História Palavras sem Destino - Capítulo 2


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Boa tarde!

É a hora do segundo capítulo, onde vamos descobrir um pouco mais sobre a adolescência de nossos garotos e os sonhos de cada um para o futuro.

Neste capítulo temos algumas impressões dos personagens sobre o momento que a Alemanha vivia naquele período e eu gostaria de frisar que não faço apologia de nenhuma espécie ao nazismo ou às ideologias que eles pregavam, apenas retrato o ponto de vista dos personagens diante do que eles viviam naquele contexto histórico.

Sem mais delongas, vamos ao capítulo!

Boa leitura!

Capítulo 2 - Planos para o Futuro


Gelsenkirchen, Alemanha. 1933.
Dez anos antes.

 

– ACORDE, ANGELA! – A garota despertou bruscamente, com sua mãe espalmando a porta aberta de seu quarto. – Levante-se e vá se banhar logo, antes de se atrasar para o colégio! Alberta já se aprontou, falta apenas você!

Ser acordada de tal maneira era o pior pesadelo de Angela. Tudo o que a garota queria naquele momento era apenas mais cinco minutos embaixo dos edredons, reunindo as forças necessárias para iniciar mais um dia. Porém, depois do ultimato de dona Greta, ela sabia que isto seria impossível ou ela estaria encrencada.

Angela bocejou seguidas vezes antes de criar coragem de sair do aconchego de sua cama quentinha e, ainda com os olhos fechados, tateou o chão com os pés em busca de seus chinelos. Ao mesmo tempo, vasculhou a própria mente para tentar lembrar-se do que sonho que tivera, porém não obteve sucesso, pois a insatisfação de ter sido bruscamente despertada certamente a deixaria mal humorada pelo resto do dia. No auge de seus quatorze anos, o modo como sua mãe não fazia distinção de tratamento entre ela e Alberta, sua irmã três anos mais nova, deixava a garota completamente irritada.

Após calçar os chinelos, Angela dirigiu-se ao banheiro de modo automático e somente despertou completamente ao entrar no banho. Quando saiu do chuveiro, encontrou sua mãe no quarto, esperando para arrumá-la para mais um dia de aula. Greta ajeitou a gola da camisa do uniforme da filha e colocou no lugar a saia que ela insistia em vestir torta todos os dias. Em seguida, a garota sentou-se em frente à penteadeira e observou a mãe pegar sua escova de cabelos e delicadamente pentear seus fios loiros, para depois prendê-los em um rabo de cavalo e alinhar sua franja milimetricamente.

– Onde estão sua bolsa e seus materiais? – Greta perguntou e Angela apontou para a cômoda onde eles estavam. A mãe então os apanhou e entregou para a filha, que àquela altura já tinha se esquecido da irritação de mais cedo. Não havia mau humor que resistisse ao carinho de mãe e Greta era a melhor mãe que uma garota poderia ter na vida. Era amorosa, atenciosa e cuidava de Angela e Alberta com todo amor do mundo.

Ao terminar de aprontar a filha para o colégio, Greta liderou o caminho até o andar de baixo, onde Franz, o pai de Angela, e Alberta já esperavam para fazerem o desjejum em família. Angela pediu a bênção a seu pai e ele a abençoou, então ela se juntou aos demais ao redor da mesa e eles fizeram uma oração, antes de dar início ao desjejum.

– Teve bons sonhos, minha querida? – Franz perguntou gentilmente e Angela sorriu assentindo com a cabeça, embora ainda não conseguisse lembrar-se com clareza do sonho que tivera.

– Por favor, trate de concentrar-se na prova de hoje, senhorita Angela Richter. – Greta disse em tom de repreensão, porém com sua doçura característica. – A senhora Brauner relatou-me que você e Marco insistem em se insultar o tempo todo durante os intervalos das aulas. Quero que pare com isso!

Marco. A simples lembrança da insuportável existência dele logo cedo era a morte para Angela. Ela achava o garoto a criatura mais irritante do mundo, o único que tinha o poder de tirá-la do sério apenas pelo fato de respirar o mesmo ar que ela, pior ainda quando ela era repreendida por sua causa.

– Sua mãe tem razão, Angela! – Franz disse em tom mais sério. – Antes de ser seu colega de escola, Marco é filho de nossos vizinhos e eu não quero que me cause problema com eles!

Angela bufou irritada e bebeu toda caneca de leite de uma vez só. Era impressionante como a simples menção ao nome de Marco conseguia irritá-la, principalmente se isso a fazia levar bronca do pai logo cedo. Não que para ela isso fosse algo espantoso, já que, em sua visão, a cada dez palavras que seu pai dizia, onze eram uma bronca nela ou em sua irmã.

No fundo Angela tinha razão, Franz era um pai muito rígido, sisudo na maioria das vezes, raramente havia espaço para brincadeiras e ele gostava sempre das coisas em seu devido lugar. Provavelmente seu trabalho como contador na carvoaria do doutor Hans Bergmann o ensinara o valor da organização e a importância de sempre seguir as regras à risca. Ele era sempre muito correto e admirado pelas pessoas que conviviam com ele por sua postura íntegra e indelével.

Além disso, Franz era um homem orgulhoso por ser um dos poucos na vizinhança que conseguiu manter seu emprego, mesmo em meio ao caos que a Alemanha atravessava naquele período após a derrota na Grande Guerra. A cidade onde eles moravam era conhecida em sua região como a “cidade dos mil fogos”, em virtude da grande exploração dos minérios de carvão e da refinação de petróleo, e mesmo sofrendo com os impactos do conflito, o setor conseguiu manter muitos de seus trabalhadores, entre eles Franz, que conseguiu preservar seu emprego e o sustento de sua família.

Entretanto, nem todos tiveram a mesma sorte que o patriarca da família Richter. A população foi a principal afetada pelas consequências do fracasso da Alemanha na guerra. Os índices de desemprego e inflação batiam recordes e o país sofria com as duras penas impostas pelo Tratado de Versalhes, assinado pelos alemães após a rendição. Pelo Tratado, a Alemanha era obrigada a ressarcir os aliados pelos prejuízos causados pela guerra, além de perder territórios e ter suas forças armadas enfraquecidas.

Além da vergonha pela derrota, o povo alemão tinha um forte sentimento de orgulho ferido, pois o Tratado de Versalhes era considerado uma humilhação para aquele povo que sofria na pele as consequências da derrota. O país estava arruinado em todos os sentidos, situação agravada pela crise mundial decorrente da Grande Depressão em 1929, e para a população não restava outra alternativa além de juntar os cacos e arregaçar as mangas, sobrevivendo como era possível.

Ao final do desjejum da família Richter, Franz deu permissão para todos se levantarem da mesa. Angela apanhou seus materiais da escola, se despediu do pai com um beijo e foi ao encontro de sua mãe na porta de casa. Assim que saíram na rua, viram que a mesma cena acontecia na casa vizinha, com a família Götze. Jürgen despedia-se de seus três filhos na porta de casa e sua esposa, Astrid, parou na calçada para esperar Greta e suas filhas ao vê-las saindo de casa. 

– Bom dia, Greta! – Astrid cumprimentou assim que a vizinha e suas filhas se aproximaram.

– Bom dia, Astrid! Como tem passado? – Greta retribuiu cordialmente.

– Muito bem, obrigada por perguntar! E você, Angela, preparada para a prova de hoje?

– Sim, senhora Götze, eu estudei bastante, acho que me sairei bem. – Ela respondeu educadamente e foi interrompida pela intervenção de Fabian, o filho mais velho dos Götze.

– Angela não precisa estudar, mãe! Ela bajula a professora para tirar boas notas! – Fabian provocou e fez a garota revirar os olhos, pensando que não surpreendia o fato de ele e Marco serem melhores amigos, ambos eram idiotas no mesmo nível.

– Fabian! Isto não é jeito de falar de Angela! Peça desculpas a ela e à senhora Richter imediatamente! – Astrid repreendeu o filho pela provocação e Angela o encarou com um ar de deboche, sorrindo vitoriosa.

– Me desculpe, senhora Richter! – Ele disse de maneira cínica e Angela bufou contrariada.

– Desculpas aceitas, Fabian! – Greta pôs fim ao pequeno conflito e enfim todos passaram a caminhar rumo à escola.

A família Götze era vizinha dos Richter desde antes de seus filhos nascerem, o que fazia deles praticamente uma grande família. Jürgen, o patriarca, possuía uma pequena sapataria no centro da cidade, onde fazia reparos nos calçados de homens e mulheres e vendia alguns pares para complementar a renda da família, que andava escassa naqueles tempos difíceis. Ele dobrava sua jornada na sapataria para evitar o que muitos comerciantes passaram naquele período, ver as portas de seu estabelecimento se fechando por falta de clientes e apostava na estratégia de que ‘ninguém vive sem sapatos’, a única maneira que ele via de conseguia garantir o sustento de sua família.

Enquanto seu esposo se desdobrava no negócio da família, Astrid fazia o mesmo em casa para cuidar do lar e de seus três filhos. Fabian era o mais velho e tinha a mesma idade de Marco, filho dos Reus, além de ser seu melhor amigo e compartilhar com ele o gosto por provocar os mais novos. Mario, apenas dois anos mais novo que o irmão, era colega de classe de Angela e estava se reaproximando dos amigos após a descoberta de que ele sofria de epilepsia. Os medicamentos permitiam que ele levasse uma vida normal, porém Mario enfrentava o preconceito dos que pensavam que ele sofria de algum mal contagioso ou até mesmo loucura, dentre eles, os pais de Marco e Angela. Foi uma intensa luta para a família Götze convencer as duas famílias e todas as outras pessoas de que seus temores em relação à doença de seu filho eram equivocados. Por fim, Felix, o mais novo dos três, era o príncipe da casa e provocava ciúme nos irmãos pelos privilégios de ser o caçula da família.

A vizinhança onde viviam as famílias era pacata e tranquila, todos se conheciam já há muito tempo e a convivência entre eles era harmoniosa e agradável. O quarteirão onde as famílias moravam era o último da rua e não tinha saída, sendo a casa dos Richter ladeada pela dos Götze e esta, por sua vez, ladeada pela dos Reus, que tinham sido os últimos a se mudarem para aquele quarteirão, vindos da cidade vizinha, Dortmund. Era deles a única fachada avermelhada do quarteirão, pois o dono da casa, Thomas Reus, era um grande admirador da aviação e do famoso ás alemão Manfred Von Richthofen, o Barão Vermelho, que fez sua fama aterrorizando os inimigos durante a Grande Guerra.

Antes de perder o emprego por conta da forte recessão que o país sofria, Thomas era bancário e ex-militar, tendo servido o exército alemão e lutado na Grande Guerra, sendo condecorado com várias honrarias por sua bravura em combate. Ele estava sempre em busca de qualquer trabalho, mesmo que temporário, que lhe possibilitasse manter-se como o esteio de sua família, desdobrando-se ao lado de sua esposa Manuela para prover seus filhos.

Yvonne era a mais velha e já tinha se casado, porém era comprometida em ajudar os pais e os irmãos no que fosse necessário. Melanie, alguns anos mais nova que a irmã, era pretendida pelo filho de Hans Bergmann, dono da carvoaria, o que muito agradava a família da moça, uma vez que contrair um bom casamento era uma forma de garantir seu futuro, mesmo em tempos nebulosos como aqueles. Já Marco, a exemplo de Felix na família Götze, era o caçula mimado e se aproveitava deste fato para ter todas as suas vontades atendidas, embora tenha sido obrigado desde cedo a aprender o valor do trabalho, ajudando seu pai a complementar a renda da família com pequenos serviços.

Apesar das dificuldades, os alemães mantinham-se amparados na fé e na esperança que a maioria depositava em Adolf Hitler, um político recém nomeado chanceler do governo pelo presidente e visto como a grande esperança de colocar a Alemanha de volta nos trilhos do progresso. Hitler era líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista, declarado por ele o único legítimo no país, cujas ideias e convicções pareciam ser exatamente o que a população necessitava naquele momento de crise.

Dotado de impressionante carisma e poder de união, Hitler sabia dizer exatamente o que a população queria ouvir, algo nitidamente notado através de seus discursos inflamados que fascinavam multidões de espectadores. Ele usou o descontentamento geral com a situação do país para reacender o nacionalismo que estava adormecido dentro dos alemães e os motivou a lutar para recolocar a nação no topo, acabando com o domínio dos britânicos e franceses e resgatando o orgulho alemão manchado depois da derrota na guerra.

Além disso, desde que o Partido Nazista liderado por Hitler chegou ao poder, outra ideologia passou a ser difundida entre toda a população da Alemanha. Deu-se início a uma verdadeira caçada aos judeus do país, que passaram a ser considerados uma grande ameaça à soberania alemã. Os líderes e militantes Nazistas atribuíam aos judeus a culpa pela derrota da Alemanha na guerra, pois acreditavam que eles tinham planos conspiratórios contra os alemães e por isso eram considerados traidores da pátria e responsáveis pela derrota.

Tais convicções foram disseminadas e adotadas pela população em geral por conta das históricas divergências religiosas entre cristãos e judeus e o governo implantou uma serie de sanções para garantir a proteção dos alemães contra seus ‘inimigos’. Os professores judeus foram impedidos de lecionar nas escolas públicas e os que eram funcionários públicos foram demitidos de seus cargos. Os juízes foram suspensos do exercício da profissão e os advogados proibidos de tratar de seus assuntos legais. Além disso, os judeus foram excluídos dos clubes de desporto e proibidos de frequentar as praias, porém a ira dos Nazistas contra eles não se limitava somente a isso.

Na esquina em frente ao colégio, havia algo que chamava a atenção de quem passasse por ali. Na vitrine da livraria que funcionava naquele prédio, havia uma enorme estrela de Davi pintada em amarelo e preto, com a inscrição 'Jude' no centro. Aquela era uma maneira de indicar aos cidadãos alemães que aquele estabelecimento pertencia a um judeu e que não era recomendado que pessoas não-judias frequentassem o local. Além da livraria, vários outros lugares receberam a mesma marcação feita por militantes e membros da Sturmabteilung, a SA, uma tropa paramilitar do Partido Nazista. Entretanto, esta fora apenas uma forma mais branda de retaliação que os judeus receberam, já que não muito tempo antes, ataques violentos dos Nazistas levaram muitos prejuízos aos estabelecimentos comerciais judeus, além da queima e destruição em praça pública de seus livros e publicações em circulação no país, demonstrando claramente que não havia espaço para eles na construção daquela nova nação.

Para os mais jovens, ainda não era compreensível como os judeus poderiam ser considerados inimigos, uma vez que muitos deles tinham lutado pelo país durante a Grande Guerra e eram pessoas com as quais eles sempre conviveram normalmente. Porém, mesmo que não entendessem o porquê, elas apenas repetiam o comportamento dos mais velhos e mantinham distância dos judeus, afastando-se dos que conheciam e consideravam como amigos, simplesmente para que suas famílias não fossem condenadas pela sociedade por manter relações com pessoas ‘impuras’.

O momento era de transformações, mas longe do epicentro de todos estes acontecimentos, a vida seguia normalmente. Não demorou até que Greta e Astrid chegassem com seus filhos ao colégio, que ficava apenas há alguns quarteirões de onde moravam. As ruas no entorno da escola eram tranquilas, sem correria e com poucos carros trafegando. O colégio público funcionava em um prédio antigo e, como tudo naquele período, era controlado de perto pelo governo. Os jovens tinham acesso a uma boa educação, que era totalmente direcionada para os interesses do governo, prova disso era a implantação das disciplinas de Genética e Etnologia nos currículos escolares, para que os jovens aprendessem desde cedo sobre a 'superioridade' do sangue alemão.

Ao chegarem ao portão de entrada do colégio, Mario e Angela confabulavam sobre a prova de aritmética que teriam naquele dia, enquanto Fabian fazia questão de atazaná-los o tempo todo, agindo de maneira mais infantil do que os dois a quem ele chamava de crianças. Lá eles encontraram Marco, acompanhado de sua irmã Melanie, e assim que ele avistou a chegada dos vizinhos, dirigiu-se até eles sorridente.

– Bom dia, senhora Götze, senhora Richter! – Ele educadamente cumprimentou as mulheres, que retribuíram. – Bom dia, pirralhos! – Ele se dirigiu a Angela e Mario com um sorriso debochado no rosto, enquanto cumprimentava Fabian com um aperto de mão. Os dois poderiam facilmente ser considerados irmãos, pois viviam juntos o tempo todo e eram melhores amigos, porém a semelhança física de Fabian e seu irmão Mario não deixava espaço para dúvidas. Ambos tinham os cabelos castanhos e os olhos verdes, enquanto Marco era loiro e tinha os olhos azuis.

– Argh, os dois se acham só por que já estão terminando o ensino secundário… – Mario resolveu revidar a provocação de Marco.

– Pirralhos… – Marco novamente os provocou e Angela respirou fundo para não responder às provocações. Alguém tinha que ser o adulto naquela situação e este papel fatalmente seria dela, já que a garota bem sabia que eles, apesar de se gabarem por serem homens e mais velhos, ainda morriam de medo de espíritos e assombrações.

Angela então se despediu de sua mãe e da senhora Götze, que ainda levaria Felix até a escola infantil onde ele estudava, não muito longe dali. A garota acompanhou Alberta até a sala onde a caçula estudava e em seguida dirigiu-se à sua sala de aula, acompanhada de Mario e dos dois mais velhos, que iam se esmurrando e se insultando pelos corredores do colégio, parecendo mais crianças do que os caçulas. Eles se separaram na porta da sala onde Mario e Angela estudavam, já que a sala de Marco e Fabian ficava em outro bloco do colégio.

Enquanto a professora Brauner não chegava para aplicar a prova aos alunos, Angela aproveitou o tempo livre para ajudar Mario com alguns exercícios de aritmética, os quais ele sempre tinha dificuldades para resolver, embora fosse um bom aluno. Foi então que uma das colegas de classe deles se aproximou dos dois e também ofereceu sua ajuda a Mario. Seu nome era Olivia Adler e ela era descendente de judeus, filha do dono da livraria na esquina do colégio. A garota magra, de cabelos castanhos era introspectiva e ficava afastada dos outros adolescentes na maior parte do tempo, sofrendo na pele o preconceito contra os judeus que crescia a olhos vistos em toda a Alemanha.

Mesmo que as últimas gerações de sua família não fossem praticantes do judaísmo, Olivia e seus parentes eram classificados como judeus por sua descendência e eram obrigados a conviver com a intolerância da sociedade. Muitos pais de alunos questionavam a presença de judeus nas escolas públicas, porém este direito dos jovens judeus ainda não tinha sido alvo dos Nazistas e o acesso delas à educação pública ainda era garantido.

Entretanto, nenhuma destas dificuldades era suficiente para abater Olivia, que mesmo com tão pouca idade, já era dona de uma forte personalidade, que lhe servia como uma autodefesa contra o preconceito que ela sofria diariamente. A garota batalhava a cada dia, esforçando-se para se destacar dentre os alunos de sua classe e provar para o mundo e para ela mesma que ter o sangue judeu não a fazia inferior a ninguém.

Ela travava uma disputa silenciosa pelas melhores notas com Angela, que era a melhor aluna da classe, porém este não era o único motivo de rivalidade entre as duas. Olivia nutria uma paixão platônica por Mario e não gostava nadada proximidade que ele tinha com Angela. Quando o garoto agradeceu e recusou a ajuda dela com os exercícios, pois já estava sendo auxiliado por Angela, ela sentiu seu ciúme ir às alturas, porém procurou não demonstrar seu descontentamento e apenas se afastou dos dois, voltando à sua habitual introspecção e isolamento.

Pouco tempo depois, a senhora Brauner adentrou a sala, cumprimentou os alunos e não foi necessário que ela dissesse uma palavra para que as conversas cessassem e o barulho das carteiras sendo colocadas no lugar ecoasse pela sala, um claro sinal do respeito e da autoridade que ela impunha sobre seus alunos. A professora começou a aplicar a avaliação marcada para o dia e ao final da prova, Angela e Olivia estavam certas de que tinham conseguido uma boa nota, porém o mesmo não poderia ser dito de Mario, que tinha absoluta certeza de que, mesmo com a ajuda de Angela, não tinha conseguido acertar a maioria das questões.

Na hora do intervalo, os dois amigos sentaram-se embaixo de uma das árvores que ficavam no pátio do colégio, enquanto observavam Marco e Fabian jogando aviõezinhos de papel um no outro.

– Aposto como os dois estão brincando de aviões de guerra. Eles cismaram agora que querem ser pilotos da Força Aérea e lutarem em uma guerra, como o pai de Marco lutou. – Mario observou e Angela ficou pensativa. Para ela, não fazia sentido alguém sonhar em tirar a vida de outras pessoas. Mario partilhava da mesma opinião, apesar de ser membro da Juventude Hitlerista, como Fabian e Marco, e desde então ser preparado para o serviço militar. A organização recrutava os jovens para, além da prática de esportes e acampamentos, ensinar-lhes a servir à nação, porém os anseios dele para o futuro, diferente do irmão e do melhor amigo, passavam longe dos campos de batalha.

– Tomara que algum soldado inimigo os encha de tiros e eu seja a única médica nessa Alemanha para tratar deles! Vou cuidar de seus ferimentos com sal e pimenta para poder descontar tudo o que já me fizeram! – Angela falou em tom de desdém.

– Ei, eu escutei isso! – Marco se aproximou deles, acompanhado de Fabian.

– Que bom que escutou, assim já fica ciente! – Angela respondeu e deu as costas a Marco, vendo Olivia sentada sozinha em um dos bancos do refeitório.

– Nossa, nós estamos morrendo de medo disso acontecer, doutora... – Fabian a provocou em tom sarcástico, porém ela nem se deu ao trabalho de olhar para ele.

– E este pirralho, não vai falar nada? –Marco questionou, referindo-se a Mario, que estava alheio ao assunto. O garoto se irritava sempre quando o amigo fazia este tipo de gracinhas, desfazendo dele quando alguém diferente estava por perto.

– Me deixem fora desse assunto. – Mario respondeu simplesmente.

– Por quê? Ainda não decidiu o que quer ser quando crescer e está com vergonha? – Fabian provocou o irmão.

– Sim, eu já decidi que vou ser um homem de família como papai, ter uma esposa e filhos e não ficar me embrenhando no meio de guerras, arriscado a levar um tiro e morrer. – Ele respondeu convicto e os mais velhos começaram a gargalhar.

– Mas é um borra botas mesmo! Está vendo, Angela? Ele já está preparando o casamento com você, fique esperta! – Fabian debochou e em seguida se afastou dos mais novos, acompanhado de Marco, que ainda ria. Angela se virou para encarar Mario e percebeu que seu rosto estava vermelho de vergonha. Assim que seus olhos se encontraram, ela sentiu que Fabian não tinha dito aquilo apenas para provocá-la.


Notas Finais


Beijos e obrigada por lerem!


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