casa.

— Eu também preciso dela.

— Então não faria tudo para que isso acontecesse?

Dentro de mim, um lado escuro se agita e ganha vida. Ele me provoca para dizer exatamente o que estou pensando. — Sim. Eu até entraria numa toca de coelho. — E bato a porta.

Papai buzina, certamente querendo uma explicação para o meu comentário. Entro depressa na loja, sem olhar para trás.

A campainha automática produz um trinado e uma lufada de ar balança o candelabro de contas de cristal pendurado no centro do teto. Fico ali, atordoada, enquanto o ar-condicionado gela minhas roupas úmidas. O forte aroma de coco que as velas dos candelabros exalam ao longo das paredes revira meu estômago.

— É você, Camz? — A voz abafada de Heather soa por meio da porta aberta do depósito.

Limpo a garganta e aperto o aromatizador. Na pressa de escapar, me esqueci de deixá-lo no caminhão. 

— Oh-oh. 

— Viu meu vestido para o baile de formatura? Está na arara de mercadorias novas. 

Pego o único cabide da arara. A capa de plástico faz barulho. Heather comprou dois vestidos na Fios de Borboleta há meses. Ela os cortou e remontou a fim de criar um top verde-limão bem justo que se abre em uma renda cor-de-rosa com estampa de zebras minúsculas. Lantejoulas furta-cor presas a mão refletem a luz quando eu penduro o cabide de volta na arara.

— Legal — digo. É incrível mesmo, e, sob circunstâncias normais, eu ficaria muito mais entusiasmada com sua criação. Mas hoje não consigo encontrar forças.

Jogo o aromatizador de libélula por baixo do balcão do caixa, ao lado da bolsa de maquiagem de Heather. Ele vai parar em cima dos volumes de mitologia de Perséfone.

Uma sensação de que alguém está nos observando me gela os ossos e eu viro a cabeça para olhar o pôster na parede. É de um filme chamado O Corvo. Perséfone é apaixonada pelo herói: couro preto, rosto branco, maquiagem preta nos olhos e uma expressão de perpétua inquietação. Criou-se um pouco de mistério em torno daquele ator. Ele morreu no set de filmagem.

Sempre me senti atraída por aquele pôster. Mesmo em um pedaço de papel, o sujeito consegue ter olhos muito expressivos — olhos que parecem me conhecer, assim como eu os conheço. Embora eu nunca tenha visto o filme, o ator me parece familiar, a ponto de eu conseguir sentir o cheiro do couro que envolve o seu corpo... De sentir sua maciez em meu rosto.

Ela está aqui... — Dou um pulo quando essas palavras invadem meus ouvidos — as mesmas que a mosca disse antes. Só que desta vez não é um sussurro, não é um dos ruídos aos quais estou acostumada. É um homem com forte sotaque britânico.

Espelhos cobrem as paredes da loja, e um borrão se movimenta entre eles. Quando olho mais de perto, os reflexos nada mostram além da minha própria imagem.

Ela cavalga no vento. — A voz penetra no meu sangue. Uma rajada de ar frio surge de repente e apaga as velas, deixando somente a luz da tarde e o candelabro do teto. Vou recuando aos poucos até bater no balcão. Os olhos insondáveis do pôster seguem cada movimento meu, como se fosse ele que estivesse falando com a minha cabeça e agitando o vento.

Arrepios gélidos me percorrem a espinha.

— Camz! — O grito de Heather quebra a magia. — Pode me ajudar a carregar umas coisas? Precisamos montar a vitrine do Anjo Negro antes de eu sair.

Esforço-me para fugir do olhar hipnótico do pôster e ir para o depósito. O ar-condicionado desliga. A rajada de vento deve ter vindo de lá. Rio de nervoso. Estou cansada, com fome e em choque. Meus delírios são reais e minha família está amaldiçoada. Só isso. Devia ser fácil de aceitar, certo?

Errado.

Meus sapatos ensopados fazem barulho a cada passo quando eu atravesso o piso ladrilhado nas cores branco e preto. Heather me encontra na porta, com uma pilha tão alta de roupas e acessórios nos braços que mal consegue me ver.

— Então, meu vestido é legal? — A pergunta chega por detrás da pilha. — É assim que você alimenta o ego da sua melhor amiga?

— É maravilhoso! O Bret vai amar. — Ainda sentindo os olhos do pôster, fico na ponta dos pés e pego a peruca azul e a pequenina máquina de gelo seco do alto da pilha em seus braços.

— Como se isso importasse — ela diz por detrás do amontoado de coisas. — Eu te disse que a Heather ameaçou transformar o Bret em uma abóbora amassada se ele não me trouxer para casa antes da meia-noite? Ela pegou um lindo conto de fadas como "Cinderela" e transformou em uma ameaça de morte. É perversão pura.

— É, ela vem encarnando algum personagem ultimamente.

Tudo começa a deslizar de cima daquela torre. Retiro vários acessórios do alto da pilha e o rosto dela finalmente aparece.

Seus olhos verdes delineados com muito lápis preto se arregalam quando ela me vê: — Caraca! Parece que você brigou com o Pé-Grande! Você e a Heather acertaram os ponteiros em uma poça de lama?

— Rá-rá. — Indo na direção da vitrine, largo as coisas ao lado da Moça na Janela, o manequim de Perséfone.

Heather acomoda algumas asas com plumas escuras no alto da pilha de acessórios. Elas cintilam com lantejoulas pretas.

— Não, sério. O que aconteceu? Eu achei que vocês iam visitar sua mãe. Espera aí. — Heather toca meu braço. — Alguma coisa deu errado?

Vários cachos rosa escuro despencaram de seu cabelo preso no alto da cabeça. Os cachos formam espirais parecidas com chamas cor-de-rosa sobre seu tubinho preto, lembrando-me do que fizeram com o cabelo de Sinu na clínica.

— Ela surtou — deixo escapar. — E me atacou.

Todos os outros detalhes ficam parados na minha garganta: como eles rasparam seu cabelo para que ela não tentasse se sufocar novamente — embora agora eu desconfie que já era uma preparação para a terapia com choques. Como eles ficaram limpando a baba dos cantos de sua boca e colocaram fraldas de adulto, porque, quando alguém está muito sedado, não tem controle das faculdades. E, o pior de tudo, como eles a levaram para a cela acolchoada em uma cadeira de rodas, curvada e tolhida por uma camisa de força, como uma velhinha sem vida. Por isso não pude segui-los e dizer adeus. Já tinha visto o bastante.

— Poxa, Camz. — A voz de Heather é suave e carinhosa. Ela me puxa para dar um abraço. O perfume cítrico de chiclete de seu xampu me acalma. — Pode deixar que eu faço a minha própria maquiagem e o resto. Vá para casa.

— Não posso. — Eu a puxo para mais perto. — Não quero ficar perto das coisas que me lembram dela. Ainda não.

— Mas você não deve ficar sozinha.

A campainha soa e três senhoras adentram a loja. Heather e eu nos afastamos uma da outra.

— Eu não vou ficar sozinha — respondo. — Não durante o horário comercial. Heather inclina a cabeça, me analisando. 

— Olha, eu posso ficar mais meia hora. Vá se recompor. Eu cuido dos clientes.

— Tem certeza?

Ela sacode de leve uma de minhas tranças. — Certeza absoluta. Não posso deixar você tomando conta da loja com cara de palhaço que foi recusado no circo. E se entra alguma gata?

Forço um sorriso. — Leve minha bolsa de maquiagem — oferece ela. — Tenho uns apliques que você pode experimentar.

Vasculho minhas coisas que se encontram no depósito e pego um par de botas de plataforma e algumas roupas, e depois me agacho para entrar no pequenino banheiro. O tubo de ventilação acima da pia joga ar gelado sobre a minha pele. Um brilho fluorescente vindo da pequena luminária distorce meu reflexo. Eu escovo o cabelo, desfazendo os nós, e prendo um dos dreads roxos de Heather.

Minha maquiagem já foi lavada por lágrimas e pela chuva, deixando manchas pelo rosto. Agora só consigo me lembrar de Sinu. Mas, se eu olhar com mais profundidade, sou eu usando uma camisa de força e um turbante de enguia, fazendo caretas que nem o Gato de Cheshire ao sorver carne assada de uma xícara de chá. Quanto tempo ainda tenho antes de a maldição me pegar de vez?

Apoio-me na pia, desamarro a bandana de Hailee e absorvo o aroma dela. Antes desta tarde, tudo o que eu queria era ir para Londres ficar com ela e ganhar créditos para a faculdade. É incrível a diferença que algumas horas podem fazer.

Se eu não encontrar uma maneira de ir para a Inglaterra procurar a toca do coelho, o cérebro de Sinu será frito e eu vou terminar onde ela está dentro de alguns anos. Não tenho como conseguir dinheiro suficiente para a passagem de avião antes de segunda-feira. Sem contar o passaporte.

Rangendo os dentes, começo a tirar meu legging rasgado e a atadura. O corte no meu joelho está quase bom, e quase sem casca. Estou esgotada demais para ficar imaginando a razão. Abro a torneira de água fria e esfrego as lembranças físicas do que aconteceu, secando minha pele e lingerie com o secador de cabelo.

Depois de riscar meus olhos com pinceladas verde-escuras e me contorcer para entrar em uma meia-calça xadrez roxa, verde e vermelha, jogo por cima uma minissaia com combinação bufante.

Uma camiseta de manga cavada verde por baixo de um bustiê vermelho — junto com meias-luvas roxas — e estou pronta para encarar os clientes.

Dou uma última olhada no espelho. Alguma coisa se move por trás de minha imagem, tremeluzente e negra, como as asas emplumadas da pilha de acessórios. O aviso figurado de Sinu me toma de assalto. 

"Ela virá buscá-la. Ela vai penetrar em seus sonhos. Ou no espelho...fique longe do espelho.

Solto um grito agudo e me viro depressa. Não há nada ao redor a não ser minha sombra. O cômodo parece encolher e me desequilibrar, como se eu estivesse dentro de uma caixa rolando ladeira abaixo. Meu estômago fica embrulhado.

Saio correndo para o depósito mal-iluminado e quase tropeço nos cadarços de minha bota alta, numa corrida desesperada para voltar para perto de Heather.

Ela corre para me encontrar. — Nossa. — Ela me conduz para o banquinho que fica atrás do balcão do caixa. — Você está com uma cara como se a sua cabeça fosse explodir. Comeu alguma coisa?

— Sopa de sorvete — murmuro, aliviada por as clientes já terem saído e não terem me visto.

Estou tremendo toda.

Heather sente a temperatura da minha testa. — Você não parece ter febre. Talvez seja algum problema com o nível de açúcar no sangue. Vou pegar algo para você no bistrô.

— Não me deixe. — Agarro o braço dela.

— Por que não? Eu já volto.

Percebendo o quanto eu pareço maluca, mudo de tática. — A vitrine. Nos temos que... — A explicação se detém na minha língua quando percebo que ela já terminou de montá-la. — Ah...

— É, ah. — Heather solta meus dedos de sua manga. — Vou acender as velas também. Por que você as apagou? Você precisa de todas as vibrações relaxantes possíveis. Vou trazer um croissant e algo para beber; algo sem cafeína. Nunca vi você tão pilhada. — Antes que eu possa responder, ela já atravessou a sala.

A porta se fecha atrás dela, deixando-me só com a decoração da vitrine. Uma peruca azul e uma fantasia aderente de anjo negro abraçam a silhueta da Moça na Janela. As asas gigantes estão amarradas em volta dos ombros do manequim com uma tira de couro da mesma cor.

Lantejoulas pretas cintilam sobre as plumas, e há fumaça saindo da máquina de gelo seco, serpenteando a cena macabra. De alguma maneira, aquelas asas e a fumaça são uma coisa só. Penso na minha amiga libélula. Por que Sinu a atacou com a tesoura de poda?

Só porque ela me atraiu para uma tempestade? Tem que haver algo mais sério, algum tipo de animosidade já existente, mas não consigo compreender qual. Relutante, viro o rosto para o pôster. Seus olhos escuros olham direto para mim, penetrantes. — Você sabe, não é? — sussurro. — Você tem as respostas.

Silêncio...

Rio com desdém — um som vazio e solitário. Estou oficialmente perdendo a razão. Insetos e flores que sussurram já não são mais do que o suficiente? Esperar que um pôster responda? Isso me torna uma candidata ao sanatório.

Tremendo, vou até o computador do outro lado e encontro o site que pesquisei antes. Passo direto por tudo que já vi, tentando encontrar uma conexão com os desvarios de Sinu. Há outra série de fotos: um coelho branco tão magro que parece um esqueleto; flores ostentando braços, pernas e bocas de onde pinga sangue; uma morsa com algo que se projeta de sua metade inferior, como raízes de árvores. É a turma do País das Maravilhas depois de uma boa dose de radiação venenosa. É também uma conexão: de alguma forma, a libélula e esses seres do reino subterrâneo estão ligados à história de Lewis Carroll. Não é de admirar que vovó Alícia tenha continuado a pintar os personagens da história nas paredes.

Desde Alice, minha família é maluca. Será que ela realmente entrou na toca de um coelho e voltou para contar a história, mas nunca mais foi a mesma depois dessa experiência? Aliás, quem seria? Todos os meus pelos se eriçam como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo.

Depois da última imagem, há uma moldura antiga de hera e flores nos dois lados do fundo preto, e um poema centralizado em letras brancas adornadas.

Era briluz. As lesmolisas touvas


Roldavam e reviam nos gramilvos.


Estavam mimsicais as pintalouvas,


E os momirratos davam grilvos.[1]


Eu já vi esse poema no livro original. Com o bloco de anotações em mãos, rabisco País das Maravilhas no alto e copio o poema, palavra por palavra.

Abro uma nova janela de pesquisa para buscar interpretações. Um mesmo site apresenta quatro possibilidades diferentes. E se todas elas estiverem erradas? Leio superficialmente dois outros sites até que o terceiro me chama a atenção. Ele mostra ilustrações junto com as palavras — criaturas com narizes longos e envergados cavam buracos debaixo de relógios de sol. Uma sensação de que conheço aquilo toma conta de mim, e eu fecho os olhos. Crianças brincam na tela das minhas pálpebras. Um menino alado e uma menina loira mergulham em um buraco debaixo da estátua de uma criança que equilibra um relógio de sol na cabeça.

Não sei de onde vêm essas imagens. Devo tê-las visto em algum filme — mas não consigo lembrar qual. Elas parecem tão reais — e tão familiares.

Anoto rapidamente as definições daquela interpretação do poema. De acordo com quem escreveu, briluz significa quatro horas da tarde; a touva é uma criatura mítica — uma mistura de texugo e lagarto com focinho de saca-rolhas. Elas são conhecidas por fazerem seus ninhos debaixo de relógios de sol. Roldar e reviar são verbos que significam cavar na terra como uma hélice gigante, revirando o solo até que um túnel profundo seja formado.

No contexto do poema, o buraco está sendo cavado em um local específico, considerando que gramilvo é a grama debaixo de um relógio de sol. As outras palavras não estão definidas, mas já é um começo. Segundo o poema e as imagens na minha cabeça, parece que a toca do coelho pode estar localizada debaixo daquela estátua do menino com o relógio de sol. Eu só preciso encontrá-la.

Volto para o site dos intraterrenos e vou descendo para ver se há mais algum detalhe que tenha me escapado. No final, um enorme espaço preto que vai até o fim da página. Nenhum outro texto, nenhuma foto, mesmo com muito espaço para colocar algo. Será que o webdesigner quis deixar espaço para mais tarde?

Estou quase saindo do site para pesquisar relógios de sol na Inglaterra, na esperança de encontrar uma cidade e um endereço, quando um movimento no fundo escuro do site me chama a atenção. É como assistir a um grilo nadando em meio à tinta. Mas, em vez de um grilo, a simulação de uma libélula negra flutua pela tela, como a libélula do meu passado.

Estou começando a achar que a libélula está ligada a tudo: ao menino e à menina que vi ao lado do relógio de sol, à verdadeira maldição de minha família. Se pelo menos eu conseguisse lembrar mais sobre o inseto. Mas minhas lembranças estão borradas e obscurecidas, como olhar para baixo de uma altura estonteante através de nuvens espessas.

A animação volta a deter minha atenção. Ela começa no alto de um espaço vazio. Quando chega a um quarto da descida, um texto em azul brilhante aparece por baixo do rastro das asas da libélula.

Encontre o tesouro.

Leio e torno a ler até que meus olhos queimam, chocados pela semelhança com o que Sinu disse.

"As margaridas escondem o tesouro. O tesouro enterrado."

Papai cavou todo o jardim quando ela foi internada pela primeira vez, anos atrás — e o deixou destruído. Não havia nada enterrado lá. Então o que será que ela queria dizer? Outra linha de texto aparece na tela. 

Se deseja salvar sua mãe, use a chave.

Dou um pulo para trás, me afastando do computador, com o coração acelerado e as mãos suando dentro das luvas. Não percebi. As palavras estão olhando para mim, piscando. Como alguém pode estar falando comigo?

Como alguém saberia sobre Sinu e como me encontrou?

Olho para todos os cantos da loja vazia. Tenho que contar para alguém. Papai está fora de cogitação; ele me mandaria para a terapia de eletrochoque. Heather vai pensar que é só mais um dos meus atormentadores da escola me pregando mais uma peça.

A Hailee. Apesar da estranheza entre nós, sei que ela sempre irá me apoiar. Vou mostrar o site para ela. Só o fato de pensar no seu sorriso confortador — que diz que ninguém me compreende como ela — já me resgata do limite do terror.

Ao som da campainha, olho para cima. O rosto de Taylor retribui o olhar e eu quase solto um gemido bem alto. Seu cabelo na altura dos ombros reflete o brilho dourado do sol.

As palavras Brilho, Glamour e Muita Petulância estão escritas em letras reluzentes na sacola que ela carrega. Volto ao computador. A tela fica branca e mostra uma mensagem de erro.

— Oi, Alyssa. — Taylor examina atentamente a prateleira de joias a caminho do balcão. — Alguma promoção hoje? — Ela ergue um broche de strass em forma de caveira com penduricalhos de ossos cruzados. — De preferência algo que não cheire a casa funerária.

Ignorando-a, digito mais uma vez o endereço do site. A mensagem de erro volta a aparecer. Chacoalho o mouse. Se eu não conseguir encontrar o site novamente, nunca poderei convencer Hailee de que o que vi era real.

Taylor chega mais perto. Uma das alças de sua bolsa de grife escorrega de seu ombro bronzeado. — Acho que não importa. Gente como você não se importa com quem usou essas coisas e nem se estão mortos ou não.

Depois de fazer uma pausa para torcer o nariz para uma camiseta, ela joga a sacola de compras e a bolsa do outro lado do balcão e rapidamente apoia os braços na beirada dele. Ela era uma ótima tenista, mas, quando viu que seu pai nunca ia aos torneios, desistiu. Uma pena.

Os dez centímetros extras das minhas botas me elevam quase à estatura dela. — Você não precisa se aprontar para um baile? — pergunto, esperando que ela vá embora.

O olhar dela se enche de delicadeza e inocência. — É por isso que estou aqui. Vim na loja ao lado pegar o presente de formatura da Hailee. Pensei em deixá-lo na casa dela de tarde para ela poder usar hoje à noite.

Nem pergunto o que ela poderia ter comprado para Haile em uma joalheria.

— O que é isso? — Ela estica a mão por cima do balcão e puxa minhas anotações para si. Tento pegá-las, mas ela é rápida. — País das Maravilhas, é? Então está pesquisando sobre os coelhos da família.

— Tchau, Taylor. — Recupero minhas anotações à força, e acidentalmente derrubo sua bolsa no chão diante do balcão.

Ela nem se incomoda em pegá-la. Sua expressão endurece. — Nada de tchau. Primeiro vamos conversar.

Aquela presença inquieta em minha mente me provoca para revidar. Uma explosão de adrenalina faz minha língua disparar. — Obrigada, mas prefiro falar com um besouro.

Os olhos de Taylor se arregalam, como se ela tivesse se surpreendido com o insulto. Sorrio. É bom a gente se sentir por cima de vez em quando.

Ela demora alguns segundos para pensar em uma resposta. — Você fala com besouros, é? É bom saber que vai poder brincar com alguém quando Hailee for embora. E não fique pensando que pode usar essa bobagem de amiga magoada para impedir que ela se mude para Londres comigo no mês que vem.

— Com você? — Acabo de despencar de onde estava. Sinto-me como quando estava andando de skate e caí — como se um holofote de mineiro estivesse focado em mim.

— Ela ainda não te contou? — Taylor estava exultante. — Não me surpreende. Ela está sempre tão preocupada com seu estado mental. — Ela se encosta no balcão e coloca seu rosto a poucos centímetros do meu. Seu perfume caro faz meu nariz pinicar. — Vou fazer o último ano do Ensino Médio em uma escola preparatória em Londres. Me ofereceram um contrato como modelo lá. Meu pai vai alugar um apartamento para a Hailee. Assim, todo mundo sai ganhando. Hailee pode fazer contatos para se promover como pintora através das pessoas que eu vou conhecer, e nós ficamos na casa dela nos finais de semana. Interessante, não acha?

Sinto um aperto no peito.

Ela se retrai. Há certo pânico em sua expressão. Por quê? Ela acaba de anular a chance de eu ter a amizade de Hailee só para mim mais uma vez. Agora ela tem tudo.

— Nossa! Você realmente achou que tinha uma chance, não? — Taylor zomba. — Só porque ela pediu que você posasse para alguns rabiscos, isso não quer dizer que ela é a fim de você.

Fico boquiaberta. Hailee nunca me pediu para posar. Algumas vezes ela tirou seu lápis e caderno de desenho quando estávamos juntas, mas eu nunca imaginaria que ela estivesse me retratando.

— A arte dela trata da morte, da tragédia, então é óbvio que ela goste de seu estilo Mortícia. Isso não é um elogio. Não se iluda.

Estou atordoada demais para responder.

— Nós duas gostamos da Hailee. — A voz dela fica mais suave, e posso ver que, pelo menos desta vez, ela está sendo sincera. — Mas você gosta dela o bastante para deixá-la fazer o que é melhor para ela? Ela tem talento demais para ficar servindo de babá para você o resto da vida, como seu pobre pai. Você não acha que isso seria uma tragédia colossal?

A ânsia de arrancar os olhos dela faz minhas veias fervilharem. — Pelo menos eu tenho um pai que gosta de mim o bastante para me apoiar. — As palavras a atingem feito setas envenenadas. Sua expressão ferida faz com que eu me arrependa de ter dito aquilo.

A campainha soa e o aroma de café expresso invade a loja. — Ah, droga. — Heather lança um olhar de raiva para Taylor enquanto a porta se fecha atrás dela. — O que está fazendo aqui? — Ela para perto de mim e coloca de lado um croissant e uma vitamina de fruta.

Taylor limpa a garganta e sua máscara de indiferença volta ao lugar. — Alyssa e eu estávamos conversando sobre Londres e sobre por quê ela não é bem-vinda para ficar comigo e a Hailee. — Ela pega sua sacola. — Fede aqui na terra dos mortos. Fui.

No instante em que ela sai, Heather vira-se para mim. — Um dia desses ela vai se descuidar e mostrar a Hailee esse lado perverso.

Eu arranco a pontinha do meu croissant. — É por causa dela que Hailee não quer que eu vá. Ela não quer que eu... atrapalhe elas.

Torcendo sua meia arrastão com uma caneta, Heather não responde.

— Por que não me contou?

Os olhos dela se enchem de remorso. — Eu só soube que ela ia hoje de manhã. E eu não sabia como contar para você quando você entrou. Você está sofrendo tanto com sua mãe.

Dobrando as anotações do País das Maravilhas, olho novamente para o computador fora do ar. O que importa se o site sumiu? Hailee não vai mais me ajudar e nós nunca mais seremos como antes.

— Camz?

Os soluços que eu vinha reprimindo desde a minha briga com papai se aninham em meu peito. E explodem como milhares de bolhas de ácido, consumindo meu coração silenciosamente. Mas me recuso a chorar.

— Vamos lá — Heather me anima. — Se alguém pode convencê-la a largar Taylor, é você. Conte para ela. Conte o que você sente de verdade.

Penso nas maravilhosas pinturas de Hailee. Em todas as coisas que ela pode ser, se tiver oportunidade. Ela não precisa de mais bagagem emocional para atrasá-la. E eu tenho o suficiente para afundar um petroleiro. Ademais, não conseguirei aguentar se ela me recusar.

Ela já escolheu Taylor em vez da gente.

Enfio as anotações no bolso da saia. — Nada a dizer. Eu me apaixonei por ela quando estávamos na sexta série, então não conta. — Ela começa a dizer alguma coisa, mas eu a detenho. — E você também não vai contar. Nós fizemos a promessa do dedo mindinho, e isso é para sempre.

Uma ruga de preocupação surge em sua testa enquanto ela pega seu vestido e sua maquiagem para o baile. — Isso não terminou.

— Terminou, sim. A Hailee fez a escolha dela.

Balançando a cabeça, ela sai.

No momento em que a porta se fecha, eu me volto para O corvo. O cara emo olha para mim, e seus olhos vertem lágrimas negras, como se ele soubesse da minha dor. Sinto o estranho desejo de estar em seus braços — aninhada no couro —  e de alguma forma sei que não é ele, e sim ela.

Estou esperando dentro da toca do coelho, amor. 

Encontre-me. 

Seu olhar marca o desafio na minha alma como um ferrete em brasa.

Assustada com o aprofundamento da nossa conexão, dou um passo para trás e derrubo o porta-canetas com o cotovelo. Um lápis rola do balcão em frente e cai no chão.

Dou a volta para pegá-lo e fico surpresa ao ver a bolsa de Taylor no chão. Ela saiu com tanta pressa que esqueceu de pegá-la.

Resisto ao desejo de jogar as coisas dela na rua. Em vez disso, pego a bolsa pelas alças e a guardo debaixo do balcão até ela voltar. O zíper está meio aberto, revelando um grande maço de dinheiro.

Confusa, tiro o dinheiro, desenrolando o maço de notas de vinte e cinquenta dólares. Tem mais de duzentos e quarenta dólares. Se eu acrescentar aquilo às minhas economias em casa, terei o suficiente para comprar uma passagem de ida para a Inglaterra, e ainda sobrará um pouquinho para um passaporte falso e as despesas; então, eu só precisaria encontrar um endereço para o relógio de sol.

Não seria a primeira vez que ficaríamos devendo aos Swift. Na quinta série, papai pegou um empréstimo com o pai de Taylor para ajudar a pagar as despesas médicas de Sinu.

Foi assim que Taylor ficou sabendo sobre meu parentesco com Alice Liddell. Então, de certa maneira, é uma indenização justificada. O pagamento de Taylor a mim por todos os anos em que ela tornou minha vida um inferno.

Meus dedos tremem enquanto eu jogo a bolsa estripada no fundo da lata de lixo e coloco papéis por cima. Estendo a mão por baixo do balcão para pegar o aromatizador e o derrubo— junto com o dinheiro — sobre o livro de cristais místicos de Perséfone. O volume tem um elástico costurado na encadernação que mantém as páginas fechadas.

Volto-me mais uma vez para o pôster. Os soturnos olhos, do que eu imaginava ser um rapaz, mas que agora tenho certeza ser de uma garota, parecem controlar tudo que eu faço, e não há nada que me impeça de ultrapassar os limites desta vez. Não há mãe, não há pai, e com certeza não há Hailee. Nem mesmo seu sorriso poderia me salvar agora.



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