História O Vigia - Capítulo 10


Escrita por: ~

Postado
Categorias A Feia Mais Bela
Exibições 243
Palavras 5.033
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


BOM DIA! Não sou muito de postar capítulos pela manhã, mas esse era para ter sido postado ontem a noite, por isso resolvi coloca-lo agora. Não respondi aos comentários do capítulo anterior para evitar que eu dê a vocês algum grande Spoiler, mas agradeço por todos!

Capítulo 10 - Dear John


“I'm shining like fireworks

Over your sad empty town”

 

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2015.

 

- Você tem certeza que é melhor não fazer Peru? – Perguntou Letícia pela terceira vez.

- Sim eu tenho. Não vamos conseguir termina-lo até a noite e se conseguirmos provavelmente não vai prestar. É melhor procurarmos por algo mais simples.

- Por exemplo?

- Frango. Todo mundo gosta de frango.

- Mas frango no natal? Frango é comida de domingo.

- Em que você pensou? Além do Peru é claro.

- Que tal um porquinho?

- Porquinho? – Perguntei confuso.

- A gente pode colocar a maçã na boca dele e tudo mais.

- Eu acho isso meio macabro.

- Então o que você acha? Estamos nesse supermercado há quase uma hora e não colocamos na no nosso carrinho.

Eu realmente não tinha ideia, sempre passei os natais com os meus pais e por isso nunca tive o trabalho de preparar uma ceia, mas dessa vez eles viajariam e eu ficaria com Carolina, Letícia e sua família. Como eles chegariam após as seis da tarde nos dois ficamos encarregados de preparar tudo.

- Você confia em mim? – Perguntei. Letícia estava ansiosa e havia dito que faria até o impossível para que aquele jantar saísse perfeito.

- É claro que. – Respondeu segurando minha mão.

- Então deixe que eu cuide da comida e você fica com a parte da bebida e da decoração.

- Mas...

- Sem “mas”. – Falei interrompendo-a. – Seus pais são alérgicos a alguma coisa?

- Não que eu saiba.

- Ótimo.

Separei-me de Letícia no supermercado, pois já não aguentava ouvi-la questionar cada coisa que eu colocava em nosso carrinho. “Para que isso? O que você vai fazer com isso? Tem certeza que aquela outra marca não é melhor?”.  Não queria discutir com ela por isso achei melhor sugerir que Letícia fosse olhar algo para usarmos de decoração em sua casa, já que nem a árvore de natal havia sido montada.

- Já terminou? – Perguntou ela assim que cheguei ao corredor onde ela estava.

- Sim. Já tenho tudo o que eu preciso. E você?

- Acho que vou deixar os vinhos por conta do meu pai, mas peguei vários enfeites. – Falou apontando para o seu carrinho.

- Provavelmente até demais. – Brinquei.

Quando terminamos as compras tivemos certa dificuldade em fazer com que tudo coubesse dentro do porta-malas e mesmo com diversas “manobras” colocamos algumas sacolas no banco de trás.

- Agora vamos para casa e começar a arrumar as coisas. – Falei acelerando o carro.

- Nada disso. – Disse Letícia. – Agora vamos comprar os presentes.

- Presentes?

- Sim! Vai me dizer que não vai dar nada seus pais e a Carolina?

- Bem eu... É tem razão. Mas como vamos comprar presentes um para o outro se estamos perto? Assim perde a graça.

- Tenho certeza que encontraremos um jeito de esconder. – Respondeu.

Andamos em diversas lojas, mas devido ao grande movimento estava difícil olhar qualquer coisa. Com muito custo acabei encontrando algo que agradaria meus pais, agora era a vez de Letícia e Carolina, para a minha sorte entramos na loja perfeita.

- Para quem falta ainda? – Perguntou ela.

- Não posso dizer se não você vai acabar descobrindo qual é o seu presente. – Respondi.

Letícia suspirou impaciente, ela era extremamente curiosa. Mesmo escondendo todos os embrulhos dela, ela sempre fazia de tudo para bisbilhotar, fazer uma surpresa para Letícia devia ser praticamente impossível.

Caminhei para o outro lado da loja onde havia algumas coisas que me chamaram atenção. Logo encontrei o presente ideal para Carolina, mas ainda estava em duvida quanto ao de Letícia. Olhei para aqueles dois pequenos objetos em minhas mãos e a olhei de longe na esperança de que isso me desse à resposta de qual das duas coisas a agradaria mais. No entendo meus pensamentos foram interrompidos ao ver um jovem se aproximar de Letícia, ele encostou-se a seus ombros e ela se afastou rapidamente assustada. Aquela cena estava estranha e eu não poderia ficar ali parado apenas assistindo.

- Eu não tenho nada para falar com você. – Pude ouvir Letícia dizer quando me aproximei.

- Por favor, Lety. Já se passaram quatro anos, eu não acredito que você ainda esta chateada. – Disse o homem.

- Algum problema? – Perguntei interrompendo-os.

- Não é da sua conta, cara. – Falou. – Somos amigos e estamos apenas conversando.

- Eu não sua amiga. – Respondeu Letícia entrelaçando seu barco no meu. – E o que quer que você queira dizer eu prefiro que diga na frente do meu namorado. – Completou e eu sorri vitorioso. Era a primeira vez que ele dizia a alguém que estávamos namorando e ouvir isso despertou em mim uma sensação maravilhosa.

- Você esta namorando esse cara? – Perguntou o rapaz em meio a uma risada debochada. – Não acha que ele é um pouco mais velho que você?

- Ele tem maturidade, ao contrario de muitos. Felizmente temos muito que fazer então não podemos ficar aqui vendo você defecar pela boca. Com licença. – Pediu puxando-me em direção ao caixa. Eu a olhei surpreso, nunca pensei em ouvir algo parecido sendo sito por Letícia.

- Depois eu te explico... Isso. Vamos pagar logo e sair dessa loja. – Pediu. E eu apenas assenti.

...

Letícia ficou em silêncio durante todo o caminho e aquilo havia me perturbado. Gostaria de ter puxado um assunto, mas ao mesmo tempo eu não tinha ideia do que deveria dizer, por isso preferi deixar as coisas como estavam, pois sabia que quando ela estivesse preparada, ela me procuraria para conversarmos.

Assim que chegamos guardamos as compras juntos, também em silêncio, aquilo já estava passando dos limites e eu não me seguraria nem mais um minuto.

- Podemos conversar? – Pedi. Ela apenas assentiu e caminhou em silêncio em direção à sala e eu a acompanhei. Letícia se sentou no sofá e me sentei ao seu lado.

- Lembra-se da breve conversa que tivemos sobre o meu ex? – Perguntou. E sim, eu me lembrava claramente. 

“16 dias atrás:

– Posso te perguntar uma coisa? – Pedi. E ela apenas afirmou que sim. – Por que o seu pai não gostava do seu ex-namorado? – Letícia deu um pequeno sorriso e encarou o tapete.

- Digamos que meu pai nunca confiou nele, e me avisou diversas vezes sobre isso, mas eu era muito nova. Tinha a idade de Carolina. Acabei não ouvindo. E acredite eu deveria. Meus pais viram o quanto eu sofri com o termino e tem medo de que eu tenha uma recaída, mas acredite. Isso nunca vai acontecer.

- E por que vocês terminaram? – Perguntei afinal ela não havia explicado nada direito.

- Na verdade, eu não quero falar sobre isso, pelo menos não agora. Você não vai ficar chateado não é?

- Claro que não. – Respondi para tranquiliza-la. Eu não estava chateado, apenas curioso.”

- Sim, eu me lembro.

- Esse cara que vimos hoje é o meu ex-namorado. O nome dele é John.

- Oh. – Falei surpreso, apesar de me lembrar da nossa conversa sobre ele, esse não era um assunto que eu havia pensado. Saber dos antigos relacionamentos de Letícia era algo que me deixava desconfortado, mas necessários, pois ela já conhecia o meu passado muito bem. – Ele queria conversar com você? – Perguntei.

- Ele só queria me irritar. Não temos e nem nunca teremos nada para conversar. – Respondeu. – De qualquer forma, acho que chegou a hora de te contar o que aconteceu. Afinal, estamos aqui e agora por causa disso. – Falou apertando a minha mão.

- O que você quer dizer? – Perguntei confuso.

- Se meu pai não odiasse tanto o John ele não teria te contratado e continuaríamos apenas vizinhos.

- Então deveríamos agradecê-lo?

- De jeito nenhum! – Respondeu Letícia rindo, algo que não a vi fazer desde o encontro com o tal do John. – Enfim, continuando... Como contei antes, eu tinha 19 anos quando comecei a namorar com o John, nos conhecemos em um show de uma banda local ele era engraçado, charmoso e eu estava solteira desde que nasci... Acabei me apaixonando. Tudo estava indo bem, exceto pelo fato de que o meu pai nunca gostou dele, mas eu estava feliz e não quis ouvir ninguém. – Letícia me olhou e ficou em silêncio por alguns segundos, fiquei me questionando se eu deveria dizer algo, mas antes que o fizesse ela soltou um longo suspiro e continuou. – Nos estávamos juntos há alguns meses e em uma noite, John preparou um jantar romântico na casa dele tudo ia bem ate que eu disse a ele que ainda não estava pronta para dormir com ele. No outro dia ele havia desaparecido, não atendia minhas ligações, não respondia as minhas mensagens e não estava em casa. Eu fiquei desesperada e me culpando por um bom tempo por ter estrago tudo. Passei as férias esperando por noticias dele, mas isso não aconteceu. Voltei para a faculdade disposta a esquecê-lo o que por sorte eu rapidamente consegui, mas meu pai não.

- Seu pai deveria ter quebrado a cara dele, esse cara é um imbecil.

- Na verdade ele quebrou.

- O que?

- Minha mãe me contou que o meu pai viu o John em um restaurante e acabou entrando em uma briga com ele. - A olhei boquiaberto, não conseguia imaginar senhor Erasmo se envolvendo em uma briga, ainda mais em publico. 

- Acha que eu devo me preocupar? – Perguntei, afinal aquela era a grande noite onde assumiríamos o nosso relacionamento para os seus pais, e eu não queria apanhar no natal.

- Não, você não é ele. – Respondeu ela puxando-me para um beijo.

- Esse tal de John é um idiota que não merecia nem se quer ter te conhecido. – Falei.

- Eu sei, mas todo mundo se dá mal algumas vezes antes de encontrar a pessoa certa.

- Eu que o diga. – Falei, dessa roubando dela um rápido beijo, que por mim duraria horas se tivéssemos tempo. – Eu adoraria continuar aqui no sofá fazendo isso, mas tenho uma ceia para preparar e você uma casa para decorar. – Levantei-me do sofá e ajudei Letícia a fazer o mesmo. – Não quero que os meus sogros tenham uma má primeira impressão da minha pessoa.

- Fala isso de novo. – Pediu.

- Minha pessoa?

- Não, antes disso. – Pediu entrelaçando suas mãos no meu pescoço.

- Meus sogros?

- Por que isso soa tão sexy quando você diz?

- É por causa do meu charme. – Brinquei beijando-a novamente.

...

Resolvi preparar três tipos diferentes de carne, sei que não éramos muitos, mas estava disposto a tentar agradar a todos. Preparei também diversas saladas e três sobremesas. Terminei mais tarde do que o esperado, pois tive que ir até onde Letícia estava várias vezes após ouvir altos barulhos, ela sempre caia ou derrubava algo, era como uma criança que havia acabado de aprender a andar, quando nos descuidávamos dela por um segundo a casa estava no chão. Apesar dos contra tempos conseguimos finalizar tudo antes das seis, tomamos um banho e seguimos em direção ao aeroporto.

Letícia seguiu para a parte de voos internacionais para se encontrar com seus pais e eu para a parte dos nacionais para buscar Carolina. Estava morrendo de saudade, apesar de conversarmos todos os dias eu não via a hora de poder abraça-la novamente. Tanta coisa havia acontecido depois de sua viagem que eu mal podia esperar para contá-la tudo e torcia para que ela entendesse e apoiasse o meu relacionamento com Letícia.

Estava sentado me mexendo impaciente naquela cadeira, até que avistei Carolina a qual sorriu a me ver. Uma sensação maravilhosa tomou conta de mim e eu não consegui me controlar e corri em sua direção para abraça-la, um abraço forte e demorado para compensar todas as semanas, dias e horas que ficamos longe um do outro.

- Eu estava morrendo de saudade! – Falei beijando seu rosto.

- Eu também papai! Eu também!

- Onde esta sua amiga? – Perguntei.

- Ela vai ficar por lá mais alguns dias.

- Não vai passar o natal com os pais?

- Ela não é como eu, ela não se importa com essas coisas.

- Estou feliz que você se importe.

- Não aguentava mais nenhum dia sem te ver. – Falou Carolina, o que me obrigou a querer abraça-la novamente. – Me conta o que fez nesses dias? Quero detalhes! – Pediu.

- Você não tem nem ideia. – Respondi.

Como o voo dos pais de Letícia ainda não havia chegado. Sentei-me com Carolina em uma das lanchonetes do aeroporto e comecei a narrar para ela tudo o que havia acontecido naqueles dias, inclusive as coisas que omite quando conversamos por telefone. Eu queria que Carolina soubesse cada detalhe na esperança de que ela compreendesse melhor. Carolina estava seria enquanto ouvia a minha narração e aquilo já estava me deixando preocupado.

- E é isso. – Falei finalizando aquela conversa. – Você esta com raiva? – Perguntei ao notar sua reação. É claro que eu não esperava que Carolina saísse por ai pulando de felicidade porque eu havia me separado de sua mãe e já estava com uma nova namorada, mas pensei que ela teria uma boa reação.

- Não é raiva. Só estou surpresa... Eu não pensei que o senhor fosse seguir em frente tão rápido. Eu sei a minha mãe já tem outro cara, mas... Você realmente acha que vai dar certo com a Letícia? Eu não quero vê-lo magoado novamente, sua felicidade é importante para mim mais do que tudo.

- Eu sei. – Falei beijando sua mão. – E acredite eu estou feliz, com Letícia eu me sento bem de um jeito que eu já não me sentia há muito tempo. Eu estou feliz e espero que você fique feliz por mim.

- Ficarei. Só preciso me adaptar a tudo isso. Só quero que saiba que sempre te apoiarei.

- Obrigado! – Respondi.

- Já sabe como vai falar para os pais dela? Pelo pouco que eu conheço o Senhor Erasmo ele não é nada fácil.

- Eu sei, eu estou aterrorizado. – Confessei. – Falando em aterrorizado tem algo que eu me esqueci de te contar. – Carolina me encarou curiosa. – Eu tenho um cachorro agora, o nome dele é Forrest.

- O QUE?

...

Recebi uma mensagem de Letícia avisando que seus pais já haviam chegado e que eles nos esperariam no estacionamento, eu e Carolina nos apressamos. Não podia me atrasar e faria de tudo para agradá-los. Quando chegamos os vimos parados próximos ao carro, os dois sorriram quando me viram e eu também sorri, mas foi de alivio.

- Senhor Erasmo. – Falei cumprimentando-o com um aperto de mão. – Dona Julieta. – Disse abraçando-a e beijando-a no rosto. – Como foram de viagem?

- Maravilhoso! – Respondeu Dona Julieta.

- Sim foi muito bom. – Concordou senhor Erasmo. – Mas não víamos a hora de voltar para ver a nossa filha. – Completou colocando as mãos no ombro de Letícia. – Como ela se comportou?

- Bem, muito bem. – Respondi e pude notar que Carolina me olhava de forma divertida.

- Não deixou que ela se aproximasse de nenhum rapaz não é? – Perguntou senhor Erasmo fazendo com que a minha garganta se secasse rapidamente.

- Não, não. É claro que não. – Menti.

- Ainda bem!

- Letícia nos contou que o senhor se divorciou da sua esposa, eu sinto muito. – Disse Dona Julieta.

- Não sinta. – Falei. – Nosso relacionamento não estava dando certo há muito tempo. Divorciar-me dela foi provavelmente a melhor coisa que me aconteceu esse ano... Quer dizer a segunda melhor. – Corrigi após notar que Letícia havia me lançado um olhar intimidador.

- Sendo assim, ficamos felizes por você. – Falou senhor Erasmo e eu apenas assenti agradecendo. – Vamos logo, já são quase oito horas e Letícia me disse que tem uma ceia quase pronta esperando por nos.

Aprecei-me e abri a porta do carro para as meninas, Erasmo veio na frente comigo. Durante o caminho todo ouvimos historias sobre as viagens de Erasmo e Julieta e Carolina, mas aquela conversa agradável foi interrompida pelo telefone de Carolina.

- Não vai atender? – Perguntei.

- Eu não sei... É a minha mãe.

- Atende! – Disse Dona Julieta. – Ela deve querer te desejar feliz natal. – Eu duvidava muito que o motivo da ligação de Márcia fosse esse, mas concordava com o fato de que Carolina deveria atendê-la.

- A dona Julieta tem razão. – Falei. E isso fez com que Carolina tomasse coragem para atender ao celular.

- Alô? Sim, eu já cheguei. – Disse ela. Todos no carro estavam em silêncio para ouvir melhor aquela conversa. – Bom eu não sei... Vou ver com o meu pai. Ligo mais tarde. Tchau. – A conversa foi curta e de certa forma eu ficava feliz por isso, sabia que era errado não querer que Carolina tivesse muito contato com a mãe dela, mas sabia que Márcia não seria boa influência. – Ela quer que eu passe no apartamento dela mais tarde.

- Tudo bem, quando você quiser eu levo você. – Falei.

- Eu não vou demorar só vou deseja-la feliz natal. – Explicou Carolina. Era triste vê-la dessa forma, tentando escolher um lado.

- Seu pai é um bom cozinheiro? – Perguntou senhor Erasmo mudando de assunto e eu o agradeci mentalmente por isso.

- Ele é o melhor. – Respondeu Carol.

- Concorda com isso Lety? – Questionou.

- Sim papai, aparentemente Fernando é bom em tudo que faz. – Respondeu Letícia o que me fez arregalar os olhos. Por sorte eu e Carolina aparentemente havíamos sido os únicos ao ver um duplo sentido naquela frase.

Assim que chegamos à casa deles eu me encaminhei para a cozinha, precisava terminar logo aquele jantar pois o senhor Erasmo já havia reclamado algumas vezes sobre o quanto estava com fome.

- Precisa de ajuda? – Perguntou Dona Julieta entrando na cozinha.

- Não se preocupe, a senhora deve estar cansada da viagem. Deixa que eu cuide disso sozinho.

- Não seja bobo Fernando. Eu amo cozinhar, juntos terminaremos isso mais rápido e o meu marido já reclamou de fome, não vai querer que seu sogro esteja irritado quando for conta-lo sobre vocês dois, não é? – Eu engoli em seco. Dona Julieta já sabia de tudo, ou poderia estar apenas fazendo uma brincadeira comigo o que definitivamente deixava as coisas ainda mais difíceis, eu não sabia o que dizer ou como reagir, entrei em transe e não parava de encara-la. – Esta tudo bem, Letícia me contou em uma de nossas conversas por telefone. Quero que saiba que vocês têm o meu total apoio e não se preocupe quanto ao Erasmo, ele pode estranhar de inicio, mas sabe que você é um bom homem e fará a filha dele feliz.

- Obrigado, Dona Julieta. Fazer Letícia feliz é a minha prioridade.

- Fico contende em ouvir isso. Agora acho melhor terminarmos essa ceia antes que o ano novo chegue. 

...

Eles tinham uma tradição diferente, a ceia de natal não era servida ás 00h, mas sim a sobremesa o motivo nenhum dos dois soube explicar, era apenas algo feito pela família deles durante gerações e ninguém nunca procurou mudá-lo ou questioná-lo. Para a minha sorte todos pareciam ter apreciado o jantar e o Senhor Erasmo me elogiou tantas vezes que eu estava começando a ficar mal acostumado.

Assim que terminamos de comer Letícia e eu recolhemos tudo, e fui levar Carolina até o novo apartamento de Márcia.

- Você me liga quando quiser embora? – Perguntei.

- Não! – Respondeu apressada. – Pode me esperar aqui, eu não vou demorar.

- Tem certeza?

- Sim, ainda não estou no clima de ter conversas longas com ela. Eu prometo que não vou demorar. – Falou abrindo a porta do carro. Carolina saiu e acenou para mim assim que chegou à entrada no prédio.

Liguei o radio e procurei por uma boa radio para ouvir enquanto esperava por ela. Os minutos se passavam devagar, mas quando peguei o meu celular para ver as horas não pude evitar em sorrir, como descanso de tela estava uma foto minha e de Letícia tirada no primeiro jantar que tivemos juntos como um verdadeiro casal há alguns dias atrás. O garçom foi quem tirou várias de uma vez só, mas aquela era a minha preferida, pois havia saído de forma espontânea, passei um bom tempo admirando aquela foto e só fui despertado com uma batida no vidro do carro. Era Carolina.

- Vamos? – Perguntou assim que entrou.

- Como foi? – Falei ignorando sua pressa.

- Bem, ela só queria me dar isso. – Respondeu apontando para um embrulho de presente.

- Vocês não conversaram?

- Sim, mas não tinha muito que falar já que ela estava em um jantar com o amante.

- Tecnicamente ele não é o amante mais porque...

- Não tenta defender ela pai.

- Não estou defendendo. Eu sei que o que ela fez foi errado, mas ela continua sendo sua mãe. Você não precisa odia-la por minha causa.

- Eu não a odeio. Só vai levar um tempo para que eu a perdoe. Não sou como você pai, não consigo ver sempre o melhor nas pessoas.

- Mas eu não sou assim...

- Acredite você é. Seu otimismo cego faz com que você seja ingênuo e algumas vezes isso é uma coisa ruim, porque as pessoas podem querer tirar vantagem disso.

- Ninguém nunca fez isso.

- Espero que continue assim, eu não suportaria se algo acontecesse com você.

- Por que esta dizendo essas coisas?

- Eu não sei. – Respondeu em meio a um sorriso frouxo. – Acho melhor irmos embora, esta na hora das entregas dos presentes. O senhor comprou algo para mim?

- É claro que sim! E tenho certeza que você vai amar. – Respondi acelerando o carro.

...

Ao abrir a porta da casa deles me surpreendi com Forrest pulando no meu colo. Letícia havia o buscado para alimenta-lo. Carolina ficou encantada com ele e não parava de dizer a dona Julieta o quanto ela quis um cachorro desde criança, mas nunca pode ter por minha culpa.

Outra parte do ritual do natal dos Padilhas era que os presentes deveriam ser abertos ás 23h. Seguimos em direção à sala onde todos os embrulhos se encontravam abaixo da árvore de natal que havia sido decorada por Letícia naquela manhã, mas antes que começássemos a troca de presentes fomos interrompidos pelo barulho da campainha. Levantei-me para atendê-la, era Omar.

- Oi! – Falei surpreso em vê-lo.

- E ai cara! – Disse Omar abraçando-me. – Você está muito ocupado?

- Eu diria que sim. – Respondi olhando em direção à sala onde todos nos encaravam com atenção.

- Queria chamar você e a Letícia para irmos a um barzinho.

- Você sabe que hoje é natal, certo?

- Sim, claro. É que a minha mãe viajou para a casa da irmã dela e o meu pai saiu pela manhã e ainda não voltou. – Explicou. Aquilo me deixou desconfortável, eu sabia que a família do Omar era totalmente desunida, mas jamais imaginei que eles nem se quer importassem em passar uma ocasião como essa ao lado do filho.

- Por que você não se junta a nos? – Sugeri. Eu sabia que aquela não era a minha casa, no entanto não podia deixar que Omar passasse uma noite como essa perambulando sozinho na rua. Ele tinha mudado e precisava de um apoio para que continuasse assim.

- Eu posso? – Perguntou. E novamente olhei para todos na sala, Julieta e senhor Erasmo apenas sorriram e assentiram com um meneio de cabeça.

- É claro! – Respondi puxando-o para dentro e o conduzindo até a sala.

Não seria constrangedor Omar participar da nossa troca de presentes já que eu havia comprado algo para ele. Achei que fosse uma boa forma de agradecer pelas coisas que mesmo algumas vezes erradas, ele havia feito por mim.

- Eu começo! – Falou Carolina dando um pulo do sofá. – Eu não tinha muito dinheiro por isso comprei apenas algumas lembrancinhas da cidade onde eu estava. Espero que gostem. Para Dona Julieta Carolina havia comprado um vaso o qual tinha o estilo parecido com alguns que enfeitavam a sua cara. Senhor Erasmo um relógio, Letícia um perfume e eu uma carteira.

- Agora é a nossa vez. – Disse senhor Erasmo. Julieta se levantou e separou os presentes que seriam entregues. Omar não ficou de fora dessa vez e senhor Erasmo deu a ele o mesmo que deu a mim, um vinho caro vindo direto da Itália. A próxima foi Letícia, que acertou em cheio no presente de todo mundo, principalmente os meus. Ela havia me dado três livros que faltavam em minha coleção do Stephen King e um novo DVD do Forrest Gump, para compensar o estrago que Forrest havia feito no antigo.

- Muito obrigado. – Falei abraçando-a. – Você acertou em cheio.

- Tem mais uma coisa, mas eu pretendo mostrar para você em breve. – Sussurrou no meu ouvido durante o nosso abraço.

- Mal posso esperar. – Respondi soltando-me dela e pude notar que o senhor Erasmo já nos olhava desconfiado. – Agora é a minha vez. – Falei. Comecei entregando o de Omar, era um CD de sua banda preferida, depois foi à vez de Senhor Erasmo e Dona Julieta, Letícia foi quem me ajudou a escolher esses dois, por isso não me surpreendi ao ver o quanto eles gostaram. Mais um ponto com os sogros. Para Carolina, eu dei um envelope com dinheiro, pois sabia muito bem que esse era o tipo preferido de presente dela. E por ultimo, foi a vez de Letícia. – Espero que você goste. – Disse entregando-a.

Letícia sorriu e começou a abrir aquele embrulho desajeitadamente, logo ela se livrou do papel e segurou a caixa de veludo em suas mãos. Todos a encaravam atentamente.

- Oh meu Deus, esse é o...

- Sim, eu vi você “namorando” ele na internet e acabei encontrando-o por acaso.

- É lindo! Pode colocar para mim? – Pediu.

- Claro! – Letícia se virou segurando seus longos cabelos em um rabo e eu abotoei aquele delicado colar o qual combinava perfeitamente com ela.

- Obrigada! – Falou abraçando-me novamente. A cada hora que se passava era mais difícil esconder meu relacionamento de Letícia, o único naquela sala que ainda não sabia sobre isso era o Senhor Erasmo e nossa conversa não poderia passar daquela noite. Ouvimos um raspar de garganta e rapidamente nos separamos. Era ele.

- Acho que já podemos comer as sobremesas. – Disse Erasmo.

- Sim, sim. – Respondi. Vou busca-las.

Fui em direção à cozinha, acompanhado de Carolina e Dona Julieta.

- Parecem estar deliciosas. – Disse Dona Julieta segurando uma das três sobremesas.

- Obrigado. – Respondi lisonjeado. – Droga! – Falei assim que olhei para uma delas. – Esqueci de colocar a cobertura. – Expliquei apontando para os brownies com sorvete.

- Não se preocupe. Temos uma na dispensa é só pegar. – Falou Dona Julieta. Enquanto isso eu e Carolina vamos levando as outras duas, tudo bem?

- Sim!

- Fique a vontade.

- Obrigado. – Como havia passado muito tempo na casa deles eu já estava mais do que a vontade. Entrei na dispensa e comecei a procurar pela cobertura o que não foi muito fácil. Ela estava cheia e bastante desorganizada.

- Olá. – Falou Letícia me abraçando por trás. – Procurando por isso?- Perguntou entregando-me o frasquinho com a cobertura.

- Sim. Obrigado. - Ela sorriu e me surpreendeu puxando-me para um beijo. – Seus pais estão na outra sala. – Falei preocupado.

- Exatamente. – Respondeu ela destruindo beijos no meu pescoço. – Eles estão na sala e não aqui.

- Eu não sei. – Disse já um pouco ofegante.

- Relaxa. – Pediu Letícia me dando um selinho. – Hoje nem tivemos tempo para isso, estou com saudades.

- Eu também, mas...

- Mas nada. – Interrompeu-me puxando para mais perto. Ao sentir nossos corpos colados todo o medo e controle que eu estava tentando ter desapareceram e eu correspondi aos seus beijos com desejo. Eu e Letícia ainda não havíamos tido um momento intimo, mas já nos provocamos algumas vezes, revelando um grande autocontrole o qual eu não fazia ideia que tinha. Apertei sua cintura e a conduzi em direção a uma das prateleiras a encostando nela com certa brutalidade.

- Desculpe. – Falei arrependido.

- Por quê? Eu gostei. – Respondeu ela em meio a um sorriso malicioso. Letícia iria me enlouquecer. Ela colocou a mão no meu pescoço e entrelaçou suas pernas em minha cintura. Sabia que deveria parar com aquilo enquanto era tempo, mas o meu corpo não permitia, ele gritava por ela e eu não conseguia deixar de ouvi-lo. Letícia acariciava o meu cabelo com uma mão e com a outra segurava o meu rosto com ternura enquanto me beijava. Ouvimos Forrest latindo e eu olhei apressadamente para porta, para nossa sorte ela estava fechada. 

- Não podemos demorar se não eles vão sentir a nossa falta. – Falei sem parar de beijá-la.

- Eu sei, mas podemos ficar assim só mais um pouquinho, afinal essa cobertura estava muito bem escondida.

- Bom argumento. – Respondi acariciando suas costas. – Você é linda. – Falei enquanto a admirava. Letícia sorriu beijando-me novamente. Um beijo longo e apaixonado. Era incrível saber que ela me queria assim como eu a queria. Sentia-me nas nuvens abraçava-a com pressa e fazia o possível para deixar o mínimo de espaço entre nos dois. Estávamos tão entretidos naquelas provocações que nem ouvimos a porta da dispensa se abrir.

- O QUE ESTA ACONTECENDO AQUI? – Gritou uma voz. Rapidamente soltei Letícia e me virei. Meu corpo gelou ao ver Senhor Erasmo em minha frente, ele estava com a cara fechada e os punhos cerrados, engoli em seco. Era agora que eu iria morrer. Letícia também parecia assustada e se segurou em meu braço exibindo um sorriso nervoso. – O QUE ESTA ACONTECENDO AQUI? – Insistiu Senhor Erasmo. Olhei para Letícia, Letícia me olhou, e olhamos para senhor Erasmo novamente. Aquela cena era mais assustadora do que o filme Cujo inteiro. E era como se eu estivesse sentindo a morte percorrer as minhas veias. Abri a boca algumas vezes na tentativa de dizer algo, mas parecia que alguém havia apertado um botão e me colocado no mudo. Respirei fundo enquanto era assassinado por senhor Erasmo através de seu olhar furioso.

- Nos viemos pegar a cobertura. – Respondi sem graça mostrando a ele o frasquinho. Letícia me encarou incrédula e eu fechei os olhos ao ver Erasmo caminhar apressadamente em nossa direção. 

 

 

 

 


Notas Finais


Vou fazer o possível para postar o próximo antes de segunda-feira, com esse capítulo chegamos oficialmente na metade dessa história. Espero que tenham gostado!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...