História O Outro Lado - The Other Side - Capítulo 7


Escrita por: ~

Postado
Categorias Mulher Maravilha
Personagens Diana Prince (Mulher Maravilha), Rainha Hipólita, Steve Trevor
Tags Dc Comics, Diana Prince, Mitologia Grega, Mulher Maravilha, Romance, Steve Trevor, Wonder Woman
Visualizações 59
Palavras 4.731
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Fala aí, guys. Como prometido, o capítulo de hoje! Cheio de emoções, já vou logo avisando.
Espero que gostem, a música está nas notas finais.
Madilyn Bailey Cover - Halo. ;]

Capítulo 7 - Capítulo 6: À Flor da Pele


Fanfic / Fanfiction O Outro Lado - The Other Side - Capítulo 7 - Capítulo 6: À Flor da Pele

"Baby, eu posso ver a sua auréola. Você sabe que é a minha graça salvadora."

DIANA PRINCE

Suspirei com força, afastando qualquer resquício de sono que pudesse me incomodar. Já eram quase seis da manhã quando o Sol finalmente começou a nascer, atingindo a janela do hotel com intensidade. Como o usual de Gotham, as primeiras nuvens carregadas também davam as caras, ameaçando um dia ensolarado.

Suspirei novamente, coçando os olhos. Não queria dormir, pois sabia o que aconteceria caso o fizesse. Mais pesadelos. A ideia de passar a noite em claro soou boa para mim, principalmente depois de tudo que aconteceu no baile de gala.

Fechei os olhos por um breve momento, refletindo sobre as palavras de Bruce. Naquela noite, ele havia me guiado pelo salão até uma sala às escondidas. Eu sabia onde aquela sala dava, mas o impedi antes que fossemos até o final.

— O que houve? Algum sinal dele?

— Nada. Barry e eu temos procurado em terra firme, Arthur pelos mares e Victor têm caçado qualquer informação que possa nos levar até ele.

Cruzei os braços sobre o peito, desviando o olhar.

— Se souber de qualquer coisa, me avise. Posso ajudar a procurá-lo também.

— Sabemos disso — Bruce falou, desativando seu pequeno aparelho de comunicação. — Mas algo me diz que você tem andado muito ocupada.

Revirei os olhos, checando o local. Só havíamos o maior detetive de todos e eu. Não queria saber aonde essa conversa nos levaria, mas queria ter certeza de que não teria mais ninguém por perto.

— Na verdade, Londres anda calma demais.

Bruce não riu, porém ergueu a sobrancelha.

— Não sei o que aconteceu, Diana, mas não preciso alertá-la sobre tomar cuidado. E aprenda a mentir com seu novo amigo.

 

Apesar de ter sido uma conversa um tanto quanto intensa, não ultrapassou as que tive com Steve na mesma noite. Parte minha sabia que insistir em algo que jamais poderia voltar era loucura, mas toda a vez que pregava os olhos nele, algo me dizia para não desistir.

Revivi os momentos em minha cabeça, um de cada vez para refletir sobre as palavras ditas. Era estranho e diferente sentir como se estivesse prestes a explodir em fogos de artifícios em réveillon, contudo, era exatamente esse sentimento. Melhor ainda, como se todos os dias fossem apenas festa.

Para ser honesta, jamais poderia imaginar que ele me chamaria para dançar. Nos encontrávamos em uma situação diferente, e não somos mais as mesmas pessoas que éramos há um século - mesmo que ele não se lembrasse disso. Enquanto dançávamos, conseguia sentir sua respiração alterada, seu coração batendo em descompasso. Eu me sentia da mesma maneira e aquilo ficou claro assim que chegamos na suíte. O que acontecera ali fora intenso demais para ser descrito, mas quando Steve estava prestes a me beijar, conseguia sentir como se minha alma estivesse sendo retirada do meu corpo apenas para observar aquela cena que tanto almejava. Bem, até Steve cair no chão reclamando de dor. Por mais que soasse estranho demais, aquilo me preocupou. Tive que colocá-lo na cama assim que apagou, e enquanto ele dormia, tentei achar respostas para o que tinha acontecido.

Respirei fundo, afastando a memória da noite. Ele não estava bem agora e eu deveria saber o porquê. E se estivesse doente? E se algo estivesse acontecendo, mas não quisesse me contar?

Não. Uma voz gritou no canto da minha mente, fazendo-me despertar dos pensamentos e focar no que realmente importava.

Eu deveria falar com Afrodite novamente, mesmo que contra a minha vontade. Ela deveria saber o que estava acontecendo com Steve e eu faria o necessário para descobrir.

— Já está acordada? — a voz sonolenta dele me despertou novamente. Não tive a coragem de olhá-lo.

Me levantei devagar, calçando as botas. Na madrugada, aproveitei para trocar o vestido e retirar a maquiagem, então já estava pronta para ir.

— Espera… Você não dormiu?

Neguei com a cabeça, observando a paisagem dos prédios e alguns aviões que atravessavam o céu.

— Preferi me certificar de que você estava bem. Além disso, não estava com sono.

— Eu estou bem, Diana. Não precisa parar sua vida por mim. — ele reclamou, levantando-se da cama e indo até a mala de roupas.

Engoli o seco, deixando que uma risada escapasse. Não era o caso e jamais seria. Me importava com Steve e claramente me preocupava, mas não a ponto de atrapalhar meus deveres, muito menos meu sono. Bom, não naquele caso.

— Você desmaiou.

Olhei para ele, notando seu rosto ganhar uma cor rosada. Ele retirou o smoking, e eu evitei de encará-lo, quase resistindo à tentação. Ao contrário dele, que manteve seus olhos presos em mim. De certa forma, aquilo me incomodou.

— Só senti uma dor de cabeça insuportável, nada demais. Bebi além da conta.

— Claro. — voltei-me para ele, agarrando a mala. — Você tem dez minutos para descer.

E com essa deixa, abri a porta, seguindo em direção ao elevador e deixando-o sozinho na suíte.

 

O caminho até o aeroporto foi mais longo do que eu esperava. Steve e eu não trocamos nenhuma palavra enquanto um dos motoristas de Bruce dirigia por uma das ruas mais movimentadas de Gotham e reclamava do tempo. Tentei ao máximo não puxar alguma conversa com ele, mas o senhor era extremamente sociável e acabei me rendendo. Olhei de relance para Steve algumas vezes para checar se ele ainda estava acordado ou prestando atenção na conversa, só para encontrá-lo perdido em seus pensamentos.

No voo, no entanto, ele decidiu falar.

— Diana. — chamou, fazendo com que eu tivesse que ignorar minha revista para escutá-lo. Evitei perguntar se ele estava bem.

— O que foi?

Steve relaxou quando percebeu o tom preocupado em minha voz. Ele parou por um momento, me analisando. Era difícil manter contato visual quando ele focava em olhar diretamente para minha boca, mas tentei não parecer nervosa. Estava funcionando.

— Não queria ter dormido, você sabe, naquele momento.

Curvei meus lábios em um sorriso, sabendo exatamente onde ele queria chegar. Balancei a cabeça negativamente.

— Você desmaiou.

— Eu não desmaiei. — argumentou, tentando não sorrir. — Estava bêbado demais para me concentrar.

Aquilo foi o suficiente para sugar todo o clima tenso que havia se instalado desde o hotel. Agradeci mentalmente por estarmos rindo da falta de jeito dele e passamos o resto do voo até Londres respondendo questionários e testes estúpidos para matar o tempo. Todas vezes em que nossa conversa nos levava ao que havia acontecido na suíte, nossos olhares se encontravam tempo o suficiente para que eu acabasse desejando estar de volta à noite passada.

Assim que chegamos no apartamento, desabei no sofá, sentindo todo o cansaço pesar sobre meus ombros. Era sempre exaustivo viajar até Gotham, principalmente depois de uma noite como aquela.

Steve, com suas calças escuras e uma jaqueta de couro que o fazia parecer um astro internacional, sentou-se ao meu lado, colocando as mãos atrás da cabeça enquanto se aconchegava no sofá.

— Estou morto. E minha cabeça dói.

— Isso é o que ganha por beber demais — acrescentei, batendo levemente no braço dele.

Virei meu rosto para ele, também me apoiando em minha mão. Para minha surpresa, a sacada revelava uma tarde nublada, com nuvens completamente carregadas. Estranhamente, senti como se aquele tempo estivesse me perseguindo. A previsão para Londres não constava uma tempestade, e aquilo com certeza não era um dia ensolarado.

Percebendo que minha atenção estava toda na paisagem além da sacada de vidro, Steve suspirou, também desviando seu olhar.

— Acha que é um péssimo dia para conhecer a nova Londres?

Pensei por um instante. Não era uma ideia ruim, no geral, visando que ele realmente precisava conhecer seu presente. Para a sorte de ambos, eu ainda não havia voltado à trabalhar e me sentia no dever de mostrar tudo ali à ele, já que voltaria à Paris e ao Museu quando as férias terminassem. Além do mais, não estava nos meus planos ficar presa, pelo contrário, era um ótimo momento para explorar pela vigésima vez meu lugar favorito do Mundo dos Homens.

Me sentei na beirada do sofá, balançando minha cabeça em um sinal positivo, porém hesitante.

— Ótimo.

— Isso é sério? — ele tentou omitir sua empolgação.

Me ergui com rapidez, indo até a porta. Antes que a abrisse, virei-me para ele.

— É o seu dia de sorte.

Steve sorriu, levantando-se com energia.

— Acho que todos os dias desde que acordei são meus dias de sorte.

Para completar ainda mais nossa sorte, não haviam tantas pessoas na rua aquele horário justamente por conta da chuva que ameaçava cair. Era melhor assim, Steve deveria saber o quão movimentada Londres pode ser e definitivamente não queríamos alguém escutando nossas conversas.

Andamos lado a lado, ele com as mãos enfiadas no bolso da calça e eu suspirando pesadamente por conta do frio. Me acostumar com a mudança climática foi o pior desafio que tive de enfrentar depois de Ares. Em Themyscira, não havia chuva ou tempestade, apesar de conhecê-las através do livro de histórias de minha mãe. Ela costumava contar que, quando o céu estava escuro e carregado, Zeus estava irritado com as Amazonas, então por séculos temi que esse dia chegasse. Isso até ir embora de Themyscira.

— No que está pensando?

— Chuva, tempestades — admiti, admirando o céu cinza. — Zeus.

Steve me olhou e retribui o olhar. Andávamos sem rumo, apenas para que ele pudesse absorver como as construções haviam mudado ao longo do século.

— Conte-me sobre ele. Além do óbvio.

Tive que conter minha surpresa ao ouvi-lo. Achava que Steve não acreditava em minha história, mesmo ela sendo a pura verdade. Talvez ele simplesmente confiasse em mim mais do que admitia.

Dei de ombros, abraçando-me. Algumas pessoas passaram por nós, nos encarando com uma inocência que só humanos conheciam. Eu jamais a teria, por mais que desejasse.

— Não há o que falar, Steve. — falei quando viramos a rua, nos deparando com vários quiosques de diversos tipos de comida. — Desde que era pequena e, bom, isso aconteceu há um bom tempo, minha mãe me contava histórias sobre os deuses e em como eles haviam sido bons em me trazer à vida através do barro. Ela sempre colocava ênfase nos feitos de Zeus, e eu acreditava que era porque Zeus era o líder do Olimpo, as grandes responsabilidades pesavam em suas costas.

Soltei uma risada fraca, evitando olhar para ele, apesar de saber que Steve estava me encarando fixamente.

— Na verdade, tudo que contou sobre mim era mentira. Uma grande e ótima mentira, já que só descobri quando vim para cá. Com você. Mas foi Ares quem me contou a verdade e, pela primeira vez, não o encarei como o Deus da Guerra, mas sim como o Deus da Verdade que dizia ser. Ele foi o único a me contar o que sempre fui.

Permanecemos em silêncio, e imaginei que Steve estivesse processando a confissão. Parei em frente à um dos quiosques, o meu favorito desde que a feira de doces havia se instalado em Londres. O grande pôster pregado na parede atrás do quiosque indicava o melhor sorvete do mundo inteiro, e aquilo me fez querer pedir mais sorvete do que o usual. Era como meu álcool para curar pensamentos ruins e más sensações.

— Você nunca o viu?

— Não, nem mesmo quando decidi ficar no Mundo dos Homens. Aqui.

Steve levou a mão às têmporas, esfregando-as como se quisesse entender. Não o culparia se achasse loucura, mas já tínhamos passado desse ponto.

— Ele simplesmente não se importa?

— Provavelmente não, mas tenta fazer com que eu pense o contrário. — me aproximei dele, para que as pessoas que estavam ao nosso lado no quiosque não escutassem. Agradeci por elas estarem gritando seus pedidos. — Todos os anos recebo presentes. São caixas prateadas que contêm pequenos artefatos. Sei que são forjados por Hefesto, já que Zeus não tem a mínima coragem de dar presentes decentes. Bem, além dos raios.

Observei sua expressão mudar com rapidez. Steve queria rir, contudo, apenas deu um sorriso convencido.

— Raios?

— Eu sei, inacreditável.

Quando as pessoas retiraram seus pedidos, alcancei o balcão, pronta para aproveitar a melhor coisa que aquele mundo poderia oferecer.

— Isso aqui é um sorvete? — ele apontou para a imagem ilustrativa.

Assenti, sorrindo.

— É o melhor do mundo, apesar de parecer que não.     

— Sem chance. Isso aqui é monstruoso demais, Diana. — gargalhei ao escutá-lo.

O sorveteiro ergueu a mão para nós, assobiando de leve. Nós dois olhamos para ele ao mesmo tempo. O Sr. Olley estava bem mais barbudo e grisalho do que da última vez que nos vimos, no mês passado. Assim que me notou ali, abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Senhorita Prince! — gritou, puxando cuidadosamente minha mão até seus lábios, beijando-a. — É um prazer revê-la!

— Ei, Sr. Olley. É bom vê-lo também.

— E você, meu rapaz? — ele perguntou, voltando-se para Steve. — Não me diga que Diana achou alguém para compartilhar seu sorvete predileto? Você deve ser importante.

Sabia que Olley faria um comentário como aquele, afinal, era o que todos estavam comentando quando nos viam juntos. De repente, é como se uma mulher não pudesse ter mais amigos homens. Bom, naquele caso, seria claramente uma mentira afirmar que Steve significava apenas um amigo para mim, contudo, era o que estava acontecendo. Bem, na teoria.

— É, bom, sou o namorado dela. — Ele lembrou da mentira e ainda a alimentou. Pela segunda vez. — Steve.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mãos e logo após isso, esquivei-me de mais perguntas que pudessem comprometer demais nosso pequeno segredo. Fizemos nossos pedidos e, para a sorte de Steve, consegui convencê-lo de comprar a mistura de torta de limão com coco e brigadeiro, e no final das contas, ele gostou do resultado. Decidi escolher framboesa e chocolate branco, um dos meus favoritos.

— Não suma de novo, por favor. — pedi ao Sr. Olley assim que experimentei minha mistura. Deuses, aquilo era minha morte.

O senhor riu, balançando a cabeça em sinal positivo.

— Volto na semana que vem, minha querida.

— Então até a próxima semana. — disse ao colocar o dinheiro em suas mãos.

— E você, rapaz, cuide bem dessa mulher! — Steve assentiu, mas parecia atento a outra coisa que não fosse nossa conversa.

Depois daquilo, continuamos nosso pequeno tour pelas ruas de Londres que fossem mais próximas ao apartamento. Apesar do que eu conseguia fazer, estávamos cansados e planejávamos voltar para casa o mais rápido possível.    

Assim que avistamos o parque do bairro e, milagrosamente um banco vazio, sentamos ali e descansamos nossos corpos, apenas aproveitando o momento. A brisa que aquele clima trazia me deixou ainda mais à vontade.

Foquei no sorvete à minha frente, distribuído em uma grande quantidade no pote verde escuro. Aquela coisa poderia acabar comigo e eu adoraria.

Steve riu, e foi só naquele momento que percebi que estava sendo observada.

— O quê?

— Você está olhando para esse sorvete como se estivesse apaixonada por ele.

Sem conseguir me conter, também dei risada.

— E estou. Não há nada no mundo que seja melhor do que isso.

Não dava para omitir, havia criado aquela cena repetidamente em minha cabeça durante anos. Steve e eu rindo de qualquer besteira em um parque enquanto pessoas passavam por nós e nos encaravam com caretas, se perguntando o porquê dos dois adultos estarem tão felizes em um dia útil.

Ainda hesitante, olhei de soslaio para ele, que também me encarava com curiosidade. Desloquei o foco para o sorvete de Steve, que fez o mesmo com o meu. No momento seguinte, estávamos os dois experimentando o sabor do outro e rindo alto pelo sucesso da tentativa.

— Uau, esse é ótimo.

— Eu sei bem — garanti, erguendo a colher para ele.

— Diana?

— Hmm? — ainda estava focada demais experimentando o sorvete de Steve para responder.

— Você estava certa. Não era apenas uma dor de cabeça.

E com isso, voltei a fitá-lo. Minha preocupação não era excessiva, afinal. Sem dizer nada, ele apenas continuou.

— Acho que tenho minha primeira lembrança sua.

Congelei. Era como se o sorvete estivesse chegado ao meu cérebro e me impedido de processar qualquer outra informação ou resposta válida. Do que ele se lembrava? De qual pedaço de nossa curta e breve história ele havia conseguido recuperar?

— Nós estávamos em alguma loja de roupas em Londres. Você, Etta e eu.

Concordei, sem tirar os olhos dele.

— E você estava experimentando tantos vestidos, nem ao menos sei o porquê. — Steve franziu a testa, deixando o seu pote de sorvete no banco. — Quando apareceu vestida naquele casaco preto, usando aquele chapéu, eu… Não sei exatamente o porquê, mas sei que estava diferente de tudo que já havia visto. Foi estranho. Qualquer coisa antes ou depois, eu não... Consigo me lembrar. É como se minha cabeça fosse uma grande escuridão.

Enquanto ele contava, lágrimas ameaçavam cair, mas eu me forçava para mantê-las. Finalmente havia algo ali dentro que sabia sobre minha existência e tudo que havia acontecido há um século. Meu coração palpitava em cada palavra, mesmo que não fosse exatamente algo comprometedor. Já era algo. E céus, como foi bom saber daquilo.

— Fale algo, por favor. Você está me deixando nervoso.

Pensei, tentando controlar meu coração de dizer por mim coisas que poderiam assustá-lo.

— Isso é ótimo, Steve — toquei seu braço. — Você está recuperando sua memória mais rápido do que eu esperava, é muito bom. E, bom, pelo menos não me acha mais uma estranha.

Ele negou, arqueando uma das sobrancelhas.

— Não te considero uma estranha. — e pegou o sorvete novamente, dando uma colherada. — Você tem sido boa pra mim, Diana.

Esbocei um sorriso afetado, emocionada. Não sabia como lidar com aquele sentimento que estivera por tanto tempo adormecido. Antes, na realidade, nem ao menos tivemos a oportunidade de criarmos momentos juntos além da busca por Ares e Ludendorff. Tudo o que tínhamos feito girava em torno de encontrar ambos.

— A recíproca é verdadeira, Steve Trevor.

— Eu não disse nada naquela tarde, mas… — o tom grave em sua voz me fez encará-lo, e ele tocou minha mão com cautela. — Você estava… Linda. Etta tinha razão, óculos só a fizeram ficar ainda mais bonita.

Assenti, notando como meu corpo reagia ao seu toque desprevenido. Controlei ao máximo minha respiração, mas sabia que estava óbvio o quanto aquilo estava me afetando. Lembrei-me da noite em que havíamos dançado. Steve me olhava exatamente como estava fazendo naquele instante.

— Steve…

— Sei que precisamos conversar sobre o que aconteceu na noite passada...

Bom, adiantou o processo. Ótimo.

Achei que nada pudesse nos atrapalhar ali, e estava convicta de que Steve estava prestes a me beijar se não fosse pela minha falta de descuido. Enquanto ele falava, algo me chamou atenção logo atrás do banco. De longe, se assemelhava à um pássaro, entretanto, quando se aproximou e pousou na árvore, pude perceber que era uma coruja.

— Steve, vamos. — peguei em sua mão antes de deixá-lo terminar a frase.

— Diana, o que diabos…

— Só ande, por favor. Rápido.

    

Meu coração batia rápido e quase para fora do peito quando chegamos no apartamento. Estava sendo complicado se concentrar e pensar no assunto com Steve perguntando diversas vezes sobre meu comportamento repentino. Eu não respondi nenhuma das vezes, e meramente disse que deveríamos nos apressar.

— O que foi aquilo? — as palavras quase voaram da boca dele. Seu semblante confuso fez minha cabeça doer.

— Agora fique aqui e não saia, por favor.

— Diana, o que está acontecendo? — neguei, me recusando a contar à ele. — Você precisa me dizer. Qual é o mistério?

Não poderia contar. Ele não entenderia o motivo, e então eu também deveria explicá-lo. Se fizesse isso, tudo o que estávamos construindo, principalmente a amizade, se acabaria em segundos. Não colocaria isso a perder.

— Preciso lidar com um assunto particular, não se preocupe.

Steve revirou os olhos, esfregando-os em seguida. Apressei-me em fechar as cortinas da sacada, trancando-a.

— Não me peça isso. Olhe o jeito como saiu de lá, Diana. O que diabos aconteceu?

— Me deixe ir sem me encher de perguntas e, assim que voltar, tento respondê-las. Tudo bem?

Steve parecia chateado com minha resposta. O que eu poderia fazer? Isso só pioraria ainda mais a situação, levando em consideração o tamanho do problema.

Ele deu de ombros, apoiando-se na mesa.

— E eu posso impedi-la? — disse, irônico.

Quis pedir para que ele não guardasse rancor ou sentimento parecido, mas não o fiz. Era o direito dele se retrair, e sabia que o faria. Dei a última olhada nele antes de ir até a cozinha. Ele ficaria bem, contanto que permanecesse dentro do apartamento.

Abri a janela da área de serviço, erguendo meu corpo para fora da mesma. As luzes de uma cidade ao anoitecer estavam começando a aparecer, então eu deveria acelerar. Com um impulso, voei até a cobertura do prédio, olhando para os lados.

Para meu azar, a chuva começou a cair com gotas pesadas, atingindo-me com ferocidade. Em segundos, a coruja que havia visto no parque voou bem ao meu lado, aterrissando em um dos cubos de aço que se estendiam próximo ao pára-raios.

Eu a segui, aproximando-me com rapidez quando a coruja deu forma à uma mulher. Sem hesitar, corri para abraçá-la.

— Atena!

— Diana! — ela retribuiu ao meu abraço, apertando os braços ao redor do meu corpo.

Pelos deuses, como era bom vê-la.

Me afastei, analisando seu rosto esbranquiçado ser atingindo pela água. Ela não usava suas vestes de sempre, mas sim um vestido branco que se destacava pelo um cinto brilhante. Os cabelos loiros presos em um coque destacavam ainda mais sua seriedade.

— O que faz aqui?

Atena acariciou meu rosto com a palma da mão, e apesar de não estar vendo suas costas, sentia o escudo formar-se bem ali. Logo, ela estava com ele preso à um cinturão que se pendurava do pescoço ao outro lado da cintura. Sua espada brilhou quando um raio cruzou o céu.

— Você se colocou em grande risco, Diana.

Respirei fundo, observando a briga entre trovões e raios no céu escuro.

— Não sei do que está falando, Atena.

— Sua mãe me alertou — ela se moveu, dando alguns passos para o lado. — O que você fez, Diana, foi algo grave.

Ah, não. Minha cabeça tateou respostas rápidas, e todas elas envolviam mentir. Eu não poderia fingir para Atena, não poderia nem se quisesse. Ela era uma das grandes deusas do Olimpo e a única a quem eu confiava meus segredos. A única que ouviu minhas preces depois que derrotei Ares enquanto todos os outros agiam como se não me quisessem por perto. Isso não me irritava, de outro modo, me deixava satisfeita. Não queria me envolver com o mundo que haviam criado para si quando abandonaram os humanos.

— Atena…

— Se tivesse me perguntado, Diana, eu teria lhe dito “não”. E diria que é loucura e uma afronta à todos os outros deuses. — sua voz era extremamente calma, considerando o sermão.

— Eu a respeito, Atena, como uma deusa e uma amiga, mas essa era uma decisão somente minha. Não poderia colocá-la nisso.

Atena respirou fundo, a água escorrendo por todo o seu corpo e encharcando seu vestido, assim como minhas roupas.

Seus olhos azuis piscaram para mim.

— Hades está furioso, Diana. Zeus reuniu todos os deuses no Olimpo, estão todos lá.

Evitei rir, contudo, foi mais forte do que eu. Todos menos eu.

— Tem que se juntar à nós.

— Não. Acha que Hades não sabe que sou eu? Ele deve ter esse conhecimento no momento em que retiramos a alma de Steve do Submundo.

Atena negou, assustada.

— Diana, tem alguma ideia de onde a alma de seu mortal estava todo esse tempo? — perguntou e eu não respondi. — Ah, deuses. Ele estava nos Campos Elísios, Diana. 

O que diabos... Não, não. Desviei o olhar, tão assustada quanto Atena. Não era verdade. Não poderia ser. Não, não, não. Então ele estava bem sem mim. Mas como foi parar lá? 

— Isso não é possível. 

— É claro que é. Bom, ele estava lá. Esse foi o único motivo pelo qual Zeus interviu. 

Eu havia estragado tudo mais uma vez com boas intenções. Não havia ideia de como Steve havia parado nos Campos Elísios, mas sabia que o lugar pós-vida não era ruim. Ao contrário, fora feito justamente para aquelas de alma boa, incluindo homens e deuses.

Se estivesse certa, provavelmente todos os deuses estariam decidindo o que aconteceria comigo. Zeus daria a palavra final, entretanto, a opinião dos outros deuses era de suma importância, afinal, a assembleia havia sido criada justamente para somarem opiniões e não para deixarem Zeus decidir sozinho.

— Talvez Hades saiba, mas essa é chance para mostrar que está lá para revogar seu lugar no Olimpo. É a Deusa da Guerra há mais de cem anos, precisa deixar isso claro. Zeus não deixará Hades tomar providências extremas. Não se tratando de você.

— Já está claro o suficiente, Atena. Se todos quiserem comprovar isso, incluindo Hades, estarei bem aqui pronta para o combate. Não irei alimentá-los. Fico feliz que tenha vindo até aqui para me defender, mas estou bem. E também não preciso das defesas de Zeus, pensei que tivesse me criado para enfrentar deuses, e não me esconder atrás deles.

A Deusa da Sabedoria suspirou, cabisbaixa. Com aquela expressão, quase consegui ler seus pensamentos. Ela não queria se mostrar preocupada ou nervosa com a situação.

— Valeu a pena, Diana? — perguntou. — Você está feliz?

— Mais do que eu poderia imaginar — respondi, honesta. Era a pura verdade e ela sabia.

Com isso, assentiu e me abraçou novamente, afagando minhas costas.

— Cuide-se, Diana de Themyscira. Sua mãe está preocupada com você, não deixe de dar notícias à ela.

Quando nos afastamos, quase vi uma lágrima escorrer pelo olho direito. Não sabia se era mesmo uma ou só água da chuva. Suspeitava da primeira opção.

— Não sei quem a ajudou, só tome cuidado em quem deposita sua confiança. Todos parecem ter boas intenções, mas sabe que há maldade até mesmo nas boas ações. — Atena subiu no parapeito da cobertura, admirando a paisagem da cidade coberta de nuvens e luzes coloridas. — A manterei informada. Nos vemos em um futuro próximo, querida.

Com essa deixa, assumiu sua forma animalesca, voando até o horizonte. Não pude deixar de sentir uma pontada de culpa em meu peito. Um pressentimento ruim, como se algo de terrível estivesse prestes a acontecer.

    

Adentrei o apartamento pela sacada, notando que a mesma se encontrava aberta. Droga, Steve.

Nem havia colocado os pés no chão quando ele apareceu do outro lado da porta, fitando-me com uma expressão preocupada.

— Foi resolver seus problemas na chuva?

Arfei, apertando meus braços contra o meu corpo. O clima tenso que a conversa com Atena havia me proporcionado tinha me feito esquecer o frio que fazia em Londres.

— Acho que foi o caso.

Ele se aproximou, eliminando o espaço que havia entre nós. Tocou meu rosto com o polegar, alisando-o e enxugando a água em excesso que escorria dos cabelos. Em seguida, segurou minha mão.

— Está tremendo…

— Steve. — chamei, suspirando com a proximidade.

Não queria mais esperar. O mau pressentimento estava ativando toda a adrenalina em meu corpo, queimando meu cérebro e toda a racionalidade. Eu não queria mais pensar demais no que poderia dar errado ou no que estava para acontecer. Estava exausta de alertas e proteções que não havia pedido. Extremamente cansada de aguardar tudo o que queria por décadas.

Steve me observou, os olhos cravados em minha boca.

— Fale.

Sem hesitar mais, o puxei com força para mim, selando nossos lábios. Steve pareceu surpreso com minha atitude, contudo, nos aproximou ainda mais ao enroscar a mão em meu cabelo, pressionando seu corpo contra o meu completamente molhado. Sua boca era quente, e a língua percorria toda a extensão da minha, brincando com a mesma em alguns momentos para senti-la.

As mãos dele tatearam meu corpo, erguendo-me em seu colo. Passei as pernas em torno do seu corpo, prendendo-me à ele da melhor maneira possível.

Em segundos estávamos no sofá, e Steve parecia tão desesperado por aquilo quanto eu que, quando ficou por cima de mim, esqueceu de que eu estava encharcada. Não pareceu um problema para ele, muito menos quando retirou sua camiseta molhada e a jogou no chão.

Seus lábios urgentes percorreram toda a região do meu pescoço, traçando um caminho até minha boca novamente. Eu alisei suas costas nuas, sentindo cada cicatriz que deixava sua pele ainda mais bonita. Naquele instante, eu poderia ter a certeza de que estava completa, independente da situação em que nos encontrávamos. À beira de um precipício, mas amando cada segundo de adrenalina que a queda proporcionaria.


Notas Finais


E aí? Quanto amor, socorro. Ansiosa para ver o que tudo isso aí vai dar.
Beijos para vocês, obrigada por todo o carinho de sempre e até o próximo. <3
Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=apvl81myyjU


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