História Os Fracos Nunca Mentem - Capítulo 7


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Anastácia, Fascismo, Fascista, Gangue, Lgbt, Nazismo, Nazista, Revolução, Romanov, Rússia, Skinhead, Trans*, Transexualidade, Transgeneridade
Exibições 37
Palavras 7.542
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Seinen, Shounen, Suspense, Violência, Yaoi, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Pansexualidade, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 7 - Saudades


Máxim P.O.V

Mais um dia de semana. Tive que vir agora de manhã pro supermercado fazer compras antes do trabalho. Uma das piores partes de morar sozinho, sem dúvidas. É uma merda, poderia ser até menos pior se eu ao menos soubesse cozinhar.

Tem uns sete ou oito meses que eu voltei a morar aqui em São Petersburgo. Antes disso, morava com o meu pai em Moscou, longe do centro, em uma casa meio afastada e com poucas pessoas morando pelos arredores. Fui pra lá com doze anos e agora tenho vinte e quatro, ou seja, já faz um tempo que não venho pra cá.

O único emprego descente que eu consegui arranjar em São Petersburgo foi como atendente em uma loja de eletrônicos no shopping. Não foi tão ruim ter me mudado pra morar com ele quanto eu achava que seria. No começo eu odiava, nas primeiras semanas eu só pensava que a minha vida tinha acabado.

Meu pai era um cabeça dura muito rígido, separou da minha mãe quando recebeu uma oferta de emprego em Moscou e achou que seria uma boa ideia me arrastar junto para que eu tivesse uma “presença masculina forte” e não deixasse de ser homem ou alguma coisa assim.

Meu avô fez parte do PFR, Partido Fascista Russo, durante a União Soviética e lutou contra os bolcheviques até o dia da sua morte. Meu pai seguiu os passos dele e me colocou pra fazer o mesmo porque era a única forma de eu me tornar um homem de verdade, segundo ele.

Era horrível no começo e eu odiei meu pai por muitos anos, muito mesmo antes de ir morar com ele, mas hoje eu acabo agradecendo. Ele me ensinou a lutar, a nunca abaixar a cabeça e proteger a nação e o povo russo. Acabei me tornando o filho perfeito pra família Vladimir. Todos os valores que eu aprendi eu devo a ele.

Claro, eu já fiz muita merda nessa vida e já me meti com muita gente errada sem perceber. Fui obrigado a raspar a cabeça e dali só me envolvi em grupos de extrema direita e me tornei Skinhead. Os dias como defensor da continuidade da supremacia branca na Rússia foram os melhores que eu já tive, aprendi como era a vida fora da escola e por isso é uma parte do meu passado que eu não apago.

Mas acabou não dando muito certo. Sem eu perceber, estava liderando um bando de idiotas que eu não via nem de perto como uma família. Eles não eram como eu, só gostavam de ficar arrumando confusão gratuita e com qualquer pessoa, sem um pingo de seriedade. Eles não tinham o menor respeito pela ideologia verdadeira.

Enfim, terminei as compras do mês, finalmente, e fui pra casa de carro. Tinha ainda duas horas sobrando antes de ir ter que trabalhar, o que era tempo de sobra pra poder tomar banho sem pressa. Logo cheguei na minha nova casa, onde moro sozinho e não muito longe do centro.

Guardei as compras na cozinha, separando os congelados do resto da comida. Subi até o segundo andar na direção do banheiro, fechei a porta e entrei no chuveiro. Eu gosto de morar nessa cidade, mesmo não sendo na capital, me sinto mais em casa e melhor estando longe da família de algum modo.

Quando terminei, fiquei de frente para o espelho, ainda sem roupas. Passei a mão na cabeça, o idiota do meu cabelo continuava crescendo e eu continuava sem vontade de voltar a raspar. Na real, dessa parte eu nunca gostei. Eu gostava do meu cabelo, era loiro, ralo e crescia espetado. Por mais que me critiquem por isso acho que eu não quero voltar a tirar. Tudo o que eu fazia mesmo era tirar a barba.

Não sei, acho que eu venho desgostando de tudo isso há um tempo...

Meu pai me levou pra fazer uma tatuagem aos dezoito anos. Ele nunca soube, mas eu já havia feito uma aos dezesseis que tinha um significado especial pra mim. A que ele me levou pra fazer era a suástica que eu tenho no lado esquerdo do peito e ele até hoje acha que foi a minha primeira.

Depois disso, outras tatuagens com a mesma temática iam surgindo no meu corpo. Uma águia negra nas costas, o símbolo do partido do meu avô no canto lateral da barriga, o simbolo da SS na nuca e uma cruz negra no braço. Eu me orgulhava bastante de todos os símbolos que eu tinha.

Como disse, eu não sabia muito bem, mas eu vinha cansando disso há algum tempo. Não tinha mais o mesmo significado pra mim, e tudo que eu quero hoje em dia é entrar pra uma faculdade e arrumar um emprego melhor do que o que eu tenho. Ter uma vida normal, talvez formar alguma família.

As coisas de quando eu era pirralho estavam voltando pra minha cabeça, a época em que eu não ligava pra merda nenhuma e gostava de ficar sozinho. Meu pai me avisou desse risco quando eu pedi pra me mudar pra cá e voltar a morar em São Petesburgo, só que eu achava que era besteira e que isso nunca ia acontecer.

Eu tinha um amigo antes de ir morar em Moscou, um amigo desde que eu nasci. Crescemos juntos, fazíamos luta juntos e estudávamos na mesma escola. Assim como eu, quando criança ele também não tinha nenhum outro amigo e por isso ficávamos a maior parte do tempo ou no parque ou na casa um do outro, apesar de nossas famílias nunca terem se gostado.

As crianças costumavam pegar no nosso pé por causa disso e diziam que éramos viados e outras coisas piores. Eu não ligava pra isso na época, também não gostava dos outros garotos então preferia ficar na minha. Ele também nunca pareceu se importar muito pra isso.

Depois de me mudar, eu nunca mais o vi, e isso tem doze anos. Me separar dele foi a parte mais difícil da mudança, sem sombra de dúvidas, tanto é que a minha primeira tatuagem foi em homenagem a ele. Hoje em dia eu tenho vontade de procurá-lo, mas eu não faço ideia de como ele esteja e eu não sei se realmente é uma boa ideia. Provavelmente nos tornamos pessoas bem diferentes, eu tenho medo que ele tenha se tornado viado de verdade ou comunista como a família dele.

(…)

Trabalho aqui em uma loja de eletrodomésticos. É até melhor do que eu esperava, dá pra ficar vendo televisão o dia todo e tem um bom fluxo de clientes, o que me torna ocupado e me livra do tédio. Só saio mesmo daqui quando me especializar em alguma coisa que eu nem faço ideia do que seja.

A porta de entrada abriu e um cara entrou aqui na loja. Era um policial que eu já conhecia, já trabalhou em Moscou e se mudou pra cá acho que tem dois ou três anos. Já tinha o contato dele desde muito tempo, o pai dele era amigo do meu e vice-versa.

– Hey, Máxim! – Quando entrou, ele logo veio no balcão onde eu estava.

– E aí, oficial Gav. Como cê tá?

– Tô ótimo. A minha irmã vai se casar nesse fim de semana e eu tô aproveitando a folga pra dar um presente pra ela. Você tem aí alguma máquina de cappuccino?

– Tenho sim, quer que embrulhe pra presente?

– Pode ser. E como você tá? Outro dia um garoto foi preso por depredar patrimônio público, vê se toma cuidado.

– Eu não faço mais esse tipo de coisa, Gav, na verdade eu já abandonei esse tipo de gente há uns tempos.

– Que bom então, é bom ver os garotos tomando jeito depois de adultos! Bom, eu já vou nessa, valeu.

– Valeu, bom casamento.

Já faz realmente uns meses que eu me separei do grupo. Quando eu voltei pra essa cidade, eu pretendia ficar com o primeiro que aparecesse e continuar fazendo tudo o que eu fazia lá em Moscou, mas não deu, acabei perdendo totalmente o interesse.

Fazia tempo já que eu mantinha uma vida, digamos, “normal”, só entrando e saindo de casa. Às vezes vou dar uma volta sozinho e outras vezes fico lendo livros em casa, coisa que o meu pai sempre abominou. Talvez seguir a mesma rotina que ele seguiu durante a vida toda não seja pra mim, acho que já é hora de amadurecer.

[Ring ring rin]

Meu celular tocou e quando eu fui ver quem estava ligando era o número da mãe da Lili, a garotinha que eu tomava conta em alguns finais de semana e que insiste em me chamar de tio mesmo não tendo laços parentais.

– Alô?

Oi, Máx! Como você tá?”

– Tô trabalhando agora, mas tô bem. E a senhora?

Ah, eu não quero te atrapalhar, querido. É que hoje é o meu aniversário de casamento e a gente queria ir jantar fora. Tem como você ficar com a Lilia?”

– Posso sim, hoje não vou fazer nada além de ficar em casa mesmo.

(...)

Às quintas eu entrava e saía mais cedo que o de costume. Eram cinco da tarde e eu já estava em casa, jogado no sofá, de frente para a minha estante de livros. Percebi que tinha vinte e cinco anos e não fiz nada do que eu queria da minha vida.

Quando eu era criança, eu gostava de livros e queria ser escritor, mas o meu pai disse que era perda de tempo e que livros eram objetos de manipulação comunista e coisa de bicha. Quando eu era adolescente também já quis fazer medicina veterinária, o que foi pior ainda pra ele.

Hoje eu não faço ideia do que eu seria, mas eu não quero ser como esses merdas da nova geração que só pensam em ficar quebrando coisas, pichando muros e batendo em quem vier pela frente. Isso não deveria nem ser chamado de Skinhead, eles provavelmente não leram porra nenhuma sobre a ideologia.

Fui ao meu quarto, tinha que dar um jeito em todos esses pensamentos ao invés de ficar perdendo tempo. Lá eu tinha a minha estante de troféus de luta, um computador, uma bandeira grande e vermelha com a suástica na parede atrás da capa, alguns posters também relacionados ao nazismo e outras bandeiras menores espalhadas.

Deus, eu não pensei que iria chegar ao ponto de cansar desses símbolos tão rápido. Meu pai me avisou os perigos de voltar a morar onde eu nasci, ele costumava dizer que eu ficaria tendo lembranças do passado e me conformaria a ter uma vida confortável e pacífica. Não foi nem essa a questão, eu só não esperava que os grupos ultranacionalistas daqui tinham entrado em extinção e sido substituídos por merdinhas que deixaram os hormônios da adolescência subir a cabeça.

Mas, pior ainda, eu não quero passar a minha vida toda lutando por uma coisa que eu não tenho certeza se eu acredito. Eu não pensei que fosse mudar tanto em menos de um ano só por causa dessa merda de lugar. Eu não sei mais qual caminho eu sigo. Talvez o meu pai tenha razão, talvez esse lugar possa ter me despertado algumas lembranças, mas e daí?

Subi na minha cama. A bandeira estava pregada na parede. A puxei rápido e ela acabou rasgando nas pontas graças aos pregos. Não vou me desfazer dela totalmente, isso eu não conseguiria, só preciso tentar algum novo rumo, e até lá, ela vai ficar guardada no armário junto com as outras e com os posters que também remetam a ela.

Eu também preciso dar um jeito nas minhas lembranças...

Eu era um garoto muito, mas muito tímido, por mais que doesse admitir isso. Meu único amigo era Alexis, ele morava na casa ao lado da minha e tínhamos aulas tanto na escola como de luta juntos.

Os outros garotos não gostavam nem dele e nem de mim. Sempre ficavam puxando o nosso saco e ficavam dizendo que seríamos inúteis pro resto de nossas vidas. Isso tudo porque na verdade preferíamos ficar juntos na praça fazendo qualquer merda que duas crianças fariam do que ficar se metendo com esse tipo de gente e arrumando briga gratuita.

Mesmo assim eu ainda preferia ficar na minha, às vezes, mais do que ele, lendo. Eu gostava de ficar o observando, não demorou muito pra que Alexis fizesse alguns outros amigos, já que ele era bem mais falante que eu. Eu gostava disso, de algum jeito. Não tinha inveja nem nada do tipo, até porque ele sempre deixava bem claro que o único melhor amigo dele era eu.

Ele era forte, bem forte, e se a gente não acabava empatando durante as aulas de luta, ele acabava me ganhando. Era um porre, mas eu tinha que admitir pra mim mesmo que eu não era desse tipo que ficava arrumando brigas por aí. Na verdade, quando criança, o máximo que eu consegui foi empurrar outro garoto e sair correndo depois. Uma merda, eu sei.

Minha mãe ficava preocupada comigo, mas meu pai era pior. Ele não deixava eu faltar de jeito nenhum às aulas de luta e me espancava se eu voltasse com algum ferimento mesmo se não fosse por briga nenhuma. Ficava falando que eu tinha que me tornar um homem de verdade e parar de ser mole, parar de ficar lendo as merdas que eu lia porque era perda de tempo. E ele já queimou alguns livros meus, por isso eu lia escondido.

Quando meu pai se mudou pra capital, Moscou, eu tive que ir forçadamente com ele. Eu tinha uns doze anos eu acho, o mais difícil foi deixar Alexis pra viver sozinho. Eu não sabia viver sozinho, principalmente do jeito que o meu pai vivia. Ele me ensinou que eu deveria enfrentar os outros e bater em qualquer um que viesse me enfrentar.

Ele ficou bem mais rígido quando fomos morar juntos sem a minha mãe. Me fez andar com outros tipos de garotos, bem diferentes de Alexis e que  pregavam a superioridade da nossa raça, expulsavam os imigrantes que roubavam empregos do nosso povo, proibiam gays de estarem perto de crianças e praticavam esportes juntos pra aumentar a resistência. De algum jeito ou de outro eu aprendi que o meu pai só queria me proteger e proteger o seu país, então eu acabei me adaptando.

Os primeiros anos foram terríveis e eu tentava fugir de casa a todo custo, porém fui me tornando mais forte. Eu não voltava com cicatrizes e minha literatura foi substituída por filmes de gente como Leni Riefenstahl e Walter Ruttmann. Foi nessa época que eu aprendi a fumar e entrava em ambientes pra adultos com os outros pra ficar com algumas mulheres.

Eu fui forçado a deixar de ser um merda pra ser alguém que trouxesse orgulho ao meu pai. As lições que eu aprendi com ele eu nunca vou esquecer, mas alguma coisa grita em mim pedindo pra que eu retome esse passado e descobrir o que eu perdi nele.

Deixei o meu quarto e desci até a sala de estar, onde peguei o telefone da casa. Liguei para o número de Gav, o policial que me conheceu quando morava com meu pai e que tinha me dado esse número para quando eu me metesse em alguma confusão e precisasse de ajuda. Bom, não é a ocasião, mas se ele puder me ajudar com isso eu ficaria grato.

Alô?” – Gav atendeu, era a primeira vez que eu ligava pra ele.

– E aí, oficial. É o Máxim.

Hey, Max! Como estão as coisas desde que eu saí daí?”

– Eu já encerrei o meu trabalho por hoje. Escuta, eu queria te pedir um favor...

Fala aí.”

– Você pode localizar uma pessoa pra mim?

Puts, isso que você tá me pedindo é complicado. Eu não posso fazer isso sem um motivo legal.”

– Você sabe quem é, eu já te falei sobre ele. É o garoto que eu conhecia quando morava com a minha mãe.

Hum, tá querendo retomar amizade?”

– Se você pudesse me dizer o endereço... por favor, não é como se fosse nada ilegal, é por um bom motivo.

Tá bom então, já que é por um bom motivo eu quebro essa pra você. Lembra do nome e sobrenome dele?”

– Alexis Ivanov.

Já te retorno, me dá uns dez minutos.”

– Valeu! De verdade.

Desliguei o telefone e fiquei esperando. Eu não sei bem o que vai sair disso, só sei que eu preciso tentar ir até a casa dele e pelo menos dizer um “oi, eu voltei pra São Petersburgo”. Mas considerando que ele continue o mesmo de sempre, o que ele vai dizer sobre mim? Eu sei que eu mudei radicalmente e naquela época nós jurávamos que não seríamos como os garotos que nos batiam nunca.

Não vou mentir pra ele, isso não. Se o assunto surgir, eu vou dizer que me tornei uma versão 2.0 do meu pai. Só tenho medo de como ele vai estar, se passaram já doze anos que eu não o vejo e ele sempre foi meio contraído em certas questões. E se ele tiver virado gay ou alguma coisa dessas? Eu não sei como eu iria reagir.

– Alô? – Meu telefone tocou e antes mesmo de parar o primeiro toque, eu atendi na hora.

Hey de novo!”

– Conseguiu o endereço, Gav?

Sim, seu amigo mora na rua Очень высокая, bem no centro. Número 182.”

– Valeu mesmo, fico te devendo!

Desliguei o telefone na mesma pressa em que atendi, escrevendo o nome da rua tão rápido que acabou ficando difícil de ler. Pus minha jaqueta preta, uma calça jeans e uma camisa branca pra ir encontrá-lo. Não era muito perto de onde eu morava, teria que pegar um ônibus, mas seria rápido.

Saí de casa e por sorte o ônibus estava já no ponto. Corri para não o perdê-lo e entrei antes que as portas se fechassem completamente. Quando me sentei, um nervosismo subiu e os meus dedos começaram a se bater uns nos outros. Precisava me acalmar antes que ficassem olhando pra mim como se eu fosse um estranho, mas é difícil quando você tá prestes a rever uma pessoa que você nem sabe se lembra de você.

E se ele simplesmente bater a porta na minha cara e achar que eu sou um estranho? E se ele tiver lembranças boas de mim antes, mas acabar me odiando quando me vir? E se eu acabar o odiando quando o vir? Será que é mais fácil deixar essa merda toda pra lá?

Não, não, os dias sendo um covarde precisam ser deixados pra trás. O ônibus estava perto da estação e eu levantei pra sair, mantendo meu pulso o mais firme possível. Coloquei minha mão no bolso, saí do ônibus quando ele parou e fui andando em direção à rua.

Foi fácil de achar, realmente. Todas as casas estavam ao lado uma da outra e com seus respectivos números. Andei mais um pouco, até que o 182 estivesse à minha frente. Fiquei parado na calçada, olhando um pouco e engolindo seco antes de ter coragem de ir tocar a campainha.

A casa era branca, de tamanho médio e com janelas grandes fechadas com cortinas. Não dava pra ver como era por dentro estando do lado de fora, que sorte, me deixaria mais tranquilo se eu pudesse ter alguma noção de quantas pessoas moram ali além dele. Deixei os receios de lado e finalmente toquei a campainha.

Quem é?! – Uma voz gritou lá de dentro, distante. Parecia ser uma voz feminina. Será que ele é casado, então? Sei que não pode ser nenhuma irmã, então pelo menos ele não é gay como eu desconfiava, o que já era uma coisa positiva.

Mas não respondi, até por que o que diabos eu responderia? Só toquei a campainha rápidas vezes pra chamar a atenção de quem quer que fosse.

Já tô indo, caramba, para de tocar isso!

Seja lá quem for a esposa dele, é alguém bem impaciente.

Enfim, ouvi passos vindo em direção a porta e parei de tocar a campainha, ainda um pouco nervoso por estar naquela casa indo ver aquela pessoa. Quando a mulher rabugenta chegou, a porta foi abrindo devagar até que eu pudesse vê-la...

– Han?

– Ahn?

Oi”? Foi a reação mais próxima que eu tivesse. Que merda, que susto! Fiquei estático e sem reação. “Que porra estava acontecendo ali?” Pensei. A mulher que me atendeu, eu já conhecia muito bem, infelizmente. Era Anastácia, aquela praga que trabalha em um bar com quem eu acabei me envolvendo graças ao pior incidente de toda a minha vida.

– Que porra você tá fazendo aqui?! – Ela me perguntou, com cara de ódio. Aquele micro cachorro dela também tava lá, latindo pra mim.

– Rawr!

– “Que porra eu tô fazendo aqui”? Isso sou eu que tinha que te perguntar! – Respondi, com o mesmo ódio, talvez até mais, junto com frustração. – Que porra você tá fazendo aqui?

– Hã? Eu moro aqui, idiota!

– Como assim você mora aqui?

– Além de stalker você também agora me seguiu pra descobrir onde eu moro? Francamente, eu deveria chamar a polícia, é perigoso ter você aqui!

– Pera, o que diabos tá acontecendo? Você que é a mulher dele?

– Tá doido? Eu não sou de ninguém não, sai fora!

– Não precisa falar comigo desse modo, seu troço mau-educado.

– Você invade a minha casa e acha que pode me cobrar educação?

– Eu não invadi nada, eu mal pisei nesse teu núcleo de perversidade.

– E pode me dizer o que você quer aqui na minha “gruta maligna”?

– Eu não quero nada, acho que eu me perdi... que droga, mas o endereço é esse. – Fiquei olhando pro papel que eu tinha deixado o endereço. – Tem alguma coisa errada...

– Posso ver isso? – Entreguei o papel com o endereço pra ela. – Que letra péssima... não é à toa que você se perdeu.

– Não, eu tenho certeza que esse é o endereço. Não tem ninguém que more aqui além de você?

– Nop, eu moro sozinha. Tem uma rua aqui atrás que é parecida com essa, você pode dar uma olhada lá.

– Tem certeza mesmo?

– Se eu tenho certeza que eu moro sozinha? Bom, acho que sim. Mas também eu moro aqui tem só uns quatro anos, já aconteceu de eu receber correspondência dos antigos moradores. Você deve ter se confundido.

– Pode ser isso... – Que furada que eu acabei dando, e justamente tive que encontrar essa pessoa.

– Então boa sorte pra encontrar essa casa aí. – Ela ia fechando a porta.

– Espera! – Mas eu acabei colocando o pé na quina pra não fechar.

– Que foi?

– Faz tempo que a gente não se vê. – Apoiei minhas costas na lateral da porta dela pra não ter como fechar de qualquer jeito e fiquei a olhando, mas o que recebi em troca foram olhares de estranhamento.

– É, você nunca mais voltou a me perseguir lá onde eu trabalho.

– Qual é, não precisa falar assim comigo. Já tem quanto tempo, um mês?

– Por aí, achei que você não fosse mais querer me ver.

– Por que você acha isso?

– Não sei, você ia lá no bar toda semana, até duas vezes na mesma às vezes.

– É que eu acabei estando ocupado com algumas coisas.

– Tudo bem, a gente nunca teve nada definido mesmo.

– Mas então, você quer sair comigo algum dia?

– Se eu quero sair com você algum dia?

– Ou alguma noite.

– E como assim “sair”? – Ela cruzou os braços e me olhou com cara feia.

– Como assim, como assim?

– Sair tipo, em público? Em lugar que tenha gente?

– Não, claro que não, louca. Alguma coisa que envolva menos gente, tipo ficar em casa.

– Argh, sabia. Você nunca sairia em público comigo, você tem vergonha do que iriam pensar de você.

– Ah qual é, pra quê envolver outras pessoas nisso?

– Eu não vou ficar com alguém que tenha vergonha de mim! Eu não quero nada escondido.

– Você quer que a gente filme? Além de tudo você é exibicionista?

– Não é a isso que eu me refiro e você sabe disso. Por que você não me convida pra um restaurante, por exemplo?

– Porquê... – Fiquei pensando no que dizer e ela só continuou a olhar pra mim como se estivesse certa, esperando eu arranjar uma desculpa.

– Hm? Por quê?

– Sei lá, eu não gosto de restaurantes.

– Máxim, admite logo, eu não vou me surpreender.

– Tá bom, eu não quero que me vejam com você e achem que eu sou gay.

– Por que eu ainda me insisto..? – Ela revirou os olhos e me empurrou da porta, fechando-a.

– Espera! – Mas, novamente, pus meu pé na quina para impedi-la.

– Que foi?

– Passa lá em casa. Domingo, oito horas.

– Desiste, Máxim.

– Não, é sério, desculpa. Passa lá em casa e a gente inventa o que fazer hora.

– Não precisa se obrigar a fazer nada, isso é ridículo. Você sabe que você não aguentaria ser visto comigo na rua.

– Eu não tô me obrigando. Vai lá pra casa, eu te levo pro lugar que você escolher, tá bom? Só deixa eu me acostumar, você sabe que não é fácil.

– Não sei.

– Só vai lá, eu vou ficar esperando mesmo se você não for. Você sabe onde eu moro. – Me afastei da porta da casa dela e saí do quintal antes mesmo dela responder alguma coisa.

– Não tenha tanta certeza de que eu vou mesmo. – Ela disse, mesmo eu já estando longe deu pra ouvir, e em seguida, fechou a porta.

(…)

Ok, isso realmente foi muito estranho. Não achei que fosse possível o Gav ter se enganado quanto ao endereço, ele é um policial e deve ter acesso a todos os nomes que moram na cidade. Mas também não vou ligar pra ele perguntando o que houve, já que eu não deveria nem ter perguntado de primeira.

Isso deve ter sido um sinal pra eu desistir dessa história maluca de reencontro. Quer dizer, ok, fomos amigos por doze anos, mas tem outros doze anos que não nos vemos, ou seja, o tempo que passamos longe anula o tempo que nos conhecemos. E se ele se tornou um merda e não valesse da minha amizade? Não que eu não tenha me tornado um...

É complicado pensar nisso. E mais complicado ainda é a questão com essa pessoa. De todos os milhões de moradores da Rússia, por que caralhos eu tinha que ir logo pra casa dessa criatura? Que ódio. Eu já tinha parado de vê-la há três semanas justamente porque é uma péssima ideia ter ela na minha cabeça. Não dá, ela é travesti. Tra-Ves-Ti. Isso significa que nasceu homem e virou mulher, é uma coisa doente... que merda.

E mesmo assim, mesmo sabendo disso, eu tinha ficado com esse ser no dia da nossa vingança. E pior, eu tinha transado com essa criatura na casa dos pais da Lilia. E isso tinha acontecido de novo, e de novo, e algumas outras vezes também.

Eu já tinha ficado com ela atrás do bar, eu já tinha ficado com ela no banheiro do bar, no balcão enquanto não tinha ninguém. Eu já tinha levado ela pra minha casa, já tinha ficado no parque em uma área sem movimentação... Jesus, eu sou doente.

Mas há três semanas eu decidi que tinha que parar com isso antes que se tornasse perigoso. Eu não a tenho visto desde esse período de tempo, e pra quê? Pro destino me fazer bater na porta dela por acidente. É realmente uma merda, e pensar que isso tem ficado na minha cabeça de modo que eu guardasse a minha bandeira no armário e quase quisesse arrancar minhas tatuagens.

Eu nunca rezei tanto pra receber um bolo, espero que ela não venha mesmo domingo. Por que eu não consigo me controlar quando eu vejo ela? Que saco, eu sou um babaca. Um idiota. Eu não posso gostar desse tipo de gente...

Anastácia”

É um nome muito comum na verdade. Eu tenho uma tatuagem com a figura de uma flor de vidro e de seis pétalas azuis. É a figura de um amuleto presente no famoso livro “Anastásia”, que conta a história da família Romanov e que até mesmo ganhou um filme da Disney. Eu tenho esse livro, e até a droga da minha tatuagem favorita precisa remeter a essa pessoa.

Deixa eu procurar aqui.

Estava em casa e me aproximei da minha estante de livros. Esse em específico eu tenho desde criança e foi o único que o meu pai não queimou, jogou fora ou escondeu de mim. Foi o único que eu realmente não deixei. Ele era verde e tinha letras garrafais douradas na capa.

Me lembrava meu amigo Alexis. Ele adorava esse livro e dizia que era o favorito dele, um dos poucos que ele já tinha lido ou se interessava de saber a história. A tatuagem é em homenagem a ele, pra que eu não esquecesse dele ou do meu passado aqui em São Petersburgo.

– Dá até nostalgia...

[Sons de campainha]

Até que eu percebi o quão tarde já era. Oito da noite, hora em que os pais da Lilia viriam trazê-la aqui pra casa pra que eu cuidasse dela enquanto eles jantam fora. Joguei o livro no sofá e fui atender a porta, sendo recepcionado pela garotinha de sete anos e seus pais.

– Tio Máx! – Ela veio correndo até mim e abraçou meu joelho.

– Hey, Lili, quanto tempo!

– Obrigada por cuidar dela por nós. – A mãe me agradece.

– Sim, ela realmente gosta muito de você. – Disse o pai.

– É um prazer cuidar dela, não precisam agradecer. Tenham um bom jantar de casamento vocês dois.

Me despedi deles e logo saíram de carro rumo ao restaurante. Eu realmente gosto de ficar com a Lili, é divertido e parece que eu tenho uma irmã mais nova. Bem melhor do que ficar em casa sozinho sem fazer nada.

Fora que ela gosta de mim e nos damos bem, é bom ter uma criança gostando de você. Tanta gente me acha um monstro, ter alguém pensando o contrário é legal de vez em quando. E ela não dá mesmo trabalho, às vezes é só ler algum livro pra ela que ela já dorme.

– Ei, que livro é esse? – Falando nisso, ela foi direto pro meu sofá, onde eu tinha deixado o livro da Anastásia.

– Você conhece? É sobre a lenda da neta da antiga Rainha Vitória que foi separada da família há muito tempo atrás.

– Acho que eu já ouvi falar... o tio pode ler pra mim?

– Posso sim, claro.

Lili deitou no meu colo e eu comecei a ler o livro. Já não o abria há tanto tempo que estava com cheiro de velho, mas nada que pudesse estragar a nostalgia que era. É ótimo poder lê-lo pra alguém, assim a história, que já é bem conhecida, fica passada adiante. Talvez eu devesse me desprender do passado dando este livro pra ela, quem sabe?

A família Romanov celebrava, enfim, o nascimento do primeiro menino depois de três nascidas meninas. O jovem Czarevich, Alexei Romanov, entretanto, cresceu fraco e esgotante. Tendo uma doença rara em seu sangue, o caçula talvez não estaria apto a tomar o lugar dos pais em um futuro. [...]

Diferentemente de suas irmãs. Anastásia era uma menina robusta e energética, conhecida no reino por seu aspecto extravagante, a menina tampouco se preocupava com sua aparência. Seu senso de humor era apurado e muitos a glorificavam por dotar uma alegria contagiante.”

– A Anastásia não podia ficar no lugar do irmão dela como rainha? – Lili me perguntou, curiosa.

– Não, não, naquela época era o herdeiro homem que tinha que ficar no lugar dos pais.

– E o que acontecia com as filhas?

– Ah, elas iam casando com outros príncipes por aí. Os costumes dos reis são diferentes dos nossos, mas ela tinha o título de princesa.

– Ei, tio Máx!

– Sim?

– O nome daquela sua amiga é o mesmo do livro?

– É sim, mas é um nome comum aqui na Rússia.

– Então quer dizer que ela é uma princesa?!

– Não, não, não. Como eu disse, é só um nome...

– Ahh, que chato.

– Eu vou continuar a ler o livro.

O malvado Rasputin havia lançado uma maldição sobre o reino dos Romanov. Em uma noite de inverno, o palácio foi atacado impiedosamente. A família do Czar foi transferida às pressas para carruagem, precisando fugir o mais rápido possível.

Anastásia, a jovem princesa audaz, entretanto, retomou ao palácio em chamas enquanto seus parentes fugiam. Disse que estava a procura de um amuleto, o presente mais importante que havia ganhado de sua vó, segundo ela, e que não poderia deixá-lo para trás. A jovem de cabelos sedosos, longos e castanhos exclamava que seu presente estava guardado em no quarto e recusou-se a deixá-lo para trás.

Quando conseguiu seu amuleto de vidro estampado com pétalas azuis esverdeadas rodeadas por ouro, cujo fruto destacava um vermelho exuberante, já era tarde demais. Seu quarto havia entrado em chamas e, desde então, muitos pensavam que Anastásia havia desaparecido aquele dia.”

– Ela morreu?!

– Não, ela não morreu, Lili. Um ajudante do palácio a ajudou a escapar, mas infelizmente ela perdeu a memória e esqueceu quem era.

– Tadinha...

– Tudo que ela tinha era o amuleto da avó, que tocava uma música quando aberto.

– E o que aconteceu?

– Na manhã seguinte, todos da família Romanov haviam sido encontrados mortos. Seu herdeiro inclusive, Alexei Romanov, não conseguiu sobreviver. A única viva era a avó, Rainha Vitória, que continuou buscando por sua neta mesmo após todos acharem que ela tinha morrido.

– E a avó conseguiu?

– Sim, e o mais importante, a Anastásia acabou deixando de ser princesa e se tornando Rainha no lugar do irmão quando foi encontrada.

– Sério?! Então as mulheres podem ser reis também!

– É, acho que abriram uma exceção. Segundo a lenda, o jovem príncipe morreu pra dar lugar pra Anastásia se tornar a melhor governanta que a Rússia...

Espera...

– Uhn, tio? – Tive um pensamento breve que acabou interrompendo a minha fala e me deixando meio hesitante, tem alguma coisa nessa história que não bate.

– Ahn?

– Tio? Tio Máx?

– Ah, perdão, Lili. O que foi?

– É que você não acabou de falar sobre a Anastásia.

– Ah sim, ela acabou ficando no lugar do irmão e se tornando a melhor rainha que a Rússia já teve.

– Sério? Legal!

– Lili, acho que já é hora de você ir pra cama.

– Ahhh, por quê?!

– Só acho que já tá tarde. Vem, me segue, eu te levo.

Subi correndo com a garota pelas escadas. Alguma coisa não estava batendo bem e eu tinha essa impressão. Aliás, eu tive essa impressão hoje. Mais cedo, quando eu fui visitar o Alexis, eu fiquei com a impressão que tinha alguma coisa de errado nessa história. Talvez não tenha sido culpa do Gav e nem um erro no banco de dados.

– Boa noite, tá? Se precisar de mim é só gritar! – Fechei a porta do meu quarto, onde Lilia iria dormir e desci pra sala de estar pra me acalmar.

Isso não é possível... essa coincidência toda de nomes.

Alexei morreu e Anastásia ficou em seu lugar como a nova Czarina” Ele morreu... os pais dele, eles sempre liam esse livro de merda pra gente. Eles eram soviéticos, os pais do Alexis sempre disseram que o nome era uma homenagem ao filho do Czar que morreu durante a Revolução Russa. Eles sempre falaram isso, e ficavam repetindo...

A minha mãe me deu um amuleto igual ao da Anastásia!” – Ele um dia chegou com esse colar que tocava a mesma música da Rainha Vitória quando aberto.

Você gosta mesmo dela, aposto que os seus pais não esperavam por isso quando te deram esse nome.”

Máxim! Você tinha que gostar dela tanto quanto eu. Ela salvou a Rússia do Rasputin, ela conseguiu recuperar o reino e se tornou a primeira Czarina. Isso não é legal?!”

Você sabe que ela... ela não sobreviveu de verdade, né? Ela morreu na vida real.”

Eeeeeeeeh?!”

E você foi o primeiro da família a morrer, idiota.”

Não! Você tá errado! Só acham que ela morreu porque ninguém encontrou ela ainda!”

Como eu não percebi isso... todos esses sinais.

No primeiro dia em que eu conheci a Anastácia...

Nós estávamos brigando porque eu tinha ameaçado o amigo dela. Ela já tinha derrubado todos os meus amigos e tinha conseguido ficar em cima de mim, mas naquela hora...

Ela simplesmente olhou pro meu rosto com pânico e se recusou a me bater. Eu senti isso, eu senti ela hesitando, foi quando eu consegui bater nela. Eu não ganhei aquilo por mérito próprio.

Até porque... ela lutava igual a mim... as mesmas técnicas, mesmas artes marciais, mesmas fachas, mesmo tempo de luta, mesma idade, mesma altura.

Meu deus, como eu não percebi isso antes?

Eu achei que ele só tivesse virado gay... é por isso que ele mora no mesmo lugar que o Alexis mora...

Não é um erro nem nada disso, não fui eu quem errei o endereço e nem o Gav quem me passou um endereço desatualizado.

Isso aconteceu porque eles são a mesma pessoa

(…)

Naquele mesmo momento...

Anastácia P.O.V

O que que deu hoje naquele cara? Ele estava mais estranho do que o de costume, vindo aqui me visitar na minha própria casa quando ele nem sabia o endereço, e isso depois de ficar um mês sem me procurar. Eu achei que ele tivesse se rendido à fobia dele e me deixado em paz, mas pelo visto não é o que parece.

Eu ainda quero saber quem deu meu endereço. É muito estranho esse lance dele ter se perdido e magicamente me achado. Quem ele tava procurando, pra começo de conversa? Um marido meu? Quê? Jesus, essa foi a pessoa mais estranha que surgiu na minha vida, sem sombra de dúvidas. Deus me livre ter um marido, um namorado eu até tô aceitando, mas casamento me assusta.

Realmente, ele mudou muito desde quando nós éramos crianças. Antes ele era tão tímido que tinha até vergonha de falar comigo, isso porque éramos quase inseparáveis. Tudo culpa dessa merda que ele glorifica. Que raiva, eu sempre quis voltar a revê-lo um dia.

Ai, eu só espero que ele não volte mais aqui pra casa, não quero mudar minha fechadura. Já era estranho ele me perseguir no local de trabalho, agora ele vem diretamente na minha casa. Maravilha. Perfeito. Mas como diabos ele me achou?!

A culpa também é minha. Eu não sei o que dá em mim, toda vez que eu vejo eu acabo gostando de vê-lo. É uma droga, eu já fiquei com ele tantas vezes mesmo os meus amigos me avisando que seria uma ideia ruim, até porque ele não sabe quem eu sou de verdade. Mas é tão ruim assim? Que saco... tô perdida.

São vinte pras dez agora e eu tô me arrumando pra ir trabalhar no bar. Tô com um pressentimento estranho e vontade zero de sair de casa. O dia tá estranho, eu não consigo parar de imaginar coisas sobre o Máxim. Tava tão mais fácil quando ele tinha desistido de tentar me procurar! Pra quê isso? Pra quê?

Tô sentada na minha cama, já pronta. Resolvo abrir a gaveta que tinha no móvel ao lado dela. Tinha um presente dos meus pais que eu gostava muito guardado, era um amuleto muito precioso pra mim em formato de colar. Quando abrimos, solta uma música nostálgica.

Meus pais me deram quando eu era criança. Ele ganhou um outro significado há um tempo atrás, quando eu notei que existia um pouco de esperança naquele garoto e ele tinha feito uma tatuagem em minha homenagem. A tatuagem do ombro dele era esse amuleto.

– Faz tanto tempo já que eu não o uso...

Precisava sair pro trabalho urgente. Saí do meu quarto e fui em direção à porta da frente, me despedi de Peter e saí de casa. Quando ainda estava virada de frente para a porta, trancando ela, senti alguma coisa se aproximando por detrás de mim.

Tenho um bom senso de percepção para esse tipo de coisa. Fiquei parada até sentir uma mão tocando meu ombro. No mesmo momento, peguei um spray de pimenta que tinha na minha bolsa, segurei a mão e me virei pronta pra tacar na cara da pessoa.

– AAAAAH! QUEM É?!

– ….

Até que o vi. Era ele mesmo e estava olhando pra mim, com olhos pesados extremamente mau humorados e respiração pesada. Máxim estava ofegante e suando, como se tivesse corrido muito rápido e o semblante dele tava me dando medo. Por pouco eu não usei o spray de pimenta.

– Você... – Ele segurou meu punho tão forte que fui obrigada a largar o objeto.

– Ai, isso tá doendo! O que deu em você?

– Você... como você acha que pode me fazer de idiota por tanto tempo?

– D-Do que você tá falando?

– PARA COM ISSO! – Máxim gritou e me empurrou, soltando meu punho.

– Ai! O que deu em você, você tá maluco!

– O que deu em mim? Não fode, você vem fazendo isso de propósito há muito tempo!

– Mas do que voc–

– CALA BOCA!

Ele segurou meu rosto forte, pressionando suas mãos pesadas contra as minhas bochechas e me trazendo pra muito perto dele. Nossos narizes se encostavam, os olhos dele estavam vidrados no meu e ele estava me machucando muito. Não conseguia me livrar daquelas mãos, Máxim estava praticamente bufando pra cima de mim.

Eu não sei de onde surgiu tanto ódio, só sei que isso me assusta. Ele continuou me olhando tão de perto que eu conseguia sentir a respiração dele e percebia seu suor escorrendo com muitos detalhes. Deixou de segurar minhas bochechas para continuar segurando pelos cabelos, o que doeu ainda mais, mas nos aproximou. Era como se ele quisesse buscar alguma coisa em mim.

– Má.. Máxi...

– Você... como eu não percebi antes...

Se eu não fosse da mesma altura que ele, Máxim iria conseguir facilmente me tirar do chão. Ele continuava com o rosto grudado no meu, me encarando com a pior raiva que eu já vi na face de alguém.

– Que saco!

– Ai! – Até que ele finalmente me largou e me empurrou. Perdi o equilíbrio e bati de costas na porta da minha casa enquanto ele tinha saído de perto de mim. – Q-Que que deu em você? Eu vou chamar a polícia!

– Pode chamar a polícia porque eu tinha que te matar agora mesmo! – Gritou, olhando na minha direção.

– O que deu em você? Você tá estranho comigo!

– Você sabe muito bem o que tá acontecendo, você mentiu pra mim esse tempo todo! E você sabe muito bem do que eu tô falando!

– Pera, não pode ser, então você...

Ele descobriu que a gente já se conhecia..?

– ME RESPONDE! – Veio correndo na minha direção, com passos fortes e olhos raivosos. – Você é ou não é?

– E-Eu, ahn... não é o que parece...

– É claro que é o que parece, você É ELE!

– Ei! Eu não sou nenhum “ele” não, me respeita!

– É SIM! Você é ele, você é o Alexis! Não é?

– Ahn... ér, eu...

Que merda, que merda, que merda! Argh! Eu não suporto que falem esse nome em voz alta, e pra piorar esse nem é o pior problema, o Máxim descobriu que a gente já se conhecia desde a infância. Ele lembrou de mim, finalmente, mas que merda... eu jurava que isso nunca ia acontecer.

– Que saco... eu não acredito que você fez isso comigo... – Máxim parecia abalado ao extremo. Ele andou olhando pro chão desnorteadamente e com as mãos presas aos ouvidos. Eu não sabia como agir.

– Máx... não fica assim, eu posso explicar, só tenta se acalmar um pouco.

– Você me enganou... pra poder zombar de mim e fazer todas essas merdas que você fez... todos esses dias...

– Eu não fiz nada disso, por favor, me ouve. – Tentei me aproximar dele.

– CALA BOCA!

Mas não deu certo. Ele se recompôs rapidamente e foi para cima de mim, me empurrando e puxando meus cabelos até me arrastar forçadamente para a porta da minha casa, onde ele me imobilizou. Ele puxava tão forte que eu senti os fios saindo do meu crânio.

– Ai... – Tentei segurar a mão dele. – Não toca no meu cabelo...

– EU VOU TE MATAR! Escuta aqui, eu vou te matar... – Ele pressionou as mãos contra o meu pescoço, o apertando, e falando bem próximo de mim. Gritava tão perto que chegava a cuspir na minha cara e me deixar com dor de cabeça. Eu não conseguia sair dali.

– Pa-para, Máx...

– EU VOU TE MATAR! – Ele preparou seu braço pra destinar um soco no meu rosto. – EU VOU MATAR VOCÊ, SEU VIADINHO MENTIROSO DESGRAÇADO!

– Aar.. para... – A mão que apertava meu pescoço estava começando a tirar meu ar e eu não conseguia respirar ou olhar pra ele. Eu não sei o que eu faço, ele realmente parece que vai me matar a qualquer momento!

– EI! LARGA ELA, FILHO DA MÃE!

Até que, de longe, eu escuto uma voz...

E antes que eu perdesse a consciência de vez, vi um garoto pulando em cima das costas de Máxim e o desnorteando, obrigando ele a me soltar. Caí no chão, sem muitas forças pra ter uma visão nítida... só o que eu via era um garoto ruivo segurando os braços e a nuca dele.

– Aahn... Ahiru, o que você tá fazendo aqui..?


Notas Finais


Desculpem pela demora! =P
Acho que ainda teremos uns quatro capítulos dessa fic, mas não sei de nada.
O que estão achando? <3


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