História O outro - Capítulo 25


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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Hentai, Mistério, Misticismo, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 25 - Conversa de bar


Ah... aquela rosa de tonalidade estranha, tão serena ao caminhar, inebria-me a alma com sua presença, mas entristece-me o coração vê-la tão distante, ainda que tão de perto.

A fumaça ardente do cigarro percorreu minha garganta até finalmente divertir-se em meus pulmões, saciando meu vício, concedeu-me serenidade como pagamento por minha saúde. O sabor daquele vício... meus lábios ainda salivam ao conjeturar, creio que os males do mundo têm seus encantamentos. Observei Julia ser interrogada por Hudson em uma sala próxima à minha; creio que ambos tenham se desentendido, ao menos foi o que imaginei ao notar a face de irritação de Hudson. George, a contragosto, transcreveu o registro de desaparecimento de Trevor, contudo, o departamento de polícia de Lakewood insistiu que não se tratava de um fato, isto porque Trevor tinha de viajar a trabalho semanalmente, poderia se tratar, portanto, de uma simples falta de comunicação.

— Isso é um golpe, chefe — disse George encarando-me por detrás do balcão. O fitei imaginando o que estava por vir, mas ainda assim prossegui.

— Do que você está falando? — falei.

— Meus Deus, chefe, está brincando comigo? — disse ele inclinando seu rosto em minha direção, seu olhar incrédulo divertiu minha alma — Essa mulher está tentando te tirar para bobo! Basta olhar nos olhos dela, chefe!

— Bobagem, você está delirando — falei.

— Pois aposto no contrário! — disse ele pouco antes de estapear o balcão como um daqueles cowboys dos grandes clássicos dos anos sessenta — Olhe, chefe, eu tenho apenas duas bolas no saco e estão velhas, mas eu aposto as duas que isso é um cilada.

— Cilada? — falei enquanto arqueava uma de minhas sobrancelhas — Estou falando sério, George, já está na hora de parar de assistir aqueles romances malucos na tevê.

Após alguns segundos de consecutivos passos ligeiros pelo corredor, Julia surgiu à recepção.

— Olá, senhores — disse ela junto de um sorriso enigmático, incomum.

— Você e o Hudson já terminaram? — falei.

— Sim, foi uma relação curta, mas de muitos tropeços - disse ela rindo enquanto aproximava-se de mim — E agora me vou, quero encontrar um hotel antes do anoitecer.

— De muitos tropeços você diz — falei imaginando o trabalho que Hudson havia tido para suportá-la. Cogitei indicar-lhe um hotel de minha preferência, mas terminei por me calar.

— Estou indo — disse ela, logo em seguida acenou para George que forçou um sorriso de poucos amigos em retribuição.

— Até breve — falei enquanto escorava-me no balcão.

Até breve, ora, não me pareceu fazer sentido.

— É uma cilada — disse George próximo de meu ouvido, devo admitir que me assustei, afastei-me do balcão e o encarei sem acreditar.

— Vamos lá, George, relaxe um pouco, está tudo bem — falei.

— Você é um ingênuo, é melhor pensar a respeito — disse ele. Suspirei, logo em seguida retornei à minha sala.

Eu continuava a não raciocinar direito sobre a situação, e George, por sua vez, não ajudou em nada com suas constatações conspiratórias, é claro que não o estou desmerecendo, de maneira alguma, sempre o tive como grande amigo, companheiro e conselheiro.

Permaneci no trabalho até o fim da tarde, espreguicei-me ao encarar o pôr do sol pela janela de minha sala. Minha mesa estava repleta de anotações desconexas, devaneios mais alucinados do que de costume, tinha de admitir, estava exausto, joguei meu casaco sobre meus ombros e deixei aquele lugar. Cruzei o corredor até a recepção, avistei George, estava no lugar de Stuart.

— O que acha de uma sinuca hoje à noite? — falei, ele então me ergueu um olhar cansado.

— Vou ter que deixar passar, a maluca da minha mulher marcou um jantar de boas-vindas com nossos novos vizinhos, mandriões, você sabe — disse ele.

— Mandriões — falei sorrindo de canto.

— Um casal de forasteiros, um dos sujeitos tem uma cara de vagabundo, uma boquinha de chupa pinto que me dá até pena — disse ele. Assenti enquanto imaginava o clima em que o jantar seria realizado.

— Está certo, nos vemos pela manhã — falei.

— É claro, pela manhã, chefe — disse ele acenando como um velho preguiçoso.

Ao deixar à delegacia, notei que a neve cessara, havia apenas uma fina camada sobre o gramado, o inverno estava longe de nos apresentar seu término, mas por alguma razão proporcionou um certo descanso aos moradores, além de garantir a permanência dos limpa-neves no pátio da prefeitura. Embora George tenha recusado meu convite, não conseguia conceber a ideia de retornar para casa, imaginei-me deitado, prestes a dormir, certamente sofreria com o mesmíssimo pesadelo que tanto me atormentou naquele mês. É gozado como os pesadelos sempre me parecem mais reais e pertinentes do que os sonhos serenos e sublimes.

Quando adentrei em meu carro, restava apenas vestígio daquilo que instantes antes constatei como pôr do sol, meras chamas no horizonte se afogando em escuridão. O centro estava movimentado, o trânsito, assim como de costume, estressou-me, tomei então um desvio por entre um pequeno bairro em direção às montanhas. Não havia motivo para marcar presença no bar onde George e eu costumávamos jogar, mas havia um lugar que há muito não frequentava. Estacionei de frente para a entrada, logo abaixo da antiga placa 'Secrets-Pub', nome um tanto quanto incomum. Ao adentrar o lugar, senti uma nostalgia estranha me sobrepujar, todas aquelas mesas solitárias, cada uma com sua própria iluminação, aos fundos do bar havia um grande balcão com uma grande prateleira que abrigava diversas garrafas com os mais variados tipos de bebidas. Caminhei até uma das mesas recostadas no canto da sala, ao me sentar um dos atendentes me recebeu.

— Boa noite, senhor — disse ele, um jovem repleto de tatuagens por ambos os braços.

— Boa noite, me traga uma cerveja, qualquer uma — falei.

— Qualquer uma? — disse ele com certa surpresa.

— Exato, qualquer uma — falei, ele me encarou com estranheza durante alguns segundos, mas logo assentiu e tratou de retornar ao balcão.

Recostei-me na parede e observei o lugar, quase tudo permaneceu igual aos tempos em que o frequentava com uma dúzia de amigos. A música encerrou, e após alguns breves segundos uma nova faixa começou a tocar, 'Look on down from the bridge', certamente a canção mais linda que já ouvi, não há tamanha sutileza e serenidade em qualquer outra canção na história da música, declaração esta que é também sustentada pela quantidade de entulho musical que têm se produzido na última década, por Deus, tragam de volta o rock e levem esse sertanejo imundo deste mundo.

— Há quanto tempo, senhor policial — disse-me uma voz pouco familiar.

Voltei meu olhar para a mesa ao lado, encarei então olhos serenos, mas de alguma maneira, pulsantes, os encarei junto de um sorriso sedutor, mas ainda assim, ameaçador. Aquela mulher, eu a conhecia.

— Conheço você — falei, ela assentiu ainda sorridente.

— É, de alguma maneira, sim — disse ela, o atendente então apareceu com minha cerveja, a abriu e preencheu o copo à minha frente, logo em seguida retornou ao balcão. Ela se levantou, contornou sua mesa e apoiou seus braços sobre uma das cadeiras de minha mesa — Posso? — disse-me com o mesmo sorriso, tão persistente quanto atraente.

— Por que não? — falei enquanto tomava o copo em minha mão, ao levá-lo à minha boca, a observei sentar-se à minha frente.

— Tenho de ser franca, não imaginei encontrá-lo num lugar como esse — disse ela.

— Apenas por que sou policial? — falei pouco antes de devolver o copo à mesa.

— É, apenas — disse ela enquanto buscava por algo em seu bolso, instantes depois retirou um maço de cigarros — Se importa? — disse erguendo um cigarro entre seus dedos. Ri brevemente.

— Você está parecendo uma daquelas damas extremamente polidas que sempre aparecem na tevê, sempre muito educadas... — falei enquanto buscava pelo isqueiro no bolso de meu casaco, em seguida a ajudei a acender.

— E por que eu não seria uma? — disse ela após uma profunda tragada.

A encarei em silêncio durante alguns instantes, quero dizer, teria sido uma pergunta séria?

— Por que trabalha em uma boate — falei.

— Quanta sutileza — disse ela tornando a sorrir, devolvi o sorriso.

— Desculpe, normalmente eu teria sido um pouco mais brando — falei.

— Não se preocupe, tenho de lidar com coisas muito piores em meu trabalho, você deve conseguir imaginar — disse ela.

De fato, eu conseguia, aquela não fora a primeira nem a última vez em que tive de pôr os pés como policial em uma boate, por alguma razão doentia, psicopatas adoram esse tipo de lugar para cometer atrocidades, creio que o excite tanto o corpo quanto à alma.

— Me desculpe, mas não recordo o seu nome — falei com certo constrangimento.

— Quanta indelicadeza — disse ela em tom de gracejo — Ao menos tenho desculpa, você não chegou a me dizer o seu.

— Então creio que devo pedir desculpas de novo — falei sem saber exatamente o porquê de estar tendo aquela conversa — Marcos, delegado Marcos, se preferir.

— Pois muito bem, delegado Marcos, me chamo Selina — disse ela estendendo-me a mão novamente.

— Sim, Selina, tinha de ser — falei elucidando minha memória e beijando-lhe a mão como na outra vez.

— Conte-me, o que um policial como vocês faz em um lugar como esse? Não parece estar aqui a trabalho — disse ela.

— Não, já terminei meu trabalho por hoje - falei recordando-me de meu encontro com Julia — Eu vinha aqui todo fim de semana quando era moleque, eu e meus colegas jogávamos poker em uma mesa que ficava em uma sala nos fundos.

— Decidiu relembrar esses tempos passados? — disse ela.

— Não, apenas estou tendo problemas para dormir, bem, creio que não para dormir, apenas receio de deitar na cama — falei esbanjando um sorriso de desgosto.

— Sofre de insônia? — disse ela.

— Não, quase nunca, mas tive o mesmo pesadelo repetidas vezes nessa última semana, isso está começando a arrancar minha lucidez — falei.

Ela sorriu com o canto dos lábios, logo em seguida acenou para o atendente que cruzava nosso corredor, pediu-lhe uma garrafa de vinho, fato este que me pareceu bastante incomum, durante toda a minha vida jamais pedi por vinho em um bar.

— Tem pesadelos todas as noites, delegado Marcos? — disse ela.

— Passei a ter — falei recordando-me da face de Manu em meus sonhos.

— Você os têm por causa de seu trabalho? — disse ela.

— Nunca tive qualquer pesadelo ligado ao meu trabalho, este foi o primeiro — falei.

— Deve ser algo realmente horrível para conseguir te impedir de deitar, você não parece o tipo de homem que se assusta com facilidade — disse ela.

O atendente trouxe a garrafa de vinho junto de duas taças, sem me questionar quanto à bebida, serviu-me assim como fez a ela.

— Por que chegou a essa conclusão? — falei.

— Por que você não pareceu ficar abalado com o que viu na boate naquele dia — disse ela.

A imagem de George passando mal me veio à mente.

— Você chegou a ver o estado em que o corpo estava? — falei.

— Não, achei melhor não olhar, fiquei na recepção — disse ela.

— Bom pra você — falei pouco antes de começar a saborear aquela taça.

— Conseguiram pegar o assassino? — disse ela.

— Ainda não, aquele caso está fora do comum, nada parece se encaixar, bem, talvez tenha sido eu a deixar algo passar, as últimas semanas foram complicadas demais — falei recordando-me de minha estadia na casa de Julia, relembrei de muitas coisas naquele bar — Casos malucos, investigações que não dão em nada, antigos rostos que surgem do nada, não sei realmente, acho que preciso de férias prolongadas.

— Antigos rostos? — disse ela com uma escancarada curiosidade em sua face.

— Sim, na verdade apenas um — falei a encarando. Seus olhos continuavam ameaçadores, aqueles orbes cor de mel eram exuberantes, mas sua pele pálida somada a seu cabelo negro e liso a tornavam alguém difícil de se interpretar.

— Uma mulher? — disse ela, me surpreendi.

— Sim, uma mulher — falei.

— Ex-esposa? — disse ela.

— Quase isso — falei.

— Então é um antigo amor — disse ela.

— Bem, acho que já está querendo saber demais, já falamos demais na verdade — falei pouco antes de me levantar.

— Que pressa mais inoportuna — disse ela sorrindo, logo em seguida se levantou e se aproximou de mim — Te vejo por aí — murmurou próximo ao meu ouvido.

A observei caminhar por entre as mesas até desaparecer em um pequeno corredor próximo aos fundos da sala. Caminhei até o balcão e paguei minha conta. Após deixar o bar, cruzei a calçada até meu carro, busquei pelas chaves no bolso de meu casaco, mas estranhei um pequeno pedaço de papel que trouxe junto delas entre meus dedos, ao desdobrá-lo avistei um número de telefone, sorri sem perceber, ela deve tê-lo colocado em meu casaco quando nos aproximamos, mas não a vi escrever em momento algum, mistérios da vida, eu acho.


Notas Finais


A história de passa antes do ano de lançamento da canção 'Look on down from de bridge', mas não pude deixá-la de fora. :)


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