História O Mediador - A Terra das Sombras - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, Kai, Lay, Sehun, Suho, Tao
Tags Chanbaek, Exo, Fantasmas, Mediador
Exibições 22
Palavras 3.469
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Escolar, Fantasia, Romance e Novela, Saga, Violência, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Annyeong!

Olha eu aqui de novo, disse que postaria uma vez por semana mas como tenho 5 capítulos prontos resolvi postar mais um, e avisar que começarei uma trilogia com o BaekHyun, e quem gosta de SeBaek, ChanBaek e KaiBaek pode valer a pena acompanhar, anyway, boa leitura!

ps: peço perdão por qualquer erro, eu beto as minhas fics mas pode passar algum, avisem caso esse erro seja muito horrível :')

Capítulo 2 - Capítulo 2


O Mediador – A Terra Das Sombras, capitulo 2

 

“Ah, Baekkie, outra vez?!”

 

-xxx-

 

Vou te explicar. É que eu não sou exatamente como qualquer garoto de 16 anos, e isso não tem nada a ver com o fato de eu ser gay. Não mesmo.

Quer dizer, acho que eu pareço bastante normal. Não uso drogas, nem bebo, nem fumo – tudo bem, só daquela vez em que o Soneca me pegou. Não tenho nenhum piercing, nem tatuagem. E muito menos fico me masturbando na companhia de revistas pornôs – essa parte eu acho meio estranha, afinal onde estão meus hormônios? -. No final das contas, sou um adolescente americano-coreano perfeitamente normal e comum.

Só que eu falo com os mortos.

Talvez não devesse dizer assim. Talvez devesse dizer que os mortos é que falam comigo. Quer dizer, eu não ando por aí procurando esse tipo de conversa. Na realidade, tento evitar essa coisa o máximo que posso.

Mas o negócio é que às vezes eles não me largam.

Não acho que eu seja maluco. Pelo menos não mais maluco que qualquer outro adolescente de 16 anos. Suponho que posso parecer maluco para certas pessoas. A maioria do pessoal no bairro onde eu morava certamente achava isto. Que eu era louco. Mais de uma vez puseram os conselheiros da escola para cuidar de mim. Às vezes chego a pensar que talvez até fosse mais fácil simplesmente deixar que me trancafiassem.

Mas mesmo no nono andar de Bellevue - que é onde eles trancafiam os loucos em Nova York - eu provavelmente ainda não estaria a salvo dos fantasmas. Eles me achariam.

Eles sempre me acham.

Ainda me lembro do primeiro. Lembro-me dele com a mesma clareza das minhas outras lembranças daquela época, o que significa que não me lembro de quase nada, pois tinha cerca de dois anos. Acho que me lembro tão bem quanto me lembro de ter livrado um camundongo das garras do nosso gato, mantendo-o protegido em meus braços até que minha mãe, horrorizada, o arrancasse das minhas mãos.

Puxa vida, eu só tinha dois anos, tá? Na época, ainda não sabia que a gente devia ter medo de ratos. Nem de fantasmas, por sinal. Por isso é que, quatorze anos depois, nenhum dos dois me assusta. Talvez me espantem, às vezes. E talvez eu tenha um pouco de nojo de ratos. Mas me dar medo?

Nunca.

A aparição, exatamente como o camundongo, era pequena, cinzenta e desprotegida. Até hoje não sei quem era. Mas eu falei com ela, pelo menos o máximo que uma criança de dois anos consegue falar, o que, claro, ela não entendeu. Os fantasmas não entendem crianças de dois anos, como aliás ninguém entende. Ela só ficou me olhando tristemente do alto da escada do nosso prédio. Acho que eu estava com pena dela, assim como tivera pena do camundongo, e queria ajudá-la. Só não sabia como. De modo que fiz o que qualquer criança de dois anos faria. Corri para a minha mãe.

Foi então que aprendi minha primeira lição a respeito dos fantasmas: só eu sou capaz de vê-los.

Quer dizer, é claro que outras pessoas também podem vê-los. Caso contrário, não teríamos casas mal-assombradas, histórias de fantasmas, seriados de mistério e tudo o mais. Mas existe uma diferença. A maioria das pessoas que veem fantasmas, só veem um. Já eu vejo todos os fantasmas.

Todos mesmo. Qualquer um. Qualquer pessoa que tenha morrido e por algum motivo ainda esteja por aí, em vez de ir para onde deveria, eu sou capaz de ver.

E posso lhe garantir que isto significa um bocado de fantasmas.

No mesmo dia em que eu vi meu primeiro fantasma também descobri que a maioria das pessoas - até mesmo minha mãe - não consegue vê-los. E aliás ninguém que eu tenha conhecido consegue. Ou pelo menos ninguém confessa.

O que me faz lembrar da segunda coisa que aprendi sobre os fantasmas naquele mesmo dia, há quatorze anos: no fim das contas, é sempre melhor não dizer que você viu um fantasma. Ou, no meu caso, qualquer fantasma.

Não estou dizendo que minha mãe entendeu que eu estava apontando para um fantasma ao mesmo tempo que balbuciava umas coisas incompreensíveis naquela tarde. Provavelmente pensou que eu estava querendo dizer alguma coisa sobre o camundongo que ela havia tirado de mim naquela manhã. Mas ela parecia descontraída e apenas concordou com a cabeça.

- Hummm... Escuta, filhotinho. O que vai querer para o almoço? Queijo quente?

Que tal hambúrguer?

Eu não esperava exatamente uma reação semelhante à que ela teve no caso do camundongo. Minha mãe, que na época também estava cuidando do bebê de uma vizinha, soltara um berro daqueles ao ver o camundongo nos meus braços e berrara mais alto ainda quando eu anunciei orgulhosamente que agora também tinha o meu bebê – qual é, eu sou um garoto sensível sacou?! -, e hoje eu me dou conta de que ela podia não ter entendido, já que não pegou a história do fantasma.

Mas eu esperava pelo menos que ela percebesse aquela coisa flutuando no alto da escada. Diariamente me davam explicações sobre praticamente tudo que eu encontrava pela frente, dos hidrantes às instalações elétricas. Por que não sobre aquela coisa no alto da escada? Mas quando eu estava comendo o meu queijo quente, um pouco depois, entendi que minha mãe não havia explicado nada sobre aquela coisa cinzenta, porque não a tinha visto. Para ela, a coisa não estava lá. Com dois anos de idade, isto não me pareceu absurdo. Na época, pareceu simplesmente mais uma coisa que tornava as crianças diferentes dos adultos. As crianças tinham de comer legumes até o fim. Os adultos não precisavam. As crianças podiam andar no carrossel no parque. Os adultos, não. As crianças podiam ver as coisas cinzentas. Os adultos não conseguiam.

E embora eu tivesse apenas dois anos, entendi que aquela coisinha cinzenta no alto da escada não deveria ser comentada. Não deveria ser comentada com ninguém. Nunca.

E eu não comentei. Nunca falei com ninguém sobre o meu primeiro fantasma, nem nunca comentei com ninguém sobre as centenas de fantasmas que viria a encontrar nos anos seguintes. E no fim das contas, comentar o quê? Eu os via. Eles falavam comigo. Na maioria das vezes, eu não entendia o que eles estavam dizendo, o que queriam, e geralmente eles iam embora. Ponto final.

Provavelmente a coisa teria continuado assim indefinitivamente se meu pai não tivesse morrido de repente.

Isso mesmo. Simples assim. Lá estava ele um belo dia na cozinha, cozinhando e contando piadas como sempre fazia, e no dia seguinte tinha partido.

E durante toda a semana que se seguiu à sua morte - que eu passei na varanda em frente ao nosso prédio, esperando meu pai voltar para casa - as pessoas ficavam me dizendo a toda hora que ele nunca voltaria.

Claro que eu não acreditava. E por que havia de acreditar? Meu pai não ia voltar? Eles tinham ficado malucos. Tudo bem, ele podia ter morrido. Esta parte eu tinha pego. Mas certamente ia voltar. Quem ia me ajudar com o dever de matemática? Quem ia acordar cedo comigo nos sábados para fazer waffles e ver desenhos animados? Quem ia me ensinar a dirigir quando eu tivesse 16 anos, como ele havia prometido? Quem me levaria até a Coréia para me mostrar como o Rio Han era lindo, como ele havia me dito que faria? Meu pai podia ter morrido, mas com toda certeza eu voltaria a vê-lo. Todo dia eu estava vendo uma quantidade de pessoas mortas. Por que não haveria de ver o meu pai?

E no fim eu estava certo. Puxa vida, meu pai tinha morrido. Quanto a isto não havia a menor dúvida. Ele morreu de um enfarte fulminante. Minha mãe mandou cremar seu corpo, e guardou suas cinzas numa antiga caneca de cerveja alemã - aquela com alça. Meu pai adorava a cerveja. Ela botou a caneca numa prateleira bem alta, onde o gato não pudesse derruba-la, e às vezes, quando achava que eu não estava por perto, eu a surpreendia conversando com ela.

Isto me deixava muito triste. Quer dizer, ela não tinha culpa. Se estivesse na situação dela, sem saber o que eu sabia, provavelmente eu também conversaria com a caneca.

Mas, como você vê, era aí que todas aquelas pessoas do meu quarteirão se enganavam. Meu pai estava morto, é verdade. Mas eu realmente voltei a vê-lo.

Na realidade, é provável que o veja mais hoje em dia do que quando ele estava vivo. Quando estava vivo, ele tinha de ir ao trabalho quase todo dia. Agora que está morto, já não tem muito o que fazer. De modo que o vejo um bocado. Às vezes até demais. O passatempo favorito dele é aparecer de repente quando eu menos espero. É meio chato.

Foi meu próprio pai que finalmente me explicou tudo. De modo que num certo ponto é bom que ele tenha morrido, pois de outra forma eu nunca ficaria sabendo.

Não, isso não é bem verdade. Certa vez, uma cartomante de tarô disse algo a respeito. Foi numa festa na escola. Eu só fui porque o ZiTao, ou Tao – como ele prefere -, não queria ir sozinho. Para mim ia ser uma chatice, mas acabei indo porque é para essas coisas que servem os melhores amigos, mesmo eu não tendo entendido porque diabos ele queria visitar uma cartomante. A mulher - Zara, médium vidente - leu as cartas do Tao, dizendo exatamente o que ele queria ouvir: você terá muito sucesso, será neurocirurgião, terá três filhos, e blábláblá. Quando ela acabou, eu me levantei para ir embora, mas Tao insistiu para que Madame Zara também lesse cartas para mim.

Você pode imaginar o que aconteceu? Madame Zara leu as cartas uma vez, ficou confusa, embaralhou-as e leu de novo. Depois olhou para mim.

- Você fala com os mortos - disse ela.

-Meu Deus do céu! Meu Deus! É mesmo? Baekkie, você ouviu isso? Você é capaz de falar com os mortos! Você também é médium! – Tao disse agitado.

-Médium não - negou Madame Zara - Mediador.

Tao ficou com ar de absoluto espanto.

-O quê? O que é isso?

Mas eu sabia. Não sabia que nome davam, mas sabia o que era. Meu pai não tinha explicado as coisas exatamente daquela maneira quando falou comigo, mas de qualquer modo eu peguei a raiz da questão: eu sou o contato para praticamente todo mundo que bate as botas deixando as coisas... digamos, incompletas. E aí, quando posso, eu resolvo para eles.

É a única maneira que eu consigo explicar a coisa. Não sei por que fui ter tanta sorte - quer dizer, nas outras coisas eu sou tão normal. Bom, quase... Simplesmente e infelizmente tenho essa capacidade de me comunicar com os mortos.

Mas não qualquer morto. Só os que estão infelizes.

Você já entendeu então que nos últimos 16 anos a minha vida tem sido mesmo um mar de rosas, não é?!

Imagine só, ser assombrado - literalmente assombrado - pelos mortos, a cada minuto de cada dia da sua vida. Não é nada agradável. Você vai ali na lanchonete tomar um refrigerante... opa, falecido na esquina. Alguém o baleou. E se você puder levar os tiras ao sujeito que fez aquilo, o morto pode finalmente descansar em paz.

E tudo que você queria era um refrigerante.

Ou você vai à biblioteca... e , lá vem o fantasma de uma dona de livraria querendo que você vá dizer ao sobrinho dela que está furiosa com a maneira como ele passou a tratar os gatos depois que ela bateu as botas. E esses são só os caras que sabem por que ainda estão rondando por aí. A metade deles não tem a menor ideia de porque ainda não foram para o tipo de vida que os esperava depois que morreram.

O que não deixa de ser um saco, claro, pois eu sou o trouxa que tem de ajudá-los a tomar um rumo.

Eu sou o mediador.

Pode crer que não é o destino que eu desejaria a ninguém.

Não se pode dizer que nesse campo da mediação as recompensas sejam generosas. Ninguém nunca se deu ao trabalho de me oferecer um salário ou coisa parecida. Nem sequer um pagamento por hora. Só aquele calorzinho gostoso, de vez em quando, quando você faz alguma coisa boa para alguém. Como por exemplo, dizer a uma garota que não conseguiu se despedir do avô antes de ele morrer que ele realmente a ama, e a perdoa por aquela vez em que ela jogou fora sua coleção de selos. Esse tipo de coisa realmente pode acalentar o coração.

A maioria das vezes, no entanto, sinto calafrios. Além do estresse - estar sendo o tempo todo atormentado por gente que só você consegue ver não é fácil -, o fato é que muitos fantasmas são estúpidos para caramba. Isso mesmo. São chatos para caralho. Esses são em geral os que realmente querem ficar rondando aqui neste mundo em vez de seguirem para o outro. Provavelmente eles sabem que por seu comportamento na vida mais recente não podem esperar coisa boa na que está por vir. De modo que ficam por aí atazanando as pessoas, batendo portas, fazendo barulho com os objetos, provocando frio, gemendo. Você sabe do que eu estou falando. A velha história de fantasmas...

E às vezes eles são bem violentos. Quando tentam machucar as pessoas de propósito. É aí que em geral eu fico possesso. É quando me dá vontade de dar um chute no traseiro de um fantasma.

E era isso que minha mãe estava falando quando disse aquela frase "Ah, Baekkie, outra vez?!" porque quando eu chuto a bunda de algum fantasma, as coisas tendem a ficar um pouco... complicadas.

Não que eu tivesse a menor intenção de bagunçar meu novo quarto. Por isto é que dei as costas para o fantasma sentado perto da minha janela.

- Deixa ‘pra lá, mãe. Está tudo bem. O quarto é legal. Obrigado mesmo.

Deu para ver que ela não estava acreditando em mim. Não é nada fácil enganar minha mãe. Eu sei que ela está desconfiando que há alguma coisa comigo. Ela só não consegue imaginar o quê. O que provavelmente é bom, pois do contrário todas as certezas dela ficariam abaladas demais. Sabe como é, ela é repórter de televisão. Só acredita no que vê. E fantasmas ela não consegue ver.

- Que bom, que bom que você gostou - disse ela. - Eu estava meio preocupada. Sabendo como você não gosta... bem, de lugares antigos.

Lugares antigos são os piores para mim porque quanto mais velha for uma construção, mais chances haverá de que alguém tenha morrido nela e de que ele ou ela ainda estejam rondando por ali, em busca de justiça ou ... querendo transmitir alguma mensagem final a alguém. Para você ficar sabendo, isto resultou em alguns lances dos mais interessantes, na época em que minha mãe e eu estávamos procurando apartamento na cidade. A gente entrava naqueles apartamentos que pareciam perfeitamente OK, e eu começava a dizer "Não, não, de jeito nenhum" sem uma razão aparente que eu pudesse explicar. É mesmo um espanto que minha mãe não tenha me despachado depressinha para um internato.

- Ficou legal, mãe - disse eu.

Ouvindo isso, Vincent começou a zanzar agitado pelo quarto, mostrando-me que as luzes podiam ser acesas e apagadas com palmas (ai, meu Deus...) e várias outras gracinhas que ele havia providenciado. Eu ia atrás dele, mostrando interesse, mas tomando o maior cuidado de não olhar na direção do fantasma. Era mesmo comovente ver como Vincent queria me ver feliz. E como ele parecia querer tanto, eu estava decidido a ser mesmo feliz. Ou pelo menos tão feliz quanto é possível para uma pessoa como eu.

Depois de um certo tempo, Vincent já não tinha mais o que me mostrar e saiu para começar a preparar o churrasco, pois em homenagem à minha chegada teríamos um jantar especial. Soneca e Dunga foram "pegar uma onda" enquanto não chegava a hora, e Mestre, balbuciando misteriosamente alguma coisa sobre uma "experiência" em que estava trabalhando, meteu se em alguma outra parte da casa, deixando-me sozinho com minha mãe... quer dizer, mais ou menos.

- Está tudo bem mesmo, filho? - Quis saber ela. - Eu sei que é uma mudança muito grande. Sei que é pedir muito de você...

Eu tirei minha jaqueta de couro. Não sei se já disse, mas estava quente à beça para o mês de janeiro. Uns 25 graus. Eu quase havia torrado no carro.

- Está tudo bem, mãe - respondi. - Mesmo.

- Estou querendo dizer que pedir que você se separasse da vovó, do Tao, de Nova York... Foi egoísmo meu, eu sei. Sei que as coisas não têm sido... como dizer, fáceis para você. Especialmente desde que seu pai morreu.

Minha mãe gostava de pensar que o motivo pelo qual eu não sou o adolescente tradicional, -ser franzino, não praticar esportes, não me interessar pelo o que dizem ser coisas de garotos, e nunca ter tido uma namorada ou namorado - é por eu ter perdido meu pai tão cedo. Ela culpa a morte dele por tudo, desde o fato de eu não ter amigos, com exceção de Tao, até minhas eventuais demonstrações de comportamento bizarro. E acho mesmo que muitas coisas que fiz no passado podiam parecer bem bizarras para alguém que não soubesse por que eu estava agindo daquela maneira, ou que não pudesse ver para quem eu estava fazendo aquilo. Muitas vezes fui apanhado em lugares onde não deveria estar. Algumas vezes cheguei a ser levado para casa pela polícia, acusado de invasão de propriedade, vandalismo ou arrombamento.

E embora nunca tenha sido condenado por nada, já passei muitas horas no consultório da terapeuta da minha mãe, ouvindo que esta minha tendência para falar comigo mesmo é perfeitamente normal, mas que provavelmente o mesmo não se pode dizer da minha inclinação para conversar com pessoas que não estão presentes.

O mesmo quanto à minha aversão a qualquer edifício que não tenha sido construído nos últimos cinco anos.

E o mesmo quanto ao número de horas que costumo passar em cemitérios, igrejas, templos, mesquitas, casas ou apartamentos (trancados de outras pessoas) e na escola depois do horário.

Acho que os garotos do Vincent devem ter ouvido falar alguma coisa sobre isto, daí aquela pergunta sobre andar em gangues e nenhum comentário sobre minha sexualidade. Mas, como disse, nunca tive de cumprir nenhuma pena por nada.

E as duas semanas de suspensão na oitava série nem chegaram a ser anotadas no meu histórico.

De modo que não era de se estranhar que minha mãe estivesse ali sentada na minha cama, falando de "começar de novo" e coisas assim. Não deixava de ser estranho que ela o estivesse fazendo enquanto aquele fantasma estava sentado ali a alguns passos apenas, nos observando. Mas não importa. Parecia que ela tinha necessidade de falar sobre como as coisas iam ser muito melhores para mim na Califórnia.

E se era isto que ela queria, eu iria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para satisfazê-la. Já tinha resolvido não fazer nada que pudesse acabar me levando para a cadeia, o que já era um bom começo.

- Bom - fez minha mãe, já meio sem fôlego depois de todo aquele discurso para dizer que eu não ia fazer amigos se não fosse legal. - Então, se você não quer ajuda para desfazer as malas, acho que vou ver como é que o Vincent está se saindo com o jantar.

Além de ser capaz de construir praticamente qualquer coisa, Vincent era um excelente cozinheiro, o que minha mãe certamente não era nem de longe.

- Isso aí, mãe. Vou só me ajeitar aqui e daqui a pouco desço. – Eu respondi.

Minha mãe concordou e se levantou - mas não ia me deixar escapulir assim tão facilmente. No momento em que ia passar pela porta, voltou-se com os olhos cheios de lágrimas.

- Eu só quero que você seja feliz, filhotinho. É a única coisa que eu sempre quis. Você acha que vai ser feliz aqui?

- Claro, mãe – respondi abraçando-a. - É claro que vou ser feliz aqui. Já estou me sentindo em casa.

- É mesmo? – Ela perguntou fungando. - Jura?

- Juro.

E eu não estava mentindo, pois se no meu quarto no Brooklyn também havia fantasmas o tempo todo, por que aqui haveria de ser diferente?

Ela saiu e fechou a porta. Esperei até que não estivesse mais ouvindo os passos dela na escada e então me voltei.

-OK - fui dizendo para aquela presença no assento da janela - Quem diabos é você?



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