História Okay - Capítulo 6


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Gsilva, Okay?, Yaoi
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Festa, Lemon, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Survival, Suspense, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Este é o último capítulo antes do hiatus de duas semanas...

Capítulo 6 - Era só o começo


CAPÍTULO 5 – ERA SÓ O COMEÇO

 

            Após Montmore dizer que as fotos já estavam boas, elogiando-me por minha aparência e estática na frente da câmera, o sequestrador resolveu me levar novamente para o porão. Ele agarrou o meu braço no exato momento que o velho me dispensava. Cada toque dele me machucava. Fiquei pensando se ele sabia disso.

            Fui cambaleando, impedido de cair pelo aperto do homem no meu braço, até o fim do corredor novamente. O pequeno alçapão que levava ao porão ainda estava aberto, o que me deixou duvidoso, pois um dos garotos poderia ter fugido, não poderia?

            — Entre. — Ordenou o sequestrador, com um toque sombrio na voz. Ele não parecia irritado demais, nem muito ansioso, mas o aperto no meu braço dizia o contrário.

            — O que você vai fazer comigo? — Perguntei, sem conseguir esconder a grande dúvida que eu tinha: para quê servia tudo aquilo?

            — Entre. — Repetiu ele, um pouco mais severo dessa vez. Senti que seu olhar queimava o meu corpo nu, mas não consegui levantar a cabeça para encará-lo. Eu apenas mantive meus olhos virados para o chão.

            — Não. — Respondi. — Eu preciso saber... Por favor, apenas me diga.

            Lágrimas tinham voltado aos meus olhos, em algum momento entre o fim da sessão de fotos e a ida até o alçapão. Senti meu rosto ficar quente por causa do sangue nas minhas veias, senti meus olhos queimando pelas lágrimas, e eu não conseguiria fazer meu coração desacelerar nem que tentasse.

            — Entre! — Gritou ele, empurrando-me na direção da escada. Perdi o equilíbrio por um segundo, deixando meus pés tocarem no primeiro degrau da escadaria.

            Por algum motivo, não me submeti completamente à força dele. Foi como momentos antes, no porão, quando tive forças para me soltar do abraço forte do sequestrador. Meus pés retornaram para o assoalho e eu me aproximei do homem, sentindo seu cheiro de suor e destilaria. Senti que sua mão, que ainda apertava o meu braço, estava começando a obstruir alguns canais sanguíneos e que eu com certeza ficaria com marcas.

            — Não! — Gritei de volta, intensificando a voz pelo pavor. — Você precisa me dizer o que vai fazer comigo!

            — Se eu disser, promete que vai calar essa boca? — Perguntou ele, arregalando os olhos. Sua boca abriu o suficiente para que eu pudesse ver (infelizmente) seus dentes amarelados pelos cigarros. Na verdade, todo o seu corpo cheirava a cigarros.

            — Prometo. — Respondi, olhando-o nos olhos pela primeira vez desde então.

            Eu sabia que a resposta não seria satisfatória, obviamente, mas queria ter certeza do que ia acontecer comigo. Senti que, independentemente da resposta, eu me arrependeria por ter perguntado.

            — Eu vou fazer muitas coisas com você e com seus amiguinhos do porão. — Disse ele, quase sussurrando, puxando-me para perto. — Acho que já disse isso alguma vez.

            Desviei o olhar. Estávamos pertos o suficiente para eu poder ver todas as imperfeições no rosto dele, todas as marcas de acnes, cicatrizes e poros obstruídos.

            — Por favor, me deixe ir para casa. Eu juro que não vou dar queixa. Apenas deixe-me ir para casa...

            — Não. Antes vamos nos divertir. — Repetiu ele. — Primeiro, eu vou atrás de você e daquele bichinha do Yian. Depois será a vez daquele garoto que sempre parece estar em choque, Alan. E Kaio, o mais valentão, será o último.

            — Você vai nos matar? — Perguntei, subitamente lembrando-me do “sistema” que Yian havia mencionado ainda naquele dia – sobre as mortes que frequentemente aconteciam, sobre os garotos que morreram antes da minha chegada.

            — Matar? Quem disso isso? — O homem respondeu, com um olhar curioso. — Eu disse que vamos nos divertir.

            Havia um tom tremendamente pretensioso na voz dele, como se ele quisesse dizer alguma coisa sem mencionar as palavras certas. Fiquei tentado a perguntar o que era. Mas, tudo o que eu pensava naquele momento era que, com certeza, todos nós iríamos morrer.

O olhar do sequestrador não saía do meu corpo. Ele parecia me examinar com os olhos, checando cada centímetro da minha pele, dos pés à cabeça. Eu quis perguntar o que aquele “divertir” significava, quis perguntar por que ele me olhava daquela maneira pretensiosa, mas não tive a chance, pois ele me empurrou na direção da escada.

Tudo que vi depois disso foi uma confusão de poeira e luzes fracas. Senti dores em todos os lados do meu corpo. Levou um tempo para eu me dar conta de que estava, literalmente, rolando escada abaixo. Quando tentei me segurar em algo fixo, mais precisamente, na lateral da escadaria, senti que algo concreto havia batido contra a minha nuca. Por um tempo, nenhuma dor veio, porém, depois de um tempo, perdi os sentidos.

 

— De alguma forma, você acha que essa organização que tinha o sequestrador como empregado, em algum momento, poderia ter ficado com raiva dele por causa do modo como te tratava? Digo, você falou que o velho, Montmore, disse algo sobre a sua segurança...

 

         Não, eu não acho que essa organização tenha ficado genuinamente decepcionada pelo modo como o sequestrador me tratava. É claro, Montmore havia dito algo sobre eu ser uma mercadoria, e obviamente não queria me ver danificado, mas isso não significa que estavam se importando com a minha segurança.

         Acontece que eu estava me sentindo mais sozinho do que nunca. Você não pode nem começar a imaginar como era. Eu estava preso numa casa com outros três garotos (que também não pareciam se importar com a minha segurança, com exceção à Yian), que também estavam numa situação parecida, sem poder fugir ou contatar meus amigos de fora da casa, pois, com certeza, aquela organização iria atrás deles também.

         Eu estava completamente sem opções, sem formas de luta. Restava-me apenas aceitar o que o sequestrador queria. Você deve entender que, quando se está numa situação como aquela, você só tem duas opções: aceitar o que foi ordenado ou morrer. E eu definitivamente não queria morrer.

 

         — Então, está me dizendo que, a partir daquele ponto, você passou a aceitar o que o sequestrador pedia?

 

         Sim, isso é exatamente o que estou dizendo.

 

***

 

         Eu acordei algumas horas depois, sentindo uma profunda dor nas costas e na nuca. Não precisei levar minhas mãos aos meus cabelos para saber que estavam encharcados de sangue. Sentia o líquido caindo por meu rosto em uma velocidade lenta, pouco preocupante, mas pressenti que algo não estava muito bem no interior do meu crânio. A última coisa que eu precisava era de um traumatismo craniano ou qualquer contusão.

         Porém, houve outra coisa, que senti logo quando abri os olhos. Era um calor estranho, proporcionado por alguma coisa que eu não sabia o que era, pelo menos até conseguir olhar para trás. Yian segurava o meu corpo, passando as mãos em volta dos meus ombros. Eu estava deitado no colo dele, com a cabeça apoiada no seu quadril, e, por um momento, esqueci-me completamente do fato de que estávamos nus.

         — Não se mexa. — Disse ele. — Você bateu com a cabeça na parede, não deve se levantar.

         — Eu não ia levantar. — Respondi, fechando os olhos novamente. Havia algo estranhamente reconfortante no modo como ele segurava o meu corpo, na forma como tocava a minha pele com as suas mãos.

         — Está bem. — Disse ele, desviando o olhar.

         Eu mal conseguia enxergar o teto do porão ou qualquer outra coisa, não por causa da contusão, mas por causa da falta de iluminação. Contudo, uma faixa de luz escapava pelo assoalho do andar de cima e caía sobre o chão do porão, iluminando o rosto de Yian com uma meia-luz branca fantasmagórica.

         — Por quanto tempo eu apaguei? — Perguntei, olhando novamente para ele.

         — Por algumas horas. — Yian respondeu. — Você perdeu muito sangue. Houve uma hora que eu achei que você não ia... não ia...

         — O quê? Achou que eu não ia mais levantar? — Interrompi, com um pequeno sorrisinho. Era estranho vê-lo daquela forma, preocupado demais comigo.

         — Isso. — Yian disse. — Não me leve à mal, mas você parece que é o único que tem coragem para enfrentar o Mestre.

         — Ele não é um mestre, é só um homem viciado em sexo. — Interrompi novamente. Vi-o desviar o olhar, comprimindo os lábios, como se estivesse irritado por causa da minha recusa de submissão ao sequestrador.

         Aquela foi a primeira vez que consegui ver o rosto de Yian, por causa do feixe de luz, e achei aquilo incrivelmente agradável. Ele não era nenhum modelo profissional, mas seu rosto era agradável de ser observado. Não tinha nem uma imperfeição, com a pele perfeita, olhos claros (provavelmente verdes, pelo que pude deduzir no momento), boca bem desenhada, maxilar alinhado. Ele era lindo, mas não era o momento para pensar nesse tipo de coisa.

         Desviei o olhar, comprimindo os lábios assim como ele.

         — Não temos como saber que horas são? — Perguntei ao acaso.

         — Não. — Ele respondeu subitamente. — Aqui não tem janelas e o porão fica numa posição da casa que não recebe qualquer luz das janelas superiores, seja dia ou noite.

         — Entendi. — Respondi. — Mas, quando saí para ser fotografado, pude ver que estava quase escurecendo.

         — Bom, você ficou apagado por umas cinco horas, eu diria. Então deve ser de madrugada.

         Fiquei em silêncio por um tempo após aquilo, pensando na possibilidade de já ser madrugada. Por quanto tempo eu tinha ficado desmaiado, exatamente? Quanto de sangue eu perdi? Quais seriam as consequências daquela pancada na parede?

         Havia outra coisa que eu queria falar para Yian e para os outros dois garotos também – que pareciam recusar qualquer contato comigo. Eu queria dizer que estava tudo bem, que provavelmente George e Amy estavam procurando por mim naquele exato momento, que já estavam chegando para nos libertarem, mas isso não era verdade.

         Nada era verdade.

         — Eu preciso levantar. — Eu disse.

         — Você não pode. Ainda não está bem. — Yian se opôs.

         — Eu estou bem. — Respondi, um tanto quanto grosseiramente.

 

         Realmente, eu deveria ter ficado deitado. No exato momento que me apoiei na parede ao lado, tateando às cegas, senti a maior vertigem da minha vida. O mundo pareceu dar uma volta de 360 graus, mas meus braços continuaram firmes na parede. Yian, obviamente, era contra a minha vontade de ficar em pé, mas, mesmo assim, levantou-se para me ajudar. Senti os braços dele no meu quadril, impedindo-me de cair. Uma vez completamente em pé, minhas pernas se fixaram e eu não cambaleei mais. Quero dizer, era quase impossível ficar totalmente em pé naquele porão, porque o teto era muito baixo, mas aquilo foi o máximo que consegui.

         — Eu preciso mandar uma mensagem para meus amigos. Eles já devem ter notado o meu sumiço. — Eu disse de repente. — Com certeza virão para nós.

         — Oliver, não temos como fazer isso. — Yian respondeu.

         — Eu arranjarei um jeito. — Respondi seriamente, largando a parede. Consegui mantar a coluna semiereta por mais de dois segundos, e isso já foi uma vitória. — Deve ter um jeito. Uma carta, um bilhete, uma ligação, um grito. Qualquer coisa...

         — Primeiro: você não tem papel, não tem celular e não conseguirá gritar tão alto. — Disse uma voz semidesconhecida.

         Sem aviso prévio, uma pessoa saiu da escuridão para aparecer no feixe de luz. No instante repentino, meus olhos se acostumaram à nova forma masculina à frente de mim: um garoto, não muito alto, talvez do meu tamanho, também completamente nu e aparentemente cansado. Forcei a minha mente a lembrar de um nome.

         Kaio.

         — Segundo: você nem sabe onde estamos. Ou sabe? Eles não te apagaram? — O garoto respondeu.

         — Deixei-o, Kaio. Deixe o garoto ter uma esperança. — Yian respondeu, subitamente me defendendo dos ataques de Kaio.

         — Por quê? Deus sabe como a esperança, para nós, já morreu há dias. — O garoto rebateu. — Ele não sabe do que está falando. Ele chegou aqui há um dia e já se acha no direito de burlar as regras.

         — Não há regras. — Interrompi. — Pelo que consegui entender, aqui temos apenas duas opções. Aceitar ou morrer.

         — Pronto. Essa foi a primeira coisa inteligente que você falou ou fez desde que chegou aqui. — O garoto rebateu.

         — Kaio, por que essa irritação? — Yian perguntou, com um acusatório na voz.

         Senti que algo estava começando a rolar ali naquele ponto da discussão. Não sabia se era uma espécie de briga, ou se era uma discussão encerrada há dias que, de repente, foi trazida novamente à vida.

         — Porque parece que ele quer insistir em fazer alguma coisa. Nós não podemos fazer nada. — Kaio respondeu. — Ou você não se lembra, Yian? Não se lembra da última vez que algum de nós brigou com o Mestre?

         Fez-se silêncio. Eu olhei para Yian, que parecia mais pálido do que o normal olhando para o outro garoto.

         — Sim, eu lembro. — Disse Yian, engolindo em seco.

         — Então, como pode deixar que ele faça isso? Ele não pode tentar escapar. — Kaio rebateu. — Estamos presos!

 

         De repente, talvez por causa da nossa discussão, ou talvez por qualquer outra coisa, o alçapão do porão se abriu novamente. A luz esbranquiçada que vinha do corredor acima iluminou toda a sala, e essa foi a primeira vez que vi o quarto garoto, Alan, com clareza, mas ele estava encolhido contra a parede oposta do porão.

         Do topo da escada, o sequestrador olhava para baixo. Eu não consegui ver se ele olhava diretamente para mim ou para outros garotos, mas senti que seu olhar estava mais do que presunçoso. Naquele momento, eu senti que algo muito ruim se aproximava.

 

***

 

         — Seguindo o relatório original, você está começando a se aproximar do momento que sofreu a primeira grande violência. Se quiser, podemos fazer uma pausa.

 

         Não, obrigado. Eu não preciso de pausas. Preciso falar o que realmente aconteceu, porque, no meu relatório original, não dei todos os detalhes e provavelmente algumas coisas ficaram omitidas.

 

         Quando eu olhei para cima e vi aquele homem parado no topo da escada, meu coração disparou imediatamente. Como disse, eu não conseguia olhá-lo nos olhos por causa do contraste da luz do corredor com a escuridão do porão. Fiquei muito tempo sem ver a luz. Mas, apesar disso, eu podia sentir que ele queria algo muito ruim.

         Não demorou muito para o sequestrador descer o primeiro degrau. Senti a mão de Yian segurando o meu antebraço e puxando-me para trás, provavelmente tentando evitar qualquer reação minha, como Kaio havia sugerido. Na verdade, o garoto que me afrontou estava certo: eu não deveria lutar contra o sequestrador porque isso poderia apenas piorar as coisas. Então, enquanto via o homem descendo os degraus, mantive-me parado com Yian ao meu lado.

         Kaio se afastou bruscamente, indo até a parede oposta, onde Alan se encolhia na escuridão. Percebi que devia haver alguma espécie de intimidade entre ambos, como uma amizade muito forte, pois, pelo que pude ver, Alan ficou ligeiramente mais relaxado quando Kaio se aproximou. Mas eu duvidava que fosse mais do que isso, mais do que uma amizade.

         Senti a mão de Yian no meu ombro, puxando-me para trás, mas mantive-me parado. Eu não tinha a intenção de lutar contra o sequestrador, até porque já me sentia fraco e tonto, mas queria olhá-lo nos olhos independentemente de tudo.

         — Você e você. — Disse o homem, apontando com as suas mãos sujas na minha direção e na direção de Yian. — Venham.

         Fiquei parado perplexamente enquanto Yian atravessou a minha visão, dando o primeiro passo na escada. Eu não conseguia imaginar como eles podiam aceitar o que o sequestrador queria, sem nem ao menos uma intervenção ou pergunta. Eles, os garotos, mal pareciam confusos ou apavorados. Talvez fosse por causa do costume, por causa do tempo que ficaram presos.

         — Oliver. — Disse Yian, virando-se para trás durante um milésimo. — Venha.

         — Mas... — Eu disse.

         — Foi uma ordem. Você deve cumprir. — Yian interrompeu, estendendo a mão para mim. — Prometa que não vai tentar lutar dessa vez.

         Estiquei meu braço e segurei na mão de Yian, olhando-o fundo nos olhos. Havia uma espécie de súplica genuína no olhar dele, como se ele se preocupasse com a minha segurança.

         — Prometo. — Respondi.

         Em questão de segundos, ambos estávamos subindo as escadas, seguindo o sequestrador à risca.

 

         Aquele era só o começo.

 

         Dessa vez, o corredor estava completamente iluminado pelas lamparinas nas paredes, irradiando uma cor branca brilhante. Com certeza ainda era madrugada, o que, somado com a minha queda da escada, apenas aumentou o meu cansaço. Eu sentia-me esgotado, como se tivesse corrido uma maratona. Yian parecia um pouco mais animado, não do bom modo; ele parecia alerta, como se estivesse pronto para qualquer coisa. Sua mão na minha me trazia essa sensação.

         Todas as portas do corredor estavam fechadas (trancadas, supus), com exceção a uma. Como sempre, o sequestrador deixou apenas um quarto aberto. E este, de fato, era um quarto, e não uma sala toda pintada de branco. Pude perceber isso quando me aproximei da porta.

         O homem já estava lá, deitado sobre uma cama sem lençol, com um colchão amarelado. O quarto mal parecia um quarto, com apenas uma cama e um criado-mudo, ambos velhos. Parecia um recinto de filme de terror ou coisa parecida. O papel de parede estava gasto, caindo aos pedaços, empretecido e sujo.

         — Fechem a porta. — Disse o sequestrador, quando viu que eu e Yian havíamos chegado ao batente.

         O outro garoto entrou primeiro, ainda segurando a minha mão, lentamente como uma presa prestes a ser atacada. Eu o segui, com medo e receio por ficar trancado dentro de uma sala com o sequestrador. Mas eu não estava sozinho, Yian estava ali. Quando coloquei a mão na maçaneta e empurrei a porta, ouvi um barulho de algo caindo, mas por algum motivo, não me virei para o que era.

         — Só para constar... — Disse o sequestrador. — Isso é por segurança. Minha segurança.

         Ele se levantou por alguns centímetros, colocando as mãos nas bordas da calça. Eu nem imaginei o que ele estaria fazendo, até ver que retirou uma faca de um dos bolsos traseiros.

         — E aquilo... — O homem disse novamente. — Também é por segurança.

         Olhei para trás, para onde ele estava apontando, e constatei a fonte do barulho anterior. Era uma arma, uma longa escopeta que estava apoiada atrás da porta e caiu quando entramos.

         — Agora venham. — Disse ele.

 

         Eu engoli em seco. Estávamos, de fato, trancados numa sala, com um homem que tinha uma faca, uma escopeta e um olhar pretensioso no rosto. Apesar de tudo, a aparência do sequestrador não era nada agradável: poucos cabelos, roupas sujas e rasgadas, dentes amarelados, verrugas, acnes e cicatrizes no rosto.

         O homem olhava para mim e para Yian com um olhar nada amigável, provavelmente desejando algo impronunciável. Meu coração parecia uma bomba no meu peito, explodindo a cada vez que os olhos dele se moviam. Yian não parecia menos nervoso, intensificando ainda mais o aperto em minha mão.

         — Venham... — O sequestrador disse bem lentamente, analisando cada centímetro dos nossos corpos nus. Senti uma pontada de dor sobre a pele.

         Yian deu o primeiro passo, aproximando-se, e eu fui logo depois. Colocamo-nos lado a lado, na frente do homem, que agora tinha se sentado na cama e a faca repousava ao lado. Enquanto ele nos olhava, fiquei imaginando se tinha como despistá-lo e agarrar aquela faca.

         Quando eu estava prestes a me mover novamente, congelei. Algo gelado e estranho tocou a pele do meu quadril. Eu não estava olhando para baixo no momento, mas constatei o que era. Eram as mãos do sequestrador. Ele estava, literalmente, passando a mão em mim. Senti um súbito impulso de repúdio, misturado a uma ânsia estranha. Eu não queria ter as mãos dele sobre mim.

         Parecia que cada um dos seus dedos desenhava espirais sobre a minha pele. Abaixei o olhar e fechei os olhos, mas havia algo pior em encarar aquilo com os olhos fechados. Era pior. Eu estava pronto para reagir, para fazer aquilo que Kaio havia dito para justamente não fazer, quando de repente as mãos dele pararam.

         Abri os olhos novamente para encontrar um homem audacioso e pretensioso parado à minha frente.

         — Vamos. — Disse ele, afastando-se e apoiando suas costas nos cotovelos, olhando-nos.

         Eu fiquei parado, não entendendo direito o que ele queria. Inúmeras coisas passaram pela minha cabeça, mas eu não tinha certeza do que fazer, até que Yian tocou o meu quadril.

         Virei-me imediatamente. Não foi um toque normal, como algo para me dar força, como ele aparentemente havia se acostumado a fazer; pelo contrário, foi um toque profundamente íntimo, na lateral do meu quadril, perto do cóccix.

         — Yian... — Eu disse, espantado. Ele me olhou com uma espécie de tristeza.

         — Por favor, não lute. Eu acho que não conseguiria derrotá-lo. — Disse ele.

         Eu estava preparado para perguntar o que aquilo significava, mas minhas palavras foram cortadas por algo completamente inesperado. Yian se aproximou rapidamente, mais rapidamente do que eu imaginava ser possível, e me beijou.

 

         Eu fiquei congelado no mesmo instante, sem saber o que fazer realmente. Yian se pressionava contra mim, com suas mãos no meu quadril e sua boca na minha. Senti o gosto de sangue e pressão da dor sobre o meu rosto. Foi um beijo intenso, carregado de sentimentos. Senti a apreensão dele, a dor, a agonia por estar preso naquela casa há semanas. Tudo emanava dele como a luz do sol. Ou talvez apenas eu estivesse vendo-o brilhar.

         As mãos dele se mexiam nas laterais do meu corpo, puxando-me para perto, mas foi nesse momento que eu consegui abrir os olhos novamente. Estiquei o braço e o coloquei entre nós.

         — Yian, o que você está fazendo? — Perguntei boquiaberto.

         — Não se oponha. — Disse ele. — O Mestre quer isso.

         — Mas... — Interrompi, empurrando-o para longe. — Mas eu não quero.

         O silêncio que se seguiu foi tremendamente constrangedor. Yian olhava para mim com estranheza e a súplica ainda não tinha saído de seu olhar. Eu sabia que não deveria me opor, assim como Kaio havia ordenado, mas não conseguia fazer aquilo. Eu não podia transar com um garoto semidesconhecido apenas porque o sequestrador queria. Eu preferia sofrer as consequências da oposição.

         O homem, que ainda permanecia na cama, gargalhou horrivelmente.

         — Eu acho que você ainda não entendeu o sistema daqui, Oliver. — Disse ele, roucamente. — Eu mando, vocês obedecem. Não é tão complicado, é?

         — Mas... Eu não posso. — Respondi.

         — Oliver, por favor... — Yian suplicou, com o olhar espantado. — Será melhor se você não contrariar.

         — Não me obrigue a fazer isso! — Gritei, com o horror ecoando nos fundos da minha voz.

         O garoto recuou, dando um passo para trás, como se estivesse com medo, mas eu não tinha certeza do que fazer após isso.

         Aconteceu tudo muito rápido.

         Num instante, eu estava olhando para o sequestrador, que também parecia um pouco espantado; em outro, tinha me afastado, chegando perto da porta e agarrado a escopeta que repousava sem uso no chão. Não sei como consegui a coragem, mas apontei a arma para o sequestrador. Naquele momento, as regras se alteraram: não se tratava mais de aceitar o que era ordenado, ou ser morto.

         Era matar ou morrer.


Notas Finais


OKAY retornará no dia 18 de Dezembro. Até mais <3


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