História Painting of Sadness - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Ib
Personagens Garry, Ib, Mary, Personagens Originais
Tags Ação, Drama, Enigmas, Ficção, Galeria, Garry, Guertena, Horror, Luta, Mary, Mistério, Novela, Romance, Shoujo, Terror, Universo Alternativo, Violencia
Visualizações 11
Palavras 4.355
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yuri
Avisos: Bissexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sadomasoquismo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


“Todas as minhas lembranças mantém você próximo. Em momentos silenciosos imagino você aqui”.
— Memories, Within Temptation

Capítulo 3 - Old Friend


Fanfic / Fanfiction Painting of Sadness - Capítulo 3 - Old Friend

Capítulo 3

Old Friend

 

Sentia-se a sufocar.

A mente imersa em pensamentos tortuosos e confusos. Resquícios de memórias antigas oscilando entre foco e distorção; o rosto de pessoas esquecidas pelo tempo passando incessantemente bem em frente aos seus olhos; uma antiga voz acolhedora que inundava seus tímpanos deixando-a confortável e segura. Nas pontas de seus dedos, o calor de sentir alguém segurando sua mão e, junto àquela sensação, seu coração batia em segurança, sentindo que nada poderia feri-la.

Sua cabeça latejava, enquanto sua mente confusa mostrava momentos desvanecidos que ela jamais imaginara que fossem reais. Ela começava a lembrar-se de tudo aquilo que vivia em seus sonhos conturbados; lembrava-se do rapaz de cabelos roxos e da garota loira que havia a jogado por aquela pintura, sentindo sua mente fechar-se em mais e mais perguntas.

Subitamente, corroendo suas veias, ela sentiu um desespero tremendo quando ela ouviu passos metálicos em sua direção. O escuro ao seu redor não permitia que ela visse o que quer que estivesse indo ao seu encontro. Mas por que sentia medo se nem, ao menos, sabia o que estava caminhando em sua direção?

Tomada por uma estranha coragem repentina, ignorando completamente a dor que tomava sua cabeça, ela agarrou a alça enferrujada do lampião pobre que proporcionava a única luz que ela poderia ver a quilômetros de distância e abriu a primeira porta que ela vira naquele corredor vasto. Uma porta vermelha que dava em uma pequena sala empoeirada e  ainda mais escura do que no corredor onde ela estava. O estrondo metálico da porta batendo repeliu o som dos passos, trazendo um alívio repentino ao coração de Isabele.

O lampião enferrujado criava um clarão amarelo ao redor do corpo fraco de Ib, fazendo com que ela pudesse enxergar o que estava ao seu lado ou a sua frente. Um sofá branco de dois lugares e um banco de madeira se encontravam a sua frente, enquanto um quadro branco com contornos de quebra-cabeça estava pendurado ao lado esquerdo da porta vermelha e  um quadro com um único ponto reluzente no lado direito; estranhamente aquele quadro ao lado direito causava uma claridade naquele quarto completamente imerso no breu.

Com passos fracos pela tontura que fazia sua cabeça latejar, Ib levantou seu lampião, vendo que a luz fraca e amarelada do seu lampião se estendia pelo quarto, iluminando quatro estantes de livros que estavam completamente cobertos por uma capa espessa de poeira de cor cinza crespo. Enquanto, separando aquelas estantes, um quadro muito maior do que os outros cobria um grande espaço da parede.

Uma placa dourada abaixo daquele quadro enorme dizia em letras cursivas “Casal”, mostrando um belo casal junto. Uma dama de vestes vermelhas com olhos de mesma intensidade junto a um homem de vestes azuis e olhos castanhos com cabelos lambidos para o lado e de mesma cor.

Com um pânico tomando conta de si, Ib temeu o lugar onde estava assim que reconheceu os seus pais naquela pintura. Os olhos arregalados e um medo tremendo que quase a fez soltar a alça enferrujada de seu velho e descascado lampião. Por que seus pais estariam em uma pintura e quem havia pintado aquilo? Aquela era a pergunta que sobressaía as outras.

— Então, Ib, o que achou da pintura? Bonita, não é? Meu pai que fez — uma voz orgulhosa soou por trás de Ib. Tal voz era tão conhecida, quanto as faces que oscilavam em sua mente, porém, era familiar a ponto de deixá-la imersa em uma raiva descomunal.

Os olhos trêmulos e arregalados de Ib se chocou com o sorriso presunçoso que aquela mulher mantinha em seu rosto. Seus cabelos loiros e volumosos que exalavam um forte cheiro de tinta faziam-na nausear, mas, a ira que crescia em seu peito era o que fazia lágrimas de indignação nascerem em seus olhos vermelhos. Entretanto, visto a reação que a garota tivera, a mulher a sua frente dera uma alta gargalhada de desdém.

— Ora, minha cara Ib, está com raiva? Não a via assim desde muito tempo — disse a mulher em tom de desleixo, como se a raiva de Ib fosse motivo para piada. Mas, Ib, não ria como aquela mulher, na verdade, ela tinha vontade de fazê-la dar-lhe respostas claras sobre seus pensamentos. Porém, mesmo que ela estivesse sentindo tamanha raiva daquela garota, ainda tinha o medo de que ela pudesse fazer coisa pior do que ela mandar-lhe para uma dimensão alternativa que parecia repleta de monstros estranhos. — Por que está me olhando assim, Ib? Parece que você está confusa.

— O... O que você fez...? — perguntou Ib, a voz embargada pela confusão em que sua mente estava imersa, fazendo aquela mulher rir ainda mais alucinada, causando arrepios nos membros de Ib por ver alguém tão doentia daquela forma. — Quem é você?

— Ora, quem sou eu? Estou surpresa de que você não saiba que eu sou... já que éramos amigas...

— Éramos amigas? Eu nem ao menos sei quem é você! Agora, responda a pergunta!

— Vejo que a nossa pequena Ib está nervosa, mas, devo lembrar-lhe que não é prudente brigar com uma pessoa que é muito mais poderosa do que você.

— Eu não tenho medo de você! — disse Ib com impaciência e determinação. Porém, um olhar desdenhoso e agressivo por parte da mulher loira a sua frente fez com que a coragem de Ib se esvaísse de seu corpo e fizesse-a recuar. — Que quadro é este e como os meus pais estão nele?

— Se eu contasse a você, não teria mais graça, não é? — e então ela abriu um sorriso ainda maior em seu rosto alvo. — Ora, você saberá tudo, logo, logo. Mas, por ora, você é minha, minha cara Ib.

Com um sorriso no rosto e uma expressão psicótica, aquela mulher deu apenas um estalo de dedos e, dos livros nas estantes ao redor de Ib, mulheres vestidas de cores diferentes saíram emitindo grunhidos assustadores, empunhando facas e machados com aspecto de feitos por uma criança de três anos com um giz de cera.

Cada mulher tinha em sua face expressões melancólicas e solitárias e a espessura de um fio de cabelo.

A mulher que havia conjurado aquelas bonecas sorria maliciosamente enquanto observava calmamente Ib soltar desesperada a alça enferrujada de seu lampião que iluminava tremeluzente aquelas criaturas. O vidro que protegia aquela vela e a mantinha acesa quebrou-se em cacos afiados e pontudos e um vento repentino de ar frio fez com que a vela que havia dentro se apagasse com uma fumaça cinza.

Um breu ainda maior recaiu sobre aquele aposento e as mulheres que empunhavam facas avançaram na direção de Ib, facas prontas para matar Ib e gritos de guerra como se estivessem partindo para cima de inimigos mortais de uma guerra. Ib, por pouco, desviou daquelas mulheres, guiando-se pelo grito de guerra que elas davam e pelo som de papel caindo que elas faziam toda vez que davam um passo.

Quando Ib tocou o sofá branco que havia ao centro daquela sala, ouviu mais um grito de guerra e sentiu a ponta de um machado eriçar todos os pelos de seu braço. Com um grito assustado, ela recuou até se esbarrar com uma das estantes, fazendo com que livros e mais livros caíssem de suas prateleiras e amontoassem-se ao chão áspero pelo carpete cinza que recobria todo aquele lugar.

Um dos livros que caíram da estante devido ao impacto de Ib abriu-se antes de atingir o chão e, coincidentemente, uma das mulheres que empunhavam um machado atirou-se para atingir Ib ao mesmo momento. Logo, o livro aberto que caiu por cima da mulher, parecia tê-la engolido por completo e caído aberto no chão. Um fino grito ecoou das páginas daquele grito e a mulher que observava tudo aquilo com um sorriso em seu rosto pareceu ter-se ficado em alerta.

Uma falha no plano daquela mulher que ela não previra. Não sabia que os desenhos se materializariam nos livros de onde eles saíram. Aquele alerta em que a mulher se postara fez Ib ter um plano quente em sua mente.

Ela pegou o livro onde aquela mulher havia ficado presa e guiou-se pelo som do papel que elas faziam quando avançavam para perto dela. O livro a sua frente, ela usava-o como escudo para as investidas falhas que aquelas mulheres faziam, então, quando ouvia o som do grito de guerra que aquelas mulheres faziam sempre que iriam atacar Ib, ela colocava o livro acima de sua cabeça e ouvia um grito de pavor, junto com um silêncio por parte de quem fosse atacá-la

Isto se repetiu até que Ib percebeu que estava sozinha naquela sala, apenas pela mulher que estivera impressionada com o desempenho de Ib pela curta luta que tivera com seus escravos de tinta. Por mais que não quisesse admitir, talvez transformar Ib em parte de sua coleção poderia ser um desafio ainda mais difícil do que ela estivera planejando. Porém, em sua mente doentia, o que seria um bom desafio sem dificuldade?

Lentas palmas foram se libertando de suas mãos até que ela estivesse rindo mais uma vez. A garota olhava fixamente nos olhos cansados e apavorados de Ib, ela temia que a mulher que estava a sua frente pudesse conjurar outros tipos de criaturas, criaturas mais perigosas do que simples desenhos de livros, possivelmente, infantis.

— Ora, ora, ora. Minha pequena Ib parece que está crescendo, não é? — e riu mais uma vez. — Lembro-me de que quando você era pequena morria de medo de criaturas como esta, mas, parece que a sua coragem cresceu a medida que o tempo passava. Meus parabéns — disse ela com um sorriso em seu rosto. Sua pele alva iluminada apenas pela luz prateada que a pintura ao lado da porta exalava.

Eu cansei das suas brincadeiras! — disse Ib completamente imersa em sua determinação desmedida. Com passos decididos, a mulher aproximou-se da loira e segurou-a pela gola de sua camiseta verde até aproximá-la de seu rosto. A mulher, por outro lado, não parecia nada apavorada, na verdade, parecia se divertir ainda mais. — Você vai me dizer onde eu estou, quem você é e como eu saio daqui!

— Se não, o quê? — divertiu-se a mulher ao perceber que Ib se calara na hora. Não, Ib não tinha nenhuma carta na manga, não tinha nenhum trunfo que fizesse aquela mulher liberá-la de seu inferno pessoal. Entretanto, ainda a tinha nas mãos (literalmente), ainda tinha mais vantagem do que ela, por mais que sentisse nas profundezas de sua alma que estava enganada.

— Minha cara Ib, sabe que não tem nada que possa usar contra mim. Como eu disse mais cedo, aqui eu sou rainha — disse a mulher em tom de determinação, retirando as mãos fortes de Ib de sua camisa sem muito esforço. Ib afastou-se rapidamente, temendo que aquela mulher pudesse feri-la pela sua petulância contra ela. — Mas, admito que, sua luta foi bastante surpreendente. Acho que merece um prêmio pela sua vitória.

— Que tipo de prêmio?

— Não espere algo extraordinário, já estou avisando! Apenas algo que possa fazê-la não ser morta assim que puser os pés para fora desta sala.

Com um simples olhar para o lampião quebrado que estava próxima às prateleiras. O vidro quebrado logo consertou-se, com um passe de mágica, e a vela queimada que havia internamente acendeu-se instantaneamente. E, com um olhar apavorado, Ib encarou o lampião novinho em folha que estava caído ali. Logo, seu olhar se voltou para a mulher que consertara aquele lampião e percebeu que ela não tinha nenhum tipo de emoção, como se não estivesse feliz por fazer algo para Ib, mas não estivesse sendo forçada.

— Pode, ao menos, dizer quem é você?

— Meu nome é Mary, e já a advirto que eu serei o seu pior pesadelo enquanto estiver em meu mundo. Minha cara Ib — disse aquela mulher, vulgo Mary, com um sorriso psicótico em seu rosto. Antes que a mulher sumisse no ar, ela abriu a porta de metal que havia naquela sala e abriu um sorriso ainda mais desdenhoso para Ib.

Quando Mary desapareceu, Ib correu para apanhar seu lampião renovado, mas mal encostou na alça enferrujada quando escutou passos pesados e metálicos, acompanhados por gritos de raiva e vidro se quebrando. O seu coração palpitou fervorosamente, como se soubesse o que estava a aguardando. As mãos trêmulas e as pernas bambas, ela andou lentamente até a porta escancarada e levantou seu lampião querendo ver o que se aproximava.

Seu coração apavorado batia com rapidez, enquanto, dos seus olhos, uma lágrima de medo escorreu solitária pelo canto. O que ela via, ela apenas vira uma vez, em seus pesadelos. Quase como um exército. Criaturas de metal sem cabeça, com roupas feitas em coloração esverdeada, amarelada, azulada e avermelhada corriam com passos rápidos; mulheres com o torço saindo de um quadro quebrado se arrastavam pelo chão, trazendo consigo expressões raivosas e assassinas, enquanto gritavam com ira em sua voz; homens robustos com largos riscos em seu rosto guiavam-se pelos gritos de suas companheiras e corriam a toda velocidade em direção aonde os seus companheiros iam; e, por último, uma gigantesca cobra verde rastejava com sibilos raivosos em sua direção.

O medo que se espalhava pelo corpo de Ib impedia suas pernas de fazerem o que quer que seja, mas, apenas uma palavra ecoou alto e arrastadamente em sua mente. Sua própria voz gritando com violência para si mesma “corra!”, com desespero.

Não esperara que aquelas criaturas se aproximassem ainda mais dela e desatou em uma correria extrema, o mais rápido que as suas pernas cansadas poderiam aguentar. Da sua garganta, por reflexo e pavor, um estridente grito saiu arrastado e alto. Enquanto as mulheres atrás de si gritavam com violência e a cobra sibilava raivosamente com o chocalho de sua cauda tremendo.

(...)

Não sabia se as criaturas ainda estavam seguindo-a, entretanto, não iria olhar para saber se já era seguro parar de correr. Não ouvia mais os gritos das mulheres que saíam de quadros quebrados, nem o sibilo da cobra ou os passos pesados dos manequins que a perseguiam.

Em seu pulso, um lampião enferrujado dançava com a velocidade em que ela corria. O cansaço fazia suas pernas tremerem e almejarem parar, mas o medo que sentia de ser morta por aquelas criaturas que a perseguiam fervorosamente por quilômetros e mais quilômetros de um corredor completamente banhado pela escuridão confusa.

Seu lampião enferrujado iluminou parcialmente uma parede sólida no caminho por onde Ib seguia, fazendo-a parar derrapando para não esbarrar-se naquela parede. Quando seus olhos focaram e ela realmente parou, percebeu que aquele corredor se fechara em um beco sem saída, que, dele, cresciam outros dois caminhos, um para a direita e outro pela esquerda.

Suas pernas trêmulas e bambas não conseguiam correr mais, mas ela sabia que não poderia ficar parada ali, senão quisesse ser morta por uma daquelas criaturas que Mary havia apresentando-a de forma tão gentil. Enquanto ela se recuperava da correria alucinada que ela fizera tentando fugir daquelas criaturas, ela inclinou-se para frente e segurou seus joelhos, tentando respirar o máximo de fôlego que conseguisse.

— Está tudo bem... tudo bem... você vai ficar bem, Ib... está tudo bem... — murmurava ela para si mesma, tentando crer piamente no que ela dizia, mesmo sabendo que isto estava longe de ser a verdade. A garota levantou o seu torço para observar a sua volta, percebendo que não estava sendo perseguida; um suspiro de alívio saiu de sua garganta e um sorriso estampou sua face.

Estava sozinha novamente, por mais que não fosse a melhor notícia do mundo, mas era ainda melhor do que estar sendo perseguida por todo tipo de criatura esquisita e maluca que pareciam ter saído de um livro de terror. Ela observou ao seu redor, seu lampião estendido a sua frente, tentando tomar uma decisão. Que caminho deveria tomar?

Com o cansaço se apossando de sua mente, a garota não sabia por qual caminho deveria seguir e, visto que não ouvia nenhum som que indicasse que estava sendo, novamente, perseguida, ela encostou as costas naquela parede fria e arrastou-a até sentar-se no chão. As mãos em sua teste e a cabeça entre os joelhos. Ela não sabia o que fazer ou como poderia escapar daquele lugar doentio. Não sabia quem era Mary e não sabia porque estava naquele lugar. Não sabia absolutamente nada. Estava completamente confusa, a mente completamente imersa em pensamentos e dúvidas, não conseguia raciocinar, não conseguia tomar decisões. Ela não conseguia fazer nada.

Era como se ela não tivesse utilidade. Como se estivesse fadada a morrer solitária naquele lugar desconhecido.

— Você quer saber porque está aqui, menina? — uma voz arrastada falou ao seu redor. Um medo repentino correu pelas suas veias e ela se afastou da parede com rapidez. Vendo correr pela parede, um desenho de cobra verde estava ali. Arrastando-se pela parede escura onde ela estava apoiada, até descer e começar a se arrastar pelo carpete. Porém, diferente de uma cobra real, aquela cobra corria por dentro da parede e do carpete, sendo visto apenas a parte de cima de seu corpo ondulante. — Eu posso mostrar porque você está aqui, apenas se entregue a mim, menina.

— Saia de perto de mim! — disse a garota se levantando. Porém, aquela cobra envolvera-se internamente na perna de Ib. A sensação que Ib tinha era que aquela cobra estava se arrastando pela superfície de sua pele, o que lhe fez cair deitada no chão, aquela cobra subindo pelo seu corpo até chegar ao seu pescoço, onde a sua boca ficara à ponta da orelha direita de Ib.

— Não tente me rejeitar, humana. Eu sou bem mais ardiloso do que você pensa, menina — a cobra dizia em tom ameaçador, fazendo Ib temer pela sua própria vida. Não sabia o que aquela cobra poderia fazer, mas sabia que ela era tão perigosa do que as outras criaturas que estavam perseguindo-a, talvez ainda mais perigosa do que as outras criaturas. Visto que ela parecia ter mais conhecimento do que as outras. — Entregue-se, humana, e logo saberá a verdade.

— Saia de mim! — disse a garota sem conter o medo em sua voz. Novas lágrimas de medo escorreram de seus olhos, visto que aquela cobra parecia estar prestes a devorá-la. A garota fechou seus olhos e deixara que suas lágrimas escorressem silenciosamente, enquanto aquela cobra sibilava inaudivelmente ao pé de seu ouvido.

Fique comigo... — disse a cobra em tom persuasivo. Logo, o turbilhão de pensamentos que existia na mente de Ib acalmou-se e uma calmaria agradável invadiu a mente da garota. Não sabia o que aquela cobra estava fazendo consigo, mas sabia que queria mais. Queria aquilo para sempre. A mente calma e os sentimentos pacíficos, ela percebeu ter sussurrado um tímido “sim”.

Com uma fração de segundo, uma picada em seu pescoço fez com que sua mente se iluminasse e se clareasse em ideias e memórias. Mary e Garry, este era o nome do rapaz de cabelos roxos que invadia seus sonhos todos os dias. Ele era o rapaz que a protegia quando ela encontrava com uma destas criaturas estranhas. Era ele que o protegia de tudo o que pudesse assustá-la. Era ele quem sempre a confortava quando ela sentia medo.

Ela se lembrava.

Ela lembrava de que quando era criança havia entrado naquela galeria. Lembrava de que ela havia sido perseguida por milhares de criaturas em um curtíssimo período de tempo, lembrava de que passara dias e mais dias com Garry, entrando em porta atrás de porta, passando por corredor atrás de corredor e sendo perseguidos por todos os tipos de criaturas que Mary pudesse ter a criatividade de pôr para persegui-los.

Você prometeu que ficaríamos juntas! Você prometeu que escaparíamos juntas! Você prometeu!

Lembrava-se de Mary quase a matar com uma faca de paleta; lembrava-se de Garry protegendo-a das criaturas que os perseguiam quando eles passavam pelos corredores. Lembrava-se de tudo.

O efeito que aquela cobra tivera sobre a sua mente era completamente assustador. O veneno daquela cobra parecia fazer com que sua mente se clareasse e se organizasse, suas memórias estavam bem dividas, as ideias coerentes. Sua mente estava realmente funcionando pela primeira vez desde que ela chegara aquele lugar desconhecido. Mas, ainda sabia que não deveria confiar naquela cobra; na verdade, não deveria confiar em nada que encontrasse naquela galeria, afinal, tudo não passava de ilusões artísticas feitas pela imaginação de Mary, ou seja, eram sorrateiras e estratégicas, sempre encaminhando-a para a morte certa.

Ainda completamente imersa em seus pensamentos perdidos, Ib não percebera quando a cobra lhe picara mais uma vez. Desta vez, a cobra cravara suas presas profundamente no pescoço de Ib, fazendo com que o veneno que ela fazia com que corroesse seu sangue estivesse em maior potência. A cobra se afastara da garota e, lentamente, se materializou sobre a superfície áspera da galeria, pronta para devorar Ib enquanto ainda estivesse perdida entre pensamentos.

Lentamente, pouco a pouco, os pensamentos de Ib foram desvanecendo até que a sua mente estivesse em uma completa escuridão. Ela não pensava mais nada; não sabia de mais nada, mas não desmaiara ou dormira. Ainda estava bem acordada, na verdade, estava de olhos abertos quando sentiu que aquela cobra estava rastejando-se para cima dela, novamente. Ela via os olhos daquela cobra e quase conseguia ver um sorriso no rosto daquele animal.

—  Espero que tenha descoberto o que procurava disse a cobra presunçosamente. Lentamente ela abriu sua boca, deixando a mostra suas presas afiadas prontas para devorá-la por inteiro, antes que ela morresse afogada em seu veneno mortal. Ib sentia a dor daquele veneno contra o seu sangue; sentia que ele corria em suas veias, diminuindo seus batimentos e deixando seus pulmões inertes.

Ib já não sabia o que fazer; ela já não sabia se havia o que fazer. Pronta para aceitar a morte de bom grado, ela fechou seus olhos, pronta para ter uma morte dolorosa em decorrência de uma cobra que conseguira deixá-la seduzida.

Porém, fazendo-a voltar a abrir os seus olhos, um sibilo violento daquela cobra perfurou seus tímpanos, fazendo com que, quase sem forças, ela sentasse-se para observar o que estava acontecendo.

A cobra havia sido retirada de cima de Ib por um rapaz de cabelos roxos que a segurava pela cabeça, uma expressão determinada estampada em sua face e um isqueiro em mão, pronto para atear fogo naquela cobra. O olhar de Ib corria da expressão daquele homem, até a cobra ondulante que lutava para fugir do aperto daquele homem, falhando miseravelmente. Mas, não parecia menos complicado para aquele homem manter-se segurando aquela cobra, visto que era um animal realmente forte.

Ele, depois de muita luta, ascendera o isqueiro e o jogara na cabeça da cobra, largando-a de qualquer jeito no chão daquela galeria. A cobra lutava para fugir das chamas que a consumia, tentando embrenhar-se novamente no carpete daquela galeria, entretanto, por mais que voltasse a se fundir com o chão, o fogo a acompanhava, e, fugindo desesperadamente pela parede lisa daquela galeria, um desenho de uma cobra pegando fogo ficou estampado ali.

Os olhos de Ib já não focavam mais e suas forças se esvaíam completamente de seu corpo. Ela já não conseguia ficar mais acordada, mas precisava. Ela viu o rapaz se aproximar dela, segurando-a pelos braços, indagando algo que ela não ouvia mais. O ar mal entrava em seus pulmões; parecia que seus órgãos já não funcionavam mais. Ela viu a sua visão escurecer a ponto de que ela se via completamente rodeada por um breu ainda mais escuro do que o escuro do corredor onde ela estava.

As indagações daquele rapaz ficaram inaudíveis e, finalmente, ela se sentiu sem forças para continuar acordada.

(...)

Os olhos doendo e as pálpebras pesadas, ela abriu lentamente seus olhos, encontrando-se novamente no escuro de uma sala. Seu corpo coberto por um casaco maltrapilho e desbotado e sua cabeça apoiada em um livro relativamente grosso.

Seu corpo doía por inteiro enquanto sua mente demorava para processar o que estava a sua frente. Estava cercada por móveis empoeirados e paredes cobertas por quadros. Os livros em estantes pareciam intocados, como se nunca tivessem sido removidos desde o momento em que eles haviam sido postos naquelas prateleiras e um lampião velho posto sobre um banco descascado ao centro da sala. Estava atrás de uma grande estante de livros que a cobria por completo, enquanto ela via uma rosa vermelha dentro de um jarro com água reluzente e azul.

Não sabia onde estava ou como chegara ali, apenas sabia que deveria continuar a sua busca por uma saída. Não sabia quanto tempo estava ali, mas sabia que não deveria continuar por muito mais tempo. Mas, quando ela descobriu o seu corpo daquele casaco maltrapilho, sentira uma tontura sem igual inundar a sua cabeça. Uma dor incomparável em seu corpo fez com que ela tombasse para o lado e fosse de encontro com a parede gélida.

Um vulto apareceu e ela percebeu que era o mesmo rapaz que ela vira salvá-la da cobra que tentara matá-la. Os olhos negros envoltos em preocupação foram em direção ao corpo fraco de Ib que tentava manter-se em pé; ela tentava reconhecê-lo, mas sua mente não funcionava.

— Ei, você está bem? — o rapaz perguntou, a voz completamente envolta em preocupação, ele aproximou-se dela e segurou seu braço, percebendo que ela estava realmente muito fria. — Você está se sentindo bem?

Aquela era uma voz familiar. Ela lembrava-se daquela voz; lembrava-se dos sonhos que ela tinha em sua casa todas as noites, lembrava-se das memórias que a cobra havia despertado em sua mente. Lembrava-se que ele era aquele seu amigo de infância que havia o protegido de tudo o que aquela galeria a fazia passar.

Com a mão trêmula, ela segurou a mão do rapaz que estava em seu braço e levou seus olhos até o olhar preocupado do rapaz. E então finalmente reconhecera; sim, era ele.

— Garry...?


Notas Finais


Então, eis que eu volto com a continuação de Painting of Sadness. Sim, eu sei que eu refiz este capítulo só que, em minha defesa, eu não gostei daquele capítulo quando eu reli estes dias e eu preferi refazer este capítulo de um jeito que eu me orgulhe. Espero que vocês tenham gostado deste capítulo tanto quanto ou até mais do que o anterior.


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