História O Mediador - A Terra das Sombras - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, Kai, Lay, Sehun, Suho, Tao
Tags Chanbaek, Exo, Fantasmas, Mediador
Exibições 33
Palavras 4.915
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Escolar, Fantasia, Romance e Novela, Saga, Violência, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


ATENÇÃO

A história a seguir é baseada na obra A Mediadora de Meg Cabot, uma das minhas sagas favoritas, a qual eu super recomendo. Espero que gostem desse mundo gay e kpopizado. Boa leitura!

Ps¹: Desculpem pela capa porca.
Ps²: Se alguém, que tenha tempo e um super coração bondoso se disponibilizar a fazer uma capa para a história eu ficaria imensamente grata :')
Ps³: Soneca, Dunga e Mestre, são Lay, Kai e o V do BTS, na maioria das vezes Baekkie não os chama pelo nome, então só para vocês saberem de quem se trata.

Capítulo 1 - Capitulo 1


O Mediador – A Terra Das Sombras, capitulo 1

 

Mediador

Cargo que determinado indivíduo executa como intermediário entre duas partes distintas, que normalmente se opõem.

 

-xxx-

 

Disseram que lá havia palmeiras.

Eu não acreditei, mas foi o que me disseram. Disseram que do avião eu poderia vê-las.

Eu sei perfeitamente que no sul da Califórnia há palmeiras. Não custa lembrar que não sou um pateta completo. Mas era para o norte da Califórnia que eu estava indo. Pois se a minha mãe tinha dito para eu não dar os meus casacos...

- Não, senhor - disse ela. - Você precisa deles. Das suas capas também. Lá pode fazer frio. Talvez não como em Nova York, mas o suficiente.

Por isso é que eu estava usando minha jaqueta de couro preto no avião. Provavelmente poderia tê-la mandado com o resto da minha mudança, mas acho que me sentia melhor com ela no corpo.

Então lá estava eu naquele avião, com uma jaqueta de couro, vendo as palmeiras pela janela ao aterrissar. Genial! Jaqueta de couro e palmeiras. Não podia estar acertando mais, exatamente como achava que ia mesmo...

...Para não dizer o contrário.

Minha mãe não gosta muito dessa jaqueta, mas eu juro que não a vesti para deixá-la furiosa. Não fiquei aborrecido com o fato de ela ter decidido se casar com um sujeito que vive a 4.800 quilômetros de distância, me obrigando a sair do colégio no meio do segundo ano, a abandonar o melhor - no fundo, o único - amigo que tive desde o jardim de infância, e a deixar a cidade onde vivi todos os meus 16 anos.

Não mesmo. Não fiquei nada aborrecido.

Pois o fato é que eu realmente gosto do Vincent, meu novo padrasto. Ele não é coreano como meu pai, mas sua ex-mulher era. Ele também é bom para a minha mãe, a deixa feliz, e é bacana comigo. Essa história de mudar para a Califórnia é que me deixou meio puto.

E acho até que ainda nem falei dos três filhos de Vincent.

Estavam todos lá para me receber quando desci do avião. Minha mãe, Vincent e os três filhos dele. Soneca, Dunga e Mestre. É como eu os chamo. São os meus novos meios-irmãos.

- Baekkie!

Mesmo se eu não tivesse ouvido minha mãe berrando meu nome quando passei pelo portão, não tinha como deixar de vê-los, minha nova família. Vincent fazia os dois menores segurarem aquele enorme cartaz dizendo “Seja bem-vindo BaekHyun!”. Todos os passageiros que saíam do avião passavam por ali e ficavam dizendo “Olha só que gracinha!” e sorrindo para mim com aquele olhar enjoativo.

É isso aí. Não podia mesmo estar acertando mais. Estou acertando horrores.

- Tudo bem - fui dizendo, enquanto me aproximava depressinha da minha nova família. - Já podem abaixar isso aí.

Mas a minha mãe estava preocupada demais em me abraçar para prestar atenção. Ficava dizendo: “Meu filhotinho!” Eu odeio quando alguém que não seja minha mãe me chama de filhotinho, parece até que eu sou um cachorro. Meus novos irmãos ficavam apenas rindo, por cima daquele cartaz imbecil, Dunga por ser boboca demais, Mestre porquê... bem, ele até que podia estar contente mesmo por me ver. O Mestre tem dessas esquisitices. Soneca, o mais velho, ficava lá parado, com ar de... de sono, claro.

- Como foi a viagem? - Vincent tirou a mochila do meu ombro e botou no dele. Visivelmente, estranhando o peso. - Uau! O que é que você está trazendo aqui? Não sabia que é considerado crime contrabandear jogos de Nova York para outros estados?

Eu sorri para ele. Ele não podia ter a menor ideia do que é crime no estado de Nova York, pois só esteve lá umas cinco vezes. E por sinal foi o suficiente para convencer minha mãe a se casar com ele. Vincent é aquele tipo de pessoa que se acha o engraçadão mas não tem graça nenhuma sabe? Mas ele é legal, e não demonstrou preconceito algum ao descobrir que a mulher com quem estava prestes a se casar possuía um filho homossexual, pelo contrário, sua reação foi a mais neutra possível, dizendo que me aceitaria e que me amaria como sou.

- Não são jogos – eu disse. – São livros. E ainda tenho mais quatro malas.

- Quatro? – Vincent fingiu que estava espantado. – Você por acaso pensa que está fazendo uma mudança?

Não sei se já disse que ele se acha o maior comediante? Só que não é. Ele é carpinteiro.

- Baekkie – disse Mestre, todo entusiasmado. – Você reparou que na aterrissagem a cauda do avião sacudiu um pouco? Foi uma corrente de ar ascendente. Acontece quando uma massa de ar que se move em grande velocidade vai de encontro a uma contracorrente de vento com velocidade igual ou maior.

Mestre, o filho menor do Vincent, tem 12 anos, mas parece ter uns 40. Na festa de casamento, ficou quase o tempo todo me falando de mutilação de cabeças de gado importadas, e que a tal da Área 51 não passa de uma grande farsa do governo americano, que não quer que a gente saiba que “não estamos sós” neste universo...

- Puxa, filhotinho – minha mãe repetia. – Estou tão feliz por você ter vindo. Você vai adorar a casa. No início não parecia que era a nossa casa, mas agora que você está aqui... E espere só até ver o seu quarto.

Antes de se casarem, Vincent e minha mãe passaram semanas procurando uma casa que tivesse pelo menos um quarto para cada filho. Finalmente se decidiram por uma enorme casa na colina de Carmel, que só puderam comprar porque estava em um estado lamentável, e a firma de construção para a qual Vincent costuma trabalhar a reformou por um preço bem razoável. E há dias minha mãe vinha falando sobre o meu quarto, que ela jura ser o mais bonito da casa.

- Que vista! – dizia ela a toda hora. – A sacada do seu quarto dá para ver o mar! Você com certeza vai adorar.

Eu sabia mesmo que ia adorar. Exatamente como adoraria trocar o bagel de Nova York por brotos de alfafa, o metrô pelas pranchas de surfe e tudo o mais.

- Gostou do cartaz? – Dunga perguntou com aquela voz de gente tapada dele.

Nem consigo acreditar que ele tem a mesma idade que eu. Mas não dava mesmo para esperar outra coisa: ele está na equipe de futebol americano. A única coisa em que consegue pensar, pelo que pude perceber quando tive que ficar sentado ao seu lado na festa de casamento (fiquei sentado entre ele e o Mestre, dá para sentir como a coisa fluiu), são em jogadas e shakes de proteína para ganhar massa muscular.

- Legal – respondi, arrancando-o das suas mãos e virando-o de cabeça para baixo para ninguém mais ler os dizeres. – Podemos ir agora? Quero pegar minhas malas antes que alguém tenha a mesma ideia.

- Claro, claro! Puxa, estou tão contente de te ver! - Disse minha mãe, dando-me um último abraço. – Pensei que já tivesse falado com você sobre essa jaqueta, BaekHyun. E eu achei que você tinha jogado esses jeans fora. – Ela completou baixinho, para ninguém mais ouvir.

Eu estava usando meus jeans mais velhos, os que são furados nos joelhos. Combinação dos jeans e botas com minha jaqueta preta e minha mochila das forças armadas me faziam parecer um adolescente rebelde fugindo de casa num filme de TV.

Mas, prestem atenção, para atravessar o país num avião durante oito horas, a gente tem mais é que se sentir confortável, não é mesmo?!

Foi o que eu disse, e minha mãe revirou os olhinhos e deixou pra lá. Esse é um lado bom da minha mãe, ela não fica insistindo, como outras mães.

Soneca, Dunga e Mestre não tem nem ideia de como são sortudos.

- Tudo bem – concordou ela. – Vamos pegar sua bagagem.

E levantando novamente a voz, chamou:

- Vamos Lay, vamos pegar as coisas do Baekkie.

Ela precisou chamar Soneca pelo nome, pois ele parecia que já estava dormindo em pé. Uma vez perguntei à minha mãe se o Lay, que já está adiantado no colegial, sofre de narcolepsia ou é viciado em alguma droga, e ela estranhou que eu estivesse dizendo aquilo. É que o cara fica lá o tempo todo piscando sem falar com ninguém.

Espera aí, não é verdade. Uma vez ele realmente me disse uma coisa. Perguntou se eu fazia parte de alguma gangue. Foi no casamento, quando me pegou do lado de fora fumando um cigarro.

Eu juro que foi o primeiro e único cigarro que eu já fumei. O estresse era muito grande. Eu estava preocupado com o casamento da minha mãe, ela ia se mudar para a Califórnia e podia me esquecer. Juro que nunca mais fumei nenhum cigarro.

Não me interpretem mal quando eu falo do Lay. Com seu metro e setenta e poucos, a mesma cabeleira escura e o mesmo brilho nos olhos do pai, ele é o que o meu melhor amigo, ZiTao, chamaria de um pedaço. Ele apenas, não é exatamente a mente mais brilhante do mundo, se é que vocês me entendem.

Mestre continuava falando da velocidade do vento. Estava explicando que a velocidade necessária para que o avião possa romper a força gravitacional da Terra, é conhecida como velocidade de decolagem. Decidi então que poderia ser útil ter o Mestre por perto para os deveres de casa, mesmo eu sendo três períodos mais adiantado que ele.

Enquanto Mestre falava, eu ia olhando em volta. Era a primeira vez que eu ia à Califórnia, e vou dizer uma coisa: embora ainda estivéssemos no aeroporto – e não era qualquer um, mas o Aeroporto Internacional de San José – já dava para sentir que não estávamos mais em Nova York. Quer dizer, para começar, era tudo limpo. Nada de sujeira, nem de bagunça, nem pichações. O saguão era todo em tons pastéis, e qualquer um sabe que a sujeira aparece mais em cores claras. Por que você acha que os nova-iorquinos se vestem de preto o tempo todo? Nada a ver com estar na moda. Não mesmo. É só para não precisar botar as roupas para lavar toda vez que saímos com elas.

Mas este problema não precisa existir na ensolarada Califórnia. Pelo que eu podia perceber, a moda aqui eram os tons pastéis. Passou por nós um cara vestindo bermuda caqui com uma camisa de seda vinho. Quer dizer, se aquilo era vestido a caráter na Califórnia, dava para ver que eu ia passar pelo maior choque cultural.

E sabe o que mais eu achei estranho? Ninguém estava brigando. Havia filas de passageiros aqui e ali, mas eles não estavam levantando a voz com os balconistas. Em Nova York, todo cliente está sempre brigando com os atendentes, não importa onde: no aeroporto, na carrocinha de cachorro-quente, em qualquer lugar. Aqui não. Estava todo mundo perfeitamente calmo.

E acho que eu sabia por quê. Simplesmente não me parecia que houvesse qualquer motivo para se irritar. Lá fora, o sol se derramava nas palmeiras que eu havia visto do avião. No estacionamento haviam gaivotas ciscando – nada de pombos, gaivotas mesmo, grandes gaivotas brancas e cinzentas. E quando fomos apanhar minha bagagem, ninguém se preocupou se os adesivos nelas combinavam com os meus canhotos. Nada disso. Todo mundo só ficava dizendo “Até logo! Tenham um bom dia!”.

Completamente irreal na minha visão nova-iorquina.

Antes de eu viajar, o ZiTao (meu melhor amigo no Brooklyn; bem, na verdade, a meu único amigo) tinha me dito que eu ia ver que ter três meios-irmãos tinha lá suas vantagens. E ele sabia do que estava falando, pois era o mais novo de quatro – não meios-irmãos, mas irmãos de verdade. Seja como for, não acreditei nele, assim como não havia acreditado nas pessoas que falavam de palmeiras. Afinal eu havia sido filho único durante 16 anos, sendo criado pela minha mãe e minha avó, ou seja, tive todos os mimos que poderia querer. Mas quando o Soneca pegou duas malas minhas e o Dunga pegou as outras duas e eu não precisei carregar absolutamente nada, pois Vincent já estava com a minha mochila de mão, finalmente eu entendi do que ele estava falando: os irmãos podem ter sua utilidade, mesmo que eles só estivessem fazendo isso por eu ter acabado de chegar e provavelmente me sentir cansado da viagem. Eles podem carregar o que é pesado para você. Pois cá entre nós, eu não era um exemplo de força, e minha baixa estatura e falta de músculos me deixavam com uma aparência um tanto frágil (por isso o apelido “filhotinho”). Entretanto de frágil eu não tinha nada.

Eu tinha feito minhas malas, e sabia o que havia nelas. Não estavam nada leves. Mas Soneca e Dunga iam andando assim tipo, sem problema, vamos nessa.

Com minha bagagem em mãos, fomos para o estacionamento. Quando as portas automáticas se abriram, todo mundo – inclusive minha mãe – levou as mãos ao bolso para botar os óculos escuros. Aparentemente estavam todos sabendo alguma coisa que eu não sabia. Mas bastou chegar à calçada para entender o que era.

Aqui faz sol!

E não é só que faz sol – é uma luminosidade incrível, tão forte que os olhos doem. Eu também tinha os meus óculos escuros; estavam em algum lugar, mas como estava fazendo uns cinco graus caindo chuva de granizo quando saí de Nova York, nem me passou pela cabeça deixá-los na mão. Quando minha mãe me disse que nós íamos nos mudar – ela e Vincent decidiram que era mais fácil ela se mudar, pois tinha só um filho e trabalhava como repórter de TV, do que ele, que tinha três filhos e um negócio próprio -, ela me explicou que eu ia adorar o norte da Califórnia.

- É lá que foram feitos todos aqueles filmes que você gosta! – Disse ela

Eu gosto de vários filmes, gravados em vários lugares, e nem por isso quero me mudar para eles.

- Lá é que se passam as histórias de todos aqueles romances do Steinbeck que você leu na escola – explicou. – Você lembra, O Pônei Vermelho...

Não fiquei tão convencido assim. Do Pônei Vermelho, só me lembrava que não haviam meninas na história, embora houvesse um bocado de colinas. E agora ali no estacionamento, passando os olhos pelas colinas ao redor do Aeroporto Internacional de San José, eu podia ver que havia mesmo muitas colinas, e que a relva nelas estava ressecada e amarelada.

Mas, espalhadas pelas colinas, havia umas árvores diferentes de todas que eu já tinha visto. Eram achatadas no alto, como se um punho gigantesco tivesse vindo do céu e dado um murro. Mais tarde eu fiquei sabendo que eram ciprestes.

E pelo estacionamento todo, que evidentemente tinha um sistema de irrigação, haviam arbustos enormes com flores vermelhas gigantescas, quase sempre ao redor das palmeiras incrivelmente altas e grossas. Depois, olhando melhor as flores, eu descobri que eram hibiscos. E os estranhos besouros que ficavam pairando em volta, com um zumbido, não eram besouros coisa nenhuma, mas beija-flores.

- Claro – disse minha mãe quando eu observei isto. – Eles estão em toda parte. Lá em casa nós temos bebedouros para eles. Se quiser você pode pendurar um na sua janela também.

Beija-flores bebendo aguinha na nossa janela? Lá no Brooklyn os únicos pássaros que vinham até minha janela eram pombos. E minha mãe não chegava exatamente a me estimular a alimentá-los.

Meu momento de alegria com os beija-flores foi interrompido quando o Dunga de repente anunciou que ia dirigir, e se encaminhou para o assento do motorista do enorme utilitário de que nos aproximávamos.

- Eu vou dirigir – disse Vincent com firmeza.

- Puxa, pai – fez o Dunga. – Como é que eu vou conseguir minha carteira se você nunca me deixa praticar?

- Você pode praticar no Rambler – respondeu Vincent, abrindo a mala do Land Rover e começando a acomodar minha bagagem. – Você também Baekkie.

Fiquei espantado.

- Eu também o quê?

- Você pode praticar direção no Rambler, mas só tendo ao lado alguém que tenha carteira de motorista – respondeu ele, sacudindo o dedo indicador na minha direção.

- Não sei dirigir – disse.

Dunga soltou uma gargalhada que parecia um relincho.

- Você não sabe dirigir? – e com o cotovelo ele cutucou o Soneca, que estava recostado na lateral do carro, com o rosto voltado para o Sol. – Olha aí, Lay, ele não sabe dirigir!

- Não é tão incomum assim que um nova-iorquino não tenha carteira de motorista, Kai – disse Mestre. – Você não sabia que Nova York tem o tráfego mais pesado de todo o país, com uma população de mais de 13 milhões de pessoas num período de 6.400 quilômetros que vai de Connecticut, passando por Long Island? E que sua ampla malha de metrô, ferrovias e ônibus atende a um bilhão e setecentos milhões de usuários anualmente?

Todo mundo ficou olhando para o Mestre.

- Eu nunca ando de carro na cidade. - Minha mãe conseguiu dizer, modestamente.

- Não se preocupe, Baekkie – disse Vincent fechando a porta traseira do Land Rover. – Vamos te matricular sem demora numa autoescola. Num piscar de olhos você vai se equiparar ao Kai. - Eu olhei para Dunga. Jamais teria imaginado que alguém pudesse dizer que eu ainda precisava me equiparar ao Kai em alguma coisa, quero dizer, ele parece um panacão.

No trajeto para casa, que ficava a uma hora do aeroporto – e uma hora que não se passava nada rápido, onde eu estava espremido entre o Dunga e o Soneca, com Mestre empoleirado em cima da minha bagagem lá atrás e sem parar de discorrer sobre as maravilhas do departamento de trânsito da cidade de Nova York, - percebi que muitas surpresas me aguardavam, as palmeiras tinham sido apenas o começo. Também me dei conta de que as coisas seriam diferentes do que eu imaginara, e com certeza diferentes de tudo a que eu estava acostumado.

E não apenas porque eu passaria a viver do outro lado do continente. Não só porque, para qualquer lado que eu olhasse, via coisas que nunca havia visto em Nova York: quiosques de beira de estrada vendendo alcachofras e romãs a um dólar a dúzia; quilômetros e quilômetros de vinhedos se enroscando infindavelmente em caramanchões; plantações de limão e abacate; toda uma vegetação de um verde deslumbrante que eu nem era capaz de identificar. E por cima de tudo aquilo, um céu tão azul, tão vasto, que o enorme balão de gás que ia passando lá adiante parecia incrivelmente minúsculo – como um botão no fundo de uma piscina olímpica.

E além do mais havia o mar, que aparecia tão de repente diante dos nossos olhos que de início eu não reconheci, achando que era apenas mais uma plantação. Até que eu notei que aquela plantação estava brilhando, refletindo o sol e me enviando pequenas mensagens de SOS em código Morse. A luz era tão resplandecente que ficava difícil olhar sem óculos escuros. Mas lá estava ele, o Oceano Pacífico... enorme, quase tão vasto quanto uma coisa viva e pulsante se projetando contra uma tira de praia em forma de vírgula.

Como eu era de Nova York, só muito raramente tinha visto o mar, pelo menos com praia. Fiquei mesmo de boca aberta quando o vi, era mais forte do que eu. E quando meu queixo caiu todo mundo parou de falar – exceto Soneca, claro, que estava dormindo.

- Que foi? – perguntou minha mãe, espantada. – O que aconteceu?

- Nada – respondi. Eu estava sem graça. Claro que todos ali estavam acostumados a ver o mar. Iam pensar que eu era um panacão, ficando tão impressionado com aquilo. – Nada não, é só o mar.

- Ah, sim – disse minha mãe. – É lindo, não é mesmo?

- Ondas muito maneiras. Vou à praia antes do jantar. – Foi a vez de Dunga.

-Só depois de terminar aquele trabalho – cortou o pai.

-Poxa, paiêee!...

Foi a deixa para minha mãe começar a fazer uma longa e detalhada descrição do colégio para o qual eu ia, o mesmo que era frequentado por Soneca, Dunga e Mestre. O colégio, batizado com o nome de Junípero Serra, um espanhol que chegou no século XVIII e obrigou os indígenas americanos que já viviam na região a trocar sua religião pelo cristianismo, era na realidade uma gigantesca missão construída com tijolos crus, que todo ano atraía vinte mil turistas ou coisa parecida.

Na realidade eu não estava ouvindo o que minha mãe dizia. Meu interesse pela escola sempre foi mais ou menos igual a zero. O único motivo pelo qual eu não pudera mudar-me para cá antes do Natal é que não havia vaga para mim no Colégio da Missão; tive então de esperar o semestre seguinte para aparecer alguma coisa. Mas não me importei – acabei morando com minha avó, que além de ser uma excelente advogada criminal, é uma cozinheira de mão cheia.

Eu ainda estava me recuperando da impressão causada pelo mar, que havia desaparecido por trás das colinas. Eu ficava esticando o pescoço, na esperança de dar mais uma olhadela, e de repente me ocorreu...

- Espera aí. Quando esse colégio foi construído?

- No século XVIII – respondeu Mestre. – As missões, implantadas pelos franciscanos de acordo com as normas da Igreja Católica e do governo espanhol, foram criadas não só para cristianizar os indígenas americanos mas também para torná-los comerciantes bem preparados no contexto da sociedade espanhola. Inicialmente, a missão servia como...

- Século XVIII? – Insisti, inclinando-me para a frente. Soneca (cuja cabeça já estava repousando no meu ombro) e Dunga, ainda me espremiam. – Século XVIII?

Minha mãe deve ter percebido o pânico na minha voz, pois virou-se no assento da frente e disse, com sua voz suave:

- Baekkie, nós já conversamos sobre isto. Eu te expliquei que no colégio Robert Louis Stevenson a lista de espera é de um ano e você me disse que não queria ir para um colégio só de meninos, e o Andy ficou sabendo de histórias terríveis de drogas e violência nos colégios públicos aqui da região...

- Mas, século XVIII? – Meu coração batia forte, como se estivesse correndo. – Isto quer dizer que ele tem trezentos anos!

- Não estou entendendo – disse Vincent.

Já estávamos atravessando a cidadezinha de Carmel - cheia de chalés pitorescos – alguns deles com telhados de palha – e pequenos restaurantes e galerias de arte cheios de charme. Vincent tinha de dirigir com cuidado, pois as ruas estavam cheias de carros com placas de outros estados e não havia sinais luminosos, algo de que os moradores por algum motivo se orgulhavam.

- O que há de tão errado com o século XVIII? – Ele quis saber.

- Baekkie nunca gostou muito de prédios antigos. - Minha mãe respondeu, sem a menor inflexão na voz – aquela voz que eu chamo de voz de más notícias, a que ela usa na televisão para noticiar desastres de avião e assassinatos de crianças.

- Ah! – Fez Vincent. – Então é provável que ele não goste da casa.

Eu me agarrei no encosto de cabeça do assento dele.

- Por quê? – Perguntei engolindo em seco. – Por que não vou gostar da casa?

É claro que eu percebi o motivo assim que chegamos. A casa era enorme e inacreditavelmente bonita, com direito a torrinhas de estilo vitoriano e uma plataforma-mirante no telhado. Minha mãe mandara pintá-la de azul, branco e creme, e ela era cercada de grandes pinheiros frondosos e arbustos floridos por toda parte. Com três andares, toda construída em madeira e não a terrível combinação de vidro e aço ou a terracota de que eram feitas as casas ao redor, pode-se dizer que era a casa mais charmosa e de bom gosto da vizinhança.

Mas eu não queria pisar lá dentro.

Quando concordei em me mudar para a Califórnia com minha mãe, eu sabia que teria de enfrentar muitas mudanças. As alcachofras à beira da estrada, as plantações de limão, o mar... nada disso tinha importância. No fundo, a maior mudança seria ter de compartilhar minha mãe com outras pessoas. Desde que o meu pai morrera há dez anos, éramos só nós dois. E eu tenho orgulho de reconhecer que gostava das coisas desse jeito. Ela havia me entendido e me amparado quando descobri minha sexualidade, me defendendo a todo instante. E na realidade, se não fosse pelo fato de que Vincent fazia a minha mãe feliz, eu teria dito não à mudança.

Mas era impossível simplesmente olhar para os dois – Vincent e minha mãe – e não ver logo de cara que babavam completamente um pelo outro. E que tipo de filho eu seria se dissesse “nem pensar”? De modo que eu aceitei o cara, aceitei seus três filhos e aceitei o fato de que teria de deixar para trás tudo que eu tinha e amava – meu melhor amigo, minha avó, os bagels, o bairro do SoHo – para dar à minha mãe a felicidade que ela merecia. Mas eu ainda não tinha parado para pensar realmente no fato de que, pela primeira vez na minha vida, ia morar numa casa.

E não uma casa qualquer, e sim, como ia dizendo Vincent, cheio de orgulho enquanto tirava minha bagagem do carro e entregava aos filhos, um casarão que havia funcionado como estalagem no século XIX. Construído em 1849, ele aparentemente tinha uma péssima reputação na época. No salão principal havia ocorrido tiroteios por causa de jogos de cartas e mulheres. Ainda era possível ver os buracos das balas. Um deles, inclusive, havia sido emoldurado pelo meu novo padrasto. Ele confessava que era um pouco mórbido, mas dizia que não deixava de ser interessante. E apostava que estávamos morando na única casa da colina de Carmel que tinha um buraco de bala feito no século XIX.

- Hummm! - Exclamei. Aposto que era verdade.

Enquanto subíamos os muitos degraus até a varanda da frente, minha mãe ficava olhando para mim. Eu sabia que ela estava apreensiva com o que eu ia pensar. E eu estava mesmo meio aborrecido por ela não ter me avisado. Mas acho que posso entender por que ela não disse nada. Se ela tivesse dito que tinha comprado uma casa com mais de cem anos, eu não teria me mudado para lá. Teria ficado com a vovó até chegar a hora de entrar na faculdade.

Pois o fato é que a minha mãe tem toda razão: eu não gosto de construções antigas.

Embora desse para ver que em matéria de prédios antigos, aquele era realmente especial... De pé na varanda, a gente podia ver toda Carmel lá embaixo, a cidadezinha, o vale, a praia, o mar. Era uma vista sensacional, e muita gente estaria disposta a pagar milhões para tê-la – e na verdade pagava mesmo, a julgar pelo luxo das casas em volta; uma vista para ninguém botar defeito.

Ainda assim, quando minha mãe me chamou para ver meu quarto, eu tremi na base.

A casa era tão bonita por dentro, quanta por fora, toda alegre com seus amarelos e azul e seus alaranjados brilhantes. Eu logo reconheci as coisas da minha mãe, o que me fez sentir um pouco melhor. Seus livros estavam nas prateleiras embutidas na saleta. Suas plantas, por cujo transporte ela pagou caro, por não conseguir se separar delas, estavam em toda parte, em tripés de madeira, penduradas em frente às janelas, e no alto do corrimão da escada.

Mas também havia coisas que eu não estava reconhecendo: um belo de um computador branco na escrivaninha que minha mãe costumava usar para assinar cheques e pagar as contas; uma televisão de tela absurdamente grande, com fios ligando-a a um videogame; pranchas de surfe encostadas na parede ao lado da porta que dava para a garagem; um enorme cachorro babão, que parecia convencido de que eu trazia comida nos bolsos, onde não parava de enfiar seu enorme focinho úmido.

Todas essas coisas pareciam desconexas ao tipo de vida que eu e minha mãe tínhamos cultivado.

Meu quarto ficava no segundo andar, bem em cima do telhado da varanda. Durante todo o percurso do aeroporto minha mãe ficara falando agitada sobre o assento que Vincent tinha instalado na janela de três fazes projetada para fora, do tipo conhecido como bay window. A janela dava para a mesma vista que a varanda, aquela paisagem impressionante que abarcava toda a península. Era mesmo legal da parte deles me darem um quarto tão bom, o quarto com a melhor vista da casa.

E quando eu vi a trabalheira que eles tiveram, para que eu me sentisse em casa naquele quarto, comprando uma cama nova para mim, e reformando todo o banheiro, eu me senti culpado pela maneira como havia me comportado no carro.

Realmente me senti.

“Tudo bem. Não é tão ruim assim.” – Eu disse a mim mesmo caminhando pelo quarto – “Por enquanto você está tranquilo. Talvez tudo dê certo, talvez ninguém tenha sido infeliz nesta casa, talvez aquelas pessoas todas que levaram tiros merecessem mesmo...”

Foi ai que me virei para a janela e vi que alguém estava sobre o assento que Vincent fizera para mim com tanto carinho.

Voltei-me para meu padrasto, para ver se ele tinha notado a presença do intruso. Mas ele não tinha, embora a pessoa estivesse bem ali, diante do seu rosto.

Minha mãe também não a havia visto.

Desconfio que a minha expressão não devia ser das mais agradáveis, pois a expressão da minha mãe mudou completamente, e ela disse, num suspiro:

- Ah, Baekkie, outra vez?!


Notas Finais


Espero que tenham gostado, deixem o feedback de vocês :3
Pretendo postar uma vez por semana, pode variar os dias, mas toda semana acredito que saia um capítulo
Annyeonghaseyo!


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