História O quão amável você é - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Casal, Drama, Jovens, Romance
Visualizações 21
Palavras 2.168
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 5 - Necessidade


- Mas a gente não podia mais ficar dentro de um carro esperando uma vida, caramba!

Rui falava ao telefone irritado.

- Mas vocês não chegavam nunca.

Eu não sabia o que a pessoa do outro lado da linha tentava justificar.

- E como a gente vai ir embora agora?

Ele falava alto.

- Como? – Ele perguntou. - Que? Eu não estou entendendo. Está picotando...Eu não estou te e n t e n d e n d o!

Ele tentou falar pausadamente pra pessoa compreender, o que não parece ter adiantado. Eu me contorcia de vontade de ir ao banheiro.

- Eu não... – Rui passou a mão na testa virando de costas para mim e de frente para a parede. - ...não. Ah cassete!

Ele bateu o telefone no gancho.

- Que se foda!

Ele bradou passando por mim.

- Mas que? O que aconteceu?

Perguntei o seguindo.

- Eles mandaram o guincho, mas como não encontraram carro nenhum, foram embora. – Ele parou no meio do caminho para explicar. – Eu disse que estava no meio do campo, mas eles falaram que não tinham como adivinhar já que não estávamos lá. E eu pago essa merda!

Ele quase gritou. Era raro ver Rui daquela forma, irritado e preocupado. Ele nunca se preocupava. Rui continuava me olhando.

- Calma cara.

Eu falei obviamente, sem ter muito mais o que dizer. Rui bufou saindo de perto já que, obviamente, essa não era a resposta que ele queria ouvir de mim. Empurrou a porta para voltar ao hall de entrada da casa. Abri meus braços sem conseguir entender o que havia feito de errado.

- Mas Rui...

Eu chamei o seguindo.

- ...tem algum restaurante por aqui?

Ele perguntava no balcão.

- Mais ou menos duas horas a pé para o norte.

O homem respondeu. Um outro homem descia da escada.

- E um banheiro? Tem algum banheiro aqui?

Rui perguntava irritado para o homem de poucas palavras.

- Aquele lá em cima.

- Só tem aquele? Nessa casa gigante só tem aquele banheiro?

O garoto apoiava as duas mãos no balcão, falando rapidamente. O homem limpou os dentes e se inclinou em direção a Rui.

- Sim, só temos aquele. Mais alguma coisa?

Os dois se encararam por um tempo. O homem que havia acabado de descer as escadas me olhava e depois olhava para Rui. O garoto empurrou o balcão e.saiu pela porta a batendo fortemente. Eu o segui, ele parou na varanda da casa e passou a mão nos cabelos enquanto olhava para o horizonte. Parei ao seu lado olhando para seu rosto tenso, com o maxilar travado.

- O que foi aquilo lá dentro?

Eu falei baixo, com certo medo de sua resposta. Ele respirou fundo e passou a mão no rosto e no cabelo novamente. Seu cabelo começava a crescer de novo, não estava mais baixo como era quando ele costumava raspar.

- Quer tentar ir até esse restaurante?

Ele perguntou deixando de lado minha pergunta anterior. Rui parecia tentar voltar ao seu estado de calma novamente.

- Você tá bem, Rui?

Ele concordou com a cabeça, sem dizer palavra alguma.

- Tem certeza?

Continuei insistindo, e ele ignorando. Era raro ver Rui admitir alguma fraqueza que fosse, ele sempre passava a imagem de que tudo estava normal e que não havia nada de errado acontecendo.

- Quer ir?

Ele perguntou mudando de assunto. Encolhi os ombros.

- Não temos muita opção, né?

Ele começou a caminhar, descendo os degraus da varanda para pegarmos a estrada e seguí-la pelo acostamento.

- Bom, se quisermos nos alimentar, não temos outra opção mesmo.

Ele comentou enquanto eu o seguia calmamente. Rui parecia não ter pressa, e apesar de sua passada ser muito maior que a minha, ele procurava andar devagar ao meu lado. Ficamos em silêncio. Os passarinhos cantavam. O Sol despontava do nosso lado esquerdo. Caminhávamos em direção de Minas Gerais, o norte.

- Ainda precisa fazer xixi?

Ele perguntou depois de uns quarenta minutos em silêncio. Quarenta minutos que mais pareciam horas.

- Estou, mas já tinha esquecido, até você me lembrar agora.

- Vai no mato.

Rui apontou para o campo ao nosso redor enquanto eu lhe lançava um olhar irritado e ele ria.

- Certeza que vai segurar? – Ele perguntou enquanto eu balançava a cabeça em concordância. – Bom, mas eu não.

Ele se afastou para mais perto das plantações de cana ao nosso lado direito, já que do outro era a estrada.

- Que? Você vai...

Antes que eu pudesse completar a frase, Rui entrou no canavial passando por baixo de uma cerca.

- RUI!

Eu gritei sentindo um certo desespero se aproximar.

- RUI!

Eu gritei de novo.

- ESPERA AÍ!

Ele gritou de volta, de um lugar onde eu não conseguia vê-lo. Ele ficou quieto. Esperei impaciente por algum tempo que eu julgava ser o tempo certo para urinar no mato.

- Rui eu to assustada!

Eu gritei enquanto olhava para algum carro que passava velozmente pela estrada. Nada de resposta.

- RUI!

Eu gritei esperando resposta sua. Ele não falava nada. Olhei para os dois lados, ninguém de nenhum lado. Meu coração acelerou e eu caminhei até mais próximo do canavial, tentando me lembrar do lado onde ele havia entrado.

- Rui...

Eu chamei passeando pela borda do canavial até alguém pular chacoalhando as plantas e gritando. Eu dei passos para trás, desesperada sentindo a coisa voar para cima de mim. Sentindo alguém apertar minha cintura. Meu pé escorregou, perdi o chão, senti as mãos que seguravam minha cintura a soltarem e fechei os olhos no momento que entendi que iria cair. Senti minhas costas baterem contra o gramado. Ouvi uma gargalhada alta no fundo. Abri os olhos encarando o céu azul em minha frente.

- Você precisava ver sua cara!

A voz mansa de Rui agora era histericamente feliz, ele parecia ter se esquecido de qualquer mau humor  daquela manhã. Ele ria sem conseguir parar. Sentia minhas costas ainda esticadas totalmente contra o gramado.

- Ah meu Deus, isso foi muito bom!

Ele ainda ria enquanto eu não tinha resposta. Passei a mão na nuca, ainda deitada no chão. Rui parou em minha frente, sendo possível olhá-lo mesmo da posição onde eu estava. Ele coçava os olhos depois de se cansar de rir.

- Já parou?

Perguntei o encarando enquanto ele puxava o ar pelo nariz ainda me encarando no chão.

- Ai, é...acho que chega.

Revirei os olhos enquanto ele se abaixava e sentava ao meu lado.

- Eu não vi graça.

Resmunguei para ele.

- Eu vi.

Rui deitou ao meu lado silencioso.

- Ai ai.

Ele resmungou colocando as mãos embaixo da cabeça, enquanto olhava para o céu assim como eu.

- A gente deveria levantar e sair daqui antes que um carro desgovernado passe por cima de nós.

Falei.

- Você é muito dramática.

Ele respondeu ainda olhando para o céu com nuvens branquíssimas sobre nós.

- Não deveríamos estar andando em busca desse restaurante?

Rui suspirou se virando para me olhar. Seus olhos verdes brilhavam com a luz do Sol, ele parecia sério.

- O que foi?

Perguntei com o tom de voz mais baixo. Rui continuou me olhando por mais alguns instantes com aquele olhar indefinido até sorrir e se levantar. Esticou a mão e disse:

- Vamos.

Rui sempre foi indefinido. Era completamente difícil entender o que se passava com ele ou decifrar como ele era. Eu odiava não conseguir decifrar uma pessoa, e Rui era esse tipo de gente indecifrável. Todos os outros garotos que estudavam comigo eram tão simples, tão fáceis de entender, eles chegavam e contavam orgulhosos de que foram na festa na noite passada e fizeram tal coisa, já Rui não dizia um "A" sobre o que havia feito no verão passado. Perto dos outros, isso era estranho, mas talvez ele só tivesse uma característica que poucos têm, a discrição.

Segurei em sua mão e ele me puxou com força, me colocando de pé. Sua barba rala, tinha um pedaço de grama pendurado e me estiquei para conseguir tocar em seu rosto e tirá-lo. Voltamos a caminhar enquanto procurávamos por algum carro que passasse para fazermos sinal e pedir uma carona.

- Ninguém pára nessa merda!

Rui resmungou vendo mais um carro passar por nós em alta velocidade naquela estrada, ignorando seu braço estendido.

- Ninguém vai parar, Rui. Desiste.

Mas depois de mais uma hora, era eu quem acenava desesperada para os carros. O Sol ainda era fraco e não tão quente, mas logo eu sabia que lá pra umas oito da manhã, já seria hora dele esquentar e nos fazer morrer de insolação ou então desidratação.

- Rui, eu não aguento mais.

Eu reclamei puxando seu braço. Ele continuava andando.

- Vamos, se a gente andar mais rápido, mais rápido a gente chega, Clara.

- Mas olha o tamanho das suas pernas e olha o tamanho das minhas!

Eu me agarrava em seu braço. Meus pés doíam como se eu tivesse andado uma maratona ineira.

- Eu não tenho culpa se você tem as pernas do tamanho de uma régua.

Dei um tapa em seu ombro. Ele agarrou minha mão me puxando para andar mais rápido.

- Ali, estou vendo algo!

Rui gritou enquanto eu relutava a ser arrastada por ele que ainda segurava firme minha mão.

- O que?

Ele apontou para longe, eu não conseguia enxergar nada.

- Não estou vendo, Rui.

Ele bufou e continuou me arrastando.

- É terra à vista, vamos logo!

Ele gritou como se fosse uma criança brincando de pirata. Com passos apressados conseguimos encontrar o restaurante de beira de estrada, com um posto de gasolina na frente. O local era antigo e vazio. Não víamos ninguém ali, mas havia um caminhão estacionado nos fundos do posto e a porta do restaurante havia acabado de se abrir, mostrando um homem grande que nos analisou dos pés à cabeça.

- Por que todo mundo fica olhando pra nós?

Rui resmungou entre dentes enquanto nos aproximávamos da porta.

- Por conta dessa sua cara de rico.

Eu empurrei a porta que rangeu e fez com que os sinos em seu topo balançassem.

- Ou porque você tem cara de criança.

Ele sussurrou atrás de mim. Lhe dei uma cotovelada discreta e me aproximei do balcão do restaurante, sem ao menos olhar como era em volta. Percebi apenas algumas mesas encostadas na grande janela e espalhadas pelo salão a frente do balcão. Uma mulher com touca e avental me olhava simpática.

- Moça, tem banheiro?

Ela sorriu.

- No final do corredor à esquerda.

- Obrigada.

Eu empurrei Rui para correr ao banheiro. Passei pelo corredor que tinha outra porta que parecia dar para a cozinha. Encontrei o banheiro e senti realmente o alívio ao conseguir usá-lo, lavar o rosto e molhar a nuca. Voltei ao salão principal e Rui estava sentado em uma mesa com as mãos em cima da mesma. Ele entrelaçava seus dedos e brincava com os polegares.

- Aliviada?

Ele perguntou enquanto eu concordava sorridente. Rui olhou para as mãos, silencioso.

- Qual o problema, Rui?

Perguntei impaciente.

- Nada, Clara.

Ele não me olhava.

- Você está estranho, caramba.

Ele negou.

- Eu estou normal.

- Não está não!

Eu insisti batendo na mesa. Rui levantou o olhar me encarando.

- Pára Clara, eu não quero falar.

Fiquei em silêncio. Olhei pela janela enquanto ele voltava à olhar para suas mãos.

- Vocês querem pedir algo?

A mulher se aproximou de nossa mesa.

- Sim, eu quero um café com leite e misto quente.

Rui se apressou em pedir. Ela me olhou.

- Um suco de laranja e mais um misto quente.

Ela sorriu concordando e voltou para trás do balcão. Olhei para Rui em minha frente, aquilo começava a me preocupar.

[...]

No segundo semestre do curso eles se aproximaram por necessidade. As turma haviam sido separadas e misturadas, os amigos de Rui foram para outras aulas e Clara era a única conhecida com os horários que mais batiam com o dele. Naquela turma onde estavam no momento ela era a única com quem ele já havia falado, e ela já conhecia mais gente, mas não se sentia tão bem com todos, ou seja, não ficava perto de quase nenhum deles. Para Rui, ela parecia extremamente sociável, para Clara ela era apenas uma sobrevivente que precisava falar com as pessoas e conhecer ao menos uma parte para conseguir sobreviver. Clara sentou do lado de Rui naquela aula, ela acenou com a mão discretamente o que fez Rui sorrir.

- ...formem duplas.

A professora ordenou. Clara sentiu o coração acelerar e o cansaço bater por saber que precisaria encontrar alguém para fazer dupla.

- Mas que droga.

Ela resmungou olhando para o lado. Rui a encarava.

- Tem dupla?

Clara perguntou.

- Não.

- Pode ser a gente?

Ela perguntou o fazendo concordar também agradecido por ela estar ali. Desde o início, um precisava do outro sem admitir isso.



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