História O Pianista - Capítulo 8


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Assassinato, Assassino, Drama, Psicologia, Psicopata, Romance, Terror
Exibições 4
Palavras 1.172
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Mistério, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Deus Ex Machina II


Duas semanas se passaram e não havia sinal de Madeline nas ruas. Caminhei em frente à casa, dei voltas e mais voltas na quadra do colégio. Marquei ponto na panificadora em frente à escola.

Nada.

E nessas duas semanas pude experimentar um sentimento de vazio absurdo. Tentei por vezes identificar o que era meu sentimento e o que era inveja por não ter os olhos coloridos me encarando com pavor, assim como aquele homem teve.

Me sentia impotente no meio daquele caos, porque além da minha curiosidade, nada me prendia a garota. Não seria certo tomar determinada atitude apenas para satisfazer meus pensamentos perversos.

Mais do que isso. Era perigoso.

Durante as duas semanas minha mente trabalhou ligada no modo automático enquanto meu corpo entrava em uma espécie de transe. Reabri feridas antigas e inflamei machucados cicatrizados. Foi mais forte que eu.

Estava me forçando a desistir. Me convencendo de que seria mais fácil arrumar um outro objeto para possuir e torturar. Uma outra melancolia para conhecer. Estava realmente acreditando nisso até que abri a cortina como de costume, pela manhã.

O homem, aquele que machucou a pequena Madeline, estava parado em frente ao meu portão. Quando percebeu minha presença na janela, fixou o olhar em mim e apenas sorriu. Aquele mesmo riso malicioso e nauseante do outro dia.

Nesse momento o caso tornou-se pessoal.

Acendi um cigarro e foquei meu pensamento em algo produtivo. No que faria e como faria. Não preciso explicar, ou sinto que não, mas algumas situações não necessitam de palavras para serem seladas. Aquele homem sabia disso. Ele fazia tudo de maneira errônea, porém se sentia parte de algo maior. Aquilo era errado.

 

—————•♦•—————

 

É difícil explicar para o “alguém comum”, para alguém como você, o que pode ser determinado errado ou não em uma situação como essa.

Para mim, bem como para muitos outros predadores, o ciclo de pose sob um objeto funciona da seguinte maneira:

Conhece-se o alvo, descobre-se algo que nos prende os pensamentos, possui-se o objeto, foca-se o controle no objeto dominado, dá-se a sensação de falsa liberdade e só então finaliza-se o objeto.

Durante esse ciclo podemos observar vários outros pormenores, porém isso depende do predador e da vontade que o toma.

Se você não sabe apreciar os momentos com o objeto, não o merece.

E sim, eu sei que cada ser possui seu método de tortura e compaixão, mas não é de maneira alguma permitido o desaproveitamento da presa.

De qualquer maneira nos suja a mente e enraivece nosso interior quando presenciamos algo assim.

Aquela pequena prenda, dona de sardas e olhinhos coloridos desbotados. Aquela presa não merecia um predador tão descuidado.

E cabe a mim julgar, cabe ao predador correto julgar casos como esse. Ele não merecia o sangue pulsando, a língua para degustar ou o sono a noite. Ele não merecia viver se não podia cuidar de sua presa de maneira correta.

 

—————•♦•—————

 

O relógio apontava dezoito horas. Caminhei em direção à rua sem saída, trocando passos tranquilos. Em minhas mãos, o cigarro e a bolsa. Pequena bolsa que carregava algumas ferramentas e medicamentos, apenas isso.

Subi as escadas ouvindo o ranger da madeira velha. Sentia minhas mãos tremendo com a excitação. Nem um objeto era igual, e isso me agradava. Não queria possuir algo sobre ele, nenhuma lembrança. Não me foi um objeto planejado ou admirado, estava apenas limpando a sociedade de algo patético.

A porta estava entreaberta, e pude notar Mada sentada na cama. Conforme adentrei, o choro da garota se intensificou. Suas lágrimas eram carregadas de mágoa, mas não senti ódio. Era uma raiva quase inocente.

O homem segurava uma faca enferrujada, próximo a um espelho. Se encarava com certo orgulho. Seu reflexo estava embaçado graças as marcas de sujeira porém me era visível o desespero em seu rosto. Caminhei em direção a Madeline, que ajoelhou-se em frente a mim com soluços e lágrimas.

— P-por favor...

Em meus pensamentos só conseguia implorar “Isso, continue”. Sua voz aguda e chorosa me fazia pulsar.

— Você entende, não é? Você sabe como eu me sinto. Você é igual a mim.

Provavelmente não era a reação mais esperada, porém uma gargalhada me invadiu a garganta.

Aquele piegas se comparou a mim. Se dizia meu semelhante. Como?

Madeline puxou minha camisa pela barra, me indicando a porta. Não... Não iria sair sem causar algum dano.

— E-eu sei. Você está assustado, não está? Nunca conheceu alguém como você. Eu sinto isso.

E ele continuava. Mesma ideia fixa de que me era parecido. Estava me perturbando de tal maneira; era como uma faísca sendo agitada.   

Me aproximei do espelho, ambos embaçados. Dois seres completamente diferentes em corpo, alma e perversão.

Tão errado e desprezível.

Tirei a faca da mão do sujeito visto que era apenas um enfeite a cena, não mais que isso.

— Sabe, nós não somos parecidos...

Seus olhos me encararam através do espelho. O reflexo de Madeline estava ao fundo, encolhida no canto próximo a porta.

— M-ma-

— Shhh....

O sujeito calou-se e fechou os olhos. Senti claramente sua vontade de se abraçar em algo, de se sentir parte de algo. No fundo, todos nós temos essa vontade. Pertencer a algo ou a alguém.

O líquido da seringa estava se misturando com o sangue escuro. A essa altura não me preocupava qual era o nome do sujeito, o motivo de ter feito aquilo ou qual era sua relação com Mada. Nesse ponto não mais me excitava a ideia de machuca-lo lentamente. Por alguns instantes senti que o meu dever era devolver a paz a menina. Tirar o medo de seus olhos e o desespero de sua face, apenas isso.

O corpo caiu lentamente no chão sujo, morte rápida e não dolorosa. Calmamente abracei Madeline e a carreguei escada a baixo. Antes de sair, trancamos o portão – quebrado, sim, mas em pé – e colocamos alguns pedaços de madeira para dificultar a entrada.

Não me dei o trabalho de olhar para o relógio, apenas segui em frente com os passos no escuro. A rua mal iluminada nos acolheu, e a cada passo dado um sentimento novo me abraçava. Mada me segurou a mão enquanto olhava fixamente para frente. Lágrimas escorriam em suas bochechas pálidas, e o fraco reflexo da luz as fazia parecer pequenos cristais.

Quando chegamos em frente à casa de seus pais, recebi um olhar sincero.

— Obrigada...

E seus olhos ainda liberando lágrimas me transmitiram a sensação mais crua que pude presenciar. Foi sincero, foi um agradecimento sincero; aquilo me bastou.

Dei um beijo em sua testa marcada pelas sardas, e retive-me apenas a um:

— Feliz aniversário, Madeline.

Nesse momento, crianças da vizinhança saíram correndo pelas calçadas vestindo suas fantasias e segurando seus pequenos potes para doces.

Era Halloween e finalmente meu presente de aniversário para a debutante havia sido entregue.

Mudei-me da cidade três dias depois, nunca mais vi Mada ou tive notícias sobre sua vida. Não me importava mais, não me era necessário.

Mas confesso que em toda noite de Halloween, seguro a mecha ruiva que roubei de seus cabelos.



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