História Os Reis Arcanos - Rei Lich - Capítulo 55


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Arcano, Batalhas, Dragões, Escravidão, Fantasia, Fantasia Épica, Guerra, Guerreiros, Lich, Magia, Magos, Necromante, Os Guardiões Arcanos, Romance
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Palavras 5.026
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Steampunk, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Sim eu sei que é maldade colocar essas fotos de comida...

Capítulo 55 - Alguns Amigos para um Bom Nanci


Fanfic / Fanfiction Os Reis Arcanos - Rei Lich - Capítulo 55 - Alguns Amigos para um Bom Nanci

Acordo com meu corpo um pouco dolorido nas juntas, nada demais, claro, mas prova que estou ao menos me esforçando não?

Depois de ir ao banheiro e mascar uma raiz de Dena, para melhorar meu hálito, retomo a uma rotina mental, faço seções de exercícios iguais a que os soldados que observava faziam, paro apenas quando sinto meus músculos doendo, preciso disso, minha mente luta para não voltar a pensar no meu mestre, pois se o fazer, sairei da missão ao qual me foi incumbido, e isso é imperdoável... Nada demais acontece depois disso, a moça passou aqui, trocou as bandejas e saiu, nem me dei ao trabalho de olhar para ela depois que abri a porta, retornei ao que fazia, conversaria com ela, caso desejasse, mas a mulher claramente tem raiva de fazer esse serviço, então não a aborrecerei com minha voz. E... na hora que batem a minha porta, sei quem são, me arrumo, de barriga cheia e descansado dos exercícios de momentos atrás, reencontro os dois guardas que vão me levar até o senhor All’ma, a melhor parte dessa caminhada é o elevador e os salões, são obras primas lindas e colossais, dignas de uma capital tão importante.

Todas e cada uma das pessoas que passavam por nós davam aquela olhada para mim, nada diferente, mas paravam ai já que os guardas intimidavam-nos, de certa forma... – Ahh, ai está o cachorrinho do Aryn... – quem comenta isso estava a minha direita, pelo passo rápido que temos, meio que ignoramos o homem, e isso o deixou puto, porém, como uma criança mimada, saiu batendo os pés e resmungando algo.

Brent ficou firme, como sempre fica, ele não fala comigo depois de ordenar que entre ou saia de algum lugar. Não há muito para conversarmos mesmo, e acho que eles nem podem...

Depois disso nada diferente aconteceu, chegamos no lugar e entro sozinho, All’ma estava me esperando na arena, com o sabre de madeira em mãos, e uma cara séria. – Bom dia senhor. – o cumprimento e baixo a cabeça.

— Está pronto? – sua pergunta é respondida de imediato.

— Sim senhor! – fico em posição. – Quando desejar.

— Ontem te mostrei o básico de posições, até ataques defensivos e ofensivos. – engulo seco, aquilo era o básico? Meus braços vão cair nesse ritmo. – Teu nível é um pouco acima do que esperava, e isso é muito bom, não sei se será demais para você Nanci, mas, lhe darei uma tarefa hoje. – estico a coluna em prontidão, o que for, a medida do possível, farei. – Tome esse sabre de mim.

Deve ser brincadeira não? Como eu faria algo assim? Sorrio meio bobo com tal desejo, é impossível, porém, o rosto de All’ma nada muda, e só ai fico realmente preocupado, seguro meu braço direito, apesar da excelente noite de sono, ele ainda dói um pouco. – Não sei se consigo eh... – baixo as orelhas vendo sua desaprovação.

— Estou dizendo para fazer, e você vai fazer, afinal, nunca saberá se realmente é impossível se nunca tentar. – apesar de começar agressivo, suas últimas palavras me dão coragem, coragem esta que me anima e faz andar em sua direção. – Lembre-se do que te ensinei... Não precisa de uma arma para derrotar alguém, como um espadachim, seu corpo deve ser o vento, e sua mente, água.

E meu coração será gelo então... poético...

Disparei em usa direção com a vontade arraigada, meus passos foram meia dúzia, mas ele permanece no lugar, me esperando, o sabre em sua mão direita aponta para mim e com uma velocidade absurda, All’ma se move e fica de lado, e sinto algo bater em minhas costas, perco o equilíbrio e caio de peito no chão, o ar some por alguns segundos e tusso forte, areia fica em minha roupa e sinto no meu pêlo, uso as mãos para me levantar e ele me permite fazer isso. – Previsível e tolo, isso resume seja lá o que for que tentou... Vamos, de pé. – faço o pedido e limpo meu queixo e garganta. – De novo.

O senhor me mostrou muito sobre combate, mas, sem uma arma isso fica inútil, ou... Não, só adaptar, sim, isso pode dar certo. Me movo com os ombros baixos e uso apenas os dedos das patas para isso, garantindo assim tração com minhas garras e mais tempo para me mover, jogo o corpo para a direita, mas no último instante salto e vou para a esquerda, porém, a agilidade dele é monstruosa, ataco o vento, mas, caio rolando e dando outra investida, e assim, vejo o sabre de madeira vir em direção aos meus olhos, entretanto consigo me abaixar a tempo e desviar, giro o tronco e tento uma última vez agarrar a arma, no entanto All’ma troca-a de mão. Circulo-o da direita a esquerda levando as duas mãos até o sabre, este que tem sua ponta mirada a mim, caio de joelhos e curvo meus ombros para trás enquanto deslizo pouco, aquilo passou muito perto do meu queixo, com uma agilidade estranha a mim, jogo as patas para minha direita enquanto giro ao seu lado e fico com minhas costas na ele enquanto me movo, tento capturar meu objetivo mais uma vez, porém, agora, sinto um golpe no meu pulso, seco e rápido, como uma chibatada e antes que levasse a outra, um golpe acerta meu braço esquerdo e outro no ombro do mesmo lado.

Sou forçado a recuar para não apanhar mais, e assim, outro golpe vem em minha coxa esquerda, mordo os dentes, dói e arde muito, meu coração acelerado pela adrenalina me faz arfar, sinto meus membros vibrando pela emoção forte e... Minhas patas... Só tenho tempo de olhá-las de relance, pois All’ma faz um golpe horizontal me forçando a dar um salto para trás, ao sentir tocar o chão, retomo o pensamento, por mais comum que seja, essas patas são de puro Gelo Cristalino, talvez eu possa usá-lo além da minha capacidade normal, pois, se uma forma ou de outra, elas são apenas gelo, por mais que sua origem seja... Tão agradável a memória.

Curvo meu corpo para frente e toco a mão direita no chão, sinto as garras dela e de minhas patas, minha mão esquerda ainda sente o ataque e por isso fica recolhida afrente de meu peito, All’ma sorri e me mostra o sabre folgadamente posto em sua mão, como um convite, sinto meu corpo dolorido responder, e não será a dor que me fará parar, jamais. Minhas garras arranham o chão de tal maneira que o impulso me surpreende de começo, passo literalmente voando ao lado do senhor All’ma, minha mão direita vai como um bote de uma víbora, sinto a madeira em meus dedos, mas ela escapa e com uma picada, o sabre desce em meu braço esquerdo outra vez, caio um metro ou dois depois do senhor, dou um jeito de ficar de lado e uso as patas como freio, meu braço recém atingido ficou meio inútil, pois não sinto ele muito bem agora.

Porém, não é hora de queixas, nunca será, curvo a coluna e preparo-me outra vez, em questão de segundos depois do primeiro salto, realizo outro, a dor de fazer isso me faz morder os dentes e quase mostra-los, sinto o vento em meu pêlo, em minha cauda, por baixo das roupas leves que uso, tirando a dor, foi muito bom estar no ar ali, mas meu foco retorna no momento certo, por mais veloz que aconteça, minha percepção das coisas é muito boa e consigo fazer o que quero, seguro a “lâmina” do sabre e o puxo comigo, era fácil agora, só aproveitar meu movimento e...

Com um solavanco a arma é retirada de minha mão, o braço que fazia isso quase desloca-se e tal perigo me assusta nos segundos que levo para conferir se está tudo bem e retornar a encarar o senhor All’ma. Este que têm um sorriso miúdo na boca e um certo brilho nos olhos, ao pousar sinto toda a dor de forçar meus músculos, respiro pesado, meu corpo parece muito pesado e... As criações de meu senhor ajudam nesse sentimento, esta é a prova que ele sabe que sou capaz de suportar tais coisas, ele confia em mim para isso. Desapontá-lo nunca será uma opção!

Refaço o movimento, um fogo arraigado em meu coração me move, seguro o chão com a mão da frente e tenciono as pernas, dou um salto rápido, mais do que os outros, tanto que até descontrolo na saída um pouco, só que dessa vez, tento as duas mãos, elas chegam a cada lado do sabre, o senhor All’ma me pareceu tão distraído agora que foi até fácil, minhas mãos chegam a centímetros de agarrá-la quando o vejo imbuir-se de uma magia familiar, o azul esverdeado o faz quebrar minha tentativa e o leva a um metro de onde estava. Atinjo o chão com força dessa vez, dei tudo o que conseguia agora, e não ser o suficiente me deixa com raiva, tusso um pouco e solto um gemido de dor, o chão duro machucou bem as minhas costas e costelas, mas, me forço a levantar outra vez, porém, não consigo, tudo doi, tudo é difícil de mover, tudo...

Bato o punho direito no chão e aperto os dentes uns contra os outros, não era raiva do senhor All’ma e sim de mim, que não fui bom o suficiente. Fico de pé, mas, meu braço esquerdo não responde mais, minhas pernas tremem e... Vejo sangue no chão exatamente onde me levantei, levo a única mão boa a boca, não era daqui era...

Olho meu tornozelo esquerdo, um corte manchava a meia que uso de vermelho e a encharcava rapidamente, ainda cansado olho para o senhor All’ma, e me curvo para fazer de novo. – Chega. – ele sinaliza com a mão direita. – O que aconteceu ai? – seu tom preocupado me faz relaxar, não tanto, pois, como ele mesmo disse, um inimigo é sempre perigoso, e isso só acaba quando seu coração para de bater.

— Não... Não sei... – passo o antebraço direito nos olhos a fim de limpar minha visão turva, sinto meu coração batendo acelerado na garganta e o ardor dos golpes que recebi.

— Não te atingi tão forte... Muito menos ai eu... – All’ma fica muito preocupado, afinal, pertenço a um homem mais que respeitável. – Sente-se. – ele aponta para um dos bancos de pedra postos em poucos lugares, afinal essa arena é mais particular.

Faço o que ele disse, vou mancando lentamente até o mais próximo, porém, o ouço soltar a arma e... Em um gesto inesperado, passa meu braço esquerdo ao redor de seu pescoço me ajudando, fico pasmo com isso, quase não acredito, diria que é um sonho se não fosse a dor que sinto, e, ao me sentar, tenho um pouco de alivio. – Tairy! – o susto que levo ao ouvi-lo é perceptível, mas o homem nada faz, somente vira-se para trás ao momento que aquela moça aparece.

Como se algum ladrão estivesse aqui, a mulher arromba a porta de madeira com sua presença, os olhos esverdeados dela. – Chame um médico.

— Sim senhor. – responde e de imediato retorna o caminho, mas, devo interferir.

— Não, por favor, não precisa, foi só um arranhão, não se preocupe. – tento convencê-lo, isso pode ser um problema para mim.

— Seu mestre te deixou em minhas mãos, não posso deixar que se machuque de tal forma, e se piorar? – era notável que a preocupação não era comigo realmente.

— Está tudo bem e... – como vou fazer isso? Ele tem toda razão em me levar a um médico, mas, pela primeira vez com ele, tenho de mentir. – Meu mestre não permite que me toquem, dessa forma... – aponto a minha perna esquerda. – Deixou que eu treinasse com o senhor após muito esforço meu...

— Entendo, se ele quer assim, quem sou eu para contrariar... Mas, dê uma olhada nisso ai, vou mandar trazer algo para te ajudar e... Consegue fazer sozinho?

— Sim senhor, fui treinado para realizar o básico de socorros. – outra mentira. – Meu mestre Aryn me deu alguns livros a mais ou menos um ano, li todos...

— Se acha que está tudo bem assim... – sinto uma coisa ruim no estômago, mentir é horrível, como se entalasse minha garganta, me sufoca. – Vou te deixar descansando até depois do almoço... Tairy, traga algo para ele beber e comer. – é perceptível meu desânimo e descontentamento por não ter conseguido, por mentir e por forçar a moça a um trabalho sem motivos, não sou digno de tal trabalho. – Ora, fica assim não, você foi o primeiro a conseguir tocar na arma no primeiro teste, se orgulhe disso...

Minhas orelhas se levantam e sorrio apesar da leve dor no tornozelo e nas outras dezenas espalhadas pelo corpo. – Tive de usar minha magia para que não conseguisse, estou impressionado com você Klyce. – era a primeira vez que me nomeia, digo, sem me desaprovar, como é costumeiro.

Sorrio para o chão, meio envergonhado e sem reação pelo gesto inédito. – Obrigado... – ele bate em meu ombro direito com suavidade, passando confiança.

— Vou dar uma olhada nos outros, após o almoço nos falamos outra vez... – mesmo temendo ser o mesmo teste, fico feliz que tenha evoluído, mesmo que um pouco, afinal, quanto melhor eu ser, melhor vou servir ao meu mestre Aryn.

— Tudo bem... – o ouço se afastar, não consigo tirar os olhos do ferimento, está sangrando muito. – Senhor! – o chamo, um ato absurdo para um Nanci como eu. – Muito obrigado e... Que Avony esteja contigo. – sorrindo e gestuando um agradecimento, tenho a primeira reação amigável com ele, eu... Posso estar sendo egoísta e tolo, mas, poderíamos ser amigos algum dia?

E foi como o senhor All’ma disse, a mulher trouxe para mim aquilo que foi dito, porém, respeitosamente pedi um local mais particular para isso e dei a desculpa de não sujar nada com sangue, mas, só depois notei o quão estúpido pareceria, aqui é uma arena de batalha é obvio que haveria sangue, porém, incrivelmente, funcionou, me levaram para um lugar separado, era seguindo a direita a partir da porta que usei sempre para entrar na arena, era um lugar mais quieto, pois, junto ao corredor de piso e paredes de madeira, haviam quartos em dezenas, me colocaram sentado em um banco longo no final este corredor, que ainda vira a esquerda, mas enfim, já é algo bom. Ela deixa uma bolsa com muitas coisas sobre a mesa, feita da metade de um tronco, e outros menores servem de assento, fico com as pernas para fora afim de fazer o que quero rápido e retomar o treino o quanto antes, apesar da dor que é somente apoiá-la, essa pata me parece mais forte do que as que tinha.

Falando nisso, quando todos me deixam sozinho, vou a bolsa e a vasculho, frascos, linha, agulha, algo muito forte como álcool, ervas secas, todo o necessário ali, vou dobrando a meia com cuidado, pois, cada movimento ardia muito e... Impaciente com esse sofrimento, puxo-a de uma vez. – Rrrrff! – mordo os dentes e aperto os olhos que lacrimejam um pouco.

E quando olho, o corte é longo, segue a junção de meu tornozelo na horizontal, mas é pouco profundo, sangue brota sutilmente, muito pouco para tamanho ferimento, tenho o instinto de lamber aquilo, mas, tenho melhores meios agora, não tenho coragem o suficiente para me costurar, por isso cheiro alguns potes, procurando algo familiar e sim, algumas ervas são, macero-as na mão, busco um fraco com aquela coisa forte e um pouco de gaze, e, despejo um pouco naquilo, e enfim, olho os cantos, sem opção, dobro duas vezes a alça da bolsa e a coloco na boca, isso vai doer muito. E por pior que meus pensamentos fossem, não chegam aos pés de como foi. – Aaahhrrr!!! – meu grunhido abafado é breve, aperto tanto os olhos que sinto meu sangue pressionado, aproveitando a ardência e a adrenalina, coloco a meia de volta e prendo-a na minha pata, estava tudo bem agora.

Caio cansado na mesa, respiro fundo engolindo seco e arranhado, ouço o único anel da minha coleira raspando na madeira e, fico ali, descansando um pouco. – Ah olha, é aquele Nanci... – ouvi uma voz de um homem, mas não conseguia mais me mover bem. – Ala, é ele mesmo!

Havia mais dois ou três junto, sei disso pelo som dos passos. – O que houve com ele? Tem sangue ali olha. – fico quieto, talvez assim não me atrapalhem. – Será que All’ma matou ele?

Nenhum pouco a fim de ser cutucado, movo minha cauda um pouco, só para saberem. – Ele disse que ia fazer o teste com o Nanci, deve ter sido muito ruim, ou o mestre ficou puto... – outro comenta rindo.

— Sério gente, vocês viram o dono dele. – só essa menção faz minhas orelhas levantarem, atentas. Os quatro recuam um pouco. – Viram, está tudo bem, vamos embora.

— Não! – ouço eles se esbarrando. – Ei, Nanci... – apenas um vem até mim. – Está tudo bem ai? – sua pergunta me faz virar o rosto ainda deitado na mesa para ele. Por vir detrás de mim, era difícil fitá-lo.

— Estou sim senhor, obrigado... – retorno a fechar os olhos e tentar dormir, ao menos um pouco.

— Não está não... Está sangrando. – sua preocupação é verdadeira, posso saber apenas pela voz.

— Já cuidei disso senhor... – ele ri.

— Não me chame de senhor... Sou Enlay, Enlay Sha Hupper. – ele estende sua mão para mim, coisa que poucos já fizeram, e portanto, tenho a obrigação e o prazer de retribuir, mesmo que haja dor em apertar sua mão.

E é ai que vejo-o melhor, de relance parece Aryn pelos olhos azuis, mas o cabelo médio e castanho o jogam fora da silhueta celestial que é o meu senhor. E uma coisa comum daqui, todos tem um mesmo corselete de lã e algodão, junto a luvas de couro costurado de forma a serem justas aos antebraços, e, coisas diferentes realçavam em cada um, um símbolo, um pingente...

— Klyce. – repondo curto, afinal, apenas escravos de alta importância recebem um sobrenome, seria incrível se meu mestre me desse um, algum dia... Quando merecer...

— Prazer em conhece-lo Klyce. – o homem mostra meu nome para todos. – Esse é... – com isso me forço a virar, minhas costelas doem, mas não importa, jamais posso ser mal educado. – Akryn Finry, conde do Cálice de Pedra. – o homem que me é apresentado tem um semblante assustador, os olhos castanho-escuro me fitam como uma águia em um rato, e não recebo cumprimento, apenas um som de desprezo e ignorância. – Mallf Crein. – aponta a um homem grande e musculoso, não tanto, mas, mais do que todos nós, o cabelo longo e negro caia a cada lado de seu corpo como cascatas. – E por fim, Ellein Albax, filho de Tomas Albax. – o pai dele deve ser importante, porém, meu desconhecimento me envergonha um pouco.

Esse último a ser nomeado me fita com olhos azul-esverdeados, sorri de canto e se aproxima mais. – Olá Klyce. – oferece sua mão para me cumprimentar.

— É um prazer conhece-lo, a todos vocês... – digo feliz, não me trataram como esperava, bom, como devia ser...

— O que estamos fazendo aqui ein? Falando com um escravo?! – Akryn fala em um tom curioso e arrogante e é repreendido por seus amigos.

— Olha o que fala, ele é do duque Aryn, cortam sua língua se falar merda.

— Não, não se... – paro de falar sozinho, não devo me intrometer. – Fiquem a vontade eh... Sou só mais um aluno, só isso...

— Um saco de pulgas isso sim. – e mais uma vez Akryn é repreendido com um tapão no ombro esquerdo. – Ahh, o que foi?

— Para de ser babaca. – Elleim diz e olha para mim. – Liga não, ele é assim com todos os novatos...

Sorrio timidamente e me aconchego no banco. – All’ma fez o teste contigo hoje? – Enlay me pergunta, muito curioso.

— O... O que tem que tomar a arma dele? – todos se olham, perplexos com o que eu falei.

— Ele fez esse com você? – seu tom ameno me acalma muito, quase alivia a dor que sinto por todo canto.

— Sim... Fez sim sen-, sim Enlay... – então ficamos alguns segundos em silêncio, mas todos falam em unisonoro quebrando-o.

— E?! – cruzo os braços sobre a mesa e apoio o lado direito do rosto neles.

— Quase consegui, se ele não tivesse usado magia... – digo indignado. – Eu teria pego.

E novamente o silêncio retorna, ouço alguém gesticulando atrás de mim e saindo pisando firme, furioso eu acho. – Sério isso? – Mallf, reconhecido pela voz mais grossa, me pergunta.

— Sim senhor, pode perguntar ao senhor All’ma, caso deseje... – minha certeza os espanta ainda mais, Enlay bate em meu ombro esquerdo, feliz, porém, minha reação de dor o faz tomar cuidado.

— Ow, desculpe... – mesmo sem falar, sabe que não foi nada demais, entretanto, agora evita chegar perto de mim. – Olha cara... – ele coça o rosto. – Sabemos sobre, quem você é, e tudo mais, mas, eu não estou nem ai. – isso seria bom ou ruim? – Se precisar de algo, fala comigo, está bem parceiro? – dessa vez sua mão vem suave me minha cabeça, e, essa palavra, parceiro, é tão boa de ouvir que sorrio muito.

— Muito obrigado. – eles percebem minha fraqueza e dor agora, sabem a causa e portanto, apressam para me deixar me paz.

— Está quase na hora do almoço eh... – Enlay sabe que não posso me juntar a ninguém sem permissão, e por isso fica um pouco desconcertado de ter trazido o assunto à tona. – Até mais Klyce, nos vemos por ai.

— Até... – aceno fazendo questão de demonstrar prazer e respeito por tê-los conhecido, baixo a cabeça levemente aos três, já que o conde se foi a alguns segundos atrás.

Apalpo meu corte de vez enquando, e todas trazem uma fisgada de dor que me faz arrepender, porém, isso diz que me esforcei, seja lá o motivo de ter acontecido isso, fora a possibilidade de minha displicência... E com o tempo, consigo relaxar e suprimir meus ouvidos dos sons do arredor, algumas pessoas passam por mim, mas não fazem nada, bom, não sei ao certo, pois fico meio entorpecido, não sei se é efeito da adrenalina que abaixou, ou das ervas, um compilado talvez?

 

Passou algum tempo desde que fui abençoado com o sono, bom, acho que sim. Mas, sou acordado com um toque continuo em minhas costas e uma voz que aumenta de intensidade a medida. – Klyce, Klyce... Klyce... – era, o meu... Não, não tem como, a voz do senhor Aryn é totalmente, absolutamente inconfundível. – Ei, Klyce, acorde... – levanto a cabeça devagar.

Vejo o traje comum entre os aprendizes daqui a minha direita, levanto os olhos levemente e sou hipnotizado por um prato de comida. – O... Oi... – respondo tendo meu focinho mergulhado no cheiro divino daquilo tudo.

Por educação olho levemente quem veio, era Enlay, sorria para mim, por isso retribui o gesto, chegando junto a ele, o senhor Ellein, baixo a cabeça aos dois. – Trouxe para você... – ele coloca a minha frente e deixa um garfo e faca de metal na borda de um prato de madeira grande, e um pouco fundo.

Dentro, carnes picadas junto a cebolas sobre uma pasta alaranjada, batatas fritas em rodelas unidas por um espeto de madeira, além de um molho cheiroso e aparentemente picante posto em um pequeno pote, bacon, salmão e um pedaço generoso de pão, é muita coisa, cara e preciosa, salivo na hora, mais um banquete maravilhoso. – Não precisava se incomodar... – respondo sem compreender tal atitude benevolente. – Mas agradeço muito, obrigado.

— Que isso, se All’ma o permite treinar com ele, quer dizer que é um de nós. – sorrio levemente e sinto meu estômago reclamar. – Vamos, coma, a vontade. – somente depois disso me atrevo a mover.

Por mais cansado e dolorido que esteja, para isso vale a pena me mover. – Posso? – o homem aponta ao banco longo ao qual me sento.

— Mas é claro. – digo surpreso de me pedir algo assim.

E então, ele fica a minha direita, seu amigo a esquerda me mostra um pequeno barril que traz consigo, e em um tom animado. – Bebe? – minhas memórias correm, sempre que fiz isso foi ao lado de meu senhor, mesmo que em Vrett não seja algo tão estupendo, o tempo que passei com ele no palácio, foi simplesmente mágico, meu mestre tem o dom de me confortar somente estando por perto.

— Sim. – respondo pegando os talheres e agradecendo a Avony rapidamente.

E assim, enquanto pegava a primeira garfada sinto o pequeno barril ser posto na mesa e acompanhado a ele copos de cerâmica, não aquelas pobres e rachadas, eram muito lisas e bonitas, até tinham desenhos pintados nelas. Quando sinto o cheiro de hidromel, tenho outro lapso de lembranças e rio sozinho com o garfo entre os dentes. – O que foi? – Ellein me pergunta servindo-nos.

— Nada só... Me recordava do que aconteceu em Vrett. – tal menção pareceu tê-los instigado.

— Então... É verdade mesmo? O... O seu dono. – essa parte Enlay tenta suavizar com o tom. – Fez tudo aquilo em Quartunta e... Você sabe...

— Ahh sim, eu mesmo vi, com esses dois olhos. – aponto a eles. – Não houve malfeitor que não tremeu naquela noite... – me perco um pouco nas memórias. – Ele matou todos... – retomo ao que fazia, comer essa comida deliciosa. – Depois. – engulo um pouco, e prazerosamente desço tudo com o bom hidromel que me deram. – Voei no senhor Cixoam e... Fomos para Vrett, festejar. – omito a parte do subterrâneo e daquele homem que meu mestre capturou.

— Pera, o Cixoam, o Grão-Mestre Cixoam? – Enlay diz quase aflito. Confirmo gesticulando com a cabeça. – Caralho... – comenta para si mesmo e bebe um pouco também. – Tá... Mas, e Cenkedoz? – seu questionamento é válido, me esqueci daquele lugar.

— Não acompanhei meu mestre por lá, foi depois de Quartunta e... Ele estava irado com aqueles que dominavam a cidade sabe... – espeto uma batata que emana fumaça, a passo no molho e a devoro na metade, erro, estava bem quente, e apresso para esfriá-la com mais bebida.

Posso não encarar, mas minha visão periférica é boa, e vejo os dois se olhando. – E Noh’Randy? – o amigo de Enlay fala. Nisso, minhas orelhas caem, minhas patas apertam os dedos de gelo cristalino enquanto paro um pouco e suspiro.

— Me perdoe, mas, meu mestre não me permite falar sobre isso. – tento explicar sem parecer rude.

— Oh, não! Eu que peço desculpas. – Ellein diz gesticulando tal pedido. – Estamos sendo muito incisivos, mas, entenda, teu. – ele soluça. – Dono, é muito misterioso, ficamos empolgados contigo e... Fomos muito longe, entendemos tuas ordens. – ele toca meu ombro. – Por aqui é difícil achar lealdade verdadeira como a sua, fico feliz por conhece-lo.

Tais elogios me deixam tímido, por isso sorrio de canto e baixo o pescoço um pouco, por estar de boca cheia, não posso agradecê-lo por tais palavras, mas creio que já sabe o que penso.

 

Deixei de mancar logo depois de comer com aqueles homens que ouso chamar de amigos, por mais que não os tenha visto pelo resto do dia, treinei novos golpes e posturas, que não exigiam muito de mim, era obvio o receio do senhor All’ma, e aprecio, mas não cheguei a sai de lá como ontem, estou até bem, porém, contrariando a minha vontade, que é mais que insignificante, ele falou com os guardas e por usa vez, eles comunicaram o senhor Cixoam, não quero dar trabalho para ele, é isso que minha mente diz, mas a outra quer saber o que houve, e quer a ajuda do Grão-Mestre, por mais egoísta que possa parecer.

Nem tomo banho ao chegar no quarto de meu mestre, pois sei que logo Cixoam estará aqui e... Seria falta de educação não recebe-lo devidamente, porém, quando batem na porta, estava sentado na minha cama, e antes de atender, ela se abre, e o homem chamado entra meio perdido.

— O que foi? – Cixoam se aproxima de mim, cauteloso.

— O gelo do mestre, ele rachou hoje. – mostro as faixas sujas de sangue, assim como a meia, para o Grão-Mestre que aparenta muito espanto.

— Impossível, foi ele que fez, eu vi. Uma magia assim demoraria centenas de anos para se decompor, no mínimo. – sem receio e rodeios, Cixoam se abaixa afrente de mim e faz menção arrancar as faixas.

— Não, por favor senhor, isso é serviço para um servo eh... – alguém de sua posição não deve fazer algo tão baixo, por isso, eu mesmo tiro as faixas e a meia. – Deixa que eu faço isso... – tiro-as e ao ver, Cixoam solta um suspiro que não sei o significado, era alivio ou medo?

— Aonde? – sua pergunta me espanta, o corte é obvio, ou o sangue o fez parecer assim? Coloco o tornozelo esquerdo sobre o joelho direito e procuro, não há vazamento de sangue, não há ferida.

— Sumiu? – toco no lugar, não dói. – Como?

— Não tem como estar mentindo... – seu comentário me arrepia, chicotear-me-iam por mentir. Mas isso, para o meu alívio, não era uma acusação e sim um constatamento. – As faixas têm sangue... – ele pega uma e cheira ela a meio metro do rosto. – É seu sangue... – as vezes me esqueço, há um dragão dentro desse homem. – O que seja que aconteceu, não faça de novo. – diz levantando-se. – Seja lá o que aconteceu, talvez não volta a acontecer e... Não há ninguém em quilômetros que consiga manejar esse tipo de gelo, e menos ainda que manteria isso em sigilo.

Baixo a cabeça, fui displicente, muito na verdade. – Concordo senhor. – o homem segura meu ombro direito.

— Toma mais cuidado está bem... Eu, eu tenho que ir, tenho que me juntar aos Mestres e a Sina. – explica e demonstro minha gratidão a ele.

— Boa sorte senhor, que Avony o acompanhe. – e assim, com passos lentos e um desejo mútuo, Cixoam me deixa só para encarar mais uma noite, porém, dessa vez, relembro o quão perto meu mestre Aryn está de mim, um gesto e posso senti-lo e... Isso me conforta muito.

Volto a me sentar na cama, o que me fez curar tão rápido? Aquelas ervas e aquela coisa forte são tão poderosas assim? Não, nada que conheço restaura tão perfeitamente, até o pêlo recobrou o lugar e não há cicatriz nenhuma, coisa que nem magia, de níveis mais básicos conseguem... Me nego a pensar muito nisso, era hora de foco e precaução, e... Cheiro a mim mesmo, preciso de um bom banho.


Notas Finais


Relaxa que tem mais... E sim esse foi grande...


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