História O outro - Capítulo 26


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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Hentai, Mistério, Misticismo, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 26 - Livraria


A tranquilidade de Ouray costumava acalmar minha alma, ainda que em tempos estranhos, o clima da cidade me confortava, creio que o fato de ser minha cidade natal contribuía para este bem-estar, porém, jamais adquiri hábitos corriqueiros: caminhadas pelo parque, passeios pelas montanhas, ademais, aquelas clássicas dicas de todo psicólogo de botequim, não... uma xícara de café somada à leitura de um clássico do romantismo, do verdadeiro culto da tragédia, sempre me pareceu mais alegrador.

Não havia necessidade de folgar naquele dia, prova disto é a disposição que senti ao tomar meu café da manhã, mas por alguma razão o trabalho me pareceu dispensável, liguei para a delegacia e avisei que tiraria o dia de folga, não houve qualquer questionamento, minhas folgas estavam acumuladas há meses, salvo os dias em que me afastava por obrigação.

Vesti-me como de costume, portanto, sem nada de especial, um casaco qualquer de meu guarda-roupa me serviu perfeitamente, devo admitir que não me recordava da última vez em que o havia usado, mas pouco importava. Ao retornar à sala de estar, busquei pelas chaves da casa sobre a lareira, notei então o pequeno pedaço de papel que Selina havia posto em meu bolso durante a noite anterior, cogitei seriamente a hipótese de lhe convidar a se encontrar comigo, mas achei melhor não apressar as coisas, se é que havia realmente algo a se apressar.

Deixei minha casa e segui pelos arredores do bairro até o centro da cidade, ainda era cedo, portanto, as ruas estavam praticamente vazias, nada havia ali para me aborrecer, a delegacia, junto de todos aqueles casos que diariamente tinha de revisar, encontrava-se a vários quarteirões de distância, tratava-se apenas do amargo e ríspido clima do inverno. Não sabia exatamente para onde me dirigir, mas ao adentrar a principal avenida do centro, avistei próximo ao shopping a livraria que costumava frequentar durante meu período como universitário, questionei-me quanto a visitá-la durante os segundos em que esperei pela abertura da sinaleira, mas ao me aproximar, estacionei.

A fachada havia mudado, mas para minha surpresa, o tapete de boas-vindas permanecia o mesmo, não apenas ele como também a antiga vitrine pela qual eu escolhia a dedo a caneta tinteiro que levaria comigo há cada fim de semana, contudo, Madame Moore, a dona do estabelecimento, envelhecera alguns bons anos, seu antigo cabelo loiro se misturara com várias madeixas grisalhas, sua face evidenciava diversas rugas. O tempo é a mais implacável das verdades. Caminhei por entre os corredores até encontrar a seção de terror e suspense, ela encontrava-se aos fundos da livraria, ao lado da seção do que hoje em dia se conhece por autoajuda, gênero este que é sem dúvida alguma o pior dentre tantos outros presentes na literatura, por Deus, quanto mais minha vida se estende, mais concedo razão a Nietzsche quanto a este tema, quero dizer, por que raios as pessoas persistem por se espelhar na vida alheia? Tratei de não fitar qualquer um dos livros daquela prateleira, passei meu olhar pelos vários títulos do horror, dentre eles havia diversas obras clássicas do King, assim como do Poe, mas eu não sentia o mínimo desejo de mergulhar naquelas leituras, o simples fato de estar novamente naquela livraria me alegrava imensamente.

— Aqui está, é esse aqui — disse um rapaz em uma seção próxima — Preciso ler antes da prova final.

Sua fala me chamou a atenção, ao voltar meu olhar, avistei um casal de adolescentes, bem, ao menos me pareceu ser um casal, o sujeito estava segurando uma edição de 'A Gaia Ciência'.

— Meu professor afirmou que cobrará o eterno retorno na prova final, preciso ler essa porcaria até o fim do mês — disse ele, a garota então lhe mostrou a língua e sorriu.

— Eu te avisei para não escolher esse curso, bem feito pra você — disse ela pouco antes de esbanjar um sorriso vitorioso, logo em seguida ambos caminharam em direção ao caixa.

Aquela leitura me era muito familiar, de fato, eu conhecia exatamente a seção da qual aquele livro foi retirado, ora, como poderia não conhecer? Meu ser advertiu-me: Afaste-se de todo o mal, pois a calmaria cessará, mas a teimosia me consumiu, de fato, prossegui, me aproximei daquela seção com um receio peculiar, havia desejo naquele sentimento, o desejo pelo entristecimento que de alguma forma me era alegrador.

A seção de filosofia, a mesma filosofia que certa vez abri mão, a verdadeira ciência da reflexão, a impugnação da mentira, a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência, a arte do pensar, reflexão da contemplação, o amor à sabedoria, ora, o verdadeiro amor à sabedoria. Havia ali diversos títulos, mas as clássicas obras de Rousseau já não se encontravam na primeira fileira, tão pouco as pueris obras de Marx, pensador este que conquistou a incrível façanha de degradar a humanidade, maldição, os escritos daquele infeliz continuam a reunir idiotas pelo mundo inteiro, Nietzsche, por sua vez, ocupava grande parte da segunda fileira, o Zaratustra, assim como 'Humano, Demasiado Humano',  estavam presentes, porém, a primeira fileira abrigava os grandes clássicos, claro, assim como tinha de ser, Platão e Aristóteles eram as grandes figuras, tratava-se do projeto socrático em sua forma mais plena, e dentre aquelas obras, uma me chamou a atenção: Metafísica, obra de Aristóteles, porém ele jamais lhe deu tal título, em seus escritos usava o termo filosofia primeira, o estudo do ser enquanto ser. Recordei-me da explicação de meu professor a respeito daquele livro, disse-me ele: Os entes são coisas da temporalidade, mas o ser é coisa de eternidade, o ser não pode deixar de ser, aquilo que é tem de continuar sendo, tudo o que deixa de ser, não é, só o ser é, os entes é que deixam de ser. Creio que tudo isso é uma grande loucura, mas de alguma maneira, uma loucura lúcida.

Meu celular começou a tocar, desviei minha atenção da Metafísica e atendi a ligação.

— Alô? — falei.

— Marcos? — disse Julia, não havia como não reconhecer aquela voz — Você não vai acreditar no que me aconteceu, adivinha.

— Não tenho ideia — falei sinceramente.

— Acabei de falar com meu marido, ele me ligou aqui da cidade, vou me encontrar com ele em algumas horas — disse ela. Tive vontade de mandá-la para o inferno junto do restante do mundo, convenhamos, todos resolveram se unir para me enlouquecer.

— O que aconteceu? Ele não havia desaparecido? — falei.

— Não sei, ele me ligou e disse que explicaria tudo hoje à tarde, então liguei pra te avisar, já pode parar com a investigação, está tudo resolvido — disse ela.

— Tem certeza de que era ele? — falei, ela demorou para me responder, tenho certeza de que esbanjou uma face de indignação.

— É claro que tenho. Estou voltando para o hotel — disse ela.

Imaginei que teríamos de nos despedir novamente, desta vez pelo telefone, mas nenhum de nós pronunciou qualquer palavra a esse respeito.

— Tudo bem — falei. Após alguns segundos em silêncio ela desligou.

Voltei meu olhar para a mesma obra de Aristóteles, mas desta vez a encarei apenas com os olhos do corpo. Naquela época havia pouca certeza em mim, eu não fazia ideia do que habitava aquele livro. Aristóteles é um dos, se não o maior pensador que já passou por esta terra, Dante tinha razão ao descrevê-lo como 'o mestre dos que sabem'.

Pela primeira vez em minha vida deixei aquela livraria sem comprar um único livro, retornei para minha caminhonete e tratei de me dirigir à delegacia, para o inferno com minha folga, havia muito trabalho a ser feito.



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