História Os contos do Flautista - Capítulo 1


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Filosofia, Originais, Psicologia, Reflexões
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Entrevista para ser humano (vagas limitadas)


Esta história me foi contada há muito tempo. Tanto tempo que nem me lembro mais do nome da pessoa ou de seu rosto, mas lembro vividamente de que era uma mulher e da narrativa profunda que me fez. Tal como eu, ela estava abismada, profunda e irremediavelmente curiosa para saber de onde toda aquela convicção vinha, mas, para que entendam, é preciso começar do início.

Creio que tenha sido numa tarde de segunda-feira, quando ela (vamos chamá-la de Marie) estava já cansada de entrevistar tantos adolescentes cheios de hormônios e afobados. Naquele instante, faltavam apenas mais três candidatos e o tão sonhado fim de trabalho e início de descanso estaria em suas mãos.

o antepenúltimo jovem era alto e estava vestido de forma completamente elegante, formal, como se aquele fosse seu primeiro dia de trabalho na empresa da qual ela era dona. Ponto positivo pra ele por sua higiene impecável. Sentou-se educadamente apenas quando lhe foi mandado e iniciou a conversa apenas depois de Marie.

- O que deseja do seu futuro, Arthur?

Foi a pergunta de número quatro (de cinco).

- Desejo um futuro brilhante, abastado e feliz, onde tudo que eu tenha desejado se torne realidade e nada me falte. Sei que esse futuro chegará, porque eu quero que ele chegue e eu sempre consigo o que quero.

Resposta cheia de convicção, nenhum gaguejo ou hesitação e brilho confiante no olhar. Mais um ponto positivo para ele.

- E o que espera desta empresa?

Última pergunta.

- Que seja uma grande experiência, que eu aprenda e cresça com ela, que trabalhe bem.

Foi o fim da entrevista. Ela o dispensou e, na lista à sua frente, circulou o nome de Arthur. Parecia ser um bom rapaz e ela estava pensando seriamente em contratá-lo.

- Próximo.

O candidato seguinte também se vestia de forma impecável, porém usava cabelo longo, algo não muito agradável esteticamente no ambiente de trabalho.

O rapaz deu quase as mesmas respostas para Marie e isso a deixou desconcertada, havia um empasse em qual dos dois escolher.

- Próximo.

Este era um candidato peculiar, muito incomum. Suas roupas não estavam adaptadas para a ocasião e ele não parecia se importar. Foi um fato tão curioso que Marie se obrigou a dar uma olhada em seu perfil.

- Sr. Wane, aqui diz que possui ficha criminal. –Ela observou espantada- Sabe que um dos quesitos para o aceitarmos aqui é a ausência de ficha criminal, não é?

- Sim, eu sei.

- E mesmo assim veio?

- Estou aqui, não estou?

- Eu não entendo…

- Antes de assustar-se com o monstruoso fato de eu possuir ficha criminal, gostaria de saber do motivo?

Marie se encontrava deveras confusa com a situação que estava se desenrolando. Quem era aquele homem ousado que, mesmo sabendo que não seria aceito, veio e ainda lhe perguntava se queria saber de sua vida?

Curiosa ela estava, não podia negar.

- Conte-me.

- Então, srta. Marie, o motivo para o qual eu fui para a cadeia foi furto. Sim, eu sei que parece não aliviar o peso de tão impactante imformação, mas a senhora imagina o que eu roubei?

- Nem consigo sonhar com isto.

- Eu roubei alimentos para algumas pessoas carentes. Não foi a primeira vez, eu admito, mas ali foi onde me pegaram. Quem eu roubava, a senhora deve se perguntar, e eu respondo: imensos e massivos supermercados que ofereciam seus produtos a preço de banana simplesmente pela rapidez com que iam embora. Que mal faria alguns alimentos a menos? Mas a senhora deve estar pensando que roubar é errado, e eu concordo.

- Eu…

- Sim, eu sei, a senhora não compreende. Se eu concordo, por que roubei? Bem… É simplesmente porque acho roubar errado, mas acho mais errado ainda deixar famílias com fome todas as noites, todos os dias, pensando se no dia seguinte terão mais que um pão ou mais que a única refeição do dia anterior para comer. Acho errado que pessoas passem fome, sofram, quando existem ricos glutões se empanturrando da lagosta mais cara que nunca souberam o que era sentir uma dor insuportável no estômago vazio.

- Mesmo que sua causa seja nobre, ainda é errado, e essas pessoas só terão o que comer naquele dia, e depois? Vai roubar pelo resto da vida para que elas vivam felizes? Vai roubar o mundo inteiro para que todas as pessoas que passem fome sejam felizes?

- Essa seria uma boa ideia, se eu pudesse pô-la em prática. Mas me diga, Marie, como se sentiria sabendo que, mesmo que não tenha acabado com a fome mundial ou dado uma vida feliz e abastada para aquelas pessoas, você as deu esperanças e forças para suportar aquele vazio no estômago e afastar o vazio na alma? Como, em seu âmago, se sentiria em ser a felicidade e esperança de alguém? De ser esperado diariamente para alguns minutinhos de algo que pode não ter amanhã?

- Eu… Acho que isso é egoísmo demais. Uma necessidade de sentir-se bem consigo mesmo para se redimir de alguns pecados.

- E se for? Que mal há nisso? Se estou beneficiando pessoas com meu egoísmo e autopunição, por que parar? Será que só se deve fazer algo bom quando se tem desejos “puros”?

- Não, eu não-

- Marie, isso já não é egoísmo? Deixar de ajudar porque seus motivos não são dignos ao seu ver ou das outras pessoas? Agora mesmo, você não irá me contratar porque não estou dentro do padrão de vestimenta ou comportamento de uma empresa. Não pareço um bom empregado, mas estão me julgando de forma fútil e deveras egoísta; por que? Bom, porque, pra início de conversa, esse julgamento vem do desejo de querer apenas os melhores –em todos os sentidos- na empresa, uma forma de garantir que ela seja bem sucedida esteticamente, não é pra encontrar bons profissionais. Vocês não podem se basear em minhas roupas e meu cabelo para saber como trabalho e o que sei fazer. Muito menos em minha ficha criminal.

Depois daquela longa frase, o senhor Jhon deixou a sala sem levar sua pasta surrada consigo. Ele não foi contratado e nunca mais Marie o viu, mas suas palavras ficaram na mente dela e na minha até hoje. Não pelo fato do que elas significavam de uma forma objetiva, direta, mas pelo fato de que elas faziam com que você percebesse uma coisa: julgamos demais.

Julgamos as pessoas antecipadamente. Criamos padrões. Estereótipos. A imagem de boa pessoa e má pessoa. Mas tudo isso é influenciado. Nos influenciamos uns pelos outros e acabamos não tendo controle sobre nossos próprios domínios: as palavras. Podem parecer coisas simples, mas, se você parar pra pensar, as palavras são as coisas mais poderosas que existem. Elas iniciaram tudo e podem terminar tudo, foram nossas criações, mas se voltaram contra nós.

Preconceito. Bom. Mau. Útil. Inútil. Moda. Essas são as nossas vilãs, as palavras que definem o que somos e como vamos ser dentro da sociedade. Permitimos que elas nos enganem, manipulem, principalmente as palavras saídas da boca de outra pessoa. Demônios que possuem os seres humanos e os jogam uns contra os outros, dominam suas formas de pensar e viver.

Bem… Minhas reflexões e minha pequena história já tiveram sua vez. Agora é a sua.

Prefere refletir silenciosamente ou dar poder às suas palavras e fazê-las me alcançar?


Notas Finais


Próximo conto sem data de postagem.


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