História Outra Vez na Escuridão: Abby Coldheart - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Originais
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Palavras 4.302
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Josei, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 7 - Capítulo 7


Fiquei por um bom tempo conversando com Alice no banco da praça. Ela me contou outras coisas relacionadas a sua família e ainda me convenceu de que Nev deveria voltar para escola. Não era uma coisa que eu queria, mas era o melhor para a sanidade mental da minha irmã. Nev é uma garota muito inteligente, mas por razões emocionais, tende a fazer escolhas erradas. Eu não quero que ela termine como Theodore. Não quero que ela torne-se uma híbrida doente.

Depois que começou a garôar, minha amiga disse que tinha que ir para casa, porque havia prometido para a sua mãe que a ajudaria a preparar uma pequena festinha de aniversário para um dos tios dela. Alice foi praticamente criada pelos irmãos da mãe dela, ela tem um carinho especial por eles e hoje estava animada porque iria ter uma festa em família. Disse ainda que convidou Nick, mas o garoto se recusou a ir, alegando que tinha de fazer um trabalho complicado de matemática, que nem a loira tinha feito. Isso me fez pensar o quanto eu estou sendo prejudicada por estar suspensa.

Culpa daquela diretora de merda.

— Cheguei — Anunciei assim que entrei na minha casa. Estava tudo escuro, mas eu podia ouvir o som de uma musiquinha no andar de cima, provavelmente Nev estava acordada. Deixei as coisas em cima do sofá, fui até o banheiro e joguei minhas roupas úmidas num canto; mesmo que eu tenha vindo correndo até aqui, a distância do parque até a casa é equivalente a três quadras, e isso foi o suficiente para eu me molhar. Eu não estava nenhum pouco afim de ficar em pé, então liguei a torneira e fiquei esperando-a encher. Assim que chegou a uma determinada altura, desliguei o registro e entrei, sentando-me e encostando as costas na porcelana gelada. A água estava fria, mas eu logo me acostumaria. Fiquei encarando os meus próprios pés deformados pela ondulação da água, pensando nas últimas coisas que aconteceram comigo. Acabei pensando no Travis, e isso me fez ficar um pouco irritada.

Olhei para o amontoado de roupas no canto do quarto e estiquei meu braço para pegar a minha calça jeans. Tirei do bolso aqueles dois papeis que Alice havia me entregado, e encarei o número telefônico de Travis. Perguntei-me se era estranho guardar aquele papel, porque muito provavelmente eu não o usaria. Mas eu também não queria jogar fora. Era o número dele, afinal.

Estou sendo patética.

****

— Nev, o senhor Jeon preparou um lanche para você. — Falei entrando no quarto sem nem bater na porta e indo na direção da cama, onde ela estava jogada. — Sanduíche natural com suco de laranja.

— Ah... — Resmungou virando a cabeça na minha direção e me encarando com total desinteresse. Os cabelos dela assemelhava-se a um ninho de fios de cobre e seus olhos estavam caídos, sonolentos. Parecia que fazia alguns minutos que ela havia acordado. Sentei-me ao seu lado e passei a mão nas suas costas. A ruiva se sentou lentamente na cama, e depois olhou para a sacolinha em minhas mãos. Entreguei-o para ela, e a garota me encarou de volta. — Estou sem fome. — Disse com um tom baixo.

— Você não tomou o café da manhã e nem almoçou. Precisa comer, ou se não vai ficar doente. — Falei tentando transparecer calma, porque esse papo de não estar com fome sempre me irrita. — Vamos, coma logo.

Observei ela abrir a sacola com muito contragosto e morder o sanduíche bem devagar, como se estivesse em câmara lenta, enquanto fixava o seu olhar para baixo. Abri a garrafinha e depois entreguei-a para ela.

— Abby — Ela me chamou e eu a olhei. — Eu decidi que não quero mais ir para escola. — Falou seriamente, como se aquela fosse sua decisão final, e isso me irritou pra caralho.

— Nev, que merda você está falando? — Perguntei irritada, ela só podia estar brincando com a minha cara. — Como assim não quer estudar? — Indaguei com as sobrancelhas franzidas e minha irmã tentou falar alguma coisa, mas eu a interrompi. — Você está dizendo isso só porque Theodore foi embora? Pelo amor de Deus! Eu sei que é triste viver sem ele, mas você simplesmente não pode parar a sua vida só por causa disso. Esqueceu que é uma híbrida? Por quanto tempo vai ficar de luto por causa de um humano, Elizabeth Nev, de um humano, que se quer vai lembrar da nossa existência?! — As palavras saíram amargas da minha boca e eu senti uma leve vontade de chorar, aquela era uma realidade cruel para os híbridos de Badlands que se apegaram aos humanos. Eu apenas queria afastar por enquanto as lembranças que temos juntos, assim talvez eu siga em frente.

Nev me encarou com os olhos marejados, porém não disse nada. Voltou a comer novamente, em silêncio, enquanto suas bochechas já coradas ficavam mais vermelhas. Talvez ela esteja envergonhada, mas eu não a culpo.

— Leu o livro que eu te dei? — Perguntei depois um tempo, quando ela estava quase terminando o lanche. Nev assentiu mais uma vez enquanto procurava com os olhos a sua mochila. — Gostou? O que achou da A Sociedade Vermelha?

— Eu nunca tinha lido nada do gênero, mas eu achei bastante interessante. Mostra como a nossa sociedade se formou, as classes de híbridos e subgrupos de tarefas. — Ela falou um pouquinho mais animada e eu apenas assentia, escutando tudo. Quando Nev terminava de ler um livro, geralmente ela vinha me contar como ele era. — Eu realmente fiquei impressionada com as coisas que aconteceram a séculos atrás. Eles geralmente não contam com tantos detalhes assim nas aulas de história... — Disse olhando para cima, meio encantada, e então arqueou as sobrancelhas, como se tivesse lembrado de algo. — É verdade que os Oddie Toole podem se transformar em qualquer tipo de imagem que quiserem?

— Sim — Respondi. — A alma é basicamente constituída de sombras, e essas sombras se transformam em muitas imagens. Alguns OT podem tomar a forma de um lobo ou de um pássaro, embora essencialmente eles não sejam assim.

— Entendo... A mamãe podia fazer isso? — Ela se arrastou até encostar as costas na cabeceira, e eu a acompanhei, sentando ao seu lado.

— Creio que sim. Ela era uma espécie de feiticeira, sabe? Mexia com essas coisas de magia e ocultismo. — Eu disse, me lembrando daquela mulher de aparência frágil, porém com uma personalidade forte. Meredith tinha os cabelos loiros levemente curtos e cheio de cachinhos, seus olhos possuíam um tom de verde bem claro e ela não era muito magra; sempre estava usando vestidos com saias rodadas de cores escuras, como verde musgo e preto. Theodore me contou uma vez que quando a conheceu, Meredith só conversou com ele por causa de um livro antigo de misticismo que queria muito ler, porém meu pai não podia emprestar, já que ele mesmo tinha pedido emprestado de outra pessoa. Era engraçado, porque a mãe parecia uma interesseira, mas foi dessa forma que eles se aproximaram mais um do outro.

Eles tiveram uma história bonita.

Eu me pergunto o que vai acontecer com a gente quando Meredith voltar.

****

Ajeitei minha jaqueta, respirei fundo e empurrei a porta de entrada do prédio. Eu tinha decidido ontem que iria para New Jabes, já que as semanas festivas estavam vindo e era uma grande oportunidade para eu ser empregada, mesmo que seja temporário.

— Bom dia — Falei quando cheguei na recepção. O lugar parecia bastante simples, não tinha muitas cadeiras e havia apenas uma pessoa na bancada. A moça que estava lá olhou na minha direção e sorriu educadamente. — Com licença... Então, eu soube que vocês estavam precisando de alguém para fazer faxina e limpar as salas... E eu preciso urgentemente de um emprego. Será que vocês... — Começei, sentindo-me nervosa.

— Ah, você está falando do emprego como faxineira — Ela arqueou as sobrancelhas. — Eu sinto muito, mas já empregamos alguém para esse ofício. — Ela disse, sem muita emoção e eu apenas me senti uma azarada. — Mas temos vagas para dançarinos.

— Como assim? — Perguntei, irritada e frustrada. — Eu não tenho dinheiro para pagar curso nenhum, moça.

— Mas não é um curso, e sim um emprego. Há um grupo musical de toadas que sempre está recrutando dançarinos para se apresentarem pelos pequenos festivais que tem em todo Estado de Jackson. — Ela pegou um folheto e entregou para mim. No papel havia uma foto de uns caras vestidos de vermelho com tambores e outros instrumentos musicais, e alguns dançarinos na frente, vestidos de índios com vários acessórios. Olhei para a garota, ela só pode está de zoação comigo.

— Querida, caso você não tenha percebido... — Falei com um tom de escárnio e puxei um pouco do meu cabelo para frente. — Eu sou ruiva, ou loira, como preferir. Será o cúmulo do ridículo eu entrar para esse tipo de grupo cujo a temática é indígena. Eles vão rir de mim.

— Aqui é a Badlands, amiga. — Sorriu fraco. —  Então? Vai querer ou não esse emprego? — Disse me encarando e eu apenas assenti, sem muita opção, afinal, eu não podia desperdiçar uma oportunidade como essa. — Qual é o seu nome? — Ela começou a digitar no computador enquanto olhava para o mesmo.

A moça começou a fazer minha ficha e eu apenas respondia sem muita vontade. Eu sempre gostei de dançar e realmente levo jeito para isso, porém eu não tenho muita confiança quando estou me apresentando para um público grande. Resumindo: sou meio tímida quanto a isto. Pode parecer até ridículo vindo de mim, uma garota tão esquentada, mas é realmente dessa forma que eu me sinto. Qual é? Todo mundo tem suas fraquezas.

Depois do questionário acabar, ela me passou uma lista com uma série de músicas para eu aprender a coreografia. Disse que eu podia aprender na internet, ou eu poderia comparecer aos ensaios que ocorrem todo sábado, e que eles ligariam todas as vezes que ocorreria algum show. Como o pagamento seria por apresentação, eu não via a hora desse dia chegar. Eu estava bastante ansiosa para os dias festivos, que geralmente ocorrem nas três primeiras semanas de outubro e novembro, antes do Natal.

Peguei os papeis que a moça havia me dado e guardei na minha mochila. Saí da recepção e comecei a caminhar pela rua calmamente, até que meu telefone começou a tocar. Era Nev.

— O que foi? — Perguntei, calma. “Abby, vem pra casa logo”. Ela disse e ao fundo eu podia ouvir uma voz masculina meio abafada, como se estivesse perto da minha irmã, e a primeira coisa que pensei foi em Brian. Fiquei meio assustada, mas depois lembrei que não tem como ele saber onde nós duas estamos. — Nev, quem está aí com você? — Perguntei acelerando os passos, ao ponto de estar quase correndo. Só de saber que ela estava sozinha com um cara já me preocupava. “É o dono da casa. Ele disse que estamos a muito tempo sem pagar o aluguel, por isso veio tirar os móveis e ainda falou que tem um casal que vai morar aqui...” Falou rapidamente, aflita. “Abby, o que eu faço?”

Estávamos sendo despejadas.

Isso não poderia estar acontecendo. Justo agora...

— Calma, eu... — Começei, mas acabei me esbarrando em alguém com força, me desequilibrei e caí com tudo no chão. Usei uma das mãos para retardar o impacto, e além da ardência característica na palma da mão, senti uma pontada forte seguida de uma dor insuportável no pulso. Resmunguei trincando o maxilar, enquanto olhava para o sujeito a minha frente. — OLHA PARA ONDE ANDA, FILHO DA PUTA! — Gritei, totalmente estressada, e senti meu coração bater ainda mais rápido ao ver de quem se tratava. Travis me encarava intensamente com as sobrancelhas franzidas, talvez ele estivesse com raiva, não sei; ele segurava um copo descartável quase vazio e sua jaqueta estava um pouco molhada. Foi aí que eu me dei conta do que eu havia feito. O ignorei irritada e procurei pelo meu celular. Ele havia caído no chão e agora estava com a tela trincada. — Mas que merda! — Resmunguei e o aproximei do meu ouvido novamente. — Nev? Está me escutando? — Perguntei. “Sim”. — Não sai daí, eu já estou chegando. — Falei me levantando e voltando a andar novamente. Meu pulso estava esquerdo estava doendo muito e eu havia ralado a mão, estava sangrando de leve. “Ah, Abby, eles querem entrar”. — Eles quem? — “Eles querem levar nossas coisas, Abby!” Falou desesperada e eu arregalei os olhos, parando de andar. Tudo o que Theodore e Meredith conseguiram iria ser levado. Tudo que eles lutaram para conseguir, tudo estava indo embora, assim como eles fizeram... — Nev? — A chamei tentando segurar o nó que se formava no fundo da minha garganta. — Pede para o senhor Joseph um tempo para você arrumar as nossas coisas, está bem? — Tentei transparecer calma, mas minha voz saiu chorosa. “Tá bom” Disse no mesmo tom que eu. — Pegue suas roupas, materiais escolares e outras coisas e coloque tudo dentro do nosso carro. Faça o mesmo com minhas coisas. — Ordenei, sabendo que não tínhamos muitas coisas. — Depois, me espere dentro do carro, ouviu mocinha? Eu vou tentar um bico por aí para conseguir gasolina...

“Está bem, Abby. Toma cuidado”.

Desliguei e fiquei encarando o nada por um tempo. Levei as mãos aos cabelos e começei a chorar baixo, sentindo-me frustrada e cansada. Theodore provavelmente sabia do aviso de despejo, e mesmo assim não fez nada. Por que? Porque ele nunca pediu ajuda da gente? Tanto Nev quanto eu podíamos trabalhar, para ajudá-lo a pagar as dívidas. E ele então simplesmente tira a própria para fugir de tudo isso, e nos deixa sozinhas, com as suas irresponsabilidades.

Porque ele fez isso com a gente?

— Ei, gatinha, por que está chorando? — Escutei a voz de um rapaz vindo na minha direção e tocando no meu ombro, eu não me segurei nem um pouco quando a raiva subiu pela minha cabeça e meu punho fechado desferiu um soco no rosto dele.

SEU DESGRAÇADO! — Gritei indo na sua direção e batendo nele com força. O rapaz se encolhia dos meus tapas, socos e chutes. Eu não me importava se eu estava o machucando ou não, eu só queria bater em alguém. No Theodore, mais especificamente. — COMO VOCÊ PODE FAZER ISSO COM SUAS DUAS FILHAS?! COMO PODE TER NOS DEIXADO SOZINHAS? — Exclamei irritada e alguém me puxou para trás. — HUMANO DE MERDA! — Trinquei o maxilar, brava com a pessoa que me impedia de brigar e vi o rapaz virar na minha direção, com a íris dos olhos totalmente vemelhas.

— Ei, amigo, calma aí — Alguém disse impedindo  o cara de avançar quando o mesmo ameaçou vir na minha direção. Olhei para o sujeito que me defendeu, eu não conhecia mais ninguém com aqueles cabelos vermelho fantasia, cor de fogo. Sasori. — Travis, leva ela daqui.

O moreno me pegou pelo braço e começou a me puxar para qualquer direção. Eu não disse nada, afinal, estava chorando, e ainda com um pouco de raiva por tudo que estava acontecendo.

— Entra — A voz grossa dele me ordenou assim que paramos em frente a um carro vermelho, bem novo.

— Quê? — O olhei confusa e brava. — Não tenho tempo para palhaçada, Travis. Eu preciso ir para...

— O Hospital? Sim, eu vou te levar para lá. — Disse e me empurrou de leve na direção do carro, enquanto abria a porta do banco traseiro.

— Não! Eu preciso ir para casa! — Falei tentando me soltar, e quando eu o empurrei pelo ombro, senti uma dor aguda no pulso. — Ai! Droga...

— Viu? — Disse e me empurrou novamente. — Agora entra nessa porra logo. — Falou sem paciência e eu apenas o obedeci, irritada. Ele fechou a porta e deu meia volta, sentando no banco do motorista. Sasori veio logo depois e entrou. — Vou levar ela para o hospital.

— O que aconteceu com ela? — Perguntou para o amigo e olhando rapidamente para mim.

— Torceu o pulso e está com a mão ralada. — Travis disse simples enquanto ligava o carro.

— Ah — O ruivo oxigenado sorriu. — Abby sendo Abby.

*****

— Amanhã eu vou levar a minha moto para o concerto. Eu nunca mais vou deixar aquele merda encostar na Annabeth de novo. — Travis disse parecendo decidido e chateado ao mesmo tempo. Eu estranhei a forma como ele chamava a moto dele, mas não falei nada. — Aposto que aquela vagabunda prefere ficar rezando do que colocar o próprio filho na linha.

— Sua madrasta escolheu muito bem o nome do seu irmãozinho. — O ruivo disse divertido e bebeu um pouco da sua coca em lata. — Além daquele garoto ter o nome do diabo cristão, ele se comporta como um verdadeiro demônio!

— Não sei o que o meu pai viu naquela mulher. — Resmungou e Sasori apenas riu alto.

— Será que vocês dois podem conversar em um tom de voz mais baixo? Isso aqui é um hospital, não um barzinho para discutir problemas familiares e frustrações. — A Doutora Haruno pediu seria enquanto olhava para os dois rapazes em pé ao meu lado, que se calaram no mesmo momento. — Obrigada — Disse e voltou a se concentrar em tratar o meu machucado. Uma das mãos dela segurava meu pulso, enquanto a outra repousava-se sobre o mesmo, mas sem tocar em mim, apenas emitindo uma energia esverdeada da palma da mão. Eu vi coisa parecida ainda pequena, quando Nev ralou o joelho e a mamãe a tratou de forma semelhante, porém daquela vez era uma energia escura, como uma sombra negra. — Pronto — Anunciou e começou a fazer um exercício simples, pedindo para eu esticar os dedos, depois fechar o punho e virar o braço e fazer movimentos circulares com o pulso. — Está doendo? — Perguntou e eu neguei. — Ótimo, você está melhor. No entanto, evite fazer muito esforço com esse braço, está bem? Os ligamentos que fiz ainda estão frágeis, então tome cuidado.

— Tudo bem.

Eu e os rapazes saímos do hospital em silêncio. Eu ainda estava arrasada, mas um pouco mais calma. Tentei pensar em alguma solução para o meu problema, porém eu não via nada. Era como se tudo em minha frente estivesse coberto por névoa, e eu não pudesse enxergar nada.

— Abby — Ouvi Travis me chamar e virei-me para olhá-lo. — O que aconteceu para você ter ficado naquele estado? — Perguntou se referindo as minhas explosões de raiva e o meu choro. Sinto um pouco de vergonha por ter chorado na frente dele.

— Ah, não era nada demais. — Falei simples com uma expressão de indiferença. — Só estou sendo despejada da minha casa.

— Ah — Ele levantou as sobrancelhas, surpreso, e eu apenas revirei os olhos.

— Olha, obrigada por ter me trazido até aqui e me desculpa por esbarrar em você, derrubar sua bebida e ainda gritar com você. — Suspirei cansada. — Eu realmente estava muito estressada, talvez hoje seja o dia mais estressante de toda minha vida, e minha irmã acabou me deixando mais aflita ainda, então... Desculpa, Travis.

— Tudo bem — Sorriu de canto. Em seguida, ficou sério. — O que vai fazer agora? Onde você vai ficar?

— Hum... Eu não sei. — Desviei o olhar, eu fico sem jeito quando ele olha para mim, com aqueles olhos castanhos encantadores. — Não há um lugar para eu ficar. Eu estava pensando em fazer alguns bicos para conseguir comprar gasolina para o meu carro...

— Eu compro pra você. — Travis me interrompeu e se aproximou de mim. — E você pode ficar no meu apartamento, se quiser. — Disse e passou os dedos pelo canto da minha testa, afastando os fios de cabelo grudado no meu rosto. Eu o olhei e por um momento eu quis chorar. — Tem um quarto onde geralmente meu irmão usa quando vai dormir lá. Deve ser o suficiente para você e sua irmã, certo? Vocês podem ficar até se ajeitarem e conseguirem um lugar melhor.

— Travis... — Choraminguei passando os dedos pelos olhos, na tentativa falha de enchugar as lágrimas. — Você está sendo tão bonzinho comigo.

— Vem cá — Ele me puxou e me abraçou, enlaçando um de seus braços na minha cintura enquanto fazia um carinho na minha nuca com os dedos. — Você parece uma garotinha chorando desse jeito, tão indefesa. — Murmurrou rouco perto do meu ouvido, eu apenas enfiei a minha mão debaixo da sua camisa e o belisquei um pouco forte na cintura. O moreno se esquivou rapidamente, mas sem me soltar e soltou uma risada divertida. — Talvez não tão indefesa assim.

— Idiota — Falei, com os lábios pressionados na região correspondente a sua clavícula. Essa era a primeira vez que ficamos por tanto tempo assim, um perto do outro. Eu me sinto bem desse jeito.

— Ah, Abby, você se rendeu aos encantos de Travis? — Ouvi a voz de Sasori e me soltei rapidamente de Travis.

— Claro que não, está maluco? — Resmunguei e enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Onde você estava esse tempo todo? — Travis perguntou visivelmente irritado pelo amigo ter o atrapalhado no nosso momento.

— Ah, eu estava conversando com uma gatinha que veio visitar a vó dela... — Falou com um sorriso sacana nos lábios. — Enfim, consegui o número dela. Depois vou ligar para ela para nós marcamos um encontro. — Sorriu maliciosamente. — Eu vou querer usar quarto do seu irmão para trepar com ela, então avisa o pirralho, caso ele apareça lá.

— Acho que você vai ter que procurar outro lugar para comer essa garota. Abby e a irmãzinha dela vão dormir lá por um tempo.

— Ah, serio? Que droga.

Fiquei quieta, apenas escutando a conversa deles. Sempre achei papo de rapazes jovens muito estranhas, eles tem um linguajar um pouco diferente do das garotas. Ou talvez eu esteja sendo apenas inocente quanto a isso, já que nunca conversei com Alice dessa forma e nunca tive outras amigas além dela.

*****

Sasori então passou no posto de gasolina e Travis foi encher algumas garrafas de plástico que tinha no porta mala do carro do ruivo. Eu fiquei sentada, esperando, olhando para a tela do meu celular descarregado. Eu queria muito ligar para a minha irmã, saber como ela está e o que estava acontecendo com a nossa antiga casa. Sabia que ela ainda estava abalada emocionalmente com o suicídio do papai e se ver sendo expulsa do lugar em que passou o fim da infância deve estar destruindo-a por dentro. Tadinha da minha princesinha.

Nev não merecia passar por nada disso.

Vi Travis guardar as garrafas no porta mala e depois entrar, sentando no banco do passageiro.

— Comprei cigarro, alguém querer? — Ofereceu enquanto enfiava um por entre os lábios e ascendia com um isqueiro.

— Eu quero — Pedi e ele acendeu um para mim. — Obrigada. — Sorri e o moreno apenas sorriu para mim.

Sasori girou a chave e seguiu o percurso pela estrada, na direção da minha casa. Já havia escurecido, era por volta das oito da noite. Inclinei minha cabeça para trás e fiquei observando o o céu escuro, as luzes dos carros e o reflexo das minhas mãos sobre o meu colo, refletidas no vidro. Travis e Sasori estavam conversando sobre coisas triviais, até que o moreno comentou sobre o que aconteceu comigo. O amigo dele disse o quanto era chato a situação, e então disse uma frase que ficou na minha cabeça por toda a viagem:

Humanos não são confiáveis.

Assim que entramos na rua da minha casa, eu podia vê-la com o portão da garagem aberta. Quando Nev me ligou, disse para mim que eles queriam levar "nossas coisas", referindo-se às nossos móveis. Depois que um humano morre, tudo que pertenceu a ele deve ser queimado. É uma regra na nossa sociedade vermelha. O senhor Joseph provavelmente sabia que meu pai tinha falecido e que eu não tive tempo para descartar as coisas, então usou o prazo vencido de despejo para ele mesmo fazer o descarte. Sei que nunca gostou do meu pai e eu não culpo. Eu também ficaria irritada se eu fosse dona de uma casa e não recebesse o aluguel de quem está morando lá.

Sasori estacionou do outro lado da rua e eu saí correndo até o antigo carro de Theodore. Parei ao lado da janela do banco do motorista e vi minha irmã encolhida, olhando para frente com os olhos avermelhados e abraçando as próprias pernas. Bati no vidro, já que o carro estava travado, e a vi olhar rapidamente na minha direção. Arregalou os olhos, surpresa, destravou a porta, saiu apressada e me abraçou, escondendo o rosto no meu peito. Abraçei-a e beijei o topo de sua cabeça.

— Está tudo bem, eu estou aqui. — Falei baixo, enquanto passava a mão pelos seus cabelos. Escutei Nev fungar e me abraçar mais forte. — Calma, não precisa chorar. Eu já resolvi tudo, até arranjei um lugar para nós ficarmos.

Ela se afastou e olhou para mim confusa.

— Como assim, Abby?

— Primeiro, eu tenho uma notícia boa. — Falei e passei ambas as mãos no seu rostinho. — Consegui um emprego. E sobre onde vamos ficar, Travis cedeu um quarto para nós no apartamento dele.

— O seu namorado? — Nev levantou uma sobrancelha.

— Ai, eu já disse que ele não é meu namorado! — Gritei em um sussurro e ela riu fraco.

— Foi Deus que o enviou para nos ajudar. — Ela olhou na direção do moreno, que tirava as garrafas do porta mala do outro carro. — Como a mamãe ensinou uma vez... Temos que agradecer a Deus quando ele nos ajuda.

A encarei cética.

É a Travis quem devemos agradecer.



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