História O que está atrás do que está por trás - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias Naruto
Personagens Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Kakashi Hatake, Karin, Naruto Uzumaki, Sai, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha
Tags Naruhina, Naruto, Romance, Sasusaku
Exibições 63
Palavras 9.997
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oi, pessoal! Há quanto tempo!
Segue mais um capítulo, para aqueles que nunca perdem a esperança, assim como o Naruto.
Espero, sinceramente, que gostem!

Capítulo 5 - Perfeito para você


INO

Destrancou a porta de vidro e virou a placa, mudando-a de “fechado” para “aberto”.

Aquele era seu dia de folga da Divisão de Inteligência e, portanto, o dia de ajudar a mãe na floricultura. Mesmo que não pudesse passar seu descanso relaxando numa casa de banho, cuidando-se num salão de beleza ou mesmo de pernas para o ar, sem fazer nada, não reclamaria. A verdade era que gostava de estar ali, em meio às flores. Sentia-se confortável e acolhida ao ver-se rodeada por aquela variedade de cores e aromas, que lhe era tão familiar desde sua mais tenra infância.

Em outra época, murmuraria ante a situação. Faria cara feia para a senhora Yamanaka e diria que, como chuunin, tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar tomando conta da loja. Mas agora que era jounin e herdara o cargo do pai como líder da Inteligência, quase não tinha tempo para a tarefa e, ironicamente, sentia falta dela. Costumava dizer que a monotonia do trabalho na floricultura a entediava. No entanto, se comparada ao ritmo alucinante de seu novo emprego, já não lhe parecia algo tão ruim. Era como tomar fôlego depois de passar muito tempo submerso. Era... Revigorante!

Foi para trás do balcão e sentou-se numa banqueta. Com os cotovelos apoiados sobre a estrutura de madeira e o rosto descansando sobre as mãos em concha, soltou um suspiro satisfeito. Ainda era cedo, os clientes demorariam um pouco a aparecer. Assim, fechou os olhos e inspirou fundo, procurando distinguir todas as flores presentes no recinto somente pelo cheiro. Era uma brincadeira que costumava fazer quando criança. Ela e o pai até competiam de vez em quando, nas raras ocasiões em que ele estava de folga do serviço. Mas Ino sempre ganhava. Desde muito pequena, tinha os sentidos bastante apurados e não por acaso se tornara uma das melhores kunoichs de sua turma.

A loira estava contente por perceber que não tinha perdido o jeito. A cada instante, identificava uma nova espécie, fazendo uma lista mental. O próximo passo seria abrir os olhos e conferir as respostas. No entanto, o sino da porta de entrada interrompeu sua diversão, anunciando a chagada do primeiro cliente.

“Mas já?”- pensou aborrecida, um segundo antes de abrir os olhos.

Então viu. A última pessoa no mundo que esperava encontrar.

- Sa-sasuke-kun...?

Ele a encarou brevemente, parecendo contrariado com sua presença. Depois virou o rosto, como se não a tivesse visto.

Ino não se intimidou. Rodeou o balcão apressada, correndo para junto dele. Estava feliz por vê-lo: bem, solto e de volta a Konoha. Teve o impulso de abraçá-lo, mas conteve seu ímpeto. Não seria apropriado. Os dois não eram amigos próximos e o Uchiha nunca gostara de ser tocado.

Contudo, não estava mais apaixonada por Sasuke. Ainda se sentia atraída por ele, sem dúvida, mas do mesmo modo que alguém se sentiria atraído por um cantor famoso num pôster. Você o olha pelo simples prazer de olhar, solta alguns suspiros platônicos, fantasia situações impossíveis, mas depois segue com sua vida sem maiores problemas. Ino não tinha mais a mínima intensão de conquistar o amor do Uchiha ou de passar o resto de sua vida ao lado dele. Tais pensamentos, que um dia habitaram sua mente, tinham sido somente ilusões de uma paixonite de infância. Até porque seu coração já tinha sido tomado por outro: Sai.

A Yamanaka e o ANBU estavam namorando desde o final da Quarta Grande Guerra e Ino se via cada vez mais encantada por ele. No começo, o que chamara sua atenção para Sai, não podia negar, tinha sido a ligeira semelhança física entre ele e Sasuke. Mas com o tempo e a convivência, tinha aprendido a gostar daquela espontaneidade mecânica, provocada pela tentativa de aplicar, no convívio interpessoal, literalmente o que se lia nos livros e daquela ingenuidade com que ele dizia coisas socialmente inaceitáveis. Também apreciava sua melancolia artística, permeada por sorrisos gentis e cada vez mais sinceros. Sai despertava nela a vontade de ensiná-lo como as coisas funcionavam no mundo real. Como era ter amigos, criar laços, ganhar intimidade... Como era amar. Fora da letra morta dos papéis impressos. E isso a fazia querer estar junto dele mais e mais a cada dia.

No entanto, algo restara de seus antigos sentimentos por Sasuke: carinho. Ino queria bem ao Uchiha e estava verdadeiramente alegre por vê-lo livre de confusões e de volta a sua casa. Aliás, de volta ao local de onde ele jamais deveria ter saído.

A Yamanaka abriu um sorriso:

- Seja bem vindo de volta, Sasuke-kun!

- Hn – ele devolveu indiferente.

Ino não se abalou, já esperava por aquele tipo de comportamento.

- O que veio fazer aqui? – indagou curiosa. Não se lembrava de já tê-lo visto na floricultura de sua família antes.

- Comprar flores – ele respondeu secamente, como se aquilo fosse óbvio.

Até seria, se Uchiha Sasuke já tivesse comprado flores alguma vez na vida.

O moreno começou a perambular pela loja, ignorando completamente a presença de Ino. Ela o seguia por todos os cantos.

- Precisa de ajuda, Sasuke-kun? – perguntou enquanto tentava pensar num motivo plausível que o trouxesse até ali.

Teria ele sido sincero ao dizer que queria comprar flores ou estaria só dando uma desculpa? Mas o que Sasuke poderia querer na floricultura? Certamente não tinha ido até lá para vê-la. Se Ino pudesse ter tido alguma dúvida a esse respeito, ela teria desaparecido no instante em que o moreno a notou atrás do balcão. O modo como ela a olhou deixou isso bem claro. Então, por quê?

Por um momento, algo lhe ocorreu: estaria o Uchiha procurando por Sakura? Quer dizer, eles eram do mesmo time, todos sabiam que as duas eram amigas, logo... Mas não fazia sentido. Se Sasuke quisesse ver a rosada, não seria mais fácil ir até a casa dela? Ou será que ele pretendia sondar se a antiga companheira de time não estava muito zangada com ele?

Foi aí que Ino lembrou.

Havia uma ruiva trabalhando na Divisão de Inteligência, Uzumaki Karin, se não estava enganada. Pelo que soubera, ela tinha sido subordinada de Orochimaru, mas passou a seguir Sasuke depois que ele o derrotou. Corriam rumores de que ela e o Uchiha eram mais do que simples companheiros. Ino, porém, nunca dera crédito às histórias.

Não trabalhava diretamente com Karin. Ambas pertenciam à mesma Divisão, mas eram de setores diferentes. A Uzumaki estava como subordinada de Ibiki na Força de Interrogação, uma subdivisão da Inteligência. No entanto, já tivera a oportunidade de passar algum tempo com a ruiva e achara-a extremamente desagradável. Estava sempre emburrada, reclamando de tudo, fazendo as coisas de má vontade. Mas era boa no que fazia, muito boa por sinal. Talvez fosse somente por isso que todos continuassem suportando seu mau gênio.

A questão era que Ino não conseguia acreditar em uma palavra do que ela falava. Achava-a incrivelmente falsa e essa não era uma opinião só sua. Sem falar nas roupas impróprias que utilizava no ambiente de trabalho. A Yamanaka não tinha nada contra shorts curtos ou minissaias, contanto que fossem usados fora do horário de serviço.

Certa vez, questionou Ibiki sobre o motivo de Karin estar trabalhando na Inteligência. A ruiva possuía grandes habilidades sensoriais, que seriam até melhor aproveitadas no seu setor do que no dele, mas, a seu ver, era muito arriscado deixar uma pessoa de confiança tão duvidosa numa Divisão essencial como aquela, onde circulavam informações preciosas e, muitas vezes, confidenciais sobre a vila. Por que não a haviam deslocado para o hospital de Konoha, que inclusive estava com falta de pessoal, já que ela também parecia ter habilidades médicas? Ou mesmo para as equipes de ninjas rastreadores? Assim, a manteriam ocupada e longe de áreas estratégicas de Konoha.

Ibiki lhe explicou que Karin não sabia usar ninjutsus médicos. O que ela conseguia fazer era transfundir seu próprio chakra para outra pessoa através de sua pele, o que funcionava maravilhosamente como assistência emergencial durante uma batalha, mas não teria grande utilidade no atendimento hospitalar (a menos que quisessem matá-la, drenando toda a força vital da ruiva para os pacientes). No entanto, sua principal motivação para querer a Uzumaki como subordinada era poder vigiá-la de perto. O jounin lhe contou que Karin era bastante escorregadia e, volta e meia, tentava envolver seus colegas de trabalho com histórias tristes sobre sua vida sofrida, a fim de conseguir que eles fizessem algo por ela. Podiam ser coisas simples, como pagar por um almoço, ou coisas mais graves, como obter informações sigilosas.

Mas o mais estranho era que sempre que lhe perguntavam sobre Sasuke, ela não fazia nada a não ser falar mal dele, descrevendo-o como cruel e manipulador, um verdadeiro tirano. E, mesmo assim, era conhecimento de todos que ela o visitava frequentemente na prisão.

Por essas razões, Ino não podia acreditar que houvesse algum tipo de relacionamento entre eles. Jamais imaginaria alguém tão sensato e orgulhoso como Sasuke se envolvendo com uma mulher mentirosa e vulgar como aquela. Mas ele estava ali, comparando flores. Então...

- Eu nunca tinha visto você comprar flores para alguém. Karin-san é mesmo uma mulher de sorte – arriscou, com um sorriso de quem sabe das coisas.

Sasuke a fitou longamente, mas nada disse. Seu rosto continuava ilegível. Logo, voltou a olhar para as flores.

Ele não negou. Então, deve ser verdade.

Sasuke era muito reservado em relação a sua vida pessoal, portanto dificilmente falaria de forma aberta sobre um relacionamento amoroso. Mas ele também não tinha negado, o que a levava a crer que existia mesmo algo entre os dois. Ino sentiu-se triste. Não por ela, mas pelo próprio Sasuke e, principalmente, por sua melhor amiga.

Sakura...

Por mais que a Haruno negasse, sabia que ela ainda nutria sentimentos pelo Uchiha. E não eram sentimentos de amizade e de afeto, como ela própria, Sakura o queria de uma forma especial. Os sentimentos da rosada tinham percorrido o caminho inverso dos de Ino. Sua admiração infantil pelo aluno mais bonito e mais habilidoso da turma criara raízes em seu interior e se transformara em algo muito mais complexo e profundo. Ela o amava.

Mas Sakura estava com Naruto agora.

“Talvez seja mesmo a hora de colocar uma pedra definitiva sobre o passado”, pensou Ino, tentando alegrar-se pelo fato de Sasuke finalmente ter encontrado alguém capaz de tocar seu coração.

- Quer que eu te ajude a escolher? – perguntou solícita – Que tal essas aqui? – apontou para um vaso cheio de rosas vermelhas – São rosas da paixão, o carro-chefe da floricultura. Toda mulher gosta de rosas, aposto que Karin-san vai adorar!

Sasuke nem se dignou a olhá-la.

- Talvez esteja procurando por algo mais original, não é? Que tal essas orquídeas? Elas são leves e graciosas – disse, mesmo pensando que nada leve e gracioso combinaria com Karin – Temos também amores-perfeitos, que significam amor romântico e duradouro; flores-de-lis, que simbolizam lealdade; miosótis, que significam fidelidade e amor verdadeiro; gardênias, que simbolizam sinceridade e amor secreto; gérberas vermelhas, que podem significar sensualidade e amor; tulipas vermelhas, que simbolizam amor verdadeiro e eterno...

Sasuke não lhe deu atenção, provavelmente nem estava escutando.

Ino vasculhava sua mente, pensando no que mais poderia oferecer, quando:

- Quero aquelas – disse o Uchiha, decidido, apontando em determinada direção.

A Yamanaka seguiu o gesto, deparando-se com flores de pétalas brancas, que se abriam como uma estrela de seis pontas, unidas a um funil central amarelo. Seu sangue gelou.

Por Kami, é muita coincidência ou muita ironia que ele tenha escolhido justamente...

- Narcisos...? Está certo disso, Sasuke-kun?

- Sim.

Ino caminhou hesitante até o vaso onde as flores estavam plantadas.

- Quantas vai querer?

- Três.

Ela assentiu rígida, depois cortou os caules. Levou as flores para o balcão e embrulhou-as no mesmo papel, formando um pequeno ramalhete.

- Deseja mais alguma coisa para ornamentar o buquê. Fujibakamas?

- Não. Isso basta.

A Yamanaka disse o preço. Ele pagou. Então, ela lhe entregou as flores. No entanto, teve vontade de tomá-las de volta. Não era justo. Ele não podia dar aquelas flores para outra mulher, não exatamente aquelas.

- Uma flor admirável, que aguenta o árduo inverno bravamente enquanto espera pela primavera – as palavras ecoaram em sua mente, palavras que não tinham sido suas – Vou colocar um desejo nessa aqui: que ele melhore logo.

- Curioso você ter escolhido narcisos – Ino foi incapaz de conter-se – Sabia que eram justamente as flores que...

Mas Sasuke deixou a loja antes que ela pudesse terminar.

- Que Sakura lhe levava todos os dias quando você estava no hospital? – concluiu para si mesma cabisbaixa.

 

SASUKE

Tinham se passado três dias desde a discussão com Kakashi. Durante esse período, Sasuke ficou de castigo, por assim dizer: permaneceu todo o tempo enfurnado no apartamento, sem sequer colocar a cabeça para fora da janela. Não que seu antigo professor exercesse tamanha autoridade sobre ele ao ponto de deixá-lo enclausurado com uma ordem (que, por sinal, nunca chegou a ser dada) ou mesmo que fosse forte o suficiente para mantê-lo ali contra a sua vontade (o que também não chegou a ser tentado). Mas o próprio Uchiha preferiu dessa forma. Julgou que seria mais sensato evitar se meter em novas “encrencas” até que os ânimos esfriassem.

Pelas conversas da rua, ficou sabendo que o ciclo de reuniões dos cinco Kages havia terminado e que a Mizukage partira para suas terras, o que significava que Suigetsu não tornaria a incomodar. Imaginava o que os líderes das grandes cinco nações poderiam ter acordado a seu respeito. Naruto não o visitou mais depois da surpresa. Talvez estivesse ocupado tentando convencê-los de que um soco no olho era uma demonstração de amizade. Toda Konoha ficara sabendo daquela história, com certeza os Kages não tinham sido uma exceção. Teria isso influenciado a decisão deles? Na verdade, não estava realmente preocupado.

Karin também não voltou. Provavelmente tinha ficado intimidada com a reação de Kakashi. Melhor assim.

As preocupações de seu antigo professor, no entanto, não eram completamente infundadas. Não tinha se passado nem uma semana desde a sua soltura e ele já tinha chamado a atenção do ANBU, ou melhor, da NE (não importava que Naruto tivesse unificado os dois grupos, os ninjas que encontrara naquele dia ainda se sentiam raízes). Se não fosse cuidadoso, poderia realmente acabar voltando para uma cela ou arrumando problemas maiores.

Kakashi também passara os últimos três dias sem sair do apartamento. Talvez porque, depois do incidente das visitas inesperadas, tivesse resolvido manter uma vigilância mais acirrada ou simplesmente pelo fato de não ter mais nada para fazer, uma vez que sua atual missão era mantê-lo na linha. Ambos não trocaram nenhuma palavra durante esse período. Sem mais sermões, sem desculpas, sem reconciliações, sem agir como se nada tivesse acontecido, sem comentários triviais, sem nada. Sasuke passava a maior parte do tempo fechado em seu quarto, só saindo para ir ao banheiro ou à cozinha. O Hatake passava o dia lendo sentado no sofá, só deixando seu posto pelos mesmos motivos do moreno: necessidades fisiológicas ou fome. Os dois se esbarravam vez ou outra durante esses pequenos trajetos, mas não interagiam.

Se com aquilo Kakashi queria dizer que estava desapontado, para Sasuke não havia problema nenhum. Não iria se desculpar por nada, muito menos por algo de que não tinha culpa. Ele não chamara ninguém. Pelo contrário, mandou que os dois fossem embora. O filho do Canino Branco poderia muito bem fazer o papel de ultrajado, que não o comoveria. Passara anos de sua vida só e em silêncio, seria capaz de prosseguir com aquela brincadeira indefinidamente. Além disso, não precisava da companhia ou da aprovação de Kakashi. O Hatake não era como Naruto. Por mais que tentasse disfarçar, ele o olhava como as demais pessoas de Konoha: com desconfiança. No fundo, não discordava totalmente de que seu ex-aluno podia ser uma ameaça. O laço que um dia houve entre eles estava corrompido, roto – cortado por ambas as partes. Depois de tudo o que acontecera, Kakashi tinha se tronado somente pouco mais do que um estranho.

Durante os momentos de auto reclusão, o Uchiha também notou que era constantemente vigiado. Sempre havia um ANBU rondando as proximidades do prédio. E ele tinha certeza de que isso não era por ordem do Hokage.

Naquele dia, Sasuke decidiu que já tinha ficado sem fazer nada por tempo suficiente e saiu cedo, sem avisar a Kakashi e sem ser visto por ele. Também teve o cuidado de não deixar que os vigilantes extraoficiais o notassem. Tinha uma programação em mente desde o segundo dia de castigo e, pelo menos daquela vez, pretendia fazer tudo como mandava o figurino. Foi pensando nisso que se dirigiu à floricultura da família Yamanaka, a fim de providenciar um elemento tradicionalmente indispensável ao seu objetivo. Só não esperava topar com sua ex-colega de turma por lá.

Sempre achara Ino extremamente fútil e de uma personalidade aborrecedora. Soube por Naruto que ela tinha assumido o cargo do pai, portanto imaginou que a loira estivesse na Inteligência e não cuidando da loja. Não ficou feliz com o reencontro, principalmente porque não queria ninguém metendo o nariz nos seus assuntos. 

Pelo visto, Ino continuava a mesma tola de sempre. Ainda que fosse capaz de percorrer quilômetros utilizando sua mente, tinha uma visão pateticamente limitada quando se tratava de ler pessoas e situações. Ele comprando flores para presentear uma mulher? Francamente! Só podia ser piada. O time oito tinha sorte de ter Shikamaru para salvá-lo.

Por outro lado, o comentário da Yamanaka deixou claro que as pessoas da vila já estavam cientes do seu relacionamento com Karin (fosse ele qual fosse). O que não era nenhuma surpresa. Karin era uma péssima dissimulada: sempre apresentando um tipo de comportamento quando estavam a sós e outro completamente oposto na frente das demais pessoas, a fim de ocultar seus sentimentos. Em outras palavras: ela gostava de bancar a difícil. No entanto, qualquer um que a olhasse, até mesmo uma criança, poderia dizer que a ruiva era perdidamente apaixonada por ele. Sem contar que os rumores sobre o Taka somados às constantes visitas da Uzumaki à prisão certamente fomentaram um solo fértil para especulações sobre o assunto.

Irrelevante. Sasuke não dava a mínima para os mexericos que o povo de Konoha fazia sobre ele. E, de qualquer forma, sua vida pessoal não dizia respeito a ninguém. Pensando melhor, poderia usar aquilo a seu favor, garantindo que o real destino das flores permanecesse em segredo. Isso era o que realmente importava.

Enquanto caminhava pelas ruas praticamente desertas por causa da hora, avistou uma vendinha que despertou seu interesse. Era só uma pequena loja de diversidades, aberta no meio de vários estabelecimentos ainda fechados, mas onde provavelmente encontraria o que desejava.

O sino da porta tocou, anunciando sua entrada. Uma jovem, que deveria ter sua idade ou ser um ano mais nova, ergueu os olhos de seu livro para atendê-lo. Assim que o viu, fez uma expressão surpresa. Mas não a surpresa de quem acaba de encontrar alguém inesperado, como a de Ino há poucos minutos, e sim a de quem estava impressionada com sua aparência. Algo tão comum em seu cotidiano que já reconhecia de imediato. Porém, no exato momento em que a garota fechou e reabriu os lábios, suficientemente recomposta para iniciar um diálogo, um velho enrugado, de sobrancelhas grossas, barbicha e bigodes longos e finos, apareceu através da cortina de franjas por detrás do balcão e puxou-a pelo ombro.

- Vá lá para trás, Ami. Preciso que você confira o estoque.

Então, assumiu a posição daquela que deveria ser sua neta.

- Pois não? – questionou.

- Gostaria de alguns incensos.

- Sinto muito, mas não temos incensos – a voz do velho era seca, mas ainda se mantinha dentro da zona da polidez.

Algo nas prateleiras às costas do homem chamou a atenção de Sasuke, lembrando-lhe de outro assunto que precisava resolver com certa urgência.

- Então me dê uma erva de gato.

- Sinto muito, mas também não temos erva de gato.

- É claro que têm, eu posso vê-la daqui.

Fez-se um breve minuto de silêncio.

- Acho que o senhor não entendeu – retrucou o velho, encarando o Uchiha, sua voz mais ríspida - O que estou querendo dizer é que não tem nada no meu estabelecimento para pessoas como você.

Aquilo foi um choque. Sasuke estava acostumado a ser tratado como escória, mas ninguém nunca tinha se recusado a vender nada para ele por conta disso. Ele já tinha presenciado caras feias, expressões de desprezo, pragas, má vontade, medo, súplicas por piedade, mas nunca... nunca aquilo.

- Por favor, retire-se imediatamente.

A situação era tão nova que, por um segundo, o irmão de Itachi ficou sem reação. Logo em seguida, começou a sentir a raiva tomando conta de si. Procurou controlar-se. Aquele senhor tinha todo o direito de negar-lhe o produto. A loja era dele, ele poderia vender para quem quisesse. E seu critério de exclusão era até bastante razoável. Que homem honesto gostaria de ter seu estabelecimento frequentado por um criminoso com sua fama? Além disso, jamais atacaria um civil indefeso, nem mesmo um tão corajoso a ponto de enfrentá-lo. Aquele velho merecia respeito.

Sem dizer nada, Sasuke deu meia volta e saiu.

- Sasuke-kun? – ouviu alguém chamá-lo assim que colocou os pés para fora da loja.

- Tamaki? O que está fazendo aqui?

- É você mesmo! – ela deu uma risadinha, aproximando-se – Eu me mudei para Konoha há alguns meses. Ouvi dizer que você tinha sido solto. Estou feliz que esteja bem.

- Hn.

A neta da vovó Neko tirou alguma coisa de dentro da bolsa e estendeu para ele:

- Tome, eu sempre carrego algumas comigo.

Sasuke viu que era um potinho de erva de gato.

- Ah, desculpe... Eu estava passando por perto... A rua ainda está silenciosa, então... Meio que escutei tudo – disse a moça, corando, com medo de ser julgada como uma bisbilhoteira.

- Não é necessário – ele negou a oferta - Não preciso mais disso agora que encontrei você.

Tamaki voltou o braço com uma cara de interrogação.

- Deseja mandar algum recado para a minha avó? – compreendeu por fim.

- Sim. Tenho algumas encomendas para ela.

Sasuke planejava enviar um pergaminho para a vovó Neko encomendando roupas novas. Mas antes de chagar às mãos da anciã, qualquer correspondência era inspecionada pelos gatos ninjas, que também julgavam se valia a pena encaminhá-la ou não. Mandar erva de gato acompanhando o rolo deixava-os mais propícios a repassar a mensagem - e a fazê-lo de forma ágil. No entanto, a história do clã Uchiha com os comerciantes (para não dizer contrabandistas) de Soraku era antiga e Sasuke certamente teria tratamento especial mesmo que não mandasse nenhuma erva. Mas gatos ninjas eram criaturas vaidosas e, por vezes, interesseiras. Para alguém que negociava frequentemente com a avó de Tamaki era prudente manter-se como alvo da simpatia deles.

- Do que se trata?

- Roupas. Roupas descentes, sem isto – disse puxando a gola da camisa.

A moça sorriu.

- Entendo. Você deve estar usando M, não é Sasuke-kun?

- Imagino que sim – deu de ombros.

Durante toda a conversa, Tamaki lançou olhares curiosos para o buquê, mas não ousou fazer nenhuma pergunta sobre ele.

- Com licença – a jovem fez algumas medidas do corpo de Sasuke usando as palmas das mãos, mas sem tocá-lo – Pode deixar, com isso vou conseguir arranjar algo do tamanho certo.

O Uchiha assentiu, então seguiu seu caminho.

- Cuide-se, Sasuke-kun! – ouviu-a gritar para as suas costas.

Após ter certeza de que não estava sendo seguido, Sasuke retornou à clareira que tinha visitado com Naruto no outro dia. Não queria que ninguém além deles ficasse sabendo da existência daquele lugar, muito menos os ninjas da Raíz.

Ao entrar, deparou com uma cena no mínimo intrigante: a árvore próxima a rocha, antes quase completamente desfolhada, estava agora repleta de folhas, ainda mais negras do que da primeira vez. Elas se moviam com o vento. Mas não havia vento.

Foi então que se deu conta: não eram folhas, eram corvos. Milhares de corvos empoleirados nos galhos pálidos da árvore.

Instintivamente, Sasuke ativou seu sharingan, pronto para se defender de um possível genjutsu. Contudo, logo ficou claro que não se tratava de nenhuma técnica ninja. Ao ver seus olhos vermelhos, todos os pássaros levantaram voo numa barulhenta debandada, deixando uma chuva de penas para trás.

 

KAKASHI

Devagar e sempre. Uma mão, depois um pé, depois o outro pé, buscando apoio sobre a rocha nua e íngreme. Apenas um simples treinamento de escalada, tão familiar a ele, mas que sempre exigia cautela. Com um dos braços amarrados às costas (condição a qual tinha o hábito de se submeter a fim de intensificar o treino), fazer jutsus que o salvassem durante uma possível queda livre seria um problema, portanto era necessário prevenir deslizes.

O sol começava a ficar alto, mas ele ainda se encontrava a meio caminho do topo. Maldição! Aquilo estava demorando bem mais do que deveria. Sinal de que estava fora de forma.

Cerca de duas horas se passaram. O progresso era lento, mas agora já estava realmente próximo ao seu destino. Firmou a mão livre e reposicionou o pé esquerdo. No entanto, a proeminência da rocha cedeu sob seu peso, partindo-se. O movimento brusco inesperado o desestabilizou e ele perdeu o apoio do pé direito, ficando pendurado sobre o nada por apenas uma das mãos. Não era hora para desespero. Fechou os olhos por um instante, concentrando toda a sua força física naquele único ponto de contato. Então, numa descarga de adrenalina, içou todo o seu corpo para cima e conseguiu se segurar na margem do topo da montanha.

- Ei! – chamou uma voz impaciente vindo de cima.

Havia alguém ali esperando por ele. Kakashi levantou os olhos a fim de mirar a figura, mas o sol estava a pino e ofuscou sua visão. Ainda assim, foi capaz de distinguir a silhueta de um garoto por volta de seus doze anos, com cabelos ouriçados e pose altiva.

- Então você finalmente está aqui – respondeu.

***

A noite caíra, baixando a temperatura consideravelmente (o que era de se esperar naquele relevo elevado e rochoso, submetido aos efeitos da altitude e da continentalidade). Os arredores, no entanto, encontravam-se iluminados pela claridade da lua cheia. Professor e aluno haviam terminado o jantar e aqueciam-se silenciosamente, observando a fogueira.

O treino daquele dia não tinha sido muito intenso, uma vez que Sasuke acabara de deixar o hospital (clandestinamente) e Kakashi desejava averiguar o quanto o garoto estava efetivamente recuperado. Além disso, fora necessário dedicar algumas horas à explicação da estratégia de treinamento que seguiriam dali para frente, a fim de evitar conversas desnecessárias e ganhar tempo nos próximos dias. Sasuke era esperto e pegava as coisas rápido, mas dominar um novo elemento e conseguir aplicá-lo em batalha em menos de um mês não era nem de longe uma tarefa trivial, nem mesmo para alguém tão talentoso quanto ele. Sem falar que o jutsu que pretendia ensiná-lo era bastante complexo, exigindo técnica, controle de chakra e agilidade. Porém, tudo isso seria inútil se o usuário não fosse capaz de antecipar um contra-ataque. Esse era o grande defeito do golpe. Defeito apontado por seu sensei, o finado Quarto Hokage.

Na primeira vez em que tinha usado o jutsu numa missão, Minato lhe dissera que ele estava incompleto, pois, apesar de ter alto poder destrutivo, a grande velocidade da técnica impedia o usuário de prever a reação do inimigo, colocando-o em grande risco. Mas, graças a Obito, Kakashi adquirira a condição necessária para completá-lo, condição que Sasuke carregava em seu sangue e que já tinha despertado em seus olhos. Essa era a razão pela qual somente o Uchiha poderia aprender a usar aquela técnica com perfeição, o único jutsu original do ninja copiador: Chidori.

No entanto, o Chidori não era o único problema. Além de seus domínio e prática, eles não poderiam se esquecer dos treinos voltados especificamente para a agilidade. Antes que Sasuke alcançasse o nível de Rock Lee, o único ninja até o momento que conseguira burlar a defesa absoluta de Gaara, usando sua incrível rapidez, seria necessário percorrer um longo caminho. Sendo que tempo era algo de que não dispunham.

A madeira crepitava sob a ação do fogo, enquanto fagulhas dançavam suavemente em direção ao céu noturno, o que, juntamente com o calor das chamas, produzia uma aura aconchegante (ou tão aconchegante quanto possível em um ambiente descoberto). Kakashi voltou seus olhos para o mais jovem, que estava absorto em pensamentos. Algo, visivelmente, o incomodava e o Hatake suspeitava de que não fosse nada relacionado à maratona que começariam muito em breve.

- Parece que vocês três passaram por um grande sufoco lá na floresta.

Sasuke encarou-o surpreso.

- O que a Sakura te contou? – perguntou desconfiado.

- Ela disse que você os salvou do Orochimaru.

Houve uma breve pausa.

- Foi só isso mesmo que ela disse?

- Por quê? Tem mais alguma coisa que eu deveria saber?

O desvio do olhar foi sua única resposta. Kakashi deu um suspiro. Sakura realmente não tinha lhe contado mais nada, mas ele conhecia o oponente que seus alunos tinham enfrentado e podia imaginar o que se passava na cabeça de Sasuke. Além disso, Orochimaru tinha deixado suas intenções a respeito do jovem Uchiha bem claras na ocasião em que o Hatake selara a marca amaldiçoada em seu pescoço. O garoto, no entanto, estava inconsciente no momento e não tinha como saber da conversa entre seu professor e o perigoso sennin.

- Sasuke, você não precisa se sentir culpado por ter ficado com medo.

O mais jovem levantou-se abruptamente, ficando de costas.

- Medo não é sinal de fraqueza – continuou - é uma resposta natural para situações de perigo, mesmo para ninjas. Orochimaru não é um adversário qualquer. Além de ser extremamente habilidoso, ele é vil, ardiloso, sem escrúpulos e gosta de joguinhos psicológicos. Até eu me sinto intimidado na presença dele – acrescentou lembrando-se de seu breve encontro com o ninja renegado.

Na ocasião, Kakashi inclusive ameaçara matar Orochimaru, caso ele tentasse se aproximar de seu pupilo. Uma ameaça um tanto infundada, como se deu conta logo depois que o perigo passou, pois sabia que não era forte o suficiente para cumpri-la.

Depois de um longo silêncio, Sasuke finalmente falou:

- Eu não fiquei com medo. Eu entrei em pânico.

Kakashi pôde sentir toda a raiva e a vergonha de seu aluno naquelas palavras.

Então esse era o problema.

O Hatake demorou um pouco, procurando as palavras certas a dizer.

- Eu... entendo a sua frustração – começou com cautela - Mas não seja tão duro consigo mesmo. Sua reação foi completamente... compreensível. Poderia ter acontecido com qualquer um.

- Mas não comigo! – ele rebateu irritado - Eu não sou qualquer um! Eu sou... Eu tenho que ser diferente! Ou então nunca...

O resto da frase se perdeu no silêncio, um silêncio doloroso e sufocado. 

- Sasuke, está tudo bem – Kakashi tentou acalmá-lo – Eu sei que nunca se espera que um ninja fique sem reação, mas você foi pego de surpresa, por alguém de um nível que jamais deveria estar ali. Não tinha como estar preparado para aquilo. Tenho certeza de que você nunca tinha enfrentado um oponente como ele.

- Está enganado.

Kakashi não compreendeu.

- Eu me senti de volta àquela noite – o Uchiha continuou - O abismo entre nós era gigantesco, intransponível! Minhas chances de vencê-lo numa luta eram absolutamente nulas. Não havia nada que eu pudesse fazer. Nada! A única coisa em que eu conseguia pensar era em achar um jeito de salvar nossas vidas. Minha vida.

Aquela noite? Do que ele estava falando exatamente? Não parecia estar se referindo apenas ao incidente na floresta.

- Sasuke...

- FOI INACEITÁVEL! –  ele o cortou exasperado - E nada do que você diga vai mudar isso. Eu não sou uma criança, sou um ninja! Treinado e capacitado. Mesmo assim, agi como um verdadeiro...

Covarde. Essa era a palavra que não conseguia pronunciar.

Por alguns minutos, tudo o que se ouviu foi o crepitar da fogueira.

- Então Sakura mentiu? – Sasuke virou-se à pergunta – Você não os salvou?

O moreno voltou os olhos para a noite, ficando pensativo por instantes.

- Eu pretendia entregar o pergaminho em troca das nossas vidas – iniciou sem mirar seu interlocutor - Naruto me impediu, recuperando-o no ar enquanto eu o lançava para o inimigo. Ele disse que nós não podíamos nos render e que também não tínhamos garantia de que o adversário cumpriria sua parte do trato – ele riu acidamente - Algo tão óbvio, que até um idiota conseguiu enxergar, mas eu não - fez uma breve pausa - De qualquer forma, Naruto não estava lá antes e não tinha visto do que o oponente era capaz. O nível era completamente diferente, nós nunca conseguiríamos derrotá-lo numa batalha. Tentei dizer isso, mas é claro que ele não escutou, partindo para cima sem pensar duas vezes. Orochimaru finalizou-o num instante, deixando-o inconsciente. E eu só consegui ficar parado assistindo. Tudo o que eu queria era um jeito de escapar dali.

O garoto parou de falar. Aos olhos de Kakashi, parecia estar se preparando para contar algo que considerava ainda mais desagradável.

- Foi então que Sakura... disse a verdade – cuspiu com notável desconforto - E eu finalmente caí em mim, percebendo quão patético era aquele comportamento.

O quê!? Não! Sakura o chamara de covarde?! Isso sim era uma surpresa! Ele jamais imaginaria que algo além de elogios e declarações de amor pudesse sair da boca de sua aluna endereçado a Sasuke. Nesse momento, o Hatake teve que fazer um enorme esforço para não rir. Pelo visto, receber tamanha crítica do membro, teoricamente, mais inexpressivo da equipe tinha sido demais para o ego de Sasuke. Aparentemente, nem mesmo o pânico era capaz de sobrepujar o orgulho de um Uchiha. Contudo, Kakashi se controlou. A última coisa que queria era deixar o garoto ainda mais constrangido, sobretudo quando ele finalmente resolvera se abrir.

- E depois? – questionou o professor.

- Ataquei com tudo. Minhas chances de ganhar continuavam as mesmas, mas eu não me importava mais. Se eu fosse morrer, seria lutando. Decidi que nunca mais me entregaria sem antes dar tudo de mim. Não teria mais medo de arriscar a minha vida.

A fala do moreno já estava mais leve nesse ponto da narrativa, como se ele estivesse aliviado por, ao menos no final, não ter do que se envergonhar.

Kakashi voltou a pensar no seu quase confronto com Orochimaru. Mesmo que não fosse capaz de vencê-lo, jamais teria ficado de braços cruzados enquanto ele sequestrava o garoto. Sasuke era um dos seus preciosos alunos, não deixaria que fosse levado tão facilmente, antes morreria protegendo-o. Provavelmente, era mais ou menos o mesmo que o Uchiha tinha sentido na floresta. Depois de ter sido trazido de volta à realidade pelo choque das palavras de Sakura, ele viu as coisas com clareza e percebeu a melhor maneira de fazer o que vinha tentando fazer desde o início: proteger seus companheiros. Era um bom garoto.

- Mas não acho que possa dizer que salvei alguém – Sasuke prosseguiu depois de um tempo - Estaríamos todos mortos se Orochimaru não tivesse decidido nos poupar.

 “Sim, mas ele só fez isso porque você despertou o interesse dele. Por isso ele os deixou viver”, pensou taciturno. “O que de fato aquele cobra enxergou em você?”, questionou-se preocupado.

- Seja como for, o melhor que tem a fazer agora é descansar. Amanhã começa seu treinamento e você precisa estar disposto.

***

Acordou no meio da noite sem nenhuma razão aparente. Mudou de lado, numa tentativa de pegar no sono, mas após alguns minutos, percebeu que estava mais desperto do que gostaria. “Já que estou acordado, não faz mal dar uma checada nos arredores do acampamento antes de voltar a dormir”, pensou. Abriu o olho ainda deitado, encontrando um colchonete vazio ao seu lado. Sasuke não estava na barraca. Sentou-se rápido, então engatinhou até a porta. Tão logo afastou o tecido, encontrou o que procurava. Seu aluno estava alguns metros adiante, próximo à borda do precipício, de costas para a barraca. Parecia ter os olhos fixos na lua.

Estava prestes a mandá-lo voltar a dormir quando:

- Essa foi a última vez – ouviu-o dizer; à distância, sua voz rouca parecia um sussurro -  Eu nunca, nunca mais vou fugir.

Por alguma razão, aquilo fez o sangue de Kakashi gelar. Sasuke com certeza não tinha percebido sua presença. Então, com quem ele estava falando? O tom das palavras era muito cortante para um mero exercício de auto-encorajamento e sua intuição lhe dizia que não se tratava simplesmente de uma promessa pessoal. 

- Você ouviu?! – ele ergueu a voz, como se quisesse ter certeza de que estava sendo escutado, o que confirmou as suspeitas do Hatake – EU NUNCA MAIS VOU FUGIR! – e misturada à determinação, surgiu um quê de rebeldia - Nunca mais vou rastejar diante de ninguém! Sejam minhas chances boas ou nulas. Ninguém! Também não vou mais me agarrar a minha vida desprezível. Vou mergulhar de cabeça na busca pelo poder de que necessito, enfrentando tudo o que vier pela frente. Vou encontrar meu próprio caminho. E quando chegar a hora – ele baixou a voz novamente - é você que vai rastejar diante de mim! – proferiu, com a frieza tétrica de quem dá uma sentença de morte.

***

Kakashi despertou de repente em seu quarto, ainda sentindo um aperto frio no peito.

 

SASUKE

Ficou atônito por alguns instantes. O que fora aquilo? Ali, sozinho na clareira, tentava decifrar a cena inusitada que acabara de viver. Não fossem pelas penas negras espalhadas pelo chão, correria o risco de acreditar que tinha sido tudo obra da sua mente. Podia não ser muito lógico, mas a única conclusão a que conseguia chegar era que, de alguma forma, aquele monumento não era só uma homenagem digna, mas estava verdadeiramente ligado ao seu homenageado. Ou o fato de todos aqueles corvos terem decidido pousar no local não passava de uma enorme coincidência. Grande demais para o seu gosto.

Como não havia sinal de perigo, desativou a herança sanguínea. Aproximou-se da placa de pedra com passos lentos e depositou as flores abaixo dela. Itachi teria que perdoá-lo pela falta de incenso.

- Oi... irmão... – iniciou hesitante.

Sasuke sentia-se meio estúpido por estar conversando com uma pedra. Nunca tinha feito aquilo, nem mesmo quando, há muitos anos, visitara os túmulos dos outros membros de sua família.

- Estou de volta, como pode ver. Se é que pode. Vou cuidar da vila agora. Não era o que você queria? Espero que esteja satisfeito.

Houve um longo silêncio.

- Eu... não sei bem o que dizer... Só... queria...

Sua voz começou a embargar e isso o deixou com raiva. Não desejava parecer fraco, muito menos diante de Itachi.

- SÓ QUERIA DIZER QUE VOCÊ É UM GRANDE IDIOTA!

As lágrimas escorreram contra a sua vontade.

- Como pôde fazer isso?! Como pôde mentir para mim?! Como pôde me fazer acreditar que aquele irmão incrível, que eu admirava, era na verdade um assassino cruel, frio e egoísta, que matou o clã inteiro por um simples capricho?!

Lágrimas grossas caíam, cada vez mais abundantes.

- Você não faz ideia de como... Não faz ideia do que... Você era tudo para mim, sabia?! Meu exemplo, minha referência, meu porto-seguro, meu melhor amigo, meu maior rival, minha meta... TUDO! Como pôde simplesmente virar meu mundo de cabeça para baixo?! Destruir tudo o que eu conhecia?!

O choro tornava sua voz pastosa e ele detestava essa sensação. Detestava! Fazia-o sentir-se patético, uma criancinha desamparada. Mas não podia evitar, as lágrimas aumentavam a cada palavra, banhando seu rosto, escorrendo pela face, pingando no chão.

- Sabe o que mais doeu durante todos esses anos?! – questionou num choro compulsivo - Não foi ter perdido a mãe e o pai – e doeu muito, porque eu os amava. Não foi ter de carregar sozinho a responsabilidade de ser o futuro do clã, de saber que se algo acontecesse comigo estaria acabado, porque eu era o único restante. Não foi nem mesmo ter que te matar, embora essa seja uma culpa que vou ter de carregar para o resto da minha vida.

Um soluço cortou sua fala e logo foi seguido por três outros.

- O que mais doeu... FOI TER QUE APRENDER A ODIAR A PESSOA QUE EU MAIS AMAVA!

Por um bom tempo, tudo o que se ouviu foi o som de sua respiração ofegante.

- Eu te amava tanto! – continuou com choro misturado a irritação - E para conseguir te odiar, eu comecei a odiar tudo. A minha infância, que estava recheada de lembranças suas; o meu eu de antes da tragédia, por ter sido tão ingênuo e ter se deixado enganar; a minha fraqueza, por eu não ter tido forças para te impedir na época; a minha vida, que eu só tinha porque você permitiu que eu vivesse; as pessoas que tentavam se aproximar, porque elas só me lembravam dos laços que você tinha me roubado; os meus treinos, porque eles eram somente uma tentativa de alcançar você, de igualar nossas habilidades; o mundo ao meu redor, porque ele era meramente o palco da minha vingança; a mim mesmo, porque eu só estava fazendo exatamente o que você tinha me mandado fazer: “me amaldiçoe, me odeie e viva uma vida longa e repugnante”. Lembra? – acrescentou com um sorriso amargo – “Fuja, fuja e agarre-se a sua vida desprezível”.

A respiração começou a se normalizar.

- Você estava presente em cada parte do que eu tinha sido, do que eu era e do que eu viria a ser e, mesmo assim, eu precisava te arrancar de dentro de mim – disse, quase num sussurro, a voz serena - Será que faz alguma ideia do que é isso, Itachi?

Sasuke enxugou o rosto com a manga da camisa. Sabia que nada era assim tão simples, que seu irmão estivera encurralado na época e que pensara que aquela era a única solução possível. Itachi jamais poderia ter previsto as escolhas futuras do caçula, que o levaram a trilhar um caminho mais e mais degradante. Imaginava que, ao continuar morando em Konoha, Sasuke acabaria aprendendo a amá-la com a mesma intensidade que ele próprio. Mas estava enganado. O trauma emocional causado pelo massacre e por suas mentiras acabou sendo mais devastador do que o esperado e privou o mais novo de formar vínculos profundos com qualquer coisa que não fosse o desejo de vingança. Sua tentativa de protegê-lo e guiá-lo pelo caminho certo surtiu efeito completamente contrário, como um tiro pela culatra.

Hoje, Sasuke acreditava que a decisão do primogênito talvez não tivesse sido a mais acertada, mas tinha consciência de que também cometera seus próprios erros. Vários deles. Itachi ao menos esteve tentando proteger outras pessoas, enquanto ele só pensou em si mesmo – e numa porção de mortos. Contudo, precisava daquele momento, precisava desabafar, colocar para fora tudo aquilo que guardara em seu peito por tantos anos.

- Eu... não te disse naquele dia – recomeçou, lembrando-se do encontro com o edo tensei do irmão durante a Quarta Grande Guerra Ninja – Mas... também te amo. Ainda. E... sempre vou.

Deu um longo suspiro.

- Desculpe, irmão.

 

KAKASHI

Ainda deitado, piscou algumas vezes até deixar o quarto em foco. Depois sentou-se, dirigindo o olhar para a janela. Raios de sol passavam pelas frestas da cortina.

Já é de manhã.

Kakashi foi até o banheiro e lavou o rosto. Observou seu reflexo no espelho por longos minutos, antes de levar as mãos à cabeça e massagear as têmporas.

Aquilo não tinha sido apenas um sonho. Eram lembranças, lembranças da época em que treinara com Sasuke durante o Exame Chuunin. Lembranças nas quais não pensava há muito tempo.

Nunca comentou com o Uchiha sobre aquele estranho monólogo ao luar. Na ocasião, apenas fingiu dormir, enquanto ouvia seus passos lentos retornarem à barraca. Tampouco notou algo parecido nas noites que se seguiram.

Agora, olhando para traz, podia enxergar as coisas com mais clareza. Naquela noite, há tantos anos, Sasuke não falava somente de seu encontro com Orochimaru, ele falava sobre o massacre de seu clã, ele falava sobre Itachi. Por isso o jovem Uchiha tinha entrado em pânico na floresta, porque ele se viu de volta a situação de terror, fraqueza e impotência que experimentara aos sete anos de idade. Um inimigo muito além de suas habilidades, com uma nítida intenção assassina.

Esse raciocínio, também trouxe a súbita compreensão de com quem Sasuke conversava do lado de fora da barraca. Ele se dirigia ao irmão mais velho, mandava um recado para Itachi.

Se ao menos houvesse entendido na época... Talvez pudesse ter dito, feito alguma coisa para tirá-lo daqueles pensamentos mórbidos. Se, se... A dúvida sempre voltava para assombrá-lo. Será que poderia ter feito alguma coisa para impedir que a história de seu ex-aluno assumisse o rumo que tomou?

- Ou o quê? Vai me amarrar numa árvore? – as palavras de Sasuke voltaram a sua mente.

O Hatake estava até esquecido daquele episódio, antes que o garoto o lembrasse há três dias. Depois que Sasuke e Naruto se enfrentaram no terraço do hospital de Konoha, causando grandes estragos e quase matando um ao outro – e a Sakura, quando ela tentou apartá-los - o moreno foi se refugiar no galho de uma grande árvore, a fim de ficar a sós com seus pensamentos. Kakashi o seguiu até lá e, enquanto ele estava distraído, amarrou-o ao tronco largo para que não fugisse antes de escutar todo o seu sermão. Sasuke não era do tipo que ficava quietinho levando bronca.

Não tinha se esquecido da briga entre seus alunos, mas do fato de ter amarrado Sasuke a uma árvore na tentativa de estabelecer uma conversa. Mas, pelo visto, ele não tinha se esquecido e alguma impressão devia ter ficado daquela experiência para que o garoto a guardasse por tanto tempo em sua memória. Uma impressão não muito boa, aparentemente. 

Pensando bem, aquela foi a primeira vez que conversou com o Uchiha sobre sua obsessão por vingança, tentando dissuadi-lo a desistir da ideia. E o resultado obtido foi o pior possível: naquela mesma noite, Sasuke deixou a vila, acompanhado do quarteto do som, para se unir a Orochimaru.

Talvez se tivesse falado com ele antes... Quando ainda não havia tanta tensão entre ele e Naruto. Ou quando Itachi ainda não tinha reaparecido em Konoha, pois foi a partir dali que tudo começou a desmoronar.

Mas o que estava feito, estava feito. Não adiantava ficar se torturando por causa do passado. Precisava se preocupar com o presente para que pudesse haver um futuro. E o primeiro passo nessa direção era se reconciliar com Sasuke. Ele não tinha feito nada além de discutir com o garoto desde sua soltura. Desse jeito, acabaria afastando-o novamente. E não era isso o que queria. Já estava mais do que na hora de acabar com aquela briguinha sem sentido. Se supunha que ele era o adulto ali, então ele tomaria uma atitude.

***

Depois de tomar um banho rápido, Kakashi foi até a cozinha procurar por algo que poderiam comer no café. Não encontrou Sasuke no trajeto, o que provavelmente significava que ele ainda estava dormindo. Ou que não queria sair do quarto.

Dirigiu-se a porta do quarto dele e deu algumas batidas. Como não houve resposta, arriscou abrir uma brecha e dar uma espiada. Assim que olhou para dentro, porém, escancarou a porta. Não tinha ninguém ali. O quarto estava vazio, a cama forrada.

Ah, não...

Sasuke tinha saído sozinho de novo.

Kakashi riu da ironia. Seu único trabalho atualmente era não perder o garoto de vista e já era a terceira vez em menos de uma semana que não sabia onde ele estava. Era verdade que da primeira vez a sugestão de que Sasuke saísse para dar uma volta tinha sido sua, mas isso não a descaracterizava como infração. Talvez realmente não fosse o ninja mais indicado para aquele serviço.

Olhou para o quarto escuro, impotente. O que mais poderia fazer além de esperá-lo? Sair e procurar, quem sabe. Mas assim aumentaria o risco de chamar a atenção dos Conselheiros para o fato de Sasuke estar andando sozinho por aí. E isso traria um bocado de problemas. Melhor não. Sasuke era esperto, sabia que não era prudente deixar que o vissem perambulando sem a companhia dele ou de Naruto depois do incidente dos clones. Confiaria nele.

Além disso, Kakashi já tinha notado a presença dos ANBU que estavam constantemente vigiando o prédio. Eram sempre três e já tinha visto todos eles naquela manhã. Se eles continuavam ali, significava que não tinham visto quando Sasuke saiu. O melhor que tinha a fazer era garantir que continuasse assim. Com as cortinas fechadas, não dava para perceber que o quarto estava vazio. Daria cobertura ao garoto até ele voltar. E dessa vez, não o receberia com um sermão quando isso acontecesse.

 

 SASUKE

Àquela altura da manhã, a vila já estaria bem mais movimentada e seria melhor evitar que as pessoas o vissem sem Kakashi por perto. Não que estivesse se escondendo, afinal, já tinha sido visto. No entanto, andar pelas ruas lotadas chamaria muita atenção e atrairia os ANBU, que eram os únicos que Sasuke de fato não queria que o encontrassem. Por isso, resolveu fazer seu caminho pelos campos de treinamento. Lá teria menos gente e seria fácil se ocultar nas árvores, caso necessário.

Enquanto caminhava por dentro da vegetação, uma cena captou seu olhar. Um homem e um garoto muito parecidos – pai e filho, Sasuke deduziu - estavam próximos a quatro postes grossos de madeira polida, usados para a prática com kunais e shurikens. No entanto, em vez de fazer arremessos, a criança olhava atentamente para as mãos do mais velho, que fazia selos bem lentamente. Ao terminar, o homem inspirou fundo e, então, cuspiu um potente jato de água, que foi bater vários metros à frente de onde eles estavam.

Depois de repetir a sequência de selos várias vezes, o homem fez um gesto indicando que era a hora do menino tentar. O garoto, que deveria ter por volta de sete anos, começou a fazer a série de movimentos com as mãos cuidadosamente. Seu rostinho demonstrava extrema concentração. Em seguida, inspirou o máximo que podia e cuspiu – um filete de água que mal passou dos seus pés.

O mais velho observou tudo atentamente, em silêncio. E só quando a criança voltou os olhos cheios de expectativa para ele, falou. Mas quando o homem abriu a boca, não foram as palavras dele que Sasuke ouviu e sim as de seu pai.

- Como eu imaginava. Você não é igual seu irmão.

O Uchiha balançou levemente a cabeça. Com certeza não era aquilo que o pai do garoto tinha dito, pois o menino trazia um sorriso enorme nos lábios e logo correu para os braços paternos, que o envolveram num abraço apertado.

Por alguma razão, Sasuke não suportava mais a ideia de ficar ali. Girou nos calcanhares e se afastou rapidamente.

***

Ele não conseguia tirar aquela cena estúpida da cabeça.

Mas que diabos!? Era só um moleque tentando aprender um jutso básico. Esqueça isso!

Quando deu por si, percebeu que seus pés o tinham levado para bem longe de seu destino. Ele estava no deque onde seu pai havia lhe ensinado a técnica do katon.

Tsc! Ótimo!

Se não sabia nem como tinha ido parar ali, será que tinha tomado cuidado para não ser visto durante o trajeto? Agora era tarde. Podia se preparar para mais sermões tediosos vindos de Kakashi. E talvez para uma convocação do Conselho da Vila.

Sabia que deveria voltar para o apartamento, mas cedeu ao instinto de ir até a borda do deque e se sentar. Quando era criança, suas pernas ficavam balançando, mas agora os pés alcançavam a água e ele teve que tirar as sandálias para não molhá-las.

Por que aquilo ainda machucava depois de tanto tempo? Ele já tinha vivenciado coisas muito piores. Então, por que ainda doía quando se lembrava?

Em seu clã, dizia-se que um Uchiha só podia ser considerado adulto depois que se tornasse capaz de usar o katon, porque a manipulação do fogo era o traço mais marcante da família. Atualmente, era muito fácil para Sasuke usar o katon, mas não era ao elemento fogo que as pessoas costumavam associá-lo. Seu golpe mais característico, aquele sobre o qual tinha mais domínio e do que mais gostava, era o Chidori, um jutso de raiton.

Tinha sido trabalhoso dominar o estilo trovão. Moldar chakra em forma de eletricidade não era tão elementar para ele quanto moldá-lo em forma de fogo, pois seu sangue o impelia para isso. E depois de concluir essa etapa, teve que treinar muito até conseguir executar o Chidori com perfeição. Mas ele conseguira. E, hoje, usar o Chidori era tão natural quanto respirar. Não precisava sequer pensar, seu corpo conhecia o caminho. No início, tinha o limite de três golpes por dia. Mas já não existiam limites para ele, podia usar o Chidori indefinidamente, enquanto houvesse chakra em seu corpo, incluindo as muitas variações que tinha criado para a técnica. Essa era uma satisfação pessoal, algo de que se orgulhava secretamente.

Às vezes o golpe parecia tão seu que ele até se esquecia de que alguém o ensinara. De que Kakashi o ensinara.

***

- Muito bem, Sasuke, agora é a sua vez – ouviu seu professor dizer, depois de ter terminado a explicação.

Ele assentiu.

Suas mãos habilidosas executaram a sequência de selos mostrada há poucos minutos impecavelmente. Logo em seguida, um formigamento correu pelo braço direito estendido até chegar às pontas dos dedos. Nesse instante, uma faísca azul surgiu na palma de sua mão, dando origem a pequenas correntes elétricas, que se espalharam, com um chiado suave, até envolvê-la completamente. Tudo isso aconteceu em cerca de três segundos e levou só mais um para desaparecer, deixando apenas uma leve sensação de dormência.

Ele encarou a própria mão frustrado. Sério!? Só conseguia moldar aquela quantidade patética de chakra? Depois, com relutância, ergueu os olhos para encontrar os do Hatake. Kakashi o observava em silêncio, com uma expressão impassível. Sasuke já tinha visto aquela cara antes, em seu pai, no dia em que tentara lhe ensinar a usar o katon.

- Como eu imaginava – Kakashi começou.

Você não é igual ao seu irmão - a voz de Fugaku ecoou em sua mente.

Você não é igual ao seu irmão.

Você não é igual ao seu irmão.

Você não é igual ao seu irmão.

Você não é igual ao seu irmão.

- Esse jutso é perfeito para você! – concluiu sorrindo.

O mundo pareceu parar por um momento. Sasuke não sabia o que fazer. Sentiu-se envolto por algo quente.

- Hn – murmurou, fingindo indiferença.

Então, virou o rosto para esconder um sorriso que brotava sem permissão. E desde esse dia, ele nunca deixou de se dedicar ao Chidori.

 

KAKASHI

Kakashi preparava o café, enquanto pensava na melhor forma de abordar Sasuke quando ele voltasse. De repente, ouviu um pipoco e levantou os olhos bem a tempo de ver uma pequena faísca amarela, o último sinal de vida que a lâmpada da cozinha deu antes de se apagar para sempre.

Por alguma razão, aquilo lhe trouxe lembranças.

***

Ele observou Sasuke tomar distância. As roupas sujas e amarrotadas, a testa molhada de suor, a franja comprida caindo sobre os olhos. Seu semblante revelava um ar de cansaço, mas os orbes negros brilhavam de determinação.

Perda de tempo era um luxo ao qual não podiam se dar. Quando começaram aquele treinamento, faltava menos de um mês para a terceira etapa do Exame Chuunin, pouco tempo para tudo o que precisavam alcançar. Por isso, nenhum dos dois deixou o acampamento desde o dia em que se encontraram no penhasco. Cada minuto era precioso demais para desperdiçar com viagens de volta a vila ou coisas triviais, como cortar o cabelo. Faziam as refeições lá mesmo e banhavam-se num rio próximo ao pé da montanha. Quando sentiam falta de algo essencial, Kakashi mandava um kage bunshin para Konoha. Não se atrevia a deixar Sasuke sozinho, não sabendo que Orochimaru estava de olho nele.

Agora faltava apenas uma semana para a prova e ainda havia muito o que fazer. A agilidade do Uchiha melhorara exponencialmente, mas ele ainda não tinha chagado no nível de Rock Lee. Quanto ao Chidori, Sasuke vinha se esforçando bastante, aperfeiçoando a técnica a cada tentativa. Mas ainda faltava.

Depois de se afastar uns vinte metros, o garoto parou e encarou seu alvo: uma grande rocha perto da borda da montanha. O Uchiha fechou os olhos, inalando profundamente, e quando tornou a abri-los eles já não eram mais pretos e sim vermelhos. Com perícia, Sasuke executou todos os selos e, logo em seguida, uma massa densa e irregular de chakra se formou ao redor de sua mão direita, soltando faíscas.

Ele correu a toda velocidade em direção à pedra. Kakashi podia ouvir o chiado característico das correntes elétricas, como o som de mil pássaros. E então, quando a mão de Sasuke se chocou com o alvo, ela se aprofundou, sem resistência, até chegar ao centro. Não suportando o impacto, a rocha rachou por completo, partindo-se em vários pedaços.

Perfeito. Ele tinha conseguido. Dominara completamente o jutso.

Enquanto Sasuke puxava o braço de volta, Kakashi o viu sorrir. Um sorriso diferente de qualquer outro que o garoto já tinha dado antes (não que tivessem sido muitos). Um sorriso leve, cheio de satisfação. Um sorriso... alegre.

Aquele sorriso aqueceu seu coração, levando-o a espelhá-lo, antes mesmo que pudesse se dar conta. Subitamente, sentiu-se preenchido por uma onda de sentimentos: felicidade, orgulho, contentamento. Desde o início, sabia que aquele golpe seria ideal para Sasuke, por causa do sharingan. Mas, agora, percebia que essa não tinha sido a única razão que o levara a ensinar-lhe a técnica.

- Nós somos parecidos - as palavras que um dia usara para se referir a Sasuke, durante uma conversa com Gai, lhe vieram à memória.

No fundo, Kakashi se identificava com o garoto. Ambos tinham perdido os pais muito jovens, eram considerados gênios e tinham uma personalidade reservada. Finalmente, compreendeu que o domínio de Sasuke sobre o Chidori não representava uma realização somente para o Uchiha, mas para ele também. Uma vez que não pretendia constituir família, a oportunidade de passar a técnica que criara, a única técnica que já criara, para a geração seguinte era o mais perto que chagaria de deixar um legado. Sasuke seria seu legado.

Mas, de repente, tudo aquilo foi ofuscado pela expressão no rosto dele. Sasuke estava... feliz. E Kakashi percebeu que, mesmo que não durasse, mesmo que no instante seguinte seu aluno voltasse a ser o garoto frio e sisudo que costumava ser, aquele sorriso já valeria por todo o esforço das últimas semanas. Porque a alegria dele o deixava alegre também.

Seria essa a sensação de se ter um...

***

CRESH!

Um som agudo o despertou do passado quando a tigela de porcelana escorregou de suas mãos, indo se espatifar a seus pés. Kakashi suspirou, agachando-se para catar os caquinhos.

Passos no corredor chamaram sua atenção. Logo depois, uma cabeleira negra ouriçada despontou na porta da cozinha, juntamente com olhos negros alertas.

- Foi só a tigela que caiu – explicou, erguendo um caco de porcelana.

Sasuke revirou os olhos. Tinha se preocupado à toa.

- Como foi seu passeio? – perguntou o Hatake quando ele ameaçou ir embora.

A irritação se espalhou rapidamente pelo semblante do garoto. Devia estar prevendo mais repreensões.

Não, não é isso que eu quero.

- Não precisamos falar sobre isso agora se você não quiser – emendou, levantando-se do chão com as mãos em concha, cheias de pedacinhos brancos.

Kakashi jogou os cacos no lixo ao lado da pia.

- Está com fome? – e apontou para o café da manhã semi preparado.

Sasuke permaneceu alguns instantes em silêncio, então assentiu.  


Notas Finais


Eu sei que, há muuuuuito tempo, quando postei o "O pior namorado de todos", eu disse que no próximo capítulo seria o reencontro de Sasuke e Sakura. Realmente, esse era o meu plano, mas, durante a escrita, o capítulo tomou rumos diferentes e ia ficar muito destoante se eu colocasse o reencontro dos dois aqui. Por isso, me perdoem aqueles que estavam esperando por momentos sasusaku e não encontraram. Mesmo assim, espero que tenham curtido!
E minha eterna gratidão aos bravos guerreiros que não perderam o interesse nessa história!
Beijos!


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