História O Pianista - Capítulo 7


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Assassinato, Assassino, Drama, Psicologia, Psicopata, Romance, Terror
Exibições 5
Palavras 1.023
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Mistério, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Heterocromáticos; Relativo a heterocromia. Anomalia genética na qual o indivíduo possui um olho de cada cor.

Capítulo 7 - Deus Ex Machina l


Deus ex machina (Deus que vem da máquina).

Madeline morava com os pais em uma pequena casinha do outro lado da rua. Sempre via seus cabelinhos enferrujados dando o ar da graça entre as cercas brancas da vizinhança. Durante a semana a pequena vestia seu uniforme tradicional; saia rodada e camisa branca.

De alguma forma nossos olhares sempre se cruzavam. Meu sorriso escondido na janela era discreto porém amigável. Gostaria de ouvir o tom de voz da menina, gostaria de perguntar sua idade e entender seu espanto ao notar que sou bem mais velho.

Não devemos machucar nenhum objeto muito próximo. Pode ser perigoso. Mas Madeline me chamava fortemente para perto de suas sardinhas. Me segurei o quanto pude, até que em uma tarde ensolarada não pude me conter.

Nossos olhares se encontraram e suas bochechas coraram. Madeline era seu nome, e seus pequenos olhinhos heterocromáticos me conquistaram por inteiro. Trocamos frases comuns de vizinhança: “Como está calor”, “O carteiro ainda não passou?” e mais algumas bobagens que repetimos quase que automaticamente a qualquer vizinho que nos cruze o caminho.

Descobri que ela tinha quatorze anos e dali algumas semanas faria quinze. Consegui absorver seu olhar triste e deprimido que se escondia atrás do sorriso com dentinhos tortos. Algo estava errado e pude sentir que não era comigo.

Talvez fosse algum problema em casa ou quem sabe na escola. Não tinha muita intimidade para perguntar a moça o que lhe causara tanto medo ou desgosto, mas iria descobrir. Precisava descobrir.

A partir dessa tarde, sempre nos cumprimentávamos de longe e trocávamos as frases repetidas. Isso não me bastava, precisa de algo mais forte. Precisava de uma resposta para aquela agonia nos olhos da pequena.

Comecei seguir seus passos. Pela manhã, caminhava com Madeline até a escola com a desculpa que tomaria café da manhã na padaria em frente ao colégio. A tarde, por entre as moitas observava seus passos apressados. Por alguns dias sua rotina me pareceu normal e levemente monótona para alguém daquela idade.

Mas sabia que algo estava errado. Minhas trevas conseguem sentir as trevas dos outros. Algo puxava a pequena ruiva para um abismo triste e escuro, e isso me machucava porque não era eu o causador de seu sofrimento.

Faltavam duas semanas para o debute de Madeline. Me pegava pensando em um hipotético presente dia e noite. Sentia que precisava dar algo que lhe fizesse pensar em mim mesmo depois de certa idade. Que lembrasse de nossos sorrisos sem malicia, um dos poucos que transmiti a alguém sem a intenção de toma-lo com sangue para mim. Veja, eu não queria os olhos dela na minha estante. Foi algo completamente novo. Um par de olhos – heterocromáticos ainda por cima – e eu os queria vivos e desejando cores. Pulsando em Madeline.

Enquanto pensava sobre qual presente comprar, caminhei entre os quintais abandonados do bairro. As árvores estavam desbotadas e algumas decorações de Halloween já adornavam as casas. Cheguei em uma rua sem saída que não havia notado a existência. No final da rua, uma calçada cravada com limo e barro abria caminho para uma casa de madeira machucada pelo tempo. Suas janelas estavam quebradas e lona escura tampava os buracos. A porta estava com ripas pregadas e um grande “X” vermelho estava pichado na parede da frente.

Nem de longe parecia um local apropriado para visitas inesperadas, mas resolvi entrar. Senti algo me puxando para lá e, mais uma vez, estava certo. Entrei pela cerca quebrada e caminhei entre as folhas e lenhas espalhadas pelo chão. Uma cadeira de balanço estava caída bem ao lado da casa. Dei uma volta na parte de trás, muitas árvores frutíferas estavam carregadas e os frutos podres ao chão me fizeram resvalar.

Me segurei em uma corda amarrada na árvore, talvez um velho balanço, e quando limpei-me do tombo escutei um grito. Abafado, mas ainda sim um grito.

Pulei a janela do que seria a área designada para a lavanderia, e confirmei a presença da minha faca no bolso traseiro. Subi as escadas que rangiam a cada passo, cauteloso como nunca. Os gritinhos abafados se intensificaram conforme eu me aproximava do quarto. A porta estava entreaberta e pude espiar o lençol sujo de sangue. Madeline estava posicionada de uma forma animalesca e seu rosto estava coberto por um saco plástico. Senti vontade abraça-la e protege-la, mas confesso que a cena me deixou um pouco excitado. Não sei se criei certa simpatia por ela, ou se me sentia mal por não ser o causador de suas lágrimas.

Desci as escadas um pouco incomodado. Não quero que se coloque no meu lugar, mas entenda... Minha visão sobre o mundo é diferente. Não era nojo, asco ou medo o que senti ao ver aquilo. Não depende de mim, esse controle não mais me pertence.

Me escondi atrás de uma pilha de madeira embolorada, e ali fiquei até ouvir os passos rápidos na escadaria. A garota saiu chorando enquanto arrumava a saia. Prendeu o cabelo bagunçado para trás e antes de sair pela janela, olhou para cima. O homem estava posicionado no mais alto degrau, olhando para a garota com feição quase assustada. Soltou um sorriso medonho que me causou náuseas. Ele não era um objeto e nem um predador. Fazia errado, claramente errado e eu precisava entender. A curiosidade mórbida me tomou e então, sem ser notado, saí pela mesma janela que Madeline.

Em casa só conseguia visualizar os olhinhos de Mada. Pensava na dor que ela sentiu, e no quão horrível aquela cena era.

Deveria ele ter deixado seu rosto a mostra para ver as lágrimas, para ver o desespero em suas expressões. Seus cabelos embaraçados em meio as mãos sujas de sangue. Mas não, ele manteve a face escondida. Por que?

Sentei e finalizei duas garrafas de vinho sem mais pensar. Apenas ignorei as ondas sonoras e tomei meu merecido sonho. Acordei de madrugada, corpo suado e pensamentos confusos. Debaixo da água gelada, tomei uma decisão.

Aquilo não podia terminar assim, Madeline merecia algo maior do que um sufocamento em uma rua sem saída. E não por ela, mas por mim, resolveria aquilo da minha maneira.



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