História O que fazer quando o céu cair - Capítulo 8


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Ficção, Luta, Magia, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - De verdade


Noah estava sentado ao lado da lareira, estava acesa, laranja, mais que acolhedora. Seu irmão quem deu a primeira faísca a pedidos de Alex. Ele tinha que aprender a usar seu talento, ou, pelo menos, perder a vergonha.

Leandro estava no sofá ao lado, usando a roupa mais informal que trouxe, uma camisa branca de linho, estava larga no seu peito. Ele castigava a pele perto de suas unhas e seus lábios, recusando-se a olhas para seu meio-irmão.

— E você...— Noah começou.— tem alguma ideia de quem é seu pai?

Era como se um abismo tivesse sido aberto entre eles, não dividiam mais o mesmo pai, parecia que eram estranhos agora. Estranhos que se conheciam desde o nascimento.

— Nenhuma...— a pele ao lado de suas unhas estava em carne viva.— acho que nem nunca vou ter...

—  Não fala assim, tenho certeza que a Tina vai te ajudar.

— Como você vai ficar? Digo, parece que eles odeiam humanos tanto como humanos odeiam aberrações. Só não sei se os matam.

— Parece que o jogo virou.— Noah riu.— eu que posso ser morto.

— Não fala assim...

—  Estou mentindo?

— Não, mas...

— Não estou. Se quiserem me matar, estou morto, você já viu isso— Leandro calou-se com a interrupção, puxando os lábios para dentro para impedir-se de falar. Noah fez o mesmo, procurando quebrar aquele silencio estranho, que nunca tinha experimentado enquanto falava com ele, lembrou-se da conversa que Tina teve com ele no caminho para floresta.—Se a Amy viver, me dá um talento, se não, o Alex me passa o dela.

Assim eles esperavam.

— Falando nisso, como ela está?

— O Mathias e a Taiti estão com ela no quarto, não me deixaram entrar.

— Quem?

— Aquela doida de cabelo estranho. Está pior que mãe urso.

— Imagino.

Um silêncio pesado caiu sobre o ambiente, Noah olhava de vez em quando para a lareira, imaginando que estava em casa. Recusava-se a estar desconfortável com o próprio irmão, não se importava se foi concebido por uma aberração, continuava seu irmão e ponto final. Mas ele  não precisou se preocupar com aquilo, foi Leandro quem falou primeiro.

— Você sabe qual é o dela?

Noah deu de ombros

— Só espero que não seja se transformar naquilo, se for, volto a morar com os pais.

— Alguma coisa me diz que não vão te deixar voltar...

— Por que não?

— Você sabe onde eles estão, pode convocar uma armada.

— Aquela louca de cabelo estranho acabou com um guarda real sem nem suar! Uma armada não seria nada.

— Não era você que tinha toda aquela coisa com nomes? Eu tenho um além de aquela louca de cabelo estranho.— Taiti descia as escadas com uma cara mais cansada que estudantes universitários no fim de semestre.— Caso você tenha esquecido, é Taitiana Königskraft.

Ela falou aquilo como se Noah não entendesse direito. Claro, um nome estrangeiro, criação estrangeira, ele não podia esperar nada diferente. Mas, para sua surpresa, logo ela voltou atrás.

— Desculpa, só estou muito cansada, de verdade.

Ela esfregou os pulsos nos olhos e abriu a geladeira, esperando que houvesse alguma coisa boa lá dentro. Nada. Mathias tinha comido tudo.

Leandro voltou-se para Noah, dessa vez, falando baixo para que sua conversa não fosse ouvida.

— Só estou falando que seria muito arriscado para eles, não podem colocar nada a perder, estão com dois feridos e só um guerreiro. 

— Como você sabe que só ela que é?

Aquela seria a melhor hora para se saber outra língua, para que um dos dois tivessem ido em frente com o projeto de criação, aprendido libras ou qualquer coisa assim.

— Pensa um pouco Noah!— Leandro falou baixo, mas ainda assim, profundamente irritado com a ignorância do irmão.— só ela que lutou!

— Faz sentido, mas faria muito mais se ela fosse um homem.

— Fala isso de novo!— Taiti fingia que não os ouvia, mas até lá, eram só elogios, seria uma ferramenta barata para inflar seu ego. Estava cansada de ter ouvido aquilo tantas vezes, de ter que provar-se tantas vezes. Não deixaria que alguém assim entrasse no bolsão.

Noah engoliu a pouca saliva que tinha na sua boca, sentindo-a seca logo depois. Não devia ter falado aquilo, foi burrice.

— Só estou falando...—ele fez uma pausa para pensar novamente.— que faria mais sentido colocarem um homem como guerreiro, eles são mais fortes e-

— Faria alguma diferença— ela pegou uma pequena lâmina das chapas que deixava perto da saída e colocou-a bem na frente dos olhos dele.— se você estivesse assim?

— Não, senhora.

— Bom mesmo.— ela colocou o metal de volta e retornou a sua antiga tarefa de procurar alguma coisa para comer.— não se preocupem se eu ouvir a conversa de vocês. Sou sim a única guerreira útil no momento e você não é nosso prisioneiro, só não poderá ir para cidade se não tiver nada.

— Que cidade?— Leandro perguntou preocupado. Sabia que ele não era sua única família, mas era o único que conhecia que tinha uma chance de acompanhá-lo e não perder a sanidade. Sua mãe... ela estava, bem, muito velha para aceitar um novo mundo. Cortes como aqueles, falas como aquelas.

— Nossa cidade. Como você mesmo disse, Noah, eu consigo acabar com guardas reais sem nem suar, isso sem contar a Amy, seria burrice que nós fossemos os coitadinhos oprimidos.— ela fez questão de fazer uma voz de donzela em perigo.

Leandro olhou preocupado para o irmão. Ele estava sozinho. Teria que ir sozinho com eles, sozinho de corpo e alma.

— Taiti, esse não é o seu trabalho.— Alex descia as escadas preguiçoso, com cara de quem acordou a pouco tempo.— deixa isso com o Nícolas.

— Como ele está?— ela voltou-se para bancada, cortando um pedaço de queijo que achou escondido no fundo da geladeira.

— Mal... mas você sabe que isso é trabalho nosso.— ele olhou para os irmãos.— e vocês, como estão?

Leandro pensou em falar algo como: quase urinando de medo, mas pensou melhor. Não os conhecia o suficiente para falar assim.

— Bem, obrigado.— ele fez o possível para sorrir.

— Eu sei que não está bem.— ele sentou-se na poltrona entre os dois sofás.— ninguém fica bem depois de virem o que vocês dois viram. Estou aqui para ajudar. Falem o que quiserem.

— A Amy é um demônio?— Noah perguntou rápido, quase como se engolisse um comprimido.

Ele quase pôde ouvir o som de alerta de incêndios vindo de Taiti, mas, de verdade, ela só bateu a faca na tábua co mais força do que devia. Tinha que entender, precisava entender, que era melhor que ele, que era humana, não um moribundo, que não podia rebaixar-se ao nível de um.

— Não. Aquilo que aconteceu no complexo.-

— Obrigada pelo que fez lá, Noah.— Alex tinha ficado bravo com a interrupção, mas imaginava que Taiti falaria alguma coisa rude, que xingaria sua pergunta, mas não aquilo, então virou-se para ouví-la, quase entretido. Ela percebeu a surpresa deles, mas conteve-se em puxar os lábios para dentro e fechar os olhos com força. Se voltasse a falar, sua voz sairia fraca. Não podia dar-se aquele luxo.

Noah  já havia ouvido os mesmo agradecimentos muitas vezes, mas, em nenhuma dessas vezes, Taiti parecia agradecida do fundo do coração. Tinha inveja dele. Inveja por um moribundo poder fazer algo que ela não pôde, por salvar quem não pode salvar. Por ele ter conseguido manter a calma, por ele não ter explodido como devia ter feito e, ainda pior, por ter rezado para que a alma de Amy fosse em paz.

— A Tina já me agradeceu por você.

— Mas eu ainda não. Obrigada por ter prendido aquela coisa e por ter se preocupado com ela.

— Aqui para isso.— ele riu sem jeito.

 

— Só não te deixei entrar no quarto porque ela estava nua...— Taiti coçou a nuca, pegando duas fatias de pão de forma.— Não era porque não queria que a visse. Bem, era, mas era por causa daquilo que te falei, então...

— O que aconteceu no complexo.— Alex fez o favor de ela não precisar mais falar.— aquilo que você prendeu é um demônio, mas pense como se fosse um amigo imaginário do mal. Demônio é o nome que damos, aquele era um de sobrecarga.

— É o que eu teria? Se eu ficasse com um talento por muito tempo?

— Não. Eu não sei de onde o dela veio mas sei que não é daí. É um tipo diferente de sobrecarga. Mas isso não vem ao caso. Como a Taiti já disse, vocês não vão ficar aqui para sempre, esse é o limbo, o reformatório fica mais próximo da nossa cidade, mas é uma boa viajem de trem.

— Vocês usam trens?— Leandro arregalou os olhos, sem preocupar-se se o interromperia ou não. Não conseguia acreditar que pessoas como eles, que se diziam tão superiores, usavam o mesmo meio para grandes distancias.

— São rápidos, limpos, mas esse não é o ponto. Vocês terão que ficar um tempo no reformatório, para se acostumarem com a vida fora do bolsão.

— Nós?— Noah não quis parecer rude, mas não conseguiu não colocar as mãos sobre o peito, dando ênfase na sua pessoa.

— Noah, você vem de um jeito ou de outro, se é o que quer. A Amy não estava em condições de lutar com aquele demônio. Só você podia ajudar e foi o que fez, mesmo depois da Taiti quase te matar. Só deus sabe o que aconteceria com o estado caso aquela besta ficasse livre.

— Onde ela está agora?

— Eu não sei.

— Comigo.— Taiti girava duas chapas de metal rápido para que o atrito com o ar as esquentasse.— pelo menos ele está sendo um bom demônio.

— Qualquer coisa você chama o Mathias.

— Tudo bem, mãe.

— Qualquer coisa!

— Tudo bem, tudo bem... que saco.— ela pisou forte no chão, fazendo com que um pequeno pilar de metal levantasse o sanduíche. Com as duas outras chapas, agora quentes, prensou os pães e deixou-os lá por um tempo. Alex a olhava com cara de quem não acreditava.— A culpa não é minha se só dão energia para geladeira e para lâmpadas, eu tenho que ser criativa...

— Você ainda não conquistou o mundo porque não quis.— ele voltou para os meninos.— quantos anos você tem, Noah?

— Vinte e dois.

— Não poderá ficar mais de um mês... e você, Leandro?

— Dezessete.

— Seu problema é menor, pode ficar até seus vinte.

— O que é esse reformatório?

— Fazer com que se acostumem com a vida na nossa cidade. Como já deve ter visto, nossas roupas são diferentes, nossas falas são diferente. Seria um choque muito grande introduzi-los de vez nessa vida nova .

— Mas tem gente me esperando aqui!— todo sangue que Leandro tinha caiu para seus pés. Sabia que não voltaria para casa, julgava que já tinha aceitado aquilo, mas, agora que aquele era um perigo eminente, queria sua mãe, as comidas que ela fazia, seu cafuné que o acordava. Ele a quebrou, mesmo que Adeline tivesse armado tudo para que aquilo acontecesse, foi ele quem fez com que ficasse sozinha, que fez que acreditasse que o filho legitimo do seu marido estava morto.

Ele olhou para o chão, parecia com o de sua casa, feita de videiro. Era isso. Morte ou naturalizar-se com um cultura estranha, repugnante, que não era a dele. Ele sentiu uma pontada de raiva, vinda do peito até sua garganta, impedindo-o de respirar.

Noah só suspirou contentado. Podia ficar. Sabia que era isso que devia, ajudar sua mãe que agora estava solteira, tentar reconciliá-la, viver uma vida pequena em um zoológico. Um zoológico criado por eles por pena. De algum jeito sabia que aquela não era a vida que devia viver. Nunca esteve contente com suas conquistas, não eram nada que ninguém tivesse feito. Uma nota boa, um primeiro beijo, ir para cama com a menina mais cobiçada, um primeiro emprego honrável. Uma vergonha, nada mais que uma vergonha.

— Leandro...— Alex segurou as mãos dele, sem preocupar-se com a vergonha do outro.— Eu sei que é horrível, eu já passei por isso, mas lá não é tão ruim assim. São pessoas como você, vão te ajudar. A vida lá é melhor, por experiência própria.

— Pode ter sido melhor para você.— ele puxou as mãos para o peito.— Tem gente me esperando aqui, eu acabei de descobrir que sou filho do leiteiro e você não pode voltar, Noah. Eu falei para os pais que você estava morto.— silêncio.— o que você espera que eu faça lá? Aprenda como falar do mesmo jeito que alguém que eu não conheço?

A expressão de Alex era imutável, tinha nascido lá fora, mas sabia que mentiras reconfortavam quem acreditava nelas. Estava acostumado com explosões como aquela, eram normais, corriqueiras, quase um rito de passagem que os humanos nascidos no bolsão tinham que fazer. Sabia que era difícil renunciar a pátria, as pessoas, a religião... falaria daquilo depois. Um problema de cada vez.

Ele não falou nada até que Leandro se acalmasse. Fingiu estar envergonhado de mais para olhá-lo, mas, por dentro, só pedia para que ele se calasse, que só aceitasse que a única nação que o acolheria não era como a dele e seguir em frente com aquilo nas costas. Era egoísta pensar daquele jeito, anti-ético talvez, mas não conseguia culpar-se, por mais que quisesse. Se o mundo fosse como ele, as coisas seriam tão mais fáceis...

— Leandro...— ele chamou, tentando tirá-lo daquela ira.

— Pelo menos você ainda usa o meu nome! Achei que teria que jogá-lo fora também.

— Quem é que está gritando?!— Mathias correu até o degrau mais próximo do segundo andar que pode ver os dois.— Tem um demônio de sobrecarga lá em cima. Tenho certeza que ninguém vai querer ver aquela coisa de novo, então, por favor.

Ele subiu sem ter resposta. 

Leandro se contentou em jogar seu peso sobre o sofá novamente. Não choraria. Não permitiria que o vissem em seu pior estado. Pelo menos, não Alex. Não se desculparia pela explosão. Aquela proposta era de um louco. Não esqueceria de quem era como nasceu, não podia fazer isso!

— Vou deixar vocês no quarto. Leandro, por favor, entenda. Se você ficar aqui, vão te matar.— Alex se repetia que não estava manipulando-o por medo, que só estava falando a verdade, mas sabia que já que esse pensamento floresceu, era o que fazia— Estamos te dando uma chance de viver sem medo. Não somos tão diferentes assim.

Ele não respondeu, só virou a cara e levantou-se, esperando que os outros fizessem o mesmo. Alex foi forçado a subir as escadas, sendo seguido pelos irmãos. Seus passos faziam com que a escada rangesse, o único barulho que podia ser ouvido, de um jeito estranho, familiar.

O corredor do andar de cima tinha um pé-direito pequeno por causa da curvatura do teto, diversas portas de madeira estavam distribuídas ao longo das duas paredes, as duas últimas eram seus quartos.

— No outro fim do corredor fica o banheiro, grito quando o jantar estiver pronto. Sintam-se em casa.— Alex forçou-se a sorrir para eles, retirando-se para seu próprio quarto, grato por poder descansar.

Leandro não esperou que Noah falasse qualquer coisa, só queria ficar sozinho, no seu mundinho privado. Segurando firme a alça da bolsa com seus pertences, abriu a porta para um quartinho iluminado pela luz da lua. Não mentiria, era aconchegante. Tinha menos que quinze metros quadrados, esses pareciam maiores por causa do papel de parede branco. Uma lâmpada estava pendurada no teto, mas não havia interruptor nenhum na parede. Ele suspirou irritado, relaxando os ombros, examinando o cômodo. Uma escrivaninha de madeira polida, um armário vazio e uma cama nem tão pequena assim, com um colchão grosso e cobertores pesados para o inverno foram comprimidos na salinha, dando um estranho ar caseiro. Sobre a mesa estava uma pequena velinha, quase que pedindo para ser acesa. Leandro a acendeu, sentindo um cheiro forte de lavanda. Tina que a colocou lá, achava que um cheirinho bom não machucaria ninguém. Machucar não machucaria, só não iluminaria o quarto. 

Conformado com a escuridão e com os olhos quase acostumados, Leandro deixou a vela sobre a escrivaninha e hesitou um pouco antes de colocar suas coisas no armário perto da cama. Não tinha muitas coisas além do que cabia na sua bolsa pequena, algumas calças amassadas, camisas de todas as cores entre o preto branco e azul, algumas desbotadas, cuecas e meias. Nunca precisou de outro sapato além do que usava. Amaldiçoou-se por não ter trazido um pijama. Achava que nunca mais teria paz o suficiente para dormir, dormir nu seria uma opção, mas julgava aquilo deselegante,  principalmente na casa de estranhos.

Não demorou muito para que alguém batesse na porta. O primeiro pensamento de Leandro foi Noah. Ele também estava tendo problemas com a lâmpada. Depois foi Taiti. Teve medo que fosse ela, de que veio dá-lo notícias ruins.

As batidas não pararam. Ele tinha que responder.

— Quem é?

— A Tina, posso entrar?

— Por quê?

— Eu ouvi sua conversa com o Alex, só quero ajudar.

— Vai embora.

— Você não sabe acender a lâmpada.

Leandro não tinha outra desculpa a não ser querer ficar sozinho. Não conseguia pensar em um rosto que quisesse ver, mas ainda assim, queria alguém, um estranho conhecido talvez.

— Tudo bem...

Ele esperou que ela abrisse a porta, mas Tina só entraria se ele abrisse. Aconteceu muitas vezes no reformatório, que mesmo depois de ser convidada a entrar, entendia alguma coisa errada e via alguém jogado na cama fazendo qualquer coisa que não fosse de sua conta.

— Como você está?— seus cabelos estavam presos em um coque bagunçado por causa dos cachos, ela vestia uma camisa cinza larga nos ombros, deixando seu sutiã a mostra. Não era daquelas que foi feita para ser frouxa, era um número muito maior que o dela. Indecente, vulgar.

— Por que você ainda pergunta se vai insistir que não estou bem?

Tina soprou as mãos, colocando-as na maçaneta. O quarto iluminou-se com uma luz amarela, como a de gás queimando.

— Depois do acidente no bolsão teremos que ficar mais uma semana aqui, para ver se ninguém criou um defeito.

— Vocês não tem cura para isso?— como pessoas que se diziam tão boas não conseguiam resolver um problema?

Logo depois Leandro repreendeu esse pensamento. Nunca devia culpar alguém por estar doente. Não escolheram ter aquilo.

— Infelizmente...— ela olhou para o chão, segurando o braço por cima do peito e sorrindo.— não se preocupe com o seu irmão. Não sei o que te fiz pensar sobre a Amy, mas ela não é tão ruim assim. Sabe o que ele fez por ela e não vai deixá-lo na mão.

— Mas e se ela morrer?

— Ela já acordou. Não subestime o Mathias, ele é um dos melhores médicos do reformatório.

— E você?— Leandro ficava de pé enquanto Tina esperava que ele se sentasse ou na cama ou na cadeira da mesinha, mas quando suas pernas se cansaram, pegou essa mesma cadeira e virou-a para cama, pedindo que ele se acomodasse.

— Sou um Dynamo, classe quatro por treino.— ela estava tão acostumada a falar aquilo que nem se lembrou que seu ouvinte não tinha ideia do que esse aquilo significava.— Ilusionista...?— talvez o sentido da palavra o ajudasse, mas sua expressão confusa não mudou.— Certo. Aquela névoa que você me viu criar quando procurava a Amy serve para muitas coisas. No ar para ver o passado e o presente, nos objetos para manipular a mente de quem os vê e em pessoas para fazer com que sigam minha vontade. Conhece a expressão fumaça e espelhos? Daí que vem.

— Dynamo?— ele disse aquilo como se aprendesse a falar.

— Um mágico. Era isso que os moribundos achavam que nós éramos.

— Faz sentido.— ele teve que admitir. Mesmo que não quisesse falar com ela, sua educação o forçou, aquela não era sua casa, só seu corpo era seu.

— Eu dou aulas no reformatório, sabe? Você está indo melhor do que a maioria, eles surtam quando descobrem que só tem igrejas no bolsão.

— O que?!

— Você não sabia?— o sangue de Tina caiu para o chão. Aquilo não cabia a ela, não recebeu treinamento nenhum.

— Como assim? Vocês não acreditam em deus?

— Tem um porquê para isso...— uma história, qualquer história.— quer ouvir?

— Claro!— seria um truque barato para saber mais sobre eles. Histórias sempre foram e sempre serão, a representação mais confiável da cultura de qualquer um. Mesmo que ela não falasse o que ele queria ouvir, saberia o que eles pensavam sobre o que quer que aquela história dissesse.

Ela soprou as mãos, criando uma névoa que mostrava uma cidade parecida com a dele, parecia que estava dento do bolsão, mais para o nordeste, onde tudo era baixo, colorido de um marrom escuro e preto.

— Vamos pular o era uma vez.— Tina sorriu nervosa para ele enquanto criava a melhor representação do cenário da história que ouviu tantas vezes, uma lenda. Sabia que ninguém prestaria atenção nela a não ser que tivessem um bom incentivo. Que não esqueceriam que estavam sozinhos em um mundo estranho, cercado por pessoas estranhas, com a única coisa familiar sendo contos.—e ir direto para moral da história, onde o bem vence o mal e os heróis vivem o resto das suas vidas felizes com as princesas, as quais foram salvas das garras pútridas da corrupção. Onde aprendemos que o crime não compensa, que beleza e bondade andam de mão dadas pelos caminhos límpidos da moral. Onde vemos que quem pegou o outro caminho está destinado a uma eternidade de sofrimento e, mais importante que isso, onde não paramos para pensar no destino dessa pobre alma penada.— Então era assim que eles viam os heróis? Como pessoas que fizeram uma decisão tão simples como tomar o caminho certo, ou o errado, e estão destinadas a seguí-lo para sempre? Algo tão maniqueísta assim?— elas fogem, de si mesmas, mas é uma pena que não se deem conta que a única prisão da qual não se pode escapar é a consciência. 

Ela fez uma pausa, olhando para Leandro. Ele não falava nada, mas parecia um pouco mais calmo do que antes de começar a ouvir a história. Esperava que fizesse um bom trabalho, bom o suficiente para que esquecesse que não poderia mais rezar.

— Você deve achar que vou falar sobre alguém conhecido, um rei, uma rainha, seus filhos e servos, mas essa é uma pessoa exatamente como você, um menino.— a imagem da cidade estava estática, não mudou em nada desde que foi projetada.— Faz séculos que isso aconteceu. Essa cidade é a minha.— ela sorriu.— Acho que isso nos prova que precisamos de uma reforma, mas a praça foi tombada. Foi nela onde essa história aconteceu, o maior ultraje do século. Uma Tesla estava grávida de um Domador. Essa união não teria problema nenhum, estavam na mesma classe, claro que o tipo era diferente, mas isso não era o problema, o filho nasceu uma aberração. Um humano que não era nada mais que um humano, filho de dois classe cinco.— aquele seria o nascimento mais comum do mundo para Leandro, mas ele deu-a o benefício da metáfora.

— O que fizeram com ele?— ele não conseguiu conter-se. As imagens mostravam um menino magricelo, cabelos de corte irregular, mal vestido, encolhido em uma maca, uma exata réplica das da prisão.

— Encheram-no de drogas, remédios primitivos para ativação do talento. Esconderam-no do mundo, depois dos quinze ele não viu mais o nada fora da sua casa. Esperaram que as drogas os trouxessem o filho dos sonhos de volta, para falar a verdade, acho que esperavam que fizessem-no seu filho. Não funcionou. Ele faria de tudo para ir para o bom caminho, para trilhar o que seus pais queriam para ele. Não conseguiu.— a névoa mostrava aquele mesmo menino, um tanto caricato, rastejando até a escrivaninha, examinando os frascos com o remédio.—só tinha um jeito, ele sabia que sim. Já que aquele mundo não o queria, procuraria outro. Ele cedeu ao suicido. Esperava que alguma mão amiga o ajudasse, foi isso o que aconteceu.— Deus, Leandro pensou. Deus o ajudou.— Essa mão o ofereceu ajuda, disse que ficaria tudo bem, mas ele não queria que ficasse tudo bem. Ele queria vingança.— os braços de Tina ardiam por deixado-los abertos por tanto tempo, mas já estava no fim. As imagens mostraram esse menino, seus membros tornando-se uma luz liquida, do mesmo jeito que suas órbitas.— Foi o que lhe foi dado. Ele se vingou. Matou seus pais, alegre por ter um talento e poder mostrar aquilo para o mundo, mas o que ele tinha não era um talento, ele havia se tornado uma aberração. Ninguém sabe direito o que ele faria com a encarnação de todo seu mal antes que estivesse claro que destruiria tudo no que pisasse, um buraco negro. Mas sabe o pior, Leandro? Ele nunca usou seu talento em uma pessoa, nunca tentou tocar em alguém com o intuito de consumi-la como fazia com objetos para transformá-los em energia. A vez que fez, seu corpo perdeu a vida, mas sua mente...— ela fez uma grande pausa, quase com medo do que falaria a seguir. Depois balançou a cabeça em negação, fechando as mãos para esconder a neblina.— aquilo que destruiu o complexo é a encarnação de um defeito, ele era, sozinho, um defeito, podendo adotar hospedeiros, derrotá-los dentro de suas mentes para que seguissem sua vontade. De pois de possuir um Teleporta, ninguém o viu, seria impossível saber sua identidade, mesmo que eu julgo que ele teria orgulho disso.

— E essa história... ela é verdadeira?

—  Eu não sei.— Tina teve que admitir derrota.— me contavam isso quando eu era criança, é quase que uma lenda para mim.

— Por que nesse mundo contariam uma história assim para uma criança?

— Manipulação por medo.— ela riu.— meus pais usavam isso para me mostrar que eu que escolhia se cederia com decisões difíceis. Serve muito bem para educar uma criança que acha que roubar biscoitos vai corrompê-la.

Um silencio indeciso caiu sobre o quarto. Não havia mais nada a ser discutido, nem mesmo sobre aquela história. Leandro havia se esquecido da ausência de igrejas fora do bolsão. Não parecia mais tão importante assim. Queria saber o que fariam com seu irmão, se se importariam o suficiente para dá-lo um talento, mas, ainda mais que isso, se essa tal de Amy não o mataria no processo. Seria a desculpa perfeita para livrar-se dele de uma maneira limpa.

— O que você acha que me fez pensar sobre a Amy?

— Que ela não presta. Não vai falar isso para ela, por favor.

— Não vou, mas ela consegue dar talentos para alguém?

— Você esta perguntando isso pelo seu irmão, não é?— Leandro fez que sim.— uma das cópias dela com outra podem, na teoria, criar um talento, mas ela sozinha não.

— Como assim, ela não?

— Quer ajuda para arrumar suas coisas? Te explico enquanto isso.—Ele se levantou e abriu a mochila que jogou perto da mesa. Esparramou tudo pela cama, enquanto passava as mãos por cima das roupas delicadas para tirar os amassados.— você é um elementar, ainda não dá para saber que classe, mas, já que tem controle pelo fogo, sem dúvida é um. Eu já disse o que sou. A Amy quase morreu mais de uma vez pelo que ela é. Uma arcano, espelho classe cinco.

— Qual é a classe máxima?

— Cinco.— ela riu como se confessasse alguma coisa.— sem treino algum ela já nasceu classe cinco. Que inveja que tenho dela... já ouvi falar que o pai dela é um Tatuador, sem dúvida ela o copiou, já que Leitores de auras não são tão raros assim, ela também deve ter feito uma cópia deles. Com esses dois ela pode dar um talento para o seu irmão.

— Mas vocês não disseram que ele não aguentaria?

— Ele já aguentou.— Tina dobrava algumas roupas e colocava-as nas gavetas do armário.— Não vai acontecer nada.

— E se a Amy quiser matá-lo?

— Ela não vai.

— Como você sabe?

— Ela não é má, só...— Tina aproximou-se dele, tomando cuidado para não estourar a bolha de familiaridade.—é uma vaca de vez em quando.

Leandro riu com aquele comentário. De algum jeito, sua sinceridade foi cômica, não indecente como veria se fosse uma colega sua. Aquela Dynamo irradiava de um certo jeito um senso de conforto, talvez aquilo fosse inerente a sua profissão de ensinar, ou talvez fosse o contrário. Talvez tivesse sido escolhida para lecionar justamente por causa dessa característica. Tina tinha sim, Leandro não podia negar, cara de mãe. Alguma coisa no modo que se vestia, no seu penteado, até mesmo na sua fala passava a impressão de maternidade. Como ela falava com ele de um jeito descontraído, Leandro jogou as formalidades pela pequena janela do seu quarto.

— Você tem filhos?

— Uma filha de oito anos, Dynamo.

— Que bom! E quem é o pai?

— Nem adiantaria eu te falar, você não o conhece.

Leandro calou-se. Se não era para saber daquilo, não era nada da sua conta.

Tina sabia que fez seu melhor. Esperava que seu trabalho tivesse sido bom o suficiente para que Mathias e os outros pudessem reabilitá-lo sem o peso do seu comentário anterior, de que, fora do bolsão, sua religião era considerada primitiva, quase irracional. Não era culpa dele, aquele coitado estava à mercê dos voluntários da pátria, ela nem queria imaginar sua impotência. Aquele devia ser uma sensação horrível, ser um espectador da própria peça de teatro.

Tina não falou nada, nem sabia se devia. Já fez tudo que podia ter feito, algo a dizia que não podia mais ajudá-lo.

— Você não pode sair da cabana depois do jantar. Não é seguro.

— Se você parar para pensar, sempre é depois do jantar.

— Você entendeu— Tina riu fechando a porta do armário.— o Alex é um bom cozinheiro, espero que goste da comida dele. Vou te encontrar na cozinha, tudo bem?

—Só uma última coisa.— Leandro disse envergonhado, sorrindo de nervoso, como uma criança ignorante.— como desliga a luz?

Tina fez o possível para não rir dele. Não podia culpá-lo, aquele coitado.

— Só use seu talento na maçaneta. Se não quiser andar até ela, só lance uma coisinha. Não vai me botar fogo na casa.

— Então...— sua expressão não mudou em nada.— eu não sei usar isso direito, assim, parece que o fogo gosta de mim, mas não vai fazer nada que não queira.

— Essa parte fica com a Amy, ela vai passar os básicos para você e o seu irmão, para, vocês sabem, que não coloquem fogo em tudo. Te espero lá.

Tina sorriu para ele, fechando a porta atras de si. Suspirou aliviada por estar fora daquele quarto. Sabia que não devia estar feliz, sabia que era sua obrigação ajudar os humanos salvos do bolsão, mas tinha pena de mais dele, não como de pessoas muito mais miseráveis que atendeu nas suas aulas, de um jeito estranho, não sabia descrever direito. Era uma inquietação no seu peito, que subia para sua garganta, lembrando-a que estava ali toda vez que respirava. 

Quando passou pelo quarto de Amy para ir ao banheiro, percebeu o imenso barulho, ou falta dele. Sempre ouvia conversas altas dentro de lá, com Taiti, claro, ela não falava muito com outras pessoas. Aquilo a irritava de vez em quando, mas, naquela hora, aquele silencio foi estranho, não tinha lugar naquela casa.

 

Pelo menos, estava prestes a acabar.         



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