História Oblivion - Capítulo 6


Escrita por: ~ e ~Morghanah

Postado
Categorias The GazettE
Personagens Aoi, Kai, Reita, Ruki, Uruha
Tags Aoi, Aoiha, Uruha
Exibições 69
Palavras 4.026
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 6 - Trust me, I know grief


Fanfic / Fanfiction Oblivion - Capítulo 6 - Trust me, I know grief

 

 

Hoje não tive pensamentos sobre Kouyou, quer dizer, eu tive, mas hoje não falarei nada sobre ele. Talvez esse seja meu primeiro passo verdadeiro para deixar tudo para trás de vez e começar a ver as coisas de maneira diferente. Para vencer barreiras é preciso ter vontade, isso é algo que todos dizem, portanto, tentarei colocar em prática as suas palavras.

Eu quero deixar de amá-lo, esquecê-lo. Se eu repetir por todos os dias, talvez chegue o momento em que eu poderei olhar para ele sem sentir aquele sentimento morno no peito, sem ter minhas mãos formigando para tocá-lo, sem desejar beijá-lo como tantas vezes fiz no passado. Quero que chegue o momento em que não nos olharemos com tristeza e que de nós restará lembranças boas.

Tenho de deixar de amá-lo, tenho de esquecê-lo.

Eu disse que não falaria dele, não é? Mas inevitavelmente falar sobre ele é algo que sai naturalmente…

Talvez também seja inevitável que eu não consiga realizar esse meu desejo mentiroso.

Eu ainda quero amá-lo e definitivamente não quero esquecê-lo.

 

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Shiroyama Yuu não acreditava que estava naquela situação, ainda mais tendo de enfrentar Kai para aquilo. Estimava Kai por todos os anos que passaram juntos na banda e por todas as situações que os fizeram se aproximar, mas não pensava que tinha de um dia ouvir sermões dele sobre um assunto tão íntimo. Ele era o mais velho ali! Não conseguia se sentir confortável com aquilo.

— Quem te mandou vir aqui? Foi aquele trouxa do Rei-chan, não foi? – Kai riu da forma como o baixista foi chamado.

— Não, não foi o Reita que me chamou aqui, eu vim por espontânea vontade. Por que não pode crer que eu quero apoiar meu amigo? Isso magoa meus sentimentos, Yuu-san.

Estavam no estúdio na casa de Yuu, porém não trabalhavam, apenas estavam ali conversando enquanto ouviam algumas músicas e tomavam cerveja. Kai preferia que ficassem na sala, pois achava a vista da janela bonita, porém o dono da casa quis se enfiar ali e ele por ser visitante – que se esqueceu de avisar que apareceria – apenas o seguiu até o lugar.

No começo a conversa fluiu muito bem, falavam de assuntos diversos e até mesmo sobre coisas sem sentido e banais, mas logo Kai mudou seu foco sorrateiramente indo aos poucos por assuntos mais complexos e quando Yuu percebeu o laço em que tinha caído já tinha recebido uma pergunta que no mínimo preferia não ter de ouvir.

“Como estão as coisas com o Kouyou? Porque eu não aguento mais a cara de vocês”.

Kai, como sempre, gentil.

O líder sabia que por baixo dos panos tinha muita coisa podre, mas preferia não se meter em assuntos sentimentais alheios, ainda mais quando era notável que os dois não queriam a intromissão de outras pessoas, porém no dia anterior Ruki tinha lhe ligado dizendo que estava preocupado e que a história dos dois tinha de ter um fim. Ou ficavam juntos ou matavam de vez qualquer sentimento entre eles, pois além de em primeiro lugar a situação não fazer bem a eles, no final, poderia comprometer o progresso da banda.

E foi então que Kai decidiu entrar em seu modo carrancudo, pois se as fãs o viam como o Sr. Sorriso, quem convivia com ele diariamente sabia muito bem o que o rosto fechado desse homem poderia ser capaz de fazer.

— Por acaso você acha que eu quero falar sobre isso? – Yuu não estava gostando do andamento das coisas – Aliás, nem sei por que isso é relevante, nós terminamos há dois anos. DOIS ANOS! E eu já deixei bem claro para o Takashima-san que eu não sinto nada por ele, então por que estão no meu pé? E se tem alguém problemático aqui, esse alguém é aquele cara! “Como estão as coisas com o Kouyou?” – Estalou a língua em desagrado – Estão em lugar nenhum, Kai-san! Quer dizer, quero que ele esteja na puta que o pariu, mas na dele que eu não estou!

“Oh… Sempre explosivo”. Kai deu um longo suspiro.

— Então isso quer dizer que vocês não têm mais nada e que nem sente algo pelo Kouyou? – Yuu o olhou fixamente antes de respirar fundo.

— Alguma parte do que eu falei foi difícil de entender? – Perguntou com a face inexpressiva, enfadada – Sim, Kai-san, não existe mais nada entre nós.

— Hm, melhor assim.

— Também acho.

Ficaram em silêncio e Yuu desviou o olhar para o chão, tomando a sua cerveja enquanto em seu rosto ainda tinha uma carranca mal humorada pelo assunto. O rock antigo predominava o espaço, tornando tudo menos constrangedor. Kai ainda o encarava de forma analítica, fazendo com que um sorriso pequeno surgisse em seus lábios, junto com uma pontada em sua têmpora esquerda. Por vezes aqueles velhos agiam como crianças imaturas.

— Yuu-san? – Chamou-o em tom calmo e Yuu o olhou com certo desinteresse – você não sabe mentir, sabia?

— Eu não estou mentindo. – Respondeu-o sério – Se você não quiser acreditar em mim, tudo bem, mas eu sei o que eu estou falando. – Na verdade… não sabia, não.

— Então ok, já que tudo são águas passadas, vamos olhar para o futuro!

Yuu tinha percebido um olhar diferente que correu por Kai no instante em que ele falou aquelas palavras. Internamente algo lhe dizia que deveria voltar atrás e dizer “Ei, eu sou mesmo um mentiroso ruim”, mas sua teimosia tinha falado mais alto e ele deixou o momento passar.

Mas às vezes temos de pagar pelas nossas falhas, apenas para aprender algumas coisas.

 

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Cinco dias se passaram e as coisas pareciam correr normalmente para todos. Ainda restava um único dia para as férias terminarem e todos estavam descansando como podiam. Ruki passava boas horas com Reita, Kai estava na casa de sua mãe, Uruha não dava muitas notícias, mas Reita afirmava que ele estava bem e Aoi ficou na mesma, quer dizer, quase na mesma, ele deveria saber que ter recebido aquela visita de Kai significaria alguma coisa.

O líder havia lhe passado o número de uma mulher chamada Aiko, ela já tinha trabalhado como membro do staff da banda há alguns anos, mas saiu quando decidiu que gostaria começar a estudar engenharia. Yuu já a conhecia de certa forma e sabia o quão gentil ela era e por mais que as intenções de Kai ao lhe passar o número fossem explícitas, ele pensava que se as coisas não progredissem ao menos teria reencontrado uma velha conhecida.

Internamente não queria ter feito aquilo e boa parte da sua mente lhe diria que seria uma grande perda de tempo, mas por outro sabia que não custava nada tentar, além de que se realmente queria um dia esquecer Kouyou tinha de ao menos agilizar um pouco mais as coisas. Ele já estava cansado de ficar parado se lamentando sobre o passado.

Aiko era uma mulher simples e divertida, o tipo de mulher com quem gostava de sair. Combinaram de se encontrar em um restaurante próximo ao centro e por todo o caminho até o lugar, Yuu se pegava ansiando que fizesse a coisa certa, por mais que em um canto secreto seu, olhava com atenção para cada detalhe das ruas por onde dirigia procurando ao menos um vislumbre de Kouyou, não que realmente estivesse procurando por ele, mas era como se visse algo que lembrasse o guitarrista fosse um sinal para que não seguisse adiante com o encontro.

— Que porra de pensamento é esse, Shiroyama?! – Ralhou consigo mesmo dentro do carro – Vá a esse encontro e pronto! – “Mas se der furada eu culpo o Yutaka!”.

Quando chegou, viu que Aiko já estava o esperando em uma das mesas. Estava simples como imaginou que estaria. Vestido preto, sapatos baixos e os cabelos em tom de cinza presos em um coque alto. Estavam em agosto, o tempo ainda estava quente e Aiko se abanava discretamente com o cardápio do restaurante. Era bonita, talvez estivesse mais bonita do que da última vez que a viu.

Quando se aproximou, viu ela lhe dar um sorriso largo enquanto se cumprimentavam. Ela não parecia nervosa ou acanhada e isso era algo que ele gostava, era muito complicado conversar com pessoas que fossem retraídas ou tímidas, preferia poder se sentir confortável na companhia de alguém.

— Espero que não tenha me esperado por muito tempo. – Comentou ao se sentar.

— Não se preocupe, eu quem tem o costume de chegar muito cedo, você chegou no horário – ela continuava a sorrir – como estão as coisas? Faz tempo que eu não vejo você e nem os outros, apenas o Kai-san já que moramos perto.

Um dos pontos positivos de Aiko era que ela já o conhecia, não o artista Aoi que por vezes tinha as suas limitações por ser uma pessoa pública, mas ela conhecia o Yuu e isso já era o suficiente para relaxá-lo diante dela.

— Estão todos da mesma forma, eu acho. As notícias sobre a banda você já deve ter ouvido por aí – Ela soltou um pequeno riso – O que foi?

— Vejo que você não muda Aoi-san, continua soando como alguém que não vê a hora de voltar para casa.

“Sua cara nos nossos comentários parece de alguém que não vê a hora de descansar, às vezes até parece com um velhote rabugento”.

Uruha também já havia lhe dito algo como aquilo nas várias vezes que tinham de gravar comentários sobre algum show ou alguma novidade. Aoi não tinha a intenção de parecer daquela forma, apenas saia naturalmente e quando se via no vídeo acabava concordando que muitas vezes parecia desinteressado, por mais que fosse o oposto. Se bem que os outros também não eram uns exemplos de faces alegres.

— Aoi-san? – Aiko lhe chamou com um sorriso fechado – Está tudo bem? Você começou a divagar de repente.

Outra mania inusitada de Aoi era as suas divagações. Em um instante ele estava focado nas coisas ao seu redor e em outro, já estava visitando os mundos de sua mente. Isso nunca era um problema depois que se acostumasse com ele. Aoi era um homem razoavelmente fácil de lidar. Note-se que foi dito razoável.

— Desculpe por isso e, por favor, não pense que quero ir para casa, eu realmente quero passar esse tempo com você.

Aoi não mentia, passar aquele tempo com Aiko era um momento em que o tirava do eixo banda/problemas pessoais, além de que a sua companhia gentil poderia ser como um refresco. Não queria ir embora e sinceramente desejava que tudo ocorresse bem no final.

 

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Já era noite e Akira estava largado no sofá de sua casa, mal prestando atenção na televisão ligada, mas que permanecia com o som desligado, enquanto seu baixo descansava em seu colo. No dia seguinte voltariam ao ritmo de trabalho com novos projetos, tudo seguiria sendo acelerado como sempre foi e ainda assim se perguntava se as coisas não podiam estar piores do que pareciam.

Ele não falava sobre a banda, mas sobre si mesmo.

Ele sabia que tinha cometido um grave erro, o equívoco que ele repetiu inúmeras para si mesmo vezes para que não cometesse, mas que no fim acabou caindo na armadilha que tanto evitava, mas é que havia algo queimando em seu peito e que subia para a garganta de modo que se não falasse, talvez enlouquecesse.

Confessou-se para Ruki, naquele mesmo dia, logo após os dois acordarem em sua cama, que dividiram por toda a noite. No início Ruki riu achando que era uma brincadeira, mas ao ver a face séria e decidida do baixista, percebeu que não tinha nenhum vislumbre de brincadeira naqueles olhos que pareciam transmitir uma gama de sentimentos.

Aquela era uma verdade. Akira tinha se apaixonado.

Foi então que ouviu tudo o que já sabia que ouviria. “Isso não era para chegar nesse ponto Akira, não posso arriscar a banda por um relacionamento. O Uruha e o Aoi tentaram e você viu no que deu, não quero que tenhamos novos problemas. Desculpe, por favor, mas eu não posso retribuir o que sente”.

Em silêncio viu Ruki sair de sua cama, vestir suas roupas e lhe dar um último olhar na porta de seu quarto antes de ir embora de sua casa. Não chorou e nem teve vontade para aquilo, talvez quisesse socar seus travesseiros para não socar o próprio rosto, mas não teve nenhuma reação exaltada sobre aquele rompimento. Aquilo já era esperado, portanto, a ferida no peito já tinha nascido antes mesmo de Ruki ter acordado naquela manhã.

Seguiu seu dia normalmente, tocando seu baixo para não se sentir “enferrujado”, mas a imagem de Ruki não saia de sua cabeça, repetindo o momento em que ele dizia que não podia retribuir seus sentimentos. Foi então que entendeu quando Uruha lhe disse que estaria muito melhor se não tivesse de olhar para Aoi todos os dias. Akira achava que também ficaria melhor se pudesse evitar Ruki, mas a banda impedia e aquele sonho era maior do que eles mesmos, o que significava aprender a engolir o que sentia e seguir em frente.

— Merda de ironia. – Disse para si mesmo – Logo eu que achava que Uruha era um burro, caí no mesmo erro que ele. O vagabundo vai debochar da minha cara quando souber.

Batidas soaram em sua porta e Akira pensou que realmente seria uma jogada cruel do destino caso fosse Kouyou que estivesse em sua porta. Deixou o baixo de lado e foi até a porta e quando abriu a mesma, um sorriso quase divertido surgiu em seus lábios. Não era Uruha, mas era outro tão problemático como seu amigo.

— Olá, Yuu-kun, o que faz aqui?

— Basicamente, conversar. – Reita respirou fundo, a palavra “conversar” lhe soava como uma avalanche.

— Entra.

E quando o guitarrista entrou em sua casa, Akira pensou ter entrado em um déjà-vu. Yuu entrou deixando seus sapatos na entrada, foi em direção ao sofá e se sentou no mesmo lugar que Uruha dias antes e igualmente sem pedir licença, acendeu seu cigarro. Não parecia ter chorado, mas estava com o semblante sério e a forma como uma de suas pernas balançava mostrava o quanto ele estava nervoso.

Diferente do que fez com Uruha, Akira logo se sentou ao lado do outro. Por mais que Yuu também tivesse as suas barreiras, se aproximar dele era mais fácil. De certo modo, ele sempre mostrava que gostava de saber que tinha alguém com quem contar, mesmo que tivesse certa pose durona.

— O que foi dessa vez? – Akira perguntou, porém não obteve resposta logo de cara, parecia que o outro pensava nas palavras ou quem sabe buscava certa coragem de colocar para fora tudo o que queria.

— O que está assistindo? – Sabia que ele estava pouco se importando com o que se passava em sua televisão, mas ele deveria querer um pouco mais de tempo, talvez colocar as palavras na ponta da língua não fossem tão fáceis quanto parecia.

— Não estou assistindo. – Pegou o controle e desligou o aparelho – não precisa rodear Yuu-kun, sabe que pode me falar qualquer coisa.

— Eu sei. – Acabou sorrindo de lado, sabia que o baixista era um bom amigo. – Eu tive um encontro hoje. Com a Aiko-san, aquela que antigamente era um dos staffs, lembra?

— Aquela que tinha o cabelo azul? – Aoi assentiu – Como se encontrou com ela?

— Kai-san ainda tem contato com ela, então ele acabou dando um jeito desse encontro acontecer. E hoje em dia o cabelo dela está cinza.

— Ela continua legal? – Yuu assentiu, tragando outra vez seu cigarro – E o que achou do encontro?

— Sinceramente foi um dos mais divertidos que eu já tive. Aiko-san é uma mulher agradável, bonita e acho que poderíamos dar certo.

Se fosse outro momento Aoi diria aquilo com um sorriso no rosto e os olhos brilhando pelo interesse na mulher, muito provavelmente sua perna não balançaria pelo nervosismo como naquele momento, muito menos ele seguraria o cigarro entre os dedos com tanta pressão e seus olhos não estariam naquele brilho de preocupação. Em outras palavras, se fosse outro momento Aoi estaria feliz em dizer para Reita que tinha encontrado uma mulher que o agradou, mas ali tudo o que o baixista podia ver era uma grande confusão.

— Se foi um dos encontros mais divertidos que já teve, então porque está com essa cara?

— Porque eu fiquei pensando no filho da puta do Kouyou o encontro inteiro.

Reita precisou de alguns momentos para processar a informação, enquanto sentia certo peso em seu peito por ver como seus dois amigos estavam sofrendo pela mesma situação. Eles claramente ainda se amavam e provavelmente seriam felizes se ficassem juntos, mas um machucou tanto o outro que eles não conseguiam mais cogitar a possibilidade de tentar outra vez. Ele gostaria de poder fazer algo por eles.

Por outro lado Aoi se sentia mais confortável por poder confessar o que estava queimando sua mente horas atrás. Ele até tinha cogitado a possibilidade de ir até a casa de Uruha, ainda que não tivesse nenhuma razão ou sentido para fazer aquilo, mas ainda não sabia como enfrentá-lo depois da conversa intensa que tiveram em sua casa.

— Ele foi à minha casa há alguns dias – Aoi continuou a falar – Eu não faço a mínima ideia do que aquele idiota quis indo até lá, mas apenas remexeu na merda que já estava esquecida.

Reita pensou em dizer que já sabia daquilo, mas preferiu se calar. Talvez se ouvisse a versão de Aoi as coisas se clareassem melhor em sua mente e o homem ao seu lado era bom em falar o que sentia quando se sentia confortável o suficiente para aquilo.

— Ele disse que ainda me ama, acredita? – Perguntou com certo escárnio, mas não esperou pela resposta – ele teve a cara de pau de olhar nos meus olhos e dizer isso. Ainda disse que não queria que eu sofresse. Tsc. – Estalou a língua e o nervosismo em sua perna pareceu aumentar.

— E o que respondeu a ele?

— Que eu não o amo mais.

Quando Aoi lhe disse aquilo, Reita percebeu o quanto a frase era mentirosa pela forma como os olhos do guitarrista fugiram dos seus e ele preferiu encarar a televisão desligada. Entendeu então que Aoi apenas havia dito aquilo para Uruha para se proteger, para que não se machucasse outra vez. Pegou-se perguntando se um dia também chegaria ao ponto em que negaria seu amor por Ruki apenas para não se decepcionar outra vez.

— Por que não disse a ele que também o ama? Nós dois sabemos que você ainda o ama. Vocês não poderiam aprender com os erros e tentar outra vez?

— Eu estive com os braços abertos o tempo inteiro, Rei-chan. Eu tentei tantas vezes alcançar o Kouyou, que chegou uma hora que eu cansei e, na verdade, eu nem entendo o medo dele. O que existe em mim que o amedronta tanto?

— Não é você que o amedronta, Yuu-kun, é algo mais complicado. – Mesmo sabendo que talvez pudesse falar o que não deveria, Reita queria fazer com que o peso de ambos diminuísse e talvez fazer com que um entendesse o outro fosse o caminho para aquilo – Kouyou é uma pessoa que tem muita coisa guardada, que não quer que se descubra muito sobre ele, que tem o seu próprio canto. Conhecendo ele, eu sei que ele realmente não quis te machucar, apenas tinha… medo.

— Medo de dizer que tem problemas no passado? – Aoi apagou deixou seu cigarro no cinzeiro em cima da mesa de centro e logo pegava outro cilindro para fumar – Ele acha que eu não percebi o quanto ele evita de falar dele mesmo ou da família? Acha que eu não saquei que ele teve problemas em casa e problemas quando adolescente e que você sabe muito bem o que é, mas não fala nada por lealdade a ele? Acha que eu não sei que apesar dele ser um homem daquele tamanho e com toda aquela pose de que é inabalável, ele se magoa facilmente com as palavras e ações dos outros? Eu sei que ele evita falar muito porque tem medo de falar merda e ser rejeitado por isso, porque não quer que ninguém conheça seus detalhes e o machuque ao descobrir quem ele é. Porra Akira, acha que eu não conheço o homem que eu amo?

“Kouyou… você deveria ter ouvido isso”.

Aoi fumava de uma forma tão irritada que Reita achou melhor ficar em silêncio e, na verdade, após aquilo pensou que não precisava fazer com que Aoi compreendesse seu amigo, pois sentiu o quanto o homem ao seu lado conhecia Kouyou e mesmo sabendo de todos os defeitos e limitações que carregava, ainda o amava.

— Eu apenas queria que ele confiasse em mim, entende? Só isso. – Aoi suspirou.

— Eu sei e ele também sabe.

— Sabe nada, Kouyou é um otário. – Reita acabou sorrindo de lado, apesar de tudo, achava bonita a forma como os dois não deixaram seus sentimentos morrerem, apenas não sabiam mais como se encaixar.

— E o que vai fazer? Você ainda tem sentimentos por ele, mas saiu com a Aiko-san. Vai tentar ter alguma coisa com ela?

— Eu não sou um canalha, não vou sair com alguém pensando em outro. Vou manter minha amizade com a Aiko-san, ela é uma mulher agradável. E quanto ao Kouyou… não há nada o que eu possa fazer. Talvez algumas coisas nasçam para ser inacabadas…

De certa forma entendia Aoi e sabia que por mais que algumas coisas nós quiséssemos levar por toda a vida, muitas delas vão cair em meio ao caminho, com aquele aspecto incompleto de tudo o que poderia ter sido, mas não foi.

— E você com o Ru-san? – Àquela altura Aoi parecia mais calmo, depois de ter falado tudo o que quis – eu sei que rola alguma coisa entre vocês, mas não dá pra saber o quê.

— Era uma coisa indefinida, mas isso já não importa. Nós terminamos. – Aoi se surpreendeu com aquilo, fazendo uma pergunta muda sobre o motivo – Eu me apaixonei, confessei e fui dispensado. Sabe como o Ruki é… então, não é como eu não soubesse que isso ia acontecer.

— Porra, que merda. – Reita quis rir da forma como Aoi era bom com as palavras – Então vocês tinham um lance físico, mas quando você se apaixonou o Ru-san deu para trás? – Assentiu – Hm, ele parece ser meio osso duro de roer mesmo – Reita acabou rindo com a comparação – E como você está se sentindo?

— Posso ser sincero? – Aoi assentiu – Estou me sentindo na merda, mas dá para viver.

— Sei perfeitamente como se sente – Sorriu amargo – Saiba que se quiser conversar ou qualquer coisa, eu estou aqui. Não precisa falar apenas para o Takashima.

— Eu sei, Yuu-kun, posso contar com você –  Deu um soco leve no ombro do outro – Pode apostar que quando eu precisar vou alugar seus ouvidos da mesma forma que você aluga os meus.

— Que bom que sabe disso, mas pense pelo lado bom, você levou um pé na bunda, eu também levei e nós somos dois babacas por gostarmos de dois problemáticos. Podemos curtir a fossa juntos.

E foi inevitável que Reita risse diante daquilo, Aoi era realmente um homem peculiar, mesmo que momentos antes estivessem confessando um mar de sentimentos, agora falava em “pensar pelo lado bom”, mas era essas facetas que o faziam ser uma das pessoas que mais admirava. Quantas vezes viu Aoi cair e se levantar para seguir em frente? Muitas vezes ele realmente agia como um irmão mais velho.

— Certo, podemos curtir a desgraça juntos–  Reita lhe disse e Aoi sorriu – estamos fodidos, Yuu.

— E me diga quando é que não estivemos.

Riram, apesar de saber que a dor no peito ainda existia, mas sempre chorar e se lamentar não adiantava. Tem de haver o momento de se reerguer e se permitir deixar para trás certas coisas que não mais adiantam. E em alguns momentos é necessário aprender a começar tudo outra vez.

 



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