História Os Tigres de Arkan - Capítulo 4


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Armas, Drama, Máfia, Romance, Tigres De Arkan, Violencia
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Palavras 1.995
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Policial, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


* Retornarei para colocar capa - estou com pressa agora.
* Boa leitura!

Capítulo 4 - Um Presente de Valor


 Naquele momento eu estava adentrando no meu quarto, respirando fundo seguidamente para recapturar todo o ar luxuoso e calmo que ele esbanjava. Aquele hotel era, sem dúvidas, o meu refúgio do mundo. Assim que fechei a porta e me joguei no sofá, depositando a maleta com narcóticos em qualquer canto, pude constatar como sentia falta daqueles ares. Se eu não estivesse escondendo vários pacotes de produtos ilícitos teria dado uma volta pelo prédio, especialmente a pequena academia que ficava no porão. Fazia oito primaveras que eu tinha aquele espaço e nos primeiros três ou quatro anos havia me exercitado regularmente. Era miraculoso que eu tivesse conseguido manter em segredo o meu próprio pedaço de paraíso.

 Observei-o com atenção, como se quisesse memorizar cada detalhe e relembrar o que tinha esquecido. O ladrilho tinha um estilo hidráulico, era em formato de pentágono com o preenchimento azul escuro que ia clareando conforme o centro da forma geométrica e se tornava uma espécie de marrom acinzentado, o mesmo tom coloria o perímetro da figura e assim sucessivamente por toda a extensão da sala, onde eu estava, até a cozinha. Mas o cômodo era tão grande que eu mal poderia visualizar qualquer outro. Ergui-me da namoradeira e caminhei até um espécime de quadro que havia em uma das paredes. Ele era realmente grande e estava preenchido com fotografias e revê-lo me fez soltar um sorriso. Como eu tinha esquecido daquilo? Tinha dado muito trabalho recolher todas aquelas fotos e pendura-las ali. Enquanto me aproximava vagarosamente, ainda com os lábios erguidos, fui passando a ponta dos dedos na parede, sentindo a suavidade dela, parecia ter sido feita de veludo e se eu fosse criança, ou criativo, acreditaria veementemente que era um pedaço de nuvem.

 A primeira foto que fitei era minha. Eu tinha aproximadamente quatro anos, pelo tamanho, e estava com uma expressão de choro. Meu braço esquerdo segurava o direito, que se encontrava rígido, e apesar de eu não me recordar daquele dia, era totalmente perceptível que havia apanhado. Na foto havia ainda, Noah, com seus seis anos, que tinha o rosto fechado e fazia um gesto obsceno com a mão esquerda. Demorei um bocado procurando seu braço direito, até que o encontrei me contornando em um singelo abraço. Aquilo aumentou meu sorriso. Passei o olhar para baixo, encontrando uma imagem somente minha, onde eu aparentava a mesma idade, brincando com gizes ao pé de uma pequena escada. Havia muita sujeira, até mesmo nos meus cabelos, e não foi dificultoso recordar daquela data. Quando meu pai chegou a casa e encontrou tamanha bagunça, me bateu. Mas eu tinha me divertido tanto antes daquilo que era impossível não guardar, junto ao sentimento amargo de ter apanhado, uma espécie de satisfação. Era tudo o que lembrava e enquanto mais eu observava a memória em formato físico, mais a agonia tomava o lugar do contentamento infantil, me fazendo sentir sensações muito semelhantes de tantos anos atrás. Franzi a testa, quase arrancando aquela imagem do quadro. Mas antes que eu pudesse fazê-lo, meus olhos abaixaram e o que eu vi me distraiu imediatamente. Era uma foto de Margareth grávida de Noah, como pude perceber pela camiseta, com este nome grafado na região da barriga, que ela usava. Aquela fotografia, em especifico, me soou como um baque. Não pelo que ela mostrava, mas pelo que representava. Tudo que me lembrasse de Margareth, minha mãe, era um pouco assustador.

 Era um dia de chuva intensa, ou pelo menos era com uma tempestade que eu me lembrava da data. Talvez estivesse com um sol quente e a chuva fosse fruto da imaginação de um garoto medroso. De qualquer forma, lembro-me de ter visto água escorrendo pelo vidro da janela. Estávamos no nosso quarto, eu e Noah. Enquanto ele fitava a janela com um semblante perturbador, eu dava voltas e voltas pela extensão do ambiente, tropeçando vez ou outra em algum brinquedo espalhado. Ouvíamos gritos. Não consigo recordar quais eram as palavras, nem os sentidos das frases, todavia eu garanto que havia gritos. E eram da minha mãe. A forma como tudo me fazia sentir péssimo é outra coisa que nunca esqueço. Cansado de não fazer nada chamei meu irmão, já pela quarta ou quinta vez, e sugeri que descêssemos a fim de acolher nossa progenitora. Ele balançou a cabeça e impetuosamente vociferou contra minha pessoa um monte de palavras maldosas, como se eu fosse culpado de algo, ou de tudo, das quais também sou incapaz de relembrar. Asseguro, contudo, que sua proclamação cessou insinuando que se eu quisesse ir, deveria fazê-lo sozinho. Engolindo em seco e com os olhos marejadíssimos, segui o “conselho”. Foi, talvez, um erro. Um que marcou toda a minha vida. Mas que me poupou de sentir culpa por não ter tido coragem suficiente para ajudar minha própria mãe. Quando desci as escadas até a cozinha, onde acontecia a algazarra, me deparei com meu pai apunhalando sua esposa com uma faca, sucessivamente. Fiquei ali mesmo, observando em silêncio. Depois que eu fui visto, fui ignorado. Mas uma coisa eu juro, Margareth, antes de morrer, olhou para mim e sussurrou algo, com os olhos já sem vida. “Fuja”, ou “corra”, ou “mude”. Eu não sei. Não sou capaz de lembrar, nunca fui. Mal sei se realmente ouvi. Talvez ela apenas tenha dito “Willy”, que era a forma com a qual me chamava. Não obstante, sonhei tantas vezes com tal cena, especialmente com essa fala, que poderia dizer, sem propriamente mentir, que eu a ouvi balbuciar quase qualquer coisa.

***

 Uma chuva recém-chegada trazia consigo um clima ainda mais gélido à medida que o céu escurecia. A loja do Sr. Tobby já havia fechado e as únicas pessoas que ainda estavam na Toca eram Pauly e Arkan, juntamente de dois ou três químicos que terminavam de produzir as últimas unidades de narcóticos que seriam vendidas na semana.

 Arkan não demonstrava qualquer emoção, sentado em uma almofada no chão de esconderijo com as costas apoiadas ao pé do sofá. Quem o observasse mais profundamente talvez percebesse alguma inquietação, pelas inconstantes, porém repetidas, olhadas no relógio de pulso. O outro homem estava muito a sua frente, entediado, perguntando-se o porquê de ainda não ter voltado para casa. No fundo, todavia, a resposta era clara e objetiva: precisava conversar com William sobre Sadie. Não havia dito tudo o que pretendia. Mas, o Ardila estava sumido, prendendo ambos os rapazes à Toca sem saber.

—Jota? — Ao ouvir seu codinome sendo pronunciado pelo líder, virou-se repentinamente. Os olhos esbugalharam de tal forma que pareciam poder cair a qualquer momento.

—S-sim?

—Você e o Pilot assaltaram uma joalheira faz alguns dias, salve engano. — Oximen gelou, deixando transparecer nervosismo. Ele sorriu de canto em seguida, abrindo a boca para falar. Em sua cabeça Arkan havia descoberto sobre Sad e todos aqueles anos de mentiras haviam sido em vão. Pior que isso: já começava a imaginar que seria executado junto com o irmão de Noah. Contudo, foi interrompido antes mesmo de começar a falar. — Não, não... Deixe-me terminar. Qual foi a loja que vocês roubaram?

—O quê? — Suspirou levemente aliviado por não envolver nenhum nome feminino na pergunta.

—Qual foi a loja? Onde era? Lembra-se o nome?

—Ah... Bem, eu... Eu não sei não. — Esforçou-se um pouco para que pudesse recordar, sem êxito. Que importância isso tinha, afinal? — Mas talvez o Liam... Pilot... Talvez o Pilot saiba.

 O silêncio predominou por alguns segundos, trazendo um clima estranho. Pauly matutou algumas bobagens em sua mente, ainda desconfiado. Já o outro homem apenas checou o horário mais uma vez. Agora era nítido que estava apreensivo.

—Mas por que a pergunta, se me permite saber?

—Nada de importante. Eu assisti em algum lugar que câmeras de segurança flagraram um assalto e os criminosos estavam sem máscara... Mas eu sei que vocês seguiram as recomendações básicas e estavam escondidos, não é?

 A tranquilidade do Tigre ficou mais do que exposta quando ele soltou todo o ar de seus pulmões de uma vez, com um sorriso quase bobo no rosto, que soava como um assentimento. Realmente, não era nada de relevante. Todas as vezes em que havia cometido algum crime, independentemente de sua gravidade, tinha tido a precaução de manter-se mascarado. Por vezes o próprio William reclamava da cautela, já que eram parceiros. Mas se havia alguma coisa que Pauly jamais deixaria de lado seria a prudência, especialmente pelo medo que tinha da prisão.

 De repente seu celular vibrou alto, tocando alguma música eletrônica e animada. O cenho de Arkan se curvou todo, em um misto de desagrado e surpresa. O outro apenas corou. Sua expressão, contudo, se desfez completamente ao visualizar que quem lhe ligava era Sadie. Ignorou a chamada, carregando agora um erguer de lábios sem graça. Infelizmente para o homenzinho, a mulher tornou a ligar duas ou três vezes, até que deixar o celular no mudo fosse a única escolha. Arkan questionou:

—Quem era?

—Acho que ninguém... ninguém pertinente, pelo menos.

—A pessoa parecia bem interessada em falar com você. — Um engolir em seco foi a resposta obtida, fazendo o chefe suspirar. — Eu já vou... Se você for o último a sair não se esqueça de trancar tudo.

 Era, claramente, mentira do homem. Ergue-se e subiu as escadas, ficando na espécie de sala que levava ao porão, na intenção de tentar ouvir alguma coisa. Poderia apostar todo o seu dinheiro que Paul retornaria a chamada. E foi exatamente o que aconteceu, poucos minutos depois. Mas, lamentavelmente para o homem, tudo que conseguiu ouvir, por causa da distância, foi uma frase onde a voz de Paul se avolumou um pouco, com um tom exasperado:

—Não, Sadie! Você não pode fazer isso com Liam!

***

 A moto de Pauly estava mais uma vez em movimento. Dessa vez, transportava uma caixa embrulhada com papel presente cheia de bijuterias roubadas por mim, que agora carregava um revólver escondido nas roupas, em vez de uma mala repleta de pacotes com drogas ilícitas.

 Sempre com capacete, fui o mais rápido possível até a joalheira que havia assaltado anteriormente e estacionei do outro lado da rua. Por causa da chuva quase não havia movimento e como já estava tarde e escuro era deduzível que a loja fecharia em breve. Suspirei analisando todo o ambiente e repassando meu próprio plano, enquanto ainda me sentia divido sobre se era realmente o que deveria ser feito.

 Havia dito para Paul e até para mim mesmo repetidamente que não devolveria nada. E mesmo assim, lá estava eu, apreensivo e a ponto de fazer algo irreversível. A situação toda, avaliada por um ângulo mais imparcial, chegava a ser engraçada. O politicamente correto nos faz acreditar que as pessoas deveriam ficar nervosas por fazer algo fora da lei, como sair de um restaurante sem pagar ou cometer algum delito, por medo de serem pegas ou por moral. Todavia, eu que sempre agi de forma ilícita, até por ter sido criado no meio, sentia-me tenso por ter que fazer o “correto”. Antes de acontecer comigo, se alguém me contasse que passou por isso eu teria dado risada.

 De qualquer forma, eu decidi parar de agonizar e agir. Quanto mais rápido eu fizesse, mais rápido o medo irracional que me penetrava aos poucos iria embora. Sem contar as gotas de água que caíam em quantidade em cima de mim, que também soou como uma grande motivação. Carreguei a caixa embrulhada como se fosse um presente — tamanha era minha ironia nisso que, se a dislexia não fosse um empecilho, teria escrito algum cartãozinho — até a porta do loja, depois acenei para o vendedor. O capacete de motociclista cobria meu rosto, fazendo-me agradecer mentalmente por ter saído com ele da Toca. Deixei o embrulho cuidadosamente próximo à entrada e virei-me. Após o terceiro passo corri em disparada até o veículo, no outro lado da rua, montei nele e sai o mais rápido possível, para evitar questionamentos. Meu coração só voltou a bater normalmente quando eu já estava há sete quadras de distância.



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