História O segredo de Suna - Capítulo 74


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Tags Drama, Gaara, Hentai, Matsuri, Naruto, Romance
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Palavras 5.382
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Hentai, Luta, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


"O sangue está ficando mais quente, o corpo está ficando mais frio (...)
Eu não quero morrer ,então você vai ter que morrer

Onde eu vou acabar eu não sei, mas eu não eu não vou morrer sozinho
Eu continuo me perguntando se posso ser salvo pela confissão
Você vê esse sangue em minhas mãos pelo menos eu ainda poderei chegar ao céu
Eu tenho que pegar as peças, eu preciso enterrá-las fundo
E quando você olhar nos meus olhos, eu vou ser a última coisa que você vai ver

Palavras se transformam em sangue e o sangue continua vertendo
De cada pobre que limpei porque isto só poderia ser o momento
Agora alguém tem que morrer e eu sou meu único oponente
Porque eu vou ver o meu bebê chorar e vou continuar minha caminhada". (I Don't Wanna Die - Hollywood Undead)

Capítulo 74 - Ascensão e colapso


Não era parte do blefe, quando eles disseram que precisavam de pouco chakra para movimentar a armadura. Por mais amadores que fossem, isso ainda era uma boa vantagem. 

Já haviam se passado vários minutos desde que estávamos tentando passar por seus ataques. Cada centímetro de avanço, era uma vitória. 

Eles se dividiram em quatro tipos de ataques diferentes, para dificultar nosso foco. A única mulher do grupo, usava ataques com água. O mais velho e falante, optou por continuar com as estranhas espécies de “grandes agulhas”, que acabaram por matar Yaoki, minutos antes. Os outros dois, que me pareciam ser gêmeos, um usava fogo e o outro, algo que pareciam ser "mini bombas". 

Não devia ser só uma água comum, pois conseguiu deixar minha areia pesada com mais facilidade que o normal, nas três vezes que a acertou, o que fez com que eu ficasse com menos material para trabalhar, mas também me permitiu entender que ela tinha uma quantidade limitada às reservas da armadura e um intervalo de tempo a ser respeitado entre cada vez que usava esse tipo de ataque.

Pelo visto ter mudado de time e depois ter virado Kazekage, pode ter feito com que eu me afastasse das lutas com meu irmão, porém, não nos fez perder a sintonia. Ele entendeu meu recado em relação à brecha que eu havia percebido na oponente, apenas por meu olhar. 

Numa técnica shinobi muito comum, sobretudo para titereiros, ele me disse o mais simples que pode, movimentando a boca de um jeito que não condizia com o som produzido, para que os inimigos não pudessem ler seus lábios. 

— Me leve lá. 

— E a Matsuri? – Rebati preocupado. 

— Confia em mim, segura aí por cinco minutos. 

— Três, no máximo.— Determinei enfático, me esforçando para ser flexível.

Confiança nos parceiros em batalha é algo imprescindível para a vitória e evolução como shinobi. Esse foi um dos motivos de eu ter optado por uma equipe regular com Yaoki e Korobi, abandonando o trabalho em conjunto com meus irmãos, por mais que este já fosse ótimo. Uma vez que passei a considerá-los dessa forma e me permiti dar ouvidos aos meus sentimentos, criando laços em minha tentativa de redenção, confesso que começou a se tornar difícil, batalharmos lado a lado.

Vê-los em perigo, vê-los temer por mim e se colocarem em risco... Isso começou a comprometer todas as missões, desde que voltamos de Konoha. Numa última, quando Temari acabou se ferindo sério, eu passei a noite inteira pensando no assunto, o que culminou na decisão, que me levou a ter aquela épica conversa com Kankuro, no topo do prédio oficial. A conversa que fez meu irmão realmente entender o quanto eu estava disposto a mudar. Comecei a ganhar seu respeito e tudo o que posso dizer que tenho dele agora, naquele dia.

O importante nisso tudo, para o momento que se desenrolava no presente, a frente de meus olhos, era que eu estava descumprindo ali totalmente, meus aprendizados e juramentos da noite em que Temari se feriu. Eu estava no meio de um ataque combinado, com meu irmão e a mulher que esperava meu filho. No meio disso tudo, que por si só, já levava minha racionalidade embora sem dificuldade, eu havia acabado de perder um amigo, e não podia dizer que não me sentia culpado. Eu queria lutar, mas minha mente também travava uma batalha própria de espaço, entre o ódio e amor.

Me sentia sem exagero, a beira de um colapso. A batalha interna, a externa... Uma enxurrada de pensamentos... Controle...

Essa palavra ressoava pra mim a ponto de eu achar que deveria tatuá-la também. No fim, eu estava lutando muito mais do que se podia ver.     

Fiz novamente a areia se agitar numa forte tempestade, confundindo a visão dos oponentes e mantendo-os sem ação por pelo menos algum tempo, enquanto envolvia Kankuro com uma camada razoável de areia, concedendo-lhe uma armadura. 

O percebi engolir em seco, com uma expressão de dificuldade. 

— Como consegue se mover usando isso? – Me perguntou espantado. 

— Não temos tempo pra isso! – Disse rosnando estressado. – Seja lá o que vai fazer, é bom dar certo. – Completei mandando-o para baixo do chão, fazendo-o passar despercebido até ficar atrás da mulher, que tinha belos cabelos loiros, há de se admitir, porém ainda sem trazê-lo a superfície. 

Pude notar, apenas por experiência ao seu lado, e minhas habilidades de sensor, é claro, suas mais sutis linhas de chakra, saindo do chão e começando a se infiltrar na oponente, roubando para si seu controle. Só podia dizer que "senti", porque ver eu não vi. Ninguém veria. 

O problema da água estava resolvido, e ela no mínimo devia achar que chegou ao limite da armadura com esse tipo de ataque.

Boa Kankuro... 

Percebi que ele tinha intenção de tentar fazer o mesmo com os demais, ou de ir mais longe no controle da oponente, como tentar roubar o controle da armadura também. No entanto, criar a distração, controlar o avanço e defesa de Matsuri e, principalmente, sustentar a armadura nele, conduzindo-o em seu ato, mesmo com a areia especial, ainda requeria uma parcela do meu próprio chakra para poder exercer controle sobre tudo isso com precisão. 

Chakra esse que já não ia muito bem, diga-se de passagem, por todos os motivos que eu também já havia ponderado e ponderado... Eu tinha mesmo que parar, com essa mania de me martirizar em vão. Afinal, de que adiantava ficar revendo os motivos? Não tinha o que fazer e ponto.   

Puxei Kankuro de volta rápido, antes que algo me acontecesse e eu acabasse não conseguindo fazê-lo, deixando-o preso onde estava. Quando o vi seguro ao meu lado, suspirei aliviado, mas ele apenas me olhou de volta confuso.

— Eu podia ter finalizado a luta ali! – Contestou.

Senti uma dor forte na cabeça e meus joelhos fraquejaram, porém respirei fundo e resisti, mas ele pode me ver oscilar, por mais contido que eu tenha tentado ser. 

— Droga, é seu chakra não é? – Ele finalmente percebeu. Eram nessas horas que eu via o quanto Kankuro me superestimava.

Como ele pode se esquecer disso? Ele devia achar que eu era algum tipo de super herói que sempre conseguiria dar um jeito em tudo e fazer qualquer coisa ser possível. Logo eu, que desde sempre estou todo encrencado. Se existe alguém com alma de super herói, acho que esse certamente seria o Naruto, não eu. E na verdade, ele era o irmão mais velho, aquilo estava muito invertido, era eu quem o devia ver assim. Não era?  

— Só reassuma o controle dela logo, preciso desfazer esse jutsu! – Rebati já me sentindo tonto, contudo ouvi Matsuri gritar: 

— Não! Preciso me movimentar sozinha pra acertar! 

— Enlouqueceu!? – Perguntei gritando. 

— Que droga, Gaara! Confia em mim, ou vamos todos morrer aqui! Eu já os tenho em minha mira, eu juro! Só preciso que mantenha a tempestade mais alguns minutos. Pode fazer isso!? – Pediu com determinação na voz, mas eu ainda podia sentir quanta força ela fazia para acreditar em si mesma, tentando me inspirar a também ter confiança. 

Ah, Matsuri... Como consegue fazer isso comigo? 

Eu sempre dei tudo de mim para ser o shinobi perfeito. Estratégia, frieza, racionalidade, habilidade... Eu tinha tudo o que precisava em campo de batalha. Sabia tomar as decisões mais difíceis, sabia me despir do que não precisava. Eu lutei tanto pela melhor versão de mim mesmo, para atingir uma excelência como ninja... Algo que fosse além da aura de terror que meu passado ainda emanava.

Mas quando a questão era ela, tudo isso se tornava besteira. Eu só queria protegê-la e abortaria qualquer missão pra isso. 

Temari tinha razão. Abraçar o amor era abraçar a loucura e fazer dessa fraqueza sua amiga. Contudo tinha um ponto interessante de se adquirir um laço dessa magnitude. Ao mesmo tempo que é uma fraqueza ter algo tão valioso a perder, o amor é a única coisa que pode tornar um ser humano mais forte, além de todos os limites, além do impossível.

E eu estava confiando justamente nessa premissa quando estendi a braço para o lado, parando o movimento de meu irmão que não parecia disposto a atender o pedido de Matsuri. 

— Tudo bem, Kankuro. Deixe-a... — Era inacreditável a força nítida que eu estava fazendo, apenas para dizer aquelas palavras. Endireitei a postura, querendo firmar os braços, que estavam esticados, controlando a areia.

Mas quando eu achava que já havia cedido o bastante, ela me mostrou que não.

— Guarde seu chakra querido, não esquenta com a defesa. "Vamos deixar o bebê com a sua mãe hoje à noite". — Me disse com um tom quase angelical, apoiada em apenas um dos joelhos, virou o rosto para o lado, deixando-me ver seus olhos. Eles brilhavam, como se estivessem em chamas.

Eu a devolvi uma expressão confusa, lívido, diante de sua proposta.

— Você é louca!? — Perguntei de forma retórica, piscando uma dezena de vezes como se quisesse confirmar a realidade, perplexo. Ela sorriu com uma pequena risadinha, daquelas que lhe corava as bochechas e me fazia ter vontade de beijá-la.

— Vou me casar com você e ainda pergunta? – Rebateu sabiamente.

— Podia ter ficado sem essa, irmãozinho... – Kankuro não ia deixar de comentar, é claro. Nem no Inferno ele perderia uma oportunidade. 

Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, vi que Matsuri pôs uma mão sobre si mesma e a outra esticou para trás, na minha direção. Parecia que se concentrava para usar algum jutsu, um como os meus na verdade, pela posição de sua mão. Mas na verdade eu sabia o que ela estava fazendo. Rezando...

“Isso não vai dar certo, é insano”, eu pensava. “Ela precisaria ser eu, pra fazer dar certo”.

Eu a subestimei.

Eu as subestimei.

Senti a areia saindo da minha cabaça, e eu não tinha o menor controle sobre isso. Meus olhos se arregalaram e minha boca se abria em espanto, vendo a areia ir até ela e a circular, respondendo aos movimentos de suas mãos, idênticos aos meus habituais, respondendo a sua vontade.

"Mãe... Você atendeu o pedido dela, não foi?", pensei sabendo que ela poderia me "ouvir". 

Um torto sorriso quase incrédulo se abriu involuntário em meus lábios, ao conseguir sentir nitidamente seu prazer pelo poder e pelo controle. Com um simples aceno de mão, ela fez a tempestade parar, anulando meu jutsu.

— Acho que nem preciso disso. – Se gabou.

Meus joelhos enfim tocaram o chão, eu estava muito cansado. Mas ainda precisava mantê-la em cima da plataforma e dirigi-la.

— Gaara! — Kankuro exclamou preocupado e se posicionou rápido atrás de mim, me amparando.

Respirei fundo, ainda ajoelhado, recolhendo o chakra que me restava e tentando não usá-lo todo de uma vez. Fechei os olhos, me concentrando, respirando fundo, para entrar numa sintonia perfeita com ela e conseguir sentir suas intenções e movimentos, e não apenas ver, para guia-la na areia com mais precisão.

Minhas mãos se moviam, como se eu a estivesse orquestrando.

Devo ter levado alguns minutos nisso, porque Kankuro apertou e sacudiu meus ombros.          

— Abra os olhos Gaara, você precisa ver isso! Minha nossa, é a mamãe! — Nem preciso dizer, que fiz o que ele sugeriu instantaneamente.

E tive a visão mais bela de toda a minha vida até ali.

O dourado da roupa de festa, já totalmente descomposta, que ela usava, fazia um contraste perfeito com a areia que a circulava, flutuando em torno dela como se dançasse, repelindo todos os ataques oponentes.

A vontade da minha mãe... Seu chakra... Eu podia sentir como um abraço.

Matsuri também parecia dançar, combinando com o movimento da areia, se esquivando em conjunto e avançando. Eu podia ver o pavor estampado no olhar dos inimigos. Ela sozinha estava os alcançando mais rápido do que nós três trabalhando juntos. E se eu e Kankuro estávamos espantados com a visão, nem podia imaginar o que eles sentiam.

A maneira como seu corpo se movia em conjunto com areia, a forma como o tecido da roupa se ajustava em seu corpo suado a cada gesto. O jeito que o vento sacudia seus cabelos. Era lindo, divino. Tinha uma clara conotação sensual, que inicialmente eu achei que só funcionasse pra mim, porém, quando olhei ao redor, notei que não. E isso não me deixou enciumado, pelo contrário.

Pode parecer estranho, mas eu só me senti mais poderoso, orgulhoso. Não por vê-la como uma posse, e sim porque aquela mulher incrível, dona de toda aquele potencial, havia escolhido a mim e eu pude ajudá-la, pude fazer parte vital do seu caminho para a ascensão que testemunhávamos ali.

Eu jamais poderia dizer que ela me pertencia, não uma mulher como ela. Seria muita pretensão e seria subestimá-la, dizer que a controlo andando atrás de mim. Nós que lutamos com o vento, somos tão indomáveis quanto ele, impossíveis de conter. Se ela estava caminhando ao meu lado, é porque foi ela quem me escolheu, assim como escolheu lutar na minha frente naquele instante, e eu nada pude fazer para impedir. Um Kage, com todo o meu poder, e nada pude fazer para pará-la. Isso a tornava ainda mais forte do que eu.

Eu só podia me sentir honrado.  

A força e a precisão de seus atos eram tantas, que eu podia ver até seus músculos mais sutis enrijecerem. Era uma típica conterrânea de Suna dançando, exalando sua sensualidade. Era uma típica mulher da família, forte, muito forte para defender o que ama. Era o seu auge diante de meus olhos, a kunoichi que ela queria ser quando me pediu para ser seu mestre.  

Aquilo, sem dúvida... Era o seu nirvana.

Pude sentir sua certeza e excitação como se fossem minhas, estávamos todos conectados ali, então pude ter o prazer de crescer junto com ela naquele momento. Finalmente chegou até a posição exata que queria. A distância em graus perfeita para acertar.

Movimentando os dois braços ao mesmo tempo, ela criou quatro simples lanças de areia. Fiquei me perguntando se ela não devia ter criado algo menor, porém me repreendi imediatamente com um sorriso bobo no rosto.

Não sou mais seu sensei. Ela faz como quiser agora, ela é a mestra.

E num único movimento, num lançamento simples, mas digno e estiloso, no qual ela precisou dar um belo salto pra trás, Matsuri acertou os quatro alvos. Em cheio.

Pousou com perfeição na plataforma, um dos joelhos encostando com força na areia, o cabelo curto batendo no pescoço. Meus braços ainda se moviam sustentando-a, era quase dolorido suprimir meu orgulho. Ela acertou e eu e Kankuro demos um pequeno rosnado, quase um gemido de satisfação, comemorando.

As armaduras desarmaram como Kankuro previra e desabaram, seguidas por seus usuários exaustos, pelo visto não era tão simples comandar a armadura por tanto tempo, como eles fizeram parecer. Eu disse que estavam blefando...

A hesitação do momento me fez encontrar força para levantar rapidamente. Talvez eu devesse propor a Matsuri, um trabalho em conjunto como Kazekage mais tarde. Fazíamos uma bela dupla, de fato.

A coloquei no chão desfazendo o jutsu da plataforma, Kankuro em meus encalços enquanto eu caminhava a passos largos e apressados até ela, envolvendo-a pela cintura assim que a alcancei. Uma das mãos em sua nuca, puxando-a pra perto, envolvendo-a num abraço, descansando sua cabeça em meu ombro. Ela arfava puxando o ar, cansada.

Por um segundo parecia não ter mais nada nem ninguém ali. No entanto a risada de escárnio do mais velho dos quatro, se fez ressoar, me chamando de volta a realidade.

Agora que a primeira parte estava finalizada e Matsuri estava segura em meus braços, a guerra em minha mente cessou. A voz daquele homem a fez terminar.

— Ora ora, quem diria, você a treinou bem... Que cruel e engenhoso, fazer isso com uma garotinha... Pelo menos agora as esposas dos Kazekages também servem pra alguma coisa, além de esquentar a cama e terem filhos.

O ódio... Ganhou.

Segurei Matsuri quase cravando as unhas em sua carne ao lhe beijar da forma mais voraz que já havia feito, antes de lhe jogar atordoada, sem me entender, para os braços de Kankuro. 

— Você foi incrível, parabéns... Mas agora é a sua vez de descansar, "querida...". — Ótima hora parar retribuir, já que ela sempre me chama assim. 

A cada passo que eu dava para frente, em direção aos inimigos, por menor que fosse, toda a areia ao redor começava a me responder. Aquilo era ódio, em sua mais pura essência, transformado em força. 

De soslaio eu ainda podia perceber, enquanto mergulhava fundo, em queda livre na escuridão, Matsuri me observar nitidamente assustada, vendo a fúria em meus olhos, fazê-los perder o brilho, casando perfeitamente com o sorriso sádico em meus lábios, que pareciam evocar o demônio direto do Inferno.

— Gaara... — Ela murmurou meu nome esticando a mão, tentando me chamar para si. – Já chega, pode parar. A luta acabou Gaara, eles estão derrotados. Vamos levá-los para a aldeia e prendê-los. A aliança vai querer interrogá-los. – Buscava intervir. 

Era claro que ela não se importava com nada daquilo, apenas queria me parar. 

Eu ri. Somente isso. Estanquei meus passos, mas não me virei pra ela. No fundo, uma parte da minha luz ainda resistia e não queria que eles me vissem assim. 

— Não... Ninguém vai a lugar algum. – Disse com a fúria comprimida na voz e virei o rosto, apenas o suficiente para observar Yaoki inerte ainda embalado no colo de Mei. Toda sua luz, sua característica alegria... Sua vida... Extinta. A visão fez meu sangue ferver, borbulhar nas veias e eu cerrei os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos, respirando irregular. Caindo... Cada vez mais fundo na escuridão, minha consciência cada vez mais adormecia. – Eles tentam invadir minha aldeia, ameaçam a mim e a minha família, matam meu amigo e quer que eu os deixe viver? Essa é a minha casa! Que tipo de líder eu seria? Só acaba quando eu disser que acabou. E ainda não tivemos muito... Sangue. — Finalizei revirando os olhos e passando a língua nos lábios. Matsuri havia pedido um banho de sangue afinal, não é? A frase que usei com Lee, no dia em que nos enfrentamos ainda crianças, era bem apropriada, uma vez que eu estava ficando tão perdido quanto naquele dia. 

Eu não pensava racionalmente ali, isso era um fato. Mas talvez, mesmo que conseguisse fazê-lo, mesmo que por apenas um segundo, ainda fosse optar por executá-los. Não podia correr qualquer risco de eles transmitirem aos seus superiores a informação sobre Matsuri estar grávida. Seria como entregar minhas fraquezas ao inimigo. 

E também, não precisava deles para alertar a aliança, podia simplesmente convocar uma reunião ou fazer um relatório. Eu tinha crédito e respaldo suficiente agora, para que minha palavra não fosse contestada facilmente. Levá-los a Suna, nos faria correr o risco de uma fuga e de instaurar pânico desnecessário aos aldeões. E com a ameaça que eles representaram, eu tinha todo o direito de fazer isso como Kazekage. Ia um tanto quanto contra minha política “pacifista” como chamam, mas o caso era que eu tinha o direito. 

E a morte é inerente à vida de um shinobi, todos deviam aceitar e saber lidar com ela e a forma como às vezes se tornava necessária, por mais assustador que fosse encarar o contraste da vida. Eu podia ter passado a evitá-la o máximo que pudesse, depois que encontrei a luz, porém não sou inocente a ponto de acreditar que poderia passar o resto da vida sem nunca mais matar ninguém.

Principalmente sendo o Kazekage, em alguns momentos, algo assim é exatamente​ o que se espera de mim. 

No fundo, Kankuro e Matsuri sabiam disso tanto quanto eu, a questão que os fazia me olhar com aquela expressão assustada, era me verem cair de volta naquele poço escuro e solitário do qual Naruto me tirou. Era a sensação de que me perdiam a cada gesto meu. Era o susto de olharem de novo um demônio que achavam que havia morrido, e que de fato se tratava apenas de mim, contrariando o que pensaram a vida toda. 

Quer dizer... Isso não incluía Matsuri. Ela sabia antes mesmo de mim que o Shukaku colaborou muito me instigando e sendo uma grande causa, mas que era minha a loucura, o ódio... Eu me perdi, eu interpretei tudo errado, eu abracei um propósito ruim. Eu dei a mão ao Shukaku. Porém entre saber e ver, há uma longa distância. Ver é totalmente diferente. 

— Gaara, não! Por favor, não faz isso, para! — Ela esticou a mão tentando apelar para nossa conexão com o magnetismo, no entanto, oscilou cansada e foi amparada por meu irmão. 

Eu fiz um aceno com a mão para trás, afastando os dois e derrubando-os no chão com a areia. 

Encarando-a de lado, deixando-a finalmente ver um pouco do demônio em meu rosto, falei rosnando num sorriso doente. 

— Você não me chamou? Não queria um banquete? Se desistiu de ver feche os olhos, eu vou terminar isso. 

Me voltei para minha frente, vendo que esse tempo de conversa deu aos meus inimigos um descanso e eles já começavam a tentar se erguer, cambaleantes, talvez tão cansados quanto Matsuri. Permiti-me rir novamente.

— Os vilões também tem honra afinal. Querem morrer de pé? Pois que assim seja, direi que resistiram até o fim. Venham! — Abri os braços chamando-os com confiança e ansiedade.

O mais velho, era o que mais parecia estar com ódio, os outros chegavam até a demonstrar uma certa hesitação, medo mesmo, ninguém deseja de verdade morrer, não é? Sempre notava isso nos olhos das minhas vítimas em seus últimos instantes, quando liam estampado na certeza do meu rosto, que iriam morrer. Então, não deviam atentar sem motivo contra a vida dos outros. Essa sensação suja de acerto de contas, que eu senti a vida inteira, não podia ser chamada de justiça.

A verdade é que eu era um “monstro”, mas a maior parte das pessoas que matei, eram pretensos assassinos. No entanto, aprendi com o tempo, com o Naruto para ser mais exato, que isso só me igualava a eles e não resolvia nada. Só instigava a aumentar o grande ciclo de ódio que por mais uma vez, quase fez ruir o mundo shinobi e jogou homens incríveis na escuridão.

Mas isso estava enterrado no fundo do meu ser no momento. Essa lógica, esse aprendizado, meu novo eu, minha luz, meu controle... Ali fora só haviam as trevas que eu pensava já ter suprimido a muito tempo, a dor da perda, o ódio, a sede...

Eu não estava pensado, eu só estava sentindo, reagindo. Meus passos, meus gestos automáticos, enquanto minha consciência se precipitava num grande vazio.

Como eu já esperava, o mais velho fez menção de vir ao meu chamado, porém com o sinal para que os outros ficassem. Novamente com, apenas um aceno de mão, esticando-a como a Hinata costuma fazer quando usa a "palma de ar", o derrubei sobre a mulher, que eu começava a crer, ter algum tipo de ligação​ com ele, poderia ser sua filha pelos traços. Não me espantaria se os outros também fossem. – Não... – Repreendi quase paternal. – Os quatro.— Expliquei e os vi arregalar os olhos. 

Ouvi ao longe Matsuri gritar, e enquanto eu ativava no alto, discretamente, o jutsu do terceiro olho, como fiz no treinamento com Tsunade mais cedo, pude ver o desespero estampado em seu rosto. 

— Gaara, o que está fazendo? Está tentando se matar? 

— Ué, eu não tinha mesmo que treinar taijutsu? – Rebati petulante. 

Ela fez menção de correr até mim, mas Kankuro a segurou firme e a sacudiu, forçando-a a parar, virando-a para encará-lo.

— Nós cometemos um erro Matsuri, não devíamos ter despertado isso. Ele ainda não estava pronto, sua psique está ruindo, posso ver isso. Ele perdeu todo o controle. – Ele explicou num desabafo sentido e sério. – Não faço ideia do que estamos vendo ali, mas não é o Gaara. Pelo menos não, a parte que gostamos.  

— Então​ temos que trazê-lo de volta! – Ela gritou com ele e os quatro finalmente vieram até mim, a areia dançando a minha volta a cada movimento. 

— Sinto muito, mas não vou deixar que faça isso. Nem eu, nem ele, vamos nos perdoar se tiverem se machucado quando tudo isso acabar. – Ele rebateu sensato e eu dividia minha atenção entre eles e a luta. Aquela parte pura de mim, ainda que já tivesse sucumbido e não mais resistisse, se interessava por eles, do poço escuro da minha consciência onde jazia, temia por eles, e até mesmo gostaria que eles pudessem conter meu ódio. 

Contudo Kankuro tinha razão. Toda razão. 

— O que vamos fazer? – Ela perguntou quase em pânico. 

— Sabe rezar? – Ele devolveu o questionamento com outro, na clara intenção de amenizar o fato de que não havia nada que pudessem fazer. – Pois vamos fazer isso e esperar ele acabar.  

A luta recomeçou e eu fechei o sorriso debochado, passando a ficar sério e compenetrado, como uma máquina. Era quase como lutar de olhos fechados, mal calculava meus movimentos, contrário ao meu habitual, eu não estava na defesa. Eu avançava, trabalhando em conjunto com a areia, que dançava leve como se fosse fumaça, aos olhos dos expectadores.

Eles podiam ser quatro, mas o treinamento de mais cedo havia me dado muito mais trabalho do que aquilo. Como era de se esperar, aqueles que lutam utilizando instrumentos como armas, marionetes, jutsus defensivos ou de longo alcance, costumam ter uma fraqueza considerável em taijutsu. Algo que na aldeia da Areia, eu vinha tentando superar. Talvez, meus oponentes devessem ter pensado no mesmo.

Que azar o deles, não é?  

Parecia um massacre e eu estava morbidamente adorando aquilo, sentir meu punho se chocar contra suas faces, descarregar minha fúria, sentir o sangue deles que fez ou outra espirrava em minha pele...

O fato, era que uma das primeiras lições ninja que aprendi, e que estava impregnado em todo meu estilo de luta, é que o corpo de um shinobi continua sendo fonte de informação e poder mesmo depois de morto. Então, matá-los não seria o fim do problema, eu tinha de me certificar de que não caíssem em mãos erradas. E eu tinha diversos jutsus que os reduziriam à mera lembrança, no entanto, eu não tinha mais chakra suficiente para utilizar nenhum deles. Só que não podia deixa-los acreditar nisso, ou estaríamos todos mortos em minutos, caso eles conseguissem reativar a armadura de alguma forma.

Mas isso era uma sabedoria que eu não conseguia acessar no momento.

Ali eu só me importava em brincar com as presas o máximo que pudesse antes de ceifar suas vidas. "Droga, alguém me acorda... No fundo, eu não quero mesmo, fazer isso".

— Ah, meu irmão... – Kankuro deixou escapar uma súplica baixa e sentida, enquanto envolvia Matsuri num abraço, confortando-a e protegendo do frio da noite. – Mãe, onde está a senhora? Não o deixe continuar com isso!

Parei meus movimentos e me afastei um pouco dos oponentes, subitamente. Cruzei os braços e abri um sorriso. Na realidade, eu mal os estava enxergando. Estava fraco, apenas o ódio me mantinha de pé. Isso e um restinho de chakra que eu pretendia usar agora.

Durante a luta eu tive o cuidado de espalhar e impregnar por partes estratégicas de seus corpos, uma camada fina de areia, como se fosse uma versão sutil, quase imperceptível, da armadura.

Ao me ver parado os quatro tentaram correr juntos até mim, mas não conseguiram se quer dar o primeiro passo. Fechei uma das mãos fazendo a areia comprimir, dando início ao meu controle.

— Vão sentir uma pressão. – Disse debochado em tom médico. – Não se preocupem com ela, isso é leve. – Continuei contraditório a eles se curvando, de joelhos na areia, gemendo de dor. – O melhor vem depois...

— Ele vai torturá-los? – Matsuri perguntou a Kankuro, chocada. Ele apenas assentiu com a cabeça, apertando-a mais contra si, como se quisesse evitar que fugisse. – PARA! – Ela insistia em gritar pra mim, podia sentir o choro em sua voz.

Compreensível. Devia estar mesmo, sendo uma visão horrível.

Comecei mexendo sutilmente meus dedos e a cada vez que o fazia, quebrava um dos meus oponentes. Lentamente...

Parti para os braços, os pés... Os gritos de dor, ressoando como música aos meus ouvidos. Fiz menção de mexer o pescoço e os vi fazer uma expressão de alívio. Então recomecei a rir, deixando-os perceber que eu estava só jogando o tempo todo.

— Só nos mate de uma vez! – Um deles gritou. Tornei a lamber os lábios, respirando fundo, apreciando o prazer de vê-los implorar.

— Sabem... O que vocês fizeram foi muito ruim... – Me referia morte de Yaoki, com cinismo na voz. – E ainda está doendo muito. Então acho que não sofreram o suficiente! – Bradei rosnando, estava pronto para continuar, porém senti algo me parar, me envolvendo como um manto quente de força e assumir o controle do meu corpo.

Me jogou no chão de joelhos dobrados, fincou minhas duas mãos por dentro da areia. Um chakra passava por mim, como se eu fosse um filtro, ou melhor, um condutor. Os quatro começaram a ser envolvidos numa areia brilhante e foram dragados para dentro do chão, eu podia senti-los descendo metro por metro, cada vez mais fundo, até que pararam e minhas mãos se fecharam na areia, executando o sabaku taisou, criando uma pressão sobre a qual nada seria capaz de sobreviver ou de ser achada inteira novamente, depois.

Pó de ouro?               

Minhas mãos foram puxadas para fora da areia e senti aquele controle, aumentar, tomando outras funções do meu corpo, que caminhava sem meu comando até onde estavam Kankuro e Matsuri, ambos com os olhos marejados.

— Pai? — Kankuro perguntou, nitidamente emocionado.

— Você podia ter dado um jeito nisso sozinho. Tem que parar de se ver "atrás" do seu irmão, ou jamais conseguirá segurá-lo. – Aquela não era minha voz... Eu me sentia uma marionete.

— Bom te ver também, pai... – Kankuro rebateu petulante, com seu pequeno sorriso de lado, tentando conter e disfarçar o quanto ficara feliz em vê-lo.

Minhas duas mãos, agora emprestadas, seguraram o rosto de Matsuri, erguendo-o.

— Tão parecidas... Fico feliz que ele tenha encontrado alguém assim.

Ela afastou as “minhas mãos” de si, a expressão fechada num misto de raiva e repulsa ao compreender a situação, e desferiu um tapa que me fez sentir meu rosto inteiro esquentar. Isso ficaria horrível no dia seguinte.  

— Está atrasado, sogro... Uns vinte anos atrasado pra ser pai. Tem tanta coisa que eu queria dizer, eu quis tanto essa oportunidade... Mas quer saber? Não importa agora. – Disparou altiva e Kankuro a puxou para si, afastando-a.

— Está louca mulher!? O que está fazendo? – Meu irmão lhe repreendeu.

— Pouco! Eu estou fazendo pouco! Chega de conversa, trás o Gaara de volta! Ele está bem? – Matsuri exigia.

Ele riu. Não uma risada maléfica como a que eu ostentava momentos antes, e sim um riso sincero, alisando o rosto.

— São realmente muito parecidas. Vou deixá-lo em boa mãos, então.

— Não pai, espera! – Kankuro tentou chama-lo, obviamente aquilo era muito pouco para ele. Porém eu senti o controle sobre mim me deixar, desbando meu corpo nos braços de Matsuri.

Ela me amparou com firmeza, acariciou meu cabelo, ajeitando-o, beijou a marca em minha testa, sorrindo aliviada, meus olhos pesados, quase se fechavam.

— Que bom que voltou, eu quase morri de medo.

— Desculpa... – Murmurei com minhas últimas forças e assim como da primeira vez que me ouviu dizer isso, logo após a luta com Naruto, meu irmão me pegou colo, enquanto Matsuri me separava da cabaça, e disse:

— Não se preocupe com isso agora.

 Korobi se aproximou correndo e passou Yumi para os braços de Matsuri, encarregando-se da cabaça. Meu irmão caminhava comigo até onde estava a Salamandra, uma de suas maiores marionetes, e a abriu indicando a Mei que entrasse com Yaoki.

Meus olhos se pousaram novamente, sobre o corpo do meu amigo inerte.

Tudo aquilo, toda aquela vingança, aquele ódio... Para que? Nada o trouxe de volta.

Yaoki... Eu sinto muito...

Comecei a chorar, soluçava. Kankuro “escondeu” meu rosto, segurando-o firme junto a si, me impedindo de ser masoquista e continuar olhando.

— Chora, pode chorar meu irmão. Faz isso até cansar, deixa que eu levo a gente pra casa.

Eu teria dito obrigado, mas até para isso, a força me faltou. Então apenas demonstrei minha gratidão, me aconchegando em seus braços, indicando que aceitava seu carinho, afogando-me em minha dor, até naturalmente adormecer exausto, vazio.


Notas Finais


Espero que tenham gostado e aguardo vocês nas reviews. Como sempre, espero que nosso próximo encontro seja breve, bem breve.
Beijos no coração meu povo! ♥


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