História O Médico Louco - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Sherlock
Personagens D.I. Greg Lestrade, Dr. John Watson, Molly Hooper, Mrs. Hudson, Mycroft Holmes, Philip Anderson, Sherlock Holmes
Tags Aventura, Holmes, John Watson, Johnlock, Mistério, Policial, Romance, Sherlock Holmes, Slash, Yaoi
Exibições 176
Palavras 3.630
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Ficção, Hentai, Lemon, Mistério, Policial, Romance e Novela, Slash, Suspense, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


John Watson está magoado com o Sherlock e nós vamos vê-lo hoje, espero que gostem! Boa leitura!

Capítulo 3 - Um estranho no corredor


Fanfic / Fanfiction O Médico Louco - Capítulo 3 - Um estranho no corredor

Após a discussão com Sherlock no térreo do 221-B, John havia reunido os vestígios de dignidade que lhe restavam no espírito, deixando o detetive ao pé da escada e voltado para o apartamento naquela noite.

Sua partida, ao contrário do que se poderia supor, não se deu sem uns bons minutos de dura reflexão.  Watson, envolto em seu lençol, atravessou lentamente a sala e permitiu-se ficar sentado em sua poltrona perto da lareira, encarando as chamas que morriam lentamente fazendo o ambiente tornar-se gradualmente mais frio e deprimente.

O frio crescente fez o médico puxar para mais perto do corpo o lençol que havia agarrado para cobrir sua nudez antes de correr atrás de Sherlock. Ele devia estar com raiva, mas não era raiva que oprimia seu peito nesse início doloroso de reflexão a respeito da relação amorosa iniciada com o detetive que todos acreditavam incapaz de nutrir desejo ou apego por qualquer outra coisa que não a sua profissão única no mundo, como ele mesmo gostava de afirmar de forma vaidosa sempre que tinha oportunidade.

Se não fosse o caso da “Mensageira”, John jamais saberia que por dentro daquele corpo longo, aparentemente frio e insensível aos impulsos carnais, dormitava um homem com um feroz apetite sexual e uma criatividade para atividades de cama sem procedentes na experiência de vida de John Watson. O médico era imensamente satisfeito neste aspecto e não se arrependia de haver se atirado naquele mar agitado que era Sherlock Holmes.

Quando iniciou sua amizade com o detetive, ele passou do choque ante as maneiras sue generis do homem, à admiração devotada de um recém-convertido. Sherlock era uma presença iluminada, excêntrica e distante. Como uma divindade, presente, mas intocável.

Para sua crescente tortura, com o tempo, sua admiração começou a tomar aspectos mais mundanos e sua mente constantemente distraía-se do brilhantismo intelectual do seu companheiro de apartamento para a beleza lasciva que seu corpo magro assumia tomado pelo frenesi dos raciocínios acelerados, ou a languidez terna que sua postura assumia ao tocar o violino para acalmar seu espírito agitado, ou até a doce imagem que ele constituía ao deitar-se de olhos fechados sobre o sofá e lá permanecer imóvel e silencioso por horas como um gato preguiçoso numa tarde de verão sob o olhar cobiçoso do médico que se perdia sonhando com a possibilidade de tocar os lábios carnudos do amigo com os próprios, descê-los pela mandíbula e sentir o pulso daquele pescoço longo e quente com a língua e desabotoar os botões repuxados de sua camisa para tocar o tronco excitante por baixo do tecido que insinuava seus traços de forma demoníaca e tentadora.

Foi com uma grande dose de terror e inicial negação que John percebeu que sua admiração estava tomada por desejos nada inocentes para com o amigo. Depois de muito negar para si mesmo a mudança espantosa dos seus sentimentos, John compreendeu a inutilidade da negação e aceitou a verdade dos seus desejos e sentimentos. Junto com essa aceitação libertadora, ele teve que aceitar a impossibilidade do amor. Sherlock era um desejo inalcançável.

Por um tempo as coisas pareciam ficar bem dessa forma, o ex-militar vivia de amar e devorar o amigo em silêncio, satisfazendo-se apenas com a presença do outro no mesmo ambiente, sentindo seu cheiro, seus rumores, seguindo seus gestos, derretendo com sua voz...

O detetive aos poucos foi invadindo suas fantasias eróticas, tornando a mentalização de corpos femininos, uma prática insuficiente para a concretização de uma boa masturbação. É claro que no começo ele se sentiu muito culpado por isso, não era certo pensar no seu melhor amigo desse jeito, era praticamente uma ofensa e uma grande traição. Sherlock lhe parecia tão inocente, tão distante de instintos carnais e pensamentos lascivos... pensar nele para chegar ao ápice da auto-satisfação sexual, era um pecado. 

Desde o princípio de sua amizade com Sherlock, John havia compreendido que o detetive via sexo apenas como meio de reprodução, e que a aplicação da atividade fora desse aspecto biológico era algo que distraia a mente e desperdiçava de forma improdutiva uma quantidade enorme de energia que ele preferia empregar em pesquisa e deduções.

Para o médico, isso era um indicador claro de que seu amigo de apartamento era um assexuado e ele, John Watson, era um homem apaixonado que devia satisfazer-se com uma relação platônica e uma ajudinha de sua mão amiga no banheiro.  

Mas tudo mudou há alguns meses quando John “ressuscitou” e viu-se atirado contra a parede do 221B e prensado por um corpo quente e agitado que suplicava permissão para tomá-lo da forma mais primal. Era um sonho louco, uma fantasia se realizando e ele quase não podia acreditar que aquilo era real, ele apenas deixou-se levar pelo pedido, ele apenas não queria pensar na razão por trás daquelas ações. Então ele se afogou em êxtase e se perdeu nele.   

Sherlock era como uma droga altamente viciante e John sabia estar viciado e o vício o fazia realizar concessões cada vez maiores. John Watson estava abrindo mão cada vez mais de si pouco a pouco apenas para continuar afundando naquele vício que era estar com o detetive.

Era tudo tão mais simples quando eram apenas amigos, John pensou embolando-se mais ainda no lençol uma vez que as chamas na lareira deram lugar a pequenas brasas em agonia. Havia limites entre eles e nenhuma expectativa. Havia apenas as regras da boa convivência fraterna com proibição tácita de não tentar estrangular o colega a cada minuto. Eles compartilhavam camaradagem e um sentimento quase puro de cumplicidade e mutua compreensão e aceitação. Era John e sua eterna busca por felicidade conjugal, entrando e saindo de um considerável numero de namoros e Sherlock e seus cadáveres, realizando um sem número de experimentos criativos e loucos. Tudo muito simples.

Mas agora... agora eram dois amantes e passar do patamar de amigos para amantes é um passo grande e perigoso que muitos preferem simplesmente não dar. O risco de se perder tudo é real e constante, principalmente quando a única coisa bilateral na relação é o desejo. E Sherlock o desejava tanto quanto ele desejava Sherlock, tinha certeza disso, as marcas recentes no seu corpo eram provas indiscutíveis desse fato.  

Um dia, um amigo na faculdade comentou com ele durante um lanche no refeitório da faculdade que o amor unilateral é como um caroço de abacate despertado na areia da praia. Ele germina e cresce com vigor usando todos os nutrientes existente em si mesmo, se auto-consumindo até não ter de onde tirar mais nada e perceber que a areia é estéril para suas necessidades, então, como o desejo de viver não encontra amparo, a germinação morre. “Uma pessoa não pode amar por duas assim como o caroço de abacate não pode prosperar sem uma contrapartida” o colega tinha dito de forma muito amargurada e John passou a temer enormemente essa categoria de sentimento desde então.

No entanto, naquele começo de noite, depois da rápida discussão com Sherlock, ele estava sendo obrigado a admitir que o que mais temia era real na sua relação, seu amor era unilateral. Sherlock o desejava, sim, ele lhe mostrou isso de formas de tirar o fôlego inúmeras vezes, mas amor? John gostava de pensar que todas às vezes que se tocavam, tais gestos eram puro amor, apesar do detetive nunca ter manifestado isso de forma clara, mas era bom pensar que sim, pensar que era amor mútuo, mas agora que seu pedido de casamento foi rejeitado de forma tão direta e fria, a dúvida se instalara em seu peito e a lembrança do celular de Irene Adle bem guardado entre as roupas do detetive o fez sentir-se sufocar.

Poderia John Watson estar sendo utilizado como substituto de alguém? O médico balançou a cabeça, aquilo parecia um grande absurdo, não parecida com o Sherlock que ele conhecia... mas... ele conhecia Sherlock? Essa pergunta fez uma raiva ácida se espalhar por seu sangue como um veneno poderoso. Agora ele estava com raiva, muita raiva, mas não de Sherlock, raiva de si mesmo e de suas ilusões.

John pulou da poltrona onde esteve refletindo e rumou para o quarto. Abriu a porta com relativa violência e atirou o lençol sobre a cama não se importando em permanecer nu no quarto frio, a raiva lhe dera calor suficiente para não se importar.

Instintivamente o médico sempre soube que sua relação amorosa com o amigo era um terreno movediço e isso lhe fazia padecer de uma crescente insegurança que culminou no desastroso pedido de casamento que foi prontamente negado. O ponto de cisão aqui não foi a discussão gerada, mas o tema e a forma como ele foi tratado. Eram os anseios do médico que estavam em jogo e foram desprezados pelo outro, de modo que, colateralmente, John se sentiu profundamente desprezado. 

– Estúpido! – John resmungou atirando algumas mudas de roupa dentro de uma mala média para em seguida ir ao banheiro para lavar os vestígios da última troca de prazer mútuo que tiveram.

            John deixou a água escorrer pelas suas costas e suspirou recordando o toque ansioso do moreno em sua pele, mas o rápido sentimento de satisfação foi tomado por uma onda ácida de raiva e decepção. Era óbvio que desde o começo a coisa entre eles tinha se estabelecido apenas por desejo, pelo menos da parte de Sherlock. O moreno queria sensações e não sentimentos, ele sempre foi tão claro quanto a esse detalhe, John lembrou e sentiu-se pior ainda. Tudo fazia sentido agora.

            “Sentimento é um defeito químico achado nos perdedores ” – Oh, ele se lembrava de Sherlock comentando como derrotou Irene e descobriu a senha do celular dela... “Sentimentos”... esse foi o erro dela... e esse foi o erro de Watson também.

            O médico saiu do banho, catou sua escova e pôs em sua valise, secou-se, pôs uma roupa limpa, arrumou a cama bagunçada e por fim pegou sua bolsa com suas roupas e saiu sem olhar para trás na certeza de que ele precisava de um tempo longe da companhia do namorado. Sua cabeça estava uma desordem.

            No primeiro dia da ausência de John Watson no 221B, Sherlock não se incomodou, afinal, o namorado não tinha levado todos os seus pertences e o detetive tinha coisas mais importantes para tratar.

            Lestrade bateu bem cedo em sua porta e ambos seguiram para a Universidade de Westminster para tentar obter mais alguma pista sobre o caso da noiva encontrada morta no Park Square West.

– Esta era a sala da professora Allen, segundo o diretor Petts. – informou Greg dando espaço para Sherlock entrar numa sala média com as paredes esquerda e direita revestidas por altas estantes lotadas de livros contendo ao centro, uma mesinha de madeira com trio de gavetas de ambos os lados iluminadas pela luz de amplas janelas de vidro ao fundo.

            Sherlock rodou pela sala dando uma breve olhada pelos livros de ambas as estantes do ambiente, depois desceu seus olhos curiosos sobre a mesa. Era um bonito móvel de madeira escura e polida sobre o qual havia blocos de papéis e alguns livros, todos disposto de maneira muito simétrica, aliais, a sala inteira transpirava a mania de simetria da sua falecida dona.

Sherlock se aproximou da mesa e sentou-se na cadeira almofadada e lançou um amplo olhar pela sala do ponto de vista do assento e nada lhe chamou atenção, então passou a tatear o móvel, alisando aqui e ali até que o detetive contraiu um meio sorriso presunçoso como se houvesse encontrado algo que destoasse de todo o ambiente.

O detetive removeu a última gaveta da escrivaninha da professora emborcando-a sobre a mesa ante o olhar muito curioso de Lestrade que havia se aproximado da mesa enquanto Sherlock revirava o bolso de seu casaco atrás de algo, segundos depois ele sacou um canivete e o utilizou para remover o tampo inferior da peça, revelando um fundo falso dentro do qual havia um longo envelope pardo com um brasão institucional sem qualquer inscrição.

– Nossa, isso estava escondido aí esse tempo todo? – Greg admirou-se.

– É o que parece. – Sherlock comentou levantando a aba superior do invólucro pardo extraindo dele cinco folhas de papel em branco.

– Estão todas em branco? – Lestrade entranhou achando muito esquisito alguém guardar com tanto cuidado meras cinco folhas em branco.

– Totalmente em branco, Inspetor. – Sherlock respondeu elevando cada uma à altura dos olhos para analisá-las contra a luz da janela envidraçada logo atrás dele.

– E o que isso significa?

– Absolutamente nada. É só uma cortina de fumaça, a verdadeira informação está guardada no lugar que geralmente as pessoas descartam.

– Onde?

– No envelope. – Sherlock respondeu contraindo e descontraindo rapidamente os lábios produzindo um som grave e brincalhão.

– Mas o envelope não tem nada escrito.

– Tem certeza disso, inspetor? – o detetive indagou pondo o invólucro sobre a mesa para em seguida riscar o canto superior direito da sua superfície com a ponta deitada de um lápis.

            Após receber uma cobertura cuidadosa de grafite, a superfície revelou alguns caracteres em baixo relevo que se resumiam em: “900S695e1991/ex.1”.

– A coisa está ficando cada vez pior de entender. – Lestrade reclamou coçando o queixo visivelmente angustiado por não entender nada do que via na superfície parda do envelope.

– Não... – o moreno murmurou observando atentamente a referência em baixo relevo. – A coisa só está ficando cada vez melhor. – ele concluiu rindo.

– Alguma ideia de onde isso pode nos levar?

– Três ideias até o momento, mas antes de reduzi-las a uma, preciso passar em casa para preparar uma valise de viagem.

– Vai viajar?

– Vou. – disse o detetive saindo da sala enquanto dobrava o envelope e guardava-o dentro do bolso do seu casaco.

– Para onde? – Greg perguntou seguindo o detetive.

– Condado de Dublin, há uma biblioteca fantástica por lá! – Sherlock respondeu animado dando passadas largas para fora do prédio.

Da Universidade de Westminster para o 221B foram apenas vinte e dois minutos com a carona dada por Lestrade. Sherlock estava ansioso para seguir com suas investigações em Dublin, de modo que mal ouviu o inspetor se despedir, foi logo abrindo a porta do carro e passando direto para a porta do prédio, subindo celeremente os degraus, sacando pela sala com grande ânimo e euforia que esfriou de imediato quando percebeu um homem sentando na poltrona de frente para a sua perto da lareira.

– O que faz aqui? – Sherlock perguntou com mau humor.

– Estou aqui para avisá-lo que papai e mamãe estão na cidade e querem assistir um musical em cartaz nesta semana, vim convidá-lo para nos acompanhar. – Mycroft respondeu analisando-o de cima a baixo.

– Não quero acompanhá-los, vão ter que ir sem mim, eu estou ocupado. – disse acomodando-se em sua poltrona de forma petulante.

– Não seja chato, tenho certeza que o seu namorado adoraria ir, em falar nele, onde está o John? – Mycroft perguntou dando uma ampla olhada pela sala.

– Não sei. – Sherlock respondeu olhando firmemente para a lareira apagada.

– Não sabe... hum... isso quer dizer que vocês brigaram. – Holmes mais velho disse com um riso irônico encarando o irmão que o olhou de canto.

– Nós não brigamos, apenas divergimos.

– E sobre o quê, meu irmão?

– Casamento. – Sherlock pontuou com desprezo.

– Oh, que desastre. Tenho certeza que o ingênuo Dr. Watson cometeu o erro de pedir você em casamento e reagiu mal ao seu “não”.

– Óbvio. – Sherlock declarou fungando incomodado.

– Então depois da discussão ele pediu um tempo, arrumou algumas mudas de roupas e saiu do apartamento. Ele deixou as chaves? – Mycroft indagou com uma voz entediada.

– Não, ele as levou.

– O que significa que deve voltar dentro de umas setenta e duas horas. – Holmes mais velho sentenciou esticando um amplo riso comprido observando Sherlock o encarar meio de canto de olho.

– Quarenta e oito horas.

– Setenta e duas, Sherlock.

– Está enganado.

– Nunca me engano, meu irmão.

– Dessa vez, sim.

– Tenho certeza que não, afinal ele vai precisar de um tempo razoável para entender o seu medo de casamento. – Mycroft cortou com um ataque mais forte.

– Eu não temo casamento, eu só não o acho necessário!

– É mesmo? – Mycroft perguntou se levantando da poltrona. – Bem, espero você amanhã às vinte horas na porta do teatro.

– Vai cansar de esperar, pois eu não irei! – o moreno disparou ouvindo a porta do apartamento fechar dando-lhe sinal de que o irmão havia se retirado.

            Sherlock ficou emburrado em seu assento por alguns minutos ainda, refletindo sobre a estimativa do seu irmão, Mycroft realmente não costumava errar... Ele sentiu uma ponta afiada de apreensão rodear seu peito, mas soprou-a longe levantando-se para arrumar sua valise com alguns itens para a pequena viagem e enquanto arrumava sua coisas tentou não dar atenção a uma voz chata que insistia que tudo seria mais interessante se John estivesse indo com ele.

            O dia amanheceu muito cinza para John Watson. De fato o céu não estava muito colorido e a temperatura do início da manhã era pouco animadora, mas para aqueles que sentem uma depressão em desenvolvimento lançar suas raízes daninhas em torno da alma, os tons acinzentados destacam-se de forma gritante e para John, a percepção não era diferente.

            O despertador o chamou pontualmente às seis, mas ele já estava desperto sentado no meio de sua cama com os pés pendurados na borda, ombros curvados e cabeça baixa como se carregasse um fardo de batatas e uma expressão cansada desfigurando seu rosto como se tivesse virado meia dúzia de plantões seguidos. Ele não dormiu nada, toda vez que havia fechado os olhos e o cansaço o puxado para o nível REM do sono, onde os sonhos podem nos alcançar, imagens grotescas saltaram tentando reduzi-lo a uma massa embaralhada e insana de si.

            Ele não conseguia entender, há muito tempo não tinha mais pesadelos, foi com grande horror que ele despertou no meio da noite, preso em imagens oníricas aterradoras, podia até ser impressão sua, mas esses pesadelos pareciam piores do que os que o perseguiam depois que voltou do Afeganistão.

            Sua garganta ardia ao tentar engolir a própria saliva, prova óbvia de que ele havia gritado bem alto enquanto se debatia segundos antes de despertar com o coração na boca.

            Desligando o alarme que piscava “seis horas”, John levantou de sua posição abatida sobre a cama e foi preparar o chá que havia carregado consigo do 221B. Sherlock não sentiria falta dessa bebida, não era seu sabor favorito, de modo que John não pensou duas vezes em colocar o pote dentro de sua mala antes de sair do apartamento para se enfurnar provisoriamente num albergue para estudantes de medicina a doze quarteirões da Baker Street.

            A bebida quentinha desceu pela sua garganta anestesiando a sensação de ranhura e milagrosamente espalhando uma bem-aventurança quase instantânea em seu corpo. John sorriu suspirando de alívio e um pouco chateado consigo por não ter pensado em tomar uma xícara de chá durante a madrugada para se acalmar, talvez tivesse conseguido relaxar o suficiente para dormir sem pesadelos.

            Feito um leve desjejum, o médico tomou banho e trocou de roupa para ir ao São Bartolomeu, seu nome estava na escala de plantão daquele dia e ele não queria se atrasar. Podia ser que Sherlock estivesse no hospital fazendo seus experimentos excêntricos no necrotério ante o olhar assustado e curioso de Molly, mas John sabia que, desde que ele se mantivesse longe do necrotério, não haveria risco de encontros indesejáveis no momento. O médico ainda não se sentia confortável para conversar com o detetive e tinha a impressão de que daria um soco no homem se ele aparecesse na sua frente.

            O hospital Real de São Bartolomeu, fundado em 1123, é atualmente o centro de excelência em tratamento de problemas cardíacos e câncer, com oferta de 388 leitos e conservação de uma unidade para feridos leves, uma vez que o atendimento de urgência para ferimentos mais graves foi transferido para o Hospital Real de Londres em 1995, deixando os corredores de Barts mais calmos e menos tingidos pelo cheiro agressivo de sangue. John apreciava isso. Ele chegou às sete e meia na portaria do hospital, sorriu para os colegas que partiam do plantão noturno desejando-lhes um bom dia de sono e seguiu para o vestiário masculino.  

            Tirando uma ou outra eventualidade no setor de ferimentos leves, o dia estava muito tranquilo no Barts, possibilitando ao médico esticar as penas pelos corredores amplos e vazios tentando dissolver os nós em seus músculos que protestavam em decorrência da noite mal dormida.

Ele ia caminhando muito distraído sem se importar com o rumo dos seus passos, quando sua consciência lançou-lhe o alerta de que deveria voltar, foi então que seus olhos pousaram na placa de identificação da porta dupla adiante no final do corredor que indicava em letras inequívocas: “Necrotério”.

            Como se tivesse sido chicoteado, John deu meia volta e se afastou o mais rápido que pôde. Dobrou três corredores e parou para recuperar o fôlego escorando a testa na parede aproveitando que não havia ninguém por perto. Passaram-se alguns segundos até uma sombra ser capturada pelo canto do seu olho esquerdo, fazendo-o desgrudar da parede imediatamente e olhar no sentido da presença que... deveria está no meio do corredor, mas havia sumido.

            O médico franziu a testa em notável confusão, ele tinha absoluta certeza que havia alguém ali a poucos passos dele no meio do corredor que ele julgara vazio. Era impossível que tivesse corrido antes dele firmar a vista.

– Eu estou precisando de uma boa noite de sono, isso sim... – John murmurou pondo-se em movimento.

            Com passos um pouco agitados, o médico passou pela esquina onde pensara ter visto alguém e deu uma olhadinha curiosa observando apenas uma pequena sucessão de portas fechadas e um corredor estéril de qualquer outra presença além da sua. Ele respirou mais calmo e depois deu as costas ao lugar, afastando-se totalmente despreocupado enquanto uma estranha presença obscura ressurgia no meio do corredor observando-o ir.


Notas Finais


Então? Alguém tem algum palpite sobre o que deve ser esse estranho no corredor? Aguardo as teorias nos comentários! Beijos e até o próximo sábado!


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