História Painting of Sadness - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Palavras 4.504
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yuri
Avisos: Insinuação de sexo, Mutilação, Sadomasoquismo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


“Ela também estava perdida e por isso se agarrava a mim também, eu me agarrava a ela, porque eu não tinha mais ninguém”
— Ainda é Cedo, Legião Urbana.

Capítulo 3 - Old Friend


Fanfic / Fanfiction Painting of Sadness - Capítulo 3 - Old Friend

Sentia-se a sufocar.

Não sabia o que estava acontecendo ou onde estava apenas sabia que estava sozinha. Confusa e sedenta, ela não sabia o que pensar. Sua cabeça latejava pela pancada forte que havia levado quando se esbarrou contra aquela parede, seus olhos encharcados por lágrimas incessantes, suas pernas trêmulas pela incapacidade de conseguir manter-se forte. Onde estava? Quando sairia? Quem era a garota loira que havia a levado para aquele lugar? Aquelas eram perguntas sem respostas, mas que enevoavam sua mente e traziam receios assustadores.

Não fazia muito tempo que havia acordado, mas, desde que acordara, apenas conseguia manter-se sentada naquele chão áspero pelo carpete que cobria toda a escuridão em que aquele corredor se encontrava. Imaginava que se continuasse a chorar alto, possivelmente, alguém iria ouvir seus lamentos e vir ao seu encontro para salvá-la, mas, estava longe de ser a verdade, era apenas uma forma inútil de confortar-se com a realidade que estava a sua frente.

Estava sozinha em um local desconhecido.

Não sabia quanto tempo passaria naquele lugar, na verdade, ela não sabia de nada. Sua mente sentia-se incapacitada de fazer algo, não tinha ideias criativas como o de costume, muito menos pensava algo agradável que pudesse fazer com que ela sentisse-se alegre e pronta para qualquer obstáculo que pudesse encontrar. Ela estava completamente diferente; estava inconsolável, deprimida, confusa. Não havia motivos para ela ter o mesmo otimismo de sempre, apenas havia motivos para que ela chorasse mais e mais.

Silenciosamente ela berrava consigo mesma por se sentir tão impotente. Nunca se sentira daquela maneira, sempre tinha ideias criativas para sair de situações deprimentes — como aquela em que ela estava metida, parecia que a sua mente havia desistido de tentar. Mas a pergunta que ecoava mais alto aquele momento era: por quê?

Por que ela estava se sentindo tão impotente daquela maneira? Por que achava que não havia saída? Por que sentia como se aquele fosse o fim do mundo? E o mais importante, por que ela sentia como se já tivesse ido àquele lugar? Que droga, mesmo que não houvesse uma saída, mesmo que a realidade estivesse lhe esbofeteando com força para que ela acordasse, ela sempre iria tentar, mas, aquele momento, ela não se sentia forte o suficiente para, nem ao menos, levantar-se e procurar por uma saída; como se já soubesse que não dava, mas como ela poderia saber?

— Acalme-se, Ib, você conseguirá achar uma maneira de sair daqui... você vai... — dizia em murmúrios para si mesma, secando os olhos com as costas de suas mãos. Sua cabeça ainda doía profundamente, mas não esperaria que suas dores passassem para que começasse a se mexer. Acreditava que não seria recompensada se não trabalhasse; ao menos este era o seu pensamento constante e parecia estar certo ao seu ponto de vista.

Apoiando-se nas paredes para conseguir manter-se em pé com suas pernas bambas, ela observou fixamente o lampião enferrujado que estava em cima de uma mesa descascada. Aquele lampião iluminava perfeitamente a maçaneta dourada de uma porta vermelha, como se estivesse chamando-a para entrar naquela sala.

Em passos lentos, a mulher andou hesitantemente até aquela mesa, segurando a alça do lampião com força, cravando suas unhas em sua mão pálida. Ao lado daquele lampião, na mesa, uma bela rosa vermelha estava posta. Não haviam muitas pétalas naquela rosa, mas ela ainda se mantinha bela, encantando a jovem adulta pela sua beleza singela.

Bonita..., ela pensou encantada. Embargada pelo encanto que aquela rosa parecia ter sobre ela, a garota segurou cuidadosamente aquela rosa em sua mão, tomando cuidado para não espetar-se em espinhos que poderiam haver no caule delicado daquela rosa. Lentamente a garota levou aquela rosa até o seu nariz, inalando o doce aroma que ela exalava.

— Bonita... — dizia com um sorriso brilhante em seus lábios. A mesa em que aquele jarro estava era maior do que seu corpo, então a garotinha precisava ficar na ponta de seus pés para conseguir tocar o jarro em que aquela rosa estava; esticando-se ao máximo para encostar-se ao caule daquela rosa, Ib segurou o mesmo com força e voltou ao seu lugar, fazendo o jarro vazio cair.

Segurando firmemente aquela rosa pelo caule, a garota levou aquela rosa ao seu nariz, inspirando profundamente a procura de qualquer aroma delicado que aquela rosa pudesse exalar. Era doce. Lembrava-a das tardes de verão que costumava passar na casa de seus avós em Gordes.

Ela era apaixonada pelo jardim de sua avó, principalmente pelos belos rosais vermelhos que cresciam em abundância naquele jardim. Desde muito cedo ela havia demonstrado aquele amor, desde então sua avó havia a apelidado de Rosa Vermelha, em homenagem a paixão tão bonita que aquela garota sentia pelas rosas.

Apaixonada pelo odor daquela rosa, acidentalmente a garota espetou seu dedo em um dos espinhos do caule, dando um estridente grito de dor e deixando que a rosa caísse em seus mocassins vermelhos. Ao impacto daquela rosa contra o chão, uma das poucas pétalas que restavam naquela rosa caiu de seu miolo, dando uma forte e dolorosa pontada no coração de Ib, que a fez cair de joelhos apertando seu peito para que a dor parasse.

Ao momento que a pétala não tinha mais contato nenhum com o caule, a dor cessou, mas os olhos de Ib ainda lacrimejavam.

Confusa com aquela lembrança repentina, a mulher soltou rapidamente aquela rosa que caiu diretamente na mesa que estava antes. Os olhos arregalados e o coração palpitante mostravam a Ib que conhecia aquele lugar muito bem, mas como? Jamais havia ido aquele lugar em toda a sua vida, como poderia conhecê-lo?

— Mas que droga, por que estou tão confusa?! — esbravejou alto. Já estava começando a ficar cansada desta situação. Precisava de explicações e rápido. Não aguentaria continuar do jeito que estava. Tão desamparada e transtornada. Não entendia em que tipo de brincadeira doentia estava caindo graças a sua mente, não entendia nada sobre o que estava acontecendo ao seu redor.

Era como se o mundo estivesse acabando e ela nem se desse conta.

Decidida a continuar sua busca por uma saída, ela levantou a mão que segurava o lampião e segurou firmemente a fria maçaneta dourada que dava acesso a uma porta vermelha. Os olhos em soslaio encaravam a flor vermelha posta delicadamente na mesa descascada que estava ao seu lado; ela deveria, realmente, deixá-la ali?

Não sabia se sua mente estava realmente pregando uma peça em si mesma, mas se não estivesse, sabia que seria burrice deixar a flor cujas pétalas podem machucá-la se forem arrancadas. Mas que idiotice, pensou dando uma risada sarcástica. Estava confusa, o que ela poderia fazer? Encarar sua mente que falava claramente que deveria cair na completa loucura e simplesmente aceitar que uma simples rosa poderia matá-la se fosse despetalada?

Havia um jeito simples de resolver este assunto. Mas se fosse real, poderia causar grande dor em seu corpo, pelo menos era isto que sua mente sussurrava para si mesma. A rosa naquela mesa tinha cinco pétalas, se ela arrancasse três, será que as consequências seriam tão sérias assim? É claro, considerando que isto pudesse ser verdade.

Mediando suas opções, ela segurou calmamente o caule daquela rosa, suas mãos trêmulas tinham medo da teimosia desmedida de Ib acarretar em problemas para ela. Por mais que a mulher estivesse ciente do quão machucada ela poderia ficar se acaso aquela lembrança fosse verdadeira, ela precisava tirar aquela situação a limpo. Precisava saber se aquilo era, realmente, verdade, não importando se fosse machucar-se.

Segurando firme três daquelas cinco macias pétalas que ainda existiam naquela flor, ela as puxou de uma vez só com força. As três pétalas vieram em seus dedos. Distantes o suficiente do caule, Ib sentiu uma forte pontada em seu coração, deixando-o dolorido; suas pernas e braços doeram tanto quanto seu coração; um alto zunido ecoou em seu ouvido, deixando-os doloridos.

Por um reflexo, a jovem mulher deixou que um grito de dor escapasse de sua garganta, antes que suas pernas fraquejassem e fizessem-na cair ajoelhada no chão áspero que aquele carpete proporcionava. As pétalas que ela havia retirado tão decididamente caíram bem ao seu lado, não demorando a perder a vívida coloração avermelhada que tinha quando estavam juntas ao miolo e ao caule daquela rosa tão bela.

Acima daquela mesa, uma rosa despetalada continuava a gozar de sua beleza singela, como se chamasse a atenção de Ib para que a levasse consigo onde quer que ela fosse. Aliás, depois do que a jovem mulher acabara de presenciar, sua mente estava certa que não deveria deixar aquela rosa simplesmente largada no meio da escuridão que era aquele lugar. Onde quer que ela esteja.

As pernas bambas continuavam fracas, seus braços continuavam doloridos e o zunido em seu ouvido já havia parado no momento em que aquelas pétalas perderam a vivacidade que tinham. Seu coração batia mais lentamente, enquanto a moça tentava recuperar-se daquela súbita sensação de dor.

Mas o que porcaria está acontecendo aqui?!, pensou já furiosa. A confusão em que sua mente estava imersa estava começando a irritá-la profundamente. Ela encontraria as respostas que procurava por tudo o que era mais sagrado ou não sairia daquele lugar.

Com as pernas bambas, ela levantou-se lentamente, segurando aquela flor despetalada firmemente com uma mão e o lampião com a outra, decidida a encontrar as respostas que procurava. Nem que precisasse rodear todo aquele lugar — que parecia gigante — em meio àquela escuridão para que pudesse descobrir.

♣♣♣

Andando rapidamente em meio aos intermináveis e estreitos corredores daquela galeria, Garry continuava com a sua constante busca por uma saída. Nem mesmo se seguisse em frente conseguiria achar um caminho que o levasse à saída. Era como se ele estivesse andando em círculos eternamente.

Pelo que ela via todos os segundos, dia após dia, Mary havia sido mais esperta do que ele imaginava e mudado os caminhos para o Caderno de Desenhos, consequentemente, era ainda mais complicado chegar à verdadeira galeria enquanto não soubesse o caminho para o labirinto que Mary havia criado no Caderno de Desenhos.

Não sabia quanto tempo fazia que ele estava ali.

Com certeza faziam mais do que apenas alguns dias. Talvez até meses se bobear. Imaginava o que os seus familiares estavam passando com o seu sumiço repentino; sentia-se mal em pensar em como a sua mãe poderia estar, em pensar como os seus irmãos estariam se sentindo por tê-los abandonado. Mal conseguia se perdoar por não estar com seus familiares neste exato momento.

Desde que seu pai os abandonou quando ele era apenas um adolescente, Garry havia se designado para a missão importante de tomar o lugar de seu pai. Não sabia se era o certo a se fazer, mas sabia que era o que seu pai queria e o que a sua mãe precisava. Depois que seu pai foi embora, era quase indescritível o modo em que sua família se desestabilizou.

Tais pensamentos o entristeciam todas as vezes que vinham a sua mente. Sabia que quanto mais pensasse em seus familiares e amigos, mais iria se martirizar por estar ali e não com seus irmãos e com a sua mãe, por mais que ele soubesse que não era sua culpa, não conseguia deixar de se sentir mal. Talvez fosse a saudade corrompendo o seu coração e fazendo-o sentir-se culpado por tudo.

Como o seu pai faria.

Seu pai tinha o constante pensamento que ele era o responsável por tudo o que acontecia aos seus familiares. Garry já havia perdido a conta de quantas vezes, em sua adolescência, seu pai não se torturou silenciosamente por alguma besteira que Garry já fizera; por todas as idiotices que sua mãe já não fizera em sua vida.

Por um lado era belo ver que seu pai se importava de uma maneira desmedida pela sua família, a ponto sentir-se tão mal por ver que seus filhos e sua esposa não estavam bem; por outro, era idiotice de sua parte achar que tudo de errado no mundo era sua culpa e martirizar-se todos os dias por algo que não foi feito por você.

Desde que entrara naquela galeria, se permitiu pensar bem mais em sua família e no quanto ela importava para ele. Principalmente depois que Ib conseguiu escapar.

Ah, Ib...

Sentia saudade daquela garotinha tão boa. Sabia que ela deveria estar com seus pais comemorando a sua volta para casa, quer dizer, seus pais deveriam ter ficado loucos procurando sua filhinha por todos os lados daquela galeria desde o momento em que ela havia sumido até o momento em que ela voltou. E, por mais que estivesse triste por não poder ver seus familiares, sentia-se bem por saber que, pelo menos para uma pessoa, ele foi importante e o responsável por unir a família de uma garotinha de nove anos aos seus pais.

Ao pensar naquela garotinha de olhos vermelhos, Garry abriu um sorriso nostálgico. Gostava da presença daquela garotinha, ela era a responsável pela esperança que Garry sentia, afinal, ela exalava uma aura tão pura e inocente que era impossível não sentir-se bem em sua presença. Ela sorria tanto todo o tempo que era quase impossível não sentir-se contagiado pelo seu contentamento constante.

O som metálico de uma locomoção em particular fez com que os pelos da nuca de Garry se arrepiassem. O som de locomoção de manequins sem cabeça era reconhecível de qualquer lugar daquela galeria. Eu bem que estava estranhando tanto tempo sem uma perseguição, pensou Garry sarcasticamente.

Não sabia se deveria enfrentar aqueles manequins ou apenas recuar. Sabia que não era muito difícil de ganhar daquelas criaturas, afinal, eram muito burras, mas não deveria tentar a sorte, não conseguia distinguir o som, não sabia quantos estavam a caminho.

É melhor prevenir do que remediar..., pensou Garry já decidido. Ao encontrar uma porta azul ao lado de um quadro. “Noite Estrelada”, aquele era o nome daquela pintura. Era uma noite vista de uma colina, um quadro realmente belo; o céu anil retratado com cintilantes luzes prateadas. Por mais perturbado que Guertena fosse, havia algo que não podia ser negado: ele pintava quadros como ninguém mais.

Sem pensar duas vezes, o rapaz entrou em tal sala e não hesitou em fechar a porta com um baque. A porta já fechada mostrava uma sala normal, repleta de livros com um grande quadro na parede oposta à porta. Tal quadro era negro com pequenos feixes coloridos, uns paralelos aos outros, a placa abaixo de tal quadro dizia “Ilusão”.

Quantos livros Guertena deixou nesta maldita galeria?, pensou Garry realmente curioso, aproximando-se de uma das estantes que continham uma variedade incontável de livros. Ao acaso, Garry escolheu um livro de capa com uma coloração arroxeada e páginas amareladas, sem olhar o título feito em letras cursivas e douradas centralizadas na capa desbotada pelo tempo.

“O passado deste lugar sempre será desconhecido, eu mesmo não sou o responsável pelo mundo que se esconde às sombras desta galeria, como se ele tivesse um próprio rei que o comandasse e o moldasse do jeito que quisesse”.

Mal terminara de ler tais palavras, Garry fechou o livro em um baque e o pôs de volta na prateleira onde estava. Arrastando o dedo pela prateleira onde aqueles livros se encontravam, Garry pode analisar a quantidade de poeira que havia se acumulado àquele local, certamente pelo tempo em que aquele lugar havia ficado intocado. Nem mesmo Mary parecia dar atenção às obras literárias que seu pai deixou.

Se é que pinturas pudessem ter pais.

Aquele lugar era bastante vasto, mas apenas abrigava livros e quadros, sem contar na poeira que estava instalada em cada mísera dobradiça que pudesse haver naquele lugar. Tais livros estavam perfeitamente enfileirados e organizados pelas cores de suas capas, como se alguém tivesse acabado de arrumá-los, ou simplesmente não tivessem sido tocados desde o momento que foram arrumados.

O tédio que se instalava na mente de Garry o deixava sem expressão. Por mais que aquela galeria o assustasse demasiadamente e ele estivesse faminto e sedento, o sentimento que predominava em seu coração, certamente era o tédio. Claro, preferia estar entediado à em constante perseguição com as criaturas que Mary criou, mas o tédio que sentia durante seus momentos de “descanso” era inegável.

Acho que eu poderia fazer uma pausa... não é...?, pensou consigo mesmo. Parecia fazer certo tempo desde a última vez que Garry descansara e precisaria de forças para continuar o seu caminho e procurar uma saída daquele inferno.

Retirando o seu casaco maltrapilho para poder usar como cobertor, Garry aconchegou-se próximo a uma estante de livros, dando leves espirros pela poeira que invadia suas narinas. Dos bolsos internos de seu casaco, um lenço rendado caiu, nele estava escrito em belas letras vermelhas o nome “Isabelle”, provavelmente o real nome de sua antiga proprietária, Ib.

A saudade que ele sentia daquela simples garotinha era completamente desmedida, ele queria sua companhia enquanto passava pelos corredores, pelo menos não estaria metido no tédio que sentia todos os minutos. Precisava de algo que pudesse dá-lo esperança, afinal, tanto tempo naquela galeria estava começando a desesperá-lo.

Ele sabia que havia uma saída, ele havia levado Ib àquela saída. Apenas precisava encontrá-la, o que se mostrava ser uma tarefa mais difícil do que havia sido da última vez. Suas esperanças haviam se esvaído há muito tempo, já não sabia se era o correto manter-se forte e continuar caminhando, talvez ele não fosse forte o suficiente para aguentar aquela estrada até o fim. Talvez ele não devesse continuar trilhando aquele caminho.

Aquela galeria jamais seria seu lar, isto era algo que ele sabia. Mas, parecia ser o local onde ele passaria o resto de sua vida. Sua mente já havia desistido de lutar, bastava seu corpo obedecer, o que parecia impossível, já que a força que Garry tentava ter era maior do que suas vontades.

Pobre homem perdido.

A linha tênue entre o certo e errado parecia não existir mais. Não sabia se era correto continuar-se proporcionando aquelas criaturas, não sabia se era errado desistir. Que mal faria? Ele finalmente teria a paz que procurava ter quando saísse daquele lugar, apenas seria mais fácil. Não, ele não devia. Se ele fizesse isto, não poderia ver sua família nunca mais; não poderia ver seus irmãos e despedir-se deles, não poderia ver sua mãe e dizer que a amava como ninguém mais, não poderia buscar a pequenina criança que ele havia salvado daquele pesadelo e entregá-la seu lenço.

Estas pessoas eram a sua força. Por mais acabada que sua mente pudesse encontrar-se, ela sabia que necessitava lutar para que aquelas pessoas pudessem ter a sua presença novamente, nem que fosse apenas para que eles pudessem se despedir.

Por que Mary ainda não me matou? Achei que ela quisesse vingança..., aquele pensamento ecoava em sua mente constantemente. Aquela era a pergunta mais significativa em toda a sua estadia naquela galeria, até onde sabia, Mary estava louca por vingança por Garry ter queimado seu quadro, então por que ainda não o havia matado? Talvez aquela fosse sua vingança, deixá-lo morrer sozinho, sedento, faminto e paranóico, em constante perseguição por criaturas que nem poderiam ser reais.

Será que aquela mulher era tão doentia a este ponto? Queria ele não receber esta resposta.

♣♣♣

Suas pernas doloridas pela longa caminhada que tinham feito imploravam para que ela parasse para descansar, mas ela não podia, nenhuma de suas perguntas havia sido respondida, muito pelo contrário, sua mente parecia ter tornado-se ainda mais enevoada pelas perguntas que se amontoavam.

A escuridão que a acompanhava era algo que a deixava perturbada. O que precisava fazer para que pudesse voltar para o conforto de sua casa? Não aguentava mais aquele silêncio que inundava seus ouvidos, nem a escuridão que estava a sua frente e às suas costas. Sua única companhia era o lampião que estava em sua frente, produzindo uma fraca luz.

Não sabia quanto tempo passara andando, apenas sabia que havia sido muito. Suas pernas já não aguentavam mais continuar andando, precisava parar para poder se recompor, mas sua mente não deixava, ela precisava continuar o mais longe que conseguisse, precisava voltar para a sua casa o mais rápido possível. Precisava sair daquele escuro, custe o que custasse.

Sucumbindo ao cansaço, ela deixou-se tombar para o lado, apoiando seu braço na parede fria daquele lugar. Suas pernas tremiam, prestes a bambear. Seu cansaço falava mais alto do que ela aquele momento, precisava descansar.

Ela deixou-se escorregar por aquela parede fria, até cair sentada no chão. Suas pernas doloridas pelo tempo que passou andando por aqueles corredores intermináveis agradeciam por aquele momento de descanso, ao menos poderia recompor-se o máximo que conseguisse.

Entretanto, seu descanso não durou muito tempo, afinal, ela ouviu o barulho de passos arrastados vindo de sua frente. O medo tomou conta de seus sentidos, de súbito fazendo-a levantar-se, mais a frente vinha vindo calmamente uma luz amarela, mais um lampião se aproximava. Não sabia o que fazer, deveria ficar contente por ter mais alguém naquele lugar, ou assustada por não sabia quem vinha? Ela não sabia, apenas sabia que não confiaria em qualquer pessoa que se aproximasse dela.

— Quem está aí? — perguntou receosa, sem receber resposta. Aquela luz apenas aproximava-se mais e mais dela, sem demonstrar nenhum tipo de medo pela presença daquela moça ali, o que a deixava ainda mais receosa e assustada por não saber como iria se defender. — Responda!

— Por que eu deveria? Quem é você? — uma voz masculina retrucou. Ele continuava aproximando-se cada vez mais, sem deixar-se abalar com uma presença naquele local, na verdade, mesmo que estivesse receoso, mantinha-se contente por ver que não ficaria mais sozinho, finalmente teria uma companhia, alguém que pudesse ajudá-lo. — Qual o seu nome?

Responda a minha pergunta! — a garota esbravejou. Sentia seus olhos cheios de lágrimas, sem saber o que fazer por estar na presença de um desconhecido em um local completamente isolado. O que poderia acontecer com ela? — Quem é você?! — a garota perguntou já em pânico.

— Por favor, não tenha medo. Meu nome é Garry, eu sou amigo... — ele falou calmamente, abaixando sua mão em que estava o lampião. Ele aproximou-se lentamente, ainda sem ver o rosto da moça. Por algum motivo, o medo que Ib sentia foi instantaneamente substituído por uma enorme paz e um alívio gigante ao ouvir o nome daquele homem. Por quê? — Qual é o seu nome? — ele perguntou, por fim.

— E-Eh... Isabelle... Isabelle Rose… — a mulher falou receosa, sua mente estava certa que deveria confiar naquele homem, por algum motivo que ainda era desconhecido para ela. Quem era aquele homem e por que ela se sentia tão bem em sua presença?

— Isabelle? Este nome é familiar... — o homem falou em um murmúrio curioso. Não poderia ser, será que aquela mulher era a Ib? Não, não podia ser, Ib era apenas uma criança, não havia como ela ser a Ib, sem falar que Ib havia saído daquela galeria, não tinha como Mary capturá-la sem que ela estivesse na galeria. — Está perdida, senhorita?

— Creio que sim... — seu contentamento se fez presente quando percebeu que aquele homem era amigo, ela pegou o lampião que utilizava rapidamente, aproximando-se do rapaz que logo percebeu a aproximação repentina da parte daquela mulher. A luz que emanava de seu próprio lampião acabou por iluminar o rosto daquela mulher, revelando sua beleza particular. Seus cabelos castanhos, cascateando por suas costas, seu nariz empinado, quase aristocrático, os lábios cobertos por um batom vermelho escuro, mas algo chamava a atenção de Garry mais do que qualquer outro detalhe, seus olhos, vermelhos e intensos, como os de Ib. Não poderia ser, ou poderia?

— Sinto muito a minha insegurança inicial, Garry. Este lugar não está me parecendo muito confiável, então achei que não seria muito prudente de minha parte confiar cegamente em alguém que eu não sabia como era seu rosto — falou inocentemente com um largo sorriso em seu rosto. O sorriso que aquela mulher dava era algo estranhamente familiar, como se ele já houvesse visto aquele sorriso tanta vezes que tivesse ficado permanentemente marcado em sua memória.

— Não há com o que se preocupar, creio que eu teria tido a mesma reação em seu lugar — sua surpresa não o deixava demonstrar qualquer tipo de reação frente aquela mulher. Não sabia o que pensar, não sabia em que acreditar, não sabia nada. Sua mente implorava a qualquer deus que pudesse ouvir que aquela não fosse a Ib, pois, se fosse, significaria que ela não havia se safado, significaria que ela não estava segura.

— Eh... Há algum problema, senhor? — aquela pergunta foi o ápice para a mente de Garry, ele não sabia e não aguentava esta dúvida. Sem pensar duas vezes, ele tirou de um dos bolsos internos de seu casaco esfarrapado um lenço rendado e o estendeu rapidamente nas mãos de Ib.

— Reconhece este lenço? — perguntou rapidamente, sem saber o que pensar.

— O quê...? — o nome bordado perfeitamente naquele lenço, a renda branca que emolduravam aquele tecido macio, não havia explicação.  Era o lenço que sua mãe havia feito para ela quando tinha nove anos, mas ela lembrava-se perfeitamente, havia o perdido em uma galeria de arte quando era muito pequena. Como ele poderia estar em posse daquele homem? Quem era aquele homem? — Sim... eu o reconheço... — falou confusa, retirando aquele tecido macio das mãos do homem, dando-o o desespero da resposta. Sim, era ela. Em carne e osso, Isabelle Rose era Ib, a garotinha que ele havia salvado.

— Ib...? — perguntou abismado.

Lentamente a garota levantou seu lampião, levando-o ao rosto do homem. Como ele poderia conhecê-la? Quando a luz que emanava de seu lampião entrou em contato com o rosto esbelto do rapaz de cabelos arroxeados sua mente entrou em colapso. Ele era o homem que aparecia constantemente em seus sonhos.

— Meu nome é Garry. Qual é o seu?

Um toque; uma batida; um ruído. Qualquer coisa era importante, ela apenas precisava que o silêncio sumisse e, dele, surgisse algo que fosse realmente maravilhoso. Uma música, talvez; ou uma risada; não, uma conversa. Era isto o que ela precisava. Uma simples conversa com alguém que fosse realmente importante. Quem poderia estar ali que fosse realmente importante para ela? Quem poderia fazer com que ela pudesse se sentir acolhida em meio a tanta dor e sofrimento?

— Ei, Ib — o jovem adulto sorridente chamou a criança, que parecia imersa em pensamentos e memórias. — Você já comeu macaroons? São pequenos doces em forma de sanduíches e são tão bons; eu os comi uma vez quando estava em um café... eu acho que se nós sairmos daqui, talvez possamos... Não, quer saber? Quando nós sairmos daqui. Porque nós vamos sair daqui, certo, Ib?

— Certo, Garry... — e, em meio a tanta escuridão, havia um pequeno lampejo de luz, que dava forças para que aquela pequena criança pudesse correr atrás de uma saída. Aquele tão desajeitado e desastrado adulto era a fonte de esperanças que fazia com que Ib sentisse que ainda valia à pena procurar por uma saída.

Apenas ele poderia fazê-la sentir-se confiante o suficiente para poder seguir o caminho necessário e encontrar um jeito de sair daquele inferno.

Apenas ele.

— Garry?


Notas Finais


Então, aqui eu trago mais um capítulo de Painting of Sadness, espero que tenham gostado. Perceberam que eu mudei a capa? Na opinião de vocês, vocês achavam qual capa mais bonita? A de antigamente ou a de agora? (Antigamente, como se fizessem dois anos que você decidiu fazer outra capa).
O próximo capítulo vai sair, provavelmente depois de amanhã ou quarta, mas ainda saí esta semana porque eu estou tentando agilizar o processo. Espero ver vocês aqui para o próximo capítulo, vocês e os seus amigos também.
Baiser, mon chéries.


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