História Os filhos do tigre - Capítulo 22


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Categorias A Maldição do Tigre
Personagens Alagan Dhiren Rajaram (Tigre Branco "Ren"), Kelsey Hayes, Nilima, Personagens Originais
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Palavras 1.970
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ficção, Misticismo, Romance e Novela, Saga

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 22 - A reunião - Sohan


Recebi o memorando da empresa, informando que Kamala havia voltado a integrar o conselho diretor e que estaria presente na próxima reunião de diretoria. Tentei não me emocionar, mas era impossível não ficar apreensivo. Eu estava ansioso pela reunião, apenas para vê-la. Tentei o tempo todo lembrar-me de que ela logo estaria casada.

Também havia a informação de que outro acionista passaria a integrar o conselho diretor da empresa.

" Anik?"

No dia da reunião, eu fiquei muito surpreso quando vi Anik entrar na sala, vestindo terno, ao lado de Kamala. Os dois entraram e sentaram-se à mesa, ao lado um do outro. Meu amigo acenou para mim discretamente e voltou sua atenção à irmã.

Robert deu início à reunião explicando sobre as mudanças que iniciaríamos na empresa. Ele parecia perturbado e um pouco triste. Percebi que ele evitava olhar para Kamala e que os dois pareciam distantes. Robert continuou.

— Como todos os que leram o memorando devem saber, nós estamos recebendo Kamala de volta ao conselho diretor. Seu irmão Anik também passa a integrar este conselho. Como ambos são acionistas, eles têm o direito de pedir intervenção em qualquer mudança relacionada às empresas. Sendo assim, Kamala pede veto ao fechamento da sede indiana.

Todos pareceram surpresos. Houve murmúrios vindo de todas as direções. Robert seguiu friamente:

— Dois dos acionistas querem que as mudanças propostas e estudadas pela presidência e por esta diretoria sejam vetadas. Nós sabemos que sem estas mudanças, os ganhos da empresa diminuirão. Com isso, muitos dos investidores que nós conseguimos nesta gestão nos deixarão. Mahish, nosso principal investidor, já deixou claro que não continuará conosco, caso a matriz indiana não seja fechada e transferida aos Estados Unidos. Nós sabemos que aquela sede é obsoleta e que não faz sentido ela continuar ali. Ainda assim, a senhorita Kamala e o senhor Anik desejam impedir estes avanços. Por este motivo, faz-se necessário que se abra votação em relação a estas propostas. Votarão os três principais acionistas, o presidente, representando os acionistas menores e a diretoria. Podemos começar?

— Antes de começarmos — interrompeu Kamala— eu gostaria de dirigir-me aos meus colegas.

Ela se levantou e caminhou até à frente. Robert sentou-se incomodado.

—As indústrias Rajaram pertencem à minha família há quase três séculos. A empresa nasceu e cresceu dentro de princípios sólidos de respeito aos seres humanos. Minha família é indiana, como são as Indústrias Rajaram. Muitos indianos dependem desta empresa. A economia de um região inteira gira em torno desta indústria. O que estas pessoas farão quando não tiverem mais seus empregos?

Kamala sinalizou para Anik, que levantou-se e conectou o computador a um projetor.

— As fotos que vocês verão a seguir, foram tiradas por mim, durante uma viagem recente à Índia e arredores. Isso é a realidade da maioria das pessoas da região.

Uma série de fotos foram passando pela tela: favelas, crianças e mulheres carregando pedras, pegando comida em lixões, disputando alimentos com urubus, meninas em prostíbulos, meninos desnutridos e doentes, mulheres mutiladas pedindo esmolas nas ruas. As cenas eram tão fortes e brutais que me custou acreditar que Kamala tivesse visto aquilo com seus próprios olhos, me doeu o coração. Então imaginei o quanto aquilo foi marcante para ela. Senti muito orgulho da mulher que eu amava. Kamala continuava falando:

— A pobreza, ela existe no mundo todo e ela é brutal. Nós todos aqui temos vidas confortáveis, ganhamos muito dinheiro graças ao nosso trabalho, graças a esta empresa. Nós sempre tivemos lucros, algumas vezes menores, outras maiores, mas sempre ganhamos muito dinheiro. Não faz sentido sacrificarmos outras pessoas para obtermos ainda mais lucros. Não podemos aceitar que pessoas percam seus empregos, unicamente para que nós, ricos, fiquemos ainda mais ricos.

Enquanto Kamala falava, as fotos chocantes continuavam aparecendo atrás dela. Robert parecia irritado quando a interrompeu.

— Você fala como se estivéssemos fazendo algo errado Kamala. Nós trabalhamos muito, estudamos e lutamos muito para ganhar esse dinheiro, para obtermos esse conforto que você citou. Não temos que nos envergonhar por termos obtido sucesso. Eu compreendo seu desconforto, já que você nasceu tão rica, sempre teve tudo o que desejou. Deve ter sido difícil para você saber que existe algo diferente do que você conhecia, saber que nem todo mundo tem as facilidades que você sempre teve. Que a maioria de nós tem que trabalhar para adquirir as coisas.

Robert falava como se estivesse magoado com sua noiva. Ele parecia querer magoá-la também. Mas Kamala o olhou com firmeza, sem se deixar abater, então respondeu:

— É verdade Robert, você tem razão. Eu não conhecia o que há de pior no mundo. Agora eu conheço. E ao conhecer todo esse mal, eu mudei. Se vocês o conhecessem, também mudariam. Ao vivenciar tanta miséria e sofrimento, só há uma escolha a ser feita: tornar-se um Deus ou um demônio.

Houve murmúrios e risinhos debochados. Eu estava atento às palavras de Kamala, tentando compreender.

— Sim. Se você opta por cruzar os braços, ignorar o sofrimento das pessoas, você está escolhendo o caminho do mal. Mas se você resolve tomar uma atitude e fazer algo para mudar esta situação, aí você escolhe o caminho do bem. Está é a analogia que eu faço com os deuses.

— Senhorita Rajaram — um diretor a interrompeu— eu compreendo seu ponto de vista e sua preocupação. Mas quem tem que cuidar do povo são seus governos. Não somos políticos, mas empresários. Nós pagamos nossos impostos, essa é nossa obrigação. Os governantes devem usá-los de maneira correta. A senhora não acha?

— Acho. Por isso não quero fechar a sede indiana. As pessoas precisam de seus empregos. A comunidade precisa do dinheiro de nossos empregados e o governo precisa dos nossos impostos. O que devemos fazer é modernizar aquela empresa e não fechá-la.

— Mas perderemos Mahish.

— Nós nunca precisamos dele. Peço a todos que pensem a respeito do que eu disse e mais tarde votem comigo. Bom dia senhores.

As palavras e as imagens que Kamala mostrou me impactaram sobremaneira. Durante tanto tempo eu me concentrei no trabalho, em aplicar as teorias de mercado que eu aprendi na faculdade e cujo resultado esperado era o aumento do lucro, e estava tão satisfeito por estar conseguindo estes resultados na empresa, que desconsiderei todo o resto. Por todo este tempo, eu estive em uma bolha. Kamala acabara de estourar esta bolha e eu ainda estava me sentindo perdido.

Robert encerrou a reunião e avisou que todos deveríamos voltar na manhã seguinte para a votação. Eu pretendia me aproximar de Anik e Kamala, mas eles foram imediatamente cercados por membros da diretoria curiosos. Robert me chamou e pediu para conversarmos. Quando estávamos sozinhos, ele pediu meu apoio.

— Kamala terminou comigo. Ela fez esta viagem louca e não está pensando direito. Você e eu somos homens de negócios e temos que nos manter racionais. Tudo o que ela mostrou é muito tocante, mas nós não podemos perder o foco.

— E o que você espera que eu faça?

— Eu sei que você e Anik são amigos. Pensei que talvez você pudesse convencê-lo a votar conosco.

— Não há a menor possibilidade disso acontecer. Anik e Kamala são muito unidos e não há outro motivo para ele vir para a empresa, senão apoiar a irmã.

— Tudo bem. A diretoria não vai se deixar levar pelo discurso de Kamala. Te vejo amanhã.

Robert estendeu a mão e nós nos cumprimentamos. Saí dali com um turbilhão de coisas em minha mente. Tudo o que Kamala disse fazia sentido para mim. Eu nunca tinha pensado sobre aquilo, mas agora eu me sentia responsável por todas aquelas pessoas que estavam sofrendo. Eu sentia que era minha função, nossa função, cuidar das pessoas, dar-lhes alimento, roupas, moradia, trabalho digno.

Eu senti a necessidade imensa de extirpar o mal que havia no mundo. Nem a notícia de que o noivado de Kamala tinha terminado me perturbava naquele momento. Meu desejo não era nada diante das necessidades de tantas pessoas.

Encontrei Anik do lado de fora. Ele estava sozinho, me esperando. Nós nos cumprimentamos e eu brinquei sobre o fato dele estar bem de terno. Anik me convidou para almoçar e eu aceitei. Fomos a um restaurante pequeno perto dali. Enquanto esperávamos a comida, Anik começou a falar:

— Sohan, você entende porque estou fazendo isso?

— Entendo. Você quer dar o voto que Kamala precisa para impedir o projeto.

— Na verdade, não é por isso. Minha irmã precisa de mim e eu sempre estarei com Kamala quando ela precisar. Eu estou aqui para te ajudar a se tornar o Deus que você nasceu para ser.

Eu ri.

— Você quer que eu vote junto com vocês.

— Não. Essa decisão é sua. Não posso te ajudar com isso. Mas eu sei que as palavras de Kamala tocaram em você. Você sentiu a mesma necessidade que minha irmã de ajudar aquelas pessoas, de fazer algo por aqueles que necessitam de você. Você também se sente mal por nunca ter feito nada por elas.

— Sim. Admito que não consegui pensar em mais nada. As palavras e as fotografia que Kamala trouxe mexeram comigo de uma forma poderosa. Não consigo pensar em mais nada, a não ser no fato de eu ser um indiano privilegiado que nunca se preocupou com os outros.

— Eu percebo. Nós estamos conversando há quase uma hora e você ainda não me perguntou pela minha irmã, nem mencionou o fato de ela ter terminado seu noivado.

Anik estava certo. E eu disse isso a ele.

— Então Anik, o que eu devo fazer.

— Você deve ficar sozinho e pensar irmão. Vá para a sua casa, deite-se um pouco e durma. Você vai acordar com as respostas de que você precisa.

Naquela tarde, eu fiz algo que não fazia há anos. Seguindo o conselho de Anik, eu fui para casa e dormi. Então eu tive um sonho.

Sonhei com uma batalha. A deusa Durga montada em um tigre negro lutava contra seres demoníacos. O tigre tinha olhos dourados como os de Anik e a linda deusa tinha os olhos verdes e cabelos negros. Mas havia outra deusa, montada em um tigre branco. Eu os via de longe. Eles lutavam contra um demônio parecido com um búfalo. O demônio atingiu o tigre branco que caiu morto a seus pés. A deusa prateada gritou em agonia. O tigre negro veio em seu socorro. Então o sonho mudou. Um homem com os mesmos olhos dourados do tigre lutava contra um homem de aparência demoníaca. O demônio se ajoelhou diante do homem de olhos dourados que se compadeceu. Então o demônio lhe desferiu um golpe, ferindo-lhe a barriga com a faca. O homem olha ao redor e seus olhos encontram os olhos cor de violeta de uma mulher. Então a ferida dele se cura. O homem e a linda mulher saem pela cidade, curando os doentes, alimentando os famintos, vestindo aqueles que estavam nus. Então eu estou parado, de frente para um homem velho e pequeno, vestido como um xamã. Ele olha para mim e diz:

— Você entende porque estou fazendo isso Sohan?

Então, Kamala estava a meu lado, olhando adiante, para um caminho. Havia lixo e esgoto a nossa frente. Havia pessoas miseráveis, doentes e famintas ao longo do caminho. Kamala sorriu para mim. Eu senti paz e alívio. Ela segurou minha mão e nós começamos a caminhar. A cada passo que dávamos, o cenário ia mudando. Ao invés de lixo, havia grama verde e árvores. Ao invés de esgoto, água limpa. As pessoas nuas eram vestidas, os famintos eram alimentados e os doentes se curavam. Ao fim daquele caminho, havia luz e calor, e todos ao redor estavam felizes. Então, Anik nos esperava do outro lado. Ele olhou para mim e eu estava sozinho novamente. Anik sorriu para mim e disse:

— Você entende porque estou fazendo isso Sohan?

Então eu acordei. E compreendi. Era hora de fazer uma escolha.

 



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